Necronomicon: o Livro e Seu Autor

O Kitab Al-Azif, livro que em sua versão grega, receberia o nome de Necronomicon — provavelmente a obra mais temida (e desejada) de toda a história do ocultismo — foi escrito em cerca de 730 d.C., na cidade de Damasco (Síria), por um árabe que, segundo tradutores e comentaristas ocidentais, teria se chamado “Abdul al-Hazred”. Na verdade nenhum árabe jamais possuiu esse nome; a palavra “Abdul” não é um nome próprio, mas um título: significa “servo (Abd) de (ul)”. Assim um nome como Abdulah, por exemplo, significa “servo de Deus”. “Abdul”, apenas não faz sentido algum.

Já “Hazred” soa como uma corruptela latina do termo nominal árabe azrad, derivado do verbo zarada — que significa estrangular ou devorar. Assim o nome correto do autor do Kitab Al-Azif seria Abd al-Azrad, ou “o servo do grande devorador”.

Azrad foi um poeta, astrólogo e filósofo, mago e cientista nascido em cerca de 700 d.C. na cidade de Saana, no Iêmen. Antes de escrever a obra que imortalizaria seu nome, ele passou vários anos entre as ruínas da Babilônia, as catacumbas de Mênfis e o grande deserto da Arábia. O autor morreu em 738, em Damasco.

De acordo com o biógrafo Ibn Kallikan, Abd al-Azrad foi devorado, em plena luz do dia, por um demônio invisível. O Azif circulou secretamente em rolos de pergaminho por quase dois séculos.

Em 950, o filósofo bizantino Theodorus Philetas (lê-se Filetas) traduziu a obra para o grego, rebatizando-a como Necronomicon. O manuscrito de Philetas foi copiado várias vezes e muitos exemplares passaram a circular no Império Romano do Oriente até que, em 1050, o Patriarca de Constantinopla Miguel Cerulário condenou a obra. Várias cópias foram confiscadas e queimadas; seus proprietários, mortos sob tortura.

Em 1228, Olaus Wormius, o Velho, traduziu a versão grega de Philetas para o latim, mantendo o título Necronomicon — a essa altura, o original árabe já era dado como perdido. Em 1232, o Papa Gregório IX incluiu o livro de Wormius (e o de Philetas) no Index Expurgatorium.

O Necronomicon de Wormius viu sua primeira edição produzida com tipos móveis em 1454. O incunábulo alemão, impresso em caracteres góticos, não traz data, local ou nome do impressor.

No início do século XVI — com certeza antes de 1510 —, uma versão do livro de Philetas foi impressa na Itália.

A primeira edição “censurada” do Necronomicon — sem as passagens mais terrificantes e os feitiços mais perigosos — foi elaborada em 1580 pelo Dr. John Dee, mago e médico particular da Rainha Elizabeth I da Inglaterra.

Aparentemente, Dee, ao elaborar o texto em inglês, trabalhou com base num manuscrito grego.

No século XVII, o texto em latim foi reimpresso na Espanha dos Habsburgos. Descontando-se a baixa qualidade tipográfica, o livro é tão fiel ao original quanto a primeira edição feita na Alemanha.

Exemplares Conhecidos:

Atualmente existem apenas cinco exemplares do Necronomicon no mundo — ou, ao menos, apenas cinco exemplares de conhecimento público. Várias outras cópias podem estar preservadas em bibliotecas particulares. Os exemplares que chegam ao mercado são rapidamente adquiridos por colecionadores de livros raros (ou por interessados no conteúdo místico do livro) e o preço já atinge as raias do inestimável.

As cinco únicas cópias conhecidas são todas do texto latino de Wormius. Quatro pertencem à segunda edição espanhola e apenas uma à edição alemã original. Nenhum deles é manuscrito e, devido aos poderes atribuídos ao livro (e ao grande número de seitas fanáticas que buscam apossar-se dele ou destruí-lo), nenhuma instituição permite acesso irrestrito à obra. Os exemplares pertencem aos acervos da Bibliothèque Nationale de Paris, à Biblioteca da Universidade Miskatonic, em Arkham, à Biblioteca Widener, em Harvard, e à Biblioteca da Universidade de Buenos Aires (que recebeu o livro graças ao testamento do escritor Jorge Luís Borges). O único exemplar restante da edição alemã está na Biblioteca do Museu Britânico em Londres.

O colecionador abastado de livros raros não terá muitas dificuldades em levantar no mercado uma cópia do manuscrito de John Dee ou do manuscrito de Sussex (uma segunda edição inglesa, inferior à de Dee).

Kitab al-Azif:

Oficialmente, todas as cópias do manuscrito árabe original foram destruídas. No entanto, o Professor Phileus Sadowsky, filólogo e professor de literatura árabe da Universidade de Sófia, Bulgária, afirma ter consultado um livro medieval árabe, intitulado Kitab al-Azif, na Magyar Tudomanyos Akademia Orientalisztikai Kozlemenyei, da Hungria, em meados da década de 1980.

Segundo Sadowsky, o livro mede 21 x 16 centímetros e está escrito em um pergaminho já bastante apodrecido e semi-devorado por vermes. Há marcas de queimadura na extremidade direita do volume, como se alguém o houvesse arremessado ao fogo e se arrependido logo em seguida. O livro estaria escrito em letra tremida e, segundo o Professor, não se trata do trabalho de um calígrafo ou escriba profissional. O pergaminho e o estilo dos caracteres arábicos faz presumir que a obra tenha sido copiada na Síria ou no Irã, durante o século VIII.

Infelizmente tanto o governo da Hungria quanto as autoridades da Magyar Akademia negam veementemente a existência do Kitab al-Azif. Eruditos e bibliotecários ocidentais enviados à Europa Oriental após a queda dos regimes comunistas do Leste Europeu não encontraram qualquer traço do livro ou de registros a respeito de sua existência. De qualquer forma, a reputação do Professor Sadowsky é bastante sólida e parece impossível escapar a esse impasse.

O Nome:

O título grego, “necronomicon”, significa “coisas pertinentes aos costumes, leis e hábitos dos mortos”. O título original, Kitab al-Azif, pode ser traduzido como “Livro dos uivos dos demônios do deserto” ou mais poeticamente como “Livro Daquele que se aproxima”.

Poderes:

Dentre os poderes do Necronomicon, documentados por estudiosos como H.P. Lovecraft ou Henry Armitage, encontra-se um cântico capaz de trazer o demônio Yog-Sothoth a este mundo; informações sobre o pó de Ibn Ghazi, cujos poderes alucinógenos encontram-se além de qualquer descrição; e instruções para a elaboração do Signo Voorish. Há, no entanto, centenas de outros encantamentos e relatos cifrados no livro. Pois o Necronomicon não é um livro que se lê diretamente — ele precisa ser decifrado, intuído, e aqueles que o lêem, após todo o esforço e sanidade dispensados na tarefa, emergem radicalmente transformados.

That is not dead which can eternal lie,
And with strange aeons even death may die.
— Abdul Alhazred: Al Azif

Todos os meus contos partem da fundamental premissa de que as leis, interesses e emoções humanas não possuem nenhuma validade ou significância na grande imensidão do universo.
— H.P. Lovecraft

Por Carlos Orsi Martinho

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/necronomicon-o-livro-e-seu-autor/

O Sistema Enoquiano

Os Sistemas conhecidos como Magia Enoquiana, derivam do trabalho do estudioso Elizabetano Dr. John Dee e de Sir. Edward Kelly. John Dee tinha uma paixão por descobrir o conhecimento “perdido” e as “verdades espirituais”, em particular, ele queria recuperar a “Sabedoria” contida em Escritos Antigos. Entre estes escritos estava o Livro de Enoque, o qual ele concebeu como sendo uma descrição de um sistema de magia usado por aquele Patriarca. Tendo chegado a conclusão que seus esforços em descobrir as “verdades” em escritos e livros antigos eram infrutíferas, decidiu contatar as Forças Divinas pessoalmente. Durante os anos de 1581 à 1585, Dee executou uma longa série de operações de Magia. Kelly se juntou a Dee em março de 1582, sendo seu assistente exclusivo enquanto durou seu trabalho.

O método empregado para estes trabalhos era bastante simples para a época. Dee agia como orador e dirigia fervorosas orações para Deus e os Arcanjos, com durações que variavam de 15 minutos à 1 hora. Então uma “Bola de Cristal” era colocada em uma mesa preparada, e os Anjos eram chamados à manifestar um aparecimento visível. Kelly via através da “Bola de Cristal” e relatava tudo; Dee sentava-se à outra mesa e registrava tudo o que acontecia.

Dee fez várias cópias destes registros. Uma porção deles, relativos às Invocações Angelicais, “Tabletes” e “Liber Scientiae”, foram adquiridos juntamente com a biblioteca de Dee por Robert Cotton. Parte destes registros foram publicados no “Casaubon’s A True and Faithful Relation”. As partes mais antigas relativas à “Heptarchy” e “Liber Loagaeth” vieram à luz por meios mais indiretos.

Inicialmente, Dee aparentemente decidiu esconder os seus registros em um compartimento de um grande móvel de cedro. Depois da sua morte, este móvel passou por várias mãos. Os documentos escondidos não foram descobertos até por volta de 1662, e encontraram um destino nas mãos de Elias Ashmole em 1672. Mais tarde a coleção de Ashmole passou para o Biblioteca Britânica.

De acordo com Ashmole, aproximadamente metade dos registros escondidos estavam destruídos. Apesar disto, os registros das operações realizadas de 1581 até 1585 mantiveram-se quase completamente intactos.

O registro destas operações é muito detalhado; tanto que leva à um estudo cuidadoso no intuito de separar o “joio do trigo”. Há longos períodos em que as comunicações parecem não ter nenhum propósito a não ser, manter a atenção dos “Magistas” em continuar as operações. Durante estes períodos os Anjos apresentaram visões coloridas, profecias portentosas, e “fofoca angelical”, mas muito pouca informação “sólida”. Adicionalmente, o estudioso tem de lidar com incursões em doutrinas apocalípticas, política, problemas pessoais de Dee e Kelly, e várias questões irrelevantes que Dee teimou em inserir no trabalho.

Cronologicamente, o trabalho de Dee e Kelly divide-se em três períodos altamente produtivos separados por meses nos quais nada de particular valor foi recebido. Geralmente o material recebido em cada período é completo em si, e sutilmente relacionado com os outros períodos. Numa interpretação mais rígida, apenas o material do terceiro período poderia ser qualificado como “Enoquiano”, mas é comum referenciar todo o trabalho como “Enoquiano”.

O primeiro sistema de Magia “dado” a Dee foi o “Heptarchia Mystica”. Um sistema de complexidade moderada de Magia Planetária, semelhante ao encontrado nos “Grimórios Salomônicos”. O registro de sua apresentação pode ser encontrado no “Mysteriorum Libri Quinti”.

A apresentação deste sistema Mágico é de notável sequência e ordem. São descritos com detalhes os “itens” necessários para consecução do sistema. Relata-se também uma hierarquia angelical de 49 “Anjos Bons”, e mais adiante informações relativas aos Reis e Príncipes da hierarquia, e seus ministros. A maior parte das informações foram determinadas durante 1582; significativas correções relativas ao desenho dos “itens” foram determinadas na primavera do ano seguinte, depois de um hiato no trabalho.

Os anjos afirmam que o anel que eles projetaram para Dee era o mesmo que Salomão utilizava para controlar os demônios. O Anel possuía uma faixa clara na qual era fixo um retângulo. Nos quatro “cantos” deste retângulo eram escritas as letras PELE. No centro do retângulo havia um círculo cruzado por uma linha horizontal, acima desta linha havia a letra “V” e abaixo a letra “L”.

Foram dados dois lamens a Dee, um na versão com escrita angélica e outro com caracteres latinos. O primeiro destes apresentava uma semelhança à vários Sigilos Góticos, sendo composto por várias linhas desenhadas a “mão livre” e letras dispostas sem uma ordem aparente. O “ser” que instruiu o desenho deste lamen, disse que o mesmo deveria ser usado em todas as ocasiões e locais, como o propósito de proteção.

No ano seguinte, Dee e Kelly foram avisados por outros “Seres” que aqueles lamens eram falsos e haviam sido dados por um “espírito” ou “ser” ludibriador. Estes mesmos seres, deram a Dee instruções para consecução de “Quadrados Mágicos”, compostos por uma matriz (7×12), compostos inteiramente de letras. Ao contrário dos Lamens anteriores estes tinham o único propósito de dignificar o Magista, mostrar seus méritos para executar a Magia Heptarchica.

A “Mesa Santa” ou “Mesa da Aliança” era a peça central do sistema de Magia Heptarchica. Seu propósito era ser um “instrumento de conciliação”; o meio pelo qual os poderes que estavam por ela simbolizados eram trazidos junto ao Magista. Como o lamen, a versão inicial da mesa, foi depois dita incorreta, e um novo desenho foi “providenciado”.

A mesa possuía um tampo quadrado com o lado medindo 2 cúbitos* (algo variando entre 90cm e 104cm), com a altura de 2 cúbitos*. As pernas da mesa terminavam com a forma de taças viradas para baixo nas quais eram colocadas pequenas cópias do “Sigillum de Aemeth”. A mesa possuía borda de uma polegada, nas quais certas letras eram desenhadas, 21 para cada lado. Próximo à borda era desenhada uma Estrela de Davi, e no centro da Estrela um “Quadrado Mágico” de 6 polegadas de lado, formado por uma matriz 3×4 contendo mais letras. Em cima da mesa eram colocados 7 “Talismãs Planetários”, chamados as “Ensignias da Criação”, cada talismã representava um corpo celeste: o planeta Vênus, o Sol, Marte, Júpiter, Mercúrio, Saturno e a Lua; no centro da mesa era colocado uma versão grande do “Sigillum dei Aemeth”.

Quando em uso, A Mesa, O “Sigillum”, e Os Talismãs eram cobertos com um tecido de seda vermelho. A “Bola de Cristal” era então colocada em cima do tecido, diretamente em cima do “Sigillum”.

(*) Cúbito – Provavelmente a mais antiga medida linear que se tem notícia, era a distância entre o cotovelo e dedo médio. Variava entre 45 e 52 cm. O menor era chamado de “pequeno cúbito” e o maior, “cúbito real”.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-sistema-enoquiano/ […]

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Necronomicon: da origem até nossos dias

O Necronomicon (literalmente: “Livro de Nomes Mortos”) foi escrito em Damasco, por volta de 730 d.C., sendo sua autoria atribuída a Abdul Alhazred. Ao contrário do que se pensa vulgarmente, não se trata de um grimoire (ou grimório), livro mágico de encantos, mas de um livro de histórias. Escrito em sete volumes no original, chegou à cerca de 900 páginas na edição latina, e seu conteúdo dizia respeito à coisas antigas, supostas civilizações anteriores à raça humana, numa narrativa obscura e quase ilegível.

Abdul Alhazred nasceu em Sanaa, no Iêmen, tendo feito várias viagens em busca de conhecimento, dominando vários idiomas, vagou da Alexandria ao Pundjab, na Índia, e passou muitos anos no deserto despovoado ao sul da Arábia. Embora conhecido como árabe louco, nada há que comprove sua insanidade, muito embora sua prosa não fosse de modo algum coerente. Alhazred era um excelente tradutor, dedicando-se a explorar os segredos do passado, mas também era um poeta, o que lhe permitia certas extravagâncias na hora de escrever, além do caráter dispersivo. Talvez isso explique a alinearidade do Necronomicon.

Alhazred era familiarizado com os trabalhos do filósofo grego Proclos (410-485 d.C.), sendo considerado, como ele, um neo-platônico. Seu conhecimento, como o de seu mestre, inclui matemática, filosofia, astronomia, além de ciências metafísicas baseadas na cultura pré-cristã de egípcios e caldeus. Durante seus estudos, costumava acender um incenso feito da mistura de diversas ervas, entre elas o ópio e o haxixe. As emanações desse incenso, segundo diziam, ajudavam a “clarear” o passado. É interessante notar que a palavra árabe para loucura (majnum) tem um significado mais antigo de “djinn possuído”. Djilms eram os demônios ou gênios árabes, e Al Azif, outra denominação para o livro de Alhazred, queria dizer justamente “uivo dos demônios noturnos”.

Como Determinar o Limite Entre a Loucura e a Sabedoria?

Semelhanças entre o Ragnarok, mito escandinavo do Apocalipse, e passagens do Al Azif sugerem um vínculo entre ambos. Assim como os djinns árabes e os anjos hebraicos, os deuses escandinavos seriam versões dos deuses antigos. Ambas as mitologias falam de mundos sendo criados e destruídos, os gigantes de fogo de Muspelhein equivalem aos anjos e arcanjos bíblicos, ou aos gênios árabes, e o próprio Surtur, demônio de fogo do Ragnarok, poderia ser uma corruptela para Surturiel, ou Uriel, o anjo vingador que, como Surtur, empunha uma espada de fogo no Juízo Final. Da mesma forma, Surtur destrói o mundo no Ragnrok, quando os deuses retornam para a batalha final. Embora vistas por alguns com reservas, essas ligações tornam-se mais fortes após recentes pesquisas que apontam o caminho pelo qual o Necronomicon teria chegado à Escandinávia. A cidade de Harran, no norte da Mesopotâmia, foi conquistada pelos árabes entre 633 d.c. e 643 d.c. apesar de convertidos ao islã, os harranitas mantiveram suas práticas pagãs, adorando a Lua e os sete planetas então conhecidos. Tidoa como neo-platônicos, escolheram, por imposição, da religião dominante, a figura de Hermes Trimegisto para representa-los como profeta. Um grupo de harranitas mudou-se para Bágdá, onde mantiveram uma comunidade distinta denominada sabinos. Alhazred menciona os sabinos. Era uma comunidade instruída, que dominava o grego e tinha grande conhecimento de literatura, filosofia, lógica, astronomia, matemática, medicina, além de ciências secretas relativas às culturas árabe e grega. Os sabinos mantiveram sua semi-independência até o século XI, quando provavelmente foram aniquilados pelas forças ortodoxas islâmicas, pois não se ouve mais falar deles à partir do ano 1000. No entanto, por volta de 1041, o historiador Miguel Psellus conseguiu salvar uma grande quantidade de documentos pertencentes aos sabinos, recebendo-os em Bizâncio, onde vivia. Quem levou esses documentos de Bagdá para Bizâncio permanece um mistério, mas é certo que o fez tentando preservar uma parte da cultura dos sabinos da intolerância religiosa da época. Psellus, que além de historiador era um estudioso de filosofia e ocultismo, juntou o material recebido num volume denominado “Corpore Hermeticum”. Mas haviam outros documentos, inclusive uma cópia do Al Azif, que ele prontamente traduziu para o grego.

Por essa época, era costume os imperadores bizantinos empregarem guarda-costas vikings, chamados “varanger”. A imagem que se tem dos vikings como bárbaros semi-selvagens não corresponde à realidade, eram grandes navegadores que, já no ano mil, tinham dado inicio a uma rota comercial que atravessaria milhares de quilômetros, passando pela Inglaterra, Groenlândia, América do Norte e a costa atlântica inteira da Europa, seguindo pela Rússia até Bizâncio. Falavam grego fluentemente e sua infantaria estava entre as melhores do mundo.

Entre 1030 a 1040, servia em Bizâncio como varanger um viking chamado Harald. Segundo o costume, sempre que o imperador morria, o varanger tinha permissão para saquear o palácio. Harald servia à imperatriz. Zoe, que cultivava o hábito de estrangular os maridos na banheira. Graças a ela, Harald chegou a tomar Varie em três saques, acumulando grande riqueza. Harald servia em Bizâncio ao lado de dois companheiros, Haldor Snorrason e Ulf Ospaksson. Haldor, filho de Snorri, o Padre, era reservado e taciturno. Ulf, seu oposto, era astuto e desembaraçado, tendo casado com a cunhada de Harald e tornado-se um grande 1íder norueguês. Gostava de discutir poesia grega e participava das intrigas palacianas. Entre suas companhias intelectuais preferidas estava Miguel Psellus, de quem Ulf acompanhou o trabalho de tradução do Al Azif, chegando a discutir o seu conteúdo como historiador bizantino. Segundo consta, foi durante a confusão de uma pilhagem que Ulf apoderou-se de vários manuscritos de Psellus, traduzidos para o grego. Ulf e Haldor retornaram à Noruega com Harald e, mais tarde, Haldor seguiu sozinho para a Islândia, levando consigo a narrativa do Al Azif. Seu descendente, Snorri Sturluaaon (1179-1241), a figura mais famosa da literatura islandesa, preservou essa narrativa em sua “Edda Prosista”, a fonte original para o conhecimento da mitologia escandinava. Sabe-se que Sturlusson possuía muito material disponível para suas pesquisas 1ítero-históricas e entre esse materia1certamente estava o Al Azif, que se misturou ao mito tradicional do Ragnarok.

