A Partícula IT

Prolegômenos a uma Sintaxe Liberlégica

A Partícula IT aparece no Texto da Lei em três situações básicas:

1. Como SUFIXO, aposta aos nomes de Had, Nu e Ra-Hoor-Khu ;
2. INTEGRADA ao seio de uma palavra [Ex.: “Thelemites” (AL I,40)] ;
3. De forma ISOLADA [Ex.: AL III,5].

Esta Partícula constitui-se basicamente da associação de dois elementos que podem ser simbólica e guematricamente referidos aos seus respectivos equivalentes nos alfabetos grego e hebraico. Desta forma temos que:

1. A letra latina I corresponde ao Iod (hebraico) e ao Iota (grego) ;
2. A letra latina T corresponde ao Teth (hebraico) e ao Teta (grego).

A Soma simples destes dois componentes tem por resultado o número 19 [Iod/Iota=10 & Teth/Teta=9] que pode ser interpretado como sendo o número da manifestação propriamente dita . No entanto, se considerarmos os elementos acima tal como são referidos no simbolismo do Livro da Lei, teremos:

1. Iod é o Ponto, ou seja, HAD, em sua representação mais subtil ;
2. Teth, por sua vez, corresponde ao Arcano Maior XI que é uma representação de BABALON.

A Soma Had+Babalon [13+156] tem como resultado o número 169, que apresenta as seguintes propriedades:

1. Trata-se, em primeiro lugar, do “quadrado” do número treze. O “quadrado” de um número corresponde, simbolicamente, à manifestação plena daquele número enquanto ente sensível & quantificável. Treze é o valor da palavra hebraica AChD [da qual HAD é uma transliteração bastante exata] que quer dizer “Unidade”. A propriedade da Unidade que nos interessa mais de perto neste momento é a sua invariabilidade frente à operação de potencialização [169 = 132 = 12 = 1]. O número 169 pode ser, portanto, equiparado tanto ao número treze quanto à própria unidade, correspondendo, cada qual, a uma etapa específica no processo da individualização progressiva que transcorre nos Três Mundos [de Criação, de Emanação & de Formação]. É interessante reparar que a soma 169+13+1 tem por resultado 183, que é igual a 3 x 61, sendo este último o valor por extenso da letra hebraica AIN [1+10+50 = 61]. Isto remete diretamente ao conceito cabalístico do triplo véu de existência negativa [AIN, AIN SOPH & AIN SOPH AVR] que precede e também cerca o hieróglifo da Árvore da Vida.

2. A seqüência numérica que o constitui representa um glifo das Sephiroth que integram o Pilar do Meio [Kether = 1, Tiphaereth = 6, & Yesod = 9]. Este Pilar representa o meio invariável que integra & equilibra em sua própria estrutura as influências vinculadas, respectivamente, aos Pilares do Rigor [Righteousness] & da Misericórdia [Mercy]. Isto se pode verificar no exame atento do número 169 onde o Pilar do Meio é representado pelo número um, o Pilar do Misericórdia pelo 6 intermédio & o Pilar do Rigor pelo 9 final. Os números 6 & 9 representam, portanto, os movimentos respectivamente descendente & ascendente, centrífugo & centrípeto, associados aos Pilares Laterais supra aludidos.

3. Para encerrar os comentários a respeito do número 169, devemos por fim fazer notar que se trata aqui de uma modificação do número 19, gerada pela inclusão do número 6 entre o 1 & o 9. Dentro desta abordagem interpretativa, estes elementos numéricos podem ser relacionados à Semente [1] que, uma vez depositada no Útero [9], germina para dar origem ao Filho [6].

Não poderíamos finalizar estas considerações sem mencionar que o número 19 poderá sofrer as seguintes permutações [Temurah]:

1. Reversão simples: como na Palavra MAN = 40+1+50 = 91 ;
2. Interpolação do Zero: como na Palavra WOMAN = 6+6+6+40+1+50 = 109 ;
3. Reversão associada à Interpolação do Zero: como em STAR = 300+ +400+1+200 = 901.

Embora uma discussão em profundidade destas variantes esteja fora dos objetivos do presente trabalho, não podemos nos furtar a registra-lhes aqui, ainda que de forma quase taquigráfica. Será, talvez, oportuno retornar a estas considerações em uma outra ocasião conferindo-lhes, então, a atenção merecida. Notemos apenas, a guisa de encerramento deste opúsculo, que a palavra MAN corresponde ao somatório de todos os números naturais de 1 a 13, realizando em si, portanto, todo aquele processo, já aludido, de transição desde a unidade simples e original até a sua emersão enquanto unidade complexa.

por Frater Sinn

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-particula-it/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-particula-it/

Exercícios Práticos – Música e Respirações

Um outro exemplo da aplicação da música no ocultismo e vice-versa é o Ritual Gnóstico do Pentagrama. Esta é uma das práticas essenciais e básicas da IOT (Illuminates of Thanateros) e é uma adaptação dos tão já conhecidos Ritual Menor do Pentagrama / Ritual do Pilar do Meio (Golden Dawn/OTO)… No RGP primeiramente a intenção é a libertação de qualquer simbolismo pré-existente, afim de que o magista possa entrar em contato com o Self e assim obter o sucesso desejado em qualquer operação mágica.

Ele se inicia com a respiração profunda e mentalização de radiâncias em cinco centros vitais de nosso corpo (relacionados completamente com os chakras citados anteriormente). Cada radiância é acompanhada com a vibração de uma vogal e deve causar uma sensação específica no momento de sua entoação. As vogais são vibradas como mantras no momento da exalação (técnica conhecida como pranayama) Conforme descrito em sua concepção “. O corpo deve ser tocado como um instrumento musical, com cada parte ressonando de acordo com um tom.”

Realizado tal processo, deve-se traçar em sentido horário um pentagrama para cada um dos quatro cantos (leste, sul, oeste, norte). Ao concluí-los, deve-se novamente voltar ao início e entoar novamente as vogais.Segue o procedimento do ritual:

1) De pé, para qualquer direção que prefira.

2) Inspire profundamente. Exale lentamente, sustentando o som “I”, enquanto visualiza uma energia radiante na região da cabeça.

3) Inspire profundamente. Exale lentamente, sustentando o som “E”, enquanto visualiza uma energia radiante na região da garganta.

4) Inspire profundamente. Exale lentamente, sustentando o som “A”, enquanto visualiza uma energia radiante na região do coração e dos pulmões, que se espalha para os membros.

5) Inspire profundamente. Exale lentamente, sustentando o som “O”, enquanto visualiza uma energia radiante na região da barriga.

6) Inspire profundamente. Exale lentamente, sustentando o som “U”, enquanto visualiza uma energia radiante na região entre a genitália e o ânus.

7) Repita o 6). Então o 5), 4), 3), 2), repetindo de trás para frente, até chegar à cabeça.

8) Inspire profundamente. Exale lentamente, repetindo o mantra IEAOU, enquanto desenha o pentagrama no ar, com o braço direito. O pentagrama deve ser visualizado com muita nitidez.

9) Vire para o próximo quadrante e repita o 8), então, desenhe os pentagramas restantes com os mantras e as visualizações, até chegar ao ponto de partida.

10) Repita os números 2) até o 7), inclusive.

#Chakras #Exercícios #Música

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/exerc%C3%ADcios-pr%C3%A1ticos-m%C3%BAsica-e-respira%C3%A7%C3%B5es

Os Gêmeos

Quando conheci os gêmeos, John e Michael, em 1966, em um hospital psiquiátrico, eles já eram célebres. Haviam se apresentado no rádio e na televisão e haviam sido tema de minuciosos informes científicos e populares. Eu desconfiava que eles tinham inclusive penetrado na ficção científica, um tanto ”ficcionalizados” mas essencialmente conforme haviam sido retratados nas descrições publicadas.

 

Os gêmeos, que na época estavam com 26 anos, viviam em asilos desde os sete anos de idade, sob diagnósticos variados, como autistas, psicóticos ou gravemente retardados. A maioria dos informes concluía que, em se tratando de ”idiotas sábios”, nada havia de ”muito especial” neles — exceto por sua notável memória ”documental” para os mínimos detalhes de sua própria experiência e seu uso de um algoritmo inconsciente de calendário que lhes permitia dizer de imediato em que dia da semana cairia uma data no futuro ou passado distante. Essa é a opinião de Steven Smith em seu livro abrangente e imaginativo, The great mental calculators (1983). Pelo que eu saiba, não houve outros estudos sobre os gêmeos depois de meados dos anos 60, sendo o breve interesse que despertaram dissipado pela aparente ”solução” dos problemas que apresentavam.

 

Mas isso, a meu ver, é um equívoco, talvez natural considerando a abordagem estereotipada, o formato fixo das questões, a concentração em uma ou outra ”tarefa” presentes nas primeiras investigações sobre os gêmeos, que os reduziam — sua psicologia, seus métodos, sua vida — a quase nada.

 

A realidade é muito mais estranha, muito mais complexa, muito menos explicável do que sugere qualquer um desses estudos, porém é impossível até mesmo vislumbrá-la por meio de ”testes” formais dinâmicos ou pela usual entrevista dos gêmeos no estilo 60 Minutes.

 

Não que qualquer um desses estudos, ou apresentações na tevê, esteja ”errado”. Eles são muito aceitáveis, com freqüência informativos, no que se propõem a fazer, porém restringem-se à ”superfície” óbvia e passível de ser testada, não se aprofundando — e nem mesmo dando a entender, ou talvez supondo, que existe algo além.

 

De fato, não obtemos indício algum de haver algo mais profundo, a menos que deixemos de testar os gêmeos, de considerá-los “sujeitos de experiência”. É preciso pôr de lado o impulso de limitar e testar e gradualmente travar conhecimento com os gêmeos — observá-los, abertamente, com serenidade, sem pressuposições, porém com uma total e compreensiva receptividade fenomenológica, enquanto eles vivem, pensam e interagem tranqüilamente, tratando da própria vida, com espontaneidade, em sua maneira singular. Descobrimos então que existe algo extraordinariamente misterioso em ação, poderes e intensidades de um tipo talvez fundamental, os quais não fui capaz de ”desvendar” ao longo desses dezoito anos em que os conheço.

 

De fato, eles nada têm de extraordinário à primeira vista — são uma espécie de Tweedledum e Tweedledee (os gêmeos de Alice no país das maravilhas), grotescos, impossíveis de distinguir, reflexos no espelho, idênticos no rosto, nos movimentos corporais, na personalidade, na mente, idênticos também em seu estigma de dano cerebral e tecidual. Têm estatura muito baixa, cabeça e mãos tremendamente desproporcionais, palato e pés muito arqueados, voz esganiçada e monótona, uma profusão de tiques e maneirismos muito peculiares e uma fortíssima miopia degenerativa, requerendo óculos tão grossos que faz seus olhos parecerem distorcidos e lhes dá a aparência de absurdos professorzinhos, examinando de perto e apontando, com uma concentração mal dirigida, obsessiva e absurda. E essa impressão é fortalecida assim que os questionamos — ou lhes permitimos começar espontaneamente, o que tendem a fazer, como marionetes de pantomima, uma de suas ”rotinas”.

 

Esse é o quadro que tem sido apresentado nos artigos publicados e no palco—eles tendem a ser ”apresentados” no show anual do hospital em que trabalho — e em suas não raras, e muito embaraçosas, aparições na tevê.

 

Os ”fatos”, nessas circunstâncias, são demonstrados até se tornarem monótonos. Os gêmeos pedem: ”Digam-nos uma data — qualquer data nos últimos ou próximos 40 mil anos”. Uma data é mencionada e, quase instantaneamente, eles informam em que dia da semana ela cairá. ”Outra data!”, bradam eles, e a proeza se repete. Eles também dizem a data da Páscoa durante o mesmo período de 80 mil anos. Podemos observar, embora isso não seja normalmente mencionado nos relatórios, que seus olhos movem-se e se fixam de maneira singular quando se dedicam a essa operação — como se estivessem desenrolando, ou examinando minuciosamente, uma paisagem interior, um calendário mental. Parecem estar ”vendo”, visualizando intensamente, apesar de ter sido concluído que se tratava de puro cálculo.

 

Sua memória para algarismos é notável — e possivelmente ilimitada. Eles repetem um número de três dígitos, de trinta dígitos, de trezentos dígitos com a mesma facilidade. Também isso foi atribuído a um ”método”.

 

Mas quando alguém testa sua habilidade para calcular—a típica especialidade de prodígios em aritmética e ”calculadores mentais” — seus resultados são espantosamente ruins, tão ruins quanto seu QI de sessenta nos faria imaginar. Eles são incapazes de fazer corretamente adições ou subtrações simples, e nem sequer conseguem compreender o que significa multiplicação ou divisão. O que é isto: ”calculadores” que não sabem calcular e não têm nem mesmo as mais rudimentares habilidades aritméticas?

 

E, no entanto eles são chamados de ”calculadores de calendário” — e tem sido inferido ou aceito, praticamente sem fundamentos, que não se trata absolutamente da memória em ação, mas do uso de um algoritmo inconsciente para cálculos de calendário. Quando lembramos que até Carl Friedrich Gauss, ao mesmo tempo um dos maiores matemáticos e peritos em cálculo, teve enorme dificuldade para descobrir um algoritmo para a data da Páscoa, torna-se impossível acreditar que esses gêmeos, incapazes até mesmo dos mais simples métodos aritméticos, poderiam ter inferido, descoberto e empregado um algoritmo desses. E verdade que muitos ”calculadores” possuem um repertório mais amplo de métodos e algoritmos que descobriram para uso próprio, e talvez isso tenha predisposto W. A. Horwitz et al. a concluir que isso valia também para os gêmeos. Steven Smith, interpretando ao pé da letra esses estudos iniciais, comentou:

 

Algo misterioso, embora banal, está em ação aqui — a misteriosa habilidade humana para formar algoritmos inconscientes com base em exemplos.

 

Se isso fosse tudo, eles de fato poderiam ser vistos como banais, e não como um mistério — pois o cálculo de algoritmos, que uma máquina pode fazer com precisão, é essencialmente mecânico e pertence à esfera dos ”problemas”, mas não dos ”mistérios”.

 

Contudo, mesmo em algumas das ”apresentações” dos gêmeos, em seus ”truques” há uma qualidade que espanta. Eles são capazes de dizer como estava o tempo e quais foram os eventos de qualquer dia de suas vidas — qualquer dia a partir de seus quatro anos de idade. Sua maneira de falar — bem descrita por Robert Silverberg em seu retrato do personagem Melangio — é ao mesmo tempo infantil, detalhada e desprovida de emoção. Ao lhes ser dita uma data, eles reviram os olhos por um momento, depois os fixam, e com uma voz apática e monótona informam o tempo, enunciam superficialmente os eventos políticos de que ouviram falar e os eventos de suas próprias vidas — estes últimos incluindo, com freqüência, as dolorosas e comoventes angústias da infância, o desprezo, a zombaria, as mortificações que sofreram, mas tudo recitado em um tom uniforme, invariável, sem o menor indício de inflexão pessoal ou emoção. Aqui, claramente, trata-se de lembranças que parecem ser de um tipo ”documental”, nas quais não existem referências pessoais, relações pessoais, absolutamente nenhum centro vivo.

 

Poderíamos afirmar que o envolvimento pessoal, a emoção, foram apagados dessas lembranças, no modo defensivo que podemos observar em tipos obsessivos ou esquizóides (e os gêmeos sem dúvida devem ser considerados obsessivos e esquizóides). Mas poderíamos afirmar, igualmente, e na verdade com mais plausibilidade, que lembranças desse tipo nunca tiveram um caráter pessoal, pois isso é, de fato, uma característica fundamental de uma memória eidética como a deles.

 

Mas o que precisa ser ressaltado — e que é insuficientemente salientado por quem os estudou, embora perfeitamente óbvio para um ouvinte ingênuo disposto a se maravilhar — é a magnitude da memória dos gêmeos, sua extensão aparentemente ilimitada (ainda que infantil e banal) e, com ela, o modo como as lembranças são recuperadas. E se lhes perguntamos como é que conseguem reter tanto na mente — um número com trezentos dígitos ou os trilhões de eventos de quatro décadas—eles dizem, simplesmente: ”Nós vemos tudo isso”. E ”ver” — ”visualizar” — com extraordinária intensidade, alcance ilimitado e perfeita fidelidade, parece ser a chave de tudo. Parece ser uma capacidade fisiológica inata de suas mentes, de um modo que guarda certas analogias com a maneira como o famoso paciente de A. R. Luria, descrito em The mindofa mnemonist, ”via”, embora talvez aos gêmeos falte a rica sinestesia e organização consciente das lembranças do mnemonista. Mas não resta dúvida, pelo menos a meu ver, de que os gêmeos têm à sua disposição um prodigioso panorama, uma espécie de paisagem ou fisionomia, de tudo o que já ouviram, viram, pensaram ou fizeram, e que, num piscar de olhos, externamente óbvio quando eles os reviram brevemente e depois os fixam, eles são capazes (com os ”olhos da mente”) de recuperar e ”ver” quase qualquer coisa que esteja nessa vasta paisagem.

 

Tais poderes de memória são raríssimos, porém não únicos. Pouco ou nada sabemos das razões por que os gêmeos ou qualquer outra pessoa os têm. Haverá, então, alguma coisa nos gêmeos que seja de um interesse mais profundo, como vim insinuando? Acredito que sim.

 

Conta-se que sir Herbert Oakley, o professor oitocentista de música em Edimburgo, ao ser levado a uma fazenda e ouvir um porco guinchar, bradou no mesmo instante: ”Sol sustenido!”. Alguém correu para o piano, e era sol sustenido mesmo. Minha primeira impressão das capacidades ”naturais” e do modo ”natural” dos gêmeos veio de maneira semelhante, espontânea e (não pude deixar de sentir) bastante cômica.

 

Uma caixa de fósforos que estava em cima da mesa caiu e o conteúdo espalhou-se no chão: ”111”, gritaram os gêmeos simultaneamente; a seguir, John disse baixinho: ”37”. Michael repetiu esse número, John disse-o pela terceira vez e parou. Contei os fósforos — demorei um pouco — e havia 111.

 

”Como conseguiram contar os fósforos tão depressa?”, perguntei. ”Não contamos”, eles responderam. ”Nós vimos os 111”.

 

Histórias semelhantes contam-se a respeito de Zacharias Dase, o prodígio dos números, que declarava instantaneamente ”183” ou ”79” quando se derramava um punhado de ervilhas e indicava do melhor modo possível — ele também era deficiente mental — que não tinha contado as ervilhas, mas apenas ”visto” o número delas, num todo, de relance.

 

”E por que vocês murmuraram ’37’ e repetiram isso três vezes?”, perguntei aos gêmeos. Eles responderam em uníssono ”37,37,37,111”.

 

E isso eu achei ainda mais intrigante, se possível. O fato de eles verem 111 — a ”condição de 111” — em um lampejo era extraordinário, mas talvez não mais extraordinário que o ”sol sustenido” de Oakley — uma espécie de ”tom absoluto” para números, por assim dizer. Mas eles em seguida ”fatoraram” o número 111 — sem contar com nenhum método, sem mesmo ”conhecer” (da maneira usual) o que significavam fatores. Pois eu já não observara que eles eram incapazes de fazer os mais simples cálculos e não ”entendiam” (ou não pareciam entender) o que era multiplicação ou divisão? E no entanto, ali, espontaneamente, eles haviam dividido um número composto em três partes iguais.

 

”Como foi que vocês calcularam isso?”, perguntei, ardendo de curiosidade. Eles indicaram, do melhor modo que puderam, em termos pobres, insuficientes — mas talvez não haja palavras que correspondam a coisas assim — que não tinham ”calculado”, apenas ”visto” aquilo, num lampejo. John fez um gesto com dois dedos esticados e o polegar, o que parecia sugerir que eles haviam espontaneamente dividido o número em três partes ou que o número ”dividira-se” por conta própria nessas três partes iguais, por uma espécie de ”fissão” numérica espontânea. Eles pareciam surpresos diante de minha surpresa — como se eu fosse cego de alguma forma; e o gesto de John transmitiu um extraordinário senso de realidade imediata, sentida. Será possível, pensei comigo, que eles possam de algum modo ”ver” as propriedades, não da maneira conceitual, abstrata, mas como qualidades sentidas, sensíveis, de algum modo imediato, concreto? E não simplesmente qualidades isoladas — como a ”qualidade de 111” — mas qualidades de relações? Talvez mais ou menos do mesmo modo como sir Herbert Oakley teria dito ”uma terça” ou ”uma quinta”

 

Eu já chegara à idéia, com base na ”visão” de eventos e datas pelos gêmeos, de que eles podiam reter na mente, que haviam retido, uma imensa tapeçaria mnemónica, uma vasta (ou possivelmente infinita) paisagem na qual tudo podia ser visto, isoladamente ou em relação. Era o isolamento, em vez de um senso de relação, que era primordialmente exibido quando eles despejavam seu implacável ”documentário” desordenado. Mas não poderiam esses prodigiosos poderes de visualização — poderes essencialmente concretos e muito distintos da capacidade de conceituar — dar-lhes o potencial de ver relações, relações formais, relações de forma, arbitrárias ou significativas? Se eles podiam ”ver” a ”qualidade de 111” em um lampejo (se podiam ver toda uma ”constelação” de números), não poderiam também ”ver”, num lampejo—ver, reconhecer, relacionar e comparar, de um modo inteiramente sensitivo e não intelectual —, formações e constelações de números enormemente complexas? Uma habilidade ridícula, até mesmo incapacitante Pensei no ”Funes” de Borges

 

Nós, de relance, podemos perceber três copos em uma mesa, Funes, todas as folhas, gavinhas e frutos que compõem uma videira [ ] Um circulo desenhado no quadro-negro, um ângulo reto, um losango — todas estas são formas que podemos entender intuitivamente e por completo, Ireneo podia fazer o mesmo com a emaranhada erma de um pônei, com uma manada de gado na colma [ ] não sei quantas estrelas ele era capaz de enxergar no céu

 

Poderiam os gêmeos, que pareciam ter uma singular paixão pelos números e ”domínio” dos mesmos — poderiam eles, que tinham visto a ”qualidade de 111” num relance, talvez ver em suas mentes uma ”videira” numérica, com todas as folhas-números, gavinhas-números, frutas-números que a compunham? Uma idéia estranha, talvez absurda, quase impossível — mas o que eles já me haviam mostrado era tão estranho que quase não se prestava à compreensão E, pelo que eu soubesse, aquilo era tão-somente um indicio mínimo do que eles podiam fazer

 

Refleti sobre o assunto, mas ele quase não permitia reflexão. Depois, deixei-o de lado. Esqueci-o até que deparei, totalmente por acaso, com uma segunda cena espontânea, uma cena mágica.

 

Nessa segunda vez, eles estavam sentados juntos em um canto, com um sorriso misterioso, secreto, um sorriso que eu nunca tinha visto antes, desfrutando o estranho prazer e paz que agora pareciam ter. Furtivamente, para não os perturbar, eu me aproximei. Pareciam absortos em uma conversa singular, puramente numérica. John dizia um número — um número de seis dígitos. Michael ouvia, assentia com a cabeça, sorria e parecia saborear o número. Em seguida, ele próprio dizia um número de seis dígitos, e dessa vez era John quem o recebia e apreciava com prazer. À primeira vista, lembravam dois connoisseurs provando vinho, compartilhando gostos raros, raras apreciações. Sentei-me quieto, sem que eles me vissem, hipnotizado, perplexo.

 

O que eles estavam fazendo? Que diabos estava acontecendo? Eu não conseguia entender. Talvez se tratasse de algum tipo de jogo, mas tinha uma gravidade e intensidade, uma espécie de intensidade serena, meditativa e quase sagrada, que eu nunca vira em nenhum jogo comum e que certamente nunca vira antes nos gêmeos, normalmente tão agitados e distraídos. Contentei-me com anotar os números que eles diziam — números que manifestamente lhes proporcionavam tanto prazer e que eles ”contemplavam”, saboreavam, compartilhavam em comunhão.

 

Teriam aqueles números algum significado, perguntei-me a caminho de casa, teriam algum sentido ”real” ou universal, ou (se é que tinham algum) apenas um sentido estapafúrdio ou particular, como as ”línguas” secretas e tolas que irmãos e irmãs às vezes inventam para si mesmos? E, dirigindo na volta para casa, pensei nas gêmeas de Luria — Liosha e Yura, gêmeas idênticas com dano no cérebro e na fala—e em como elas brincavam e tagarelavam entre si em uma língua própria, primitiva, balbuciante (Luria e Yudovich, 1959). John e Michael nem sequer estavam usando palavras ou meias palavras — simplesmente jogavam números um para o outro. Seriam números ”borgenses” ou ”funesianos”, meras videiras numéricas, crinas de pônei ou constelações, formas numéricas privadas — uma espécie de jargão numérica, conhecida apenas pelos gêmeos?

 

Assim que cheguei, fui buscar tabelas de potências, fatores, logaritmos e números primos—lembranças e relíquias de um período singular e isolado de minha infância, quando eu também fora uma espécie de ruminante de números, um ”vidente” de números, nutrindo por estes uma paixão peculiar. Eu já tinha um palpite — e então o confirmei. Todos os números, os números de seis dígitos que os gêmeos tinham compartilhado, eram primos — ou seja, números que só podem ser divididos em partes iguais por eles mesmos ou por um. Teriam os gêmeos, de algum modo, visto ou possuído algum livro como o meu — ou estariam, de algum modo inimaginável, ”vendo” números primos, mais ou menos da mesma forma que tinham ”visto” a qualidade de 111 ou a triplicidade de 37? Sem dúvida não poderiam tê-los calculado — não eram capazes de fazer cálculo algum.

 

Voltei à enfermaria no dia seguinte, levando comigo o precioso livro dos números primos. Novamente os encontrei encerrados em sua comunhão numérica, mas dessa vez, sem nada dizer, juntei-me a eles de mansinho. De início ficaram surpresos, mas, vendo que eu não os interrompia, retomaram seu ”jogo” de números primos de seis dígitos. Após alguns minutos, decidi tomar parte e arrisquei dizer um número, um número primo de oito dígitos. Ambos se voltaram para mim, e subitamente ficaram quietos, com uma expressão de concentração intensa e talvez espanto. Houve uma longa pausa—a mais longa que eu já os vira fazer, deve ter durado meio minuto ou mais — e então, de súbito, simultaneamente, os dois abriram um sorriso.

 

Depois de algum inimaginável processo de teste, eles de repente haviam visto meu número de oito dígitos como um número primo — e isso manifestamente era para eles um grande prazer, um duplo prazer; primeiro, porque eu introduzira um delicioso brinquedo novo, um número primo de uma ordem que eles nunca haviam encontrado antes, e segundo porque era evidente que eu tinha visto o que eles estavam fazendo, que tinha gostado, que admirava e era capaz de participar também.

 

Os dois se afastaram ligeiramente um do outro, dando lugar para mim, um novo colega de brincadeiras numéricas, um terceiro em seu mundo. Em seguida, John, que sempre saía na frente, pensou por um tempo muito longo — deve ter sido pelo menos cinco minutos, embora eu não ousasse me mexer e mal respirasse — e enunciou um número de nove dígitos; depois de um tempo semelhante, seu irmão gêmeo, Michael, respondeu com um número do mesmo tipo.

 

E então, eu, na minha vez, depois de olhar furtivamente o livro, acrescentei minha própria e desonesta contribuição, um número primo de dez dígitos.

 

Fez-se novamente, e por um tempo ainda mais longo, um silêncio repleto de fascinação e quietude; em seguida, John, depois de uma prodigiosa contemplação interna, saiu-se com um número de doze dígitos. Esse eu não tinha como verificar, e assim não pude responder à altura, pois meu livro — que, pelo que eu sabia, era o único de seu gênero — não ia além dos números primos de dez dígitos. Mas Michael mostrou-se apto para o desafio, embora demorasse cinco minutos — e uma hora mais tarde os gêmeos estavam trocando números primos de vinte dígitos, ou pelo menos supus que fosse isso, pois não havia meio de comprovar. Também não existia uma maneira fácil, em 1966, sem ter à disposição um computador sofisticado. E, mesmo então, teria sido difícil, pois quer usemos o crivo de Erastótenes ou qualquer outro algoritmo, não existe um método simples de calcular números primos. Não existe um método simples para os números primos dessa ordem — e, no entanto os gêmeos os estavam descobrindo. (Ver, porém, o pós-escrito.)

 

Novamente pensei em Dase, sobre quem eu tinha lido anos antes, no fascinante livro Human personality, de F. W. H. Myers (l 903).

 

Sabemos que Dase (talvez o mais bem-sucedido desses prodígios) era singularmente desprovido de compreensão matemática […] Apesar disso, em doze anos ele produziu tabelas de fatores e números primos para o sétimo e quase todo o oitavo milhão — uma tarefa que poucos homens poderiam ter realizado, sem auxílio mecânico, ao longo de todo um período normal de vida.

 

Portanto, concluiu Myers, ele pode ser considerado o único homem a ter prestado um valioso serviço à matemática sem ser capaz de entender os conceitos matemáticos mais simples.

 

O que Myers não esclarece, e que talvez não estivesse claro, era se Dase possuía algum método para produzir as tabelas ou se, como sugerido por seus simples experimentos de ”ver números”, ele de algum modo ”via” aqueles grandes números primos, como aparentemente os gêmeos viam.

 

Observando-os discretamente — isso era fácil de fazer, pois eu tinha uma sala na enfermaria onde os gêmeos estavam alojados —, vi-os em inúmeros outros tipos de jogos numéricos ou comunhão numérica, cuja natureza não pude apurar ou mesmo supor.

 

Mas parece provável, ou certo, que eles estejam lidando com propriedades ou qualidades ”reais” — pois o arbitrário, como os números aleatórios, não lhes dá prazer, ou lhes dá muito pouco. Está claro que eles precisam ter ”sentido” em seus números — do mesmo modo, talvez, como um músico precisa ter harmonia. De fato, eu me surpreendi comparando-os a músicos — ou a Martin, também retardado, que encontrava na serena e magnífica arquitetônica de Bach uma manifestação sensível da suprema harmonia e ordem do inundo, inacessível para ele conceitualmente devido às suas limitações intelectuais.

 

”Todo aquele que é composto harmonicamente”, escreve sir Thomas Browne, ”deleita-se com a harmonia [ ] e uma profunda contemplação do primeiro compositor. Há nela algo da divindade mais do que descobre o ouvido, é uma hieroglífica e obscurecida lição sobre todo o mundo [ ] uma pequenina seção da harmonia que soa intelectualmente nos ouvidos de Deus […] A alma […] é harmônica e tem sua afinidade mais estreita com a música ”

 

Richard Wollheim, em The thread ofhfe (1984), faz uma distinção absoluta entre cálculos e o que ele denomina estados mentais ”icônicos”, e antevê uma possível objeção a tal distinção

 

Alguém poderia contestar o fato de que todos os cálculos são não icônicos alegando que, quando a pessoa calcula, as vezes o faz visualizando o calculo em uma pagina. Mas isso não constitui um contra exemplo. Pois o que esta representado em tais casos não é o cálculo em si, mas uma representação do mesmo, os números e que são calculados, mas o que se visualiza são os numerais, que representam números

 

Leibmz, por outro lado, apresentou uma instigante analogia entre números e música ”O prazer que obtemos da música vem de contar, mas contar inconscientemente A música nada mais é do que aritmética inconsciente”

 

Até onde podemos apurar, qual é a situação dos gêmeos, e talvez de outros? O compositor Ernst Toch — contou-me seu neto, Lawrence Weschler — conseguia prontamente reter na memória, depois de ouvir uma única vez, uma série muito longa de números, mas fazia isso ”convertendo” a série de números em uma melodia (que ele próprio criava, ”correspondendo” aos números). Jedediah Buxton, calculador dos menos elegantes, mas dos mais tenazes de todos os tempos, que tinha uma grande, até mesmo patológica, paixão por cálculos e cômputos (ele ficava, em suas próprias palavras, ”bêbado de contar”), ”convertia” música e drama em números. Segundo um relato contemporâneo sobre ele, escrito em 1754: ”Durante a dança, ele fixava a atenção no número de passos; depois de um belo trecho musical, declarava que os inúmeros sons produzidos pela música o haviam deixado imensamente perplexo, e ia até mesmo assistir às peças do sr. Garrick só para contar as palavras que este proferia, no que afirmava ter pleno êxito”.

 

Eis um belo, ainda que extremo, par de exemplos — o músico que transforma números em música e o perito em contar que transforma a música em números. Fica-se com a impressão de que é impossível encontrar tipos de mentes mais opostos ou, pelo menos, estilos mentais mais opostos.

 

A meu ver, os gêmeos, que têm uma ”sensibilidade” extraordinária para números, sem serem capazes de calcular coisa alguma, têm nesse aspecto uma afinidade não com Buxton, mas com Toch. Exceto — e isto nós, pessoas comuns, achamos dificílimo imaginar — pelo fato de que eles não ”convertem” números em música, mas realmente sentem os números, em si mesmos, como ”formas”, como ”tons”, como as numerosíssimas formas que compõem a própria natureza. Eles não são calculadores, e sua habilidade numérica é ”icônica”. Eles convocam, habitam estranhos cenários numéricos; perambulam livremente por vastas paisagens de números, criam dramaturgicamente todo um mundo feito de números. Eles têm, creio, uma imaginação extremamente singular — da qual a singularidade maior é o fato de que ela só pode imaginar números. Não parecem ”operar” com números, de um modo ”não icônico”, como um calculador; eles os ”vêem”, diretamente, como um vasto cenário natural.

 

E se nos perguntarmos ”existem analogias, pelo menos, com uma iconicidade assim?”, nós as descobriremos, acredito, em certas mentes científicas. Dmitri Mendeleev, por exemplo, carregou consigo, escritas em cartões, as propriedades numéricas dos elementos até que elas se tornaram totalmente ”familiares” para ele — tão familiares que ele não mais pensava nelas como agregados de propriedades, mas (segundo ele próprio afirmou) ”como rostos conhecidos”. Ele passou a ver os elementos, iconicamente, fisionomicamente, como ”rostos” — rostos que se relacionavam, como membros de uma família, e que compunham, in totó, periodicamente organizados, todo o rosto formal do universo. Uma mente científica assim é essencialmente ”icônica” e ”vê” toda a natureza como rostos e cenas, talvez também como música. Essa ”visão”, essa visão interna, envolta pelo fenomênico, tem ainda assim uma relação integral como físico, e devolvê-la do psíquico para o físico constitui o trabalho secundário, ou externo, dessa ciência. (”O filósofo procura ouvir dentro de si os ecos da sinfonia do mundo”, escreveu Nietzsche, ”e volta a projetá-los na forma de conceitos.”) Os gêmeos, embora deficientes mentais, ouvem a sinfonia do mundo, imagino, mas a ouvem inteiramente em forma numérica.

 

A alma é ”harmônica” seja qual for o Qi da pessoa, e para alguns, como os cientistas físicos e os matemáticos, o senso de harmonia, talvez, é primordialmente intelectual. No entanto, não consigo pensar em algo intelectual que não seja, de algum modo, também sensível — de fato, a própria palavra ”senso” tem sempre essa dupla conotação. Sensível e, de certo modo, também ”pessoal”, pois é impossível alguém sentir alguma coisa, julgar uma coisa ”sensível” sem que ela seja, de algum modo, relacionada ou passível de relacionar-se com a pessoa. Assim, a imponente arquitetônica de Bach proporciona, como fazia para Martin A., ”uma hieroglífica e obscurecida lição sobre todo o mundo”, mas ela também é, reconhecível, única e afetuosamente Bach; e isso também era sentido, comoventemente, por Martin A., e por ele relacionado ao amor que sentia pelo pai.

 

Os gêmeos, a meu ver, não possuem apenas uma estranha ”faculdade” — mas uma sensibilidade, uma sensibilidade harmônica, talvez afim à musical. Poderíamos chamá-la, com muita propriedade, de sensibilidade ”pitagórica” — e o singular não é sua existência, mas sua evidente raridade. A alma da pessoa é ”harmônica” seja qual for o seu QI, e talvez a necessidade de encontrar ou sentir alguma harmonia ou ordem suprema seja um universal da mente, independentemente das capacidades desta ou da forma que ela assuma. A matemática sempre foi considerada a ”rainha das ciências”, e os matemáticos sempre viram o número como o grande mistério e o mundo como sendo organizado, misteriosamente, pelo poder do número. Isso é expresso com primor no prólogo à autobiografia de Bertrand Russell:

 

Com igual paixão tenho buscado o conhecimento. Desejo compreender o coração dos homens. Desejo saber por que as estrelas brilham. E tento entender o poder pitagóríco pelo qual os números têm influência sobre o fluxo.

