Diferenças Mediúnicas entre Umbanda e Kardecismo

No livro “Lições de Umbanda e Quimbanda na Palavra de Um Preto-Velho” – W. W. da Matta e Silva, há um relato de Pai Ernesto de Moçambique sobre a diferença entre a mediunidade da “mesa kardecista” e a mediunidade de Umbanda :

“Pergunta : Existe alguma diferença entre a mediunidade da mesa kardecista e a mediunidade de Umbanda?

Resposta : “Sim! A mediunidade no chamado espiritismo de mesa é acentuadamente mental, as comunicações são quase telepáticas, predominantemente inspirativas, isto e’, os espíritos atuam mais sobre a mente dos médiuns, pois a atividade do espiritismo se processa mais no plano mental. Espiritismo de mesa não tem a missão de atuar no baixo astral contra os elementos de magia negra, como acontece com a Umbanda. Ele é quase exclusivamente doutrinário, mostrando aos homens o caminho a ser seguido a fim de se elevarem verticalmente a Deus. Sua doutrina fundamenta-se principalmente na reencarnação e na Lei da Causa e do Efeito. Abre a porta, mostra o caminho iluminado e aconselha o homem a percorre-lo a fim de alcançar a sua libertação dos renascimentos dolorosos em mundos de sofrimentos, como é o nosso atualmente, candidatando-se à vivência em mundos melhores. Em virtude disso, a defesa do médium kardecista reside quase exclusivamente na sua conduta moral e elevação dos sentimentos, portanto os espíritos da mesa kardecista, após cumprirem suas tarefas benfeitoras, devem atender outras obrigações inadiáveis.

É da tradição espirita kardecista que os espíritos manifestem-se pelo pensamento, cabendo aos médiuns transmitirem as idéia com o seu próprio vocabulário e não as configurações dos espíritos comunicantes.

Em face do habitual cerceamento mediúnico junto às mesas kardecistas, os espíritos tem de se limitar ao intercâmbio mais mental e menos fenomênico, isto é, mais idéias e menos personalidade. Qualquer coação ou advertência contraria no exercício da mediunidade reduz-lhe a passividade mediúnica e desperta a condição anímica. Por esta razão há muito animismo na corrente kardecista.

A faculdade mediúnica do médium ou cavalo de Umbanda é muito diferente da do médium kardecista, considerando-se que um dos principais trabalhos da Umbanda é atuar no baixo astral, submundo das energias degradantes e fonte primaria da vida.

Os médiuns de Umbanda lidam com toda a sorte de tropeços, ciladas, mistificações, magias e demandas contra espíritos sumamente poderosos e cruéis, que manipulam as forcas ocultas negativas com sabedoria. Em conseqüência o seu desenvolvimento obedece a uma técnica especifica diferente da dos médiuns kardecistas. Para se resguardar das vibrações e ataques das chamadas falanges negras, ele tem de valer-se dos elementos da natureza, como seja: banhos de ervas, perfumes, defumações, oferendas nos diversos reinos da natureza, fonte original dos Orixás ,Guias e Protetores, como meios de defesa e limpeza da aura física e psíquica, para poder estar em condições de desempenhar a sua tarefa, sem embargo da indispensável proteção dos seus Guias e Protetores espirituais, em virtude de participarem de trabalhos mediúnicos que ferem profundamente a ação dos espíritos das falanges negras, isto e’, do mal que os perseguem, sempre procurando tirar uma desforra.

Por isso a proteção dos filhos de Terreiro é constituída por verdadeiras tropas de choque comandadas pelos experimentados Orixás, conhecedores das manhas e astucias dos magos negros. Sua atuação é permanente na crosta da Terra e vigiam atentamente os médiuns contra investidas adversas, certos de que ainda é muito precária a defesa guarnecida pela evocação de pensamentos ou de conduta moral superior, ainda bastante rara entre as melhores criaturas. Os Chefes de Legião, Falanges, Sub-falanges, Grupamentos e Protetores, também assumem pesados deveres e responsabilidade de segurança e proteção de seus médiuns. É um compromisso de serviço de fidelidade mutua, porem, de maior responsabilidades dos Chefes de Terreiro.

Dai as descargas fluídicas que se processam nos Terreiros, após certos trabalhos, com a colaboração das falanges do mar e da cachoeira, defumação dos médiuns e do ambiente e dando de beber a todos água fluidificada. Espirito que encarna com o compromisso de mediunidade de Umbanda, recebe no espaço, na preparação de sua reencarnação, nos seus plexos nervosos ou chacras, um acréscimo de energia vital eletromagnética necessária para que ele possa suportar a pesada tarefa que irá desempenhar.

Na corrente kardecista, isto não é necessário, em virtude de não ter de enfrentar trabalhos de magia negra, como acontece na Umbanda, e mesmo permitir aos guias atuarem-lhe mais fortemente nas regiões dos plexos, assumindo o domínio do corpo físico e plastificando suas principais características. Enato vemos caboclos e pretos-velhos revelarem-se nos Terreiros com linguagem deturpada para melhor compreensão da massa humilde, assim como as crianças, encarnando suas maneiras infantis para melhor aceitação das mesmas. “

#kardecismo #Umbanda

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Entrevista com Alan Moore

Peço desculpas aos que não são familiarizados com a língua inglesa, mas não dá pra deixar passar uma entrevista com o Mestre.

Alan Moore – anarchist, occultist, “mumbling reclusive”, practising magician and the most important comic book writer of the last three decades – is explaining how he found himself in the peculiar position of guest directing last week’s Cheltenham Science Festival. With matching greying flowing hair and beard, fingers generally crowded with scorpion rings and ideas every bit as wild as his appearance, he cuts a surprising figure among the rationalist likes of Prof Robert Winston, Prof Brian Cox and Roger Highfield, the editor of New Scientist.

“It certainly seems a little incongruous to me,” he allows, speaking from between the stacks of rare books that crowd his terrace house in Northampton and make it “almost unliveable”. The writer behind Watchmen, V for Vendetta and From Hell fell in with the science crowd as a result of his appearances at Robin Ince’s ‘School for Gifted Children’ shows in London. Self-depreciatingly, he describes the events as “a bunch of really talented comedians, and scientists and musicians… and then me” but he is delighted to have been accepted by the rigorously rationalist audience. Especially given his decision on his 40th birthday to become an Aleister Crowley-style practising magician and simultaneously start worshipping the second century snake god Glycon.

“I find myself in the possibly unique position of being a kind of snake-worshipping occultist that rationalists for some obscure reason feel comfortable about,” chuckles the 57-year-old serial nonconformist.

Moore’s take on the sort of hardline Christians who deny evolution would certainly ingratiate him with the Dawkins set. They’d approve of his intervention at his local museum, which had covered over the letters that revealed Charles Darwin’s link to Northampton after creationist protests. The museum changed their mind once Moore brought the weight of his publicity against the decision.

“The world of material things that science is so perfect at describing should not be intruded upon by religious fanatics who simply are upset because what science has discovered doesn’t happen to agree with their creation myths,” he argues, before meandering into his take on Genesis, which has Adam and Eve as amoebas living in the “puddle of Eden” before the “snake” of DNA brought them sex and death and ruined their state of grace.

That said, Moore’s intense distrust of religion extends beyond Christianity, Islam and the rest of the usual suspects. Since the word religion really means “bound together in one belief”, he says that some of the extreme rationalists are as guilty. “I find the idea of being bound together in one belief as an article of faith kind of disturbing wherever that occurs, whether that’s in fundamentalist Christianity or it’s in some of the extremes of current rationalist science. It’s unnatural.”