Felizmente, Psellus ainda pôde salvar uma versão do Al Azif original, caso contrário, o Necronomicon teria sido perdido para sempre. Ao que se sabe, não existe mais nem um manuscrito em árabe do Necronomicon, o xá da antiga Pérsia (atual Irã) levou à cabo uma busca na Índia, no Egito e na biblioteca da cidade santa de Mecca, mas nada encontrou. No entanto, uma tradução latina foi feita em 1487 por um padre dominicano chamado Olaus Wormius, alemão de nascença, que era secretário do inquisidor-mor da Espanha, Miguel Tomás de Torquemada, e é provável que tenha obtido o manuscrito durante a perseguição aos mouros. O Necronomicon deve ter exercido grande fascínio sobre Wormius, para levá-1o a arriscar-se em traduzí-lo numa época e lugar tão perigosos. E1e enviou uma cópia do livro a João Tritêmius, abade de Spanhein, acompanhada de uma carta onde se lia uma versão blasfema de certas passagens do Livro de Gênese. Sua ousadia custou-lhe caro. Wormius foi acusado de heresia e queimado numa fogueira, juntamente com todas as cópias de sua tradução. Mas, segundo especulações, ao menos uma cópia teria sido conservada, estando guardada na biblioteca do Vaticano.

Seja como for, traduções de Wormius devem ter escapado da Inquisição, pois quase cem anos depois, em 1586, o livro de Alhazred reapareceria na Europa. O Dr. John Dee, famoso mago inglês, e seu assistente Edward Kelley, estavam em Praga, na corte do imperador Rodolfo II, traçando projetos para a produção de ouro alquímico, e Kelley comprou uma cópia da tradução latina de um alquimista e cabalista chamado Jacó Eliezer, também conhecido como, “rabino negro”, que tinha fugido da Itália após ser acusado de práticas de necromancia. Naquela época, Praga havia se tornado um ímã para mágicos, alquimistas e charlatões de todo tipo, não havia lugar melhor para uma cópia do Necronomicon reaparecer.

John Dee (1527-1608), erudito e mago elisabetano, pensava estar em contato com anjos e “outras criaturas espirituais”, por mediação de Edward Kelley. Em 1555, já fora acusado, na Inglaterra, de assassinar meninos ou de deixá-los cegos por meio de mágica. É certo que Kelley tinha grande influência sobre as práticas tenebrosas de Dee, os anjos com os quais dizia comunicar-se, e que talvez só existissem em sua cabeça, ensinaram a Dee um idioma até então desconhecido, o enoquiano, além de outras artes mágicas. Se tais contatos, no entanto, foram feitos através do Necronomicon, é coisa que se desconhece. O fato é que a doutrina dos anjos de Dee abalou a moral da época, pois pregava entre outras coisas, o hedonismo desenfreado. Em 1583, uma multidão enfurecida saqueou a casa de Dee e incendiou sua biblioteca. Após tentar invocar um poderoso espírito que, segundo o vidente, lhes traria grande sabedoria, Dee e Kelley se separaram, talvez pelo fracasso da tentativa. Em 1586, Dee anuncia sua intenção de traduzir o Necronomicon para o inglês, à partir da tradução de Wormius. Essa versão, no entanto nunca foi impressa, passando para a coleção de Elias Ashmole (1617-1692), estudioso que transcreveu os diários espirituais de Dee, e finalmente para a biblioteca de Bodleian, em Oxford.

Por cerca de duzentos e cinquenta anos, os ensinamentos e escritos de Dee permaneceram esquecidos. Nesse meio tempo, partes do Necronomicon foram traduzidas para o hebreu, provavelmente em 1664, circulando em forma de manuscritos e acompanhados de um extenso comentário feito por Nathan de Gaza. Nathan, que na época contava apenas 21 anos, era um precoce e brilhante estudante da Torah e Talumud. Influenciado pelas doutrinas messiânicas judaicas vigentes na época, ele proclamou como o messias esperado a Sabbatai Tzavi, um maníaco depressivo que oscilava entre estados de transcendência quando se dizia que seu rosto parecia reluzir, e profunda frustração, com acessos de fúria e crueldade. Tais estados de ânimo eram tidos como o meio pelo qual Sabbatai se comunicava com outros planos de existência, como um Cristo descendo aos infernos, ou Orfeu, numa tradição mais antiga. A versão hebraica do Al Azif era intitulada Sepher há’sha’are ha-Da’ath, ou o “Livro do Portal do Conhecimento”. Tratava-se de um comentário em dois capítulos do livro de Alhazred. A palavra para conhecimento, Da’ath, foi traduzida para o grego na Bíblia como gnosis, e na Cabala tem o significado peculiar de “não-existência”, sendo representada às vezes como um buraco ou portão para o abismo da consciência. Seu aspecto dual parece indicar uma ligação entre o mundo material, com sua ilusão de matéria física e ego, e o mundo invisível, obscuro, do conhecimento, mas que seria a fonte da verdadeira sabedoria, para aqueles que pudessem suportá-la. Isso parece levar ao Astaroth alquímico e à máxima da magia, que afirma que o que está em cima (no céu) é como o que está em baixo (na terra). A ligação entre os dois mundos exigiria conhecimento do Abismo, abolição do ego e negação da identidade. De dentro do Abismo, uma infinidade de portões se abre. É o caos informe, contendo as sementes da identidade.

O propósito de Nathan de Gaza parece ter sido ligar o Necronomicon à tradição judaica da Cabala, que fala de mundos antigos primordiais e do resgate da essência sublime de cada ser humano, separada desses mundos ou submergida no caos. Ao lado disso, criou seu movimento messiânico, apoiado em Sabbatai Tzevi, o qual criou cisões e conflitos na comunidade judaica, conflitos que persistiram por pelo menos um século. Há quem afirme que uma cópia do Sha’are ha-Da’ath ainda existe, em uma biblioteca privada, mas sobre isso não há qualquer evidência concreta.

O ressurgimento do Necronomicon é constantemente atribuído ao escritor Howard Phillip Lovecraft, que fez do livro a base de sua obra literária. Mas não se explica como Lovecraft teve acesso ao livro de Alhazred. O caminho mais lógico para esse ressurgimento parece indicar o mago britânico Aleister Crowley (1875-1947). Crowley tinha fama de charlatão, proxeneta, toxicômano, promíscuo insaciável e bissexual, além de traidor da pátria e satanista. Tendo se iniciado na Ordem do Amanhecer Dourado em 1898, Crowley aprendeu práticas ocultas no Ceilão, na Índia e na China. Mais tarde, ele criaria sua própria ordem, um sistema mágico e uma nova religião, da qual ele seria o próprio messias. Ao que tudo indica, essa religião denominada “Lei de Thelema” se baseava nos conhecimentos do “Livro da Lei”, poema em prosa dividido em três capítulos aparentemente ilógico, que segundo ele, lhe havia sido ditado em 1904 por um espírito chamado Aiwass.

Sabe-se que Crowley pesquisou os documentos do Dr. John Dee em Bodleian. Ele próprio se dizia uma reencarnação de Edward Kelley, o que explica em parte, seu interesse. Apesar de não mencionar a fonte de seus trabalhos, é evidente que muitas passagens do Livro da Lei foram plagiadas da tradução de Dee do Necronomicon. Crowley já era conhecido por plagiar seu mestre, Allan Bennett (1872-1923), que o iniciou no Amanhecer Dourado, mas há quem sustente que tais semelhanças foram assimiladas inconscientemente seja como for, em 1918 Crowley viria a conhecer uma modista chamada Sônia Greene. Aos 35 anos, judia, divorciada, com uma filha e envolvida numa obscura ordem mística, Sônia parecia ter a qualidade mais importante para Crowley naquele momento: dinheiro. Eles passaram a se ver durante alguns meses, de maneira irregular.

Em 1921, Sônia Greene conheceu H.P. Lovecraft. No mesmo ano, Lovecraft publicou o seu primeiro romance “A Cidade Sem Nome”, onde menciona Abdul Alhazred. Em 1922, no conto “O Cão de Caça”, ele faz a primeira menção ao Necronomicon. Em 1924, ele e Sônia Greene se casam. Nós só podemos especular sobre o que Crowley contou para Sônia Greene, e não sabemos o que ela contou a Lovecraft, mas é fácil imaginar uma situação onde ambos estão conversando sobre uma nova história que ele pretende escrever e Sônia comenta algumas idéias baseadas no que Crowley havia lhe contado, sem nem mesmo mencionar a fonte. Seria o bastante para fazer reluzir a imaginação de Lovecraft. Basta comparar um trecho de “O Chamado de Cthulhu” (1926) com partes do Livro da Lei, para notar a semelhança.

«Aquele culto nunca morreria… Cthulhu se ergueria de sua tumba e retomaria seu tempo sobre a Terra, e seria fácil reconhecer esse tempo, pois os homens seriam livres e selvagens, como os “antigos”, e além do bem e do mal, sem lei ou moralidade, com todos gritando e matando e rejubilando-se em alegria. Então os “antigos” lhes ensinariam novos modos de gritar e matar e rejubilar-se, e toda a Terra arderia num holocausto de êxtase e liberdade» (O Chamado de Cthulhu).

«Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei… Todo homem e toda mulher é uma estrela… Todo homem tem direito de viver como quiser, segundo a sua própria lei… Todo homem tem o direito de matar quem se opuser aos seus direitos… A lei do forte, essa é a nossa lei e alegria do mundo … Os escravos servirão»(Lei Thelemita).

Não há nem uma evidência que Lovecraft tenha visto o Necronomicon, ou até mesmo soube que o livro existiu. Embora o Necronomicon que ele desenvolveu em sua obra esteja bem próximo do original, seus detalhes são pura invenção. Não há nem um Yog-Sothoth ou Azathoth ou Nyarlathotep no original, por exemplo. Mas há um Aiwass…

O Que é o Necronomicon:

O Necronomicon de Alhazred trata de especulações antediluvianas, sendo sua fonte provável o Gênese bíblico e o Livro de Enoch, além de mitologia antiga. Segundo Alhazred, muitas espécies além do gênero humano tinham habitado a Terra, vindas de outras esferas e do além. Alhazred compartilhou da visão de neoplatoniatas que acreditavam serem as estrelas semelhantes ao nosso Sol, cada qual com seus próprios planetas e formas de vida, mas elaborou essa visão introduzindo elementos metafísicos e uma hierarquia cósmica de evolução espiritual. Aos seres das estrelas, ele denominou “antigos”. Eram sobre-humanos e podiam ser invocados, desencadeando poderes terríveis sobre a Terra.

Alhazred não inventou a história do Necronomicon. Ele elaborou antigas tradições, inclusive o Apocalipse de São João, apenas invertendo o final (a Besta triunfa, e seu número é 666). A idéia de que os “antigos” acasalaram com os humanos, buscando passar seus conhecimentos para o nosso plano de existência e gerando uma raça de aberrações, casa com a tradição judaica dos nephilins (os gigantes de Gênese 6.2-6.5). A palavra árabe para “antigo” deriva do verbo hebreu para “cair” (os anjos caídos). Mas o Gênese é só um fragmento de uma tradição maior, que se completa, em parte, no Livro de Enoch. De acordo com esta fonte, um grupo de anjos guardiões enviados para observar a Terra viu as filhas dos homens e as desejou. Duzentos desses guardiões formaram um pacto, saltando dos ares e tomando as mulheres humanas como suas esposas, gerando uma raça de gigantes que logo se pôs a pecar contra a natureza, caçando aves, répteis e peixes e todas as bestas da Terra, comendo a carne e bebendo o sangue uns dos outros. Os anjos caídos lhes ensinaram como fazer jóias, armas de guerra, cosméticos, encantos, astrologia e outros segredos. O dilúvio seria a consequência das relações entre os anjos e os humanos.

«E não vi nem um céu por cima, nem a terra firme por baixo, mas um lugar caótico e horrível. E vi sete estrelas caírem dos céus, como grandes montanhas de fogo. Então eu disse: “Que pecado cometeram, e em que conta foram lançados?” Então disse Uriel, um dos anjos santos que estavam comigo, e o principal dentre eles: “Estes são os números de estrelas do céu que transgrediram a ordem do Senhor, e ficarão acorrentados aqui por dez mil anos, até que seus pecados sejam consumados”».(Livro de Enoch).

Na tradição árabe, os jinns ou djinns seriam uma raça de seres sobre-humanos que existiram antes da criação do homem. Foram criados do fogo. Algumas tradições os fazem sub-humanos, mas invariavelmente lhes são atribuídos poderes mágicos ilimitados. Os djinns sobrevivem até os nossos dias como os gênios das mil e uma noites, e no Corão eles surgem como duendes e fadas, sem as qualidades sinistras dos primeiros tempos. Ao tempo de Alhazred, os djinns seriam auxiliares na busca de conhecimento proibido, poder e riquezas.

No mito escandinavo, hoje bastante associado à história do Necronomicon, os deuses da Terra (aesires) e o gênero humano (vanas) existiam contra um fundo de poderes mais velhos e hostis, representados por gigantes de gelo e fogo que moravam ao norte e ao sul do Grande Girnnunga (o Abismo) e também por Loki (fogo) e sua descendência monstruosa. No Ragnarok, o crepúsculo dos deuses, esses seres se ergueriam mais uma vez num combate mortal. Por último, Siurtur e ou gigantes de fogo de Muspelheim completariam a destruição do mundo.

Essa é essencialmente a profecia de Alhazred sobre o retorno dos “antigos”. É também a profecia de Aleister Crowley sobre o Àeón de Hórus. Os gigantes de fogo de Muspelheim não diferem dos djinns, que por sua vez se ligam aos anjos hebraicos. Como Surtur, Uriel carrega uma espada de fogo, e sua sombra tanto pode levar à destruição quanto a um renascimento. Assim, tanto os anjos e seus nephilins hebraicos quanto os “antigos” de Alhazred poderiam ser as duas faces de uma mesma moeda.

Como os Antigos São Invocados

É inegável que o sistema enochiano de Dee e Kelley estava diretamente inspirado em partes do Necronomicon, onde há técnicas de Alhazred para a invocação dos “antigos”. Embora o Necronomicon fosse basicamente um livro de histórias, haviam algums detalhes práticos e fórmulas que funcionavam quase como um guia passo a passo para o iniciado entrar em contato com os seres sobre-humanos. Dee e Kelley tiveram que preencher muitas lacunas, sendo a 1inguagem enochiana um híbrido que reúne, basicamente, um alfabeto de 21 letras, dezenove “chaves” (invocações) em linguagem enochiana, mais de l00 quadros mágicos compostos de até 240l caracteres além de grande quantidade de conhecimento oculto. É improvável que esse material lhes tivesse sido realmente passado pelo arcanjo Uriel. Bulwer Lytton, que estudou a tradução de Dee para o Necronomicon, afirma que ela foi transcrita diretamente do livro original, e se eram ensinamentos de Uriel, o mais provável é que ele os tenha passado a Alhazred.

A ligação entre a linguagem enochiana e o Livro de Enoch parece óbvia. Como o livro de Enoch só foi redescoberto no século XVII, Dee só teria acesso à fragmentos do mesmo citados em outros manuscritos, como o Necronomicon de Alhazred, o que mais uma vez reafirma sua provável fonte de origem. Não há nenhuma dúvida que Alhazred teve acesso ao livro de Enoch, que só desapareceria no século IX d.C., sendo até então relativamente conhecido. Outra pista para essa ligação pode ser a chave dos trinta Aethyrs, a décima nona das invocações enochianas. Crowley chamava-a de “a maldição original da criação”. É como se o próprio Deus a enunciasse, pondo fim à raça humana, à todas as criaturas e ao mundo que ele próprio criara. Isso é idêntico ao Gênese 6.6, onde se lê: “E arrependeu-se o Senhor de ter posto o homem sobre a Terra, e o lamentou do fundo de seu coração”. Esse trecho segue-se à descrição dos pecados dos nephilins, que resulta na destruição do mundo pelo dilúvio. Crowley, um profundo conhecedor da Bíblia, reconheceu nisso a chave dos trinta Aethyrs, estabelecendo uma ligação. Em resumo, a chave (ou portão) para explorar os trinta Aethyrs é uma invocação no idioma enochiano, que segundo Dee seria o idioma dos anjos, e esta invocação seria a maldição que lançou os nephilins (ou “antigos”) no Abismo. Isto se liga à práticas antigas de magia negra e satanismo: qualquer meio usado pelo mago no passado para subordinar uma entidade pode ser usado também como um método de controle. Tal fórmula existe em todo grimoire medieval, em alguns casos de forma bastante explícita. A entrada no trigésimo Aethyr começa com uma maldição divina porque esse é um dos meios de afirmar controle sobre as entidades que se invoca: o nephilin, o anjo caído, o grande “antigo”. Isso demonstra, além de qualquer dúvida, que o sistema enochiano de Dee e Kelley era idêntico, na prática e em cadência, ao sistema que Alhazred descreveu no Necronomicon.

Crowley sabia disso. Uma das partes mais importantes de seu trabalho mágico (registrou-o em “A Visão e a Voz”) era sua tentativa de penetrar nos trinta Aethyrs enochianos. Para isso, ele percorreu o deserto ao norte da África, em companhia do poeta Winner Neuberg. Ele já havia tentado fazê-lo no México, mas teve dificuldade ao chegar ao 28º Aethyr, e decidiu reproduzir a experiência de Alhazred o mais proximamente possível. Afinal, Alhazred levou a cabo seus estudos mais significativos enquanto vagava pela região de Khali, uma área deserta e hostil ao sul da Arábia. O isolamento o ajudou a entrar em contato com os Aethyrs. Para um plagiador como Crowley, a imitação é o primeiro passo para a admiração, não é surpresa essa tentativa, além do que ele também pretendia repetir os feitos de Robert Burton, explorador, aventureiro, escritor, lingüista e adepto de práticas obscuras de magia sexual. Se obteve sucesso ou não, é desconhecido pois jamais admitiu suas intenções quanto à viagem, atribuindo tudo ao acaso.

Onde o Necronomicon Pode Ser Encontrado:

Em nenhum lugar, com certeza, seria a resposta mais simples, e novamente somos forçados a suspeitar que a mão de Crowley pode estar metida nisto. Em 1912 ele conheceu Theodor Réuss, o 1íder da Ordo Templi Orientis alemã (O.T.O.) e trabalhou dentro daquela ordem por dez anos, até ser nomeado sucessor do próprio Réuss. Assim temos Crowley como líder de uma loja maçônica alemã. Entre 1933-1938, desapareceram algumas cópias conhecidas do Necronomicon. Não é segredo que Adolf Hitler e pessoas do alto escalão de eu governo tinham interesse em ocultismo, e provavelmente apoderaram-se dessas cópias. A tradução de Dee desapareceu de Bodleiam, roubada em 1934. O Museu Britânico também sofreu vários saques, sendo a edição de Wormius retirada de catálogo e levada para um depósito subterrâneo, em Gales, junto com as jóias da Coroa, onde permaneceu de 1939 a 1945. Outras bibliotecas simplesmente perderam cópias desse manuscrito e hoje não há nenhuma que apresente em catálogo uma cópia, seja em latim, grego ou inglês, do Necronomicon. O paradeiro atual do Al Azif original, ou de suas primeiras cópias, é desconhecido. Há muitas fraudes modernas, mas são facilmente desmascaradas por uma total falta de imaginação e inteligência, qualidades que Alhazred possuía em abundância. Mas há boatos de um esconderijo dos tempos da 2º Guerra, que estaria localizado em Osterhorn, uma área montanhosa próxima à Salzburgo, onde haveria uma cópia do manuscrito original, escrita pelos nazistas e feita com a pele e o sangue de prisioneiros de campos de concentração.