 

É estranho comparar esses gêmeos deficientes mentais a um intelecto, um espírito como o de Bertrand Russell. E, no entanto, em minha opinião, não é tão absurdo. Os gêmeos vivem exclusivamente em um mundo de pensamentos numéricos. Não têm interesse pelas estrelas que brilham nem pelos corações dos homens. Mas acredito que para eles os números não são ”apenas” números, mas significâncias, significantes cujo ”significando” é o mundo.

 

Eles não lidam com os números levianamente, como faz a maioria dos calculadores. Não estão interessados em cálculos, não têm capacidade para os mesmos e não são capazes de compreendê-los. São, antes, serenos contempladores do número — e lidam com os números com um senso de reverência e pasmo. Os números, para eles, são sagrados, repletos de significação. Essa é a sua maneira — como a música é a maneira de Martin — de entender o primeiro compositor.

 

Mas os números não são apenas impressionantes para eles, são também amigos — talvez os únicos amigos que eles já tiveram em sua vida isolada de autistas. Esse é um sentimento muito comum nas pessoas que têm um dom para os números — e Steven Smith, embora considerasse o ”método” o mais importante, fornece muitos exemplos fascinantes disso: George Parker Bidder, que escreveu sobre sua primeira infância numérica: ”Adquiri total familiaridade com os números até cem; eles se tornaram, por assim dizer, meus amigos, e eu conhecia todos os parentes e conhecidos”; ou o contemporâneo Shyam Marathe, da índia: ”Quando digo que os números são meus amigos, quero dizer que em alguma época passada lidei com aquele número específico de várias maneiras e, em muitas ocasiões, descobri novas e fascinantes qualidades nele ocultas […] Assim, se em um cálculo deparo com um número conhecido, imediatamente o vejo como um amigo”.

 

Hermann von Helmholtz, discorrendo sobre a percepção musical, afirma que, embora tons compostos possam ser analisados e divididos em seus componentes, eles são normalmente ouvidos como qualidades, qualidades únicas de tom, todos indivisíveis. Ele fala, nesse sentido, de uma ”percepção sintética” que transcende a análise e é a essência, impossível de analisar, de todo senso musical. Compara esses tons a rostos, e reflete que podemos reconhecê-los mais ou menos da mesma maneira pessoal. Em suma, parece sugerir que os tons musicais, e certamente as melodias, são de fato ”rostos” para os ouvidos e são reconhecidos, sentidos, imediatamente como ”pessoas” (ou como tendo ”qualidade de pessoa”), um reconhecimento que implica afeto, emoção, relação pessoal.

 

Isso parece ocorrer com os que amam os números. Estes também se tornam reconhecíveis como tais — em um único, intuitivo, pessoal: ”Eu conheço você!”.20 O matemático Wim Klein expressou isso muito bem: ”Os números são amigos para mim, mais ou menos. Para você, 3844 não significa o mesmo, não é? Para você, é apenas um três, um oito, um quatro e outro quatro. Mas eu digo: ’Olá, 62 ao quadrado!’”.

 

Acredito que os gêmeos, aparentemente tão isolados, vivem num mundo cheio de amigos, tendo milhões, bilhões de números aos quais dizem ”Olá!” e que, tenho certeza, respondem ”Olá!” para eles. Mas nenhum dos números é arbitrário — como 62 ao quadrado — nem (e este é o mistério) se chega a ele por algum dos métodos usuais, ou por qualquer método que eu consiga discernir. Os gêmeos parecem empregar uma cognição direta — como anjos. Eles vêem, diretamente, um universo e um céu de números. E isso, embora singular, embora bizarro — mas que direito temos de chamá-lo ”patológico”? —, proporciona uma singular auto-suficiência e serenidade às suas vidas, e poderia ser trágico interferir nelas ou destruí-las.

 

Essa serenidade foi, de fato, interrompida e destruída dez anos mais tarde, quando se julgou que os gêmeos deviam ser separados – ”para seu próprio bem”, a fim de prevenir sua ”prejudicial comunicação entre si” e que pudessem ”sair e enfrentar o mundo […] de um modo adequado, socialmente aceitável” (segundo explicado pelo jargão médico e sociológico). Assim, foram separados em 1977, com resultados que podem ser considerados tanto gratificantes como calamitosos. Ambos foram transferidos para ”semiinternatos” e executam trabalhos simples e subalternos em troca de um pagamento mínimo, sob estrita supervisão. Eles são capazes de tomar ônibus, se forem cuidadosamente orientados e receberem um passe para pagar a condução, e de se manterem moderadamente apresentáveis e limpos, embora seu caráter de retardados mentais e psicóticos ainda seja reconhecível à primeira vista.

 

Esse é o lado positivo — mas também há um lado negativo (não mencionado em suas fichas, pois antes de mais nada nunca foi reconhecido). Privados da ”comunhão” numérica entre si e de tempo e oportunidade para qualquer ”contemplação” ou ”comunhão” — sempre sendo apressados e empurrados de uma tarefa para outra — , eles parecem ter perdido sua estranha capacidade numérica e, com ela, o principal prazer e sentido de suas vidas. Mas isso é considerado um pequeno preço a ser pago, sem dúvida, por se terem tornado semi-independentes e ”socialmente aceitáveis”.

 

Isso nos lembra um pouco o tratamento dado a Nadia—criança autista com um dom fenomenal para o desenho. Nadia também foi submetida a um regime terapêutico ”para encontrar maneiras nas quais suas potencialidades em outras direções poderiam ser maximizadas”. O efeito líquido foi que ela começou a falar — e parou de desenhar. Nigel Dennis comenta: ”Ficamos com um gênio que teve seu gênio removido, nada restando além de uma deficiência generalizada. O que devemos pensar de uma cura assim tão curiosa?”.

 

Cabe acrescentar — este é um aspecto ressaltado por F. W. H. Myers, cuja reflexão sobre os prodígios numéricos abre seu capítulo sobre ”Gênios” — que essa faculdade é ”estranha” e pode desaparecer espontaneamente, embora com a mesma freqüência seja vitalícia. No caso dos gêmeos, obviamente, não se tratava apenas de uma ”faculdade”, mas do centro pessoal e emocional de suas vidas. E agora que eles estão separados, agora que ela desapareceu, já não há mais um sentido ou um centro em suas vidas

 

PÓS-ESCRITO

 

Quando Israel Rosenfield leu o original deste texto, salientou que existem outras aritméticas, superiores e mais simples do que a aritmética ”convencional” das operações, e aventou a possibilidade de as singulares capacidades (e limitações) dos gêmeos refletirem o uso, por eles, de uma aritmética ”modular” desse tipo. Em um bilhete que me escreveu, ele sugeriu que os algoritmos modulares, do tipo descrito por lan Stewart em Concepts of Modern mathematics (1975), poderiam explicar as habilidades dos gêmeos como calendário:

 

Sua habilidade para determinar os dias da semana ao longo de um período de 80 mil anos sugere um algoritmo bastante simples. Divide-se o número total de dias entre o ”agora” e o ”então” por sete Se não houver resto, a data cai no mesmo dia que ”agora”, se o resto for um, a data cairá um dia mais tarde e assim por diante Observe que a aritmética modular é cíclica- ela consiste em padrões repetitivos. Talvez os gêmeos estivessem visualizando esses padrões, seja na forma de tabelas fáceis de construir, seja na de algum tipo de ”paisagem” como a espiral de inteiros mostrada na página 30 do livro de Stewart

 

Isso não responde por que os gêmeos comunicavam-se com números primos. Mas a aritmética do calendário requer o sete, que é primo E quando se pensa em aritmética modular em geral, a divisão modular produzirá padrões cíclicos distintos apenas se forem usados números primos. Como o número primo sete ajuda os gêmeos a identificar datas e, conseqüentemente, os eventos de dias específicos de suas vidas, eles podem ter descoberto que outros números primos produzem padrões semelhantes àqueles que são tão importantes para seus atos de recordação. (Observemos que, quando a caixa de fósforos caiu e eles disseram ”111 — 37 três vezes”, eles estavam tomando o número primo 37 e multiplicando por três.) De fato, apenas os padrões de números primos podiam ser ”visualizados”. Os diferentes padrões produzidos pelos diferentes números primos (por exemplo, tabelas de multiplicação) podem ser os elementos de informação visual que eles estão comunicando um ao outro quando repetem um dado número primo. Em suma, a aritmética modular pode ajudá-los a recuperar seu passado e, em conseqüência, os padrões criados para usar esses cálculos (que só ocorrem com números primos) podem assumir uma importância particular para os gêmeos.

 

Com o uso de uma aritmética modular como essa, ressalta Stewart, pode-se chegar com rapidez a uma solução única que não se presta a nenhuma aritmética ”ordinária” — em especial visando exatamente (pelo chamado pigeon-hole principie, o princípio da classificação sistemática) números primos extremamente grandes e incomputáveis (por métodos convencionais).

 

Se tais métodos, tais visualizações, são vistos como algoritmos, eles são algoritmos de um tipo muito singular — organizados não algebricamente, mas espacialmente, como árvores, espirais, arquiteturas, ”paisagens de pensamentos”—, configurações em um espaço mental formal e contudo quase sensorial. Os comentários de Israel Rosenfíeld e as exposições de lan Stewart sobre aritmética ”superior” (e especialmente modular) empolgaram-me, pois parecem prometer, se não uma ”solução”, pelo menos uma grande chance de se chegar à compreensão de capacidades de outra forma inexplicáveis como as dos gêmeos.

 

Essas aritméticas superiores ou mais profundas foram concebidas, em princípio, por Gauss em Disquisitiones arithmeticae, em 1801, mas só receberam aplicações práticas em anos recentes. Não se pode deixar de pensar que talvez exista uma aritmética ”convencional” (ou seja, uma aritmética de operações) — muitas vezes irritante para o professor e para o aluno, ”antinatural” e difícil de aprender—e também uma aritmética íntima do tipo descrito por Gauss, que pode ser verdadeiramente inata ao cérebro, tão inata quanto a gramática sintática e gerativa ”íntima” de Chomsky. Uma aritmética dessas, em mentes como as dos gêmeos, poderia ser dinâmica e quase viva — aglomerados globulares e nebulosas de números turbilhonando e evoluindo em um céu mental sempre em expansão.

 

Como já mencionei, depois da publicação de ”Os gêmeos” recebi uma vasta correspondência, tanto pessoal como científica. Algumas cartas tratavam dos temas específicos de ”ver” ou apreender números, outras do sentido ou importância que pode haver nesse fenômeno, outras ainda do caráter geral de inclinações e sensibilidades autistas e como elas podem ser incentivadas ou inibidas, e finalmente outras da questão dos gêmeos idênticos. Especialmente interessantes foram as cartas de pais de crianças desse tipo, as mais raras e notáveis provenientes de pais que tinham sido, eles próprios, forçados a refletir e pesquisar e que haviam conseguido combinar o mais profundo sentimento e envolvimento com uma acentuada objetividade. Nessa categoria estavam os Park, pais muito inteligentes de uma criança muito talentosa, porém autista (ver C. C. Park, 1967, e D. Park, 1974, pp. 313-23). A filha dos Park, ”Ella”, era uma exímia desenhista e também muito habilidosa com números, especialmente quando bem pequena. Ella fascinava-se com a ”ordem” dos números, especialmente os primos. Esse sentimento singular pelos números primos evidentemente não é raro. C. C. Park escreveu-me sobre uma outra criança autista que ela conhecia, a qual enchia folhas de papel com números escritos ”compulsivamente”. Todos eram primos, observou ela, e acrescentou: ”São janelas para um outro mundo”. Posteriormente, ela mencionou uma experiência recente com um jovem autista que também sentia fascinação por fatores e números primos e que os percebia instantaneamente como ”especiais”. De fato, a palavra ”especial” precisava ser usada para provocar uma reação:

 

”Há alguma coisa de especial, Joe, nesse número (4875)?”

 

Joe: ”Só é divisível por 13 e 25”.

 

Sobre outro (7241): ”É divisível por 13 e 557”.

 

E sobre 8741: ”É um número primo”.

 

Park comenta: ”Ninguém na família dele incentiva seus números primos; eles são um prazer solitário”.

 

Não está claro, nesses casos, o modo como se chega às respostas quase instantaneamente: se elas são ”pensadas”, ”conhecidas” (lembradas) ou — de alguma forma — apenas ”vistas”. O que está claro é o singular senso de prazer e significação ligado aos números primos. Parte disso parece dever-se a um senso de beleza formal e simetria, mas uma outra parte, também, a um singular ”significado” ou ”potencial” associativo. Isso com freqüência foi considerado ”mágico” no caso de Ella: números, especialmente os primos, evocavam pensamentos, imagens, sentimentos, relações especiais — alguns quase ”especiais” ou ”mágicos” demais para serem mencionados. Isso é bem descrito no artigo de David Park (op. cit).

 

Kurt Gõdel, de uma maneira muito abrangente, expôs como os números, em especial os primos, podem servir como ”marcadores” — para idéias, pessoas, lugares, qualquer coisa; e esse marcador gõdeliano abriria caminho para uma ”aritmetização” ou ”numeralização” do mundo (ver E. Nagel e J. R. Newman, 1958). Se isso realmente ocorre, é possível que os gêmeos, e outros como eles, não meramente vivam em um mundo de números, mas em um mundo, no mundo, como números, sendo sua meditação ou brincadeira numérica uma espécie de meditação existencial e, se for possível alguém entendê-la, ou encontrar a chave (como David Park às vezes consegue), também uma estranha e precisa comunicação.

por Oliver Sacks

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/os-gemeos/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/os-gemeos/

A Sophia de Jesus Cristo

A chamada “Sophia” teve seu texto encontrado na Biblioteca de Nag Hammadi (em duas cópias, III,3 e V,1), descoberta em 1945 no alto Egito, e também presente no Códex de Berlim – encontrado no séc. XIX. Foi dirigido a uma assembléia que já conhecia o gnosticismo. Este texto foi reelaborado no séc. II d.C., na Escola de Valentino, a partir de ‘Epístola de Eugnostos’, que tem um conteúdo de gnosticismo mais egípcio. Esta última – séc. I a.C. – é uma carta formal, mais curta e direta, escrita por um Instrutor a seus discípulos, também encontrada em Nag Hammadi (III,4)

As passagens colocadas entre colchetes [ ] em itálico fazem parte da ‘Epístola de Eugnostos’ e foram aqui acrescentadas quando a diferença entre os dois textos é expressiva. Entre parênteses () a numeraç]ão das notas explicativas ao final do documento. O texto ‘A Sophia de Jesus, o Cristo de Deus’ é apresentado na forma de diálogos, enquanto na epístola os discípulos não são nominados, mas apenas as instruções.)

O TEXTO

Após ele ressurgir de entre os mortos, seus doze discípulos e sete mulheres (1) continuaram a ser seus seguidores e foram para a Galileia, até a montanha chamada ‘Presságio e Alegria’ (2).

Quando se reuniram, estavam perplexos, confusos sobre a realidade subjacente do universo, o plano, a sagrada(3) providência e os poderes das autoridades (4) e sobre tudo que o Salvador estava fazendo com eles no segredo (5) do plano sagrado.

Então, o Salvador apareceu, não em sua forma anterior, mas como um espírito invisível. E sua aparência assemelhava-se a um grande anjo de luz. Mas não devo descrever a sua aparência. Nenhum corpo mortal poderia suportá-la (6), somente um corpo físico puro e perfeito, como aquele sobre o qual ele nos ensinou na Galileia, no monte chamado ‘das Oliveiras’ (7).

E ele disse: “A paz esteja com vocês! Minha paz eu lhes dou!” E todos eles ficaram maravilhados e apreensivos.

O Salvador riu e disse a eles: “O que vocês estão pensando? Porque estão perplexos? O que estão procurando (entender)?”

Filipe respondeu: “A respeito da realidade subjacente do universo e do plano”.

O Salvador disse a eles: “Quero que saibam que todos os homens nascidos na terra, desde a fundação do mundo até agora, sendo pó, apesar de terem inquirido sobre Deus, quem ele é e como é ele, não o encontraram. Ora, os mais sábios entre eles especularam sobre o ordenamento (8) do mundo e seus movimentos. Mas sua especulação não alcançou a verdade. Pois, é dito por todos filósofos que o ordenamento é direcionado de três maneiras e por isso não há concordância entre eles.

Alguns deles dizem que o mundo é dirigido por si mesmo. Outros que é a providência (que o dirige). E outros, que é o destino. Mas não é nenhum desses. Novamente, das três explanações que há pouco mencionei, nenhuma está próxima da verdade e elas são dos homens.

Mas eu, que vim da Luz Infinita. Estou aqui – por conhecê-la – para que possa (9) falar-lhes a respeito da natureza precisa da verdade. Tudo quanto seja de si mesmo é uma vida contaminada, pois é auto-gerado. A providência não possui sabedoria nela. E o destino não discerne.

[Pois tudo quanto seja de si mesmo é vazio de vida, é auto-gerado. A providência é tola. E o destino é algo sem discernimento.]

Mas a vocês é dado conhecer. E quem quer que seja merecedor do conhecimento, (o) receberá, aquele que não tenha sido gerado pelo relacionamento impuro (10), mas pelo Primeiro Que Foi Enviado, pois ele é imortal em meio aos homens mortais.”

[Então, quem quer que seja capaz de se libertar destas três opiniões que há pouco mencionei e vir, por meio de outra explanação, a reconhecer o Deus da verdade e concordar em tudo concernente a ele, esse é imortal, habitando em meio aos homens mortais.]

Mateus disse-lhe: “Senhor, ninguém pode encontrar a verdade exceto através do senhor. Portanto, ensina-nos a verdade”.

O Salvador falou: “Aquele QUE É é inefável. Nenhum princípio o conhece, nenhuma autoridade, nem dependência, nem qualquer criatura desde a fundação do mundo até agora, com exceção (11) dele mesmo e daqueles a quem ele queira revelar-se, através daquele que é da Primeira Luz. De agora em diante eu sou o Grande Salvador. Pois ele é imortal e eterno.

Ora, ele é eterno, não tendo nascido, pois todo aquele que nasce, perecerá. Ele não foi gerado, não tendo princípio, pois tudo que tem um princípio, tem um fim. Já que (12) ninguém o governa, ele não tem nome, pois quem quer que tenha um nome é a criação de um outro (13). Ele é inominável, não tem forma humana, pois todo aquele que tem forma humana é a criação de um outro. Ele tem a aparência de si mesmo (14) – não como aquela que vocês viram e receberam, mas uma aparência estranha que supera todas as coisas e é superior ao universo.

Ele olha para todos os lados e vê a si próprio a partir de si mesmo. Como é infinito, é eternamente incompreensível. É imperecível e não tem semelhança (a qualquer coisa). Ele é o imutável bem. É sem falhas. Eterno. Abençoado. Apesar de ser incognoscível, sempre conhece a si mesmo. Ele é imensurável. Insondável. É perfeito, não tendo defeito. Ele é imperecivelmente abençoado. É chamado ‘Pai do Universo’.”

Filipe disse: “Senhor, como, então, ele apareceu aos perfeitos?”

O Salvador perfeito respondeu-lhe: “Antes que qualquer coisa seja visível, dentre aquelas que são visíveis, a majestade e a autoridade estão nele, visto que ele abarca inteiramente as totalidades, enquanto que nada o abarca. Pois ele é todo mente. E é pensamento, consideração, reflexão, racionalidade e poder. Todos são poderes iguais. São a fonte das totalidades. E todas as raças, desde a primeira até a última, estavam em sua previsão, aquela do Pai Não-gerado e infinito.”

[E todas as raças (desde a primeira) até a última, estão previstas pelo Não-gerado, pois (15) ele ainda não surgiu à visibilidade.]

Tomé falou-lhe: “Porque esses surgiram e porque foram revelados?”

O perfeito Salvador respondeu: “Eu vim do Infinito, para que eu possa dizer-lhes todas as coisas. O Espírito QUE É foi o progenitor, que tem o poder (de) um progenitor e a natureza de (dar) forma, para que a grande fartura que estava oculta nele pudesse ser revelada. Por causa de sua compaixão e de seu amor ele desejava dar fruto por si mesmo, para que ele não (gozasse) sua benevolência sozinho, mas (que) outros espíritos da Geração Resoluta pudessem dar corpo e fruto, glória e honra na imperecibilidade e em sua graça infinita; para que seu tesouro pudesse ser revelado pelo Deus Auto-Gerado, o pai de toda imperecibilidade e daqueles que apareceram mais tarde. Mas eles não haviam alcançado ainda a visibilidade.  Porém existe uma grande diferença entre os imperecíveis.”

Porém existia uma diferença entre os eons imperecíveis. Vamos, então, refletir (sobre isto) desta forma.

Ele exclamou dizendo: “Quem tem ouvidos para ouvir a respeito das infinidades, que ouça”, e “Dirigi-me àqueles que estão despertos.”

E ele continuou ainda, dizendo: “Tudo que veio do perecível, perecerá, já que veio do perecível. Mas tudo o que veio da imperecibilidade, não perecerá, mas se tornará imperecível (BG 89, 16-17 acrescenta: pois se origina da imperecibilidade). Portanto, muitos homens se perderam porque eles não conheciam esta diferença e morreram.”

Maria disse a ele: “Senhor, como vamos então conhecer isto?”

O Salvador perfeito disse:

Porém isto é suficiente, pois é impossível para alguém disputar a natureza das palavras que acabei de falar sobre Deus verdadeiro, bem-aventurado e imperecível.

Mas, se alguém quiser acreditar nas palavras (aqui) determinadas, que ele vá do que está oculto até o fim do que está visível, e este Pensamento lhe instruirá sobre como a fé nas coisas que não são visíveis foi encontrada no que é visível. Este é um princípio de conhecimento.

“Venham das coisas invisíveis até o fim das que são visíveis, e a própria emanação do Pensamento lhe revelará como a fé nas coisas que não são visíveis foi encontrada naquelas que são visíveis, aquelas que pertencem ao Pai Não-Gerado. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

O Senhor do Universo não é chamado ‘Pai’, mas ‘Antepassado’. (Porque o Pai é) o início (ou princípio) daqueles que vão aparecer, mas ele (o Senhor) é (o) Antepassado sem início. Olhando-se dentro de si mesmo num espelho, ele se parece com sua própria semelhança, porém sua aparência parecia como seu Próprio-Pai Divino e (como) Confrontador ‘daqueles confrontados’, o Primeiro Pai Existente Não-Gerado. Ele na verdade tem a mesma idade da Luz que veio antes dele, mas não é igual a ela em poder.

“E a seguir foi revelada uma grande multidão de seres auto-gerados confrontadores, iguais em idade e poder, estando na glória (e) sem número, cuja raça é chamada ‘A Geração sobre a Qual Não Há Reino’ ‘daquele em quem vocês mesmos apareceram destes homens.’ E toda esta multidão sobre a qual não há reino é chamada ‘Filhos do Pai Não-Gerado, Deus, Salvador, Filho de Deus,’ cuja semelhança está consigo. Porém, ele é o Incognoscível, que está sempre pleno de glória imperecível e de alegria inefável. Eles todos descansam nele, sempre se regozijam em alegria inefável na sua glória imutável e sua jubilação imensurável. Isto nunca foi ouvido ou conhecido entre todos os eons e seus mundos até agora.”

Mateus disse a ele: “Senhor, Salvador, como o Homem foi revelado?”

O Salvador perfeito disse: “Quero que vocês saibam que aquele que apareceu antes do universo no infinito, o Pai construído e desenvolvido por Si Mesmo, sendo pleno de luz brilhante e inefável, no princípio, quando ele decidiu que sua semelhança (deveria) se tornar um grande poder, imediatamente o princípio (ou início) daquela Luz apareceu como Homem Andrógino e Imortal. Isto, para que por meio daquele Homem Imortal eles pudessem alcançar a sua salvação e despertar do esquecimento por meio do intérprete que foi enviado, que estará com vocês até o fim da pobreza dos ladrões.

Seu nome masculino é “Mente Perfeita Gerada”. E seu nome feminino (é) “Toda-sábia Sophia Geradora.” Também é dito que ela se parece com seu irmão e consorte. Ela é a verdade incontestada; porque abaixo daqui o erro, que existe com a verdade, a contesta.

“E seu consorte é a Grande Sophia, que deste o princípio lhe foi destinada para união pelo Pai Auto-Gerado, do Homem Imortal ‘que apareceu como Primeiro, divindade e reino,’ pois o Pai, que é chamado ‘Homem, Pai-Próprio,’ revelou isto. E ele criou um grande eon, cujo nome é Ogdoad, para sua própria majestade.

“Ele recebeu grande autoridade, e governou sobre a criação da pobreza. e governou sobre todas as criações. Ele criou deuses, anjos (e) arcanjos, miríades sem número para o acompanhamento daquela Luz e do Espírito masculino-tríplice, que é o de Sophia, seu consorte. Pois deste Deus por meio deste Homem originou-se a divindade e o reino. Portanto, ele foi chamado ‘Deus dos deuses,’ ‘Rei dos reis.’

“O Primeiro Homem tem sua mente singular, interior, e o pensamento – assim como ele é isto (pensamento) – (e) a consideração, a reflexão, a racionalidade, o poder. Todos os atributos que existem são perfeitos e imortais. Com relação a imperecibilidade, eles são na verdade iguais. (Porém) com respeito ao poder, eles são diferentes, como a diferença entre pai e filho, (e filho) e pensamento, e o pensamento e o resto.

“Como eu disse antes, entre as coisas que foram criadas, a mônada é a primeira. A díada segue-a, e a tríada, até as décimas. As décimas, porém, governam as centésimas; as centésimas governam as milésimas; as milésimas governam as décima-milésimas. Esta é a seqüência (entre os) imortais. O Primeiro Homem é desta forma: Sua Mônada.

(As páginas 79 e 80 estão faltando. Elas foram substituidas pela seção correspondente de Eugnostos – Código V, cujo começo é algo diferente da frase parcial final de III 78.

Mais uma vez, esta é a seqüência (que) existe entre os imortais: a mônada e o pensamento são as coisas que pertencem ao Homem Imortal. Os pensamentos (são) as dezenas, e as centenas são (os ensinamentos), (e os milhares) são os conselheiros, (e) os dez mils (são) os poderes. Porém aqueles que vêm do … existem com seus ( … ) (em) cada eon ( … ) ( … No princípio, o pensamento) e os pensamentos (apareceram da) mente, (então) os ensinamentos dos pensamentos, os conselhos (dos ensinamentos), (e) o poder (dos ) (conselhos).

E depois de tudo isto, tudo o que foi revelado apareceu de seu poder. E do que foi criado, tudo o que foi moldado apareceu. Do que foi moldado apareceu o que foi formado. Do que foi formado, o que recebeu nome. Assim surgiu a diferença entre os não-gerados do começo ao fim.”

O que recebeu nome apareceu do que foi formado, enquanto a diferença entre as coisas geradas apareceu do que recebeu (nome), do começo ao fim, pelo poder de todos os eons. Porém o Homem Imortal está pleno de toda glória imperecível e de todo contentamento inefável. Todo seu reino se regozija em júbilo eterno, aqueles que nunca foram ouvidos ou conhecidos em qualquer eon que (vieram) depois (deles e de seus) mundos.

Então Bartolomeu disse a ele: “Como (é que ele) foi designado no Evangelho ‘Homem’ e ‘Filho do Homem’? A qual deles, então, é este Filho relacionado?” O Ser Divino disse a ele:

“Quero que vocês saibam que o Primeiro Homem é chamado ‘Gerador, Mente Auto-aperfeiçoada’. Ele refletiu com a Grande Sophia, sua consorte, e revelou seu unigênito, o filho andrógino. Seu nome masculino é designado ‘Primeiro Gerador Filho de Deus; seu nome feminino, ‘Primeira Geradora Sophia, Mãe do Universo.’ Alguns a chamam ‘Amor’. Porém, o Unigênito é chamado ‘Cristo’. Como ele tem autoridade de seu pai, ele criou uma multidão infindável de anjos como comitiva do Espírito e da Luz.”

Em seguida (outro) (princípio) veio do (Homem) Imortal, que é (chamado) (Gerador) “Auto-aperfeiçoado”. (Quando ele recebeu o consentimento) de seu (consorte), (a Grande Sophia, ele) revelou (que o andrógino unigênito), (é chamado) “(Filho) Unigênito (de Deus).” Seu aspecto feminino (é) Sophia (a Primeira)-gerada, (Mãe do Universo)”, que alguns chamam “Amor”. Ora, o Unigênito, como ele deriva (sua) autoridade de seu (pai), Ele criou anjos, infindáveis miríades, como comitiva. Toda esta multidão de anjos é chamada “Assembléia dos Divinos, as Luzes Sem Sombra”. Quando estes se cumprimentam, seus abraços tornam-se anjos como eles.

Seus discípulos disseram a ele: “Senhor, revela-nos a respeito daquele chamado ‘Homem’ para que nós também possamos conhecer exatamente a sua glória.”

O Salvador perfeito disse: “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. O Primeiro Pai Gerador é chamado ‘Adão, Olho da Luz,’ porque ele veio da Luz brilhante, (e) seus anjos sagrados, que são inefáveis (e) sem sombras, sempre se regozijam com júbilo em suas reflexões, que eles receberam de seu Pai. Todo o reino do Filho do Homem, que é chamado ‘Filho de Deus,’ está cheio de alegria inefável e sem sombra, um imutável júbilo, (com eles) se regozijando a propósito de sua glória imperecível, que nunca foi ouvida até agora, nem foi revelada nos eons que vieram depois com seus mundos. Eu vim do Auto-Gerado e da Primeira Luz Infinita para que eu possa revelar tudo a vocês.”

Mais uma vez seus discípulos disseram: “Diga-nos claramente como (aconteceu) que eles desceram das invisibilidades, do (reino) imortal para o mundo que morre?”

O Salvador perfeito disse: “O Filho do Homem consentiu com Sophia, sua consorte, e revelou uma grande luz andrógina. Seu nome masculino é designado como ‘Salvador, Gerador de Todas as Coisas.’ Seu nome feminino é designado como “Sophia a Geradora de Tudo.’ Alguns chamam-na de ‘Pistis’.

Então o Salvador consentiu com sua consorte, Pistis Sophia, e revelou seis seres espirituais andróginos que são do tipo daqueles que os precederam. Seus nomes masculinos são estes: primeiro, “Não-gerado”; segundo, “Auto-Gerado”; terceiro, “Gerador”; quarto, “Primeiro Gerador”; quinto, “Gerador de Tudo”; sexto, “Arqui-Gerador”. Os nomes femininos também são estes: primeiro, “Sophia Totalmente Sábia”; segundo, “Sophia Mãe de Tudo”; terceiro, “Sophia Geradora de Tudo”; quarto, “Sophia, a Primeira Geradora”; quinto, “Sophia Amor”; sexto, “Pistis Sophia”.

(A partir) do consentimento daqueles que acabei de mencionar, apareceram pensamentos nos eons que existem. Dos pensamentos, reflexões; das reflexões, considerações; das considerações, racionalizações; das racionalizações, vontades; das vontades, palavras.

Então os doze poderes que acabo de discutir, consentiram uns com os outros. (Seis) machos (de cada um) (e) (seis) fêmeas (de cada uma) foram reveladas, de tal forma que existem setenta e dois poderes. Cada um dos setenta e dois revelou cinco (poderes) espirituais que (juntos) são os trezentos e sessenta poderes. A união de todos eles é a vontade.

Portanto, nosso eon surgiu como a espécie de Homem Imortal. O tempo surgiu como a classe de Primeiro Gerador, seu filho. (O ano) surgiu como o exemplo de (Salvador. Os) doze meses surgiram como o símbolo dos doze poderes. Os trezentos e sessenta dias do ano surgiram como a classe dos trezentos e sessenta poderes que apareceram do Salvador. Suas horas e momentos surgiram como os tipos de anjos que deles vieram (os trezentos e sessenta poderes) (e) que são inumeráveis.

Todos os que vieram ao mundo, como uma gota da Luz, são enviados por ele ao mundo do Todo-Poderoso, para que possam ser protegidos por ele. E o vínculo de seu esquecimento o atou à vontade de Sophia, para que a matéria pudesse ser (revelada) por meio dele a todo o mundo em pobreza com relação à sua arrogância e cegueira (do Todo-Poderoso) e a ignorância com que foi designado.

Porém eu vim das localidades acima, pela vontade da grande Luz, que escapou daquele vínculo. Eu interrompi o trabalho dos ladrões. Despertei aquela gota que foi enviada de Sophia, para que ela possa dar muitos frutos por meu intermédio e ser aperfeiçoada e não mais ser defeituosa. E para que possa (se juntar) por meu intermédio, o Grande Salvador, para que sua glória possa ser revelada e que assim Sophia possa ser justificada também com relação àquele defeito, para que seus filhos não se tornem outra vez defeituosos, mas que possam alcançar a honra e a glória, subir a seu Pai e conhecer as palavras da Luz masculina.

E vocês foram enviados pelo Filho, que foi enviado para que vocês pudessem receber a Luz e se removerem do esquecimento das autoridades, e para que isto não possa mais ocorrer por sua causa, ou seja, o relacionamento impuro que vem do fogo terrível que se origina de sua parte carnal. Pise sobre a sua intenção maliciosa.

Então Tomas disse a (ele): “Senhor Salvador, quantos são os eons que ultrapassam os céus?”

O Salvador perfeito disse: “Louvo vocês porque perguntam a respeito dos grandes eons, pois suas raízes estão nos infinitos. Ora, quando aqueles sobre os quais eu discuti anteriormente foram revelados, ele (ofereceu)

(As páginas 109 e 110 estão faltando. Elas foram substituidas neste texto com a seção correspondente do Código Gnóstico de Berlim (nº 8502), cujo início é um pouco diferente da frase parcial final de III 108.)

Ora, quando aqueles sobre os quais eu discuti anteriormente foram revelados, o Pai Auto-Gerado muito em breve criou doze eons como comitiva para os doze anjos.

E em cada eon haviam seis (céus), e assim haviam setenta e dois céus dos setenta e dois poderes que surgiram dele. E em cada um dos céus haviam cinco firmamentos, portanto existem (ao todo) trezentos e sessenta (firmamentos) dos trezentos e sessenta poderes que surgiram deles.

Quando os firmamentos estavam completos, foram chamados “Os Trezentos e Sessenta Céus”, de acordo com o nome dos céus que estavam diante deles. E todos estes eram perfeitos e bons. E desta forma o defeito da feminilidade apareceu.

E (Tomas) disse a ele: “Quantos são os eons dos imortais, começando das infinidades?”

O Salvador perfeito disse: “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. O primeiro eon é o do Filho do Homem, que é chamado de ‘Primeiro Gerador’, que é chamado ‘Salvador’, que apareceu. O segundo eon (é) o do Homem, que é chamado ‘Adão, Olho da Luz’. O terceiro é o do filho do Filho do Homem, que é chamado de ‘Salvador’.

Aquilo que abraça estes é o eon sobre o qual não há reino, (o eon) do Deus Infinito Eterno, o Auto-Gerado eon dos eons que estão nele, (os eons) dos imortais, que eu descrevi anteriormente, (os eons) acima do Sétimo, que apareceu de Sophia, que é o primeiro eon.

Ora, o Homem Imortal revelou eons, poderes e reinos, e deu autoridade a todos que aparecem nele para que possam exercitar seus desejos até as últimas coisas que estão acima do caos. Pois estes consentiram uns com os outros e revelaram toda a magnificência, até mesmo do espírito, luzes numerosas que são gloriosas e sem número. Estas foram chamadas no princípio, isto é, o primeiro eon, (o) segundo e (o terceiro). O primeiro (é) chamado Unidade e Descanso.’ Cada um tem seu (próprio) nome. O (terceiro) eon foi designado ‘Assembléia’ devido ao grande número que apareceu: como um, uma multidão se revelou.

Ora, como as multidões se reúnem e chegam a unidade, (BG 111, 2-5 acrescenta aqui: portanto, (eles) são chamados ‘Assembléia’, devido àquela Assembléia que ultrapassa o céu) chamamos a elas de ‘Assembléia’ do Oitavo.’ Apareceu como andrógina e foi chamada parcialmente como macho e parcialmente como fêmea. O macho é chamado ‘Assembléia’, enquanto que a fêmea é chamada ‘Vida’, para que possa ser demonstrado que de uma fêmea veio a vida para todos os eons. E cada nome foi recebido, começando do princípio.

“Pois desta concordância com seu pensamento, em breve apareceram os poderes que eram chamados ‘deuses’. E (os) deuses dos deuses, por sua sabedoria revelaram deuses. (E os deuses) por sua sabedoria revelaram senhores. E os senhores dos senhores, por seu pensamento revelaram senhores. E os senhores, por seu poder revelaram arcanjos. Os arcanjos, por suas palavras revelaram anjos; destes, apareceram semelhanças com estrutura, forma e nome para todos os eons e seus mundos.