Singling out ring leader of the ‘new atheism’ Richard Dawkins, Moore says he can be more religious than scientific in his dedication to his own theory of evolution. “There are lots of alternatives to, say, the selfish gene theory of Darwinism,” he says. “I’ve got a great deal of admiration for Richard Dawkins’ thinking, but there are other biologists who are putting forward different ideas. If you are proposing an idea because it’s your idea, you’re proud of it, you want to see it succeed, if you’re doing that to the exclusion of other ideas, that’s not strictly speaking scientific. It is religious. That is the kind of thinking that I am opposed to wherever it occurs.”

Refusing to root for one side or another in the great stand-off between science and spirituality, Moore has suggested a kind of “two-state solution” where each worldview stays out of the other’s business. “They are not necessarily naturally in opposition to each other because science actually grew out of magic, as did religion,” he explains. “Science and religion are like magic’s squabbling, unruly children who have both decided that their parent should be nutted off to a secure facility somewhere because it’s an embarrassment to both of them. Whereas I think that a magical worldview can do an awful lot to resolve those two contradictory things.”

Moore’s support for magic is a logical extension of his job as a writer of fiction, he believes. Science is fine for everything in the outside world but it just doesn’t do a good enough job on his inner life for him to accept it as a universal theory. “Science can not tell me that some symbol or some entity or story that I chose to give significance to is not significant.”

Following British writer Iain Sinclair’s idea of ‘psychogeography’, Moore has recently been writing significance and meaning onto his East Midlands hometown. The discipline studies how people’s environments affect their emotions and behaviour and has been key to all of Moore’s work since he discovered the theory whilst writing From Hell. The story of Jack the Ripper, he realised at that point, was inextricably linked to Victorian London. “The Ripper murders – happening when they did and where they did – were almost like an apocalyptic summary of… that entire Victorian age,” he has explained before.

If the theory can give context to horrific murders, Moore also thinks it can be used actively, to retrofit our dingy urban environments with grand stories.

“I can choose to walk down a street in Northampton that is drab and run down, like everywhere else in the country, with plasterboard in the windows and tumbleweed bowling down the shopping precinct and have a fairly miserable experience,” he says. “Or I can choose to consider the landscape around me not in terms of its bricks and its litter and its concrete, but in terms of what that landscape means.

“I can think, yeah, this is a grubby pedestrianised area, but that’s where Oliver Cromwell slept the night before the Battle of Naseby. That miserable-looking station just down the road? That was formerly that castle where Thomas à Becket was brought to trial and where at least two of the Crusades started out.

“That was King John’s castle, where he lost all of the crown jewels in the River Nene and he said, ‘Don’t worry, they’ll come out in the Wash’. But they never did. There is this wonderful rich landscape.”

We can all change our everyday environment this way, with just a bit of effort, he says. And the benefits could be huge, “All psychogeography is, is a kind of application of poetry to the urban landscape that can potentially make that landscape enriched and meaningful. If you’re walking through a meaningful landscape, you might eventually feel that you are meaningful.”

Moore’s appreciation of Northampton’s storied history goes some way to explain why he’s stayed there, rather than upped sticks to the States, where the comics industry is primarily based and where his second wife Melinda Gebbie hails from. Staying in the town he was born in has also sheltered him from the unwelcome side effects of fame. It’s also been easier to ignore the film adaptations of his writing, which he noisily hates, even as they bolster his fame and attract more people to the revolutionarily complex world of his comics.

“Most of the people here are so used to me that they don’t take any notice of me,” he says. “That means that I can have ordinary relationships with ordinary people and I don’t feel that I am excluded or exotic or that people are talking up to me. I still feel like part of a community. That’s probably why I hang out in Northampton rather than losing myself by the poolside in LA for a couple of decades.”

Ironically, it was Moore’s early social rejection in his hometown that shaped his maverick personality. A working class boy from the Burroughs – the oldest and most deprived end of town – he had boundless faith in his own intelligence until he went to grammar school and found himself up against prep school kids who already had a smattering of Latin. “I suddenly realised that, no, I wasn’t the smartest boy in the world after all. It was just that I came from quite a dim neighbourhood, “ he recalls. “That blow to my ego probably precipitated my rejection of normal societal values and everything that followed.”

Later finding himself expelled from the same grammar school for selling LSD, Moore found himself unable to get any work at all, aside from at the local tannery – where light relief came in the form of throwing hacked off sheep’s testicles at each other. “That did make me realise that actually, I was kind of fucked. And if I was ever going to have any other life outside of the tanning yards down Bedford Road then I was going to have to do it all myself,” he says. “It forced me to consider my own resources and that is what pushed me into the life that I now enjoy.”

Moore’s hatred for both the comics establishment and Hollywood make sense through this anti-establishment prism, but he has long since come to see Northampton as a sanctuary rather than the enemy. And for their part, his neighbours have come to welcome the occultist, anarchist, hairy genius in their midst too. “Taking responsibility for myself has allowed me to come to a point where I am very well accepted in Northampton,” he says. “The people who do know who I am, they recognise what it means that I’ve chosen to stay here. It’s a gesture of confidence in the town where they live.”

http://www.bigissuescotland.com/features/view/548

#AlanMoore

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/entrevista-com-alan-moore

Sacrifício de Animais

Sempre que falamos de “Sacrifício de Animais”, nos vem à cabeça a imagem de satanistas malignos torturando e matando gatos ou então macumbeiros bebendo cachaça e fumando charutos, torturando e matando bodes e galinhas à torto e à direito sem critério nenhum… pastores evangélicos e a mídia católica usam e abusam de mentiras e estereótipos para jogar a opinião pública contra as religiões afros, tentando ligar rituais de magia negra a seus cultos. No caso de animaizinhos, é pior ainda, porque usa da boa fé das pessoas que se comovem com o “sofrimento animal” para usá-las como massa de manobra religiosa.

A questão é muito ampla e seria bom separar todas as variáveis, para que você não seja manipulado pela mídia e pelas igrejas pseudo-evangélicas da próxima vez que assistir a um noticiário na Rede Record a respeito de algum “ritual satânico”.

Em primeiro lugar, vamos separar todos os nomes e todas as possíveis variáveis:

1) Umbanda – Na Umbanda, não há sacrifícios de NENHUM tipo de animal em NENHUMA circunstância. Se a matéria jornalistica menciona qualquer morte, então NÃO É UMBANDA. Entendeu? Foi difícil? Quer que eu desenhe?

2) Candomblé – No Candomblé existem as Obrigações, nos quais os animais são “sacro-oficiados” para um Orixá. No candomblé, esta parte do ritual, denominada de sacrifício, não é propriamente secreta; porém não se realiza senão diante de um reduzido número de pessoas, todos fiéis da religião ou convidados.

Quem faz o sacrifício é um sacerdote treinado e especializado, chamado Axogun, ou Azogun ou Azogue (da onde vem nossa palavra “Açougue”) que tem uma função extremamente importante na hierarquia do templo. O Axogun não pode deixar o animal sentir dor ou sofrer de maneira nenhuma, porque senão a oferenda não seria aceita pelo Orixá.