Qual o motivo para o fascínio em torno do Neconomicon? Afinal, é apenas um livro, talvez esperemos muito dele e ele não possa mais do que despejar um grão de mistério no abismo de nossos anseios pelo desconhecido. Mas é um mistério ao qual as pessoas aspiram, o mistério da criação, o mistério do bem e do mal, o mistério da vida e da morte, o mistério das coisas que se foram. Nós sabemos que o Universo é imenso, além de qualquer limite da nossa imaginação, mas o que há lá fora? E o que há dentro de cada um de nós? Seria o Universo um espelho para nós mesmos? Seriam os “antigos” apenas uma parte mais profunda de nosso subconsciente, o ego definitivo, o mais autêntico “eu sou”, que no entanto participa da natureza divina?

Sábios e loucos de outrora já se fizeram essas perguntas, e não temeram tecer suas próprias respostas, seus mitos, imaginar enfim. A maioria das pessoas, porém, prefere criar respostas seguras, onde todos falam a mesma língua, cultivam os mesmos hábitos, respeitam a diversidade,cada qual em sua classe. O Necronomicon, porém, desafia nossas certezas, pois não nos transmite qualquer segurança acerca do Universo e da existência. Nele, somos o que somos, menos que grãos de pó frente à imensidão do Cosmo e muitas coisas estranhas, selvagens e ameaçadoras estão lá fora, esperando pelo nosso chamado. Basta olhar em qualquer tratado de Astronomia ou Astrofísica, basta ler os jornais. Isso é para poucos, mas você sabe que é verdade.

Método Utilizado Por Nostradamus Para Ver o Futuro:

Recolha-se à noite em um quarto fechado, em meditação, sozinho, sentando-se diante de uma bacia posta sobre um tripé e cheia de água. Acenda uma vela sob a bacia, entre as pernas do tripé, e segure um bastão mágico com a mão direita, agitando-o sobre a chama do modo como se sabe, enquanto toca a água com a mão esquerda e borrifa os pés e a orla de seu manto. Logo ouvir-se-á uma voz poderosa, que causa medo e tremor. Então, esplendor divino; o Deus senta ao seu lado.

Incenso de Alhazred:

– Olibanum, storax, dictamnus, ópio e haxixe.

À partir de que momento uma pessoa deixa de ser o que ela própria e todos os demais acreditam que seja? Digamos que eu tenha que amputar um braço. Posso dizer: eu mesmo e meu braço. Se fossem as duas pernas, ainda poderia falar da mesma maneira: eu mesmo e minhas duas pernas. Ou os dois braços. Se me tirarem o estômago, o fígado, os rins, admitindo-se que tal coisa seja possível, ainda poderia dizer: eu mesmo e meus órgãos. Mas se cortassem a minha cabeça, ainda poderia falar da mesma maneira? O que diria então? Eu mesmo e meu corpo ou eu mesmo e minha cabeça? Com que direito a cabeça, que nem mesmo é um membro, como um braço ou uma perna, pode reivindicar o título de “eu mesmo”? Porque contém o cérebro? Mas existem larvas, vermes e muitas outras coisas que não possuem cérebro. O que se pode dizer a respeito de tais criaturas? Será que existem cérebros em algum outro lugar, para dizerem “eu mesmo e meus vermes”?

Por Daniel Low

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/necronomicon-da-origem-ate-nossos-dias/

Mitos de Cthulhu

Embora Lovecraft nunca tivesse grande reconhecimento em vida ele atraiu a admiração de muitos dos escritores que com ele se correspondiam (inclusive alguns até estabelecidos como Robert E. Howard e Clark Ashton Smith). As obras que atraiam estes escritores tinham uma qualidade literária impar se aproximando dos escritos de Poe e estavam muito longe do que seria por assim dizer ‘popular’. O terror de monstros e vampiros para Lovecraft era batido, ele achava que a forma máxima do terror seria o terror cósmico-científico de forte conotação psicológica – o chamado terror psicológico, onde a ambientação é que conduz ao clima assombrado e onde elementos como angustia, depressão, sofrimento e suicídio são determinantes. Foi esta proposta literária e o desenvolvimento insipiente de uma mitologia fantástica envolvendo seres monstruosos e histórias antigas que atraiu a atenção destes escritores.

Utilizando palavras do próprio Lovecraft, “as efabulações sobre temas mundanos e o lugar-comum não satisfazem as mentes mais criativas e sequiosas de novos estímulos”. O trabalho de Lovecraft não serve para agradar às massas nem ao cidadão comum, mas apenas a um grupo mais restrito de admiradores que não se contentam com os enredos banais do dia-a-dia. Abdicando do lucro fácil que certamente teria atingido se utilizasse o seu gênio na produção de romances comerciais, Lovecraft deixou-nos um legado espantoso de visões fantásticas e universos assombrosos. Na verdade este gênero já havia sido explorado por Lord Dunsany e por William Hope Hodgson, mas o que fez Lovecraft foi dar uma singular propriedade a este novo tipo de horror que até então não existia – não daquela forma. É esta mitologia fantástica que ficou sendo conhecida como “Os Mitos de Cthulhu”.

É importante dizer aqui que este termo “Cthulhu” é pronunciado comumente como “kuh-THOO-loo” (em português soa algo como “Katuuluu”, pronunciado rapidamente) por causa da pronuncia indicada na caixa do famoso rpg de nome “Call of Cthulhu” da Chaosium. Entretanto, existem vários estudantes sérios de Lovecraft que preferem a pronúncia como “Cloo-loo”, justificando suas teses em referências dos contos do autor. Fora isto a discussão se estende e encontramos ainda uma série de pronuncias diferentes, mas que na prática nada, ou muito pouco, acrescentam ao termo. O próprio Lovecraft brincava com seus amigos escritores pronunciando hora de uma forma outra d’outra.

 

A Formação do Círculo de Lovecraft

Não apenas Lovecraft começou a desenvolver estes tipos de histórias, mas junto a ele aqueles correspondentes que falamos também criavam suas histórias e seus deuses, é por exemplo de autoria de Frank Belknap Long a entidade de nome Chaugnar Faugn. O trabalho de Lovecraft atraiu um grupo considerável de escritores, que começaram a corresponder com ele e entre si. Nascia o Lovecraft Cycle, “fundado” pelo próprio Lovecraft e dois escritores consagrados: Clark Ashton Smith e Robert E. Howard (criador de Conan – o Bárbaro). Jovens e talentosos escritores como August Derleth, Frank Belknap Long e Robert Bloch (que viria a escrever mais tarde o conto que inspirou o filme “Psicose”) juntam-se também ao círculo, e todos contribuíram com o seu trabalho para enriquecer os Mitos de Cthulhu. “Era uma espécie de jogo”, que todos levaram muito a sério, como comentou certa vez Robert Bloch. Estima-se que tenha-se criado mais de novecentas histórias sobre os mitos. A este grupo de escritores que se juntou a Lovecraft se denominou “Círculo de Lovecraft”.

Estes contos se centravam em um grupo de entidades transdimensionais e extraterrestres que serviram como deidades ao homem primitivo. Lovecraft escreveu que Cthulhu e os “Grandes Antigos”, como ele (às vezes) chamou os deuses alienígenas, vieram de estrelas escuras. Alguns viveram em um planeta que ele chamou de Yuggoth e identificou nos anos trinta com o planeta recentemente descoberto, Plutão.

Introdução aos Mitos de Cthulhu

 

Em “O Chamado de Cthulhu”, Lovecraft dispôs os fundamentos de seu conceito mitológico. Ele disse que muitos milênios atrás, os Antigos vieram de outros planetas e estabeleceram residência na Terra. Quando as estrelas estavam erradas eles não podiam viver, assim eles desapareceram sob o oceano ou voltaram aos seus mundos de origem onde usaram poderes telepáticos para comunicar-se com o homem. Central ao mito de Lovecraft, os Antigos formaram um culto e uma religião que adorava os aliens como deuses. Nas histórias, os Antigos pairam a meio caminho entre puros extraterrestres e verdadeiros deuses, como requer o enredo. Em seu romance “Nas Montanhas da Loucura“, ele escreveu que uma espécie dos Antigos criou o homem para servi-los, iniciando as primeiras civilizações humanas: Atlântida, Lemuria e Mu.

Lovecraft usou as mitologias suméria, egípcia e grega como base para os seus semideuses monstruosos. Ele disse que seu deus-mensageiro Nyarlathotep era um membro do panteão egípcio – a própria esfinge ou um grande faraó. Ele identificou o peixe-deus fenício Dagon (anteriormente Oannes) como o próprio Grande Cthulhu, e assim se tornou a primeira pessoa a ligar extraterrestres a religiões antigas. É interessante notar que Dagon é muitas vezes citado na Bíblia Sagrada nas seguintes partes para quem quiser conferir: Juízes 16:23, Samuel 5:2-7 e Crônicas 10:10. Entretanto Lovecraft nunca alegou que suas histórias eram qualquer coisa além de ficção, embora fizesse parecer ser as mesma muito reais.

August Derleth viria a designar o conjunto do trabalho produzido por Lovecraft e pelos escritores que seguiram o seu estilo como ele próprio por “Mitos de Cthulhu”. Cthulhu é uma criação do próprio Lovecraft de que falarei mais adiante, e que aparece naquele que é provavelmente o seu conto mais conhecido, “Call of Cthulhu”. Cada conto escrito por Lovecraft e seus seguidores constitui mais uma peça para enriquecer a imagem geral do que são os mitos. A melhor forma de os conhecer é obviamente pela leitura desses mesmo contos, mas tentarei dar uma idéia geral. Mas, o por que de tentar dar esta idéia geral, vocês devem estar se perguntando ao ler este site. Bem, a resposta é simples é para que vocês ao lerem a obra de Lovecraft pela primeira vez (como suponho que muitos o façam ao baixar os contos que transcrevi para o formato e-book neste site) vocês não pensem que o conto é um todo quando na verdade faz parte de um conjunto complexo. Foi apenas para dar uma noção que fiz esta seção neste site, tentar sistematizar toda a mitologia como tentou fazer Derleth só conduzirá a dados incompletos e críticas (como ele mesmo foi vítima na época). Vou tentar explicar melhor: Derleth e sites na web tentaram sistematizar algo meio que inconcebível, foram mais de 900 contos de diversos autores o que já complicaria muito as coisas. Mas, se nos concentrarmos mais nos trabalhos de Lovecraft que foi seu grande e inicial idealizador? Bem, isto também não seria bom, pois muitos dos temas que ele trabalhava também tiveram contribuição de outros ou mesmo vieram da troca de idéias e muitas das origens de determinado ponto da mitologia para ser corretamente catalogado deveriam partir para um grande pesquisa seja em contos destes autores ou de qualquer um dos outros que também trabalharam o tema. Entendem? A melhor forma de entender a mitologia e ter acesso a ela é ler as obras de Lovecraft e também, se possível, dos outros autores dos mitos a Chaosium tem muitas destas obras para venda em formato impecável. Fora isto, alguns contos que estão disponíveis aqui no Brasil são a base da mitologia citando alguns: “O Chamado de Cthulhu”, “Nas Montanhas da Loucura”, “Os Sonhos na Casa Assombrada”, “A História do Necronomicon”, só pra citar alguns.

Continuando a falar do mistos é possível dizer que é constante ao longo de todas as histórias a idéia de que a humanidade e o nosso planeta são uma “concha” de sanidade mental, imersa num universo completamente alienado, povoado por criaturas e raças poderosas, deuses estranhos e regido por leis completamente insondáveis e divergentes das leis naturais que conhecemos. Um homem exposto a esta realidade tem tendência a enlouquecer. A sanidade mental é vista como uma cortina que nos protege da realidade, permitindo que as sociedades humanas subsistam como as conhecemos, alheias à estranheza do universo que as rodeia. A personagem principal nas histórias de Lovecraft é tipicamente um cientista, investigador ou professor universitário que se vê confrontado das mais diversas formas com esta terrível realidade. Lembraram-se do filme Matrix? Pois, é acho que muito do que eles “criaram” com certeza tem como base os trabalhos de Lovecraft, Hodgson e Dunsany ou mesmo do artista de quadrinhos Grant Morrison criador dos “Invisíveis”, que alias chegou a processar os produtores do filme Matrix. Fiquei sabendo a pouco do trabalho deste artista e a pouco também procurei na minha cidade uma loja de HQ´s e pude comprovar falando com alguns e lendo algumas coisas que realmente o que propuseram no filme Matrix, e que causou sucesso, de novo não tem nada.

Outra idéia de base importante é a de que a maioria dos cultos e religiões humanas das mais diversas épocas e regiões do globo, sendo aparentemente dispersas, representem imagens distorcidas e por vezes complementares da verdadeira natureza do cosmos. Segundo a Mitologia de Cthulhu, diversas raças e entidades superiores teriam habitado a terra antes do homem, e diversas o farão depois que humanidade desaparecer. Algumas destas entidades superiores (como o próprio Cthulhu), dado o seu ciclo de vida inimaginavelmente longo, e a sua supremacia física e intelectual sobre o homem, são facilmente confundíveis com deuses. Cultos primitivos terão aparecido para adorar estes pseudo-deuses. Muitas das histórias dos mitos especulam sobre a subsistência desses cultos na atualidade, as suas atividades obscuras e as suas motivações incompreensíveis, criando um ambiente extremamente tenso e paranóico.

As histórias originais de Lovecraft têm na sua maioria como cenário os Estados Unidos dos anos 20 e início dos anos 30. Trata-se de uma época de grandes injustiças sociais, em que a classe baixa vivia na miséria e oprimida pela burguesia, enquanto que a classe alta usufruía de um estilo de vida luxuoso. A segregação racial era intensa e a lei seca encontrava-se em vigor, motivando o aparecimento de crime organizado em volta do tráfico de bebidas espirituosas. A terrível realidade dos Mitos de thulhu contrasta de uma forma bastante brutal e sugestiva com a futilidade dos interesses da classe alta.

Seguidamente irão ser descritos alguns elementos-chave dos mitos. Não sendo uma lista de forma alguma exaustiva, pretende apenas dar uma idéia geral do ambiente. Nas descrições que se seguem, e por comodidade, fatos completamente fictícios irão ser descritos como reais. É importante frisar aqui que vamos dar uma idéia geral, pois a entidades lovecraftianas são extensas e difíceis de serem sistematizadas, como falei. Lovecraft escreveu contos sem um ordem cronológica específica, de forma que o conjunto forma a mitologia seja a partir de suas criações ou de elementos do círculo. Por isto é mais interessante do que uma sistematização (aqui feita apenas para dar uma visão geral) é ler as obras sobres os mitos, aí sim ter contato com elas assim como elas foram criadas – dispersas, errantes, mas ao mesmo tempo dentro de uma linha de trabalho. Destas criações podemos citar algumas e alguns trabalhos em que há referências sobre as mesma eu coloquei em parênteses e preferi deixar os títulos originais em Inglês por que dependendo da tradução o título pode vir um pouco diferente e atrapalhar algum de vocês que um dia quiserem consultar algo a respeito:

 

Criação

Referências

 Azathoth

 (“The Dream-Quest of Unknown Kadath”, “The Whisperer in Darkness”, “The Dreams in the Witch House”).

 Hastur

 (“The Whisperer in Darkness”). Lovecraft tomou este termo emprestado de Robert W. Chambers, que por sua vez já havia tomado emprestado de Ambrose Bierce.

  Shub-Niggurath

(“The Last Test”, “The Dunwich Horror”, “The Mound”, “Medusa’s Coil”, “The Horror in the Museum”, “The Thing on the Doorstep”, “The Diary of Alonzo Typer”, “The Whisperer in Darkness”, “The Dreams in the Witch House”, “The Man of Stone”).

  Yog-Sothoth

 (“The Case of Charles Dexter Ward”, “The Dunwich Horror”, “The Horror in the Museum”, “Through the Gates of the Silver Key”).

 Tsathoggua

 (“The Mound”, “The Whisperer in Darkness”, “The Horror in the Museum”). Este termo é de criação de Clark Ashton Smith.

 Shoggoths  (“Sonnet XX, “Night Gaunts” in Fungi from Yuggoth, 1929-30″,”At the Mountains of Madness”, “The Shadow Over Innsmouth”, “The Thing on the Doorstep”).
  Nyarlathotep  (“Nyarlathotep”,”The Dream-Quest of Unknown Kadath”,”The Dreams in the Witch House”,”The Haunter of the Dark”)
  Night-gaunts  (“The Dream-Quest of Unknown Kadath”).
  Elder Things    (“At the Mountains of Madness”).
 Chaugnar Faugn   (“The Horror in the Museum”). Esta é uma criação de Frank Belknap Long.
   Mi-Go (“The Whisperer in Darkness”).
 Great Race  (“The Shadow Out of Time”).
 Ghouls  (“Pickman’s Model”
   Deep Ones  (“The Shadow Over Innsmouth”).
    Dagon  (“Dagon”, “The Shadow Over Innsmouth”).
  Cthulhu

 (“The Call of Cthulhu”).

 

Nas palavras do próprio Lovecraft sobre os Mitos de Cthulhu, ” basea-se na idéia central de que o nosso mundo foi povoado por outras raças que, por praticar magia negra, perderam suas conquistas e foram expulsos, mas vivem num lugar exterior, dispostos a todo o momento a voltar e se apoderar da Terra”.  Muitas vezes confundidos com deuses menores, os great old ones são provavelmente seres vivos incrivelmente poderosos, com ciclos de vida espantosamente longos. Especula-se sobre se pertencerão todos a uma ou várias raças cujos elementos se encontram dispersos pelo universo. A variedade do seu aspecto parece excluir a possibilidade de pertencerem todos à mesma raça. Os seus propósitos são mais compreensíveis do que os dos deuses exteriores, estando interessados em colonizar planetas. É freqüente um great old one liderar um povo de uma raça menos poderosa. Na terra existem cultos dispersos a vários destes seres, principalmente Cthulhu.O necronomicon, ou livro dos mortos, nos conta a existência dos “Grandes Antigos”, entidades vindas do espaço que dominaram a Terra primordial,  muito antes da existência dos seres humanos. Essas entidades foram derrotadas pelos outros deuses mais antigos chamado por Derleth de “Deuses Arquépticos” e foram expulsos do planeta Terra.

 

Existem seis “Grandes Antigos”:

  • Azathoth: Origem do nome:do árabe Izzu Tahuti, que significa “poder de Tahuti”, provavelmente uma alusão à divindade egípcia Thoth. Azathoth é o “Sultão Demoníaco”, o mais importante dos deuses exteriores. Fisicamente é uma massa gigantesca e amorfa de caos nuclear, sendo incrivelmente poderoso mas completamente desprovido de inteligência. A sua “alma” é Nyarlathotep, o mensageiro dos deuses. Azathoth passa a maior parte do tempo no centro do universo, dançando ao som de deuses menores flautistas. A maior parte das suas aparições em locais diferentes deste estão relacionadas com catástrofes gigantescas, como é o caso da destruição do quinto planeta do sistema solar, que é hoje o cinturão de asteróides.
  • Nyarlathotep: Origem do nome: do egípcio Ny Har Rut Hotep, que significa “não existe paz na passagem”. Nyarlathothep é a alma e o mensageiro dos deuses exteriores. É o único deles que tem vindo a travar contatos com a humanidade, mas os seus objetivos são imperscrutáveis. Possui um inteligência inimaginável e um sentido de humor mórbido. Consegue adotar centenas de formas físicas distintas, podendo parecer um homem vulgar ou uma monstruosidade gigantesca. Especula-se que um faraó obscuro da IV Dinastia do Egito dinástico fosse Nyarlathotep “em pessoa”. A própria esfinge seria uma representação em tamanho natural de uma outra forma de Nyarlathotep. Foi o único que, com suas astúcia, escapou do castigo general, e conspira para o retorno dos seus companheiros.
  • Cthulhu: Origem do nome: Deterioração pelos gregos da palavra árabe Khadhulu, que significa “aquele que abandona”. No Alcorão existe a seguinte passagem: 25:29 – “Para a Humanidade Satan é Khadulu”. O mais conhecido dos great old ones e das criações de Lovecraft, Cthulhu é um ser gigantesco e vagamente humanóide, com asas e tentáculos de polvo na boca. Chegou à terra milhões de anos antes do aparecimento do homem e povoou-a com a sua raça de deep ones, seres humanóides anfíbios. Construiu a gigantesca cidade de R’lyeh onde é hoje o oceano pacífico. Daí comandou o seu império, até ao dia em que as estrelas atingiram um alinhamento que o obrigou a entrar em letargia. Cthulhu dorme na sua cidade entretanto submersa por água, aguardando o dia em que a posição das estrelas lhe permita voltar à vida e de novo reinar sobre a Terra. Cthulhu é capaz de comunicar por sonhos enquanto dorme, influenciando alguns seres humanos mais sensíveis durante o sono. Diversos cultos tentam apressar o seu regresso, mas ele próprio não parece ter muita pressa. Especula-se que esta longa hibernação seja uma característica normal do seu estranho ciclo biológico.