“E os imortais, que acabo de descrever, todos eles têm autoridade do Homem Imortal, ‘que é chamado ‘Silêncio’, porque ao refletir sem falar toda sua majestade foi aperfeiçoada.’ Pois desde o momento que os imperecíveis tiveram autoridade, cada qual criou um grande reino no Oitavo bem como tronos, templos (e) firmamentos para sua própria majestade. Pois todos estes surgiram pela vontade da Mãe do Universo.

Então os Santos Apóstolos disseram a ele: “Senhor, Salvador, fale-nos a respeito daqueles que estão nos eons, pois é necessário que perguntemos a respeito deles.” O Salvador perfeito disse: “Se vocês perguntarem a respeito de qualquer coisa, Eu lhes direi. Eles criaram hostes de anjos, números infindáveis para seu acompanhamento e sua glória. Eles criaram espíritos virgens, as luzes inefáveis e imutáveis. Pois elas não têm nenhuma doença nem fraqueza, mas simplesmente vontade. (BG 115,14 acrescenta aqui: E elas apareceram num instante.)

“Desta forma os eons foram completados rapidamente com os céus e os firmamentos na glória do Homem Imortal e de Sophia, sua consorte: (que são) a área da qual cada eon, o mundo e aqueles que vieram após, tiraram (seu) modelo para sua criação de semelhança nos céus do caos e de seus mundos. E todas as naturezas, começando da revelação do caos, estão na Luz que brilha sem sombra, no contentamento que não pode ser descrito e no júbilo impronunciável. Eles se deleitam para sempre em virtude de sua glória imutável e do descanso imensurável, que não pode ser descrito, entre todos os eons que apareceram depois e todos seus poderes. Ora, tudo o que acabo de dizer a vocês, disse para que vocês possam brilhar mais do que eles na Luz.”

Mas isto é suficiente. Tudo o que acabo de dizer a vocês, disse de uma forma que vocês possam aceitar, até que aquele que não precisa ser ensinado apareça entre vocês. Ele falará todas estas coisas a vocês com alegria e no conhecimento puro.

Maria disse a ele: “Santo Senhor, de onde vieram seus discípulos, para onde vão e (o que) eles deveriam fazer aqui?”

O Salvador perfeito disse a eles: “Quero que vocês saibam que Sophia, a Mãe do Universo e o consorte, desejou por si só trazer todos estes à existência sem seu (consorte) macho. Mas, pela vontade do Pai do Universo, para que sua bondade inimaginável possa ser revelada, ele criou aquela cortina entre os imortais e aqueles que vieram depois, para que a consequência pudesse acompanhar cada eon e o caos, e assim o defeito da fêmea pudesse (aparecer), e o Erro viesse a lutar com ela. E esta tornou-se a cortina do espírito.

(As páginas 115 e 116 estão faltando. Elas foram substituidas aqui pela seção correspondente do Código Gnóstico de Berlim , nº 8502.)

 

os eons acima das emanações da Luz, como já disse, uma gota da Luz e do Espírito desceram às regiões inferiores do Todo Poderoso no caos, para que suas formas moldadas pudessem aparecer daquela gota, pois isto é um julgamento sobre o Arqui-Gerador, que é chamado Yaldabaoth.’ Aquela gota revelou suas formas moldadas por meio do alento (sopro), como uma alma viva. Ela definhou e dormiu na ignorância da alma. Quando ela se tornou quente com o alento (sopro) da Grande Luz do Macho, e tomou pensamento, (então) nomes foram recebidos por todos os que estão no mundo do caos e por todas as coisas que estão nele por meio daquele Ser Imortal, quando o alento soprou dentro dele.

Mas quando isto ocorreu, pela vontade da Mãe Sophia para que o Homem Imortal pudesse ajuntar ali as vestes para um julgamento a respeito dos ladrões (ele) então recebeu com agrado o sopro daquele alento. Mas como ele era semelhante à alma, não foi capaz de tomar aquele poder para si mesmo até que o número do caos estivesse completo, (isto é,) quando o tempo determinado pelo grande anjo estiver completo.

Ora, lhes ensinei a respeito do Homem Imortal e soltei as amarras dos ladrões dele. Quebrei os portões dos impiedosos na presença deles. Humilhei a intenção maliciosa deles, e eles foram todos envergonhados e se elevaram de sua ignorância. Por causa disto, então, vim aqui para que eles possam ser unidos com aquele Espírito e Alento, aquele ( ….. ) e Alento, e que possam tornar-se de dois um, da mesma forma como do primeiro, para que vocês possam dar muito fruto e subir a Ele Que É desde o Princípio, em alegria e glória inefável, e (honra e) graça do (Pai do Universo).

“Quem conhece, (então), (o Pai em pura) gnosis (partirá) para o Pai (e repousará no) (Pai) Não-Gerado. Mas (quem o conhece) (de forma defeituosa) partirá (para o defeito e para o resto (do Oitavo. Ora,) quem conhece o (Espírito) Imortal de Luz no silêncio, por meio da reflexão e do consentimento na verdade, que me traga sinais do Ser Invisível, e ele se tornará uma luz no Espírito do Silêncio. Quem conhece o Filho do Homem na gnosis e no amor, que me traga um sinal do Filho do Homem, para que ele possa partir para os lugares de moradia com aqueles no Oitavo.

“Vejam, eu revelei a vocês o nome do Ser Perfeito, toda a vontade da Mãe dos Anjos Sagrados, para que a (multidão) masculina possa ser completada aqui, para que (possa aparecer nos eons,) (as infinidades e) aqueles que (surgiram na) insondável (riqueza do Grande Espírito) Invisível, (para que) todos (possam receber de sua bondade), mesmo a riqueza (de seu descanso) que não tem (reino sobre ele). Eu vim (do Primeiro) Que Foi Enviado, para que eu pudesse revelar a vocês Aquele Que É desde o Princípio, por causa da arrogância do Arqui-Gerador e de seus anjos, já que eles que são deuses. E eu vim para removê-los de sua cegueira para que possam dizer a todos a respeito do Deus que está acima do universo. Portanto, pisem sobre seus túmulos, humilhem sua intenção maliciosa, e destruam o seu jugo e assumam o meu. Dei autoridade a vocês sobre todas as coisas como Filhos da Luz, para que vocês possam pisar sobre o poder deles com (seus) pés.”

Estas são as coisas (que o) bem aventurado Salvador (disse), (e ele desapareceu) do meio deles. Então, (todos os discípulos) ficaram numa (grande alegria inefável) no (espírito) daquele dia em diante. (E seus discípulos) começaram a pregar (o) Evangelho de Deus, (o Espírito) eterno imperecível. Amem.

 

Notas explcativas para estudo deste Texto

 

(1)    Provável referência a doze que são mais íntimos, mais ‘fortes’, do núcleo mais interno – incluindo mulheres – e mais outros sete seguidores do círculo não tão íntimo, como um grupo intermediário, incluindo homens

(2)    Poder ser uma referência a um local físico, de encontro, ou a um estado de consciência no qual os discípulos se encontrassem para um aprofundamento nestas temáticas e que lhes tornava possível a presença do Senhor e sua percepção.

(3)    Ou ‘divina’.

(4)    Provavelmente uma alusão às potestades.

(5)    No oculto, o nível interno, nos planos mais sutis onde ele se encontrava. Este, provavelmente, não é o primeiro encontro que têm após a morte do Senhor.

(6)    No sentido de lhe dar sustento, geração, de mantê-la.

(7)    Referência ao estado de consciência elevado específico em que eram ministradas as instruções mais reservadas.

(8)    Como o universo passa do Caos à ordem.

(9)    Ele tem esta capacidade, este poder

(10)Outra tradução: ‘pela (semeadura ou) disseminação do atrito impuro’. Pode referir-se à geração carnal em oposição à regeneração espiritual, ou à contaminação pelo contato (atrito) com as idéias impuras.

(11)No Eugnosto a frase termina aqui com ‘exceto só ele’.

(12) No Eugnosto não há esta relação de dependência entre estas duas orações. Diz: ‘Ninguém o determina. Ele não tem nome’.

(13) Sobre este ponto, veja-se o Evangelho da Verdade atribuído a Valentino (séc II d.C.).

(14) No Eugnosto, ‘Ele tem sua própria aparência’.

(15) Esta parte se encontra, no texto SJC, na resposta a Tomé

Fonte e tradução: Raul Branco (Membro da Sociedade Teosófica pela Loja Brasília, de Brasília-DF)

 

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[…] NHC III, 2 — O Evangelho dos Egípcios  NHC III, 3 — Eugnostos, o abençoado NHC III, 4 — Sofia de Jesus Cristo NHC III, 5 — Diálogo do […]

[…] NHC III, 2 — O Evangelho dos Egípcios  NHC III, 3 — Eugnostos, o abençoado NHC III, 4 — Sofia de Jesus Cristo NHC III, 5 — Diálogo do […]

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-sophia-de-jesus-cristo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-sophia-de-jesus-cristo/

Do Enoque bíblico à gênese da Magia Enoquiana

Donald Tyson

A magia enoquiana é um sistema de teurgia, ou magia angelical, transmitida psiquicamente ao alquimista e vidente elizabetano Edward Kelley por um grupo de espíritos que veio a ser chamado de anjos enoquianos. Ao longo dos anos 1582-1587, os espíritos ditaram várias partes dessa magia para Kelley, ou a apresentaram na forma de visões enquanto Kelley olhava para uma bola de cristal.

Kelley repetia as palavras dos espíritos e descrevia as visões para seu amigo e empregador, o grande matemático, geógrafo e astrólogo Dr. John Dee. Dee sentou-se ao lado de Kelley durante as sessões de vidência com uma caneta na mão e papéis espalhados diante de si. Tudo o que Kelley dizia, Dee registrava literalmente. Graças ao método cuidadoso de Dee, as comunicações dos espíritos foram preservadas com a precisão de uma transcrição do tribunal.

Os anjos se identificaram para Kelley como os mesmos anjos que instruíram o patriarca Enoque na linguagem angélica e na sabedoria de Deus. Enoque foi o único patriarca do Antigo Testamento a ser elevado ao céu enquanto ainda estava vivo – pelo menos, esta foi a interpretação dos rabinos e cabalistas judeus de Gênesis 5:24: “E Enoque andou com Deus: e não se viu mais; porque Deus para si o tomou.” Todos os outros descendentes de Adão até Noé mencionado na Bíblia são explicitamente declarados mortos, mas não Enoque.

Ao longo dos séculos, uma tradição de sabedoria cresceu em torno de Enoque. Junto com Adão, Noé, Salomão e alguns outros, ele teria sido um dos responsáveis ​​por transmitir os ensinamentos primordiais dos anjos à humanidade. O livro apócrifo de Enoque surgiu dessa tradição. O evento-chave neste livro é uma descrição de como os anjos rebeldes, cobiçando as filhas dos homens, desceram à Terra e ensinaram à humanidade todas as artes e ciências do adorno, magia e guerra que semeiam conflitos em todo o mundo.

TEURGIA E GOETIA

De acordo com o anjo Ave, esses anjos maus foram autorizados a descer sobre a Terra e espalhar ensinamentos falsos e destrutivos porque os reis da Terra se tornaram arrogantes através do uso da sabedoria legada a eles por Enoque. Como punição, Deus enviou anjos falsos e enganadores para ensinar o que hoje é conhecido como magia negra. Desta forma, Deus permitiu que a humanidade fosse o instrumento de sua própria punição. No entanto, Ave diz a Kelley, Deus decidiu permitir que a verdadeira sabedoria de Enoque, como preservada em seus livros celestiais, seja novamente conhecida na Terra. Dee e Kelley deveriam ser os instrumentos de sua disseminação:

“O Senhor apareceu a Enoque, e foi misericordioso com ele, abriu seus olhos para que ele pudesse ver e julgar a terra, que era desconhecida de seus pais, por causa de sua queda; porque o Senhor disse: Mostremos a Enoque, o uso da terra: E eis que Enoque era sábio e cheio do espírito de sabedoria.”

E ele disse ao Senhor: Que haja lembrança da tua misericórdia, e que aqueles que te amam provem disto depois de mim: Oh, não seja esquecida a tua misericórdia. E o Senhor se agradou. E depois de 50 dias Enoque escreveu: e este foi o título de seus livros, aqueles que temem a Deus, e são dignos de serem lidos.

Mas eis que o povo se tornou perverso e se tornou injusto, e o espírito do Senhor estava longe e se afastou deles. De modo que aqueles que eram indignos começaram a ler. E os reis da terra disseram assim contra o Senhor: O que é que não podemos fazer? Ou quem é ele, que pode resistir a nós? E o Senhor se aborreceu, e enviou entre eles cento e cinqüenta leões, e espíritos de maldade, erro e engano; e eles apareceram para eles. Porque o Senhor os colocou entre os anjos bons aqueles que são maus. E eles começaram a falsificar as obras de Deus e seu poder, pois eles tinham poder dado a eles para fazê-lo de modo que a memória de Enoque se apagou e os espíritos do erro começaram a ensinar-lhes Doutrinas: que de tempos em tempos até esta era e até hoje, se espalhou por todas as partes do mundo, e é a habilidade e astúcia dos maus.

Assim eles falam com os demônios: não porque eles têm poder sobre os demônios, mas porque eles são unidos a eles na liga e disciplina de sua própria doutrina.

Pois eis que, como o conhecimento das figuras místicas e o uso de sua presença é o dom de Deus entregue a Enoque, e por Enoque aos fiéis, para que assim eles possam ter o verdadeiro uso das criaturas de Deus e do terra em que habitam: Assim o diabo entregou aos ímpios os sinais e sinais de seu erro e ódio para com Deus; condenação eterna.

A estes chamados caracteres são uma coisa lamentável. Pois por destes, muitas Almas pereceram.

Agora aprouve a Deus libertar esta Doutrina novamente das trevas e cumprir sua promessa contigo, para os livros de Enoque: A quem ele diz como disse a Enoque.

Que aqueles que são dignos entendam isso por ti, para que seja uma testemunha da minha promessa para contigo.”

Deus promete diretamente a John Dee, por meio de seu mensageiro, o anjo Ave, e por meio do vidente de Dee, Edward Kelley, que o sistema de magia que está sendo revelado a Dee é a sabedoria genuína de Enoque pela qual pode ser obtido “o uso da terra”. Os cento e cinquenta leões, “espíritos de maldade, erro e engano” são os mesmos anjos caídos que, no Livro de Enoque, pecam com mulheres mortais e ensinam ciências corruptoras à humanidade. De acordo com Ave, esse falso ensinamento consistia principalmente em magia demoníaca, ou goetia.

É comum que os proponentes de um sistema de religião, filosofia ou magia afirmem que a sua é a única prática legítima e que todos os métodos que diferem dela são corruptores e falsos. Ao caluniar outras formas de magia, os anjos esperam elevar seus próprios ensinamentos e dar-lhes uma importância maior aos olhos de Dee.

Kelley, que antes de sua associação com Dee tinha um conhecimento considerável em primeira mão de necromancia e outras formas de magia negra, diz a Ave que a sabedoria de Enoque parece muito com magia comum para ele, mas Ave garante a Kelley. “Não, todos eles apenas brincaram com isso”, significando que todas as formas de magia, exceto a magia enoquiana, são meros brinquedos de que a magia enoquiana é a única teurgia verdadeira aprovada por Deus e aceita pelos anjos do céu.

OS PORTÕES E AS CHAVES

É importante entender que a magia enoquiana se preocupa apenas com a convocação ritual e o comando de anjos e espíritos inferiores. Ao falar sobre as evocações formais enoquianas conhecidas como Chamadas ou Chaves, o anjo Mapsama diz a Dee:

“Esses Chamados tocam todas as partes do Mundo. O Mundo pode ser tratado em todas as suas partes; Portanto, você pode fazer qualquer coisa. Esses Chamados são as chaves para os Portões e Cidades da sabedoria. Tais portões não podem ser abertos senão com aparição visível.”

Os portões para as cidades da sabedoria são quarenta e nove em número. No entanto, um dos portões é sagrado demais para ser aberto, então as chaves reais são quarenta e oito. As cidades da sabedoria são reinos espirituais habitados por diferentes hierarquias de anjos com funções distintas na terra. Essas cidades celestiais são representadas por quarenta e nove quadrados de números/letras extremamente complexos que contêm quarenta e nove linhas e quarenta e nove colunas. Tomados em conjunto, os anjos referem-se a esses quadrados como o Livro de Enoque. Um dos quadrados está representado em uma placa no início de Uma Relação Verdadeira e Fiel, de Meric Casaubon. Sobre esses quadrados mágicos, Nalvage diz a Dee:

Você tem 49 Tábuas: Nessas Tábuas estão contidas as vozes místicas e sagradas dos Anjos: as dignas e as em estado desgraça e encharcadas de confusão  que perfuram o Céu e olham para o Centro da Terra: a própria linguagem e fala das Crianças e Inocentes, que engrandecem o nome de Deus e são puras”.

As tábua servem como o solo caótico de onde as palavras das Chaves são extraídas letra por letra tortuosa durante as sessões de vidência. Kelley observava no cristal enquanto um anjo apontava para uma parte ou outra da tábua em questão e então mostrava a posição para Dee, que então procurava em sua cópia da tabua e escrevia a letra que era encontrada lá. As Chaves Enoquianas foram extraídas das tábuas e entregues desta forma, de trás para a frente e uma letra de cada vez.

As energias ocultas dessas tábuas são incorporadas coletivamente em uma única tábua de letras com quatro quadrantes chamada de Grande Tábua. É um diagrama esquemático mágico de todo universo enoquiano. Cada quadrante da Grande Mesa é conhecido como Torre de Vigia. As Chaves abrem os portões para as cidades dos anjos cujos nomes estão escritos nas Torres de Vigia e os chamam, junto com seus numerosos servos. Juntas, as quarenta e oito Chaves Enoquianas e a Grande Mesa das quatro torres de vigia formam o coração da magia enoquiana.

O LIVRO DAS FOLHAS PRATEADAS

Há outro livro falado pelos anjos que está indubitavelmente ligado ao livro dos quadrados mágicos. Dee é instruído a construí-lo com folhas em branco em preparação para receber a O Livro dos Espíritos já era uma prática comum da magia angelical na idade média. Eles continham os nomes, sigilos e, ocasionalmente, imagens dos espíritos que estão vinculados ao serviço do mago – geralmente após um trabalho ritual intenso e envolvente até alcançar a evocação inicial dos espíritos. Os próprios espíritos escreviam o livro, assinam-no com suas marcas e assinaturas, ou pelo menos juram obediência a ele. É claro que os espíritos não são realmente capazes de escrever no livro. Isso é realizado possuindo o mago sem sua consciência e usando o corpo do mago para escrever ou assinar o Livro dos Espíritos.

No caso de Dee, os anjos das quarenta e oito cidades espirituais que podem ser abertas pelas Chaves foram representados por símbolos ocultos que provavelmente continham combinações de letras e números. No entanto, nunca saberemos o que o Livro das Folhas Prateadas deveria conter, já que a cópia de Dee não sobreviveu. Esses sinais misteriosos deveriam ser inscritos em pergaminho prateado pela poderosa Mãe de muitos dos anjos enoquianos, um ser tão exaltado que ela se identifica apenas com o título EU SOU, que é equivalente ao nome hebraico de Deus, Eheich. Ela parece ser o mesmo anjo que é a Rainha do Céu de Apocalipse 12:1.

O TRABALHO ENOQUIANO

A inscrição do Livro das Folhas Prateadas de Dee ocorreria após um período de dezoito dias de trabalho ritual durante o qual uma evocação original composta por Dee e Kelley deveria ser dita a cada dia. Nos primeiros quatro dias de trabalho, Dee foi instruído por Ave a dirigir sua evocação apenas aos nomes de Deus; para após quatorze dias, Dee  evocar as hierarquias dos anjos pelos nomes específicos de Deus que regem cada um:

“Quatro dias… você deve invocar apenas esses nomes de Deus, ou o Deus dos Exércitos, nesses nomes: E 14 dias depois de você (neste, ou em algum lugar conveniente) deve Chamar os Anjos por Petição, e peloo nome de Deus, ao qual são obedientes.”

No 15º dia vocês se revestirão, em vestes feitas de linho branco: e assim terão a aparição, uso e prática das Criaturas. Pois, não é um trabalho de anos, nem de muitos dias.

As Criaturas às quais Ave se refere parecem ser os anjos dos Trinta Aethers ou Airs, que são representados pelas últimas trinta Chaves Enoquianas. Essas chaves são realmente uma única chamada ou convocação para trinta diferentes zonas ou esferas angélicas chamadas Aethers. Apenas os nomes dos Éteres mudam nas últimas trinta Chaves – eles são idênticos. Por esta razão, a décima nona Chave é conhecida como a Chave dos Trinta Aethers. Os Príncipes dos Aethers governam os espíritos menores das regiões ou reinos do mundo. Eram esses espíritos geográficos que Dee mais queria controlar.

Sobre as vestes e o livro usado durante este trabalho, Ave diz: “Você nunca deve usar o Garment depois, mas apenas uma vez, nem o livro.” Kelley objeta com bastante razão: “Para que fim o livro é feito então, se não for para ser usado depois.” Dee um tanto irritado escuta de Kelley: “É feito para ser usado naquele dia apenas..”

Há alguma ambiguidade aqui sobre qual livro está sendo discutido. Kelley parace falar do livro de nomes e invocações que ele e Dee são ordenados a criar. Sobre este livro de exercícios, que chamarei de Livro dos Espíritos de Dee, Ave diz a Dee: “O Livro consiste de Invocação dos nomes de Deus, e invocação dos Anjos e pelos nomes de Deus seus ofícios são manifestados”. Essa parece ter sido a função de todos o os dezoito dias de trabalho, e talvez de trabalho posterior. Dee realmente criou um modelo para este Livro dos Espíritos invocando os nomes de Deus e dos anjos. Estes formam o manuscrito de Dee Liber Scientiae Auxilii e Victoriae Terrestris, que ainda existe e é mantida na Biblioteca Britânica.

Já o anjo Ave provavelmente fala do livro de folhas em branco e prateadas que deve ser inscrito sobrenaturalmente por sua mãe. Este Livro de Prata seria usado apenas no único dia em que os anjos jurassem obediência a Dee. O prateamento das folhas sugere que a Mãe dos anjos é uma deusa lunar, e que a magia enoquiana é de natureza lunar. Segunda-feira (o dia da Lua) parece ser o sábado enoquiano.”

MAGIA ENOQUIANA PROIBIDA PARA DEE E KELLEY

Não há evidência de que Dee e Kelley alguma vez tenham conduzido este trabalho para usar o o poder dos anjos enoquianos. Eles estavam esperando a permissão dos anjos para fazê-lo, mas essa permissão nunca foi concedida.

Mapsama: Você pediu sabedoria, Deus abriu para você, seu julgamento: Ele entregou a você as chaves, para que você possa entrar; Mas seja humilde. Entre não de presunção, mas de permissão. Não entre precipitadamente; Mas seja trazido de bom grado: pois muitos subiram, mas poucos entraram. No domingo você terá todas as coisas que precisam ser ensinadas; então (conforme a ocasião servir) você pode praticar o tempo todo. Mas você está sendo chamado por Deus, e para um bom propósito.

Dee: Como devemos entender este Chamado de Deus?

Mapsama: Deus cala minha boca, não te responderei mais.”

É evidente para mim, a partir de um estudo minucioso das transcrições enoquianas, que os anjos pretendiam que Dee tivesse o sistema de magia enoquiana, mas nunca pretendiam permitir que ele realmente o usasse. Dee e Kelley serviram como instrumentos humanos através dos quais os anjos foram capazes de transmitir a magia enoquiana à raça humana. Gabriel diz a Dee e Kelley: “Mas em vocês dois está a hora de chegar.” Os anjos garantem a Dee e Kelley que eles continuarão a prosperar e a serem seguros enquanto permanecerem juntos, porque são duas partes de um único todo. “O Vidente deixe-o ver, e cuide do que ele vê, pois você é apenas um corpo nesta obra.”

Kelley recebeu o dom da segunda visão apenas para que ele pudesse ajudar Dee a receber a magia enoquiana.

Um vendedor obscuro poderia se gabar de sua beleza só porque recebe luz e clareza, por uma vela trazida ou brilhando nela? Não mais podes tu, (E.K.) para o amadurecimento de tua inteligência e  compreensão é através da nossa presença, e nossa iluminação. Mas se partirmos, você se tornará um vendedor obscuro e pensará muito bem de si mesmo em vão.”

Em outro lugar, o anjo Uriel, falando na voz de Deus, diz a Kelley: “Farei de ti um grande Vidente: Aquele que julgará o Círculo das coisas na natureza. Mas o entendimento celestial e o conhecimento espiritual serão selados de ti neste mundo.” Kelley é considerado pelos anjos como pouco mais do que um telefone psíquico através do qual eles podem alcançar a mente consciente de John Dee. Os anjos pouco toleram suas suspeitas e abuso verbal. Eles sabem que Kelley os detesta e os considera enganadores.

Os anjos respeitam Dee por sua grande piedade e sabedoria, mas mesmo ele não terá permissão para atingir a plena compreensão da magia enoquiana. O anjo Gabriel diz isso a Dee e faz mais referência à necessidade de Dee e Kelley permanecerem juntos como uma unidade orgânica (mesmo ao ponto de compartilhar suas esposas em comum, um evento futuro prefigurado aqui):

“Nunca conhecereis os mistérios de todas as coisas que foram ditas. Se vocês amarem juntos, e habitarem juntos, e em um só Deus, então o mesmo Deus se compadecerá de vós, que vos abençoará, vos consolará e fortalecerá  vocês até o fim.”

Dee e Kelley eram duas metades de uma máquina humana para receber e registrar os mistérios das comunicações angélicas. Kelley tinha a habilidade de perceber os anjos e seus ensinamentos. Dee teve a inteligência para entendê-los e transcrevê-los com precisão e corrigir quaisquer erros que ocorressem durante sua transmissão. Nenhum homem poderia ter gerado o sistema de magia enoquiana sozinho. Cada um atuou como um catalisador para o outro.

*Excerto da obra Magia Enoquiana para Iniciantes

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/do-enoque-biblico-a-genese-da-magia-enoquiana/

Deus e o Estado

Três elementos ou três princípios fundamentais constituem, na história, as condições essenciais de todo desenvolvimento humano, coletivo ou individual:

1º) a animalidade humana;
2º) o pensamento;
3º) a revolta.

À primeira corresponde propriamente a economia social e privada; à segunda, a ciência; à terceira, a liberdade.

Os idealistas de todas as escolas, aristocratas e burgueses, teólogos e metafísicos, políticos e moralistas, religiosos, filósofos ou poetas, sem esquecer os economistas liberais, adoradores desmedidos do ideal, como se sabe, ofendem-se muito quando se lhes diz que o homem, com sua inteligência magnífica, suas idéias sublimes e suas aspirações infinitas, nada mais é, como tudo o que existe neste inundo, que um produto da vil matéria.

Poderíamos responder-lhes que a matéria da qual falam os materialistas, matéria espontaneamente, eternamente móvel, ativa, produtiva, a matéria química ou organicamente determinada e manifesta pelas propriedades ou pelas forças mecânicas, físicas, animais e inteligentes, que lhe são forçosamente inerentes, esta matéria nada tem de comum com a vil matéria dos idealistas. Esta última, produto de falsa abstração, é efetivamente uma coisa estúpida, inanimada, imóvel, incapaz de dar vida ao mínimo produto, um caput mortuum, uma infame imaginação oposta a esta bela imaginação que eles chamam Deus; em relação ao Ser supremo, a matéria, a matéria deles, despojada por eles mesmos de tudo o que constitui sua natureza real, representa necessariamente o supremo nada. Eles retiraram da matéria a inteligência, a vida, todas as qualidades determinantes, as relações ativas ou as forças, o próprio movimento, sem o qual a matéria sequer teria peso, nada lhe deixando da impenetrabilidade e da imobilidade absoluta no espaço; eles atribuíram todas estas forças, propriedades ou manifestações naturais ao ser imaginário criado por sua fantasia abstrativa; em seguida, invertendo os papéis, denominaram este produto de sua imaginação, este fantasma, este Deus que é o nada, “Ser supremo”; e, por conseqüência necessária, declararam que o Ser real, a matéria, o mundo, era o nada. Depois disso eles vêm nos dizer gravemente que esta matéria é incapaz de produzir qualquer coisa que seja, até mesmo colocar-se em movimento por si mesma, e que por conseqüência deve ter sido criada por seu Deus.

Quem tem razão, os idealistas ou os materialistas? Uma vez feita a pergunta, a hesitação se torna impossível. Sem dúvida, os idealistas estão errados e os materialistas certos. Sim, os fatos têm primazia sobre as idéias; sim, o ideal, como disse Proudhon, nada mais é do que uma flor, cujas condições materiais de existência constituem a raiz. Sim, toda a história intelectual e moral, política e social da humanidade é um reflexo de sua história econômica.

Todos os ramos da ciência moderna, da verdadeira e desinteressada ciência, concorrem para proclamar esta grande verdade, fundamental e decisiva: o mundo social, o mundo propriamente humano, a humanidade numa palavra, outra coisa não é senão o desenvolvimento supremo, a manifestação mais elevada da animalidade pelo menos para nós e em relação ao nosso planeta. Mas como todo desenvolvimento implica necessariamente uma negação, a da base ou do ponto de partida, a humanidade é, ao mesmo tempo e essencialmente, a negação refletida e progressiva da animalidade nos homens; e é precisamente esta negação, racional por ser natural, simultaneamente histórica e lógica, fatal como o são os desenvolvimentos e as realizações de todas as leis naturais no mundo, é ela que constitui e que cria o ideal, o mundo das convicções intelectuais e morais, as idéias.

Sim, nossos primeiros ancestrais, nossos Adão e Eva foram, senão gorilas, pelo menos primos muito próximos dos gorilas, dos onívoros, dos animais inteligentes e ferozes, dotados, em grau maior do que o dos animais de todas as outras espécies, de duas faculdades preciosas: a faculdade de pensar e a necessidade de se revoltar.

Estas duas faculdades, combinando sua ação progressiva na história, representam a potência negativa no desenvolvimento positivo da animalidade humana, e criam consequentemente tudo o que constitui a humanidade nos homens. A Bíblia, que é um livro muito interessante, e aqui e ali muito profundo, quando o consideramos como uma das mais antigas manifestações da sabedoria e da fantasia humanas, exprime esta verdade, de maneira muito ingênua, em seu mito do pecado original. Jeová, que, de todos os bons deuses adorados pelos homens, foi certamente o mais ciumento, o mais vaidoso, o mais feroz, o mais injusto, o mais sanguinário, o mais despótico e o maior inimigo da dignidade e da liberdade humanas, Jeová acabava de criar Adão e Eva, não se sabe por qual capricho, talvez para ter novos escravos. Ele pôs, generosamente, à disposição deles toda a terra, com todos os seus frutos e todos os seus animais, e impôs um único limite a este completo gozo: proibiu-os expressamente de tocar os frutos da árvore de ciência. Ele queria, pois, que o homem, privado de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal, sempre de quatro patas diante do Deus “vivo”, seu criador e seu senhor. Mas eis que chega Satã, o eterno revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador dos mundos! Ele faz o homem se envergonhar de sua ignorância e de sua obediência bestiais; ele o emancipa, imprime em sua fronte a marca da liberdade e da humanidade, levando-o a desobedecer e a provar do fruto da ciência.

Conhece-se o resto. O bom Deus, cuja presciência, constituindo uma das divinas faculdades, deveria tê-lo advertido do que aconteceria, pôs-se em terrível e ridículo furor: amaldiçoou Satã, o homem e o mundo criados por ele próprio, ferindo-se, por assim dizer, em sua própria criação, como fazem as crianças quando se põem em cólera; e não contente em atingir nossos ancestrais, naquele momento ele os amaldiçoou em todas as suas gerações futuras, inocentes do crime cometido por seus ancestrais .

Nossos teólogos católicos e protestantes acham isto muito profundo e justo, precisamente porque é monstruosamente iníquo e absurdo. Depois, lembrando-se de que ele não era somente um Deus de vingança e cólera, mais ainda, um Deus de amor, após ter atormentado a existência de alguns bilhões de pobres seres humanos e tê-los condenado a um eterno inferno, sentiu piedade e para salvá-los, para reconciliar seu amor eterno e divino com sua cólera eterna e divina, sempre ávida de vítimas e de sangue, ele enviou ao mundo, como uma vítima expiatória, seu filho único, a fim de que ele fosse morto pelos homens. Isto é denominado mistério da Redenção, base de todas as religiões cristãs.

Ainda se o divino Salvador tivesse salvo o mundo humano! Mas não; no paraíso prometido pelo Cristo, como se sabe, visto que é formalmente anunciado, haverá poucos eleitos. O resto, a imensa maioria das gerações presentes e futuras arderão eternamente no inferno. Enquanto isso, para nos consolar, Deus, sempre justo, sempre bom, entrega a terra ao governo dos Napoleão III, Guilherme 1, Ferdinando da Áustria e Alexandre de todas as Rússias.

Tais são os contos absurdos que se narram e as doutrinas monstruosas que se ensinam, em pleno século XIX, em todas as escolas populares da Europa, sob ordem expressa dos governos. Chama-se a isto civilizar os povos! Não é evidente que todos os governos são os envenenadores sistemáticos, os embrutecedores interessados das massas populares?

Eis os ignóbeis e criminosos meios que eles empregam para reter as nações em eterna escravidão, a fim de poder melhor despojá-las, sem dúvida nenhuma. O que são os crimes de todos os Tropmann do mundo, em presença deste crime de lesa-humanidade que se comete quotidianamente, abertamente, sobre toda a superfície do mundo civilizado, por aqueles mesmos que ousam chamar-se de tutores e pais dos povos?

Entretanto, no mito do pecado original, Deus deu razão a Satã; ele reconheceu que o diabo não havia enganado Adão e Eva ao lhes prometer a ciência e a liberdade, como recompensa pelo ato de desobediência que ele os induzira a cometer. Assim que eles provaram do fruto proibido, Deus disse a si mesmo (ver a Bíblia): “Aí está, o homem tornou-se como um dos deuses, ele conhece o bem e o mal; impeçamo-lo pois de comer o fruto da vida eterna, a fim de que ele não se torne imortal como Nós”. Deixemos agora de lado a parte fabulosa deste mito, e consideremos seu verdadeiro sentido, muito claro, por sinal. O homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu homem; ele começou sua história e seu desenvolvimento especificamente humano por um ato de desobediência e de ciência, isto é, pela revolta e pelo pensamento .

O sistema dos idealistas apresenta-nos inteiramente ao contrário. É a reviravolta absoluta de todas essas experiências humanas e deste bom senso universal e comum, que é a condição essencial de qualquer conhecimento humano, e que, partindo desta verdade tão simples, há tanto tempo reconhecida, que 2 mais 2 são 4, até às considerações científicas mais sublimes e mais complicadas, não admitindo, por sinal, nada que não seja severamente confirmado pela experiência e pela observação das coisas e dos fatos, constitui a única base séria dos conhecimentos humanos.

Concebe-se perfeitamente o desenvolvimento sucessivo do mundo material, tanto quanto o da vida orgânica, animal, e da inteligência historicamente progressiva do homem, individual ou social. É um movimento completamente natural, do simples ao composto, de baixo para cima, ou do inferior ao superior; um movimento conforme a todas as nossas experiências quotidianas e, consequentemente, conforme também à nossa lógica natural, às leis próprias de nosso espírito, que só se formam e só podem desenvolver-se com a ajuda destas mesmas experiências, que nada mais são senão sua reprodução mental, cerebral, ou o resumo ponderado.

Longe de seguir a via natural, de baixo para cima, do inferior ao superior, e do relativamente simples ao mais complicado; ao invés de admitir sabiamente, racionalmente, a transição progressiva e real do mundo denominado inorgânico ao mundo orgânico, vegetal, animal, em seguida especialmente humano; da matéria ou do ser químico à matéria ou ao ser vivo, e do ser vivo ao ser pensante, os idealistas, obsedados, cegos e impulsionados pelo fantasma divino que herdaram da teologia, tomam a via absolutamente contrária. Eles vão de cima para baixo, do superior ao inferior, do complicado ao simples. Eles começam por Deus, seja como pessoa, seja como substância ou idéia divina, e o primeiro passo que dão é uma terrível queda das alturas sublimes do eterno ideal na lama do mundo material: da perfeição absoluta na imperfeição absoluta; do pensamento ao ser, ou ainda, do Ser Supremo ao Nada. Quando, como o por que o Ser divino, eterno, infinito, o perfeito absoluto, provavelmente entediado de si mesmo, decidiu-se a esse salto mortal desesperado, eis o que nenhum idealista, nem teólogo, nem metafísico, nem poeta, jamais soube compreender, nem explicar aos profanos. Todas as religiões passadas e presentes e todos os sistemas de filosofia transcendentes apoiam-se nesse único e iníquo mistério[‘].