O objeto do sacrifício, que é sempre um animal, muda conforme o Orixá ao qual é oferecido; trata-se, conforme a terminologia tradicional, ora de um animal de duas patas, ora de um animal de quatro patas (galinha, pombo, bode, carneiro, pato…)

Esse sacrifício não é apenas uma oferenda aos Orixás. Todas as partes do animal vão servir de alimento, nada é jogado fora. O couro do animal é usado para encourar os atabaques, o animal inteiro é limpo e cortado em partes; algumas partes são preparadas para os Orixás e o restante é destinado aos demais. Normalmente há uma festa no dia seguinte (o sacrifício é feito durante a madrugada e as carnes preparadas durante a manhã para serem servidas no almoço – COZINHADAS (tem de explicar tudo, porque vai que algum tosco acha que servem as carnes cruas?)). TUDO é aproveitado: até a porção oferecida aos Orixás é posteriormente distribuída entre os filhos da casa como o inché do Orixá.

É usada para confraternização: unem-se os filhos a comer com o pai ou mãe, havendo repartição do Axé gerado pelo Orixá. (após algum tempo que a comida esteja no Peji ela fica impregnada pela energia do Orixá que está imantando aquela festividade).

O sacrifício no candomblé é a renovação do Axé, feito uma vez por ano para cada Orixá da casa ou em circunstâncias especiais.

Os animais usados nestas festas geralmente são criados em granjas e fazendas próprias, livres e com cuidados especiais. Neste aspecto, não há absolutamente NENHUMA diferença entre um fazendeiro mandar matar um boi para alimentar sua família em um churrasco de alguma celebração e o ato do Sacrifício no Candomblé. Na realidade, AMBAS as cerimônias possuem uma raiz ancestral comum.

3) Quimbanda – A Quimbanda é a ramificação da Umbanda na qual atuam predominantemente os exus e pombagiras, também chamados de “Guardiões” ou “povos de rua”. Eles fazem uso das chamadas “forças de Esquerda”, a Coluna do Rigor na Árvore da Vida, o que não significa que sejam malignos.

Como os Exus precisam desfazer trabalhos de magia negra que muitas vezes envolvem ameaças de mortes, doenças e ataques astrais graves, pode ser necessário, em alguns casos mais extremos, o sacrifício de algum animal, para que a energia vital seja usada como fio condutor daquele trabalho. Normalmente, é a própria entidade quem faz o sacrifício e é cuidado para que o animal não tenha dor.

4) Satanismo – Satanismo LaVeyano não envolve nenhum tipo de adoração ou sacrifício, usando “Satã” como um símbolo dos valores carnais e terrenos, inerentes à natureza humana. Anton LaVey fundou a primeira e maior organização de suporte religioso, a Church of Satan (Igreja de Satã) em 1966, e escreveu as crenças e práticas satanistas publicadas sob o título de The Satanic Bible (A Bíblia Satânica) em 1969.

Em A Bíblia Satânica, Anton LaVey descreve Satã como uma força motivadora e balanceadora na natureza. Satã também é descrito como “A Chama Negra”, representando a personalidade e os desejos mais íntimos da pessoa. Satã é visto como um sinônimo da natureza e, metaforicamente, com certos conceitos de um deus ou divindade suprema. Em seu mais importante ensaio, Satanism: The Feared Religion (Satanismo: A Religião Temida), o atual líder da Igreja de Satã, Peter H. Gilmore, deixa isso bem claro:

“Os satanistas não acreditam no sobrenatural, nem em Deus e nem no Demônio. Para o satanista, ele é seu próprio Deus. Satã um símbolo do homem vivendo da forma como dita sua natureza carnal e magnífica. A realidade por trás de Satã é simplesmente a força obscura e evolucionária da entropia que permeia toda a natureza e dá os meios para a sobrevivência e propagação inerente a todas as coisas vivas. Satã não é uma entidade consciente a ser adorada, mas uma reserva de poder dentro de cada ser humano para ser tomada à vontade. Assim, qualquer conceito de sacrifício é rejeitado como uma aberração cristã — no Satanismo não há divindades por quais se sacrificar”.

Basicamente, são quase ateus somados a uma crítica pesada aos hipócritas cristãos mas, como vocês podem ver, sem sacrifícios.

5) Voodoo – O Voodoo verdadeiro é muito parecido com o Candomblé, com a diferença que, como nas colônias caribenhas as famílias de escravos eram mantidas unidas, a mitologia e o folclore são mais organizados, sem a necessidade do sincretismo que houve no Brasil. No Voodoo, o templo é chamado Honfour e o sacerdote é chamado de Hougan e trabalha com os Iwas (espíritos). A divindade criadora é chamada de Bondye (“Bom Deus”) e os principais Iwas são papa Legba, Erzuli, Ogou, Azaka, Marasa, Guede, Baron Samedi e outros, todos com correspondência direta com os nossos orixás e linhas de trabalho (farei uma Árvore da Vida sobre o Voodoo em breve). O único sacrifício que existe é feito em festas, nos mesmos moldes que o Candomblé. Os animais são mortos para que sua carne seja consumida nas festividades, sem desperdícios.

Resquícios dos antigos rituais de sacrifício animal ainda são evidentes em muitas culturas, como nas touradas ibéricas, o Kapparos no Yom Kippur, ou aos procedimentos de abate ritual como o Shechita no Judaísmo, o Dabihah no Islamismo e o Korbania na Igreja Ortodoxa Grega. Todos estes procedimentos, porém, incluem o consumo dos animais como alimento. Trata-se de dedicar aquela morta ao Plano Espiritual, respeitando e valorizando a vida daquela criatura que irá nos nutrir…

Isto colocado, agora começam as tosquices:

3) Kiumbanda ou Magia Negra – São grupos muito pequenos e, por razões óbvias, se mantém escondidos. Leis vindas de evangélicos e ateus não vão detê-los. É tão ridículo quanto achar que criminosos vão entregar suas armas em campanhas de desarmamento. Na Kiumbanda, os magos usam sacrifício de animais em magia negra, utilizando-se da energia e da dor (carga emocional primitiva) para ativar os rituais. Funciona da seguinte maneira. Nos terreiros deste tipo estão os chamados Eguns, ou “fora-da-lei” que trabalham como mercenários, vampirizando a energia vital dos seguidores dos cultos. Ai existe uma espécie de “troca”. Dão algum poder para o chefe (que, na verdade, é só o escravo que arruma mais escravos para a seita) como amarrações, feitiços de proteção, ataques astrais e poderes mínimos enquanto sugam o que conseguem da energia. Os “pais-de-santo” fazem essas macumbas para terceiros e ganham um dinheiro com isso… são basicamente o lixo do lixo astral. Como estas entidades não têm muito poder, precisam de sacrifícios para usar o poder das outras criaturas em seus feitiços e também pedem sacrifícios para usarem a energia para sobreviverem mais.

Estes são os responsáveis pelos restos de animais que vocês vêem nas encruzilhadas, resultados de magias de separação, amarrações ou ataques a outras pessoas. Normalmente são utilizados para alimentar kiumbas que, depois, vão fazer a separação do casal vítima dos feitiços.

4) Satanistas de Facebook – existem grupos de pessoas desequilibradas mentalmente que se consideram “satanistas” e alguns desses grupos até têm eguns e kiumbas como mentores (que sempre usam nomes pomposos como “rei”, “maioral”, “chefe dos chefes”, etc.) e muitos usam nomes cheios de firula, como “Lineamento Universal Superior” ou “Ordem dos Filhos da Sabedoria” ou “Nova Ordem Mundial” mas que, na verdade, servem apenas como pilhas energéticas e escravos astrais para demônios mequetrefes. Muitas vezes, os chefes desses templos cobram mensalidades e ameaçam qualquer um que esteja lá de morte, destruição e um monte de baboseiras se não cumprirem suas ordens. Os membros desses grupos normalmente são pessoas fracas e desajustadas, que procuram algum tipo de “poder” mas acabam apenas servindo como carcaça comestível para os eguns. O satanista que me fez as ameaças patéticas, por exemplo, participa da matança de bodes (não é ele quem mata porque ele tem medo) e bebe sangue de galinha preta em seus rituais. É um pobre coitado vampirizado, mas, na cabeça dele, é um “grande mago negro”.