 

  • Yog-sothot: é o veículo do caos, a manifestação exterior do caos primitivo.
  • Hastur: a manifestação da voz a força do caos.
  • Shub-niggurath: é o único com representação definida e humanamente acessível, é o poder dos “Grandes Antigos” manifestado na esfera terrestre, vulgarmente o deus das feiticeiras nos sabás.

Fora isto em nosso planeta e em outras dimensões do espaço-tempo existem espécies de monstros associados a isto e grupos de adoradores humanos cujo propósitos é despertar a estes entes extraterrestre. Três destas raças são os Cachorros de Tindalos, os necrófagos de Ghouls e os adoradores de Dagon na cidade de Innsmouth.

 

Outros elementos presentes na mitologia:

 

Necronomicon

 

Constituindo uma verdadeira “bíblia” dos mitos, o necronomicon foi originalmente escrito por Abdul Alhazared um árabe louco e visionário de cuja vida pouco se sabe, exceto que terá visitado alguns dos lugares mais desolados do globo terrestre. Escrito originalmente em árabe, o necronomicon foi mais tarde traduzido para grego (onde ganhou o seu nome atual), latim e inglês. Na atualidade não existirão mais do que duas ou três cópias deste livro, citando a “História do Necronomicon”: “…dos textos latinos agora existe um (século XV) está guardado no Museu Britânico, enquanto outra cópia (século XVII) está na Biblioteca Nacional de Paris. Uma edição do século XVII está na Widener Library em Harvard, e na Biblioteca da Universidade de Miskatonic em Arkham. Além disto na Biblioteca da Universidade de Buenos Aires. Numerosas outras cópias provavelmente existem em segredo, e uma do século XV existe um rumor persistente que forma parte da coleção de um célebre milionário norte americano”. Revelando alguns dos mais terríveis segredos dos mitos, a sua leitura provoca graves perdas de sanidade mental a quem alguns que o lêem. Lovecraft embora afirmou, por carta, certa vez que criou o necronomicon baseado em um sonho que teve, acredita-se que ele se inspirou no Liber Logaeth, o grimório real do Dr. John Dee.

Estes grimório não existe e nunca existiu e as descrições acerca do mesmo são de autoria de Lovecraft, o verdadeiro idealizador do necronomicon. O necronomicon nem como um livro cem por cento escrito foi criado por Lovecraft, pois o mesmo dizia ser o mesmo desconhecido. Com a morte de Lovecraft a coisa ganhou tal proporção que muitos forjaram cópias na internet de versões falsas do necronomicon algumas mais complexas outras menos e que em nada acrescenta de útil. É até engraçado algumas, certa vez li uma famosa que dizia a despeito de uma ligação do ocultista Aleister Crowley e Lovecraft – pode isto? Os contos que citam o necronomicon (e são muitos) constituem uma das partes mais interessantes da mitologia. Tem até um filme muito bom, baseado nos trabalhos de Lovecraft que recomendo sobre o tal livro que é o filme “Uma Noite Alucinante” (no E.U.A como “Evil Dead 2”), prefiram assistir a parte 2 que nada mais é do que uma refilmagem. Este filme conta a história de um grupo de jovens que vai acampar numa cabana no meio da floresta e lá encontram o necronomicon e ao ligarem um gravador com onde estava gravado passagens do livro, libertam espíritos malignos da floresta. Pode-se encontrar muito informação sobre o necronomicon no conto: “Os Sonhos na Casa Assombrada” e “O Horror de Dunwich” entre tantos outros. Esclarecendo novamente (em vista da confusão presente na web): o necronomicon nunca existiu como livro, o mesmo para a mitologia lovecraftiana, que como o necronomicon pertencem ao mundo da fantasia e nada mais! Fora este livro imaginário também existiam outro como The King in Yellow.

Arkham

Trata-se de uma pequena cidade universitária perto de Boston, na Nova Inglaterra. Atravessada pelo rio Miskatonic, é nela que vivem muitos dos heróis das histórias de Lovecraft. Aliás, a Universidade de Miskatonic é palco de muitas de suas aventuras. Fundada por pioneiros ingleses da colonização do continente americano, Arkham é assombrada pelas memórias do tempo das bruxas e dos ritos sombrios. Alguns dos sótãos desta cidade ocultam ainda hoje segredos terríveis.

Yuggoth

 

Ainda antes da descoberta oficial de Plutão, o último planeta do sistema solar, já Lovecraft escrevia sobre Yuggoth, um pequeno planeta sólido com a sua órbita exterior à de Neptuno. Yuggoth é a terra natal de uma raça de criaturas terríveis, os Fungos de Yuggoth, que são seres insectóides da dimensão de um homem com a capacidade de voar através do vácuo inter-planetário, e donos de uma tecnologia incrivelmente avançada. Os Fungos de Yuggoth vagueiam por todo o sistema solar, incluindo a Terra, com propósitos desconhecidos.

 

A impossibilidade de uma definição

Existe bastante polemica sobre se os Mitos de Cthulhu podem ser considerados uma verdadeira mitologia, ou mesmo uma pseudo-mitologia. Tendo todas as características de uma qualquer outra mitologia, desde um panteão de deuses a um conjunto de lendas (os contos de Lovecraft e outros), foram criados de uma forma perfeitamente artificial e intencional por um conjunto restrito de escritores. Não tiveram a sua gênese nas tradições e crenças de uma civilização, como seria normal numa mitologia. As obras desta mitologia fazem constantemente referências a elementos presente em outros livros, por isto é muito comum vermos termos como: Arkham (a principal cidade-palco de suas histórias), Universidade de Mistakatonic, a vila mal assombrada de Innsmouth, e outras coisas mais presentes em muitas de suas histórias.

August Derleth, autêntico embaixador da obra de Lovecraft e defensor da idéia de considerar os Mitos de Cthulhu uma mitologia, tentou de certa forma a sua sistematização. Procurou determinar que contos de Lovecraft e outros pertenciam aos mitos, e esclarecer aspectos focados de uma forma vaga e imprecisa nessas histórias. Chegou a pretender associar algumas entidades dos mitos com os quatro elementos naturais: ar, água, terra e fogo.

Lin Carter, no seu ensaio “Deamon-Dreaded Lore”, considera que este tipo de sistematização é negativa na medida em que faz desaparecer o fator que considera mais importante nas histórias de Lovecraft: o medo do desconhecido e do incompreensível. Na sua opinião Lovecraft descreve de forma vaga muitos aspectos dos mitos propositadamente, para criar uma aura de mistério e tensão. Os contos de Lovecraft abordam freqüentemente o confronto de seres humanos com realidades e desígnios totalmente alienígenas, e que não para eles compreensíveis.

De forma um pouco marginal ao núcleo central do seu trabalho, e sob a influência de Lord Dunsany, Lovecraft escreveu algumas histórias oníricas, passadas numa dimensão de sonhos, as dreamlands. A história central deste ciclo é “À Procura de Kadath” e narra as aventuras de Randolph Carter (alter-ego de Lovecraft e seu grande personagens de muitos trabalhos), um homem que quando sonha se vê transportado para um outro plano de existência, semelhante a uma terra medieval povoada de criaturas fantásticas. As dreamlands são aparentemente um lugar de paz e tranqüilidade, habitado por criaturas próprias do imaginário infantil. Este sonho pode por vezes transformar-se em pesadelo, dando lugar aos mais horríveis monstros e criaturas. Embora de uma forma dispersa, Lovecraft estabelece algumas relações entre estas dreamlands e o corpo central dos mitos.

Alguns contos de Lovecraft definitivamente não fazem parte dos mitos como por exemplo “A Arvore” e “Os Gatos de Ulthar”, mas que não deixam de forma algum de ter um excelente qualidade.

Existem ainda alguns paralelismos que podem ser traçados entre a vida de Lovecraft e alguns aspetos dos mitos. Desde muito pequeno que Lovecraft gostava de ler as “Mil e Uma Noites”, fascinando-o especialmente um personagem árabe misterioso. A analogia com o necronomicon e Abdul Alhazared é inevitável, tanto que era por este nome que ele gostava de ser chamado quando criança. A sua repulsa por peixe e comida marinha faz lembrar “A Sombra sobre Innsmouth”, onde a decadente população da cidade pesqueira de Innsmouth tem estranhas relações com os deep ones, anfíbios humanóides que imitem um repugnante odor a peixe. Falando nisto tem um filme muito interessante sobre Lovecraft que se chama “Dagon” ele é baseado no conto de mesmo nome e na “A Sombra… é um dos poucos filmes bons do mestre dando um boa idéia dos mitos (Necronomicon, Dagon, Re-Animator, Evil Dead 2, pra mim são os melhores filmes, mas existem outros – inclusive porcarias), este e tantos outros é fácil baixar no e-mule ou em qualquer programas de p2p na web e depois é só baixar as legendas em sites especializados. Voltando… Lovecraft é atormentado por sonhos desde pequeno, e a sua mais famosa criação, Cthulhu, tem a capacidade de influenciar os sonhos dos humanos. Além disto temos ainda um ciclo inteiro de histórias dedicadas às suas terras de sonhos, as dreamlands. Também é notório a influencia que exerceu Lord Dunsany com sua mitologia fantástica e também William Hope Hodgson e suas aventuras marinhas.

O fim do Círculo de Lovecraft

 

Os vários autores dos mitos seguiam um acordo tácito de criar nas suas histórias um ou dois deuses exteriores, um great old one, um tomo arcano e uma cidade assombrada por cultos obscuros e lendas sombrias. Com pequenas variações, os diversos elementos do círculo cumpriam as “regras do jogo” ao escrever para os Mitos de Cthulhu.

Era muito freqüente os membros do círculo “brincarem” uns com os outros colocando referências a outros autores dos mitos de uma forma mais ou menos explícita nas suas histórias. Em 1935 Robert Bloch pediu autorização a Lovecraft para o utilizar como personagem principal num conto. Lovecraft concorda e Bloch torna-o o herói em “O Bamboleiro das Estrelas”, matando-o no fim da história às mãos de um monstro alienígena. Lovecraft obtém a sua vingança “matando” Robert Blake, um alter-ego de Bloch em “O Caçador do Escuro”. O autor do tomo “Cultes des Goules” imaginado por Bloch, Comte D’Erlette, é uma alusão clara a August Derleth. O nome Klarkash-Ton, de alto-sacerdote da Atlântida num conto de Lovecraft, constitui uma paródia a Clark Ashton Smith. Vários outros exemplos poderiam ser citados…

Edmund Wilson criticou e ridicularizou mesmo Lovecraft por este usar muita adjetivação na sua escrita. Era considerado que um bom conto de ficção não deveria socorrer-se de muita adjetivação, mas que os próprios acontecimentos e descrições é que deviam sugestionar o leitor. Se uma visão é horrível, o próprio leitor deveria aperceber-se disso, nunca deveria explicitamente ser dito: “a visão é horrível”. O que é fato é que tanto Lovecraft como diversos dos seus seguidores mantiveram sempre o uso de adjetivação muito rica, o que se tornou uma característica distintiva dos contos dos mitos. Em sua defesa Robert Price considera que estes adjetivos podem ter um efeito quase hipnótico no leitor, despertando a sua própria noção dos conceitos que encerram e inflamando a sua imaginação.

A morte de Lovecraft constituiu um choque para os elementos do círculo, assim como uma surpresa, visto que este não lhes tinha dado qualquer indicação na sua correspondência de que estivesse doente. Este acontecimento causou uma quebra temporária no trabalho relacionado com os mitos. Citando Robert Bloch, “o jogo tinha perdido toda a piada”. Nos anos 40 e 50, Robert Bloch, James Wade e August Derleth continuaram a escrever histórias dos mitos. Em 1964 Ramsey Campbell, um jovem escritor britânico, dá a sua contribuição com o apoio de Derleth. Em 1971 ainda outro britânico, Brian Lumley, junta-se ao grupo. O círculo não morrera verdadeiramente com Lovecraft, subsistindo de uma forma dispersa até aos dias de hoje.

Fonte: www.sitelovecraft.cjb.net

Denilson, sitelovecraft.cjb.net

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/mitos-de-cthulhu/

O Que John Dee Viu No Espelho Negro?

John Dee realmente existiu. Nasceu em 1527 e morreu em 1608. Sua vida foi tão extraordinária que foram os romancistas que melhor o descreveram em obras de imaginação do que a maior parte de seus biógrafos. Estes romancistas são Jean Ray e Gustav Meyrink. Matemático distinto, especialista nos clássicos, John Dee inventou a idéia de um meridiano de base: o meridiano de Greenwich. Levou à Inglaterra, tendo-os encontrado em Louvain, dois globos terrestres de Mercator, assim como instrumentos de navegação. E foi assim o início da expansão marítima da Inglaterra.

Pode-se dizer, dessa forma – não participo dessa opinião – que John Dee foi o primeiro a fazer espionagem industrial, pois levou à Inglaterra, por conta da Rainha Elizabeth, quantidade enorme de segredos de navegação e fabricação. Foi certamente um cientista de primeira ordem, ao mesmo tempo que um especialista dos clássicos, e manifesta a transição entre duas culturas que, no século XVI, não eram, talvez, tão separadas como o são agora.

Foi também muitas outras coisas, como veremos. No curso de seus brilhantes estudos em Cambridge, pôs-se, infelizmente para ele, a construir robôs entre os quais um escaravelho mecânico que soltou durante uma representação teatral e que causou pânico. Expulso de Cambridge por feitiçaria, em 1547, foi para Louvain. Lá, ligou-se a Mercator. Tornou-se astrólogo e ganhou a vida fazendo horóscopos, depois foi preso por conspiração mágica contra a vida da Rainha Mary Tudor. Mais tarde, Elizabeth libertou-o da prisão e o encarregou de missões misteriosas no continente.

Escreveu-se com freqüência que sua paixão aparente pela magia e feitiçaria seriam uma “cobertura” à sua verdadeira profissão: espião. Não estou totalmente convencido disto.

Em 1563, numa livraria de Anvers, encontrou um manuscrito, provavelmente incompleto, da Steganographie de Trithème. Ele a completou e pareceu ter chegado a um método quase tão eficaz quanto o de Trithème.

Publicando a primeira tradução inglesa de Euclides, e estudando para o exército inglês a utilização de telescópios e lunetas, continuou suas pesquisas sobre a Steganographie. E em 25 de maio de 1581, elas superaram todas as suas esperanças.

Um ser sobre-humano, ou ao menos não-humano, envolto em luz, apareceu-lhe. John Dee chamou o anjo, para simplificar. Esse anjo deixou-lhe um espelho negro que existe ainda no Museu Britânico. É um pedaço de antracite extremamente bem polido. O anjo lhe disse que olhando naquele cristal veria outros mundos e poderia ter contato com outras inteligências não-humanas, idéia singularmente moderna. Anotou as conversações que teve com seres não-humanos e um certo número foi publicado em 1659 por Meric Casaubon, sob o título “A true and faithfull relation of what passed between Dr. John Dee and some spirits”.

Um certo número de outras conversações é inédito e os manuscritos se encontram no Museu Britânico.

A maior parte das notas tomadas por John Dee e dos livros que preparava, foram, como veremos, destruídos. Entretanto, restam-nos suficientes elementos para que possamos reconstituir a língua que esses seres falavam, e que Dee chamou a Língua Enochiana.

É a primeira linguagem sintética, a primeira língua não-humana de que se tem conhecimento. É, em todo caso, uma língua completa que possui um alfabeto e uma gramática. Entre todos os textos em língua enochiana que nos restam, alguns concernem à ciência matemática mais avançada do que ela estava no tempo de John Dee.

A língua enochiana foi a base da doutrina secreta da famosa sociedade Golden Dawn, no fim do século XIX.

Dee percebeu logo que não poderia lembrar-se das conversações que tinha com os visitantes estrangeiros. Nenhum mecanismo para registrar a palavra existia. Se dispusesse de um fonógrafo ou de um magnetóide, o seu destino, e talvez o do mundo, estariam mudados.

Infelizmente, Dee teve uma idéia que o levou a perder-se. Entretanto, tal idéia era perfeitamente racional: encontrar alguém que olhasse o espelho mágico e mantivesse conversações com os extraterrestres, enquanto ele tomaria nota das conversas. Em princípio, tal idéia era muito simples. Infelizmente, os dois visionários que Dee recrutou, Barnabas Saul e Edward Talbot, revelaram-se como grandes canalhas. Desvencilhou-se rapidamente de Saul, que parecia ser espião a soldo de seus inimigos. Talbot, ao contrário, que trocou seu nome pelo de Kelly, agarrou-se. E agarrou-se tanto que arruinou Dee, seduziu sua mulher, levou-o a percorrer a Europa, sob o pretexto de fazer dele um alquimista, e acabou por estragar sua vida. Dee morreu, finalmente, em 1608, arruinado e completamente desacreditado. O Rei James I, que sucedera a Elizabeth, recusou-lhe uma pensão e ele morreu na miséria. A única consolação que se pode ter é de pensar que Talbott, aliás, Kelly, morreu em fevereiro de 1595, tentando escapar da prisão de Praga. Como era muito grande e gordo, a corda que confeccionara rompeu-se e ele quebrou os braços e as pernas. Um justo fim a um dos mais sinistros crápulas que a história conheceu.

Apesar da proteção de Elizabeth, Dee continuou a ser perseguido, seus manuscritos foram roubados assim como uma grande parte de suas anotações.

Se estava na miséria, temos que reconhecer que parcialmente a merecera. Com efeito, após ter explicado à Rainha Elizabeth da Inglaterra que era alquimista, solicitara um amparo financeiro. Elizabeth da Inglaterra disse-lhe, muito judiciosamente, que se ele sabia fazer o ouro, não precisava de subvenções, pois teria suas próprias. Finalmente, John Dee foi obrigado a vender sua imensa biblioteca para viver e, de certo modo, morreu de fome.

A história reteve sobretudo os inverossímeis episódios de suas aventuras com Kelly, que são evidentemente pitorescos. Vimos aparecer aí, pela primeira vez, a troca de mulheres que, atualmente, é tão popular nos Estados Unidos.

Mas essa estatuária de Epinal obscureceu o verdadeiro problema, que é o da língua enoquiana, a dos livros de John Dee que nunca chegaram a ser publicados.

Jacques Sadoul, em sua obra “O Tesouro dos Alquimistas”, conta muito bem parte propriamente alquimista das aventuras do Dr. Dee e de Kelly. Recomendo-a ao leitor.

Voltemos à linguagem enoquiana e ao que se seguiu. E falemos primeiro da perseguição que se abateu sobre John Dee, desde que começou a dar a entender que publicaria suas entrevistas com “anos” não-humanos. Em 1597, em sua ausência, desconhecidos excitaram a multidão a atacar sua casa. Quatro mil obras raras e cinco manuscritos desapareceram definitivamente, e numerosas notas foram queimadas. Depois a perseguição continuou, apesar da proteção da Rainha da Inglaterra. Foi, finalmente, um homem alquebrado, desacreditado, como o seria mais tarde Madame Blavatsky, que morreu aos 81 anos de idade. Em 1608, em Mortlake. Uma vez mais a conspiração dos Homens de Preto parece ter vencido.

A excelente enciclopédia inglesa Man, Mith and Magic observou muito oportunamente em seu artigo sobre John Dee: “Apesar de os documentos sobre a vida de John Dee serem abundantes, fez-se pouca coisa para explicá-lo e interpretá-lo. Isto é verdadeiro.

Ao contrário, as calúnias contra Dee não faltam. Nas épocas de superstição afirmava-se que ele faria magia negra. Em nossa época racionalista pretendeu-se que seria um espião, que fazia alquimia e magia negra para camuflar suas verdadeiras atividades. Tal tese é notadamente a da enciclopédia inglesa que citamos acima.