Santos homens, legisladores inspirados, profetas e messias, procuraram lá a vida e só encontraram a tortura e a morte. Assim como a esfinge antiga, ele os devorou, porque não souberam explicar esse mistério. Grandes filósofos, desde Heráclito e Platão até Descartes, Spinoza, Leibnitz, Kant, Fichte, Schelling e Hegel, sem falar dos filósofos hindus, escreveram amontoados de volumes e criaram sistemas tão engenhosos quanto sublimes, nos quais disseram passagens muito belas, e grandes coisas, e descobriram verdades imortais, mas deixaram este mistério, objeto principal de suas investigações transcendentes, tão insondável quanto antes deles.

Os esforços gigantescos dos mais admiráveis gênios que o mundo conhece, e que, uns após outros, durante trinta séculos pelo menos, empreenderam sempre esse trabalho de Sísifo, só conseguiram tornar este mistério mais incompreensível ainda. Podemos esperar que ele nos seja desvendado pelas especulações rotineiras de algum pedante discípulo de uma metafísica artificialmente requentada, numa época em que todos os espíritos vivos e sérios desviaram-se dessa ciência equivoca, saída de uma transação entre o contra-senso da fé e a sadia razão científica? É evidente que esse terrível mistério é inexplicável, isto é, absurdo, e absurdo porque não se deixa explicar. E evidente que alguém que dele necessite para sua felicidade, para sua vida, deve renunciar à sua razão e retornar, caso seja possível, à fé ingênua, cega, estúpida; repetir com Tertuliano e com todos os crentes sinceros estas palavras que resumem a própria quintessência da teologia: Credo quja absurdum.

Nesse caso cessa toda a discussão e só resta a estupidez triunfante da fé. Mas logo em seguida surge uma outra pergunta: Como pode nascer, em um homem inteligente e instruído, a necessidade de crer nesse mistério? Que a crença em Deus, criador, ordenador, juiz, senhor, amaldiçoador, salvador e benfeitor do mundo, tenha se conservado no povo, e sobretudo nas populações rurais, muito mais do que no proletariado das cidades, nada mais natural.

O povo, infelizmente, é ainda muito ignorante e mantido na ignorância pelos esforços sistemáticos de todos os governos que consideram isso, com muita razão, como uma das condições essenciais de seu próprio poder. Esmagado por seu trabalho quotidiano, privado de lazer, de comércio intelectual, de leitura, enfim, de quase todos os meios e de uma boa parte dos estímulos que desenvolvem a reflexão nos homens, o povo aceita, na maioria das vezes, sem crítica e em bloco, as tradições religiosas. Elas o envolvem desde a primeira idade, em todas as circunstâncias de sua vida, artificialmente mantidas em seu seio por uma multidão de corruptores oficiais de todos os tipos, padres e leigos, elas se transformam entre eles em um tipo de hábito mental, freqüentemente mais poderoso do que seu bom senso natural.

Há uma outra razão que explica e legitima de certo modo as crenças absurdas do povo. Esta razão é a situação miserável à qual ele se encontra fatalmente condenado pela organização econômica da sociedade, nos países mais civilizados da Europa. Reduzido, sob o aspecto intelectual e moral, tanto quanto sob o aspecto material, ao mínimo de uma existência humana, recluso em sua vida como um prisioneiro em sua prisão, sem horizontes, sem saída, até mesmo sem futuro, se se acredita nos economistas, o povo deveria ter a alma singularmente estreita e o instinto aviltado dos burgueses para não sentir a necessidade de sair disso; mas, para isso, há somente três meios: dois fantásticos, e o terceiro real. Os dois primeiros são o cabaré e a igreja; o terceiro é a revolução social. Esta última, muito mais que a propaganda antiteológica dos livres-pensadores, será capaz de destruir as crenças religiosas e os hábitos de libertinagem no povo, crenças e hábitos que estão mais intimamente ligados do que se pensa. Substituindo os gozos simultaneamente ilusórios e brutais da orgia corporal e espiritual pelos gozos tão delicados quanto ricos da humanidade desenvolvida em cada um e em todos, a revolução social terá a força de fechar ao mesmo tempo todos os cabarés e todas as igrejas. Até lá, o povo, considerado em massa, crerá, e se não tem razão de crer, pelo menos terá o direito de fazê-lo .

Há uma categoria de pessoas que, se não crêem, devem pelo menos fazer de conta que sim. São todos os atormentadores, os opressores, os exploradores da humanidade: padres, monarcas, homens de Estado, homens de guerra, financistas públicos e privados, funcionários de todos os tipos, soldados, policiais, carcereiros e carrascos, capitalistas, aproveitadores, empresários e proprietários, advogados, economistas, políticos de todas as cores, até o último vendedor de especiarias, todos repetirão em uníssono essas palavras de Voltaire: “Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo”. Vós compreendeis, “é preciso uma religião para o povo”. E a válvula de escape. Há também um número de almas honestas, mas fracas, que, muito inteligentes para levar os dogmas cristãos a sério, rejeita-os a retalho, mas não têm a coragem, nem a força, nem a resolução necessária para repeli-los por atacado. Elas abandonam à crítica todos os absurdos particulares da religião, elas desdenham de todos os milagres, mas se agarram desesperadamente ao absurdo principal, fontes de todos os outros, ao milagre que explica e legitima todos os outros milagres, à existência de Deus.

Seu Deus não é, em nada, o Ser vigoroso e potente, o Deus totalmente positivo da teologia. E um ser nebuloso, diáfano, ilusório, de tal forma ilusório que se transforma em Nada quando se acredita tê-lo agarrado; é uma miragem, uma pequena chama que não aquece nem ilumina. E entretanto elas se prendem a ele, e acreditam que se ele desaparecesse, tudo desapareceria com ele. São almas incertas, doentes, desorientadas na civilização atual, não pertencendo nem ao presente nem ao futuro, pálidos fantasmas eternamente suspensos entre o céu e a terra, e ocupando, entre a política burguesa e o socialismo do proletariado, absolutamente a mesma posição. Elas não seu tem força para pensar até o fim, nem para querer, nem para se decidir, e perdem seu tempo e sua ocupação esforçando-se sempre em conciliar o inconciliável. Na vida pública, estas pessoas se chamam socialistas burgueses .

Nenhuma discussão é possível com elas. Elas são muito doentes.

Mas há um pequeno número de homens ilustres, dos quais ninguém ousará falar sem respeito, e dos quais nada poderá colocar em dúvida nem a saúde vigorosa, nem a força de espírito, nem a boa fé. Basta que eu cite os nomes de Mazzini, Michelet, Quinet, John Stuart Mill [2] Almas generosas e fortes, grandes corações, grandes espíritos, grandes escritores, o primeiro, regenerador heróico e revolucionário de uma grande nação, são todos apóstolos do idealismo, e desprezadores, adversários apaixonados do materialismo, e, consequentemente, do socialismo, em filosofia tanto quanto em política. É pois contra eles que é preciso discutir esta questão.

* * *

Constatemos inicialmente que nenhum dos homens ilustres que acabo de citar, nem qualquer outro pensador idealista com alguma importância em nossos dias ocupou-se, para dizer a verdade, com a parte lógica desta questão. Nenhum tentou resolver filosoficamente a possibilidade do salto mortal divino das regiões eternas e puras do espírito à lama do mundo material. Será que eles temeram abordar esta insolúvel contradição e se desesperaram de resolvê-la, depois que os maiores gênios da história fracassaram, ou será que eles a consideraram como já suficientemente resolvida? É segredo deles. O fato é que eles deixaram de lado a demonstração teórica da existência de um Deus, e só desenvolveram suas razões e conseqüências práticas. Eles falaram dele como de um fato universalmente aceito e, como tal, não podendo mais tornar-se objeto de uma dúvida qualquer, limitando-se, contra qualquer prova, a constatar a antigüidade e mesmo a universalidade da crença em Deus .
Esta unanimidade imponente, segundo a opinião de muitos homens e escritores ilustres, e, para citar apenas os mais renomados dentre eles, Joseph de Maistre e o grande patriota italiano Giuseppe Mazzini, vale mais do que todas as demonstrações da ciência; e, se a lógica de um pequeno número de pensadores conseqüentes e mesmo muito influentes, mas isolados, lhe é contrária, tanto pior, dizem eles, para estes pensadores e para sua lógica, pois o consentimento geral, a adoção universal e antiga de uma idéia foram sempre consideradas como a prova mais vitoriosa de sua verdade.

O sentimento de todo o mundo, uma convicção que é encontrada e se mantém sempre e em todos os lugares não poderia se enganar; eles devem ter sua raiz numa necessidade absolutamente inerente à própria natureza do homem. E visto que foi constatado que todos os povos passados e presentes acreditaram e acreditam na existência de Deus, é evidente que aqueles que têm a infelicidade de duvidar disso, qualquer que seja a lógica que os tenha levado a esta dúvida, são exceções, anomalias, monstros. Assim, pois, a antigüidade e a universalidade de uma crença seriam, contra toda ciência e contra toda lógica, uma prova suficiente e irrecusável de sua verdade. Por quê? Até o século de Galileu e de Copérnico, todo mundo acreditava que o sol girava em torno da terra.

Todo mundo não estava errado? O que há de mais antigo e de mais universal do que a escravidão? A antropofagia, talvez. Desde a origem da sociedade histórica, até nossos dias, sempre houve, e em todos os lugares, exploração do trabalho forçado das massas, escravos, servos ou assalariados, por alguma minoria dominante, opressão dos povos pela Igreja e pelo Estado. Deve-se concluir que esta exploração e esta opressão sejam necessidades absolutamente inerentes à própria existência da sociedade humana? Eis alguns exemplos que mostram que a argumentação dos advogados do bom Deus nada prova. Nada é, com efeito, nem tão universal nem tão antigo quanto o iníquo e o absurdo; é ao contrário a verdade, a justiça que, no desenvolvimento das sociedades humanas, aio as menos universais e as mais jovens. Assim se explica, por sinal, um fenômeno histórico constante: as perseguições àqueles que proclamam a primazia da verdade, por parte dos representantes oficiais, privilegiados e interessados pelas crenças “universais” e “antigas”, e freqüentemente também por parte destas mesmas massas populares que, após tê-los inicialmente desconhecido, acabam sempre por adotar e por fazer triunfar suas idéias.

Para nós, materialistas e socialistas revolucionários, não há nada que nos surpreenda e nos amedronte nesse fenômeno histórico.

Fortalecidos em nossa consciência, em nosso amor pela verdade, por esta paixão lógica que por si só constitui uma grande força, e fora da qual não há pensamento; fortalecidos em nossa paixão pela justiça e em nossa fé inquebrantável no triunfo da humanidade sobre todas as bestialidades teóricas e práticas; fortalecidos, enfim, em nossa confiança e no apoio mútuo que se dá o pequeno número daqueles que compartilham nossas convicções, nós nos resignamos por nós mesmos a todas as conseqüências desse fenômeno histórico no qual vemos a manifestação de uma lei social tão invariável quanto todas as outras leis que governam o mundo.

Esta lei é uma conseqüência lógica, inevitável, da origem animal da sociedade humana; e diante de todas as provas científicas, fisiológicas, psicológicas, históricas, que se acumularam em nossos dias, assim como diante das façanhas dos alemães conquistadores da França, que dão uma demonstração tão ruidosa, não é mais possível, realmente, duvidar disso. Mas, do momento em que se aceita esta origem animal do homem, tudo se explica. A história nos aparece então como a negação revolucionária, ora lenta, apática, adormecida, ora apaixonada e possante, do passado. Ela consiste precisamente na negação progressiva da animalidade primitiva do homem pelo desenvolvimento de sua humanidade. O homem, animal feroz, primo do gorila, partiu da noite profunda do instinto animal para chegar à luz do espírito, o que explica de uma maneira completamente natural todas as suas divagações passadas e nos consola em parte de seus erros presentes. Ele partiu da escravidão animal, e atravessando a escravidão divina, termo transitório entre sua animalidade e sua humanidade, caminha hoje rumo à conquista e à realização da liberdade humana.

Resulta daí que a antigüidade de uma crença, de uma idéia, longe de provar alguma coisa em seu favor, deve, ao contrário, torná-la suspeita para nós. Isto porque atrás de nós está nossa animalidade, e diante de nós nossa humanidade; a luz humana, a única que pode nos aquecer e nos iluminar, a única que nos pode emancipar, tornar-nos dignos, livres, felizes, e realizar a fraternidade entre nós, jamais está no princípio, mas, relativamente, na época em que se vive, e sempre no fim da história. Não olhemos jamais para trás, olhemos sempre para a frente; à frente está nosso sol, nossa salvação; se nos é permitido, se é mesmo útil, necessário nos virarmos para o estudo de nosso passado, é apenas para constatar o que fomos e o que não devemos mais ser, o que acreditamos e pensamos, e o que não devemos mais acreditar nem pensar, o que fizemos e o que nunca mais deveremos fazer. Eis o que concerne à antigüidade.

Quanto à universalidade de um erro, ela só prova uma coisa: a semelhança, senão a perfeita identidade da natureza humana, em todos os tempos e sob todos os climas. E, visto que está constatado que todos os povos, em todas as épocas de sua vida, acreditaram e acreditam ainda em Deus, devemos concluir disso, simplesmente, que a idéia divina, emanada de nós mesmos, é um erro historicamente necessário no desenvolvimento da humanidade, e nos perguntarmos por que, como ele foi produzido na história, por que a imensa maioria da espécie humana o aceita, ainda hoje, como uma verdade? Enquanto não soubermos dar-nos conta da maneira como a idéia de um mundo sobrenatural e divino se produziu, e pôde fatalmente se produzir no desenvolvimento histórico da consciência humana, de nada adiantará estarmos cientificamente convencidos do absurdo desta idéia, não conseguiremos nunca destruí-la na opinião da maioria, porque não saberemos jamais atacá-la nas profundezas do ser humano, onde ela se originou. Condenados a uma esterilidade sem saída e sem fim, devemos sempre contentar-nos em combatê-la somente à superfície, em suas inúmeras manifestações, cujo absurdo, tão logo abatido pelos golpes do bom senso, renasce imediatamente após, sob uma nova forma, não menos insensata.

Enquanto a raiz de todos os absurdos que atormentam o mundo não for destruída, a crença em Deus permanecerá intacta e jamais deixará de produzir novos brotos. E assim que, em nossos dias, em certas regiões da alta sociedade, o espiritismo tende a se instalar sobre as ruínas do cristianismo. Não é somente no interesse das massas, é no interesse da saúde de nosso próprio espírito que devemos nos esforçar para compreender a gênese histórica, a sucessão das causas que desenvolveram e produziram a idéia de Deus na consciência dos homens. De nada adianta nos dizermos e nos considerarmos ateus; enquanto não tivermos compreendido essas causas, nos deixaremos sempre mais ou menos dominar pelos clamores dessa consciência universal, da qual não teremos descoberto o segredo, e dada a fraqueza natural do indivíduo, mesmo do mais forte, contra a influência todo-poderosa do meio social que o entrava, corremos sempre o risco de recair, cedo ou tarde, de uma maneira ou de outra, no abismo do absurdo religioso. Os exemplos dessas conversões vergonhosas são freqüentes na sociedade atual.

* * *

Falei da razão prática principal do poder exercido ainda hoje pelas crenças religiosas sobre as massas. Essas disposições místicas não denotam no homem somente uma aberração do espírito, mas um profundo descontentamento do coração. E o protesto instintivo e apaixonado do ser humano contra as estreitezas, as vulgaridades, as dores e as vergonhas de uma existência miserável. Contra esta doença, já disse, só há um único remédio: a Revolução Social. Em outros escritos me preocupei em expor as causas que presidiram ao nascimento e ao desenvolvimento histórico das alucinações religiosas na consciência do homem. E aqui quero tratar desta questão da existência de um Deus, ou da origem divina do mundo e do homem sob o ponto de vista de sua utilidade moral e social, e direi poucas palavras sobre a razão teórica desta crença, a fim de melhor explicar meu pensamento .

Todas as religiões, com seus deuses, seus semideuses e seus profetas, seus messias e seus santos, foram criadas pela fantasia crédula do homem, que ainda não alcançou o pleno desenvolvimento e a plena possessão de suas faculdades intelectuais. Em conseqüência, o céu religioso nada mais é do que uma miragem onde o homem, exaltado pela ignorância pela fé, encontra sua própria imagem, mas ampliada e invertida, isto é, divinizada. A história das religiões, a do nascimento, da grandeza e da decadência dos deuses que se se sucederam na crença humana, não é nada mais do que o desenvolvimento da inteligência e da consciência coletivas homens.

À medida que, em sua marcha histórica progressiva, eles descobriam, seja neles próprios, seja na natureza exterior, uma força, uma qualidade, ou mesmo grande defeito quaisquer, eles os atribuíam a seus deuses após tê-los exagerado, ampliado desmedidamente, como fazem habitualmente as crianças, por um ato de sua fantasia religiosa. Graças a esta modéstia e a esta piedosa generosidade dos homens, crentes e crédulos, o céu se enriqueceu com os despojos da terra, e, por conseqüência necessária, quanto mais o céu se tornava rico, mais a humanidade e a terra se tornavam miseráveis. Uma vez instalada a divindade, ela foi naturalmente proclamada a causa, a razão, o árbitro e o distribuidor absoluto de todas as coisas: o mundo não foi mais nada, ela foi tudo; e o homem, seu verdadeiro criador, após tê-la tirado do nada sem o saber, ajoelhou-se diante dela, adorou-a e se proclamou sua criatura e seu escravo.

O cristianismo é precisamente a religião por excelência, porque ele expõe e manifesta, em sua plenitude, a natureza, a própria essência de todo o sistema religioso, que é empobrecimento, a escravização e o aniquilamento da humanidade em proveito da divindade. Deus sendo tudo, o mundo real e o homem não são nada. Deus sendo a verdade, a justiça, o bem, o belo, a força e a vida, o homem é a mentira, a iniqüidade, o mal, a feiúra, a impotência e a morte. Deus sendo o senhor, o homem é o escravo. Incapaz de encontrar por si próprio a justiça, a verdade e a vida eterna, ele só pode alcançar isso por meio de uma revelação divina. Mas quem diz revelação diz reveladores, messias, profetas, padres e legisladores inspirados pelo próprio Deus; e estes, uma vez reconhecidos como os representantes da divindade sobre a terra, como os santos instituidores da humanidade, eleitos pelo próprio Deus para dirigi-la em direção à via da salvação, exercem necessariamente um poder absoluto. Todos os homens lhes devem uma obediência passiva e ilimitada, pois contra a razão divina não há razão humana, e contra a justiça de Deus não há justiça terrestre que se mantenha.

Escravos de Deus, os homens devem sê-lo também da Igreja e do Estado, enquanto este último for consagrado pela Igreja. Eis o que de todas as religiões que existem ou que existiram, o cristianismo compreendeu melhor do que as outras, sem excetuar a maioria das antigas religiões orientais, as quais só abarcaram povos distintos e privilegiados, enquanto que o cristianismo tem a pretensão de abarcar a humanidade inteira; eis o que, de todas as seitas cristãs, o catolicismo romano, sozinho, proclamou e realizou com uma conseqüência rigorosa .
É por isso que o cristianismo é a religião absoluta, a última religião, é por isso que a Igreja apostólica e romana é a única conseqüente, a única lógica. A despeito dos metafísicos e dos idealistas religiosos, filósofos, políticos ou poetas, a idéia de Deus implica a abdicação da razão e da justiça humanas; ela é a negação mais decisiva da liberdade humana e resulta necessariamente na escravidão dos homens, tanto na teoria quanto na prática. A não ser que queiramos a escravidão e o envilecimento dos homens, como o querem os jesuítas, como o querem os mômiers [3], os pietistas[4] e os metodistas protestantes, não podemos nem devemos fazer a mínima concessão, nem ao Deus da teologia nem ao da metafísica. Aquele que, neste alfabeto místico, começa por Deus, deverá fatalmente acabar por Deus; aquele que quer adorar Deus, deve, sem se pôr ilusões pueris, renunciar bravamente à sua liberdade e à sua humanidade. Se Deus é, o homem é escravo; ora, o homem pode, deve ser livre, portanto, Deus não existe. Desafio quem quer que seja para sair deste circulo, e agora que se escolha.

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É preciso lembrar quanto e como as religiões embrutecem e corrompem os povos? Elas matam neles a razão, o principal instrumento da emancipação humana e os reduzem à imbecilidade, condição essencial da escravidão. Elas desonram o trabalho humano e fazem dele sinal e fonte de servidão. Elas matam a noção e o sentimento da justiça humana, fazendo sempre pender a balança para o lado dos patifes triunfantes, objetos privilegiados da graça divina. Elas matam o orgulho e a dignidade humana, protegendo apenas a submissos e os humildes. Elas sufocam no coração dos povos todo sentimento de fraternidade humana, preenchendo-o de crueldade. Todas as religiões são cruéis, todas são fundadas sobre o sangue, visto que todas repousam principalmente sobre a idéia do sacrifício, isto é, sobre a imolação perpétua da humanidade à insaciável vingança da divindade. Neste sangrento mistério, o homem é sempre a vítima, e o padre, homem também, mas homem privilegiado pela graça, é o divino carrasco. Isto nos explica por que os padres de todas as religiões, os melhores, os mais humanos, os mais doces, têm quase sempre no fundo de seu coração – senão no coração, pelo menos em sua imaginação, em seu espírito – alguma coisa de cruel e de sanguinário.

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Tudo isso, nossos ilustres idealistas contemporâneos sabem melhor do que ninguém. São homens sábios, que conhecem sua história de memória; e como eles são ao mesmo tempo homens vivos, grandes almas penetradas de um amor sincero e profundo pelo bem da humanidade, eles amaldiçoaram e estigmatizaram todas estas malfeitorias, todos estes crimes da religião com uma eloqüência sem igual. Eles rejeitam com indignação toda solidariedade com o Deus das religiões positivas e com seus representantes passados e presentes sobre a terra. O Deus que eles adoram, ou que eles pensam adorar, distingue-se precisamente dos deuses reais da história por não ser um Deus positivo, determinado da maneira que se quiser, teologicamente, ou até mesmo metafisicamente. Não 6 nem o Ser supremo de Robespierre e de Rousseau, nem o deus panteísta de Spinoza, nem mesmo o deus, ao mesmo tempo inocente, transcedente e muito equívoco de Hegel. Eles tomam cuidado de lhe dar uma determinação positiva qualquer, sentindo muito bem que toda determinação o submeteria à ação dissolvente da crítica. Eles não dirão se ele é um deus pessoal ou impessoal, se ele criou ou não criou o mundo; sequer falarão de sua divina providência .

Tudo isso poderia comprometê-lo. Eles se contentarão em dizê-lo: Deus, e nada mais do que isso. Mas então o que é seu deus? Não é sequer uma idéia, é uma aspiração. É o nome genérico de tudo o que parece grande, bom, belo, nobre, humano. Mas por que não dizem então: o homem? Ah! E que o rei Guilherme da Prússia e Napoleão III, e todos os idênticos a eles são igualmente homens: eis o que os embaraça muito. A humanidade real nos apresenta um conjunto de tudo o que há de mais vil e de mais monstruoso no mundo. Como sair disso? Eles chamam um de divino e o outro de bestial, representando a divindade e a animalidade como dois pólos entre os quais eles situam a humanidade. Eles não querem ou não podem compreender que estes três termos formam um único, e que se os separarmos, nós os destruímos. Eles não são bons em lógica, e dir-se-ia que a desprezam. E isso que os distingue dos metafísicos panteístas e deístas, e o que imprime às suas idéias o caráter de um idealismo prático, buscando suas inspirações menos no desenvolvimento severo de um pensamento do que nas experiências, direi, quase nas emoções, tanto históricas e coletivas quanto individuais, da vida. Isto dá à sua propaganda uma aparência de riqueza e de potência vital, mas aparência somente, pois a vida se torna estéril quando é paralisada por uma contradição lógica. Esta contradição é a seguinte: eles querem Deus e querem a humanidade. Obstinam-se em colocar juntos dois termos que, uma vez separados, só podem se reencontrar para se entredestruir.

Eles dizem de uma só vez: Deus e a liberdade do homem, Deus e a dignidade, a justiça, a igualdade, a fraternidade, a prosperidade dos homens, sem se preocupar com a lógica fatal, em virtude da qual, se Deus existe, ele é necessariamente o senhor eterno, supremo, absoluto, e se este senhor existe, o homem é escravo; se ele é escravo, não há justiça, nem igualdade, nem fraternidade, nem prosperidade possível. De nada adiantará, contrariamente ao bom senso e a todas as experiências da história, eles representarem seu Deus animado do mais doce amor pela liberdade humana: um senhor, por mais que ele faça e por mais liberal que queira se mostrar, jamais deixa de ser, por isso, um senhor. Sua existência implica necessariamente a escravidão de tudo o que se encontra debaixo dele. Assim, se Deus existisse, só haveria para ele um único meio de servir à liberdade humana; seria o de cessar de existir .

Amoroso e ciumento da liberdade humana e considerando-a como a condição absoluta de tudo o que adoramos e respeitamos na humanidade, inverto a frase de Voltaire e digo que, se Deus existisse, seria preciso aboli-lo.

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A severa lógica que me dita estas palavras é muito evidente para que eu necessite desenvolver esta argumentação. E me parece impossível que os homens ilustres, dos quais citei os nomes tão célebres e tão justamente respeitados não tenham sido tocados e não tenham percebido a contradição na qual eles caem ao falar de Deus e da liberdade humana simultaneamente. Para que tenham passado ao longo do problema, foi preciso que tivessem pensado que esta inconseqüência ou esta injustiça fosse, na prática, necessária para o próprio bem da humanidade .
Talvez, também, ao falar da liberdade como de uma coisa que é para eles respeitável e cara, eles a compreendam completamente diferente da que concebemos, nós, materialistas e socialistas revolucionários. Com efeito, eles não faiam jamais dela sem acrescentar imediatamente uma outra palavra, a da autoridade, uma palavra e uma coisa que detestamos com toda a força de nosso coração.

O que é a autoridade? E a força inevitável das leis naturais que se manifestam no encadeamento e na sucessão fatal dos fenômenos do mundo físico e do mundo social? Efetivamente, contra estas leis, a revolta é não somente proibida, é também impossível. Podemos conhecê-las mal, ou ainda não conhecê-las, mas não podemos desobedecê-las porque elas constituem a base e as próprias condições de nossa existência: elas nos envolvem, nos penetram, regulam todos os nossos movimentos, pensamentos e atos; mesmo quando pensamos desobedecê-las, não fazemos outra coisa que manifestar sua onipotência. Sim, somos absolutamente escravos destas leis. Mas nada há de humilhante nesta escravidão. A escravidão supõe um senhor exterior, um legislador que se situe fora daquele ao qual comanda; enquanto as leis não estão fora de nós, elas nos são inerentes, constituem nosso ser, todo nosso ser, corporal, intelectual e moralmente: só vivemos, só respiramos, só agimos, só pensamos, só queremos através delas. Fora delas não somos nada, não somos. i)e onde nos viria então o poder e o querer de nos revoltarmos contra elas? Em relação às leis naturais, só há, para o homem, uma única liberdade possível: reconhecê-las e aplicá-las cada vez mais, conforme o objetivo de emancipação ou de humanização coletiva e individual que ele persegue. Estas leis, uma vez reconhecidas, exercem uma autoridade que jamais é discutida pela massa dos homens. E preciso, por exemplo, ser, no fundo, um teólogo ou um economista burguês para se revoltar contra esta lei, segundo a qual dois mais dois são quatro. E preciso ter fé para pensar que não nos queimaríamos no fogo e que não nos afogaríamos na água, a menos que tenhamos recorrido a algum subterfúgio, fundado sobre qualquer outra lei natural. Mas estas revoltas, ou melhor, estas tentativas ou estas loucas fantasias de uma revolta impossível não formam mais do que uma exceção bastante rara, pois, em geral, se pode dizer que a massa dos homens, na vida quotidiana, se deixa governar pelo bom senso, o que significa dizer, pela soma das leis naturais geralmente reconhecidas, de maneira mais ou menos absoluta .

A infelicidade é que grande quantidade de leis naturais já constatadas como tais pela ciência, permanecem desconhecidas das massas populares, graças aos cuidados desses governos tutelares que só existem, como se sabe, para o bem dos povos. Há, além disso, um grande inconveniente: é que a maior parte das leis naturais, que estão ligadas ao desenvolvimento da sociedade humana e são tão necessárias, invariáveis, quanto as leis que governam o mundo físico, não foram devidamente constatadas e reconhecidas pela própria ciência [5].

Uma vez tivessem elas sido reconhecidas pela ciência, e que da ciência, através de um amplo sistema de educação e de instrução popular, elas passassem à consciência de todos, a questão da liberdade estaria perfeitamente resolvida. As autoridades mais recalcitrantes devem admitir que aí então não haverá necessidade de organização, nem de direção nem de legislação políticas, três coisas que emanam da vontade do soberano ou da votação de um parlamento eleito pelo sufrágio universal, jamais podendo estar conformes às leis naturais, e são sempre igualmente funestas e contrárias à liberdade das massas, visto que elas lhes impõem um sistema de leis exteriores, e consequentemente despóticas. A liberdade do homem consiste unicamente nisto: ele obedece às leis naturais porque ele próprio as reconheceu como tais, não porque elas lhe foram impostas exteriormente, por uma vontade estranha, divina ou humana, coletiva ou individual, qualquer.

Suponde uma academia de sábios, composta pelos representantes mais ilustres da ciência; imaginai que esta academia seja encarregada da legislação, da organização da sociedade, e que, inspirando-se apenas no amor da mais pura verdade, ela só dite leis absolutamente conforme às mais recentes descobertas da ciência. Pois bem, afirmo que esta legislação e esta organização serão uma monstruosidade, por duas razões: a primeira, é que a ciência humana é sempre necessariamente imperfeita, e que, comparando o que ela descobriu com o que ainda lhe resta a descobrir, pode-se dizer que está ainda em seu berço. De modo que, se quiséssemos forçar a vida prática dos homens, tanto coletivo quanto individual, a se conformar estritamente, exclusivamente, com os últimos dados da ciência, condenar-se-ia tanto a sociedade quanto os indivíduos a sofrer martírio sobre um leito de Procusto, que acabaria em breve por desarticulá-los e sufocá-los, ficando a vida sempre infinitamente maior do que a ciência.

A segunda razão é a seguinte: uma sociedade que obedecesse à legislação emanada de uma academia científica, não porque ela tivesse compreendido seu caráter racional – em cujo caso a existência da academia se tornaria inútil – mas porque esta legislação, emanando da academia, se imporia em nome de uma ciência que ela veneraria sem compreendê-la, tal sociedade não seria uma sociedade de homens, mais de brutos. Seria uma segunda edição dessas missões do Paraguai, que se deixaram governar durante tanto tempo pela Companhia de Jesus. Ela não deixaria de descer, em breve, ao mais baixo grau de idiotia .

as há ainda uma terceira razão que tornaria tal governo impossível. É que uma academia científica, revestida desta soberania por assim dizer absoluta, ainda que fosse composta pelos homens mais ilustres; acabaria infalivelmente, e em pouco tempo, por se corromper moral e intelectualmente. E atualmente, com o pouco de privilégios que lhes deixam, a história de todas as academias. O maior gênio científico, no momento em que se torna acadêmico, um sábio oficial, reconhecido, decai inevitavelmente e adormece. Perde sua espontaneidade, sua ousadia revolucionária, e a energia incômoda e selvagem que caracteriza a natureza dos maiores gênios, sempre chamada a destruir os mundos envelhecidos e a lançar os fundamentos dos novos mundos. Ganha sem dúvida em polidez, em sabedoria utilitária e prática, o que perde em força de pensamento. Numa palavra, ele se corrompe. É próprio do privilégio e de toda posição privilegiada matar o espírito e o coração dos homens. O homem privilegiado, seja política, seja economicamente, é um homem depravado de espírito e de coração. Eis uma lei social que não admite nenhuma exceção e que se aplica tanto a nações inteiras quanto às classes, companhias e indivíduos. E a lei da igualdade, condição suprema da liberdade e da humanidade.

O objetivo principal deste estudo é precisamente demonstrar esta verdade em todas as manifestações da vida humana. Um corpo científico, ao qual se tivesse confiado o governo da sociedade, acabaria logo por deixar de lado a ciência, ocupando-se de outro assunto; e este assunto, o de todos os poderes estabelecidos, seria sua eternização, tornando a sociedade confiada a seus cuidados cada vez mais estúpida e, por conseqüência, mais necessitada de seu governo e de sua direção. Mas o que é verdade para as academias científicas, o é igualmente para todas as assembléias constituintes e legislativas, mesmo quando emanadas do sufrágio universal. Este último pode renovar sua composição, é verdade, o que não impede que se forme, em alguns anos, um corpo de políticos, privilegiados de fato, não de direito, que, dedicando-se exclusivamente à direção dos assuntos públicos de um pais, acabem por formar um tipo de aristocracia ou de oligarquia política .
Vejam os Estados Unidos e a Suíça. Assim,. nada de legislação exterior e nada de autoridade, uma, por sinal, sendo inseparável da outra, e todas as duas tendendo à escravização da sociedade e ao embrutecimento dos próprios legisladores.

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Decorre daí que rejeito toda autoridade? Longe de mim este pensamento .

Quando se trata de botas, apelo para a autoridade dos sapateiros; se se trata de uma casa, de um canal ou de uma ferrovia, consulto a do arquiteto ou a do engenheiro. Por tal ciência especial, dirijo-me a este ou àquele cientista. Mas não deixo que me imponham nem o sapateiro, nem o arquiteto, nem o cientista. Eu os aceito livremente e com todo o respeito que me merecem sua inteligência, seu caráter, seu saber, reservando todavia meu direito incontestável de crítica e de controle. Não me contento em consultar uma única autoridade especialista, consulto várias; comparo suas opiniões, e escolho aquela que me parece a mais justa .

Mas não reconheço nenhuma autoridade infalível, mesmo nas questões especiais; consequentemente, qualquer que seja o respeito que eu possa ter pela humanidade e pela sinceridade desse ou daquele indivíduo, não tenho fé absoluta em ninguém. Tal fé seria fatal à minha razão, à minha liberdade e ao próprio sucesso de minhas ações; ela me transformaria imediatamente num escravo estúpido, num instrumento da vontade e dos interesses de outrem. Se me inclino diante da autoridade dos especialistas, e se me declaro pronto a segui-la, numa certa medida e durante todo o tempo que isso me pareça necessário, suas indicações e mesmo sua direção, é porque esta autoridade não me é imposta por ninguém, nem pelos homens, nem por Deus. De outra forma as rejeitaria com horror, e mandaria ao diabo seus conselhos, sua direção e seus serviços, certo de que eles me fariam pagar, pela perda de minha liberdade e de minha dignidade, as migalhas de verdade, envoltas em muitas mentiras que poderiam me dar. Inclino-me diante da autoridade dos homens especiais porque ela me é imposta por minha própria razão. Tenho consciência de só poder abraçar, em todos os seus detalhes e seus desenvolvimentos positivos, uma parte muito pequena da ciência humana. A maior inteligência não bastaria para abraçar tudo. Daí resulta, tanto para a ciência quanto para a indústria, a necessidade da divisão e da associação do trabalho. Recebo e dou, tal é a vida humana. Cada um é dirigente e cada um é dirigido por sua vez .

Assim, não há nenhuma autoridade fixa e constante, mas uma troca contínua de autoridade e de subordinação mútuas, passageiras e sobretudo voluntárias. Esta mesma razão me proíbe, pois, de reconhecer uma autoridade fixa, constante e universal, porque não há homem universal, homem que seja capaz de aplicar sua inteligência, nesta riqueza de detalhes sem a qual a aplicação da ciência a vida não é absolutamente possível, a todas as ciências, a todos os ramos da atividade social. E, se uma tal universalidade pudesse ser realizada em um único homem, e se ele quisesse se aproveitar disso para nos impor sua autoridade, seria preciso expulsar esse homem da sociedade, visto que sua autoridade reduziria inevitavelmente todos os outros à escravidão e à imbecilidade. Não penso que a sociedade deva maltratar os gênios como ela o fez até o presente momento; mas também não acho que os deva adular demais, nem lhes conceder quaisquer privilégios ou direitos exclusivos; e isto por três razões; inicialmente porque aconteceria com freqüência de ela tomar um charlatão por um gênio; em seguida porque, graças a este sistema de privilégios, ela poderia transformar um verdadeiro gênio num charlatão, desmoralizá-lo, animalizá-lo; e, enfim, porque ela daria a si um senhor .
Resumindo.