Estes grupos fazem sacrifícios em seus rituais, envolvendo sofrimento de animais.

5) Vodu pra Jacu – Também conhecido como “Vodu de Hollywood”. Este é o Vodu que não existe! No começo do século XIX, quando os negros começaram a se instalar no sul dos Estados Unidos, na região da Louisiana, a Igreja começou a demonizá-los, tal qual os evangélicos fazem hoje com a Umbanda. Alguns livros e textos foram lançados com mentiras e bizarrices sobre as práticas dos negros, que incluíam bonecos com espetos, crânios, caveiras, zumbis, negros pintando caveiras no rosto, tarots e sacrifícios de todos os tipos. É uma miscelânea de maluquices de vilões de filme do 007 que não se parece em nada com o verdadeiro Hoodoo ou Voodoo.

O problema com isso é que muito traficante, para manter um aspecto sinistro e “sobrenatural” em suas organizações, utilizou-se destas mentiras midiáticas para encobrir assassinatos de rivais ou de desafetos com um verniz “religioso”, para incutir terror nos supersticiosos.

Isso é mais comum na América Central e Sul dos Estados Unidos. Ainda não temos coisas assim aqui no Brasil e, de qualquer jeito, eles não matam animais, só membros de outras gangues…

Existem doentes mentais que sacrificam animais para magia negra? SIM. O que não podemos fazer é sermos manipulados pela mídia para ligar estas mortes à religiões afro-brasileiras bem estabelecidas, como querem seus detratores.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/sacrif%C3%ADcio-de-animais

A Primeira Rúpia

Nas distantes terras do Paquistão, há muitos anos, vivia um honrado mercador, chamado Krivá, viúvo e que tinha apenas um filho de nome Samuya. Krivá, um homem trabalhador, gozava de alto prestígio na comunidade, enquanto seu filho, o jovem Samuya, era leviano, preguiçoso e de péssimo comportamento. Rara era a semana em que este não praticava uma desordem que agitava todo o vilarejo, desgostando o coração de seu bondoso pai.

Um dia, ao cair da tarde, Samuya foi chamado pelo pai para uma conversa. Deitado no leito, Krivá recebeu o filho e disse-lhe ter pleno conhecimento de seus vícios e equívocos. Afirmou que, por essa razão, decidira deserdá-lo, uma vez que a fortuna que possuía seria, por certo, dilapidada em festas e orgias quando caíssem nas mãos de Samuya.

Diante do espanto que invadiu o filho, Krivá acrescentou que lhe oferecia uma última e única oportunidade para continuar sendo seu herdeiro. Seu filho teria que conseguir, com o seu próprio trabalho, no prazo de três dias, uma rúpia, a moeda corrente. Se assim agisse, seria o único herdeiro da fortuna de seu pai, mas se falhasse, depois da morte deste, seria atirado à miséria e à indigência.

Certo de que seu pai, homem de palavra como era, cumpriria sua promessa, Samuya ficou apreensivo. Na presença dos amigos equivocados, porém, foi seduzido pela idéia de iludir o pai, uma vez que lhe emprestaram uma rúpia e sugeriram-lhe que mentisse.

No dia seguinte, ao cair da tarde, Samuya apresentou-se diante do pai e entregou-lhe a rúpia que lhe haviam emprestado, dizendo que a ganhara trabalhando. Após segurá-la por alguns instantes, Krivá disse que aquela moeda não havia sido ganha com o seu trabalho, jogando-a ao fogo.

Esmagado pela verdade, Samuya retirou-se em silêncio.

No dia seguinte, novamente orientado pelos companheiros de vícios, Samuya apresentou-se diante do pai, sujo e mal-vestido, fingindo ter trabalhado o dia todo e trazendo nas mãos outra rúpia que lhe havia sido emprestada pelos amigos. Outra vez Krivá disse que aquela moeda não havia sido fruto do trabalho do filho, atirando-a ao fogo.

Samuya não protestou e, humilhado, retirou-se.

Na manhã seguinte, consciente de que havia errado por duas vezes consecutivas, fugiu da companhia dos amigos e decidiu procurar por trabalho. Abandonando à costumeira preguiça passou o dia auxiliando todos aqueles que encontrava. Trabalhou no período da manhã na colheita da juta e amassando barro para um oleiro. À tarde conseguiu trabalhar no mercado, vendendo ervas aromáticas e, depois, junto ao rio, auxiliou no transporte de pessoas, remando por várias horas.

Ao final do dia, quando se apresentou perante o pai, muito cansado, tinha em suas mãos a primeira rúpia que conseguira trabalhando duramente. Mais importante, porém, do que a moeda que trazia nas mãos, era o bem-estar que sentia no íntimo, satisfeito com seu próprio esforço e com a mudança de conduta que percebia em si mesmo.

Ao entregar a moeda ao pai, porém, este disse que ela não era fruto de seu trabalho e ia atirá-la ao fogo, o que gerou um incontido protesto de Samuya.

Krivá, então, sorriu e disse que isso era a prova de que a moeda era fruto do trabalho do rapaz Pois nas outras vezes Samuya nada havia dito e desta vez protestara, porque aprendera que o dinheiro ganho com o trabalho não deve ser atirado, como palha sem valor, ao fogo do desperdício.

Fonte: Novas lendas orientais de Malba Tahan, 10ª edição, pp. 1543, Editora Record.

#Arte #história

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Viagem ao Egito, Templos, Pirâmides, Rituais e Espiritualidade

Bate-Papo Mayhem 001 – gravado dia 05/04/2020 Com Marcelo Del Debbio e Pri Martinelli – Viagem ao Egito, Templos, Pirâmides, Rituais, Corona Virus e Espiritualidade. Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as e 5as com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados.

Saiba mais sobre o Projeto Mayhem aqui:

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/viagem-ao-egito-templos-pir%C3%A2mides-rituais-e-espiritualidade-1

O Cérebro, os Rituais e a Passagem do Tempo

O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio… você começará a perder a noção do tempo.

Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol.

Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: Nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia e portanto, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo.

É quando você se sente mais vivo. Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e ‘apagando’ as experiências duplicadas.

Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os Natais chegam cada vez mais rapidamente. Quando começamos a dirigir automóveis, tudo parece muito complicado, nossa atenção parece ser requisitada ao máximo.

Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular ao mesmo tempo. Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência).

Em outras palavras, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa… São apagados de sua noção de passagem do tempo… Quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida. Conforme envelhecemos, as coisas começam a se repetir as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações…enfim…as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo.

Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.

Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a… ROTINA.

Não me entenda mal. A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.

Felizmente há um antídoto para a aceleração do tempo:

M & M (Mude e Marque). Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um

ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia).

Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe do aniversário de formatura de sua turma, visite parentes distantes, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no Natal, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo.

Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor, faça diferente. Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes… Seja diferente. Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos… … em outras palavras…. .. V-I-V-A. !!!

Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a sorte de estar casado(a) com alguém disposto(a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais v-i-v-o… do que a maioria dos livros da vida que existem por aí.

Cerque-se de amigos. Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes.

Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é? Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.