Entretanto, quando examinamos os fatos, vemos primeiro um homem bem dotado, capaz de trabalhar 22 horas ao dia, leitor rápido, matemático de primeira ordem. Ademais, ele construiu autômatos, foi um especialista de óptica e de suas aplicações militares, da química.

Que foi ingênuo e crédulo, é possível. A história de Kelly o mostra. Mas que fez uma importante descoberta, a mais importante, talvez, da história da humanidade, não está totalmente excluso. Parece-me possível contudo, que Dee tenha tomado contato, por telepatia ou clarividência, ou outro meio parapsicológico, com seres não-humanos. Era natural, dada a mentalidade da época, que ele atribuísse a esses seres uma origem Angélica, em vez de fazê-los vir de outro planeta ou de outra dimensão. Mas comunicou-se bastante com eles para aprender uma língua não-humana.

A idéia de inventar uma língua inteiramente nova não pertencia à época de John Dee e nem de sua mentalidade. Foi muito depois que Wilkins inventou a primeira linguagem sintética. A linguagem enoquiana é completa e não se parece com nenhuma língua humana.

É possível, evidentemente, que Dee a tenha tirado integralmente de seu subconsciente ou inconsciente coletivo, mas tal hipótese é tão fantástica quanto a da comunicação com seres extraterrestres. Infelizmente, a partir da intervenção de Kelly, as conversações estão visivelmente truncadas. Kelly inventa-as e faz dizer aos anjos ou espíritos o que lhe convinha. E do ponto de vista de inteligência e imaginação, Kelly era pouco dotado. Possui-se notas sobre uma conversação onde pede a um dos “espíritos” cem libras esterlinas durante quinze dias.

Antes de conhecer Kelly, entretanto, Dee publicara um livro estranho: A Mônada Hieroglífica. Trabalhou nesse livro sete anos, mas após ter lido a Steganographie, terminou-o em doze dias. Um homem de Estado contemporâneo, Sir William Cecil, declarou que: “os segredos que se encontram na Mônada Hieroglífica são da maior importância para a segurança do reino.”

Certamente, quer-se ligar tais segredos à criptolografia, o que é bastante provável. Mas quando se quer relacionar tudo em John Dee com a hipótese de espionagem, isto me parece excessivo, pois os alquimistas e os magos utilizavam muito a criptografia, sob as formas mais complexas que não eram usadas pelos espiões. Tenho tendência a tomar Dee ao pé da letra e pensar que, por auto-hipnose produzida pelo seu espelho, ou por outras formas, ele ultrapassou uma barreira entre os planetas ou entre outras dimensões.

Por desgraça, ele era, por própria confissão, desprovido de todos os dons paranormais. Foi mal aceito pelos “médiuns” e isto terminou em desastre.

Desastre aliás provocado, explorado, multiplicado pelos “Superiores” que não queriam que ele publicasse às claras o que disse em código na Mônada Hieroglífica. A perseguição de Dee começou em 1587 e só parou com sua morte. Exerceu-se aliás também no continente, onde o rei da Polônia e o Imperador Rodolfo II foram advertidos contra Dee por mensagens “vindas dos espíritos”, e onde, a 6 de maio de 1586, o número apostólico entregou ao imperador um documento acusando John Dee de necromancia.

Foi um homem acovardado que chegou à Inglaterra, renunciando a publicar, e que morreu como reitor do Colégio de Cristo, em Manchester, posto que teve de 1595 à 1605, e que, ao que parece, não lhe deu satisfação.

Resta ainda, a respeito desse posto, uma problema não resolvido. Na mesma época o tzar da Rússia convidou John Dee para ir até Moscow, a título de conselheiro científico. Ele deveria receber um salário de duas mil livras esterlinas ao ano, quantia alta correspondente a um pouco mais de duzentas mil libras hoje, com moradia principesca e uma situação, que, de acordo com a carta do tzar, “faria dele um dos homens mais importantes da Rússia”. Entretanto, John Dee recusou. Elizabeth da Inglaterra teria se oposto? Teria ele recebido ameaças?

Não se sabe, os documentos são vagos. Em todo caso, as diversas calúnias segundo as quais Dee, completamente dominado por Kelly, percorrera o continente espoliando príncipes e ricos, uns após outros, perdem sua razão de ser quando se considera essa recusa. Talvez temesse que o tzar o obrigasse a empregar segredos que havia descoberto e tornasse, assim, a Rússia dominadora do mundo.

O que quer que seja, Dee se apresenta a nós como um homem que recebeu visitas de seres não-humanos, que aprendeu sua linguagem e procurou estabelecer com eles uma comunicação regular. O caso é único, sobretudo quando se trata de um homem do valor intelectual de John Dee.

Infelizmente, não se pode deduzir nada, a partir do que Dee nos deixou, do lugar onde habitariam tais seres, ou a natureza psíquica deles. Disse, simplesmente, que são telepatas e que podem viajar no passado e no futuro. É a primeira vez, que eu saiba, que aparece a idéia de viajar no tempo.

Dee esperava aprender desses seres tudo sobre as leis naturais, tudo sobre o desenvolvimento futuro da matemática. Não se tratava nem de necromancia nem de espiritualidade. Dee tinha a posição de um sábio que queria aprender segredos de natureza essencialmente científica. Ele mesmo descreve-se, a todo instante, como filósofo matemático.

A maior parte das notas desapareceu no incêndio de sua casa, outras foram destruídas em outras oportunidades e por pessoas diferentes. Restam-nos algumas alusões contidas em “A verdadeira relação de Casaubon”, e em certas notas que ainda existem. Tais indicações são extremamente curiosas. Dee afirma que a projeção de Mercator não é senão uma primeira aproximação. Segundo ele, a Terra não é exatamente redonda, e seria composta de várias esferas superpostas alinhadas ao longo de uma outra dimensão.

Entre essas esferas haveria pontos, ou antes, superfícies de comunicação, e assim é que a Groenlândia se estende ao infinito sobre outras terras além da nossa. Por isso, insiste Dee nas várias súplicas à Rainha Elizabeth, seria bom que a Inglaterra se apoderasse da Groenlândia de maneira a ter em suas mãos a porta para outros mundos.

Outra indicação: as matemáticas não estão senão no começo e pode-se ir além de Euclides, que Dee, lembramos, foi o primeiro a traduzir para o inglês. Dee teve razão ao afirmar isso, e as geometrias não-euclidianas que apareceriam mais tarde, confirmam seu ponto de vista.

É possível, diz igualmente Dee, construir máquinas totalmente automáticas que fariam todo o trabalho do homem. Isto, acrescenta, já foi realizado por volta de 1585 – gostaríamos muito de saber onde.

Insiste, igualmente, na importância dos números e na considerável dificuldade da aritmética superior. Uma vez mais, teve razão. A teoria dos números revelou-se como sendo o ramo mais difícil das matemáticas, bem mais que a álgebra ou a geometria.

É muito importante, notou John Dee, estudar os sonhos que revelam, ao mesmo tempo, nosso mundo interior e mundos exteriores. Esta visão, à moda de Jung, é muito avançada para a sua época. É essencial, notava ainda, esconder da massa segredos que possam ser extremamente perigosos. Encontra-se, ainda aí, uma idéia moderna. Como se encontra outra com relação a esse tema no jornal particular de Dee: saber que se pode tirar do conhecimento da natureza poderes perfeitamente naturais e ilimitados, mas que é necessário empregar muito dinheiro nessa pesquisa.

Foi para ter esse dinheiro que procurou a proteção dos grandes, e a fabricação do ouro. Nenhuma nem outra foram conseguidas. Se pudesse encontrar um mecenas, o mundo estaria bem mudado.

Entre todos os que encontrou, conheceu William Shakespeare (1564-1616)? Creio que sim. Um certo número de críticos shakespereanos estão acordes ao admitir que John Dee é o modelo do personagem Próspero, em “Tempestade”. Ao contrário, não se encontrou, ainda, que eu saiba, anti-shakespereanos bastante loucos para imaginar ser John Dee o autor das obras de Shakespeare. Entretanto, Dee me parece ser melhor candidato a esse título que Francis Bacon.

Não posso resistir ao prazer de citar esta teoria do humorista inglês A. A. Milne. Segundo ele, Shakespeare escreveu não só suas próprias obras como também o Novum Organum para o Conde de Francis Bacon, que era completamente iletrado! Tal teoria levantou em ira os baconianos, isto é, aqueles que pretendem ter sido Francis Bacon o autor das obras de Shakespeare.

Passando para outra lenda, John Dee jamais traduziu o livro maldito Necronomicon, de Abdul Al-Azred, pela simples razão que tal obra jamais existiu. Mas, como bem disse Lin Carter, se o Necronomicon tivesse existido, Dee seria, evidentemente, o único homem a poder encontrá-lo e traduzi-lo!

Infelizmente, esse Necronomicon foi inventado inteiramente por Lovecraft, que me confirmou esse fato por carta. Que lástima!

A pedra negra, vinda de outro universo, após ter sido recolhida pelo Conde de Peterborough, depois por Horace Walpole, encontra-se, agora, no Museu Britânico. Este não autoriza, nem que se possa usá-la, nem que se faça nela qualquer tipo de análise. Isto é lamentável. Mas se as análises do carvão de que é feita essa pedra dessem um composto isótopo que não o do carvão da Terra, provando que essa pedra teria origem fora dela, todo mundo ficaria fortemente embaraçado.

A Mônada Hieroglífica de Dee pode ser encontrada ou obtida por fotocópia. Mas sem as chaves que correspondem aos diversos códigos da obra, e sem os outros manuscritos de John Dee queimados em Mortlake ou destruídos sob as ordens de James I, ela não pode servir para grande coisa. Entretanto, a história do Dr. John Dee não acabou e dois capítulos ser-me-ão necessários para continuá-la.

por Jacques Bergier

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-que-john-dee-viu-no-espelho-negro/

As roupas de Galvah e o sistema ‘156’

Amodali
3 de maio de 2016

Este é o terceiro e último de uma série de artigos que resume o material apresentado em palestras públicas desde 2013 e discute um ensaio relacionado que foi publicado como parte da antologia da Three Hands Press, ‘A Rose Veiled in Black’. As palestras no Reino Unido e nos EUA introduziram alguns dos conceitos fundamentais do Sistema ‘156’, uma prática que vem sendo desenvolvida desde a década de 1980. Esclarecimentos adicionais sobre o núcleo ‘Enochiano/Angélico’ interno do sistema e a anatomia oculta do ‘Corpo de Babalon’ foram apresentados na Antologia THP no início deste ano. O sistema ‘156’ representa uma abordagem um tanto controversa da magia de Babalon, desafiando e oferecendo interpretações alternativas para muitas das definições estruturais e epistêmicas estabelecidas da corrente. De evidente importância dentro deste novo modelo é uma rigorosa re-teorização e expressão do corpo feminino vivido em relação às práticas de magia sexual e a integração coesa dos espíritos enoquianos femininos no sistema. Os espíritos femininos do sistema Angélico/Enochiano documentados nos diários de John Dee são de profunda importância para a compreensão das raízes da corrente 156. Mas, que eu saiba, houve muito pouca investigação mágica dessas inteligências até agora. Este artigo fornece alguns antecedentes sobre o desenvolvimento da prática que serão descritos em detalhes na próxima publicação. ‘As Marcas de Teth’.

O SISTEMA ‘156’

“…Mas este mistério ultrapassa o discurso. A mente cambaleia e o intelecto é ferido frente a ideia de Mulher, e a mãe escura de quem ela é a sombra brilhante.” – A Estrela de Babalon. J.Parsons

O sistema ‘156’ começou a tomar forma na segunda metade da década de 1980 em conjunto com uma prática que teve uma trajetória muito singular, bastante em desacordo com as percepções ainda predominantes de Babalon que definem o papel da Mulher Escarlate como uma ‘musa mágica ‘ e equivalente thelêmico do tântrico ‘kama mudra’, ou seja, incorporando uma função ‘lunar’ predominantemente passiva em relação ao princípio masculino, solar-fálico, das fórmulas de polaridade heterossexual. A tradição tifoniana de Grant atribuía uma atuação muito maior às mulheres, embora dentro da dinâmica ritual de suas fórmulas, a esfera de influência feminina ainda fosse percebida como emanada de uma consciência predominantemente lunar por meio de seu foco no sistema tântrico dos ‘Kalas’. No entanto, minhas experiências me levaram a entender que a corrente era muito mais complexa do que retratada no material de referência padrão da época e que Babalon representava um arcano mágico altamente sofisticado que produz formas muito específicas de gnose mágica sexual.

A corrente 156 ocupa um território muito inexplorado, preocupando-se principalmente com as práticas femininas incorporadas e a manifestação de novas fórmulas de sexualidade evolutiva. Durante os primeiros anos, experimentei alguns encontros incrivelmente desafiadores e voláteis com Babalon e muitas vezes fui deixada à deriva, submersa em estados altamente dramáticos e turbulentos de transe e obsessão. A intensidade de tais experiências pode levar alguém aos limites da sanidade, mas na época havia pouco em termos de orientação além da presença da própria Babalon. Babalon deixou claro que eu estava sozinha e que eu tinha que aprender a lidar com suas energias através de trabalhos solitários com ela, por meio de uma forma eroticamente sobrecarregada de transe e comunhão corporal. Ao longo dos anos, descobri que, quando me desviei de seu mandato, as consequências foram dramáticas e muitas vezes terríveis.

Depois de décadas de trabalho, agora entendo por que havia parâmetros tão rígidos em torno da prática. O processo de cultivo interior e diálogo com Babalon não é uma restrição à atividade sexual, ao contrário, tem haver com a forma como a pessoa orienta e canaliza as energias dentro do 156. No entanto, como o processo em si está inicialmente preocupado em criar um corpo mágico totalmente ativado e a reconstrução radical da anatomia sutil de uma pessoa, fica claro que engajar-se em trabalhos ortodoxos de polaridade heterossexual pode sabotar completamente esse processo e negar o desenvolvimento das fórmulas femininas adeptas da corrente 156. Era, portanto, de primordial importância que o corpo mágico fosse primeiro cristalizado para permitir que se agisse com plena ação dentro da corrente. Havia pouca referência a ser encontrada que apoiasse minhas aspirações a uma prática focada exclusivamente em Babalon como uma inteligência mágica por direito próprio, e então comecei uma jornada muito longa e solitária, na qual comecei a escavar a anatomia oculta de seus mistérios e como alguém pode se envolver com eles dentro de uma prática progressiva. Devo deixar claro que não sou contra os ritos heterossexuais, muito pelo contrário, mas sinto que essas fórmulas sexuais precisam ser reformadas e alinhadas totalmente com o 156.

O processo tem sido longo e desafiador, pois é preciso romper muitas camadas de ofuscação, muitas das quais desconhecemos até tentar penetrar e avaliar a dinâmica mais sutil e mágica da corrente. O conceito de uma sexualidade mágica feminina preeminente, iniciática, foi sabotado com sucesso em todos os níveis, particularmente no Ocidente, por muitas barreiras metafísicas, filosóficas e teológicas complexas, tabu sexual e a supressão aberta dos direitos das mulheres de liberdade e autonomia. A falta de um sistema coeso tem sido um problema espinhoso que impediu o progresso da magia de Babalon, mas a dificuldade em articular uma prática viável não é surpreendente e está em proporção direta ao peso esmagador da história que se opõe à sua formulação. A palavra “sistema” é um termo bastante desapaixonado e insubstancial que é completamente inadequado para transmitir as práticas de incorporação incendiárias de 156, mas eu a uso por algumas razões bem consideradas. As praticas 156 são baseadas na negociação de estados de posse direta que parecem desafiar qualquer tipo de ‘organização’ e, como já descrito, a presença de Babalon quando experimentada no corpo é totalmente esmagadora e desafiadora em todos os níveis e não pode ser sustentada por nenhum período. de tempo sem o risco de esgotamento psíquico-físico completo. Avisos semelhantes são dados aos praticantes de outras técnicas que trabalham com as chamadas energias da “serpente de fogo”, como kundalini yoga, mas as praticantes enfrentam alguns desafios muito particulares na canalização das energias de Babalon.

Exclusivo para a dinâmica do 156 é o desenvolvimento de algumas fórmulas de “aterramento” muito específicas que funcionam em conjunto com um processo de cultivo interno de TETH. (ver livro Marks of Teth). É um processo de transformação muito demorado e complexo no qual é preciso reconfigurar completamente seu estado energético e físico para permitir que se torne um recipiente que possa resistir ao ataque do turbilhão erótico-cinético de Babalon. No entanto, é possível articular os parâmetros de sua magia e definir o território é essencial para qualquer manifestação em curso. Para comunicar isso de algum jeito, alguma forma de sistematização é necessária. A magia do 156 desafia o textualismo de muitos sistemas mágicos ortodoxos e desafia qualquer forma de hierarquia convencional. No entanto, por definição, qualquer forma de prática deve ter uma curva de aprendizado e objetivos claros, no sistema 156 isso é definido por uma sizígia (termo gnóstico que designa a união de opostos) gradual com o ‘Corpo de Babalon’ através de uma série de estágios reconhecíveis, uma gnose mágica sexual complexa que gradualmente desperta a plena ativação da corrente com o corpo/psique.

Tudo isso sugere que Babalon é potencialmente uma força incrivelmente perigosa, destrutiva e primitiva, mas interpretações simplistas da energia predominantemente venusiana que Babalon representa só servem para adicionar preconceitos e interpretações errôneas inúteis. Quando se considera que grande parte das energias psíquicas/espirituais/sexuais e físicas de metade da população dos planetas foi suprimida por milênios, então não é irracional esperar que sem a válvula de segurança de uma prática coerente alguém possa ser explodido em pedacinhos quando tentando liberar algumas das dimensões mágicas mais fortemente policiadas e suprimidas dessa força deslocada. Indiscutivelmente, é a repressão da corrente sexual feminina que é a fonte de muita violência que assola o planeta e Babalon é o antídoto para o cisma que nos divide, em vez de representar uma expressão de energia feminina destrutiva. Sua força é percebida como perigosa porque a magia que canaliza sua energia não foi totalmente compreendida.

Babalon instila medo naqueles que ainda estão investidos na velha ordem, ela não tem lugar para a misoginia, ignorância e crueldade que manteve o tecido de grande parte da sociedade humana no lugar por milhares de anos. Ela exige uma manifestação completamente nova da força criativa humana que eleva o sexo ao seu mais alto potencial mágico. Este é o desafio final e nisso ela realmente exige “cada gota de sangue” dos devotos que agora estão surgindo, que suportarão a força de Teth sem mancha de ambiguidade ou malevolência. Babalon tem que ser uma deusa do ‘tudo ou nada’ porque ela é a parteira de uma fase completamente nova da consciência e sexualidade humana na qual não pode haver concessões, simplesmente não temos tempo para vacilações sem entusiasmo. É um caminho fervoroso de transformação completa, do qual não há como voltar atrás uma vez iniciado. A visão de amor que Babalon oferece à humanidade é profundamente profunda, abrangente e completamente alheia à realidade global atual, mas manifestar o 156 é absolutamente vital para que a humanidade sobreviva à atual queda livre na catástrofe. Este deve ser um esforço sustentado e incessante que só pode vir através da presença de praticantes que possam lidar com sua energia e atuar como fontes poderosas de seu Pneuma transformador.

Um fator extremamente importante na articulação de um sistema coerente e autêntico é a desconstrução da relação do corpo vivido com as práticas de magia sexual e uma investigação e teorização rigorosas da anatomia sutil feminina. É fundamental descobrir muitas formas sutis de viés estrutural que distorceram a corrente feminina e muitos anos de minha prática foram dedicados a essa área de pesquisa. Tem sido um processo intenso de desconstrução mágico-física e engenharia etérica em que a pessoa literalmente se “reconecta” para receber a corrente 156 criando uma arquitetura sutil inteiramente nova para habitação. A prática não apenas repara alguns dos grandes danos que foram causados ​​ao corpo e psique femininos, mas abre novos canais que estão alinhados com as novas fórmulas progressivas do aeon de 156. Através de muitos anos de trabalho intensivo, muito progresso foi feito e Babalon revelou um sistema de conhecimento que, como sugere a citação de abertura, do ‘discurso passado’. Ao longo de muitos anos, Babalon revelou um mysterium erótico que é progressivo, autopoiético, principalmente pré-textual, cinético e corpóreo por natureza. O uso do termo “Pré-textual” para descrever o sistema de conhecimento de Babalon não deve no entanto ser confundido com um eufemismo para qualquer tipo de capricho não estruturado de forma intuitiva. As práticas têm uma dinâmica estrutural interna altamente sofisticada que exige décadas de rigorosa disciplina para serem refinadas e são incrivelmente desafiadoras, exigindo muitos anos de treinamento.