Reconhecemos, pois, a autoridade absoluta da ciência porque ela tem como objeto único a reprodução mental, refletida e tão sistemática quanto possível, das leis naturais inerentes à vida material, intelectual e moral, tanto do mundo físico quanto do mundo social, sendo estes dois mundos, na realidade, um único e mesmo mundo natural. Fora desta autoridade exclusivamente legítima, pois que ela é racional e conforme à liberdade humana, declaramos todas as outras autoridades mentirosas, arbitrárias e funestas. Reconhecemos a autoridade absoluta da ciência, mas rejeitamos a infalibilidade e a universalidade do cientista. Em nossa igreja – que me seja permitido servir-me por um momento desta expressão que por sinal detesto: a igreja e o Estado são minhas duas ovelhas negras; em nossa Igreja, como na Igreja protestante, temos um chefe, um Cristo invisível, a ciência; e como os protestantes, até mais conseqüentes do que os protestantes, não queremos tolerar nem o papa, nem o concilio, nem conclaves de cardeais infalíveis, nem bispos, nem mesmo padres. Nosso Cristo se distingue do Cristo protestante no fato de este último ser um Cristo pessoal, enquanto o nosso é impessoal; o Cristo cristão, já realizado num passado eterno, apresenta-se como um ser perfeito, enquanto a realização e a perfeição de nosso Cristo, a ciência, estão sempre no futuro: o que equivale a dizer que elas jamais se realizarão .

Ao não reconhecer outra autoridade absoluta que não seja a da ciência absoluta, não comprometemos de forma alguma nossa liberdade. Entendo por ciência absoluta a ciência realmente universal, que reproduziria idealmente, em toda a sua extensão e em todos os seus detalhes infinitos, o universo, o sistema ou a coordenação de todas as leis naturais, manifestas pelo desenvolvimento incessante dos mundos. É evidente que esta ciência, objeto sublime de todos os esforços do espírito humano, jamais se realizará em sua plenitude absoluta. Nosso Cristo permanecerá pois eternamente inacabado, o que deve enfraquecer muito o orgulho de seus representantes titulados entre nós. Contra este Deus, filho, em nome do qual eles pretendiam nos impor sua autoridade insolente e pedantesca, recorremos a Deus pai, que é o mundo real, a vida real, do qual ele é apenas a expressão muito imperfeita, e do qual somos os representantes imediatos, nós, seres reais, vivendo, trabalhando, combatendo, amando, aspirando, gozando e sofrendo .

Numa palavra, rejeitamos toda legislação, toda autoridade e toda influência privilegiada, titulada, oficial e legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencido de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses da imensa maioria subjugada. Eis o sentido no qual somos realmente anarquistas.

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Os idealistas modernos entendem a autoridade de uma maneira totalmente diferente. Ainda que livres das superstições tradicionais de todas as religiões positivas existentes, eles dão, todavia, a esta idéia de autoridade, um sentido divino, absoluto. Esta autoridade não é absolutamente a de uma verdade milagrosamente revelada, nem a de uma verdade rigorosa e cientificamente demonstrada. Eles a fundam sobre um pouco de argumentação quase-filosófica, e sobre muita fé vagamente religiosa, sobre muito sentimento e abstração poética. Sua religião é como uma última tentativa de divinização de tudo o que constitui a humanidade nos homens.

É bem o contrário da obra que realizamos. Em vista da liberdade, da dignidade e da prosperidade humanas, pensamos ter de retirar do céu os bens que ele roubou e queremos devolvê-los à terra. Eles, ao contrário, esforçando-se em cometer um último roubo religiosamente heróico, desejariam restituir ao céu, a este divino ladrão, tudo o que a humanidade tem de maior, de mais belo, de mais nobre. E a vez dos livre-pensadores pilharem o céu pela audaciosa impiedade de sua análise científica! Os idealistas acreditam, sem dúvida, que, para gozar de uma maior autoridade entre os homens, as idéias e as coisas humanas devem ser revestidas de uma sanção divina. Como se manifesta esta sanção? Não por um milagre, como nas religiões positivas, mas pela grandeza ou pela própria santidade das idéias e das coisas: o que é grande, o que e belo, o que é nobre, o que é justo, é divino. Neste novo culto religioso, todo homem que se inspira nestas idéias, nestas coisas, torna-se um padre, imediatamente consagrado pelo próprio Deus. E a prova? Não há necessidade disso; é a própria grandeza das idéias que ele exprime e das coisas que ele realiza. Elas são tão santas que só podem ter sido inspiradas por Deus.

Eis em poucas palavras toda a sua filosofia: filosofia de sentimentos, não de pensamentos reais, um tipo de pietismo metafísico. Isto parece inocente, mas não o é em absoluto, e a doutrina muito precisa, muito estreita e muito seca, que se esconde sob a onda inapreensível destas formas poéticas conduz aos mesmos resultados desastrosos de todas as religiões positivas: isto é, à mais completa negação da liberdade e da dignidade humanas. Proclamar como divino tudo o que se encontra de grande, de justo, de real, de belo, na humanidade, é reconhecer implicitamente que a humanidade, por si própria, teria sido incapaz de produzi-lo; isto significa dizer que abandonada a si própria, sua própria natureza é miserável, iníqua, vil e feia. Eis-nos de volta à essência de toda religião, isto é, à difamação da humanidade pela maior glória da divindade. E do momento em que a inferioridade natural do homem e sua incapacidade profunda de se levantar por si mesmo, fora de toda inspiração divina, até as idéias justas e verdadeiras, são admitidas, torna-se necessário admitir também todas as conseqüências teológicas, políticas e sociais das religiões positivas. No momento em que Deus, o Ser perfeito e supremo, posiciona-se em relação à humanidade, os intermediários divinos, os eleitos, os inspirados de Deus, saem da terra para esclarecer, dirigir e governar a espécie humana em seu nome. Não se poderia supor que todos os homens são igualmente inspirados por Deus? Neste caso não haveria, sem dúvida alguma, necessidade de intermediários. Mas esta suposição é impossível porque os fatos a contradizem sobremaneira. Seria preciso então atribuir à inspiração divina todos os absurdos e erros que se manifestam, e todos os horrores, as torpezas, as covardias e as imbecilidades que se cometem no mundo .

Só haveria, pois, poucos homens divinamente inspirados, os grandes homens da história, os gênios virtuosos, como dizia o ilustre cidadão e profeta italiano Giuseppe Mazzini. Imediatamente inspirados pelo próprio Deus e se apoiando sobre o consentimento universal expressado pelo sufrágio popular, Dio e Popolo, são eles que seriam chamados a governar as sociedades humanas[6]. Eis-nos de novo sob o jugo da Igreja e do Estado. E verdade que nesta nova organização, devida, como todas as organizações políticas antigas, à graça de Deus, é apoiada desta vez, pelo menos quanto à forma, à guisa de concessão necessária ao espírito moderno, e como nos preâmbulos dos decretos imperiais de Napoleão III, sobre a pretensa vontade do POVO, a Igreja não se chamará mais Igreja, ela se chama Escola. O que importa? Sobre os bancos desta Escola não estarão sentadas somente as crianças: haverá o eterno menor, o estudante para sempre reconhecido como incapaz de se apresentar a seus exames, de alcançar a ciência de seus mestres e de passar em sua disciplina: o povo.

O Estado não se chamará mais monarquia, chamar-se-á república, mas nem por isso deixará de ser Estado, isto é, uma tutela oficial e regularmente estabelecida por uma minoria de homens competentes, gênios, homens de talento ou de virtude, que vigiarão e dirigirão a conduta desta grande, incorrigível e terrível criança, o povo. Os professores da Escola e os funcionários do Estado chamar-se-ão republicanos; mas não deixarão de ser menos tutores, pastores, e o povo permanecerá o que foi eternamente até agora: um rebanho. Os tosquiados que se cuidem, pois onde há rebanho há necessariamente pastores para tosquiá-lo e comê-lo. O povo, neste sistema, será eterno estudante e pupilo. Apesar de sua soberania totalmente fictícia, ele continuará a servir de instrumento a pensamentos e vontades, e consequentemente também a interesses que não serão os seus. Entre esta situação e o que chamamos de liberdade, a única verdadeira liberdade, há um abismo. Será sob novas formas, a antiga opressão e a antiga escravidão; e onde há escravidão, há miséria, embrutecimento, a verdadeira materialização da sociedade, tanto das classes privilegiadas quanto das massas.

Divinizando as coisas humanas, os idealistas conseguem sempre o triunfo de um materialismo brutal. E isto por uma razão muito simples: este divino se evapora e sobe para sua pátria, o céu, e só o brutal permanece realmente sobre a terra. Perguntei um dia a Mazzini que medidas seriam tomadas para a emancipação do povo tão logo sua república unitária triunfante se estabelecesse definitivamente. “A primeira medida, disse-me, será a fundação de escolas para o povo.” – E o que será ensinado ao povo nestas escolas? “Os deveres do homem, o sacrifício e a abnegação.” – Mas onde ireis buscar um número suficiente de professores para ensinar estas coisas que ninguém tem o direito nem o poder de ensinar, se não se dá o exemplo? O número dos homens que encontram no sacrifício e na dedicação uma satisfação suprema não é excessivamente restrito? Aqueles que se sacrificam ao serviço de uma grande idéia obedecem a uma elevada paixão, e, satisfazendo esta paixão pessoal, fora da qual a própria vida perde qualquer valor a seus olhos, eles pensam normalmente em qualquer coisa que não seja erigir sua ação em doutrina, enquanto aqueles que fazem da ação uma doutrina esquecem freqüentemente de traduzi-la em ação, pela simples razão de que a doutrina mata a vida, mata a espontaneidade viva da ação.

Os homens como Mazzini, nos quais a doutrina e a ação formam uma admirável unidade, são raras exceções. No cristianismo também houve grandes homens, santos homens, que realmente fizeram, ou que pelo menos se esforçaram apaixonadamente para fazer tudo o que diziam, e cujos corações, transbordando de amor, estavam cheios de desprezo pelos gozos e pelos bens deste mundo. Mas a imensa maioria dos padres católicos e protestantes que, por profissão, pregaram e pregam a doutrina da castidade, da abstinência e da renúncia, desmentem sua doutrina através de seu exemplo. Não é em vão, é em conseqüência de uma experiência de vários séculos que se formaram, entre os povos de todos os países, estes ditados: “Libertino como um padre; comilão como um padre; ambicioso como um padre; ávido, interessado e cúpido como um padre”.

Está constatado que os professores das virtudes cristãs, consagrados pela Igreja, os padres, em sua imensa maioria, fizeram exatamente o contrário daquilo que eles pregaram. Esta própria maioria, a universalidade deste fato, provam que não se deve atribuir a culpa disso aos indivíduos, mas sim à posição social, impossível e contraditória em si mesma, no qual estes indivíduos estão colocados. Há na posição do padre cristão uma dupla contradição. Inicialmente a da doutrina de abstinência e de renúncia às tendências e às necessidades positivas da natureza humana, tendências e necessidades que, em alguns casos individuais, sempre muito raros, podem ser continuamente afastadas, reprimidas e mesmo completamente eliminadas pela influência constante de alguma poderosa paixão intelectual e moral, que, em certos momentos de exaltação coletiva, podem ser esquecidas e negligenciadas, por algum tempo, por uma grande quantidade de homens ao mesmo tempo; mas que são tão profundamente inerentes à nossa natureza que acabam sempre por retomar seus direitos, de forma que, quando não são satisfeitas de maneira regular e normal, são finalmente substituídas por satisfações daninhas e monstruosas. E uma lei natural, e, por conseqüência, fatal, irresistível, sob a ação funesta da qual caem inevitavelmente todos os padres cristãos e especialmente os da Igreja católica romana.

Mas há uma outra contradição comum a uns e a outros. Esta contradição está ligada ao titulo e à própria posição do senhor. Um senhor que comanda, oprime e explora, é um personagem muito lógico e completamente natural. Mas um senhor que se sacrifica àqueles que lhe são subordinados pelo seu privilégio divino ou humano é um ser contraditório e completamente impossível. E a própria constituição da hipocrisia, tão bem personificada pelo papa que, ainda que se dizendo o último servidor dos servidores de Deus, e por sinal, seguindo o exemplo do Cristo, lava uma vez por ano os pés de doze mendigos de Roma, proclama-se ao mesmo tempo vigário de Deus, senhor absoluto e infalível do mundo. E preciso que eu lembre que os padres de todas as Igrejas, longe de se sacrificarem pelos rebanhos confiados a seus cuidados, sempre os sacrificaram, exploraram e mantiveram em estado de rebanho, em parte para satisfazer suas próprias paixões pessoais, em parte para servir à onipotência da Igreja? As mesmas condições, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos. Isso acontece com os professores da Escola moderna, divinamente inspirados e nomeados pelo Estado. Eles se tornarão, necessariamente, uns sem o saber, os outros com pleno conhecimento de causa, os mestres da doutrina do sacrifício popular para o poderio do Estado, em proveito das classes privilegiadas.

Será preciso então eliminar da sociedade todo o ensino e abolir todas as escolas? Longe disso. É necessário distribuir a mancheias a instrução no seio das massas e transformar todas as Igrejas, todos estes templos dedicados à glória de Deus e à escravização dos homens, em escolas de emancipação humana. Mas, inicialmente, esclareçamos que as escolas propriamente ditas, numa sociedade normal, fundada sobre a igualdade e sobre o respeito da liberdade humana, só deverão existir para as crianças, não para os adultos, para elas se tornarem escolas de emancipação e não de servilismo, será preciso eliminar, antes de tudo, esta ficção de Deus, o escravizador eterno e absoluto. Será necessário fundar toda a educação das crianças e sua instrução sobre o desenvolvimento científico da razão, não sobre o da fé; sobre o desenvolvimento da dignidade e da independência pessoais, não sobre o da piedade e da obediência; sobre o culto da verdade e da justiça e, antes de tudo, sobre o respeito humano. que deve substituir, em tudo e em todos os lugares, o culto divino. O princípio da autoridade na educação das crianças constitui o ponto de partida natural: ele é legítimo, necessário, quando é aplicado às crianças na primeira infância, quando sua inteligência ainda não se desenvolveu abertamente. Mas como o desenvolvimento de todas as coisas, e por conseqüência da educação, implica a negação sucessiva do ponto de partida, este princípio deve enfraquecer-se à medida que avançam a educação e a instrução, para dar lugar à liberdade ascendente.

Toda educação racional nada mais é, no fundo, do que a imolação progressiva da autoridade em proveito da liberdade, onde esta educação tem como objetivo final formar homens livres, cheios de respeito e de amor pela liberdade alheia. Assim, o primeiro dia da vida escolar, se a escola aceita as crianças na primeira infância, quando elas mal começam a balbuciar algumas palavras, deve ser o de maior autoridade e de uma ausência quase completa de liberdade; mas seu último dia deve ser ó de maior liberdade e de abolição absoluta de qualquer vestígio do principio animal ou divino da autoridade. O princípio de autoridade, alicado aos homens que ultrapassaram ou atingiram a maioridade, torna-se uma monstruosidade, uma negação flagrante da humanidade, uma fonte de escravidão e de depravação intelectual e moral. Infelizmente, os governos paternalistas deixaram as massas populares se estagnarem numa tão profunda ignorância que será necessário fundar escolas não somente para as crianças do povo, mas também para o próprio povo Destas escolas deverão ser absolutamente eliminadas as menores aplicações ou manifestações do princípio de autoridade. Não serão mais escolas; serão academias populares, nas quais não se poderá mais tratar nem de estudantes, nem de mestres, onde o povo virá livremente ter, se assim achar necessário, um ensinamento livre, nas quais, rico de sua experiência, ele poderá. ensinar por sua vez muitas coisas aos professores que lhe trarão conhecimentos que ele não tem. Será pois um ensinamento mútuo, um ato de fraternidade intelectual entre a juventude instruída e o povo .

A verdadeira escola para o povo e para todos os homens feitos é a vida .

A única grande todo-poderosa autoridade natural e racional, simultaneamente, a única que poderemos respeitar, será a do espírito coletivo e público de uma sociedade fundada sobre o respeito mútuo de todos os seus membros. Sim, eis uma autoridade que não é absolutamente divina, totalmente humana, mas diante da qual nos inclinaremos de coração, certos de que, longe de subjugá-los, ela emancipará os homens. Ela será mil vezes mais poderosa, estejam certos, do que todas as vossas autoridades divinas, teológicas, metafísicas, políticas e jurídicas, instituídas pela Igreja e pelo Estado; mais poderosa que vossos códigos criminais, vossos carcereiros e vossos verdugos.

A força do sentimento coletivo ou do espírito público já é muito séria hoje.

Os homens com maior tendência a cometer crimes raramente ousam desafiá-la, enfrentá-la abertamente. Eles procurarão enganá-la, mas evitarão ofendê-la, a menos que se sintam apoiados por uma minoria qualquer. Nenhum homem, por mais possante que se imagine, jamais terá força para suportar o desprezo unânime da sociedade, ninguém poderia viver sem sentir-se apoiado pelo consentimento e pela estima, ao menos por uma certa parte desta sociedade. E preciso que um homem seja levado por uma imensa e bem sincera convicção, para que encontre coragem de opinar e de marchar contra todos, e nunca um homem egoísta, depravado e covarde terá esta coragem .

Nada prova melhor do que este fato a solidariedade natural e fatal que une todos os homens. Cada um de nós pode constatar esta lei, todos os dias, sobre si mesmo e sobre todos os homens que ele conhece. Mas, se esta força social existe, por que ela não foi suficiente, até hoje, para moralizar, humanizar os homens? Simplesmente porque, até o presente, essa força não foi, ela própria, humanizada; não foi humanizada porque a vida social, da qual ela é sempre a fiel expressão, está fundada, como se sabe, sobre o culto divino, não sobre o respeito humano; sobre a autoridade, não sobre a liberdade; sobre o privilégio, não sobre a igualdade; sobre a exploração, não sobre a fraternidade dos homens; sobre a iniqüidade e a mentira, não sobre a justiça e a verdade. Por conseqüência, sua ação real, sempre em contradição com as teorias humanitárias que ela professa, exerceu constantemente uma influência funesta e depravadora. Ela não oprime pelos vícios e crimes: ela os cria .

Sua autoridade é consequentemente uma autoridade divina, anti-humana, sua influência é malfazeja e funesta. Quereis torná-la benfazeja e humana? Fazei a revolução social. Fazei com que todas as necessidades se tornem realmente solidárias, que os interesses materiais e sociais de cada um se tornem iguais aos deveres humanos de cada um. E, para isso, só há um meio: destruí todas as instituições da desigualdade; estabelecei a igualdade econômica e social de todos, e, sobre esta base, elevar-se-á a liberdade, a moralidade, a humanidade solidária de todos .

* * *

Sim, o idealismo, em teoria, tem por conseqüência necessária o materialismo mais brutal na prática; não, sem dúvida, entre aqueles que o pregam de boa fé – o resultado habitual, para estes, é de ver todos os seus esforços atingidos pela esterilidade – mas entre aqueles que se esforçam em realizar seus preceitos na vida, em meio a toda a sociedade, enquanto ela se deixar dominar pelas doutrinas idealistas .
Para demonstrar este fato geral, que pode parecer estranho à primeira vista, mas que se explica naturalmente, quando refletimos um pouco mais, não faltam as provas históricas .

Comparai as duas últimas civilizações do mundo antigo: a civilização grega e a civilização romana. Qual delas é a mais materialista, a mais natural em seu ponto de partida, e a mais humanamente ideal em seus resultados? Sem dúvida, a civilização grega. Qual delas é, ao contrário, a mais abstratamente ideal em seu ponto de partida, sacrificando a liberdade material do homem à liberdade ideal do cidadão, representada pela abstração do direito jurídico, e o desenvolvimento natural da sociedade humana à abstração do Estado, e qual delas se tornou, todavia, a mais brutal em suas conseqüências? A civilização romana, certamente. E verdade que a civilização grega, como todas as civilizações antigas, inclusive a de Roma, foi exclusivamente nacional, e teve por base a escravidão. Mas, apesar destes dois imensos defeitos, a primeira nem por isso deixou de conceber e realizar a idéia da humanidade; ela enobreceu e realmente idealizou a vida dos homens; ela transformou os rebanhos humanos em livres associações de homens livres; ela criou, pela liberdade, as ciências, as artes, uma poesia, uma filosofia imortal, e as primeiras noções do respeito humano. Com a liberdade política e social ela criou o livre pensamento .

No fim da Idade Média, na época da Renascença, bastou que os gregos emigrados introduzissem alguns desses livros imortais na Itália para que a vida, a liberdade, o pensamento, a humanidade, enterrados no sombrio calabouço do catolicismo, fossem ressuscitados. A emancipação humana, eis o nome da civilização grega. E o nome da civilização romana? E a conquista, com todas as suas conseqüências brutais. Sua última palavra? A onipotência dos Césares. E o envilecimento e a escravidão das nações e dos homens .

Ainda hoje, o que é que mata, o que é que esmaga brutalmente, materialmente, em todos os países da Europa, a liberdade e a humanidade? E o triunfo do princípio cesáreo ou romano .

Compararei agora duas civilizações modernas: a civilização italiana e a civilização alemã. A primeira representa, sem dúvida, em sua característica geral, o materialismo; a segunda representa, ao contrário, tudo o que há de mais abstrato, de mais puro e de mais transcendente no que concerne ao idealismo. Vejamos quais são os frutos práticos de uma e da outra .

A Itália já prestou imensos serviços à causa da emancipação humana .

Ela foi a primeira que ressuscitou e que aplicou amplamente o princípio da liberdade na Europa, que devolveu à humanidade seus títulos de nobreza: a indústria, o comércio, a poesia, as artes, as ciências positivas e o livre pensamento. Esmagada depois de três séculos de despotismo imperial e papal, arrastada na lama por sua burguesia governante, ela reaparece hoje, é verdade, bem abatida em comparação ao que foi, e, entretanto, quanto ela difere da Alemanha! Na Itália, apesar desta decadência, passageira, esperemo-lo, pode-se viver e respirar humanamente, cercado de um povo que parece ter nascido para a liberdade. A Itália, mesmo burguesa, pode vos mostrar com orgulho homens como Mazzini e como Garibaldi .

Na Alemanha, respira-se a atmosfera de uma imensa escravidão política e social, filosoficamente explicada e aceita por um grande povo, com uma resignação e uma boa vontade refletidas. Seus heróis – falo sempre da Alemanha atual, não da Alemanha do futuro, da Alemanha nobiliária, burocrática, política e burguesa, não da Alemanha proletária – são totalmente o oposto de Mazzini e de Garibaldi: são, hoje, Guilherme 1, o feroz e ingênuo representante do Deus protestante, são os Srs. Bismarck e Von Moltke, os generais Manteuffel e Werler. Em todas as suas relações internacionais, a Alemanha, desde que existe, foi lenta e sistematicamente invasora, conquistadora, sempre pronta a estender sobre os povos vizinhos seu próprio servilismo voluntário; e desde que ela se constituiu em potência unitária, ela se tornou uma ameaça, um perigo para a liberdade de toda a Europa. Hoje, a Alemanha é o servilismo brutal e triunfante .

Para mostrar como o idealismo teórico se transforma incessante e fatalmente em materialismo prático, basta citar o exemplo de todas as Igrejas cristãs e, naturalmente, antes de tudo, o da Igreja apostólica e romana. No sentido ideal, o que há de mais sublime, de mais desinteressado, de mais desprendido em todos os interesses desta terra, do que a doutrina do Cristo pregada por esta Igreja? E o que há de mais brutalmente materialista que a prática constante desta mesma Igreja, desde o século VIII, quando começou a se constituir como poder? Qual foi e qual é ainda o objeto principal de todos os seus litígios contra os soberanos da Europa? Seus bens temporais, seus ganhos inicialmente, e em seguida seu poder temporal, seus privilégios políticos .

É preciso fazer-lhe esta justiça, pois ela foi a primeira a descobrir, na história moderna, esta verdade incontestável, mas muito pouco cristã, que a riqueza e o poder, a exploração econômica e a opressão política das massas são os dois termos inseparáveis do reino do idealismo divino sobre a terra: a riqueza consolidando e aumentando o poder, o poder descobrindo e criando sempre novas fontes de riqueza, e ambos assegurando, melhor do que o martírio e a fé dos apóstolos, melhor do que a graça divina, o sucesso da propaganda cristã. E uma verdade histórica, e as igrejas, ou melhor, as seitas protestantes também não a desconhecem. Falo naturalmente das igrejas independentes da Inglaterra, da América e da Suíça, não das igrejas servis da Alemanha .

Estas não têm nenhuma iniciativa própria; elas fazem aquilo que seus senhores, seus soberanos temporais, que são ao mesmo tempo seus chefes espirituais, lhes ordenam fazer. Sabe-se que a propaganda protestante, a da Inglaterra e a da América sobretudo, se liga de uma maneira muito estreita à propaganda dos interesses materiais e comerciais destas duas grandes nações; sabe-se também que esta última propaganda não tem absolutamente por objeto o enriquecimento e a propriedade material dos países nos quais ela penetra em companhia da palavra de Deus, mas sim a exploração destes países, à vista do enriquecimento e da prosperidade material de certas classes, que, em seu próprio país, só visam a exploração e a pilhagem .

Numa palavra, não é nada difícil provar, com a história na mão, que a Igreja, que todas as Igrejas, cristãs e não cristãs, ao lado de sua propaganda espiritualista, provavelmente para acelerar e consolidar seu sucesso, jamais negligenciaram de organizar grandes companhias para a exploração econômica das massas, sob a proteção e a bênção direta e especial de uma divindade qualquer; que todos os Estados que, em sua origem, como se sabe, nada mais foram, com todas as suas instituições políticas e jurídicas e suas classes dominantes e privilegiadas, senão sucursais temporais destas diversas Igrejas, só tiveram igualmente por objeto principal esta mesma exploração em proveito das minorias laicas, indiretamente legitimadas pela Igreja; enfim, que em geral a ação do bom Deus e de todas as fantasias divinas sobre a terra finalmente resultou, sempre e em todos os lugares, na fundação do materialismo próspero do pequeno número sobre o idealismo fanático e constantemente faminto das massas .

O que vemos hoje é uma nova prova disso. A exceção desses grandes corações e desses grandes espíritos enganados que citei mais acima, quem são hoje os defensores mais obstinados do idealismo? Inicialmente são todas as cortes soberanas. Na França, foram Napoleão III e sua esposa, Madame Eugénie; são todos os seus antigos ministros, cortesãos e ex-marechais, desde Rouher e Bazaine até Fleury e Piétri; são os homens e as mulheres do mundo oficial imperial, que tão bem idealizaram e salvaram a França. São seus jornalistas e seus sábios: os Cassagnac, os Girardin, os Duvernois, os Veuillot, os Leverrier, os Dumas. . . E enfim a negra falange dos jesuítas e das jesuítas de todos os tipos de vestido; é a alta e média burguesia da França. São os doutrinários liberais e os liberais sem doutrina: os Guizot, os Thiers, os Jules Favre, os Pelletan e os Jules Simon, todos os defensores aguerridos da exploração burguesa. Na Prússia, na Alemanha, é Guilherme 1, o rei demonstrador atual do bom Deus sobre a terra; são todos os seus generais, todos os seus oficiais pomeranianos e outros, todo o seu exército que, forte em sua fé religiosa, acaba de conquistar a França da maneira ideal que se sabe. Na Rússia, é o czar e toda a sua corte; são os Muravieff e os Berg, todos os degoladores e os religiosos conversores da Polônia. Em todos os lugares, numa palavra, o idealismo religioso filosófico, um destes qualificativos nada mais sendo do que a tradução mais ou menos livre do outro, serve hoje de bandeira à força sanguinária e brutal, à exploração material descarada; enquanto, ao contrário, a bandeira do materialismo teórico, a bandeira vermelha da igualdade econômica e da justiça social, é agitada pelo idealismo prático das massas oprimidas e famintas, tendendo a realizar a liberdade maior e o direito humano de cada um na fraternidade de todos os homens sobre a terra .

Quem são os verdadeiros idealistas, não – os idealistas da abstração, mas da vida; não do céu, mas da terra; e quem são os materialistas? * * * É evidente que o idealismo teórico ou divino tem como condição essencial o sacrifício da lógica, da razão humana, a renúncia à ciência .
Vê-se, por outro lado, que defendendo as doutrinas ideais, é-se forçosamente levado ao partido dos opressores e dos exploradores das massas populares. Eis duas grandes razões que, segundo parece, bastariam para afastar do idealismo todo grande espírito, todo grande coração. Como é possível que nossos ilustres idealistas contemporâneos, aos quais, certamente, não faltam nem o espírito, nem o coração, nem a boa vontade, e que devotaram toda sua existência ao serviço da humanidade, como é possível que eles se obstinem em permanecer entre os representantes de uma doutrina doravante condenada e desonrada? É preciso que eles sejam levados a isso por uma razão muito forte. Não pode ser nem a lógica nem a ciência, visto que a lógica e a ciência pronunciaram seu veredicto contra a doutrina idealista. Não podem ser também interesses pessoais, pois estes homens estão infinitamente erguidos acima de tudo o que carrega este nome. Só pode ser então uma forte razão moral. Qual? Só pode haver uma. Esses homens ilustres pensam, sem dúvida, que as teorias ou as crenças ideais são essencialmente necessárias à dignidade e à grandeza moral do homem, e que as teorias materialistas, ao contrário, rebaixam-no ao nível dos animais .

-E se o oposto fosse verdadeiro? Todo desenvolvimento, já disse, implica a negação do ponto de partida. A base, ou o ponto de partida, segundo a escola materialista, sendo material, a negação deve ser necessariamente ideal. Partindo da totalidade do mundo real, ou daquilo que se chama abstratamente de costume, ela chega logicamente à idealização real, isto é, à humanização, à emancipação plena e inteira da sociedade. Todavia, e pela mesma razão, sendo o ideal a base e o ponto de partida da escola idealista, ela chega forçosamente à materialização da sociedade, à organização de um despotismo brutal e de uma exploração iníqua e ignóbil, sob a forma da Igreja e do Estado. O desenvolvimento histórico do homem, segundo a escola materialista, é uma ascensão progressiva; no sistema idealista ele só pode ser uma queda contínua .

Qualquer que seja a questão humana que se queira considerar, encontra-se sempre esta mesma contradição essencial entre as duas escolas. Assim, como já fiz observar, o materialismo parte da animalidade para constituir a humanidade; o idealismo parte da divindade para constituir a escravidão e condenar as massas a uma animalidade sem saída. O materialismo nega o livre-arbítrio e resulta na constituição da liberdade; o idealismo, em nome da dignidade humana, proclama o livre-arbítrio, e, sobre as ruínas da liberdade, funda a autoridade. O materialismo rejeita o princípio de autoridade porque ele o considera, com razão, como o corolário da animalidade, e que, ao contrário, o triunfo da humanidade, objetivo e sentido principal da história, só é realizável pela liberdade. Numa palavra, vós encontrareis sempre os idealistas em flagrante delito de materialismo prático, enquanto vereis os materialistas buscarem e realizarem as aspirações, os pensamentos mais amplamente ideais .

A história, no sistema dos idealistas, como já disse, não pode ser senão uma queda contínua. Eles começam por uma queda terrível da qual jamais se levantam: pelo salto mortale das regiões sublimes da idéia pura, absoluta, à matéria. E em que matéria! Não nesta matéria eternamente ativa e móvel, cheia de propriedades e de forças, de vida e de inteligência, tal como ela se apresenta a nós, no mundo real; mas na matéria abstrata, empobrecida e reduzida à miséria absoluta, tal como a concebem os teólogos e os metafísicos, que lhe roubaram tudo para dar a seu imperador, a seu Deus; nesta matéria que, privada de qualquer ação e de qualquer movimento próprios, só representa, em oposição à idéia divina, a estupidez, a impenetrabilidade, a inércia e a imobilidade absolutas .

A queda é tão terrível que a divindade, a pessoa ou a idéia divina se avilta, perde sua consciência, perde a consciência de si mesma e nunca mais se reencontra. E nesta situação desesperada ela é ainda forçada a fazer milagres! Isto porque, do momento em que a matéria é inerte, todo movimento que se produz no mundo, mesmo o mais material, é um milagre, outra coisa não pode ser senão o efeito de uma intervenção providencial, da ação de Deus sobre a matéria. E eis que esta pobre divindade, quase anulada por sua queda, permanece alguns milhares de séculos neste sono, em seguida desperta lentamente, esforçando-se em vão para recuperar alguma vaga lembrança dela mesma, e cada movimento que faz com esta finalidade, na matéria, torna-se uma criação, uma formação nova, um novo milagre. Desta maneira ela ultrapassa todos os níveis da materialidade e da bestialidade; inicialmente gás, corpo químico simples ou composto, mineral, ela se espalha em seguida sobre a terra como organização vegetal e animal, depois se concentra no homem. Aqui, ela parece haver se reencontrado, pois ela acende no ser humano uma chama angélica, uma parcela de seu próprio ser divino, a alma imortal .

Como ela pode conseguir alojar uma coisa absolutamente imaterial numa coisa absolutamente material; como o corpo pode conter, encerrar, limitar, paralisar o espírito puro? Eis mais uma destas questões que somente a fé, esta afirmação apaixonada e estúpida do absurdo, pode resolver. E o maior dos milagres. Aqui, nada temos a fazer senão constatar os efeitos, as conseqüências práticas deste milagre .

Após milhares de séculos de vãos esforços para retornar a ela mesma, a Divindade, perdida e espalhada na matéria que ela anima e que põe em movimento, encontra um ponto de apoio, uma espécie de local para seu próprio recolhimento. E o homem, é sua alma imortal aprisionada singularmente num corpo mortal. Mas cada homem, considerado individualmente, é infinitamente restrito, muito pequeno para englobar a imensidão divina; ele só pode conter uma pequena parcela, imortal como o Todo, mas infinitamente menor que o Todo. Resulta disso que o Ser divino, o Ser absolutamente imaterial, o Espírito, é divisível como a matéria. Eis ainda um mistério cuja solução é preciso deixar à fé .

Se Deus, por inteiro, pudesse se alojar em cada homem, então cada homem seria Deus. Teríamos uma grande quantidade de Deuses, cada um se achando limitado pelos outros, mas nem por isso menos infinito, contradição que implicaria necessariamente a destruição mútua dos homens, a impossibilidade de que existisse mais do que um. Quanto às parcelas, é outra coisa; nada de mais racional, com efeito, que uma parcela seja limitada por outra, e que ela seja menor do que o Todo. Aqui se apresenta outra contradição. Ser maior e menor são dois atributos da matéria, não do espírito, tal como o compreendem os idealistas. Segundo os materialistas, é verdade, o espírito outra coisa não é senão o funcionamento do organismo totalmente material do homem, e a grandeza ou a pequenez do espírito dependem da maior ou menor perfeição material do organismo humano. Mas estes mesmos atributos de limitação e de grandeza relativas não podem ser atribuídos ao espírito, tal como o compreendem os idealistas, ao espírito absolutamente imaterial, ao espírito existindo fora de qualquer matéria. Lá não pode haver nem maior, nem menor, nem qualquer limite entre os espíritos, pois só há um único espírito: Deus. Se acrescentarmos que as parcelas infinitamente pequenas e limitadas que constituem as almas humanas são ao mesmo tempo imortais, evidenciar-se-á o cúmulo da contradição. Mas é uma questão de fé. Deixemos isto de lado .

Eis pois a Divindade destroçada e alojada por infinitas pequenas partes, numa imensa quantidade de seres de todos os sexos, de todas as idades, de todas as raças e de todas as cores. Eis aí uma situação excessivamente incômoda e infeliz, pois as parcelas divinas reconhecem-se tão pouco no início de sua existência humana, que começam por se entredevorar. Todavia, no meio desse estado de barbárie e de brutalidade totalmente animal, estas parcelas divinas, as almas humanas, conservam como que uma vaga lembrança de sua divindade primitiva, e são invencivelmente arrastadas rumo a seu Todo; elas se procuram, elas o procuram. E a própria Divindade, espalhada e perdida no mundo material, que se procura nos homens, e está de tal forma embrutecida por esta multidão de prisões humanas, nas quais se acha espalhada, que, ao se procurar, comete loucuras sobre loucuras .