Por Airton Luiz Mendonça

#MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-c%C3%A9rebro-os-rituais-e-a-passagem-do-tempo

Pai Saturno, Mãe Lua

Sobre Robert Cochrane e seu encontro com o Destino

por Nicholaj de Mattos Frisvold

Evan John Jones & Robert Cochrane

O veneno que Cochrane escolheu para si e o caminho que ele tomou podem nos contar sobre a influência de Saturno e da Lua em sua vida. Ele escolheu ir embora temperado por Saturno e usar o caminho da Lua, através da aliada Beladona. Talvez na escolha da aliada que iria levá-lo à Companhia Oculta possamos entender mais sobre a abordagem de Cochrane ao coração da matéria, o Círculo de Tubal Caim – e, deste modo, entender as polaridades mágicas de sua Pellar Craft, que ele demonstrou de formas aparentemente estranhas, até onde se relaciona o seu suicídio ritual. As polaridades que tenho em mente são aquelas entre a Chance ou Destino e a Sabedoria (ambas em sua oitava feminina, bem como na forma exigida pelo Senhor dos Chifres), assim como podem ser vistas nos mistérios mantidos dentro dos reinos de Tubal Caim e da Senhora Fortuna. Há uma gravura francesa do século XVI que é notável no caso da compreensão de Cochrane sobre o Destino como uma Deusa. 

Nesta gravura, retratada no livro de Paul Huson, vemos a Senhora Fortuna sentada em frente à Senhora da Sabedoria (MOT, pág.37). A Senhora Fortuna está vendada, segurando a roda da humanidade em sua mão esquerda. A Senhora da Sabedoria, por outro lado, monitora cuidadosamente o cosmos e se certifica que sua imagem seja refletida dentro da criação, aqui simbolizada adequadamente como o espelho, que ela segura em sua mão direita. A Roda da Fortuna está sob o domínio da Senhora Fortuna e deve ser refletida pela sabedoria, já que a Senhora Destino é concebida como cega – ou deveríamos dizer que sua cegueira obriga a humanidade a abrir seus olhos à influência de Destino? É minha crença que Cochrane percebeu alguns profundos ensinamentos durante o período de dificuldades com Jane, que foi usada pela Senhora Fortuna e a Senhora Sabedoria para mexer em sua alma e aspiração, rejuvenescer sua alma, e talvez ainda mais, em um nível superior de perfeição e humildade. Esta, acredito, é a melhor forma de visualizar o infortúnio, como uma lição que interfere em nossa alma para uma condição melhor. Pode-se ter a impressão de que ele simplesmente desistiu face ao infortúnio (ou ‘Miss Fortuna’, se preferir) e procurou uma saída digna. Ao fazer uma busca nas próprias palavras de Cochrane, é possível encontrar uma pista para este enigma, e talvez extrair uma lição.

As premissas para a visão de Cochrane sobre a Bruxaria são bastante simples. Ele diz em um de seus poucos ensaios: “Todo pensamento místico é baseado sobre uma premissa maior: a compreensão da verdade como oposta à ilusão” (RT. Pág.49). E esta verdade é “em essência, meios pelos qual o homem pode perceber sua própria divindade inerente” (ibid. 51). Ele usa as discussões sobre bruxaria nos anos 50 e 60 como um espelho desse fato, quando comenta que na bruxaria as ideias que as pessoas do meio da bruxaria tinham em seu tempo continham tanta superstição e ilusão quanto fora dessa esfera. “A Fé está finalmente atinente com a Verdade… trazendo, como faz o homem em contato com Deuses, e o homem em contato com si próprio” (ibid. 56). Cochrane opôs-se a tal ponto contra as formas dogmáticas e superstições que ele viu crescendo em relação à Wicca simplesmente porque aqui ele observou que a verdade foi substituída por ilusão. Pode-se, naturalmente, ver-se isso de duas formas, quer como uma tentativa de colocar-se a si próprio sob os holofotes do crescente interesse pela bruxaria nos anos 60, quer como um homem honesto em sua repulsa pela forma em que a crescente comunidade Wiccana caminhava cada vez mais para longe das diretrizes básicas da Arte, do Mestre Chifrudo e da Senhora Escura e em uma reverência dos ciclos da natureza, com uma Deusa muito mais do que maternal em foco.

Como ele disse: “A filosofia inerente à Arte sempre foi fluida, e o que é fluido deve se transformar novamente antes de desaparecer sob um monte de tolices cediças, teologia cozidas pela metade e filosofia” (ibid. 51). Isso ele demonstra muito bem no ensaio The Faith of the Wise, de 1.965, no qual enfatiza a importância da Experiência, Devoção e Visão como ferramentas em direção ao abraço da verdade. Isto porque a fé não possui nenhum segredo no sentido de que existem certas fórmulas que podem ser prontamente entendidas e ensinadas. Pelo contrário, ele diz que a verdade só pode ser apreendida através do “duro trabalho devocional”, e isso conduz à visão em que se tem uma experiência direta da verdade. Fica evidente aqui a ênfase das qualidades lunares na visão de Cochrane sobre a Arte. Tanto as técnicas e objetivos, quanto as advertências dos perigos, estão sujeitas à lua. O perigo envolvido na Arte é algo que Cochrane estava muito consciente, e seu suicídio ritual pode indicar que nós, que fomos deixados com seu legado em escritos – e que nos sentimos atraídos ao seu espírito – devemos tomar conhecimento disto.

Ele diz: “Primeiramente o Roebuck in the Ticket[1] representa o espírito de sacrifício e liderança. Também pode representar a idéia de destino na velha forma Anglo-Saxã de ‘Shapers’[2], as que criam o futuro que temos que viver” (ibid. 85). Ele entendia muito bem o perigo ao assumir a herança da Arte, e, visto seu fascínio pelo livro The White Goddess de Graves, e sua percepção dentro do mistério demonstrado, ele também sabia como a Mãe Lua pode tanto alimentar quanto devorar sua cria. De certo modo, é possível ver em Cochrane as dificuldades de balancear a Senhora Fortuna e a Senhora Sabedoria em sua vida. Entender pela visão e inspiração é diferente de ser desafiado por Tubal Caim e tendo a nossa ferocidade temperada – o desafio dado no que Cochrane chama de “superação do Destino”. Este desafio também pode ser visto na idéia de iniciação de Cochrane. Ele diz: “Quando os iniciados tomam o juramento completo do coven eles estão se submetendo à vontade de Hécate. De certo modo, ao fazer isso, eles então se tornam o Roebuck in the Thicket, porque eles escolheram seguir o caminho que ela selecionou para eles” (ibid. 92/93).

Abraçar o destino a fim de superá-lo pode ser visto em termos alegóricos como abraçar a Lua enquanto se é armado com Saturno. Isso tudo é relacionado com o Tempo, Cronos – e ao subjugar o Pai Tempo e agarrar a conexão com todas as coisas dentro do Tempo é que podemos estabelecer uma fundação para compreensão e, então, uma profunda superação de todos os desafios, até do próprio Destino. Cochrane foi claro em como ele entendeu a importância da Morte, outro domínio profundamente relacionado à esfera de saturniana. Saturno sem compreensão facilmente se transforma em depressão, abrigando elementos maléficos na vida da pessoa, criando uma perspectiva negativa da vida e fatalismo. Assim como Luna pode fornecer a experiência visionária de profunda verdade, ela também pode dar o golpe doloroso que leva à queda na ilusão – ao abismo onde Saturno e a Lua tomam parte em uma união misteriosa.