“À medida que as emanações de Teth se desdobram, uma gama de tremores e vibrações incendiárias e orgásticas são ativadas no corpo da sacerdotisa. O frenesi mágico da corrente Babalon é distinguido por uma turbulenta corrente de kinesis sexual. Esse complexo espectro cinético cria significantes dentro da prática que a distinguem de outras formas de fenômenos ‘kundalini’; e é a fonte do que se torna uma tecnologia sexual complexa trazida sob a vontade mágica da sacerdotisa… Assim se aprende a lutar com uma linguagem vibracional e mágica fora do frenesi dionisíaco, sem ser consumido por isso”. Amodali falando na Galeria de Outubro. 2013.

Amodali.1998. ‘Hagazussa’ Sessions. Foto de Robert Cook.

Por muitos anos, parecia completamente contra-intuitivo escrever sobre o sistema em desenvolvimento, pois seu núcleo interno não pode ser comunicado verbalmente. Assim, a partir de 1990, criei projetos que comunicassem aspectos do sistema usando performance ritual. Eu senti que este era o meio mais preciso para articular a corrente, além do foco mais direto dos trabalhos mágicos pessoais. O projeto Mother Destruction foi lançado em 1990 com o lançamento do álbum ‘Seething’. O título refere-se ao erótico-cinético, energia no centro do sistema 156. Desenhei um sigilo para o projeto que apareceu na capa do álbum que ilustra o espectro cinético setenário que anima a magia de Babalon e o corpo da sacerdotisa (ilustração abaixo). O primeiro álbum apresentava práticas mágicas que usavam correspondências rúnicas em alinhamento com as emanações ofídias e bioeróticas de 156 e fundiam as duas correntes com experimentos usando técnicas de seidr (xamanismo escandinavo) e transe156. Esses elementos foram expandidos em rituais dentro do espaço da performance.

À medida que o sistema amadureceu, comecei a reunir o material, mas após uma série de experiências extremamente desafiadoras que mudaram radicalmente minhas circunstâncias de vida e minha perspectiva sobre o próprio trabalho, decidi a partir de 2010 me concentrar principalmente na escrita. Parecia oportuno apresentar o corpo do trabalho, ou o corpo ‘156’, embora em uma forma textual mais convencional, para contribuir para as discussões em andamento e o desenvolvimento da corrente dentro da comunidade mais ampla. A primeira palestra pública ocorreu em Londres 2013 na qual discuti alguns dos aspectos-chave do meu trabalho e sistema, delineando uma perspectiva pessoal da corrente, através da qual Babalon é entendida como possuidora de uma anatomia oculta específica e fenomenologia mágica em relação ao corpo feminino. Como afirmado anteriormente, esta é uma área de assunto vasta, em grande parte inexplorada, que até agora escapou de uma investigação aprofundada e, portanto, para introduzir o território, comecei com uma avaliação e interpretação pessoal do que Grant chamou de ‘Partículas Veladoras’, ou seja, fatores que obscureceram o corpo feminino e as práticas dentro da corrente Babalon e então descrevi como minha prática evoluiu.

Dissecando o ‘Corpo de Babalon’. Conferência do Livro Esotérico. 2014. Foto cortesia de Nathan Alexander.

O esquema simplificado que foi usado para ilustrar a anatomia oculta de Babalon’ é mostrado acima. As sete serpentes de Babalon gravadas com as ‘Marcas de Teth’, representando o espectro cinético-sexual de seus corpos, podem ser vistas como emanando do corpo da sacerdotisa que é encasulado pelas ‘vestimentas etéricas’ habitadas por uma egrégora de divindades venusianas. . Assim, esclarecendo Babalon como representando um sistema de conhecimento mágico complexo, em vez de um simples arquétipo. Descrevi essa configuração do corpo mágico como ‘autopoiética’ ou ‘autocriada’, um termo simples, mas que tem implicações fundamentais para as novas fórmulas mágicas do aeon que exigem uma reformulação radical da agência feminina e do corpo vivido em relação à prática mágica de 156 e ao cultivo de práticas solo para mulheres. Também foram exploradas as grandes contribuições da filosofia feminista para a formulação de conceitos de agência feminina e espaços fenomenológicos, citando a interpretação de Luce Irigaray e Julia Kristeva do conceito de platônico ‘Chora’ de espaço.

AS VESTIMENTAS DE GALVAH

‘A verdadeira sabedoria é sempre pintada com uma roupa de mulher’.
O espírito Galvah em conversa com Dee e Kelley

Durante as palestras, foi apresentada a relevância do Universo Enoquiano e suas fórmulas para a anatomia oculta feminina de Babalon. Especificamente, citando uma citação de ‘A Visão e a Voz’ que descreve a exploração de Crowley no 7º aethyr ‘DEO’ e sua visão do pavão universal. O sétimo aethyr enoquiano de DEO com suas correspondências venusianas é de grande importância dentro do sistema 156. Crowley encontrou a famosa “mulher vestida de sol” em sua esfera e a invocação de Parsons de DEO dentro de seus “trabalhos de Babalon” produziu o Liber 49 – O Livro de Babalon. Crowley descreve que durante sua tentativa de entrar no DEO, uma voz proclamou que “a chave para este portão é o equilíbrio do sete e do quatro”. Como será explicado em ‘As Marcas de Teth, e novamente mostrado na foto acima, esta fórmula é certamente a chave para a ‘arquitetura sutil de Babalon’. A forma ardente e incandescente de Galvah, que Kelley foi incapaz de olhar diretamente durante suas sessões de Previdência Angélica com Dee, pareceria congruente com a entidade radiante que Crowley encontra em DEO, que “transmite a palavra ao entendimento”. Durante suas conversas com Dee e Kelley, Galvah fala da conclusão do conhecimento e de uma sabedoria universal que surgirá durante o fim dos tempos, ela também liga firmemente a sabedoria ao corpo feminino. Assim, novamente ligando os temas do apocalipse, sabedoria, redenção e manifestação com uma figura feminina que é apresentada como “a mulher vestida de sol” no Livro do Apocalipse e revelada em profundidade nas dimensões venusianas do universo enoquiano. Como será expandido no M.O.T., as “vestes” da sabedoria descritas por Galvah não são de forma alguma metafóricas e constituem parte integrante da anatomia sutil do sistema de conhecimento.

Alguns dos arcanos internos e componentes técnicos do corpo mágico de Babalon e uma introdução ao sistema 156 foram apresentados no início deste ano como parte de ‘The Rose Veiled in Black’, uma antologia da Three Hands Press. A Antologia apresenta uma coleção de Ensaios sobre Babalon por uma lista de praticantes e acadêmicos altamente respeitados, homens e mulheres, que fornecem um discurso altamente matizado e informativo sobre a natureza de Babalon, trabalhos rituais ambiciosos, análise aprofundada de documentos importantes como ‘The Visão e a Voz’ e material biográfico instigante e comentários sobre figuras importantes da Corrente. Minha contribuição introduz uma abordagem pessoal da magia de Babalon que reconhece os espíritos femininos enoquianos como aspectos importantes do sistema 156. O universo enoquiano de Dee e Kelley é reafirmado dentro do sistema como chave para a reformulação radical da anatomia oculta feminina em relação a Babalon e um conjunto inteiramente único de práticas que envolve o trabalho direto com uma egrégora ‘Venusiana’ feminina que inclui correntes primordiais de Ísis/Ofídias e inteligências enoquianas femininas, particularmente Galvah. As práticas recriam de forma corporificada as fórmulas altamente misteriosas e ressonantes que se encontram no universo enoquiano e na própria corrente.

“Tu reconhecerás pelo sinal. Babalon nasce. É um novo nascimento, todas as coisas são mudadas – os sinais, os símbolos, o tudo.” (‘3º ritual. O Trabalho Babalon)

Na citação do trabalho de Parsons/Hubbard acima, Babalon anuncia a reforma radical que acompanhará sua ascensão. O ‘novo nascimento’ virá da enorme mudança de consciência criada por uma autêntica reificação da força erótica feminina que resultará em uma transformação global da sexualidade humana. O ensaio na Antologia Three Hands Press apresenta as fórmulas autopoiéticas que são derivadas do nome e substância da própria Babalon, mostradas no quadrado mágico abaixo. A mesa representa uma prática mágica que transforma o corpo da sacerdotisa e resulta na produção do ‘Elixir 49’. Esta é uma substância que incorpora uma nova formulação aeon do Pneuma feminino além do sistema ‘Kala’ como defendido por Grant e as tradições tifonianas, alinhando o corpo sutil feminino com o universo enoquiano.

“A sizígia de carne e pneuma, gerada pela sacerdotisa através da invocação de Babalon e dos espíritos enoquianos femininos, cria a matriz a partir da qual o complexo campo fenomenológico da magia de Babalon é gerado.” Amodali, Antologia ‘Introductory Theoria on Progressive Formulas of the Babalon Priesteshood’ – A ROSE VEILED IN BLACK’.

É através de Galvah/I AM, Madimi e a filha da fortaleza no universo enoquiano que podemos alcançar a fonte da sabedoria sexual universal da deusa primordial, manifestada nas fórmulas de Babalon. Na prática, descobriu-se que se pode descobrir através das inteligências femininas angélicas, um sistema de conhecimento de natureza totalmente erótica que permeia o universo enoquiano que forma um substrato energético dentro do sistema angélico. Essa sabedoria não textual é obviamente incrivelmente sutil e difícil de descrever. Das palavras da filha da fortaleza e Galvah, entendemos que essa sabedoria está incorporada nas roupas, ou seja, na carne da mulher. As ‘Vestuários de Galvah’ mostradas ao redor do corpo da sacerdotisa na fig. 3. representam um vasto mysterium dentro da anatomia oculta de 156. A conclusão lógica deste movimento é a manifestação real da corrente de 156 e isso significaria, como Parsons previu, que Babalon finalmente se manifestará em carne.

Para pesquisa mais profunda:

  • ‘Introductory Theoria on Progressive Formulas of the Babalon Priestesshood . Amodali.
  • A Rose Veiled in Black – Anthology. Three Hands Press.
  • The Marks of Teth. Amodali. Three Hands Press. Forthcoming.
  • The Five Books of Mystery. John Dee. Joseph Peterson.
  • A True and Faithful Relation. Dr. John Dee/M.Causobon.
  • The Vision and the Voice. Aleister. Crowley.
  • The Babalon Working. Liber 49. – Jack Parsons.
  • ‘The Seething’ Album and extensive back catalogue of Mother Destruction.]

Tradução: Tamosauskas

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/as-roupas-de-galvah-e-o-sistema-156/

O nome é Dee. . . John Dee

Excerto de Magia Moderna de Donald Michael Kraig

Tradução: Yohan Flaminio

John Dee (1527-1608 ou 1609) foi uma das figuras mais interessantes da era elisabetana. Quando ele morreu, sua casa em Mortlake (uma área de Londres) tinha a maior biblioteca de toda a Inglaterra. Além de ser um mago, ele também era um astrônomo e astrólogo, um geógrafo, um viajante do mundo, um matemático, um estudioso e… um espião.

Sua fama lhe permitiu ser conselheiro, ocasionalmente, da Rainha Elizabeth I da Inglaterra. Quando outros a aconselharam a enviar a frota britânica para atacar a Armada Espanhola, ele usou a astrologia para determinar que ela deveria esperar, e aconselhou-a assim. Ela seguiu seu conselho, e uma tempestade destruiu a maior parte da Armada, permitindo que sua frota terminasse o trabalho. O resultado mudou a face do mundo e deu início ao Império Britânico.

Por causa de seu conhecimento e sabedoria, ele foi bem-vindo em muitos países. Como resultado, ele pôde agir como um agente de Elizabeth. Ele era um espião. Quando obtinha informações que considerava valiosas, ele as enviava de volta para ela, geralmente usando um pombo-correio. Ele adicionava um símbolo especial para indicar que a mensagem era legítima. O símbolo eram três números: 007:

Não, o autor Ian Fleming, criador de James Bond, não conhecia esse segredo sobre Dee. Pelo menos não há evidências para apoiar essa afirmação. Sua ideia de dar a Bond o número 007 veio de outra fonte – eram os três últimos dígitos do número de telefone de seu agente. (fim da nota)

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-nome-e-dee-john-dee/

Cursos de Hermetismo – Fevereiro 2017

Este é um post sobre um Curso de Hermetismo já ministrado!

Se você chegou até aqui procurando por Cursos de Ocultismo, Kabbalah, Astrologia ou Tarot, vá para nossa página de Cursos ou conheça nossos cursos básicos!

Dia 04/02 – Qlipoth, a Árvore da Morte

Dia 05/02 – Astrologia II

E os tradicionais Cursos de Carnaval

Dia 25/02 – Kabbalah

Dia 26/02 – Astrologia I

Dia 27/02 – Runas

Dia 28/02 – Magia Prática

Horário: Das 10h00 as 18h00

Local: Próximo ao Metrô Vila Mariana – São Paulo – SP

Informações e reservas: marcelo@daemon.com.br

KABBALAH

Este é o curso recomendado para se começar a estudar qualquer coisa relacionada com Ocultismo.

A Kabbalah Hermética é baseada na Kabbalah judaica adaptada para a alquimia durante o período medieval, servindo de base para todos os estudos da Golden Dawn e Ordo Templi Orientis no século XIX. Ela envolve todo o traçado do mapa dos estados de consciência no ser humano, de extrema importância na magia ritualística.

O curso abordará as diferenças entre a Kabbalah Judaica e Hermética, a descrição da Árvore da Vida nas diversas mitologias, explicação sobre as 10 Sephiroth (Keter, Hochma, Binah, Chesed, Geburah, Tiferet, Netzach, Hod, Yesod e Malkuth), os 22 Caminhos e Daath, além dos planetas, signos, elementos, cores, sons, incensos, anjos, demônios, deuses, arcanos do tarot, runas e símbolos associados a cada um dos caminhos.

O curso básico aborda os seguintes aspectos:

– A Árvore da Vida em todas as mitologias.

– Simbolismo e Alegorias na Kabbalah

– Descrição e explicação completa sobre as 10 esferas (sefirot).

– Descrição e explicação completa sobre os 22 caminhos.

– Cruzando o Abismo (Véu de Paroketh).

– Alquimia e sua relação com a Árvore da Vida.

– O Rigor e a Misericórdia.

– A Estrela Setenária e os sete defeitos capitais.

– Letras hebraicas, elementos, planetas e signos.

ASTROLOGIA HERMÉTICA I

A Astrologia é uma ciência que visa o Autoconhecimento através da análise do Mapa Astral de cada indivíduo. Conhecido pelos Astrólogos e Alquimistas desde a Antigüidade, é um dos métodos mais importantes do estudo kármico e um conhecimento imprescindível ao estudioso do ocultismo.

O curso básico aborda os seguintes aspectos:

– Introdução à Astrologia,

– os 7 planetas da Antigüidade, Ascendente e Nodos

– os 12 Signos,

– as 12 Casas Astrológicas,

– leitura e interpretação básica do próprio Mapa Astral.

Cada aluno recebe seu próprio Mapa Astral (precisa enviar antecipadamente data, hora e local de nascimento) para que possa estudá-lo no decorrer do curso.

RUNAS E MAGIA RÚNICA

O tradicional oráculo nórdico. A palavra Runa quer dizer: segredo.

As runas são pequenas pedras que têm gravadas sobre a sua superfície desenhos que representam as letras de um antigo alfabeto germânico. Através delas, os antigos faziam previsões, falavam com os deuses e sondavam as profundezas da alma humana. O curso Inclui:

– História da mitologia Nórdica.

– Yggdrasil, a Árvore da Vida.

– Explicação detalhada das 24 runas (normais e invertidas).

– Posicionamento de cada Runa dentro da Árvore da Vida.

– Métodos: 1 pedra, 3 pedras, Leitura associada às Casas Astrológicas

– Leitura tradicional: Freyir, Heimdall, Odin e 9 Pedras.

– Tela Rúnica.

– Alfabeto Rúnico e Escrita Rúnica para ritualística.

Total: 8h de curso.

MAGIA PRÁTICA

Pré-requisitos: Astrologia I e Kabbalah.

O curso aborda aspectos da Magia Prática tradicional, desde suas tradições medievais até o século XIX, incluindo os trabalhos de John Dee, Eliphas levi, Franz Bardon e Papus. Engloba sua utilização no dia-a-dia para auto-conhecimento, ritualística e proteção. Inclui os exercícios de defesa astral indispensáveis para o iniciado.

– O que é Magia.

– Advertancias a respeito da Magia.

– Qualidades do Mago.

– Os planos e suas vibrações.

– Sobre o Astral.

– O Magnetismo.

– Os chakras.

– Horas magicas.

– Os instrumentos do Mago.

– Os sete planetas e seus espiritos de influência.

– A visualização.

– Os Quatro Elementos e Dezesseis Kerubs

– Exercicios de Proteção.

– Ritual Menor do Pentagrama.

– O Altar

– Objetos de Poder, Ferramentas Mágicas

– A Sigilação.

– Como fazer água lustral.

– Banhos, Defumação, Limpeza de Ambientes

– Consagrações.

Total: 8h de curso.

Para quem mora longe de São Paulo ou tem problemas para estudar nos finais de semana, teremos o mesmo Curso de Kabbalah Hermética e o Curso sobre os Chakras em Ensino à Distância com a mesma qualidade do curso presencial, mas que você pode organizar seu tempo de estudo conforme suas necessidades.

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/cursos-de-hermetismo-fevereiro-2017

Extraterrestres na Idade Média

Em 13 de agosto de 1491, Facius Cardan, pai do matemático Jerôme Cardan, anotou esta aventura:

Quando eu completei os ritos habituais, por volta das vinte horas, sete homens me apareceram, portando roupas de seda que lembravam tunicas gregas e calçados cintilantes. Usavam cotas de malha e, sob elas, roupas interiores vermelhas de extraordinária graça e beleza.  Dois deles pareciam ser um pouco mais nobres que os outros. O que tinha ar de comando tinha o rosto de cor vermelho-escuro. Disseram ter quarenta anos, embora nenhum deles parecesse ter mais que trinta. Perguntei quem eram. Responderam que eram homens compostos de ar, e seres como nós , sujeitos ao nascimento e à morte. Sua vida era muito mais longa que a nossa, podendo chegar a três séculos. Interrogados sobre a imortalidade da alma, responderam que nada sobrevive. Interrogados sobre o porque não revelavam aos homens os tesouros do seu conhecimento, responderam que uma lei severa impunha penalidades àqueles que revelavam seu saber aos homens. Demoraram com meu pai cerca de três horas. O que parecia ser o chefe negou que Deus tenha feito o mundo para toda a eternidade. Ao contrário, disse ele, o mundo é criado a cada instante ; caso Deus “desanime” , o mundo corre perigo.”

Os visitantes de Facius Cardan parecem ter sido os últimos de uma longa série , surgidos na Idade Média. Tinham o particular de se poder comunicar com os homens, não pretendiam em hipótese alguma ser anjos, não traziam nenhuma revelação; ao contrário , sua atitude parecia mais ainda com o nosso racionalismo moderno. Os visitantes de Facius Cardan negaram até a existencia de uma alma imortal, defendendo uma espécie de teoria a respeito da criação continua do Universo.

Os alquimistas e os místicos da Idade Média procuraram , evidentemente , ligar estes visitantes aos espíritos dos quais falam a Bíblia e a Cabala, mas se trata, evidentemente, de uma colaboração mitológica. De fato, houve, aparentemente, contatos com seres “fabricados”, “feitos a partir do ar”, segundo os visitantes de Cardan. Estes insistiram nos castigos que sofreriam se revelassem qualquer segredo.  Toda esta tradição permaneceu até o século XVIII data em que , nós o veremos, certos segredos serão desvendados.