Começando pelo fetichismo, ela se procura e adora a si mesma, ora numa pedra, ora num pedaço de pau, ora num esfregão. E até mesmo muito provável que jamais tivesse saído do esfregão se a outra divindade, que não se deixou diminuir na matéria, e se conservou no estado de espírito puro, nas alturas sublimes do ideal absoluto, ou nas regiões celestes, não tivesse tido piedade dela .
Eis um novo mistério. E o da Divindade que se cinde em duas metades, mas igualmente infinitas todas as duas, e das quais uma – Deus pai – se conserva nas puras regiões imateriais; a outra – Deus filho – se deixa enfraquecer na matéria. Nós iremos ver, daqui a pouco, estabelecerem-se relações contínuas de cima para baixo e de baixo para cima entre estas duas Divindades, separadas uma da outra; e estas relações, consideradas como um único ato eterno e constante, constituirão o Espírito Santo. Tal. é, em seu verdadeiro sentido teológico e metafísico, o grande, o terrível mistério da Trindade cristã .

Mas deixemos, rapidamente, estas alturas e vejamos o que se passa sobre a terra .

Deus pai, vendo, do alto de seu esplendor eterno, que o pobre Deus filho, humilhado, atordoado por sua queda, mergulhou e perdeu-se de tal forma na matéria, que, preso ao estado humano, não consegue se reencontrar, decide 5& corrê-lo. Entre esta imensa quantidade de parcelas simultaneamente imortais, divinas e infinitamente pequenas, nas quais Deus filho disseminou-se a ponto de não poder se reconhecer, Deus pai escolhe aquelas que mais lhe aprazem; ele toma seus inspirados, seus profetas, seus gênios virtuosos, OS grandes benfeitores e legisladores da humanidade: Zoroastro, Buda, Moisés, Confúcio, Licurgo, Sólon, Sócrates, o divino Platão, e sobretudo Jesus Cristo, a completa realização de Deus filho, enfim recolhido e concentrado numa pessoa humana; todos os apóstolos, São Pedro, São Paulo e São João, Constantino, o Grande, Maomé, depois Gregório VII, Carlos Magno, Dante, segundo uns, Lutero também, Voltaire e Rousseau, Ropespierre e Danton, e muitos outros grandes e santos personagens, dos quais é impossível recapitular todos os nomes, mas entre os quais, como russo, peço para não se esquecerem de São Nicolau .

* * *

Eis que chegamos à manifestação de Deus sobre a terra. Mas tão logo Deus aparece, o homem se aniquila. Dir-se-á que não se aniquila visto ser ele próprio uma parcela de Deus. Perdão! Admito que a parcela de um todo determinado, limitado, por menor que seja esta parte, seja uma quantidade, uma grandeza positiva. Mas uma parcela do infinitamente grande, comparada com ele, é infinitamente pequena. Multiplicai bilhões de bilhões por bilhões de bilhões, seu produto, em comparação ao infinitamente grande, será infinitamente pequeno, e o infinitamente pequeno é igual a zero. Deus é tudo, por conseguinte o homem e todo o mundo real com ele, o universo, nada são. Vós não escapareis disto .
Deus aparece, o homem se aniquila; e quanto maior se torna a Divindade, mais a humanidade se torna miserável. Esta é a história de todas as religiões; este é o efeito de todas as inspirações e de todas as legislações divinas. Na história, o nome de Deus é a terrível dava com a qual os homens diversamente inspirados, os grandes gênios, abateram a liberdade, a dignidade, a razão e a prosperidade dos homens .
Tivemos inicialmente a queda de Deus. Temos agora uma queda que nos interessa mais, a do homem, causada pelo aparecimento da manifestação de Deus sobre a terra .

Vede em que erro profundo se encontram nossos caros e ilustres idealistas. Ao nos falarem de Deus, eles crêem, eles querem nos educar, nos emancipar, nos enobrecer e, ao contrário, eles nos esmagam e nos aviltam. Com o nome de Deus, eles imaginam poder estabelecer a fraternidade entre os homens, e, ao contrário, criam o orgulho, o desprezo; semeiam a discórdia, o ódio, a guerra; fundam a escravidão .
Isto porque, com Deus, vêm os diferentes graus de inspiração divina; a humanidade se divide em homens muito inspirados, menos inspirados, não inspirados. Todos são igualmente nulos diante de Deus, é verdade; mas comparados uns aos outros, uns são maiores do que os outros; não somente pelo fato, o que não seria nada, visto que uma desigualdade de fato se perde por si mesma na coletividade, quando ela não se pode agarrar a nenhuma ficção ou instituição legal; mas pelo direito divino da inspiração: o que constitui logo em seguida uma desigualdade fixa, constante, petrificada. Os mais inspirados devem ser escutados e obedecidos pelos menos inspirados, pelos não inspirados. Eis o princípio da autoridade bem estabelecido, e com ele as duas instituições fundamentais da escravidao: a Igreja e o Estado .

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De todos os despotismos, o dos doutrinadores ou dos inspirados religiosos é o pior. Eles são tão ciumentos da glória de seu Deus e do triunfo de sua idéia que não lhes resta mais coração, nem pela liberdade, nem pela dignidade, nem mesmo pelos sofrimentos dos homens vivos, homens reais. O zelo divino, a preocupação com a idéia acabam por dissecar, nas almas mais delicadas, nos corações mais compassivos, as fontes do amor humano. Considerando tudo o que é, tudo o que se faz no mundo do ponto de vista da eternidade ou da idéia abstrata, eles tratam com desdém as coisas passageiras; mas toda a vida dos homens reais, dos homens em carne e osso, só é composta de coisas passageiras; eles próprios nada mais são do que seres que passam, e que, uma vez passados, são substituídos por outros, também passageiros, mas que não retornam jamais. O que há de permanente ou de relativamente eterno é a humanidade, que se desenvolve constantemente, de geração em geração. Digo relativamente eterno porque, uma vez destruído nosso planeta, e ele’ não pode deixar de perecer cedo ou tarde, pois tudo que começa tem necessariamente um fim, uma vez nosso planeta decomposto, para servir sem dúvida alguma de elemento a alguma nova formação no sistema do universo, o único realmente eterno, quem pode saber o que acontecerá com todo o nosso desenvolvimento humano? Todavia, como o momento desta dissolução se encontra imensamente afastado de nós podemos considerar, em relação à vida humana tão curta, a humanidade eterna. Mas esse fato de a humanidade ser progressiva só é real e vivo por suas manifestações em tempos determinados, em lugares determinados, em homens realmente vivos, e não em sua idéia geral .

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A idéia geral é sempre uma abstração e por isso mesmo, de alguma forma, uma negação da vida real. A ciência só pode compreender e denominar os fatos reais em seu sentido geral, em suas relações, em suas leis; numa palavra, o que é permanente em suas informações contínuas, mas jamais seu lado material, individual, por assim dizer, palpitante de realidade e de vida, e por isso mesmo, fugitivo e inapreensível. A ciência compreende o pensamento da realidade, não a realidade em si mesma; o pensamento da vida, não a vida. Eis seu limite, o único limite verdadeiramente intransponível para ela, porque ela está fundada sobre a própria natureza do pensamento, que é o único órgão da ciência .
Sobre esta natureza se fundam os direitos incontestáveis e a grande missão da ciência, mas também sua impotência vital e mesmo sua ação malfazeja, todas as vezes que, por seus representantes oficiais, nomeados, ela se arroga o direito de governar a vida. A missão da ciência é, constatar as relações gerais das coisas passageiras e reais: reconhecendo as leis gerais que são inerentes ao desenvolvimento dos fenômenos do mundo físico e do mundo social, ela assenta, por assim dizer, as balizas imutáveis da marcha progressiva da humanidade, indicando as condições gerais, cuja observação rigorosa e necessária e cuja ignorância ou esquecimento será sempre fatal. Numa palavra, a ciência é a bússola da vida; mas não é a vida. A ciência é imutável, impessoal, geral, abstrata, insensível, como as leis das quais ela nada mais é do que a reprodução ideal, refletida ou mental, isto é, cerebral (para nos lembrar de que a ciência nada mais é do que um produto material de um órgão material, o cérebro). A vida é fugidia e passageira, mas também palpitante de realidade e individualidade, de sensibilidade, sofrimentos, alegrias, aspirações, necessidades e paixões. É somente ela que, espontaneamente, cria as coisas e os seres reais. A ciência nada cria, ela constata e reconhece somente as criações da vida. E todas as vezes que os homens de ciência, saindo de seu mundo abstrato, envolvem-se com a criação viva, no mundo real, tudo o que eles propõem ou tudo o que eles criam é pobre, ridiculamente abstrato, privado de sangue e vida, natimorto, igual ao homunculus criado por Wagner, o discípulo pedante do imortal Dr. Fausto. Disso resulta que a ciência tem por missão única iluminar a vida, e não governá-la .

O governo da ciência e dos homens de ciência, ainda que fossem positivistas, discípulos de Auguste Comte, ou ainda discípulos da escola doutrinária do comunismo alemão, não poderia ser outra coisa senão um governo impotente, ridículo, desumano, cruel, opressivo, explorador, malfazejo. Pode-se dizer dos homens de ciência, como tais, o que digo dos teólogos e metafísicos: eles não têm nem sentido, nem coração para os seres individuais e vivos. Não se pode sequer fazer-lhes uma censura, pois é a conseqüência natural de sua profissão. Enquanto homens de ciência, eles só podem se interessar pelas generalidades, pelas leis absolutas, e não a levar em conta outra coisa .
A individualidade real e viva só é perceptível para uma outra individualidade viva, não para uma individualidade pensante, não para o homem que por uma série de abstrações põe-se fora e acima do contato imediato da vida; ela pode existir para eles somente como um exemplar mais ou menos perfeito da espécie, isto é, uma abstração determinada .

Se é um coelho, por exemplo, quanto mais bonito for o espécimen, mais o cientista o dissecará com felicidade, na esperança de poder fazer sair desta própria destruição a natureza geral, a lei da espécie .

Se ninguém se opusesse a isso, não existiria, mesmo em nossos dias, um número de fanáticos capazes de fazer as mesmas experiências sobre o homem? E se, todavia, os cientistas naturalistas não dissecam o homem vivo, não é a ciência, são os protestos todo-poderosos da vida que os fizeram parar. Ainda que eles passem estudando três quartos de sua existência, e que, na atual organização, formem um tipo de mundo à parte – o que prejudica simultaneamente a saúde de seu coração e a de seu espírito – eles não são exclusivamente homens da ciência, mas são também, mais ou menos, homens da vida .

Todavia, não se deve confiar nisso. Se se pode estar mais ou menos seguro de que um cientista não ousaria tratar um homem, hoje, como trata um coelho, resta sempre a temer que o corpo de cientistas submeta os homens vivos a experiências científicas, sem dúvida interessantes, mas que seriam não menos desagradáveis para suas vítimas. Se não podem fazer experiências com o corpo dos indivíduos, eles não pedirão nada mais do que fazê-las com o corpo social, e eis o que é precioso absolutamente impedir .

Em sua organização atual, monopolizando a ciência e permanecendo, assim, fora da vida social, os cientistas formam uma casta à parte, oferecendo muita analogia com a casta dos padres. A abstração científica é seu Deus, as individualidades são suas vítimas e eles são seus sacrificadores nomeados .

A ciência não pode sair da esfera das abstrações. Em relação a isso, ela é muito inferior à arte, que, ela também, está ligada a tipos e situações gerais, mas que os encarna por um artifício que lhe é próprio. Sem dúvida, essas formas da arte não são a vida, mas não deixam de provocar em nossa imaginação a lembrança e o sentimento da vida; a arte individualiza, sob uma certa forma, os tipos e as situações que concebe; por meio de individualidades sem carne e osso, e, consequentemente, permanentes e imortais, que tem o poder de criar, ela nos faz lembrar das individualidades vivas, reais, que aparecem e desaparecem sob nossos olhos. A arte é, pois, sob uma certa forma, o retorno da abstração à vida. A ciência é, ao contrário, a imolação perpétua da vida, fugitiva, passageira, mas real, sob o altar das eternas abstrações .

A ciência é tão pouco capaz de compreender a individualidade de um homem quanto a de um coelho. Não é que ela ignore o princípio da individualidade; ela a concebe perfeitamente como principio, mas não como fato. Ela sabe muito bem que todas as espécies animais, inclusive a espécie humana, só possuem existência real em um número indefinido de indivíduos, nascendo e morrendo para dar lugar a novos indivíduos, igualmente fugidios. Ela sabe que, elevando-se das espécies animais às espécies superiores, o princípio da individualidade se determina mais; os indivíduos aparecem mais completos e mais livres. Ela sabe que o homem, o último e o mais perfeito animal desta terra, apresenta a individualidade mais completa e mais notável por causa de sua faculdade de conceber, concretizar, personificar, de um certo modo, em sua existência social e privada, a lei universal. Ela sabe, enfim, quando não está viciada pelo doutrinarismo teológico ou metafísico, político ou jurídico, ou mesmo por um estreito orgulho, quando ela não é surda aos institutos e às aspirações da vida, ela sabe, e esta é sua última palavra, que o respeito ao homem é a lei suprema da Humanidade, e que o grande, o verdadeiro objetivo da história, o único legítimo, é a humanização e a emancipação, é a liberdade real, a prosperidade de cada indivíduo vivo na sociedade. A menos que se recaia nas ficções liberticidas do bem público representado pelo Estado, ficções fundadas sempre sobre a imolação sistemática do povo, deve-se reconhecer que a liberdade e a prosperidade coletivas só existem sob a condição de representar a soma das liberdades e das prosperidades individuais .

A ciência sabe de todas essas coisas, mas ela não vai e não pode ir além. A abstração, constituindo sua própria natureza, pode conceber bem o princípio da individualidade real e viva, mas não pode ter nada a fazer com os indivíduos reais e vivos. Ela se ocupa dos indivíduos em geral, mas não de Pierre ou de Jacques, não de tal ou qual, que não existem, que não podem existir para ela. Seus indivíduos nada mais são, mais uma vez, do que abstrações .

Todavia, não são individualidades abstratas, são os indivíduos agindo e vivendo que fazem a história. As abstrações só caminham conduzidas por homens reais. Para esses seres formados, não somente em idéia, mas em realidade, de carne e de sangue, a ciência não tem coração. Ela os considera quando muito como carne para desenvolvimento intelectual e social. O que lhe fazem as condições particulares e o destino fortuito de Pierre ou Jacques? Ela se tornaria ridícula, ela abdicaria, ela se aniquilaria se quisesse se ocupar disso de outra forma que não a habitual, em apoio de suas teorias eternas. E seria ridículo censurá-la, pois ela obedece a suas leis. Ela não pode compreender o concreto; ela só pode mover-se em abstrações. Sua missão é ocupar-se da situação e das condições gerais da existência e do desenvolvimento, seja da espécie humana em geral, seja de tal raça, de tal povo, de tal classe ou categoria de indivíduos, das causas gerais de sua prosperidade, de sua decadência e dos meios gerais bons para fazê-los progredir de todas as maneiras. Desde que ela realize ampla e racionalmente esta tarefa, ela terá feito todo seu dever e seria realmente injusto pedir-lhe mais .

Mas seria igualmente ridículo, seria desastroso confiar-lhe uma missão que ela é incapaz de realizar, visto que sua própria natureza força-a a ignorar a existência e o destino de Pierre e de Jacques. Ela continuaria a ignorá-los, mas seus representantes nomeados, homens em nada abstratos, mas, ao contrário muito vivos, possuindo interesses muito reais, cedendo à influência perniciosa que o privilégio exerce fatalmente sobre os homens, acabariam por esfolar os outros homens em nome da ciência, como os esfolaram até agora os padres, os políticos de todas as cores e os advogados, em nome de Deus, do Estado, do Direito jurídico .

O que prego é, até certo ponto, a revolta da vida contra a ciência, ou melhor, contra o governo da ciência, não para destruir a ciência – seria um crime de lesa-humanidade – mas para recolocá-la em seu lugar, de maneira que ela não possa jamais sair de novo. Até o presente momento toda a história humana nada mais foi senão uma imolação perpétua e sangrenta de milhões de pobres seres humanos a uma abstração impiedosa qualquer: Deus, Pátria, poder do Estado, honra nacional, direitos históricos, liberdade política, bem público. Tal foi até agora o movimento natural, espontâneo e fatal das sociedades humanas. Nada podemos fazer para mudar isso, devemos suportá-lo em relação ao passado, como suportamos todas as fatalidades atuais. Deve-se acreditar que esta era a única via possível para a educação da espécie humana .
Não devemos nos enganar: mesmo procurando informar amplamente sobre os artifícios maquiavélicos das classes governamentais, devemos reconhecer que nenhuma minoria teria sido bastante poderosa para impor todos estes horríveis sacrifícios às massas, se não tivesse havido, nelas mesmas, um movimento vertiginoso, espontâneo, levando-as a se sacrificarem sempre, ora a uma, ora a outra destas abstrações devoradoras que, vampiros da história, sempre se nutriram de sangue humano .

Que os teólogos, os políticos e os juristas achem isso muito bom, nós os compreendemos. Padres destas abstrações, eles vivem apenas desta contínua imolação das massas populares. Que a metafísica dê a isso também seu consentimento, não deve nos surpreender também. Ela não possui outra missão que a de legitimar e de racionar, tanto quanto seja possível, o que é iníquo e absurdo. Mas o que se deve deplorar é o fato de a ciência positiva ter mostrado as mesmas tendências. Ela o fez por duas razões: inicialmente, porque constituída fora da vida, ela é representada por um corpo privilegiado, e, em seguida, porque ela própria se colocou até aqui como objetivo absoluto e último de todo desenvolvimento humano. Por uma crítica judiciosa, que ela pode e que em última instância se verá forçada a exercer contra si mesma, ela deveria ter compreendido que, ao contrário, ela é somente um meio para a realização de um objetivo bem mais elevado: o da completa humanização de todos os indivíduos que nascem, vivem e morrem na terra .

A imensa vantagem da ciência positiva sobre a teologia, a metafísica, a política e o direito jurídico consiste no seguinte: no lugar das abstrações enganosas e funestas, pregadas por estas doutrinas, ela apresenta abstrações verdadeiras, que exprimem a natureza geral e a lógica das coisas, as relações e as leis gerais de seu desenvolvimento. Eis o que lhe assegurará sempre uma grande posição na sociedade. Ela constituirá, de alguma forma, sua consciência coletiva; mas há um lado pelo qual ela se parece com todas as doutrinas anteriores: possuindo e só podendo ter por objetivo abstrações, ela é forçada por sua natureza a ignorar os homens reais, fora dos quais as abstrações mais verdadeiras não têm nenhuma existência. Para remediar este defeito radical, a ciência do futuro deverá proceder de outra forma, diferente das doutrinas do passado. Estas últimas se prevaleceram da ignorância das massas para sacrificá-las, com volúpia, às suas abstrações, por sinal sempre muito lucrativas para aqueles que as representam em carne e osso. A ciência positiva, reconhecendo sua incapacidade absoluta de conceber os indivíduos reais e de se interessar por seu destino, deve definitiva e absolutamente renunciar ao governo das sociedades, pois se ela se imiscuir, não poderá fazer outra coisa senão sacrificar sempre os homens vivos que ela ignora às abstrações de que faz o único objeto de suas legítimas preocupações .
A verdadeira ciência da história ainda não existe; quando muito começa-se a entrever, hoje, as condições extremamente complicadas .

Mas suponhamo-la definitivamente feita, o que ela poderá nos dar? Ela restabelecerá o quadro fiel e refletido do desenvolvimento natural das condições gerais, materiais e ideais, econômicas, políticas e sociais, religiosas, filosóficas, estéticas e científicas das sociedades que tiveram uma história. Mas este quadro universal da civilização humana, por mais detalhado que seja, jamais poderá conter senão apreciações gerais e, por conseqüência, abstratas. Os bilhões de indivíduos que forneceram a matéria viva e sofredora desta história, ao mesmo tempo triunfante e lúgubre – triunfante pela imensa hecatombe de vítimas humanas “esmagadas sob sua carruagem” -, estes bilhões de obscuros indivíduos, sem os quais nenhum dos grandes resultados abstratos da história teria sido obtido – e que, notemo-lo bem, quer destes resultados jamais se beneficiaram com qualquer destes resultados -, não encontrarão sequer o mínimo lugar em nossos anais. Eles viveram e foram sacrificados pelo bem da humanidade abstrata, eis tudo! Será preciso censurar a ciência da história? Seria injusto e ridículo. Os indivíduos são inapreensível pelo pensamento, pela reflexão, até mesmo pela palavra humana, que só é capaz de exprimir abstrações; eles são inapreensíveis, no presente, tanto quanto no passado. Assim, a própria ciência social, a ciência do futuro, continuará forçosamente a ignorá-los .

Tudo o que temos direito de exigir dela é que nos indique, com mão fiel e segura, as causas gerais dos sofrimentos individuais, e, entre estas causas, ela sem dúvida não esquecerá a imolação e a subordinação ainda muito freqüentes, infelizmente, dos indivíduos vivos às generalidades abstratas; e ao mesmo tempo nos mostrará as condições gerais necessárias à emancipação real dos indivíduos vivendo na sociedade. Eis sua missão; eis também seus limites, para além dos quais a ação da ciência social só poderá ser impotente e funesta. Fora destes limites começam as pretensões doutrinárias e governamentais de seus representantes nomeados, de seus padres. F tempo de acabar com estes pontífices, ainda que se dessem o nome de democratas-socialistas .

Mais uma vez, a única missão da ciência é iluminar O caminho. Mas, liberta de todos os seus entraves governamentais e doutrinários, e devolvida à plenitude de sua ação, somente a vida pode criar .

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Como resolver esta antinomia? De um lado, a ciência é indispensável à organização racional da sociedade, de outro, ela é incapaz de se interessar pelo que é real e vivo .
Esta contradição só pode ser resolvida

de uma única maneira: é preciso que a ciência não permaneça mais fora da vida de todos, tendo por representante um corpo de cientistas diplomados, é necessário que ela se fundamente e se dissemine nas massas. A ciência, chamada doravante a representar a consciência coletiva da sociedade, deve realmente tornar-se propriedade de todo mundo. Assim, sem nada perder de seu caráter universal, do qual jamais poderá se desviar sob pena de cessar de ser ciência, e continuando a se ocupar exclusivamente das causas gerais, das condições e das relações fixas dos indivíduos e das coisas, ela se fundirá à vida imediata e real de todos os indivíduos. Será um movimento análogo àquele que fez dizer aos pregadores, no momento do início da reforma religiosa, que não havia mais necessidade de padres para um homem que se tornará, dali em diante, seu próprio padre, graças à intervenção invisível do Senhor Jesus Cristo, tendo conseguido finalmente engolir seu bom Deus .

Mas aqui não se trata nem de Jesus Cristo, nem de bom Deus, nem de liberdade política, nem de direito jurídico, todas coisas teológicas ou metafisicamente reveladas, e todas igualmente indigestas. O mundo das abstrações científicas não é revelado; ele é inerente ao mundo real, do qual nada mais é do que a expressão e a representação geral ou abstrata. Sem que forme uma região separada, representada especialmente pelo corpo dos cientistas, este mundo ideal ameaça-nos tomar, em relação ao mundo real, o lugar do bom Deus, reservando a seus representantes nomeados o ofício de padres. E por isso que é preciso dissolver a organização especial dos homens de ciência pela instrução geral, igual para todos e para todas, a fim de que as massas, cessando de ser rebanhos conduzidos e tosquiados por padres privilegiados, possam controlar a direção de seus destinos[7] .

Mas enquanto as massas não tiverem chegado a este grau de instrução, será necessário que elas se deixem governar pelos homens de ciência? Certamente que não. Seria melhor para elas absterem-se de ciência do que se deixarem governar por homens de ciência. O governo destes homens teria, como primeira conseqüência, tornar a ciência inacessível ao povo, porque as instituições atuais da ciência são essencialmente aristocráticas. A aristocracia de homens de ciência! Do ponto de vista prático, a mais implacável, e do ponto de vista social, a mais vaidosa e a mais insultante: tal seria o poder constituído em nome da ciência. Este regime seria capaz de paralisar a vida e o movimento da sociedade. Os homens de ciência, sempre presunçosos, sempre auto-suficientes e sempre impotentes, gostariam de se imiscuir em tudo, e as fontes da vida se dissecariam sob seu sopro de abstrações .

Mais uma vez, a vida, não a ciência, cria a vida; somente a ação espontânea do povo pode criar a liberdade. Sem dúvida, será bastante feliz que a ciência possa, a partir de agora, iluminar a marcha do povo para a sua emancipação. Mas, é melhor a ausência de luz do que uma luz trêmula e incerta, servindo apenas para extraviar aqueles que a seguem. Não é em vão que o povo percorreu uma longa carreira histórica e que pagou seus erros por séculos de miséria. O resumo prático de suas dolorosas experiências constitui um tipo de ciência tradicional, que, sob certos pontos de vista, tem o mesmo valor de ciência teórica. Enfim, uma parte da juventude, aqueles dentre os burgueses estudiosos que sentirão bastante ódio contra a mentira, a hipocrisia, a injustiça e a covardia da burguesia, por encontrar em si próprios a coragem de lhe virar as costas, e bastante paixão para abraçar sem reservas a causa justa e humana do proletariado, estes serão, como já disse, os instrutores fraternos do povo; graças a eles ninguém precisará do governo dos homens de ciência .

Se o povo deve evitar o governo dos homens de ciência, com maior razão deve se precaver contra o dos idealistas inspirados .
Quanto mais sinceros são os crentes e os padres, mais se tornam perigosos. A abstração científica, já disse, é uma abstração racional, verdadeira em sua essência, necessária à vida, da qual é a representação teórica, ou se preferirem, consciência. Ela pode, ela deve ser absorvida e dirigida pela vida. A abstração idealista, Deus, é um veneno corrosivo que destrói e decompõe a vida, que a deturpa e a mata .
O orgulho dos homens de ciência, nada mais sendo do que uma arrogância pessoal, pode ser dobrado e quebrado. O orgulho dos idealistas, não sendo em nada pessoal, mas divino, é irascível e implacável: ele pode, ele deve morrer, mas jamais cederá, e enquanto lhe restar um sopro de vida, tentará subjugar os homens a seu Deus; é assim que os tenentes da Prússia, os idealistas práticos da Alemanha, gostariam de ver esmagar o povo sob a bota e espora de seu imperador .

E a mesma lei, e o objetivo não é nada diferente. O resultado da lei é sempre a escravidão; é ao mesmo tempo o triunfo do materialismo mais feio e mais brutal: não há necessidade de desmonstrá-lo para a Alemanha; seria preciso ser cego para vê-lo .

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O homem, como toda natureza viva, é um ser completamente material. O espírito, a faculdade de pensar, de receber e de refletir as diferentes sensações exteriores e interiores, de se lembrar delas quando passaram, e de reproduzi-las pela imaginação, compará-las e distingui-las, abstrair as determinações comuns e criar assim noções gerais, enfim, formar as idéias agrupando e combinando as noções segundo maneiras diferentes, numa palavra, a inteligência, única criadora de todo o nosso mundo ideal, é uma propriedade do corpo animal e, especialmente, do organismo cerebral .

Sabemo-lo de maneira certa, pela experiência de todos, que nenhum fato jamais desmentiu e que todo homem pode verificar a cada instante de sua vida. Em todos os animais, sem excetuar as espécies complementares inferiores, encontramos um certo grau de inteligência, e vemos que, na série das espécies, a inteligência animal se desenvolve, ainda mais quando a organização de uma espécie se aproxima daquela do homem; porém, somente no homem ela alcança este poder de abstração que constitui propriamente o pensamento .

A experiência universal [8], que é a única origem, a fonte de todos os nossos conhecimentos, demonstra-nos pois que toda inteligência está sempre ligada a um corpo animal qualquer, e que a intensidade e o poder desta função animal dependem da perfeição relativa do organismo. Este resultado da experiência universal não é somente aplicável às diferentes espécies animais; nós o constatamos igualmente nos homens, cuja potência intelectual e moral depende, de forma tão evidente, da maior ou menor perfeição de seu organismo como raça, como nação, como classe e como indivíduos, que não é necessário insistir sobre este ponto [9] .

Por outro lado, é certo que nenhum homem tenha visto ou podido ver alguma vez o espírito puro desprendido de toda forma material, existindo separadamente de um corpo animal qualquer. Mas, se ninguém a viu, como foi que os homens puderam chegar a crer em sua existência? O fato desta crença é certo e, senão universal, como dizem todos os idealistas, pelo menos muito geral, e como tal é inteiramente digno de nossa extrema atenção. Uma crença geral, por mais estúpida que seja, exerce uma influência muito poderosa sobre Q destino dos homens, para que possa ser permitido ignorá-la ou dela fazer abstração .

Esta crença se explica, por sinal, de uma maneira racional. O exemplo que nos oferecem as crianças e os adolescentes, até mesmo muitos homens que ultrapassaram em vários anos a maioridade, prova-nos que o homem pode exercer por muito tempo suas faculdades mentais antes de perceber a maneira como as exerce. Neste período do funcionamento do espírito, inconsciente de si mesmo, desta ação da inteligência ingênua ou crédula, o homem, obsedado pelo mundo exterior, levado por este aguilhão interior que se chama vida e as suas múltiplas necessidades, cria uma quantidade de imaginações, noções e idéias necessariamente muito imperfeitas no início, muito pouco conformes à realidade das coisas e dos fatos que elas se esforçam por exprimir. Ainda não tendo consciência de sua própria ação inteligente, ainda não sabendo que ele próprio produziu e continua a produzir estas imaginações, estas noções, estas idéias, ignorando sua origem totalmente subjetiva, isto é humana, ele deve naturalmente considerá-las como seres objetivos, como seres reais totalmente independentes de si, existindo por eles e neles mesmos .
Foi assim que os povos primitivos, emergindo lentamente de sua inocência animal, criaram seus deuses. Tendo-os criado, sem suspeitar que foram seus únicos criadores, eles os adoraram; considerando-os como seres reais, infinitamente superiores a si próprios, atribuíram-lhes a onipotência e se reconheceram suas criaturas, seus escravos. À medida que as idéias humanas se desenvolvem, os deuses, que nunca foram outra coisa senão revelação fantástica, ideal, poética da imagem invertida, idealizam-se também. Inicialmente fetiches grosseiros, eles se tornam pouco a pouco espíritos puros, existindo fora do mundo visível, e, enfim, no transcurso da história, eles acabam por se confundir num único ser divino, Espírito puro, eterno, absoluto, criador e senhor dos mundos .

Em todo desenvolvimento legítimo ou falso, real ou imaginário, coletivo ou individual, é sempre o primeiro passo que custa, o primeiro ato é o mais difícil. Uma vez ultrapassada a dificuldade, o resto se desenvolve naturalmente, como uma conseqüência necessária .

O que era difícil no desenvolvimento histórico desta terrível loucura religiosa que continua a nos obsedar era apresentar um mundo divino tal e qual, exterior ao mundo real. Este primeiro ato de loucura, tão natural do ponto de vista fisiológico, e por conseqüência necessário na história da humanidade, não se realiza de uma só vez. Foram necessários não sei quantos séculos para desenvolver e para fazer penetrar esta crença nos hábitos sociais dos homens. Mas, uma vez estabelecida, ela se tornou todo-poderosa, como se torna necessariamente a loucura, ao apoderar-se do cérebro do homem. Tomai um louco, qualquer que seja o objeto de sua loucura, e vereis que a idéia obscura e fixa que o obseda parece-lhe a mais natural do mundo, e que, ao contrário, as coisas da realidade que estão em contradição com esta idéia, parecem-lhe loucuras ridículas e odiosas. Bem, a religião e uma loucura coletiva, tanto mais poderosa por ser tradicional e porque sua origem se perde na antigüidade mais remota. Como loucura coletiva, ela penetrou até o fundo da existência pública e privada dos povos; ela se encarnou na sociedade, se tornou, por assim dizer, sua alma e seu pensamento. Todo homem é envolvido por ela desde o seu nascimento; ele a suga com o leite de sua mãe, absorve-a de tudo o que toca, de tudo o que vê. Ele foi, por ela, tão bem nutrido, envenenado, penetrado em todo o seu ser que, mais tarde, por poderoso que seja seu espírito natural, precisa fazer esforços espantosos para se livrar dela, e ainda assim não o consegue de uma maneira completa. Nossos idealistas modernos são uma prova disso, e nossos materialistas doutrinários, os conservadores alemães, são outra .

Eles não souberam se desfazer da religião do Estado .

Uma vez bem estabelecido o mundo sobrenatural, o mundo divino, na imaginação dos povos, o desenvolvimento dos diferentes sistemas religiosos seguiu seu curso natural e lógico, todavia conformando-se com o desenvolvimento contemporâneo das relações econômicas e políticas, das quais ele foi, em todos os tempos, no mundo da fantasia religiosa, a reprodução fiel e a consagração divina. Foi assim que a loucura coletiva e histórica que se chama religião se desenvolveu desde o fetichismo, passando por todos os graus, do politeísmo ao monoteísmo cristão .
O segundo passo no desenvolvimento das crenças religiosas, sem dúvida o mais difícil, após o estabelecimento de um mundo divino separado, foi precisamente a transição do politeísmo ao monoteísmo, do materialismo religioso dos pagãos à fé espiritualista dos cristãos. Os deuses pagãos – e aí está seu caráter principal – eram antes de tudo deuses exclusivamente nacionais. Muito numerosos, eles conservaram necessariamente um caráter mais ou menos material, ou melhor, porque eram materiais é que foram tão numerosos, sendo a diversidade um dos principais atributos do mundo real. Os deuses pagãos não eram propriamente a negação das coisas reais; eles nada mais eram do que seu exagero fantástico .

Vimos o quanto esta transição custou ao povo judeu, do qual ela constituiu, por assim dizer, toda a história. Moisés e os profetas tentaram por todos os meios fazer a pregação do Deus único, mas o povo recaía sempre em sua primeira idolatria, a antiga fé, muito mais natural, com vários bons deuses materiais, humanos, palpáveis. O próprio Jeová, seu Deus único, o Deus de Moisés e dos profetas, ainda era um Deus extremamente nacional, servindo-se, para recompensar e para punir seus fiéis, seu povo eleito, somente de argumentos materiais, freqüentemente estúpidos, sempre grosseiros e ferozes. Não parece sequer que a fé em sua existência tenha implicado a negação da existência dos deuses primitivos. O Deus judeu não negava a existência de seus rivais, somente não queria que seu povo os adorasse ao lado de si. Jeová era um Deus ciumento. Seu primeiro mandamento foi o seguinte: “Eu sou teu Deus e não adorarás outros deuses além de mim Jeová, portanto, foi apenas um primeiro esboço material e muito grosseiro do idealismo moderno. Ele nada mais era, por sinal, que um Deus nacional, como o Deus eslavo a que adoram os generais, súditos submissos e pacientes do imperador de todas as Rússias, como o Deus alemão que proclamam os pietistas, e os generais alemães súditos de Guilherme 1, em Berlim. O Ser supremo não pode ser um Deus nacional, ele deve sê-lo de toda a Humanidade. O Ser supremo não pode ser também um ser material, ele deve ser a negação de toda a matéria, o espírito puro. Para a realização do culto do Ser supremo foram necessárias duas coisas: primeira, uma realização igual à Humanidade pela negação das nacionalidades e dos cultos nacionais; segunda, um desenvolvimento já muito avançado das idéias metafísicas para espiritualizar o Jeová tão grosseiro dos judeus .

A primeira condição foi preenchida pelos romanos, de uma maneira sem dúvida muito negativa: pela conquista da maioria dos países conhecidos dos antigos, e pela destruição de suas instituições nacionais. Graças a eles, o altar de um Deus único e supremo pôde se estabelecer sobre as ruínas de outros milhares de altares. Os Deuses de todas as nações vencidas, reunidas no Panteão, anularam-se mutuamente .

Quanto à segunda condição, a espiritualização de Jeová, ela foi realizada pelos gregos, bem antes da conquista de seu país pelos romanos. A Grécia, em seu fim histórico, já havia recebido do Oriente um mundo divino que fora definitivamente estabelecido na fé tradicional de seus povos. Neste período de instinto, anterior à sua história política, ela o tinha desenvolvido é prodigiosamente humanizado por seus poetas, e quando ela começou verdadeiramente sua história, já possuía uma religião inteiramente pronta, a mais simpática e a mais nobre de todas as religiões que tenham existido, pelo menos tanto quanto uma religião, isto é, uma mentira pode ser nobre e simpática. Seus grandes pensadores – e nenhum povo teve pensadores maiores do que a Grécia – encontraram o mundo divino estabelecido, não somente fora deles próprios, no povo, mas também neles mesmos, como hábito de sentir e pensar, e naturalmente eles o tomaram como ponto de partida. Já foi muito bom que eles nada fizessem de teologia, quer dizer, que eles não se aborrecessem em reconciliar a razão nascente com os absurdos deste ou daquele deus, como o fizeram, na Idade Média, os escolásticos. Eles deixaram os deuses fora de suas especulações e se ligaram diretamente à idéia divina, una, invisível, todo-poderosa, eterna, absolutamente espiritualista e não pessoal. Os metafísicos gregos foram, portanto, muito mais que os judeus, os criadores de um Deus cristão. Os judeus apenas acrescentaram a ele a brutal personalidade de seu Jeová .