Cochrane sabia disso, mas aparentemente foi incapaz de se levantar deste abismo de união maléfica e misteriosa das poderosas forças em sua vida. A Senhora da Sabedoria lhe deu uma mente clara, mas ele escolheu entrar através da aliada Mãe Lua no Castelo da Rosa Imortal. No que diz respeito à morte, suas ideias e considerações eram belas e diretas ao ponto. Ele disse: “Nada é dado se nada for feito, e qualquer coisa que criamos agora cria o mundo no qual existiremos amanhã. O mesmo se aplica à morte: o que temos criado em pensamento, criamos naquela outra realidade. Também deveríamos nos lembrar que Desejo foi a primeira das coisas criadas” (ibid. 70). E, infelizmente, ele escapou do caminho que Destino deitou à sua frente ao passar para o Castelo, da forma que ele fez, no lugar de superá-La. É quase como se ele seguisse a direção contrária de seu melhor discernimento, quando convidou Beladona para levá-lo. Ele disse: “As Três Irmãs também eram consideradas as guardiãs do Caldeirão da Criação, que é lugar onde o passado, presente e futuro são como um, ainda que em estado de fluxo, movimento e potencial prometido” (ibid. 88/89). O que novamente nos leva ao desafio final: “Então, de certo modo, quando começamos a procurar a Deusa e sua magia, estamos, com efeito, nos tornando o caçador. Ainda assim, quando então a encontramos nos tornamos a caça, porque a Deusa nos prega ao chão, e faz-nos dela para sempre” (ibid. 90).

É nesse desafio, quando a mesa vira, que precisamos ser fortes e focarmos na superação através da compreensão e, então, aplicarmos a experiência prática que já temos – isso é crescimento. Sem Saturno existiria pouco progresso, sem a Lua existiria pouca visão. A conjunção destas forças em uma unidade superior de aceitação, já que o destino de cada um é único e grandioso não importando o quão insignificante no grande esquema, é ainda a maior força na vida de cada um e de todos. Destino não é relacionado ao infortúnio, na verdade, talvez devêssemos pensar melhor sobre o termo infortúnio sob a luz do poder que Destino nos apresenta em termos de desafios, dos quais as lições de crescimento podem ser extraídas. Armados à semelhança de Tubal Caim, podemos participar na forja do nosso próprio destino e embarcar com coragem na ordália da superação – e é na luz do elemento do sacrifício relacionado ao Corço (Roebuck) que ela é mais bem compreendida. Como falecido magister da Cultus Sabbati, Andrew D. Chumbley disse: “O Caminho do Sacrifício faz o Homem Completo”. Em outras palavras, quando Destino apresenta os desafios e os enxergamos como infortúnios, isso significa que estamos perdendo o conceito inteiro, que estamos rejeitando a Senhora da Sabedoria e focando somente na cegueira da Senhora Fortuna, maldizendo sua Roda da Fortuna. Com a maldição, caímos nos mais baixos caminhos do ser do Pai Saturno, e nos engajamos em um processo de desintegração e piedade que nos deixa cegos às ferramentas oferecidas de boa vontade por Tubal Caim em nossa batalha no Castelo silencioso, onde nos encontramos não somente com Ela – mas com toda a atrocidade e toda a beleza que conhecemos como ‘Self’.

Um último e significante ponto a se fazer aqui está relacionado a Destino ou fatalismo em um contexto mais filosófico. Parece que há uma brecha entre Destino e Fatalismo. É como se ela pudesse inspirar o abraço de Destino de formas entendidas como boas e/ou más. No passado, quando o fatalismo era uma doutrina filosófica, não existia nada significativamente diferente entre Destino e Fatalismo. O fatalismo simplesmente se referia a uma submissão ao Destino, similarmente às ideias de Cochrane. Ela não carregava nada de necessariamente mal ou ruim em termos de um foco exclusivo na desgraça. Nos casos de pensamentos fatalistas centrados ao redor de algum infortúnio catastrófico, algo glorioso sempre viria na sua esteira. Porém, hoje em dia, o fatalismo normalmente se refere a alguma desgraça inevitável que está prestes a atingir a vida de alguém, ou refere-se a uma perspectiva negativa de vida. Podemos também mencionar o ideal estóico, no qual o suicídio poderia ser transformado em um ato de dignidade frente a Destino, e assim receber a opção de ingerir o Cálice Envenenado, como no caso de Sócrates e Sêneca. É importante ressaltar que os suicídios destes filósofos foram exigidos pelo Imperador. Não foi uma escolha de Destino, mas uma aceitação de Destino, uma saída honrosa de uma situação que não podia ser transformada de modo favorável a eles.

Talvez Cochrane tenha visto o seu suicídio ritual dessa forma, como uma reflexão da Mãe Lua ou, ainda, a vontade de Hécate, a saída inevitável de uma situação que não poderia ser transformada para algo melhor. Existe uma passagem interessante em uma de suas cartas a Joe Wilson que poderia indicar tal atitude. Cochrane disse em relação às “leis bruxas” o seguinte: “Não faça o que você deseja – faça o que é necessário. Tome tudo que lhe é dado – dê tudo de si. O que eu tenho… eu seguro! Quando tudo o mais estiver perdido, e não até então, prepare-se para morrer com dignidade” (RCL:50). Talvez ele visse o suicídio ritual, ao ingerir de bom grado o veneno que Destino lhe deu, como uma forma digna de deixar o corpo terrestre para trás, a favor da Companhia Oculta. Outra citação dele pode ser entendida de tal forma: “Ver a Senhora não é suficiente… porque em Destino, e a superação dela, é que há o ganho da chave da inspiração e da própria morte. Não existe destino tão terrível que não possa ser encarado e superado, seja por uma vitória concreta, ganha pela ação ou uma vitória mais profunda do espírito engajado na batalha solitária do Self. A Senhora do Destino, destino e danação são a provação, o Castelo das Ordálias, no qual devemos nos encontrar, para vencer ou morrer” (RT:161). Pode parecer que Cochrane se viu derrotado por Destino. Seu encontro no Castelo e sua batalha lhe garantiram a morte, ou “polegares para baixo”, para continuar nossa antiga alegoria romana relacionada ao seu suicídio ritual.

Cochrane definiu a Arte de ser sobre a Verdade, Experiência e Devoção. Todos esses elementos ele colocou sob a misericórdia de Hécate, Mãe Lua, Senhora Fortuna ou Destino. Parece que ele pode ter esquecido algo em sua identificação com o Corço, como o símbolo do sacrifício e da liderança, que é a ferocidade e a coragem. De qualquer forma, seu legado vive e sua centelha espiritual continua a inspirar. O que fazer de sua morte prematura e sua atemporalidade ou temporalidade é ainda matéria de uma multiplicidade de opiniões, e no final isso provavelmente não importa, já que as visões e os ensinamentos que ele compartilhou com aqueles que continuaram seu legado ainda estão lá para nutrir. Vendo o crescente interesse em seu legado, podemos observar que ele ganhou, enfim, a vida eterna. Ambas, as lições que ele aprendeu e dominou, e as lições que o derrotaram, estão lá e podem servir como uma bússola no caminho do peregrino.

[1] Nota da Tradução. Roebuck in the Ticket significa literalmente “Corço na Moita”.

[2] Nota da Tradução. “Shapers” significa literalmente “Moldadores da forma”.

Leitura recomendada:

Cochrane, Robert & Jones, Evan John (Ed. Mike Howard). 2001.The Roebuck in the Thicket. Cappall Bann. Abr. No texto, RT.

Cochrane, Robert & Jones, Evan John (Ed. Mike Howard). 2002. The Robert Cochrane Letters. Cappall Bann. Abr. No texto RCL.

Huson, Paul. 2004. Mystical Origins of the Tarot. Destiny Books. Abr. No texto MOT.