Em outras regiões , estes seres foram assinalados mais tarde que na Europa: nos fins do século XVIII no Japão e para os índios da América do Norte. Nesta época os indios da Califórnia descreveram seres humanos luminosos , que paralisavam as pessoas com a ajuda de um pequeno tubo. A lenda índia precisa que as pessoas que foram para lisadas tiveram a impressão de terem sido bombardeadas com agulhas de cactus. Na Escócia, na Irlanda, tais aparições foram mencionadas desde tempos imemoriais, e até o século XIX, algumas vezes até o século XX. No século XIX, encontraram-se traços de um personagem estranho chamado Springheel Jack, luminoso à noite , capaz de saltar e voar ( Vide a musica dos Rollings Stones : Jumping Jack Flash ) , e que tentou entrar em comunicação com os homens. A primeira aparição data de novembro de 1837 – segundo testemunhas as mais seguras e precisas  –  em 20 de fevereiro de 1838, e a ultima em 1877. Desta vez, o estranho visitante cometeu a imprudencia de aparecer perto do campo de manobras de Aldershot. Duas sentinelas atiraram; o visitante revidou com jatos de chamas azuis , que exalavam um odor de ozona . As sentinelas se volatilizaram, e o visitante nunca mais apareceu.

Trata-se talve de reminiscencias . Com efeito, a densidade do fenomeno é muito inferior à do da Idade Média, onde se observa , a cada ano , aparições de estrangeiros luminosos. Em todo os relatos , estes são inseparaveis da idéia do fogo: a noção de energia não havia sido ainda inventada. Entretanto, quando interrogados, respondiam que não eram nem salamandras nem criaturas do fogo, mas homens de outra espécie.

É tentador quere atribuir-lhes a estranha série de incendios que , durante a grande peste de Londres , destruiu de súbito todas as casas que haviam sido contaminadas , e estas sómente , impedindo assim que a peste se propagasse , exterminando toda a população da Inglaterra. Seria um caso interessante de intervenção benéfica e benvinda.

É igualmente  chocante o fato de que estes visitantes sejam associados não sómente ao fogo , mas igualmente a poderes mais ou menos ligados ao fogo, em particular o poder de transmutação de metais.  Toda a Idade Média é cheia de lendas , e mesmo de sólidas crenças , a respeito da possibilidade de assinar pactos com estes visitantes. Infelizmente , nos é muito dificil compreender a mentalidade medieval.

A idéia racionalista , defendida por M. Homais , da Idade Média como um periodo de trevas , é uma caricatura da qual precisamos nos desembaraçar. A Idade Média foi um periodo de progressos rápidos , mais rápidos talvez que os nossos, mas que visavam a outros objetivos. Nós perdemos a noção mas ela seria necessária para que pudéssemos nos colocar  na mente de um homem no ano de 1000 ou do ano 1200, e compreender sua atitude frente aos visitantes que considerava como fazendo parte do
mundo em que ele vivia. Faz-se necessário salientar que os homens da Idade Média , que criam nos visitantes , eram espiritos essencialmente racionalistas, sem ligações com bruxarias ou com a Inquisição, fenomenos diferentes. Não se nega que estes contatos podem ter ocorrido , e as informações trocadas , entre os visitantes e homens como Roger Bacon, Jerôme Cardan ou Leonardo da Vinci. Em todo caso ,  a Idade Média admite, praticamente sem discussão , que é possivel entrar
em contato com criaturas revestidas de armaduras luminosas que se chamam demônios . O termo “demônio”não comporta as  conotações pejorativas de mal ou diabólico que apresenta em nossa linguagem. Ele lembra antes o sentido dos demonios de Sócrates, que discutiam com ele e lhe sugeriam idéias.

Depois de ter feito aparições no começo da era cristã , os demônios luminosos surgiram com as primeiras manifestações da franco-maçonaria, desde os séculos XIII e XIV . Foi por causa deles que os francos-maçons se denominaram “Filhos da Luz” e, a seguir , contarão os anos não a partir do nascimento do Cristo , mas sim de um ano de luz obtido adicionando-se 4.000 anos à era cristã.

Começam a se ligar a eles aspectos mais ou menos interplanetários. Em 1823, o Dr. George Oliver , historiador da franco-maçonaria , escreveu : “Anatiga tradição maçonica – e tenho boas razões para ser desta opinião – diz que nossa ciencia secreta existe desde antes da criação do globo terrestre e que ela foi largamente expandida através de outros sistemas solares”.

É contudo na Idade Média que ocorrem as aparições mais maciças de criaturas com vestimentas  de luz . Este mensageiros vão encontrar os rabinos , com quem discutem longamente sobre a Cabala, os poderes de Deus, o conhecimento e a exploração do tempo etc. Afirmam conhecer os guardiões do céu , dos quais , entretanto, não fazem parte. Vão aparecer igualmente entre os monges e os santos do Islão . São descritos sempre do mesmo modo, sua atitude intelectual é sempre racionalista. Falam de geometria, de uma sabedoria racional, à qual mesmo Deus se submete.

Saber-se-ia mais sobre eles se os arquivos dos Templários e dos Ismaelistas nos tivesse chegado às mãos . O que infelizmente não aconteceu. É certo , contudo, que, como os Templários , os Ismaelistas tinham por missão aguardar a entrada de uma Terra Santa que não é de nenhum modo, a Palestina. Uma Terra Santa que não é  localizável em nosso tempo e em nosso espaço, que possui uma geografia sacra diferente da nossa , estudada especialmente por dois franceses, Guénon e Henri Corbin. Também aí, pode-se tentar substituir a mitologia antiga por uma moderna , falar não de uma Terra Santa, mas de uma porta que se abre para uma outras dimensões que não são as três conhecidas , uma estrutura da Terra mais complexa que o globo que se vê de um satelite e na qual nossa civilização crê de maneira tão pouco crítica quanto outras civilizações acreditam na Terra plana.

Isto não é proibido, mas é ainda a troca de uma mitologia tradicional por outra mitologia saída da ficção cientifica e dos desenhos animados.E não é certo que se tenha a ganhar com isso. De maneira geral , deve-se desconfiar do simbolismo.  René Alleau escreveu: “Pode-se estabelecer ligações entre esse simbolo e as duas serpentes do caduceu de Hermes, simbolos de força que destrói e edifica, isto é, o duplo poder das chaves  de um mesmo fogo sagrado”

Tudo isso é muito belo. Mas não se pode dizer que o caduceu de Hermes representa a hélice dupla do ADN. Antes de se contentar com simbolos, é preciso , me parece, admitir que há no mundo fenomenos que não são unicamente devidos à atividade da natureza ou à atividade voluntária do homem. Depois ,estudar estes fenomenos , certamente com uma idéia preconcebida , mas sem pretender que se receba essa idéia da revelação de mestres desconhecidos ou de mansucritos provenientes de um monastério tibetano que não existe nos mapas, e apresentar esta idéia preconcebida como uma questão de fé. Não pretendo me pronunciar com autoridade absoluta sobre a origem e a constituição desses demonios luminosos. Simplesmente direi que, a meu ver, trata-se de pesquisadores enviados por seres capazes de acender e extinguir as estrelas à vontade, pesquisadores talvez criados por tais seres . Eu creio que sua origem talvez seja  a própria Terra , mas em uma região dificilmente localizável
em um mapa-múndi.

Sabe-se , com certeza , que após se manifestarem frequentemente na Idade Média , prosseguiram em suas atividades durante o Renascimento . Visitaram Cardam . Assim como seu quase contemporâneo J. N. Porta ( 1537-1615) que escreveu uma enciclopédia , Magia naturalis , cuja primeira edição data de 1584, na qual, segundo o próprio autor , ele procura associar , à pesquisas experiemtntais , um saber recebido de fonte natural. Daí o titulo : “Magia natural” Porta será o primeiro a estudar cientificamente as lentes , a descrever um telescópio, a predizer a fotografia . Ele tem , portanto , merecido lugar na história das ciencias. Mas ele foi menos estudado no domínio que nos interessa.

O Cardeal d’Este , que se apaixonava pelos seus trabalhos , fundou em 1700 uma organização , que se reunia em sua casa , e que se chamava , muito significativamente, Academia de Segredos . Muitos vêem nela a primeira academia de ciencias. De minha parte, eu (J.Bergier) a vejo acima de tudo como um organismo intermediário entre os agrupamentos desconhecidos da Idade Média e do inicio da Renascença , e o Colégio Invisivel , do qual ja falamos muito. Observemos de passagem que , sobre a Rosa-Cruz, cujos escritos mencionam constantemente os demonios, assim como as lâmpadas perpétuas que lhes deixaram, Fulcanelli escreveu, e com razão :

Os adeptos portadores do titulo são sómente irmãos pelo conhecimento e pelo sucesso de seus trabalhos. Nenhum juramento era exigido , nenhum estatuto os ligava entre si, nenhuma regra além da disciplina hermética livremente aceita, voluntáriamente observada, influenciava seu livre arbítrio. Foram e são ainda isolados, trabalhadores dispersos no mundo, pesquisadores cosmopolitas, segundo a mais estreita acepção do termo. Como os adeptos não reconheciam nenhum grau de hierarquia , a Rosa-Cruz não era uma graduação , mas apenas a consagração de seus trabalhos secretos, a da experiencia, luz positiva cuja fé viva lhes havia revelado a existencia . . . Jamais houve entre os possuidores do título outro laço senão a verdade cientifica confirmada pela aquisição da pedra. Se os Rosa-Cruzes são irmãos pela descoberta, o trabalho e a ciência, irmãos pelas obras e pelos atos, isso ocorre com um conceito filosófico , o qual  considera todos os individuos como membros da mesma familia humana

Quer dizer que não creio absolutamente em uma organização estruturada dos Rosa-Cruzes, como lojas ou células. Eu creio em encontros entre pesquisadores livres, alguns dos quais já visitados pelos demonios. Muitos tiveram em seguida conhecimentos surpreendentes, e pode-se perguntar de onde Cyrano de Bergerac tirou a descrição de um foguete por estágios ou de um poste receptor de TSF.  Pois. se os demonios não difundem o saber , eles o transportam talvez de um pesquisador a outro. Talvez mesmo mantivessem eles fora do alcance da Inquisição, um centro de saber onde seriam conservados os manuscritos. Encontram-se estas concepções no esoterismo judaico da Idade Média.

Estas criaturas de luz, muito ativas, do ano 1.000 ao ano 1.500 , desapareceram totalmente: no século XVII, são encontrados em pequeno número, e desaparecem inteiramente no século XVIII. Nada mais em seguida, senão uma curiosa visão de Goethe, visão que ocorreu em uma época em que ele estava muito doente.

Os demonios deixaram atrás de si, estranhos objetos. Por exemplo, esta esfera metálica da qual falam os Templários em suas confissões. Ela não sómente emitia luz, mas também radiações hoje desconhecidas. Em Chipre, ela teria destruido várias cidades e muitos castelos. Quando foi lançada no mar, uma tempestade se elevou e nesta região nunca mais houve peixes.

Há também as lâmpadas perpétuas que se encontram tanto na tradição judaica da Idade Média , como na do Islã ou da Rosa-Cruz: as lâmpadas funcionariam indefinidamente , sem azeite, sem produto que queima ou se consome. Não se podia toca-la, sob pena de provocar uma explosão capaz de destruir uma cidade inteira. Também aí encontra-se a utilização de forças , de energia, que parecem físicas , e que não correspondem aos conhecimentos da época. Muitos textos judaicos afirmam que estas lâmpadas provêm de lâmpadas do céu.

Infelizmente, nenhum dos relatos que datam da Renascença ou de depois e que fazem alusão às lampadas deste tipo encontradas em tumbas na Alemanha e Inglaterra, puderam ser confirmados. Lâmpadas muito estranhas e de grande beleza foram encontradas em Lascaux, mas ignora-se como funcionavam.

Uma tradição persistente afirma que a descoberta de um túmulo secreto contendo uma lâmpada perpétua teria sido a origem da criação da maçonaria inglesa. Esta descoberta teria ocorrido poucos anos antes da iniciação de Elias Ashmole em Warrington, em 1646. Nada o confirma. De modo geral, todas as tentativas de ligar a franco maçonaria a tradições anteriores a 1600 têm o presente momento , abortado.

Tem-se pretendido , em particular , que a Ordem do Templo não tenha sido perseguida na Inglaterra, como sistematicamente o foi em toda a Europa, e que os sobreviventes da Ordem teriam fundado a maçonaria inglesa, transportando diretamente as tradições da Ordem para esta fundação, mais ou menos em 1600. Muitos maçons sinceros crêem nesta tradição, mas nunca eu jamais encontrei quem a  confirmasse verdadeiramente. Nós temos documentos certos que provam que as lojas maçonicas funcionavam na Escócia já em 1599. Nada antes disso. De que há ligações entre a maçonaria e as “criaturas de luz”, vindas para ensinar , não há duvida. Mas não se pode sustentar que se possa deduzir  que a maçonaria prolongou a tradição dos “guardiões do céu”.

Esta tradição corresponde às aparições precisas , humanamente controláveis, e que determinaram uma  fase precisa da série de intervenções hipotéticas estudadas neste livro. Para um homem da Idade Média  , fosse ele cristão , muçulmano ou judeu, seria tão natural discutir com um ser de luz como receber a  visita de um viajante de país longinquo. Se estas criaturas inspiravam curiosidade e por vezes cobiça pelos conhecimentos que possuiam, nunca inspiraram medo ou terror. A partir de um certo nível de cultura, parecia que os cristãos , muçulmanos ou judeus, acreditavam num Centro onde o alto saber era conservado e onde os visitantes vinham até eles. Eis porque, por exemplo, a visita dos embaixadores  vindos do reino do Padre João provocou curiosidade, mas não surpresa.

Hoje em dia, certos eruditos do Islão acreditam na existencia desses Centros, mas poucas pessoas na Europa , ou na América o crêem. Em compensação na Idade Média , a existencia deste Centro e de um  Rei do Mundo governado a partir deste Centro, era geralmente admitida, e parecia totalmente natural que  esse rei enviasse mensageiros. Assim como é natural para os primitivo, hoje, ver pousar aviões, provenientes dos Estados Unidos ou do Japão, em regiões da Nova Guiné  ou da América do Sul, onde  não existe contato com a civilização avançada. Os habitantes dessas regiões sabem da existencia de  um ou vários centros de civilização mais avançada que a sua. Mas fazem idéias extremamente vagas desses centros, se bem que fundamentem nessas visitas religiões que se chamam “os Cultos do Cargo“.

Do muito tempo dos demonios luminosos nos resta um manuscrito que poderia talvez nos revelar os segredos se soubermos decifra-lo. É o famoso manuscrito Voynich.

Algumas palavras antes de entrar no mistério do manuscrito. A criptografia , arte de compor mensagens secretas , se desenvolveu paralelamente à alquimia e ao esoterismo. Para não dar mais do que dois exemplos. Trithème e Blaise de Vigenère são , ao mesmo tempo, dois grandes alquimistas, dois grandes mágicos e pioneiros da criptografia. Se, graças a eles, a criptografia progrediu até chegar a ser uma ciência exta, a arte de decifrar mensagens sem conhecer os códigos ou os simbolos é muito menos avançada. Os grandes ordenadores, certamente, facilitam o trabalho, mas não o fazem por si mesmos. Um grande decifrador funciona graças a uma espécie de percepção extra-sensorial, que o faz descobrir a informação num caos de numeros e letras.

Como testemunha esta anedota que vivi: Um dos grandes decifradores franceses, cujo nome não me é possivel citar, foi insistentemente procurado por um cura que afirmava ter inventado um código à prova de qualquer decifração. Finalmente, o decifrador consentiu em recebe-lo. Assisti à entrevista. O cura se sentou e estendeu a meu amigo uma folha de papel recoberta de grupos de cinco letras. Meu amigo deu uma olhadela , e cinco segundos depois dizia:

    –    Senhor Padre, o texto evidente de vossa mensagem é: Duas pombas se amam com amor
terno, de La Fontaine
    O cura se persignou , aterrorizado. Perguntou:
   –   Como pode o senhor. . . ?
    E ele me respondeu :
    –    Nem eu mesmo sei. Qualquer coisa na estrutura da mensagem me sugeria: Duas pombas se
amam com amor terno.

Se este relampejar de gênio não existisse, a decifração seria impossivel. Uma idéia muito simples pode
se ocultar totalmente, porque o decifrador não pensa nela.

Estamos agora prontos a  enfrentar os mistérios do manuscrito Voynich. Este manuscrito poderá ser seu, se quiser pagar por ele um milhão e cem mil francos novos. Tem duzentas e quatro páginas, vinte e  oito outras foram perdidas. Não se pode decrifar uma só palavra. Por que então esse preço astronomico,  por que desperta tanto interesse?

É que, quando o manuscrito foi descoberto em 1912 pelo especialista em livros raros, Wilfrid Voynich, ele tinha comprado da escola de jesuitas de Mondragone,  em Frascati. Itália , documentos antigos da Companhia. Documentos sensacionais . Uma missiva de 19 de agosto de 1966 , assinada por Johanes Marcus MArci, reitor da Universidade de Praga, recomendava o manuscrito ao Padre Athanase Kircher, o mais célebre criptografo de seu tempo. O reitor afirmava  que o manuscrito era de Roger Bacon. O manuscrito foi oferecido por volta de 1585 ao Imperador Rodolfo II pelo alquimista e mágico John Dee, que não havia conseguido decifra-lo, mas estava persuadido que ele continha os mais formidáveis segredos. Voynich levou o manuscrito aos Estados Unidos , onde os melhores decifradores inclusive os das Forças Armadas Americanas , o examinaram , sem nenhum sucesso.

 Em 1919 , Voynich tirou fotocópias do manuscrito e levou-as ao professor William Romaine  Newbold, que era um grande decifrador e havia prestado inumeráveis bons serviços ao governo americano. O professor de filosofia, Newbold, com cinquenta e quatro anos de idade, era um homem de cultura prodigiosa. Pretendia-se  na época ser ele o unico a saber onde estava o Santo Graal.

Em abril de 1921 , Newbold anunciou os primeiros resultados. Fantásticos. Segundo os textos, Roger Bacon havia identificado a nebulosa de Andromeda como uma galáxia, conhecia os cromossomos e seu  papel, construira um microscópio, um telescópio e outros instrumentos. Isto causou sensação no mundo inteiro, mas muitos outros decifradores não estavam de acordo com a solução de Newbold. Esta , de qualquer  modo, não era senão parcial e cobria , no máximo , um quarto do manuscrito. Parece que em certo momento o próprio método de codificação do manuscrito se modifica .

Era preciso encontrar a solução completa. Newbold não teve tempo de fazê-lo antes de sua morte, em 1926. Seu trabalho foi continuado por um dos seus colegas, Rolland Grubb Kent, que publicou resultados bem recebido por certos historiadores , não tão bem por outros. A grande objeção  feita ao trabalho de Newbold era que Bacon não podia , em sua época , conhecer as nebulosas espirais nem a constituição do nucleo celular. Eu ( J.Bergier) não estou totalmente de acordo com essa objeção: se Bacon entrou em contato com o exterior, pode muito bem ter recebido informações que parecem provir do seu futuro, e mesmo do nosso futuro.

Em 1944, o Cel. William F. Friedman, que durante a Segunda Grande Guerra decifrou o código japonês, organizou um grupo multidisciplinar constituido por matemáticos , historiadores, astrônomos e especialistas em criptologia. Este grupo utilizou máquinas muito aperfeiçoadas mas não conseguiu decifrar o manuscrito. Entretanto, encontrou-se a razão deste malogro: o manuscrito não era escrito em inglês, nem em latim, mas em uma lingua artificial, inventada não se sabe por quem ( as primeiras linguas artificiais datam do século XVII e são muito posteriores a Bacon), e não correspondem a nenhuma lingua humana conhecida. Nestas condições, como Newbold pôde decifrar  uma parte, pelo menos, do manuscrito? Por uma intuição genial, que o conduziu ao sentido pela linguagem artificial, mas que não se aplica a certas partes do manuscrito. As pesquisas continuam. Todo mundo se põe de acordo com o fato de que este manuscrito apresenta sentido e que não é brincadeira ou mistificação. Voynich morreu em 1930 , sua mulher em 1960, e seus herdeiros venderam o manuscrito a um livreiro de Nova York, Hans P. Kraus, que pede atualmente por ele um milhão e cem mil francos. E Kraus declarou recentemente que , decifrado, o manuscrito valerá dez milhões de dólares.