Que um gênio sublime, como o divino Platão, tenha podido estar absolutamente convencido da realidade da idéia divina, isto nos demonstra o quanto é contagiosa, o quanto é todo-poderosa a tradição da loucura religiosa, mesmo sobre os maiores espíritos. Por sinal, não devemos nos surpreender com isso, pois mesmo nos dias de hoje, o maior gênio filosófico desde Aristóteles e Platão, que é Hegel, esforçou-se em repor em seu trono transcendente ou celeste as idéias divinas, das quais Kant havia demolido a objetividade por uma crítica infelizmente imperfeita e muito metafísica. E verdade que Hegel portou-se de uma maneira tão indelicada em sua obra de restauração que matou definitivamente o bom Deus. Retirou destas idéias seu caráter divino ao demonstrar, a quem quiser lê-lo, que elas jamais foram outra coisa senão uma criação do espírito humano, correndo à procura de si próprio através da história. Para pôr fim a todas as loucuras religiosas e à miragem divina, só lhe faltou pronunciar esta grande frase dita depois, quase ao mesmo tempo, por dois grandes espíritos, e sem que nunca tivessem ouvido falar um do outro: Ludwig Feuerbach, o discípulo e o demolidor de Hegel, e Auguste Comte, o fundador da filosofia política na França. A frase é: “A metafísica se reduz à psicologia”. Todos os sistemas de metafísica nada mais são do que a psicologia humana se desenvolvendo na história .

Agora não nos é mais difícil compreender como nasceram as idéias divinas, como foram criadas pela faculdade abstrativa do homem. Mas na época de Platão, este conhecimento era impossível. O espírito coletivo, e por conseqüência também o espírito individual, mesmo o do maior gênio, não estava maduro para isto. Mal pôde ser dito com Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”. Este conhecimento de si próprio existia apenas em estado de abstração; na realidade, era nulo. Era impossível que o espírito humano desconfiasse que era o único criador do mundo divino .
Ele o encontrou diante de si, encontrou-o como história, como sentimento, com hábito de pensar, e fez dele necessariamente o objeto de suas mais elevadas especulações. Foi assim que nasceu a metafísica e que as idéias divinas, base do espiritualismo, foram desenvolvidas e aperfeiçoadas .

É verdade que depois de Platão existiu no desenvolvimento do espírito como que um movimento inverso. Aristóteles, o verdadeiro pai da ciência e da filosofia positiva não negou absolutamente o mundo divino, mas ocupou-se com isto o mínimo possível. Estudou primeiramente, como um analista e um experimentador que era, a lógica, as leis do pensamento humano, e, ao mesmo tempo, o mundo físico, não em sua essência ideal, ilusória, mas sob seu aspecto real .

Depois dele, os gregos de Alexandria fundaram a primeira escola das ciências positivas. Eles foram ateus. Mas seu ateísmo permaneceu sem influência sobre seus contemporâneos. A ciência tendeu cada vez mais a se isolar da vida. Quanto à negação das idéias divinas, pronunciada pelos epicuristas e pelos céticos, não teve nenhuma ação sobre as massas .

Uma outra escola, infinitamente mais influente, formou-se em Alexandria .

Foi a escola dos neoplatônicos. Estes, confundindo numa mescla impura as imaginaçõesmonstruosas do Oriente com as idéias de Platão, foram os verdadeiros preparadores e, mais tarde, os elaboradores dos dogmas cristãos .

Assim, o egoísmo pessoal e grosseiro de Jeová, a dominação não menos brutal e grosseira dos romanos, e a especulação metafísica ideal dos gregos, materializada pelo contato com o Oriente, tais foram os três elementos históricos que constituíram a religião espiritualista dos cristãos .
Um Deus que se elevava, pois, acima das diferenças nacionais de todos os países, que era de certa forma a negação direta, devia ser necessariamente um ser imaterial e abstrato. Mas já o dissemos, a fé tão difícil na existência de um semelhante ser não pôde nascer de uma só vez. Assim, também, ela foi longamente preparada e desenvolvida pela metafísica grega, que, inicialmente, estabeleceu, de maneira filosófica, a noção da idéia divina, modelo eternamente reproduzido pelo mundo visível. Mas a divindade concebida e criada pela filosofia grega era uma divindade pessoal. Nenhuma metafísica consequentemente séria, podendo se elevar, ou melhor, se rebaixar à idéia de um Deus pessoal, precisou, pois, imaginar um Deus que fosse único e que fosse três ao mesmo tempo. Ele se encontrou na pessoa brutal, egoísta e cruel de Jeová, o deus nacional dos judeus. Mas os judeus, apesar deste espírito nacional exclusivo que os distingue ainda hoje, tornaram-se, de fato, bem antes do nascimento de Cristo, o povo mais internacional do mundo .

Arrastados em parte como cativos, mas, muito mais ainda, levados por esta paixão mercantil que constitui um dos traços principais de seu caráter, eles se disseminaram em todos os países, levando com eles o culto de seu Jeová, ao qual permaneciam tanto mais fiéis quanto mais ele os abandonava .

Em Alexandria, o deus terrível dos judeus travou conhecimento pessoal com a divindade metafísica de Platão, já muito corrompida pelo contato com o Oriente, e a corrompeu ainda mais pelo seu. Apesar de seu exclusivismo nacional, ciumento e feroz, não pôde, com o tempo, resistir às graças desta divindade ideal e impessoal dos gregos. Desposou-a e deste casamento nasceu o deus espiritualista, mas não espiritual dos cristãos. Os neoplatônicos de Alexandria foram os principais criadores da teologia cristã .

Entretanto, a teologia ainda não constitui a religião, assim como os elementos históricos não bastam para criar a história. Denomino de elementos históricos as condições gerais de um desenvolvimento real qualquer, por exemplo a conquista do mundo pelos romanos e o encontro do deus dos judeus com a divindade ideal dos gregos. Para fecundar os elementos históricos, para fazê-los percorrer uma série de transformações, foi necessário um fato vivo, espontâneo, sem o qual teriam podido permanecer muitos séculos ainda em estado de elementos improdutivos. Este fato não faltou ao cristianismo; foi a propaganda, o martírio e a morte de Jesus Cristo .

Não sabemos quase nada deste personagem, tudo o que nos contam os evangelhos é tão contraditório e fabuloso que mal podemos extrair alguns traços reais e vivos. O certo é que foi o pregador do povo pobre, o amigo, o consolador dos miseráveis, dos ignorantes, dos escravos e das mulheres, e que foi muito amado por estas últimas. Prometeu a vida eterna a todos aqueles que sofrem aqui em baixo, e o número destes é imenso. Foi crucificado, como era de se esperar, pelos representantes da moral oficial e da ordem pública da época. Seus discípulos e os discípulos destes últimos puderam se espalhar, graças à conquista romana e à destruição das barreiras nacionais, e propagaram o Evangelho em todos os conhecidos dos antigos. Em todos os lugares foram recebidos de braços abertos pelos escravos e pelas mulheres, as duas classes mais oprimidas, mais sofredoras e naturalmente mais ignorantes do mundo antigo. Se fizeram alguns prosélitos no mundo privilegiado e letrado, devem isso, em grande parte, à influência das mulheres. Sua propaganda mais ampla exerceu-se quase exclusivamente no povo infeliz, embrutecido pela escravidão. Foi a primeira importante revolta do proletariado .

A grande honra do cristianismo, seu mérito incontestável e todo o segredo de seu triunfo inaudito, e por sinal totalmente legítimo, foi o de ter-se dirigido a este público sofredor e imenso, ao qual o mundo antigo impunha uma servidão intelectual e política estreita e feroz, negando-lhe inclusive os direitos mais simples da humanidade. De outra forma ele jamais teria podido se disseminar. A doutrina que ensinavam os apóstolos do Cristo, por mais consoladora que tenha parecido aos infelizes, era muito revoltante, muito absurda do ponto de vista da razão humana, para que homens esclarecidos tivessem podido aceitá-la. Com que alegria também o apóstolo Paulo fala do “escândalo da fé” e do triunfo desta divina loucura rejeitada pelos poderosos e pelos sábios do século, mas tanto mais apaixonadamente aceita pelos simples, pelos ignorantes e pelos pobres de espírito! Com efeito, seria preciso um bem profundo descontentamento da vida, uma grande sede no coração e uma pobreza quase absoluta de pensamento para aceitar o absurdo cristão, o mais monstruoso de todos os absurdos .

Não era somente a negação de todas as instituições políticas, sociais e religiosas da antigüidade; era a inversão absoluta de senso comum, de toda a razão humana. O ser vivo, o mundo real, eram considerados dali em diante como o nada; enquanto que, para além das coisas existentes, mesmo para além das idéias de espaço e de tempo, o produto final da faculdade abstrativa do homem repousa na contemplação de seu vazio e de sua imobilidade absoluta, esta abstração, este caput mortuum, absolutamente vazio de toda utilidade, o verdadeiro nada, Deus, proclamado o único ser real, eterno, todo-poderoso. O Todo real é declarado nulo, e o nulo absoluto, o Todo. A sombra se torna o corpo e o corpo se desvanece como uma sombra[10] .

Era de uma audácia e de um absurdo sem nome, o verdadeiro escândalo da fé para as massas; era o triunfo da insensatez crente sobre o espírito e, para alguns, a ironia de um espírito fatigado, corrompido, desiludido e enfadado pela busca honesta e séria da verdade; era a necessidade de se aturdir e de se embrutecer, necessidade que se encontra com freqüência entre os espíritos insensibilizados: “Credo quia absurdum” .

Não acredito somente no absurdo; acredito nele precisamente e sobretudo porque ele é absurdo. E assim que muitos espíritos distintos e esclarecidos acreditam, nos dias de hoje, no magnetismo animal, no espiritismo, nas mesas que giram – e por que ir tão longe? -, crêem ainda no cristianismo, no idealismo, em Deus .

A crença do proletariado antigo, tanto quanto a do proletariado moderno, era robusta e simples. A propaganda cristã havia se dirigido a seu coração, não a seu espírito, às suas aspirações eternas, às suas necessidades, aos seus sofrimentos, à sua escravização, não à sua razão, que dormia ainda, e para a qual, consequentemente, as contradições lógicas, a evidência do absoluto não podiam existir. A única questão que o interessava era a de saber quando chegaria a hora da libertação prometida, quando chegaria o reino de Deus. Quanto aos dogmas teológicos, não se preocupava com eles, pois deles nada compreendia. O proletariado convertido ao cristianismo constituía a potência material, mas não o pensamento teórico .

Quanto aos dogmas cristãos, eles foram elaborados em uma série de trabalhos teológicos, literários, e nos concílios, principalmente pelos neoplatônicos convertidos do Oriente .

O espírito grego tinha descido tão baixo, que no século VII da era cristã, época do primeiro concilio, a idéia de um Deus pessoal, espírito puro, eterno, absoluto, criador e senhor supremo, existindo fora de nós, era unanimemente aceita pelos padres da Igreja; como conseqüência lógica deste absurdo absoluto, tornava-se desde então natural e necessário crer na imaterialidade e na imortalidade da alma humana, hospedada e aprisionada em um corpo mortal, em parte somente, porque no corpo há uma parte que, ainda que sendo corporal, é imortal como a alma e deve ressuscitar com ela. Quanto foi difícil, mesmo aos padres da Igreja, imaginar o espírito puro, fora de qualquer forma corporal! E preciso observar que em geral o caráter de todo raciocínio metafísico e teológico é o de procurar explicar um absurdo por outro .

Foi muito oportuno para o cristianismo ter encontrado o mundo dos escravos. Houve outro motivo de alegria: a invasão dos bárbaros. Estes últimos eram uma brava gente, cheios de força natural e sobretudo levados por uma grande necessidade e por uma capacidade de viver; estes bandidos a toda prova, capazes de tudo devastar e tudo engolir, assim como seus sucessores, os alemães atuais; mas eles eram muito menos sistemáticos e pedantes que estes últimos, muito menos moralistas, menos sábios, e em compensação muito mais independentes e orgulhosos, capazes de ciências e não incapazes de liberdade, como os burgueses da Alemanha moderna. Apesar de todas as suas grandes qualidades, eles nada mais eram senão bárbaros, isto é, tão diferentes para todas as questões de teologia e de metafísica quanto os escravos antigos, dos quais um grande número, por sinal, pertencia à sua raça .

Assim, uma vez vencidas suas repugnâncias práticas, não foi difícil convertê-los teoricamente ao cristianismo .

Durante dez séculos, o cristianismo, armado com a onipotência da Igreja e do Estado, e sem nenhuma concorrência, pôde depravar, corromper e falsear o espírito da Europa. Não havia concorrentes, visto que fora da Igreja não houve nem pensadores nem letrados. Somente ela pensava, somente ela falava, escrevia, ensinava. Se heresias surgiram em seu seio, elas só atacavam os desenvolvimentos teológicos ou práticos do dogma fundamental, não a este dogma. A crença em Deus, espírito puro e criador do mundo, e a crença na imaterialidade da alma permaneciam de fora. Esta dupla crença tornou-se a base ideal de toda a civilização ocidental e oriental da Europa; penetrou todas as instituições, todos os detalhes da vida pública e privada das castas e das massas; encarnou-se nelas, por assim dizer .

Podemos surpreender-nos que depois disso esta crença se tenha mantido até nossos dias, continuando a exercer sua influência desastrosa sobre espírito de elite, tais como os de Mazzini, Michelet, Quinet e tantos outros? Vimos que o primeiro ataque foi dirigido contra ela pelo renascimento do livre espírito no século XV, que produziu heróis e mártires como Vanini, Giordano Bruno, Galileu. Ainda que sufocado pelo barulho, pelo tumulto e pelas paixões da reforma religiosa, ele continuou sem barulho seu trabalho invisível, legando aos mais nobres espíritos de cada geração sua obra de emancipação humana pela destruição do absurdo, até que, enfim, na segunda metade do século XVIII, ele reapareceu abertamente de novo, elevando ousadamente a bandeira do ateísmo e do materialismo .

* * * Pôde-se acreditar que o espírito humano iria enfim se livrar de todas as obsessões divinas. Foi um erro. A mentira da qual a humanidade era a vítima havia dezoito séculos (para só falar do cristianismo) deveria se mostrar, mais uma vez, mais poderosa do que a verdade. Não mais podendo servir-se da gente negra, dos corvos consagrados pela Igreja, padres católicos ou protestantes, que tinham perdido todo o crédito, serviu-se dos padres laicos, dos mentores e dos sofistas togados, entre os quais o principal papel foi destinado a dois homens fatais, um, o espírito mais falso, o outro, a vontade mais doutrinariamente despótica do último século: J .-J. Rousseau e Robespierre .
O primeiro é o verdadeiro tipo da estreiteza e da mesquinharia desconfiada> da exaltação sem outro objeto que sua própria pessoa, do entusiasmo frio e da hipocrisia simultaneamente sentimental e implacável, da mentira do idealismo moderno. Pode-se considerá-lo como o verdadeiro criador da reação. Aparentemente, o escritor democrático do século XVIII prepara em si mesmo o despotismo impiedoso do homem de Estado. Foi o profeta do Estado doutrinário, como Robespierre, seu digno e fiel discípulo, tentou tornar-se seu grande padre. Tendo ouvido dizer, por Voltaire, que se não existisse Deus seria preciso inventá-lo, Rousseau inventou o Ser Supremo, o Deus abstrato e estéril dos deístas .
E foi em nome do Ser Supremo e da hipócrita virtude comandada por este Ser Supremo que Robespierre guilhotinou os Hebertistas inicialmente, em seguida o próprio gênio da revolução, Danton, em cuja pessoa ele assassinou a república, preparando assim o triunfo, tornado desde aquele momento necessário, da ditadura napoleônica. Depois do grande recuo, a reação idealista procurou e encontrou servidores, menos fanáticos, menos terríveis, mais de acordo com a estatura consideravelmente diminuta da burguesia atual .

Na França, foram Chateaubriand, Lamartine e – é preciso dizê-lo – Victor Hugo, o democrata, o republicano, o quase-socialista de hoje, e depois deles toda a tropa melancólica, sentimental, de espíritos magros e pálidos que constituíram, sob a direção destes mestres, a escola romântica moderna. Na Alemanha, foram os Schlegel, os Tieck, os Novalis, os Werner, foram Schelling e muitos outros mais, cujos nomes sequer merecem ser lembrados .

A literatura criada por esta escola foi o reino dos espíritos e dos fantasmas. Ela não suportava a claridade; somente a penumbra permitia-lhes viver. Ela também não Suportava o contato brutal das massas. Era a literatura dos aristocratas delicados, distintos, aspirando ao céu, sua pátria, e vivendo, apesar dele, sobre a terra .

Tinha horror e desprezo pela política e pelas questões do quotidiano; mas quando falava disso, por acaso, ela se mostrava francamente reacionária, tomava partido pela Igreja contra a insolência dos livre-pensadores, em favor dos reis contra os povos e de todos os aristocratas contra o populacho das ruas .

De resto, como acabamos de dizer, o que dominava na escola do romantismo era uma indiferença quase completa pela política. No meio das nuvens nas quais ela vivia só se podia distinguir dois pontos reais: o rápido desenvolvimento do materialismo burguês e o desencadeamento desenfreado das vaidades individuais .

* * *

Para compreender esta literatura romântica é preciso procurar sua razão de ser na transformação que se operou no seio da classe burguesa, desde a revolução de 1793 .

Desde a Renascença e a Reforma até a Revolução, a burguesia, senão na Alemanha, pelos menos na Itália, na França, na Suíça, na Inglaterra, na Holanda, foi o herói e o representante do gênio revolucionário da história. De seu seio saía a maioria dos livre-pensadores do século XVIII, os reformadores religiosos dos dois séculos precedentes e os apóstolos da emancipação humana, inclusive, desta vez, os da Alemanha do século passado. Ela sozinha, naturalmente apoiada sobre o braço poderoso do povo que nela tem fé, fez a revolução de 1789 e de 1793. Ela havia proclamado a queda da realeza e da Igreja, a fraternidade dos povos, os Direitos do homem e do cidadão. Eis seus títulos de glória; eles são imortais! Em pouco tempo ele se cindiu. Uma parte considerável de compradores de bens nacionais, tornados ricos, apoiando-se não mais sobre o proletariado das cidades, mas sobre a maior parte dos camponeses da França, tornados, eles também, proprietários de terras, não aspirava a outra coisa senão à paz, ao restabelecimento da ordem pública e ao estabelecimento de um governo poderoso e regular. Ela aclamou pois com alegria a ditadura do primeiro Bonaparte, e, ainda que sempre voltairiana, não viu com maus olhos o tratado com o Papa e o restabelecimento da Igreja oficial na França: “A Religião e tão necessária ao Povo!” . O que significa dizer que, satisfeita, esta parte da burguesia começou desde então a compreender que era urgente, para a conservação de sua situação e de seus bens recém-adquiridos, enganar a fome não saciada do povo pelas promessas de um maná celeste. Foi então que Chateaubriand começou a pregar[11] .

Napoleão caiu. A restauração trouxe de volta à França a monarquia legítima e, com esta, o poder da Igreja e da aristocracia nobiliária, que recuperaram a maior parte de sua antiga influência, até que veio o momento oportuno de reconquistar tudo .

Esta reação relançou a burguesia na Revolução, e com o espírito revolucionário despertou também nela o da incredulidade: ela se tornou de novo um espírito forte. Pôs Chateaubriand de lado e recomeçou a ler Voltaire; mas não chegou até Diderot: seus nervos enfraquecidos não comportavam mais um alimento tão forte. Voltaire, simultaneamente espírito forte e deísta, ao contrário, convinha-lhe muito .
Béranger e P.-L. Courrier exprimiram perfeitamente esta nova tendência .

O “Deus das boas pessoas” e o ideal do rei burguês, ao mesmo tempo liberal e democrático, retraçado sobre o fundo majestoso e doravante inofensivo das vitórias gigantescas do Império, tal foi naquela época o quadro que a burguesia da França fazia do governo da sociedade .
Lamartine, excitado pela monstruosa e ridícula inveja de se elevar à altura poética do grande Byron, tinha começado estes hinos friamente delirantes em honra do Deus dos fidalgos e da monarquia legítima, mas seus cantos só ressoavam nos salões aristocráticos. A burguesia não os escutava. Béranger era seu poeta e Courrier seu escritor político .

A revolução de julho teve por conseqüência o enobrecimento de seus gostos. Sabe-se que todo burguês na França traz em si o tipo imperecível do burguês fidalgo, tipo que jamais deixa de aparecer, tão logo o novo-rico adquire riqueza e poder. Em 1830, a rica burguesia tinha definitivamente substituído a antiga nobreza no poder. Ela tendeu naturalmente a fundar uma nova aristocracia. Aristocracia de capital, antes de mais nada, mas, em suma, distinta, de boas maneiras e de sentimentos delicados. Ela começou a sentir-se religiosa .
Não foram, de sua parte, simples arremedos dos modos aristocráticos .

Era também uma necessidade de posição. O proletariado tinha-lhe prestado um último serviço ao ajudá-la uma vez mais a derrubar a nobreza. A burguesia já não precisava mais deste auxílio, pois sentia-se solidamente estabelecida à sombra do trono de julho, e a aliança do povo, doravante inútil, começava a se tornar incômoda. Era preciso recolocá-lo em seu lugar, o que não se pôde naturalmente fazer sem provocar uma grande indignação nas massas. Tornou-se necessário conter estas últimas. Mas em nome de quê? Em nome do interesse burguês cruamente declarado? Teria sido muito cínico. Quanto mais um interesse é injusto, desumano, mais ele necessita de sanção. Ora, aprisioná-lo, senão na religião, esta boa protetora de todos os satisfeitos e esta consoladora tão útil dos famintos? E mais do que nunca a burguesia triunfante compreendeu que a religião era indispensável ao povo .

Após ter ganho todos os seus títulos de glória na oposição religiosa, filosófica e política, no protesto e na revolução, ela enfim se tornou a classe dominante e, por isso mesmo, a defensora e a conservadora do Estado, instituição desde então regular do poder exclusivo desta classe .
O Estado é a força, e tem, antes de mais nada, o direito da força, o argumento triunfante do fuzil. Mas o homem é tão singularmente feito que este argumento, por mais eloqüente que pareça ser, não é mais suficiente com o passar do tempo. Para impor-lhe respeito, é-lhe absolutamente necessária uma sanção moral qualquer. E preciso, além do mais, que esta sanção seja simultaneamente tão simples e tão evidente que possa convencer as massas, que, após terem sido reduzidas pela força do Estado, devem ser lavadas ao reconhecimento moral de seu direito .
Há somente dois meios de convencer as massas da bondade de uma instituição social qualquer. O primeiro, o único real, mas também o mais difícil de empregar – porque implica a abolição do Estado, isto é, a abolição da exploração politicamente organizada da maioria por uma minoria qualquer – seria a satisfação direta e completa das necessidades e das aspirações do povo, o que equivaleria à liqüidação da existência da classe burguesa e, mais uma vez, à abolição do Estado. E, pois, inútil falar disso .

O outro meio, ao contrário, funesto somente ao povo, precioso ao bem-estar dos privilegiados burgueses, não é outro senão a religião. E a eterna miragem que leva as massas à procura dos tesouros divinos, enquanto que, muito mais astuta, a classe governante se contenta em dividir entre seus membros – muito desigualmente, por sinal, e dando cada vez mais àquele que mais possui – os miseráveis bens da terra e os despojos do povo, inclusive, naturalmente, a liberdade política e social deste .

Não existe, não pode existir Estado sem religião. Considerai os Estados mais livres do mundo, os Estados Unidos da América ou a Confederação Suíça, por exemplo, e vede que papel importante preenche neles, em todos os discursos oficiais, a divina Providência, esta sanção superior de todos os Estados .

Assim, todas as vezes que um chefe do Estado fala de Deus, quer seja o imperador da Alemanha ou o presidente de uma república qualquer, estai certo de que ele se prepara para tosquiar de novo seu povo-rebanho .

A burguesia francesa, liberal e voltairiana, levada por seu temperamento a um positivismo (para não dizer a um materialismo) singularmente estreito e brutal, tendo se tornado classe governante por seu triunfo de 1820, o Estado teve de assumir uma religião oficial. A coisa não era fácil .
A burguesia não podia se colocar cruamente sob o jugo do catolicismo romano. Havia entre ela e a Igreja de Roma um abismo de sangue e de ódio e, por mais práticos e sábios que nos tornemos, nunca conseguimos reprimir em nosso seio uma paixão desenvolvida pela história. Por sinal, o burguês francês se cobria de ridículo se retornasse à Igreja para tomar parte nas cerimônias religiosas de seu culto, levado muito longe. A burguesia foi levada, então, para sancionar seu novo Estado, a criar uma nova religião que pudesse ser, sem muito ridículo e escândalo, condição essencial de uma conversão meritória e sincera. Muitos o tentaram, é verdade, mas seu heroísmo não obteve outro resultado além de um escândalo estéril. Enfim, o retorno ao catolicismo era impossível por causa da contradição insólita que separa a política invariável de Roma e o desenvolvimento dos interesses econômicos e políticos da classe média .

No que diz respeito a isto, o protestantismo é muito mais cômodo. E a religião burguesa por excelência. Ela concede de liberdade apenas o necessário de que precisa o burguês e encontrou o meio de conciliar as aspirações celestes com o respeito que exigem os interesses terrestres .
Assim, foi sobretudo nos países protestantes que o comércio e a indústria se desenvolveram .
Mas era impossível para a burguesia francesa fazer-se protestante. Para passar de uma religião a outra – a menos que o faça calculadamente, como os judeus da Rússia e da Polônia, que se batizam três e até mesmo quatro vezes para receber o mesmo número de vezes a remuneração que lhes é concedida -, para mudar de religião seriamente, é preciso ter um pouco de fé. Ora, no coração exclusivamente positivo do burguês francês não há lugar para a fé. Ele professa a mais profunda indiferença para todas as questões que não dizem respeito nem ao seu bolso inicialmente nem à sua vaidade social em seguida .

Ele é tão indiferente ao protestantismo quanto ao catolicismo. Por outro lado, o burguês francês não poderia passar ao protestantismo sem se colocar em contradição com a rotina católica da maioria, o que teria sido uma grande imprudência por parte de uma classe que pretendia governar a nação .

Restava um meio: retornar à religião humanitária e revolucionária do século XVIII. Mas isto faria a religião altamente proclamada por toda a classe burguesa .

Foi assim que nasceu o Deísmo doutrinário .

Outros já fizeram, muito melhor do que eu poderia fazer, a história do nascimento e do desenvolvimento desta escola, que teve uma influência tão decisiva e, pode-se dizê-lo muito bem, tão funesta sobre a educação política, intelectual e moral da juventude burguesa na França. Ela data de Benjamin Constant e de Mme. de Staël; seu verdadeiro fundador foi Royer-Collard; seus apóstolos, Guizot, Cousin, Villemam e muitos outros .
Seu objetivo abertamente declarado era a reconciliação da revolução com a reação ou, para falar a linguagem da escola, do princípio da liberdade com o da autoridade, naturalmente em proveito deste último .

Esta reconciliação significava: em política, a escamoteação da liberdade popular em proveito da dominação burguesa, representada pelo Estado monárquico e constitucional; em filosofia, a submissão refletida da livre razão aos princípios eternos da fé .

Sabe-se que ela foi sobretudo elaborada pelo Sr. Cousin, pai do ecletismo francês. Orador superficial e pedante, incapaz de qualquer concepção original, de qualquer pensamento que lhe fosse próprio, mas muito forte em lugares-comuns, que ele confundia com o bom senso, este ilustre filósofo preparou sabiamente, para uso da juventude estudantil da França, um prato metafísico a seu modo, cujo uso foi tornado obrigatório em todas as escolas do Estado, submissas à Universidade: é o alimento indigesto ao qual foram condenadas necessariamente várias gerações .

* * *

[O manuscrito foi interrompido aqui.]

Mikhail Bakunin Notas:

[1] Eu o denomino “iníquo” porque este mistério foi e ainda continua sendo a consagração de todos os horrores que foram cometidos e que se cometem no mundo; eu o denomino “iníquo” porque todos os outros absurdos teológicos e metafísicos que embrutecem o espírito dos homens nada mais são do que suas conseqüências necessárias .
[2] Stuart Mill é talvez o único a quem seja permitido colocar em o idealismo sério; e isto por duas razões: a primeira é que, não é absolutamente o discípulo, ele é um admirador apaixonado, um adepto da Filosofia Positiva de Augusto Comte, filósofo apesar de suas inúmeras reticências, é realmente ateu; a segunda é que Stuart Mill era inglês, e na Inglaterra proclamar-se ateu é se colocar fora da sociedade, mesmo hoje .
[3] Mômiers – Apelidos de certos metodistas na Suíça (N. do T.) .
[4] Pietistas – adeptos da doutrina ascética da Igreja Luterana alemã do século XVII (N. do T.) .
[5] Bakunin fala aqui, sem dúvida, das “leis econômicas” e da “ciência social”, que, com efeito, ainda está em seu começo .
[6] Em Londres, eu ouvi o Sr. Louis Blanc exprimir, há pouco, mais Ou menos a mesma idéia: “A melhor forma de governo”, e logo depois, “será a que convocar sempre à direção os homens virtuosos” .
[7] A ciência, tornando-se o patrimônio de todo mundo, desposará, de certo modo, a vida imediata e real de cada um. Ela ganhará em utilidade e em graça o que tiver perdido em orgulho, em ambição e em pedantismo doutrinário. Isto não impedirá, sem dúvida, que homens geniais, melhor organizados para as especulações científicas do que a maioria de seus contemporâneos, se dediquem exclusivamente à cultura das ciências e prestem grandes serviços à humanidade. Todavia, eles não poderão ambicionar outra influência social senão a influência natural exercida sobre seu meio por toda a inteligência superior, nem outra recompensa que não seja a satisfação de uma nobre preparação .
[8] É preciso distinguir a experiência universal, sobre a qual os idealistas querem apoiar suas crenças; a primeira é uma constatação real de fatos, a segunda nada mais á que uma suposição de fatos que ninguém viu e que, por conseqüência, estão em contradição com a experiência de todo o mundo .
[9] Os idealistas, todos os que crêem na imaterialidade e na imortalidade da alma humana, devem estar excessivamente embaraçados com a diferença que existe entre as inteligências das raças, dos povos e dos indivíduos. A menos que se suponha que as diversas parcelas foram irregularmente distribuídas, como explicar esta diferença? Existe infelizmente um número considerável de homens completamente estúpidos, parvos até o idiotismo. Teriam eles, pois, recebido na divisão uma parcela ao mesmo tempo divina e estúpida? Para sair deste embaraço, os idealistas deveriam necessariamente supor que todas as almas humanas são iguais, mas que as prisões nas quais elas se encontram necessariamente fechadas, os corpos humanos, são desiguais, uns mais capazes que outros, para servir de órgão à intelectualidade pura da alma. Esta teria à sua disposição, deste modo, órgãos muito finos; aquelas, órgãos muito grosseiros . Mas estas são distinções de que o idealismo não tem o direito de se servir, sem cair, ele próprio, na inconseqüência e no materialismo mais grosseiro. Isto porque, na absoluta imaterialidade da alma, todas as diferenças corporais desaparecem, tudo o que á corporal, material, deve aparecer como indiferente, igual, absolutamente grosseiro. O abismo que separa a alma do corpo, a absoluta imaterialidade da materialidade absoluta, á infinito. Por conseqüência, todas as diferenças, inexplicáveis por sinal, e logicamente impossíveis, que poderiam existir do outro lado do abismo, na matéria, devem ser, para a alma, nulos, e não podem nem devem exercer sobre ela nenhuma influência. Numa palavra, o absolutamente imaterial não pode ser forçado, aprisionado e ainda menos exprimido em qualquer grau que seja pelo absolutamente material. De todas as imaginações grosseiras e materialistas, no sentido ligado a esta palavra pelos idealistas, quer dizer, brutais, que foram engendradas pela ignorância e pela estupidez primitiva dos homens, a de uma alma imaterial, aprisionada num corpo material, á certamente a mais grosseira, a mais estúpida, e nada melhor prova a onipotência, exercida até mesmo sobre os melhores espíritos, por preconceitos antigos, do que ver homens dotados de uma grande inteligência falarem ainda desta extravagante união .

[10] Sei muito bem que nos sistemas teológicos e metafísicos orientais, e sobretudo nos da Índia, inclusive o budismo, encontra-se já o princípio do aniquilamento do mundo real em proveito do ideal e da abstração absoluta. Mas ele ainda não traz o caráter de negação voluntária e refletida que distingue o Cristianismo; quando estes sistemas foram concebidos, o mundo do espírito humano, da vontade e da liberdade ainda não tinha se desenvolvido como se manifestou na civilização grega e romana .

[11] Creio ser útil lembrar aqui uma história, por sinal muito conhecida e inteiramente autentica, que lança uma luz sobre o valor pessoal destes reaquecedores das crenças católicas e sobre a sociedade religiosa dessa época. Chateaubriand havia levado ao editor uma obra dirigida contra a fé. O editor observou que o ateísmo tinha passado de moda, e que o público leitor não se interessava mais por este tema, que pedia, ao contrário, obras religiosas. Chateaubriand retirou-se, mas, alguns meses depois, retornou trazendo-lhe seu Génie du Christianisme .

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/deus-e-o-estado/

As raízes judaicas da Magia Sexual

Excerto de “Modern Sex Magick” de Donald Michael Kraig

Para aqueles que não estão familiarizados, a história da magia sexual começa com os Cavaleiros Templários. Fundado em 1118 EC, o propósito declarado dos Templários era proteger os peregrinos que iam para o Oriente Médio durante a Segunda Cruzada. A história dos Templários é bastante fascinante, mas para nossos propósitos basta dizer que eles foram suprimidos em 1312 por autoridades religiosas e temporais que tinham inveja de seu poder e riqueza. Vários dos seus membros foram presos ou mortos. Seu líder, Jacques DeMolay, foi queimado vivo. Os Templários, como outros acusados ​​de heresia, feitiçaria e prática de magia, foram acusados ​​de uma litania de crimes. Essas acusações provavelmente foram apenas um ardil perpetuado pela igreja e pelo estado para obter a imensa riqueza e amplas propriedades que os Templários possuíam. A história aceita é que os templários aprenderam magia sexual com os sufis do Oriente Médio, que a aprenderam com os tântricos da Índia. Os alquimistas medievais receberam esta informação dos Templários e a codificaram em alguns ensinamentos em suas obras. Eventualmente, Aleister Crowley, que aprendeu sobre magia sexual em suas viagens à Índia e à África, começou a experimentar tanto as técnicas tradicionais quanto as suas próprias técnicas recém-criadas.

Enquanto isso, um homem chamado Pascal Beverly Randolph havia descoberto os segredos da magia sexual ou inventado algumas novas técnicas também. Nascido em 1815, era filho de um médico e de uma dançarina de salão. Tornou-se grumete e aprendeu o ofício de marinheiro, tornando-se em seguida mestre de embarcação. Ser marinheiro permitiu-lhe viajar muito. Aos vinte e cinco anos, foi iniciado na Irmandade Hermética de Luxor. Em 1868 (depois de várias viagens à França), fundou a Irmandade de Eulis, que acabou tendo muitos seguidores. Ele publicou um livro (Magia Sexual) que postulava um tipo de bissexualidade espiritual junto com a ideia de que o orgasmo era mágico e sagrado. Randolph influenciou as pessoas que recriaram os Cavaleiros Templários na forma da Ordo Templi Orientis (OTO). Crowley se juntou a esta Ordem e, eventualmente, após uma batalha divisória, tornou-se seu chefe. Hoje, assim como a maioria dos ensinamentos sobre magia cerimonial foi filtrada pelas lentes dos membros da Golden Dawn, também a maioria dos ensinamentos sobre magia sexual foi filtrada através da lente de Aleister Crowley e da OTO.

A história acima é precisa, mas representa apenas uma parte da corrente. É uma versão um tanto quanto limitada da história da magia sexual ocidental – uma visão de túnel que ignora a realidade mais ampla e falha em duas áreas:  Primeiro, não identifica onde e como a magia sexual se desenvolveu originalmente. Em segundo lugar, implica que a magia sexual permaneceu relativamente inalterada ao longo do tempo (especialmente no último século) e simplesmente transportada para o presente. De fato, há ampla evidência de que a magia sexual tem uma história muito mais ampla do que é comumente reconhecida. Para entender essa história mais profunda, no entanto, devemos primeiro examinar a natureza da Cabala.