Frisvold, Nicholaj. 2010. Artes da Noite – A História da Prática da Bruxaria. Ed. Rosa Vermelha

Links Indicados:

+ Father Saturn, Mother Moon (Ensaio Original em Inglës)

+ The Clan of Tubal Cain (Página Oficial do Clã)

+ O Fluxo e o Contra-fluxo: O Feitiço e o Milagre

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/pai-saturno-m%C3%A3e-lua

A Origem do Tarot

A origem do Tarot continua em questão e são muitas as teorias propostas. Na verdade, porém, nada existe de idêntico em outras culturas, pintado ou impresso em cartões, que pudesse ter estabelecido um modelo direto para o jogo de 78 cartas que vem à luz, na Europa, no final do séc. 14. E os desenhos mais antigos de cartas que chegaram até nós são coerentes com a iconografia cristã dessa época. Se essa afirmação vale particularmente para os 22 arcanos maiores, não cabe inteiramente para o conjunto das 56 ou 52 cartas do baralho sarraceno, já mencionado no séc. 14.

Apesar desses dois indícios mais próximos cabe investigar a possível influência de outras culturas desse período histórico e, igualmente, o material resgatado de civilizações anteriores.

Alguns estudiosos mostram as analogias entre o Tarot e o antigo jogo indiano do Chaturanga, ou jogo dos Quatro Reis, que correspondem aos quatro naipes das cartas de jogar. A quadruplicidade, no entanto, é a representação de uma realidade universal que transcende os dois jogos em questão.

O Chaturanga, que data do séc. V ou VI, antecessor do moderno jogo de xadrez, originalmente tinha o Rei, o General (a Rainha moderna), seu Cavaleiro e os peões ou soldados comuns. Não há, porém, indicações consistentes de como poderia ter ocorrido um caminho entre esse jogo e o Tarot.

Cruzados ou árabes?

Há quem acredite que as cartas de jogar foram levadas para a Europa pelos cruzados. Contudo, a última Cruzada terminou mais ou menos em 1291 e não existem referências que comprovem a presença de cartas de jogar na Europa até pelo menos cem anos mais tarde.

Uma justificativa para a origem sarracena das cartas é o nome espanhol e português naipe, que derivaria do árabe naibi. Também a palavra hebraica naibes se assemelha a naibi, o antigo nome italiano dado às cartas e, em ambas as línguas, a palavra indica bruxaria, leitura da sorte e predição. No entanto, não se encontram na história dos árabes e judeus referências ao jogo de cartas, anteriores aos século 15.

Esse tipo de restrição histórica, no entanto, não invalida a hipótese de uma criação ou recriação “multi-tradicional” do Tarot. Sabemos que, em especial na Península Ibérica, sábios cristãos, árabes e judeus, mantiveram uma criativa convivência durante o período em que o Tarot dá sinal de vida.

Do ponto de vista das provas históricas, o que se pode afirmar com segurança é que os árabes utilizavam, já em meados do séc. 14, um baralho de 52 cartas, com estrutura idêntica aos que hoje conhecemos como “arcanos menores” ou “baralho”.

Origem cigana?

Igualmente discutível é a hipótese que associa as cartas de ler a sorte com os ciganos originários do Hindustão. Apenas no começo do século XV começaram a entrar na Europa. Em 1417, um bando de ciganos chegou às proximidades de Hamburgo, na Alemanha; outros relatos situam os ciganos em Roma, no ano de 1422 , e em Barcelona e Paris, em 1427. Há, porém, claras evidências de que a raça cigana só estendeu suas peregrinações para o interior da Europa depois que as cartas já eram conhecidas ali há algum tempo.

Povo nômade, recorria aos mais variados expedientes para sobreviver. As mulheres particularmente utilizavam diversos recursos para “ler a sorte” dos habitantes das comunidades que visitavam, em especial a quiromancia (predição do futuro segundo as linhas e sinais das mãos) e, bem mais tarde, a cartomancia (utilização dos baralhos impressos na Europa). É esse um dos motivos pelos quais os ciganos ficam intimamente associados às cartas, ao baralho, no imaginário popular. Tiveram um grande papel na circulação e na difusão da cartomancia popular, mas estavam longe da tradição escrita e do conhecimento técnico de impressão das cartas.

Origem egípcia?

A hipótese da origem egípcia do Tarot foi aventada por Court de Gebelin em sua obra, Le Monde Primitif analysé et comparé avec le monde moderne, publicada a partir de 1775.

Gebelin foi um apaixonado estudioso da mitologia antiga e estabeleceu inúmeras correlações entre os ensinamentos tradicionais e as cartas do Tarot que, segundo ele, seriam alegorias representadas em antigos hieróglifos egípcios.

Um ponto, no entanto, não pode ser esquecido: embora existam necessariamente similaridades entre as linguagens simbólicas mais consistentes, isso não quer dizer que tenha existido influência direta de uma sobre a outra.

O significado das correspondências entre linguagens simbólicas constitui um tema delicado. Nem sempre é possível chegar a uma conclusão, pois similaridades e correspondências não querem dizer, necessariamente, que tenha havido cópia ou simples adaptação de uma cultura nacional para outra.

A favor da correção intelectual de Court de Gebelin, é importante lembrar que as cartas utilizadas por ele continuaram a ser as do Tarot clássico. Ele não falsificou nem inventou um “baralho egípcio” para justificar suas hipóteses. Somente após a publicação de seus estudos é que começaram a aparecer baralhos desenhados com os motivos egípcios, descompromissados com a história comprovável desse desafiador jogo de cartas.

Seja como for, é com Gebelin que se inicia a divulgação de textos e de estudos que assinalam um sentido mais alto para o Tarot, como uma linguagem simbólica, como um meio de transmissão dos conhecimentos esotéricos, espirituais, que vai muito além de sua utilização como jogo de baralho.

Múltiplas influências

A maior parte dos estudiosos reconhece uma origem iniciática do Tarot, ou seja, ele traduziria o significado e as propriedades do Cosmo, bem como o do papel do homem na Criação. Seria produto de uma Escola (escola dos criadores de imagens da Idade Média, como sugere Oswaldo Wirth). Nessa direção de pensamento, o Tarot seria uma criação de Escolas francesas e/ou italianas, no final do séc. XII, sem qualquer relação com indianos ou chineses. A favor desse ponto de vista pesa o fato de que não se encontram, em particular, jogos iguais aos arcanos maiores em qualquer outra civilização.

Há muitos estudos que apontam as relações entre o Tarot e Cabala. De fato, as 22 lâminas dos “trunfos”, ou “Arcanos Maiores”, são em igual número ao das letras do alfabeto hebraico e ao dos 22 “caminhos” ou conexões entre os sefirot do desenho simbólico denominado “Árvore da Vida”. As 40 cartas numeradas, dos Arcanos Menores, representam o mesmo número de sefiroth da “Escada de Jacó”, esquema resultante da superposição de quatro “Árvores da Vida”.

Tal constatação, porém, não exclui a hipótese de contribuições árabes, que tiveram um forte e prolongado impacto, através do sufismo, sobre a mística cristã, em particular na Península Ibérica.

Um período de ouro

Não é implausível, para alguns autores, imaginar o nascimento do Tarot por volta de 1180, período de grande força criativa na Europa, embora as primeiras menções registradas ocorram apenas duzentos anos após, em 1391. A razão para isso, segundo eles, seria simples: na origem, o Tarot não tinha a função lúdica de jogo de paciência ou de apostas em dinheiro, mas desempenhava o papel de estimular a reflexão pessoal sobre o caminho espiritual. Desse modo, ele não poderia ser mencionado como jogo de lazer nas crônicas da época.