Pretendeu-se propor métodos de decifração fundados na “linguagem dos demonios luminosos”, que John Dee descreveu com certa precisão. Essas tentativas fracassaram. Um dos objetivos da  INFO (International Fortiana) que continuou a obra de Charles Fort, é decifrar o manuscrito Voynich. Até o presente, não o conseguiu. O segredo dos demônios e talvez outros ainda mais extraordinários se encontram nestas páginas recobertas de uma escrita medieval.
Extraido do livro Os Extraterrestres na História de Jacques Bergier  –  Editora Hemus –  1970

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/extraterrestres-na-idade-media/

O Manuscrito de Mathers

O manuscrito Mathers, como a Steganographie e o manuscrito Voynich, está em código. Mas tem o bom gosto de estar em código de dupla transposição relativamente simples, o que permitiu us decifração rapidamente. Vi muitas folhas dessa decifração que me pareceu correta. Essa decifração mostra a aventura oculta mais extraordinária de nossa época, a da Ordem Golden Dawn.

Mostra, também, a redação de um conjunto de documentos mágicos, logo malditos, que, pelo que sei, nunca foi publicado, mas que já provocou muitas catástrofes.

Comecemos do início.

Um clérigo inglês, Rev. A. F. A. Woodford, passeava em Londres, ao longo da Farrington Street. Entrou na loja de um vendedor de livros de ocasião e aí encontrou manuscritos cifrados e uma carta em alemão. Isto se passou em 1880. O Rev. Woodford começou lendo a carta em alemão. Essa carta dizia que aquele que decifrasse o manuscrito podia comunicar-se com a sociedade secreta alemã Sapiens Donabitur Astris (S. D. A.), através de uma mulher, Anna Sprengel. Outras informações lhe seriam, então, comunicadas se ele fosse digno delas.

O Rev. Woodford, maçon e Rosa-Cruz, falou de sua descoberta a dois de seus amigos, o Dr. Woodman e o Dr. Winn Westcott, todos os dois eruditos eminentes e, além do mais, cabalistas. Ocupavam postos elevados na maçonaria. O Dr. Winn Westcott era “coroner”, posto jurídico muito conhecido dos leitores de romances policiais ingleses. Um “coroner” desempenha ao mesmo tempo o cargo de médico legista e de juiz de instrução. Em caso de morte suspeita, reunia um júri que pronunciava um veredicto, podendo, eventualmente, haver intervenção da justiça e da polícia. Um desses seus veredictos foi célebre no século XIX; o júri concluíra que um desconhecido encontrado morto num parque londrino havia sido assassinado “por pessoas ou coisas desconhecidas”. Seria bom poder afirmar que foi o Dr. Westcott quem redigiu esse veredicto, e de forma verdadeiramente estranha. Não podemos, no entanto, provar, isso, mas veremos, mais tarde, que o Dr. Westcott perdeu seu posto em circunstâncias singulares.

Em todo caso, Woodman e Westcott ouviram falar da Sapiens Donabitur Astris. Trata-se de uma sociedade secreta alemã composta sobretudo de alquimistas. Essa sociedade, graças aos medicamentos de alquimia, salvou a vida de Goethe que os médicos comuns haviam desistido de curar.

O fato é perfeitamente conhecido e a Universidade de Oxford publicou um livro: “Goethe, o Alquimista”. A SDA parece existir ainda em nossos dias; estava ligada aos “círculos cósmicos” organizados por Stephan George, que combateram Hitler. O Conde von Stauffenberg, organizador do atentado de 20 de julho de 1944, fazia parte desses círculos cósmicos. O último representante conhecido da SDA foi o Barão Alexander von Bernus, morto recentemente.

Westcott e Woodman decifraram facilmente o manuscrito e escreveram à Anna Sprengel. Receberam instruções para prosseguir nos trabalhos. Foram auxiliados por um outro maçon, um personagem indeterminado, de nome Samuel Liddell Mathers, casado com a irmã de Henri Bérgson. Era um homem de cultura espantosa, mas de idéias muito vagas. Redigiu o conjunto inédito dos “rituais Mathers”. Tais rituais se compõem de extratos do documento alemão original, de outros documentos de posse de Mathers, e mensagens recebidas pela Srª Mathers, pela clarividência. O conjunto foi submetido à SDA na Alemanha que autorizou o pequeno grupo inglês a fundar uma sociedade oculta exterior, isto é, aberta. A sociedade chamou-se Order of the Golden Dawn in the Outher: Ordem da Aurora Dourada no Exterior. Em 1º de março de 1888, essa autorização foi dada a Woodman, Mac Gregor Mathers e ao Dr. Westcott. Samuel Liddell Mathers acrescenta ao seu nome o título de Conde de mac Gregor, e anuncia que é a reencarnação de uma boa meia dúzia de nobres e de magos escoceses.

Em 1889, o nascimento dessa sociedade foi anunciado oficialmente. É interessante notar que foi a única vez no século XIX, assim como no século XX, que uma autoridade esotérica qualificada, a SDA, dá uma autorização para fundar uma sociedade exterior. Tal autorização nunca foi dada novamente, e não aconselho ninguém a lançar uma sociedade desse gênero sem autorização: isto seria atrair os mais sérios inimigos.

Após a morte, ao que tudo indica natural, do Dr. Woodman, a Ordem foi dirigida por Westcott e Mathers. Em 1897, Wescott teve a infelicidade de esquecer, dentro de um táxi, documentos internos sobre a Ordem. Tais documentos acabaram na polícia que não achou recomendável um “coroner” se ocupara de tais atividades, pois poderia ficar tentado a utilizar os cadáveres que são postos à sua disposição, para operações de necromancia. Westcott demitiu-se da Ordem, achando isto preferível.

A sociedade começou a se desenvolver e atraiu homens de inteligência e cultura indiscutíveis. Citemos Yeats, que deveria obter o prêmio Nobel de Literatura, Arthur Machen, Algernon Blackwood, Sax Rohmer, o historiador A. E. Waite, a célebre atriz Florence Farr e outros. Os melhores espíritos da época, na Inglaterra, faziam parte da Golden Dawn. O centro ficava em Londres. Seu chefe, o Imperador, era W. B. Yeats.

Havia outros centros na província inglesa, e em Paris, onde Mathers passa a residir, de preferência.

A ordem tem dois níveis:

– O primeiro, dividido em nove degraus, onde se ensina;

– O segundo, sem degraus nem graus, onde se pesquisa.

O ensinamento diz respeito à linguagem enoquiana de John Dee, cuja tradução é dada desde o primeiro grau do primeiro nível. Infelizmente, tais traduções foram destruídas ou escondidas. Não resta senão textos em enoquiano, particularmente um texto que permite ficar invisível: “Ol sonuf vaorsag goho iad balt, lonsh calz vonpho. Sobra Z-ol ror I ta nazps”. Isto não se parece com nenhuma língua conhecida. Parece que se recita corretamente tal ritual, é-se envolto por uma elipsóide de invisibilidade a uma distância média de 45 centímetros do corpo. Não vejo objeção.

O ensinamento era em língua enoquiana; sobre alquimia, e sobretudo sobre a dominação de si mesmo.

Desde o segundo degrau do primeiro nível, o candidato era tratado de maneira a eliminar todos os seus males mentais e todas as suas fraquezas. Conhecem-se cinqüenta tratamentos desse tipo que parecem ter bons efeitos.

Durante cinco ou seis anos, a Ordem deu satisfações a todo mundo, e todos que dela participavam dizem que mentalmente ficaram enriquecidos. Depois Mathers se pôs a fazer das suas. Em 29 de outubro de 1896, publicou um manifesto afirmando que existia um terceiro nível na Ordem. O terceiro nível era, segundo ele, constituído de seres sobre-humanos, dos quais dizia:

“Creio, no que me concerne, que eles são humanos e que vivem nesta terra. Mas possuem espantosos poderes sobre-humanos. Quando os encontro em lugares freqüentados, nada em suas aparências ou vestimentas os separa do homem comum, salvo a sensação de saúde transcendente e de vigor físico.

Em outros termos, a aparência física que deve dar, segundo a tradição, a posse do elixir da longa vida. Ao contrário, quando os encontro em lugares inacessíveis ao exterior, trajam roupas simbólicas e as insígnias de suas ordens.”

Evidentemente, pode-se pensar diversamente quanto ao conteúdo desse manifesto, e perceber a loucura de Mathers, mas é preciso pensar que ele talvez não estivesse mentindo. Tudo o que se pode dizer é que seria muito melhor que ele se calasse. De um lado, foi a partir daí sujeito a uma perseguição que o conduziu à morte em 1917. De outro lado, seu manifesto atraiu pessoas pouco recomendáveis à sociedade, como o célebre Aleister Crowley.

Personagem sinistro e sem dúvida megalomaníaco, em todo caso, delirante, Crowley apareceu um belo dia de 1900 na Loja de Londres. Trazia uma máscara negra e um costume escocês. Declarou ser enviado de Mathers, designado para dirigir a Loja de Londres. A reação foi violenta. Yeats, Imperador da Loja, depôs Mathers e expulsou Crowley. A. E. Waite pôs em dúvida a existência do terceiro nível e de superiores desconhecidos.

Em 1903, Waite e um certo número de amigos demitiram-se e constituíram uma outra ordem chamada igualmente Golden Dawn. Essa ordem se manteve até 1915, depois desapareceu. O restante dos membros da Golden Dawn continuaram até 1915, depois Yeats, Arthur Manchen e Winn Westcott se demitiram.

A ordem continuou bem ou mal sob a direção de um tal Dr. Felkin, depois caiu no esquecimento e se extinguiu. Assim terminou o que Yeats chamara de “a primeira revolta da alma contra o intelecto, mas não a última”. Parece que Mathers retirou o conjunto de rituais que permitiram reproduzir certos fenômenos. Todas as tentativas para publicá-los foram interrompidas, pois os manuscritos pegavam fogo ou ele mesmo caía doente. Morreu em 1917 completamente alquebrado. Alguns dizem que Crowley foi seu principal perseguidor, mas Crowley pareceu, com efeito, ser apenas um megalomaníaco bem pouco perigoso.

Se o conjunto de rituais de Mathers desapareceu, um certo número de rituais ou de trabalhos feitos pela Golden Dawn foi publicado. Notadamente, em quatro volumes, nos Estados Unidos, pelo Dr. Israel Regardie, e no início do ano de 1971, “The Golden Dawn its inner teachings” de R. G. Torrens BA (editor Neville Spearman, Londres).

Esse último livro tem a dupla vantagem de ser escrito de maneira racional e de dar, ao fim de cada capítulo – e ele tem quarenta e oito – uma biblioteca breve e precisa.

Por outro lado, possui-se muitos testemunhos sobre a Golden Dawn.

É possível chegar à uma conclusão. O que choca, desde logo, é um notável nível de inteligência e cultura da maioria de seus participantes. A Golden Dawn contava não somente com grandes escritores, mas também com físicos, matemáticos, peritos militares, médicos. O que é certo é que todos os que passaram pela experiência da Golden Dawn de lá saíram enriquecidos. Todos insistiram sobre o embelezamento de suas vidas, nova plenitude, senso e beleza que a Golden Dawn lhes deu.

Gustav Meyrinck escreveu: “Sabemos que existe um despertar do eu imortal.”

Parece certo que a Golden Dawn sabia provocar esse despertar, e que ela realizara esse sonho eterno dos alquimistas, dos gnósticos, dos cabalistas e dos Rosa-Cruzes, para citar apenas algumas direções de procura: a transmutação do próprio homem.

Qualquer que seja o ceticismo que se possa manifestar a respeito da magia – e meu ceticismo pessoal é bastante considerável – não resta dúvida de que a Golden Dawn chegou a uma experiência mágica melhor do que qualquer outra na história da humanidade, de nosso conhecimento. Não somente logrou conseguí-la, mas ainda foi capaz de ensiná-la.

Durante milênios o homem sonhou um estado de consciência mais desperto que seu próprio despertar. A Golden Dawn chegou a isso. O que parece não tão certo, mas pelo menos provável, foi que a Golden Dawn chegou a traduzir o alfabeto enoquiano de John Dee, e que seus dirigentes leram a obra de John Dee, a de Trithème e, talvez, o manuscrito Voynich, se é que possuíam uma cópia. Isto não é de todo impossível, pois John Dee fez muitas.

Isto admitido, a questão evidente é saber-se porque um tal acúmulo de conhecimentos e de poder não chegou a constituir uma verdadeira central de energia, uma cidadela fulgurante que teria dominado o século XX. É certo que a Golden Dawn suscitou hostilidades, mas é certo também que ela se decompôs internamente antes de sua destruição externa.

Quis-se atirar a responsabilidade dessa destruição sobre Aleister Crowley. Que este pretenso mágico era um louco varrido, é indiscutível. Além de sua loucura, que era constituída por um tipo clássico de delírio sexual, Crowley tinha o dom extraordinário de meter-se em histórias incríveis. Durante a Primeira Guerra Mundial, colocou-se ao lado da Alemanha, denunciando, violentamente, a Inglaterra. Alguns pretendem que foi ele quem, através de informações fornecidas aos serviços secretos alemães, permitiu que um submarino colhesse o transatlântico Lusitânia, cujo torpedeamento fez com que os Estados Unidos entrassem na guerra. Crowley teve um certo número de inimigo nos Estados Unidos e partiu para Sicília, onde criou uma abadia em Cefalu (atualmente, tal lugar é uma vila do clube Mediterrâneo).

Um incidente deplorável aconteceu na abadia de Crowley. Um poeta oxfordiano, chamado Raul Loveday, bebeu, durante uma cerimônia de missa negra, o sangue de um gato, e morreu instantaneamente, o que não estava previsto. Sua viúva fez um escândalo, e sob pressão da imprensa Crowley foi expulso da Sicília em 1923.

Em seguida, viveu na Inglaterra onde tentou processar a imprensa por difamação. Os juízes decidiram que Crowley era o personagem mais detestável, que jamais haviam encontrado antes, e recusaram conceder-lhe um centavo sequer de perdas e danos morais. Caiu, em seguida, numa miséria profunda, para morrer numa pensão de família, em Hastings, em 1947. a impressão que se depreende de sua vida e obra, é a de um infeliz que poderia perfeitamente receber cuidados, e não a de um personagem perigoso. Crowley não era, aliás, o único escroque nas mãos dos quais Mathers caiu.

Por volta de 1900, foi vítima de uma dupla chamada Horos, que se dizia representante de Superiores desconhecidos, e que foi condenada, no ano seguinte, como escroques, simplesmente. A Golden Dawn foi, então, bastante mencionada na imprensa, e isto deve ter provocado certas demissões.

A imprensa ocupou-se, igualmente, da Golden Dawn em 1910, quando Mathers tentou impedir a saída do jornal de Crowley, Equinox, que publicava, sem autorização, rituais da Golden Dawn. Um tribunal inglês decidiu sobre o caso e o número do jornal apareceu.

O que, evidentemente, não melhorou o prestígio de Mathers; numerosos foram os que observaram que se Mathers realmente tinha poderes, poderia exterminar Crowley, ou que se Crowley os tivesse, poderia exterminar Mathers. Conhecem-se, aliás, muitos exemplos modernos de duelos de feiticeiros que não dão, geralmente, bons resultados. É certo que a ingenuidade de Mathers o prejudicou, mas não parece ser essa a causa principal do declínio da Golden Dawn.

Segundo o que pude recolher, a partir de fontes pessoais, o exercício de um certo número de poderes, e notadamente da clarividência, tornou-se uma verdadeira droga para os membros da Ordem, e desde 1905 toda espécie de pesquisa havia cessado. Parece-me que é nisto que devemos buscar a causa do mau êxito dessa aventura que poderia ter sido mais extraordinária ainda do que foi.

As diversas sociedades secundárias fundadas por dissidentes, sem autorização, como a Stella Matutina, fundada pelo Dr. Felkin, a Sociedade da Luz Interior, fundada pelo escritor Dion Fortune, pseudônimo de Mme. Violette Firth, não parecem ter prosperado.

Essa última sociedade ainda existe ainda, e Mme. Firth escreveu novelas e romances muito interessantes.

Para ser mais completo, é necessário dizer que a Golden Dawn tinha elementos cristãos em seus seio, pertencentes à Igreja Católica anglicana, notadamente o grande escritor Charles Williams, autor de “A guerra do Graal”, e o místico Evelyn Underhill.

Certos documentos da Golden Dawn dizem respeito ao esoterismo cristão e são considerados, por especialistas no campo, como extremamente sérios.

Restam, de outro lado, as obras místicas ou traduções de Mathers: A Kabala (1889), Salomão, o Rei (1889), A Magia Sagrada de Abramelin (1898). Este último livro é tradução de um manuscrito que Mathers encontrou na Biblioteca do Arsenal, verdadeira mina de documentos estranhos. Um texto bastante completo foi editado recentemente em Paris, por volta de 1962.

Temos à nossa disposição uma quantidade de elementos muito interessantes, mas o que nos falta é o ritual completo de Mathers. Esse ritual devia ser o cômputo dos livros malditos, resumindo a maior parte desses livros e abrindo as portas a todos os fatos extraordinários. Que Mathers realizou, dessa forma, uma espécie de consciência superior que ele interpretou como um contato com Superiores desconhecidos não me parece absurdo. Que tenha havido perseguição a Mathers, também não é tão espantoso.

Entretanto, toda essa história se passa em nossa época, e Mathers dispunha da fotografia. Não é impossível que tenha tirado um bom número de fotos e que elas não tenham sido todas destruídas. Em 1967, pensou-se ter achado os rituais do Mathers. Naquele ano, uma colina às margens do Canal da Mancha deslizou, minada pelas águas, e objetos provindo da Golden Dawn, que aí haviam sido enterrados, foram tragados pelo mar. Infelizmente, o exame desses objetos provou que se tratava de instrumentos de trabalho e textos de lições, assim como notas tomadas ao curso de exposições. Nenhum documento vinha de Mathers.

Discutiram-se muito as influências que se exerceram nas redações de diversos cursos da Golden Dawn. Notamos, já, influências cristãs. Encontra-se, também, e sem dúvida introduzidas por Yeats, idéias de Blake. Encontra-se grande número de referências à Kabala, que provém visivelmente dos estudos de Mathers.

O que não se encontra é a tradução da língua enoquiana em linguagem corrente e sua aplicação às experiências. O termo enoquiano, ele próprio, é curioso. Os diversos Livros de Enoch são relativamente recentes e contam as viagens miraculosas do profeta Enoch a outros planetas, e mesmo a outros universos. Encontram-se edições que datam de 1883 e 1896.

A linguagem enoquiana de John Dee é uma outra história. Dee conhecia a lenda de Enoch, levado a outros planetas por uma criatura luminosa, e deu o nome de linguagem enoquiana à linguagem da criatura luminosa que lhe apareceu. Mas não existe o Livro de Enoch contemporâneo à Bíblia, como certos ingênuos crêem. Não há razões sérias para se crer que os dois livros de Enoch datem dos gnósticos. Mesmo em estado de manuscrito, não aparece antes do século XVIII.

Algumas testemunhas sobreviventes da Golden Dawn contam, com relação à linguagem enoquiana, coisas muito curiosas que não se é obrigado a crer. Falam, por exemplo, de um jogo, As Peças de Xadrez Enoquianas, um jogo semelhante ao xadrez, mas onde as peças assemelhavam-se aos deuses egípcios. Jogava-se com um adversário invisível, as peças colocadas numa metade do tabuleiro especial, movimentando-se sozinhas.

Mesmo que se descrevesse tal experiência como um tipo de escrita automática ou de telecinesia, ela tem uma certa beleza poética. Tudo nos faz lamentar ainda mais a desaparição dos rituais Mathers.

Tudo o que se pode esperar é que a desaparição não seja definitiva. Se Mathers tomou suas precauções, deve ter dissimulado em Londres ou em Paris jogos de fotografias que, um dia, reaparecerão. A menos que a misteriosa sociedade alemã SDA não se manifeste.

Alexandre Von Bernus, na Alquimia e Medicina, parece indicar que essa sociedade não está morta. Tal era, igualmente, a opinião de meu falecido amigo Henri Hunwald, que era o homem da Europa que conhecia melhor esse tipo de problema. Talvez um dia, uma nova autorização para fundar uma sociedade exterior seja dada.

por Jacques Bergier

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-manuscrito-de-mathers/