Nos últimos anos, tive a sorte de dar palestras em todos os EUA, da Flórida a São Francisco e de San Diego a Nova York. Uma das coisas que faço agora perto do início de cada palestra, não importa o assunto, é escrever as seguintes letras no quadro-negro: T F Y Q A

As letras representam as palavras em inglês para “Pense por si mesmo. Questione a autoridade”. Continuo explicando que simplesmente porque eu ou qualquer outra “autoridade” ou autor escreve ou diz algo não o torna verdadeiro. Eu sempre peço aos meus alunos que ouçam o que eu tenho a dizer, mas depois que verifiquem. Encorajo as pessoas a confiar em si mesmas em vez de acreditar em um líder ou professor, mesmo quando esse professor seja eu.

Muitos de vocês, sem dúvida, estão familiarizados com a Cabala. São os fundamentos místicos do judaísmo, do cristianismo e até, até certo ponto, do islamismo. Aqueles de vocês familiarizados com a Cabala usada em grupos ocultistas conhecem suas teorias sobre a Árvore da Vida com suas correspondências, bem como os sistemas numerológicos como a gematria. Na minha biblioteca, tenho bem mais de 1.000 livros especificamente relacionados à Cabala ou associados a ela. A maioria deles são semelhantes em conteúdo, simplesmente expressando as mesmas coisas de maneiras diferentes. Todos eles alegam explicar as bases do que é a “A” Kabalah.

Todos eles estão errados.

Para aqueles de vocês que foram estudantes da Cabala, eu lhes peço que reflitam sobre estas questões: Não é possível que a Cabala seja muito mais do que gematria, notarikon, temurah e a Árvore da Vida e suas correspondências? Se sim, então por que tão pouco se sabe de outros aspectos da Cabala? Para responder isso temos que olhar um pouco de história.

Nos anos 1700, um grupo de judeus ortodoxos e piedosos se formou na Europa Oriental. A palavra para “piedoso” em hebraico é Hasid (pronuncia-se: “RASSID”). Assim, essas pessoas ficaram conhecidas como os “Piedosos” ou os Hasidim.

Anteriormente, o judaísmo místico incluía muitas maneiras de desenvolver poder sobre o ambiente: o que hoje chamaríamos de magia. Mas os hassidim não queriam nada disso. Eles buscavam a exaltação espiritual, não a capacidade de mudar o mundo. Eles queriam aumentar o poder de suas orações, não o poder sobre as coisas ao seu redor. Como resultado, eles se concentraram nos aspectos mentais da Cabala, incluindo correspondências sobre a Árvore da Vida, meditação sobre como Deus criou o mundo e as manipulações de letras e números, uma versão moderna (para a época) de formas místicas mais antigas do que é chamado de “magia das letras”.

Como essa informação era mística, era inevitável que ela chegasse ao mundo oculto local (alemão), onde se tornou parte da tradição maçônica daquele país. Esses ensinamentos foram posteriormente traduzidos para as línguas românicas e acabaram se tornando, para muitas pessoas, os ensinamentos centrais da Cabala.

Mesmo depois dessa história, muitas pessoas vão duvidar do que estou dizendo sobre a Cabala. Peço-lhe, então, que olhe para o único trabalho publicado que é aceito como talvez o texto cabalístico mais importante – o Zohar. Há muito pouco lá sobre tal numerologia. O mesmo ocorre no pequeno mas importante livro cabalístico primitivo, o Sepher Yetzirah.

Para resumir, a versão da Cabala que é mais amplamente aceita entre os ocultistas hoje é basicamente nada mais do que parte dos ensinamentos místicos dos hassidim alemães. Isso não torna tais estudos de forma alguma “ruins” ou “errados” ou mesmo incompletos. Em vez disso, simplesmente indica que tais estudos são apenas uma abordagem em um tipo ou escola da Cabala,  e não na coisa toda.

Quando comecei a estudar a Cabala, ou melhor, o que é comumente conhecido entre os ocultistas ocidentais por esse nome, eu era como um cachorro faminto na loja de um açougueiro de bom coração. Eu queria provar e experimentar tudo.

Para quem não conhece a gematria, sua ideia básica é simples. Cada letra hebraica está associada a um número. Soma-se os números das letras de uma palavra e, se forem iguais ou tiverem relação com os números de outra palavra, há uma relação entre as duas palavras. Em Magia Moderna dei o famoso exemplo que mostrava como, em hebraico, a enumeração da palavra “amor” era igual ao valor numérico da palavra “unidade” e como, quando suas numerações são somadas, o total é igual a o valor numérico de uma palavra hebraica para “Deus”. É um sistema numerológico simples que, neste caso, indica que Deus é uma unidade e que Deus é amor.

Muitas noites eu ficava acordado até as primeiras horas da manhã seguinte me debruçando sobre cálculos para tentar provar alguma coisa. Analisei meu nome mágico de três letras escolhido em um papel que tinha várias páginas. Da mesma forma, tenho visto pessoas analisando seções das obras de Aleister Crowley, rituais da famosa Ordem Hermética da Golden Dawn, seções da Bíblia, etc., por mais páginas do que gostaria de lembrar.

Mas um dia percebi que faltava algo. Fiquei com a pergunta atormentadora que Peggy Lee fez em sua música: “Isso é tudo o que existe?” Depois de anos de manipulação numerológica cabalística, cheguei à conclusão de que – para mim, pelo menos – uma exploração mais aprofundada já não provava nada de importante. Percebi que havia se tornado uma estrada falsa, como um falso vidente que parece dar muitas informações, mas na verdade fala pouco.

Claro, eu poderia passar horas provando que as palavras estavam relacionadas. Esse tipo de trabalho ainda é feito hoje (veja, por exemplo, os livros de Kenneth Grant) e pode ser de grande valia para pessoas que sentem que precisam desse tipo de prova. Para eles, esse trabalho é importante e valioso. Eu também precisei disso no passado e recebi isto muitas recompensas e insights espirituais.

Mas para mim, os ensinamentos comumente considerados o núcleo da Cabala agora pareciam nada mais do que uma forma de masturbação mental. Para o exemplo de “amor mais unidade é igual a Deus”, eu disse: “E daí? Isso já não é aceito por muitos (inclusive eu)?” Eu já sabia disso. Eu não precisava “provar” isso para mim ou para qualquer outra pessoa. Sei que a Declaração da Independência foi assinada em 1776. Não preciso passar horas tentando provar que esse evento aconteceu. Não preciso ler centenas de livros para saber que esse evento ocorreu em um determinado ano. Fazer tal estudo neste momento da minha vida seria chato e uma perda de tempo. Um dos tipos de pessoas que encontramos no caminho oculto é o “mago de poltrona” que fará alguma magia assim que “acabar com mais um livro” ou “construir mais uma ferramenta mágica”. Ele não consegue nada prático porque nunca faz mágica. Sim, ele ganha conhecimento, o que certamente é um objetivo digno em si. Mas o conhecimento por si só não é o objetivo de um mago praticante. Para todos os efeitos práticos, ele está fazendo o mesmo trabalho que os do místico hassídico do século XVIII. Isso não era o suficiente para mim. Um mágico de poltrona não era alguém que eu queria ser. Esta foi uma grande crise. Eu estava prestes a perder completamente meu interesse pela Cabala – algo que havia me transformado e tinha sido o maior interesse da minha vida por mais de vinte anos. Eu hibernei, fiz leituras de tarô para mim mesmo e meditava. Então, um dia, ficou claro.

Experiência! Era isso que faltava em todas as manipulações numerológicas. Cheguei à conclusão de que pensar em algo não era suficiente para mim. Eu sou ação. E embora muitas das técnicas cabalísticas que usam a numerologia cabalística para fazer talismãs bem-sucedidos, por exemplo, proporcionassem uma gratificação tardia quando o talismã atingia seu objetivo, eu queria algo mais imediato. Eu conhecia apenas uma técnica que forneceu a aventura, ação e experiência que eu desejava: Pathworking cabalístico.

Devido a muitos trabalhos publicados, o termo pathworking perdeu seu significado original. Hoje, pathworking significa qualquer tipo de meditação guiada em que se faz uma viagem mental ou astral visualizada ou algum tipo de viagem. Eu uso a expressão “pathwork cabalístico para representar o significado original da palavra pathworking: andar na Árvore da Vida cabalística enquanto estiver no plano astral. A chave aqui é ser capaz de separar a consciência do corpo e viajar no plano astral. Em outras palavras, esta técnica cabalística requer que você alcance um estado alterado de consciência. Exceto pelos métodos fornecidos em fontes como The Golden Dawn de Regardie e as várias versões dessas instruções que foram publicadas, pouca informação apareceu de um antigo ponto de vista cabalístico. Se o pathworking cabalístico requerer acesso ao plano astral através de um estado alterado de consciência, segue-se que deve haver métodos cabalísticos tradicionais para alcançar tal estado.

Um método que descobri nas obras de Aryeh Kapi era simplesmente colocar a cabeça entre os joelhos. Isso muda o fluxo de sangue para o cérebro, resultando em um estado alterado. No entanto, ao investigar mais, descobri outro método para alcançar um estado alterado, uma técnica que Marsha Schuchard chama de transe sexual. Este método faz parte da teoria cabalística, embora tenha sido ignorado pela maioria dos pesquisadores e praticantes, pois não era uma parte publicada do movimento hassídico alemão. E enquanto esta chave cabalística para o mistério tem estado no subsolo por mais de 2.500 anos, ela vazou ou foi redescoberta de tempos em tempos e formou a base da magia sexual ocidental, em todas as suas formas, como existe hoje. Eu precisava daquilo.

Se você ler a Bíblia como um tipo de história, verá que os profetas de todas as gerações criticaram os hebreus por não adorarem os deuses e deusas de outras culturas. A implicação disso é que os hebreus não eram monoteístas desde a época de Abraão, mas eram tão politeístas quanto suas culturas vizinhas. De fato, em The Hebrew Goddess, o respeitado antropólogo Raphael Patai mostra que os hebreus adoravam uma deusa tanto em suas casas quanto no templo sagrado em Jerusalém até a destruição do segundo templo em 70 EC, você encontrará frequentemente nos artigos sobre as práticas religiosas dos primeiros hebreus, práticas que incluíam a adoração tanto de um Deus quanto de uma Deusa.

Na maioria dos templos judaicos de hoje, o local onde reside a Torá – os primeiros cinco livros da Bíblia em forma de pergaminho – está localizado em uma plataforma elevada. Essa plataforma geralmente tem a forma de um tipo de palco onde o Rabino (o líder das orações) e o Cantor (o líder dos cantos ) também têm suas posições rituais. Esta área é conhecida como bimah (pronuncia-se: bee-mah). A palavra “bimah” significa uma plataforma ou palco. No entanto, a origem da palavra é bamah (bah-mah) que se refere à ideia de um “lugar alto”. No Oriente Médio, uma área elevada era comumente onde várias divindades, não apenas o Deus judeu, eram adoradas. Outros resquícios de tempos pagãos anteriores – incluindo a adoração da Lua como uma forma da Deusa Lunar Levanah (que agora é o próprio nome da Lua em hebraico) – também são encontrados em várias tradições folclóricas judaicas.

As primeiras formas de paganismo tinham vários propósitos, talvez o mais importante fosse a fertilidade. Os primeiros pagãos praticavam ritos para garantir a fertilidade das colheitas, rebanhos e pessoas. Freqüentemente, esses ritos incluíam comportamento sexual. Por exemplo, em algumas culturas, os pagãos teriam ritualizado a relação sexual em cima de colheitas recém-plantadas. Acreditava-se que a energia levantada durante seu rito, através da imitação de sua magia sexual elementar, ajudaria as plantações a crescer.

Existe alguma evidência de que os primeiros hebreus, como seus vizinhos politeístas, tinham ritos e mistérios sexuais? A resposta é sim. Na verdade, alguns desses ritos têm até versões modernas.

Um exemplo é a prática da circuncisão. Antes que essa prática fosse fixada no judaísmo para oito dias após o nascimento de um menino, provavelmente fazia parte dos ritos da puberdade. Em outras palavras, era realizada quando um menino atingia a maioridade como sinal de maturidade sexual. Os ritos de puberdade para meninos e meninas são comuns nas culturas pagãs. Em algumas culturas, os ritos de circuncisão masculina na puberdade ainda são praticados como parte dos “Mistérios Masculinos”. No judaísmo, os meninos ainda têm um tipo de tal rito (embora sem a circuncisão) quando passam pelo ritual de entrada na idade adulta conhecido como Bar Mitzvah. Mais recentemente, as meninas foram adicionadas a essa tradição quando passam por um Bat Mitzvah semelhante.

Na Torá, a circuncisão é um sinal de um pacto entre Deus e os judeus. Nisto se insinua a ligação entre sexualidade e espiritualidade. Outras vezes, você lerá sobre situações em que colocar a mão na “coxa” é sinal de acordo, geralmente entre um humano e o Divino. “Coxa” é um eufemismo para “pênis” (assim como a Bíblia usa o verbo “conhecer” para significar “coito”). Essa ideia foi adotada ou emprestada de outras culturas onde um homem juraria colocando a mão sobre os testículos do outro. De fato, nossa palavra “testemunhar” (derivada, é claro, da palavra “testes”) vem dessa prática.

Há mais evidências de ritos sexuais no antigo judaísmo. O livro de Raphael Patai, “The Hebrew Goddess “, mostra claramente que não havia apenas um forte componente sexual no misticismo judaico mais antigo, mas que era algo muito importante.

Desde a realização do filme Caçadores da Arca Perdida, muitas pessoas se familiarizaram com a forma da Arca da Aliança. Em cima dela estavam dois Querubins. De acordo com Patai, há uma tradição talmúdica de que “… enquanto Israel cumpriu a vontade de Deus, os rostos dos querubins estavam voltados um para o outro: no entanto, quando Israel pecou, ​​eles viraram os rostos um do outro. ” O que isso pode significar?

A Arca da Aliança foi mantida no “Santo dos Santos”, a parte mais privada e sagrada do templo em Jerusalém. Já o famoso historiador primitivo dos judeus, Flávio Josefo (37 D.C.–100 D.C.), escreveu que não havia nada no Santo dos Santos. Por quê? É bem aceito que ele queria representar o judaísmo como “anti-icônico”, uma religião livre da adoração de ídolos ou ícones. Mas haveria algo mais? Algo que Josefo poderia até ter vergonha de mencionar?

A resposta vem de um historiador ainda mais antigo, Filo (30 A.C-45 D.C ). Ele escreveu que na parte mais interna do templo, na parte mais sagrada do local judaico mais sagrado, havia as estátuas dos Querubins. E esses Querubins estavam “entrelaçados como marido e mulher”. Ou seja, eles foram mostrados tendo relações sexuais.

Isso foi verificado mais tarde pelo relato de um talmudista conhecido como Rabi Qetina, que afirmou que nos dias santos, quando as pessoas iam em peregrinação para ir ao templo, os sacerdotes realmente mostravam os Querubins a eles e diziam: “Vejam! o amor diante de Deus é como o amor do homem e da mulher”. Várias centenas de anos depois, o famoso Rashi escreveu: “Os Querubins estavam unidos, agarrados e abraçados, como um macho que abraça uma fêmea”.
Em outras palavras, o segredo final do Santo dos Santos não era que ele continha a Arca da Aliança, a Torá ou as tábuas dos Dez Mandamentos. Em vez disso, era a natureza espiritual do sexo. A tradição talmúdica mencionada anteriormente implicaria que os querubins estariam envolvidos em relações sexuais constantes enquanto Israel cumprisse a vontade de Deus, mas eles se separariam de seu abraço se Israel pecasse. Além disso, acreditava-se que Deus “falava” entre os Querubins.

Lembre-se, de acordo com a Torá e a Cabala, Deus cria através da fala: “E o Senhor disse: “Haja luz.” E eis que havia luz.” Esta, então, é a revelação do segredo cabalístico da magia sexual: profecia, adivinhação e invocação que podem resultar do sexo espiritualizado.  De fontes talmúdicas também sabemos que um dos maiores feriados para os antigos judeus ocorreu cerca de duas semanas após o Ano Novo Hebraico. Os peregrinos vinham ao templo em Jerusalém de todas as partes para este feriado que era considerado uma festa alegre. No entanto, ao final dos sete dias desta festa, que era celebrada tanto por homens como por mulheres, as festividades se tornariam tão intensas que homens e mulheres se misturariam e cometeriam atos que eufemisticamente chamavam de “vertigem”. Em termos modernos, a multidão corria sexualmente desenfreada. Este comportamento terminou algo entre cerca de 100 AEC. e 70 d.C.

Outra fonte que indica que o judaísmo primitivo tinha ritos sexuais é encontrada no livro O Cântico dos Cânticos, de Carlo Suares, que é sua interpretação desse pequeno texto bíblico (conhecido também por seu título mal traduzido, Cantares de Salomão). Na introdução, Suares descreve brevemente o honrado Rabi Akivah (também conhecido como Akiba), que nasceu em 40 D.C e foi executado no ano 135.
D.C. depois de passar muitos anos na prisão por ser um apoiador da guerra judaica contra Roma. Hoje, Rabi Akivah é homenageado por judeus em todo o mundo. Poemas e orações atribuídos a ele são recitados por judeus fiéis. Ainda me lembro da bela e ritmada oração cantada que começa com “Amar Rabi Akivah…” (assim falou Rabi Akiba…). Ele é considerado o pai da versão escrita das leis orais judaicas conhecidas como Mishná. Ele também é considerado por muitos como o pai da Cabala.

Assim como as principais seitas cristãs têm divisões entre si, também houve divisões no judaísmo. No primeiro século EC, o rabino Ismael assumiu uma posição semelhante à de alguns cristãos fundamentalistas modernos de hoje. Ele e seus apoiadores sustentavam que os escritos sagrados judaicos foram escritos em uma linguagem que falava diretamente aos homens e deveriam ser aceitos literalmente. Rabi Akivah discordou e sustentou que as palavras eram apenas a forma da mensagem. O verdadeiro significado da Torá deveria ser encontrado em sua interpretação mística, sua essência interior. Assim, quando uma discussão sobre quais livros deveriam ser considerados parte da Bíblia judaica estava ocorrendo entre os principais Rabinos, a maioria deles queria excluir o aparentemente profano poema de amor que é o Cântico dos Cânticos. Afinal, como poderia um judeu hoje em dia ter frases como “beije-me com os beijos de sua boca” e “seus seios são como dois filhotes” em seu livro sagrado?

Rabi Akivah foi um dos rabinos mais honrados de seu tempo e assim permanece até os dias atuais. Em seu tempo, ele foi mantido em grande respeito e era considerado uma autoridade poderosa no judaísmo. Akivah exerceu sua reputação e autoridade para mudar a atitude dos outros rabinos. “O universo inteiro não vale o dia em que aquele livro… [foi] dado a Israel”, disse ele, “porque todas as escrituras são sagradas, mas o Cântico dos Cânticos é o mais sagrado”.

Quando li pela primeira vez esta citação, fiquei fascinado e intrigado. Não é estranho que um dos rabinos mais importantes da história judaica tenha defendido a canção de amor não apenas como um bom livro, não (como alguns diriam) porque é Deus dizendo como Ele ama Israel (ou vice-versa), mas porque é a “santíssima” de todas as escrituras?

Lembre-se, Akivah é considerado o pai da Cabala. Não poderia a razão para a defesa do livro de Akivah ser que ele retinha o segredo sagrado do judaísmo, o segredo da magia sexual? Este segredo teria então sido passado para seus seguidores e de lá para muitas das escolas da Cabala.

Mesmo o bastante enfadonho e pedante AE Waite, em The Holy Kabbalah, refere-se ao fato de que os judeus místicos consideravam o casamento um sacramento e que praticavam um “ensino em caminhos pouco freqüentados, algo herdado do passado … [dos quais ] há algum vestígio de ensino no Oriente.” Isso aparece na seção do livro de Waite intitulada “O Mistério do Sexo”, e indica que entre os cabalistas havia um ensinamento de magia sexual que era de certa forma semelhante aos ensinamentos sexuais dos taoístas e tântricos. Em uma nota de rodapé ele diz que os magos sexuais cabalísticos:

… tinham um ideal interior, espiritual e divino, no qual eles habitavam, e pelo qual eles parecem ter realizado transmutações abaixo. Isto é, sua magia sexual (que era tanto um ato físico quanto espiritual) e produzia mudanças – magia – no plano físico.

Como nota final para esta seção, eu acrescentaria que entre os judeus devotos de hoje é uma mitsvá (uma palavra que significa tanto um mandamento de Deus quanto uma bênção) fazer sexo com seu cônjuge no sábado. Isso porque Deus é considerado um andrógino Divino e ao fazer sexo, unindo homem e mulher, eles estão simulando Deus. Uma interpretação alternativa é que eles estão imitando Deus em união com sua consorte, a Shekhina (semelhante à noção pagã ocidental do Deus unido à Deusa ou à noção hindu de Shiva unida a Shakti).

A Disseminação da Cabala Após a destruição do Segundo Templo no ano 70 d.C., os judeus foram dispersos por toda a Ásia e Europa. Muitos judeus consideravam isso um castigo de Deus sobre eles por não seguirem as tradições do judaísmo. Especificamente, eles não estavam seguindo as muitas leis judaicas e estavam adorando outros deuses e deusas. Mas os cabalistas alegaram que, ao dispersar os judeus, a sabedoria da Cabala se espalhou por todo o mundo. Deste ponto de vista, a diáspora não era uma maldição para os judeus, mas uma bênção para o resto do mundo. E essa bênção, a Cabala, consistia, pelo menos em parte, nos segredos da magia sexual. À medida que os judeus se moviam pela Europa, formavam pequenas comunidades. Em alguns deles havia escolas de cabalistas. A separação entre as comunidades acrescentou diversidade, e muitos dos ensinamentos cabalísticos, incluindo aqueles relativos à magia sexual, devem ter mudado e evoluído. Mas como os ensinamentos foram além das escolas do judaísmo místico? A resposta, acredito, vem da própria natureza do judaísmo e sua longa tradição de judeus sendo o povo do livro. À medida que a Igreja Católica se fortaleceu, a educação secular (incluindo leitura, escrita e matemática) dos fiéis foi desaprovada e limitada à realeza, aos ricos, escribas da Igreja e certos membros das forças armadas. Mas porque muitos judeus sabiam ler, escrever e sabiam matemática, agiam como mensageiros viajantes ou como cobradores de impostos para os ricos. Com alguns deles veio junto Cabala e a magia sexual.

Eles se comunicavam com outros que viajavam, incluindo os músicos errantes conhecidos por nomes como trovadores, menestreis, bardose os posteriores minicantores e meistersingers que vagavam por partes da Europa ocidental nos séculos XII e XIII d.C.  Não eram apenas homens como como registrado por historiadores do sexo masculino que, durante séculos, subestimaram a importância das mulheres na história, algumas mulheres também atuavam assim.

No século XIII, um livro pouco conhecido chamado Iggeret Ha Kodesh (A Carta Sagrada) foi difundido entre os judeus na Espanha. Foi por muitos anos atribuído ao famoso rabino chamado Nachmanides, mas os estudiosos hoje concordam que o rabino provavelmente não foi o autor. O livro era tão popular que três manuscritos variados deste livro são conhecidos. Foi dito que todos os livros verdadeiramente sagrados podem ser lidos em três níveis: físico, espiritual e místico. No nível físico, este livro parece ser um manual de casamento judaico. Em um nível espiritual, este livro é visto como uma “obra cabalística que descreve o relacionamento de Deus” com os judeus. Mas em um nível místico revela virtualmente todos os mistérios e técnicas de magia sexual que estão em uso até hoje. É minha opinião que os menestréis errantes medievais tinham alguma familiaridade com este livro ou com aqueles que usaram suas técnicas e ajudaram a difundir o conhecimento.

Até então, os casamentos não eram muito conhecidos. As pessoas viveriam juntas e se chamariam de marido e mulher. Eles eram considerados casados ​​mesmo sem um ritual de casamento. Nas Ilhas Britânicas, as regras para proteger as mulheres tornaram-se parte do que era conhecido como “lei comum [principalmente não escrita]”. Assim, após um certo período de tempo de convivência e alegando ser marido e mulher (e aceito como tal pela comunidade), uma mulher seria legalmente reconhecida como esposa de direito comum de um homem. Daquele ponto em diante, ele não poderia simplesmente jogá-la na rua quando estivesse cansado dela. Ela tinha direitos sob as leis do divórcio, embora eles não tivessem passado por uma cerimônia formal de casamento. O direito comum é inda hoje uma das bases do sistema jurídico americano.

Geralmente, na sociedade ocidental, controlada pelos cristãos, eram apenas os ricos e a realeza que se casavam. O objetivo dessa exibição pública era mostrar a todos que apenas os filhos dessa mulher seriam os herdeiros legítimos de um determinado homem. Na verdade, o casamento era mais um contrato legal do que um desejo de se unir por amor. Às vezes, pinturas eram feitas para mostrar a cena do casamento para provar que um casamento havia sido realizado.

Governantes e homens ricos queriam saber que seus filhos, na verdade, eram seus filhos de sangue. Acreditava-se que o sangue tinha qualidades mágicas inatas. Existe até uma crença hoje entre alguns bretões no “Toque do Rei” – que o próprio toque de um rei (que também foi aprovado pelo Deus cristão, ou então como ele poderia ser rei?) poderia curar várias doenças. Para garantir uma linhagem contínua, a monogamia tornou-se a regra para as esposas dos ricos e da realeza. Mesmo assim, há ampla evidência de que tanto as esposas quanto os maridos costumavam fazer sexo fora do casamento.

Eventualmente, a ideia de amor tornou-se um acessório do casamento. Foi uma conseqüência da noção de “amor cortês” que foi difundida pelos bardos viajantes. Eles até tinham regras para o amor cortês, algumas das quais escondiam os segredos da magia sexual. Por exemplo, a regra 30, de acordo com Andreas Capellanus cerca de 1.500 anos atrás, diz: “Um verdadeiro amante é continuamente é ininterruptamente obcecado pela imagem de sua amada”.

Dentro dessas palavras está um segredo de magia sexual que alguns dizem ter sido “descoberto” por A. O. Spare neste século. Como pode ser visto, este aspecto da magia sexual antecedeu Spare em mais de um milênio!

Outro grupo de viajantes eram os comerciantes, artesãos capazes de muitas habilidades valiosas. Eles vieram desde os primeiros tempos (quando cada ofício também estava associado a uma divindade) e continuaram no Renascimento. Na Roma antiga, essas guildas eram conhecidas como collegia (a fonte de nossa palavra “faculdade”). Eles tinham seus próprios edifícios onde eles compartilhariam os segredos de sua guilda. Os membros realizavam festas conhecidas como ágape, provavelmente a fonte das festas ágape cristãs do primeiro século. Para identificar outros membros ou permitir entrada nos limites das casas de guildas, eles tinham sinais de mão, gestos e toques especiais, incluindo beijos especiais e ritualísticos. Dessa forma, eles eram os elos entre as antigas escolas de mistérios e as modernas lojas ocultistas. De fato, os collegia foram influenciados pelos gregos, que, por sua vez, foram influenciados por uma variedade de culturas do Oriente Médio, incluindo os ensinamentos dos egípcios, dos sírios e dos antigos Hebreus.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/as-raizes-judaicas-da-magia-sexual/

Chamando Cthulhu: O Realismo Fantástico de H.P. Lovecraft

“Neste livro falaremos sobre […] espíritos e conjurações; em deuses, esferas, levitação, e muitas outras coisas que podem ou não existir. Isto é imaterial, o fato de existir ou não. Agindo-se de certas maneiras, certos resultados irão surgir; estudantes são seriamente alertados sobre não atribuir realidades objetivas ou validações filosóficas para qualquer um destes.”

– Aleister Crowley, Liber O

 

Consumido pelo câncer em 1937, com 46 anos de idade, o último descendente de uma decadente família aristocrática da Nova Inglaterra, o escritor de ficção fantástica Howard Phillips Lovecraft deixou um dos legados literários mais curiosos da América. A maior parte de seus contos apareceram na revista Weird Tales, uma publicação dedicada a histórias a respeito do sobrenatural. Mas preso nesses limites modestos, Lovecraft trouxe a fantasia sombria gritando para dentro dos séculos XX e XXI, levando o gênero, literalmente, a uma nova dimensão.

Em nenhum lugar isso é mais evidente do que no ciclo de histórias interligadas conhecido como o Mito de Cthulhu – batizado assim em homenagem a um monstro tentacular alienígena que espera sonhando sob o mar na cidade submersa de R’lyeh. O Mito abrange a trajetória cósmica de uma variedade de entidades extraterrestres horríveis que incluem Yog-Sothoth, Nyarlathotep, e o deus cego e idiota Azazoth, que se esparrama no centro do Caos Derradeiro, “cercado por sua horda contorcida de dançarinos estúpidos e amorfos, e embalado pelo sibilo monótono de flautas demoníacas ostentadas por patas inomináveis”. Sempre espreitando, nas margens de nosso continuum espaço-tempo, este grupo alegre de Deuses Exteriores e Grandes Antigos estão tentando, neste exato momento, invadir o nosso mundo através da ciência, de sonhos e rituais abomináveis.

Como um escritor popular marginal, trabalhando no equivalente literário da sarjeta, Lovecraft não recebeu muita atenção durante sua vida. Mas enquanto a maioria dos escritos de ficção pulp dos anos 1930 se tornaram insonsos e intragáveis nos dias de hoje, Lovecraft continua a atrair a atenção. Na França e no Japão, seus contos sobre fungos cósmicos, cultos degenerados e pesadelos realmente ruins são reconhecidos como obras de um gênio transtornado, e os célebres filósofos franceses Gilles Deleuze e Félix Guattari, elogiam seu abraço radical de multiplicidade em sua obra prima “A Thousand Plateaus”. Já, em território anglo-americano, uma cabala apaixonada de críticos preenche revistas como Lovecraft Studies e Crypt of Cthulhu com suas pesquisas quase talmúdicas. Enquanto isso, tanto hackers quanto talentosos discípulos continuam a criar histórias que desenvolvem ainda mais o Mito de Cthulhu. Há até uma convenção de Lovecraft – a NecronomiCon, que recebeu seu nome do mais famoso de seus grimórios proibidos. Assim como o escritor de ficção científica gnóstico Philip K. Dick, HP Lovecraft se tornou o epítome do autor cult.

A palavra “fã” se deriva do latim Fanaticus, um termo antigo para um devoto do templo, e os fãs de Lovecraft exibem a devoção incansável, fetichismo e debates sectários que caracterizaram as seitas religiosas populares ao longo das eras. Mas o status “cult” de Lovecraft tem uma dimensão curiosamente literal. Muitos magos e ocultistas tomaram seu Mito como fonte de material para a suas práticas. Atraídos das regiões mais obscuras da contracultura esotérica – Thelema, Satanismo e Magia do Caos – estes magos Lovecraftianos buscam ativamente gerar os terríveis e atávicos encontros do tipo que os protagonistas de Lovecraft parecem tropeçar compulsivamente, cegamente ou contra a própria vontade.

Fontes ocultas secundárias para a magia lovecraftiana incluem várias edições “falsas” do Necronomicon, rituais presentes no livro de Rituais Satânicos de Anton Szandor LaVey – criador da Igreja de Satã -, obras de magos britânicos como Kenneth Grant, Phil Hine, Peter Carroll e outros. Além da O.T.O. Tifoniana de Grant e da Ordem do Trapezóide do Templo de Set, outros grupos mágicos que também trabalham com a corrente Cthulhiana incluem A Ordem Esotérica de Dagon, a Cabala Bate, o Coven Lovecraftiano de Michael Bertiaux e o grupo da Sabedoria Estrelar, nomeado assim em homenagem ao grupo homônimo do século XIX presente no conto “O Assombro das Trevas”. Magos Caóticos se uniram às fileiras, costurando na internet retalhos de mistérios arcanos lovecraftianos remixando o Mito em seus (anti) trabalhos ctônicos de código aberto.

 

Este fenômeno torna-se ainda mais intrigante pelo fato de que o próprio Lovecraft era um “materialista mecanicista”, filosoficamente contrário à espiritualidade e à magia de quaisquer espécie. Entender esta discrepância é apenas um dos muitos problemas curiosos levantados pelo poder aparente da magia Lovecraftiana. Por quê e como essas visões marginais “funcionam”? O que pode ser definido como um ocultismo “autêntico”? Como é que a magia se relacionam com a tensão entre fato e fábula? Como espero mostrar, a magia Lovecraftiana não é uma alucinação pop, mas uma “leitura” criativa e coerente posta em movimento pela dinâmica dos próprios textos de Lovecraft, um conjunto de estratégias temáticas, estilísticas e intertextuais que constituem o que chamo de Realismo Mágico Lovecraftiano.

 

O realismo mágico já denota uma cepa de ficção latino-americana – exemplificado por Borges, Gabriel Garcia Marquez, e Isabel Allende – em que uma lógica onírica fantástica mescla perfeitamente e deliciosamente com os ritmos do quotidiano. O Realismo Mágico Lovecraftiano é muito mais sombrio e convulsivo, já que nele forças antigas e amorais pontuam violentamente a superfície realista de seus contos. Lovecraft constrói e, em seguida, destrói uma série de polaridades intensas – entre o realismo e a fantasia, livro e sonho, razão e sua caótica contraparte. Ao jogar com essas tensões em sua escrita, Lovecraft também reflete as transformações que o ocultismo sinistro sofreu, uma vez que confronta a modernidade em formas tais como a psicologia, fa ísica quântica, e a falta de fundamento existencial do ser. E, incorporando tudo isso em um Mito intertextual de profundidade abismal, ele chama o leitor para o caos que se encontra “entre os mundos” de magia e realidade.

 

 

por Shub-Nigger, A Puta dos Mil Bodes

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/chamando-cthulhu-o-realismo-fantastico-de-h-p-lovecraft/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/chamando-cthulhu-o-realismo-fantastico-de-h-p-lovecraft/

What is the Matrix? com Lionel Snell

Bate-Papo Mayhem #121 – gravado dia 16/12/2020 (Quarta) 12h Marcelo Del Debbio bate papo com Lionel Snell – What is the Matrix?

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

Lionel Snell/Ramsey Dukes – https://ramseydukes.co.uk/

Youtube channel – @Ramsey Dukes

Faça parte do Projeto Mayhem aqui:

Site do Projeto Mayhem – https://projetomayhem.com.br/

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Livros de Hermetismo: https://daemoneditora.com.br/

#Batepapo #MagiadoCaos

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/what-is-the-matrix-com-lionel-snell

Resultados da Hospitalaria – Fev/Mar 2009

Salve,

Não tenho palavras para agradecer o empenho dos fraters e sororers que me ajudaram a confeccionar os mapas e sigilos pro pessoal do blog, bem como a ajuda que conseguimos arrecadar graças a esta “promoção”.

Ao todo, em Fevereiro e março, foram 76 mapas e 62 sigilos.

Confira abaixo as Entidades auxiliadas:

– Cantinho Mei Mei
http://www.cantinhomeimei.com.br/

– Casa do Menor Santo Amaro do Grossarl

R. Padre Chico, 308 – Santo Amaro

– Casa dos Sábios
http://www.casadossabios.com.br

– Centro Espírita Fraterna
http://www.fraterna.org.br/index.htm

– Centro Espírita de Comunicações Ultraterrenas

– Federação de Cultura Afro-Brasileira (FECAB)

– Hospitalaria da 5a regional GOSP
http://www.redecolmeia.com.br/mason/beneficencia.htm

– Igreja Sagrado Coração de Jesus (PoA)

– Pastoral do Menor – SP

– Programa de Caridade da Loja Rosacruz AMORC – Santana

– Programa de caridade da Loja Rosacruz AMORC – Tatuapé

– Programa de Caridade da SCA (Sociedade das Ciências Antigas)

– Programa de Doações do GOB-SP

As doações em dinheiro dos leitores foram usadas para comprar material escolar, remédios, material de limpeza, material de fisioterapia e brinquedos em algumas das instituições acima. Também auxiliamos na reforma do asilo “Lar Nossa Senhora da Conceição” através da Hospitalaria da 5a região – GOSP (Grande Oriente de São Paulo).

Anunciamos que a campanha vai continuar enquanto tivermos gente disposta a ajudar, e quem quiser ainda pode ter o seu Mapa Astral ou Sigilo Pessoal via o TdC.

#Hospitalaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/resultados-da-hospitalaria-fev-mar-2009