“A essência do Tarot – escreve Kris Hadar – se funde maravilhosamente à mística que fez do séc. XII um século de luz, de liberdade e de profundidade da qual não temos mais lembrança. Nessa época, a mulher era mais liberada que hoje.”

É no correr desse período que são erigidas as catedrais góticas, em memória da elevação do espírito, e que aparece igualmente a busca de um ideal cavalheiresco que alcançará sua perfeição graças aos trovadores e o Fin’Amor, que colocará em evidência a arte de crescer no amor.

Para corroborar tal ponto de vista, pode ser lembrado que nesse mesmo período se desenvolvem os primeiros romances iniciáticos sobre os cavaleiros da Távola Redonda, a lenda do Rei Artur e a Demanda do Santo Graal.

Contemporâneo dos primeiros romances, o Tarot poderia ser considerado como um dos livros sem palavras (comuns na alquimia) para a reflexão e a meditação sobre a salvação eterna e a busca de Si, mesmo para quem não soubesse ler. Era uma porta aberta à verdade, tal como as catedrais, que permitiam aos pobres e aos ricos crescerem na comunhão com Deus.

“O Tarot” – afirma Kris Hadar – “é uma catedral na qual cada um pode orar para descobrir, no labirinto de sua existência, o caminho da Salvação”.

Paralelos do Tarot com outros jogos

Quando deixamos de lado as tentativas – algumas delas forçadas – de encontrar para o Tarot uma origem necessariamente fora da Europa, em outras culturas e povos, abre-se um outro campo muito atraente para os estudos simbólicos.

Tal como foi mencionado mais acima, a propósito da similaridades entre o Tarot e o jogo indiano do Chaturanga, os estudos comparativos permitem reconhecer princípios básicos e universais que estão presentes em diferentes jogos criados em culturas diversas sem que houvesse um contato próximo entre elas, sem que uma expressão em dado contexto cultural tenha sido necessariamente copiado de outro. Podemos encontrar provas de que o conhecimento das leis primordiais se revela por caminhos criativos e renovados.

Por Constantino K. Riemma

#KabbalisticTarot #Tarot

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-origem-do-tarot

Um Olhar Tradicional sobre Charles Leland

por Mazarol Rosmarin

As crenças mágicas dos italianos começaram a ter repercussão na mídia escrita a partir das publicações de Charles Leland, principalmente com o seu Gospel of the Witches e Etruscan and Roman Remains. No Gospel of the Witches, ele parte de um suposto relato de uma bruxa da Toscana, Maddalena, enquanto no Etruscan and Roman Remains ele descreve lendas e crenças mágicas dos camponeses da Romanha, e devido ao recém movimento de unificação da nação e língua italiana, generaliza como sendo absoluta em toda a Itália. No final dos anos 90 se utilizando das fontes de Leland e fragmentos familiares de magia popular, sob uma perspectiva wiccana de culto, o autor ítalo-americano Raven Grimassi lança a sua stregheria, ajudando a intensificar a nostalgia pela velha Itália, de muitos já nostálgicos ítalo descendentes em todo mundo. Atualmente, Brasil, EUA e Argentina são os países com maior número de ítalo descendentes, superando até mesmo a Itália em número de italianos, por isso, somado aos movimentos de Nova Era, esoterismo e revivalismo pagão, o trabalho de Grimassi teve uma aceitação muito grande.

Nos anos 2000 a antropóloga ítalo descendente Sabina Magliocco, da UCLA, apresenta uma série de artigos referentes à magia e espiritualidade italiana e ítalo-americana, classificando a stregheria de Raven Grimassi como uma “bruxaria neo-pagã de origem ítalo-americana”, desvelando o purismo que Raven Grimassi clamava existir em suas tradições.

Atualmente, na segunda década do século XXI, vemos em termos de Brasil um considerável crescimento de uma bruxaria chamada italiana, baseada nos escritos de Raven Grimassi, mas que devido à toda rejeição acadêmica que esse autor possui, mascara-se na forma de uma Bruxaria Tradicional supostamente desintoxicada dos escritos e conceitos desse autor.

As motivações do crescimento dessa bruxaria italiana no Brasil são os mesmos expostos acima. O Brasil é o maior país com concentração de ítalos descendentes, e a cultura italiana influenciou e ainda influencia a cultura de toda região Sudeste e Sul do país, acabando por refletir em muitas áreas das outras regiões brasileiras.

Porém muito do que exposto como bruxaria italiana por essas correntes neopagãs não passa de releituras da religiosidade romana, sem nenhuma relação como os movimentos de bruxaria na Itália medieval. Poucas são de fato as crenças desses stregoni modernos que possam ser classificadas como bruxaria, mas podem e devem ser classificadas como crenças neopagãs baseadas na Roma Antiga.

O trabalho de Leland deve ser lido com olhos cuidadosos e contextualizados na época e cultura no qual foi concebido. Ele relatou uma série de lendas oriundas de um período histórico confuso, onde a Itália tentava estabelecer uma identidade única, que nunca havia ocorrido em sua história. Por isso figuras de exaltação à romanidade dos italianos eram exaltadas, como o poeta Virgílio, tentando enaltecer nos italianos o sentimento de união e patriotismo como se vindo dos antigos romanos. Nunca desde o Império Carolíngio a Itália apresentara uma união.

Nesse clima de ultranacionalismo italiano é que Leland recolhe seus relatos.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/um-olhar-tradicional-sobre-charles-leland

As Correntes do Budismo

Enquanto viveu Siddhartha Gautama (o Buda Sakyamuni), sua doutrina era oralmente transmitida. Com a sua morte, foi preciso reunir na cidade de Rajagriha o primeiro concílio budista. Este teve o fim de fixar em língua Pali os fundamentos da sabedoria do Senhor Buda. Assim, foram compostos os Tripitaka (Coleção de Três Livros). No primeiro ficaram reunidos os sermões de Sakyamuni. No segundo, as regras disciplinares da comunidade de monges. E no último, uma coletânea de comentários adicionais.

Cem anos mais tarde, idéias reformistas reuniram em Vesali o segundo concílio budista. A partir daí ficou o Budismo dividido em duas grandes correntes:

A corrente ortodoxa Theravada (Escola dos Antigos) caracteriza-se por seguir literalmente aos Tripitaka e por acreditar que a Iluminação Budista é somente alcançada mediante a observância dos preceitos monásticos. Daí vir ser conhecida como a corrente Hinayana (Pequeno Veículo) do Budismo.

A segunda corrente, a reformadora, diz que todos os seres originalmente possuem a Semente da Iluminação Budista, estando esta ao alcance de todos, mesmo os sem compromisso monástico. Portanto, é a corrente Mahayana (Grande Veículo) do Budismo.

No Mahayana, o esforço individualista na conquista no Nirvana (Iluminação Búdica) cede lugar à compaixão do Bodhisattva (aquele que renuncia à sua iluminação para que possa orientar os seres à compreensão do Caminho de Buda).

A corrente Theravada difundiu-se para o Ceilão, Birmânia, Camboja, Vietnã, Indonésia e Tailândia. O Mahayana multiplicou-se em inúmeras escolas surgidas da miscigenação com diversas seitas da Índia. Ramificou-se para o Tibet, China, Coréia e Japão.

Adaptado de Shingon Shu – Budismo Esotérico

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Aoi Kuwan é autora do blog Magia Oriental, dedicado à divulgação das tradições e sistemas de magias orientais, especialmente aqueles ligados ao Japão.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-correntes-do-budismo