Biologia Miskatônica: As Tripas de Nyarlathotep

Se você já tentou trabalhar com o Panteão Cthulhiano sabe que pé no saco isso pode ser. Todo Cabalista Lovecraftiano já se cansou de tropeçar nas armadilhas que um sistema ctônico traz de brinde no fundo da embalagem.

Azathoth é o equivalente a Kether, Cthulhu um elemental da Água, Shub-Niggurath é a representação primordial do Bode de Mendes… se essas afirmações fossem jogadas em um balde d’água boiariam como um belo pedaço de merda. Cada uma das entidades do Mito de Cthulhu tem características próprias complexas e só podem ser classificadas assim com uma dose de limitação e outra maior de ingenuidade. Como é que Cthulhu poderia ser comparado com um elemental da água, se é justamente o oceano sua prisão?

O ocultismo do final do século XX se tornou desleixado, e é nosso trabalho limpar a cagada de nossos predecessores para um novo ocultismo do século XXI – imaginem enviar Shub-Niggurath para o deserto para purgar nossos pecados, são todos animais!

O primeiro passo a se dar quando se deseja mergulhar no oceano turvo e sombrio que Lovecraft nos mostrou é deixar qualquer lógica humana de fora e lidar com os fatos por mais desconcertantes que sejam.

O núcleo primordial do universo lovecraftiano é o Caos, puro, simples e impessoal. Não existem demônios malignos, criaturas perversas, seres maliciosos, apenas a indiferença e a fome. A maior ameaça que alguém tem pairando sobre sua cabeça, tal qual a espada de Dâmocles, não é a morte e sim a loucura. Uma loucura contagiosa e pestilenta que tem vida própria. A idéia é que um mero vislumbre da realidade como um todo esfarela a mente, e não importa que você não deseje mais saber o que existe lá fora, a loucura cresce em seu cérebro, em seu corpo, em sua mente, como um cancêr até não restar nada além de caos, cacofonia e desespero.

No centro deste Caos, a primeira coisa que podemos reconhecer vagamente – ao menos vagamente bem para podermos dar um nome – é Azathoth.  Os antigos cabalistas afirmavam que o anjo da morte era tão belo, que um mero vislumbre dele fazia com que sua alma fosse arrancada de seu corpo através dos olhos. Com Azathoth não seria diferente, uma imagem tão além de qualquer descrição ou compreensão que um mero vislumbre cremaria sua sanidade com as chamas da agonia e então arrancaria alma, enlouquecida, para que ela se juntasse com outros farrapos ao redor de seu corpo, como escamas ensandecidas desgastadas pelo desespero.

Nyarlathotep

 

Sendo assim, podemos imaginar que qualquer contato direto entre o Caos Primordial, esse Deus Cego e Idiota, e o resto da criação é muito difícil. Seria como tentar passar um boi por um buraco de rato (tente adivinhar se você é o boi ou o buraco do rato), o maior GangBang Mindfuck de todos. Mas isso não significa que estamos a salvo do Sultão Caótico, pois ele tem arautos, mediadores entre o insuspeitável e o insuportável e nossa vidinha cotidiana.

Lovecraft falou de um desses arautos em uma carta que escreveu em 1921 para Reinhardt Kleiner. Ele descreveu este encontro como “o mais real e horrível [pesadelo] que tive desde a idade dos 10 anos”. Este encontro serviu como inspiração para seu poema em prosa: Nyarlathotep.

Nyarlathotep é mais humanoide dentre os seres que invadiram a mente de Lovecraft. Neste “pesadelo” descrito na carta, Lovecraft recebia uma carta de seu amigo Samuel Loveman que dizia:

“Não deixe de ver Nyarlathotep caso ele venha a Providence. Ele é horrível – horrível além de qualquer coisa que você possa imaginar – mas maravilhoso. Ele nos assombra por horas depois do encontro. Eu ainda estou tremendo com o que ele me mostrou.”

 

Após o sonho, Lovecraft comentou que nunca tinha ouvido o nome NYARLATHOTEP, mas conseguia imaginar do que se tratava.

“Nyarlathotep era uma espécie de showman itinerante, ou conferencista, que se apresentava em teatros públicos e despertava medo generalizado e discussões com suas exibições. Estas exibições consistiam de duas partes – a primeira, uma horrível – possivelmente profética – mostra cinematográfica, e depois de algumas experiências extraordinárias com aparelhos científicos e elétricos. No momento em que recebi a carta, parecia-me lembrar que Nyarlathotep já estava em Providência …. Parecia-me lembrar que pessoas haviam me contado em sussurros cheios de admiração e terror sobre seus horrores, me avisando para não chegar perto dele. Mas a carta onírica de Loveman já havia me convencido… quando saí de casa, vislumbrei uma multidão de homens se arrastando pela noite, todos sussurrando cheios de terror, se movendo em uma direção. Eu me rendi e me uni a eles, amedrontado mas ansioso para ver e ouvir o grande, o obscuro e o inominável Nyarlathotep.”

 

Esta primeira descrição do Arauto do Caos fez com que muitas pessoas, como Will Murray, chegassem a especular que este sonho foi inspirado por Nikola Tesla, cujas demonstrações públicas eram experiências extraordinárias, realizadas com aparelhos elétricos, que acabaram dando a Tesla uma fama, de certa forma, sinistra. Macacos, com ou sem rabo, peludos ou carecas, sempre buscarão a explicação menos assustadora para as luzes que surgem no céu, rugindo como um leão.

O mundo de Lovecraft, e estou sendo literal aqui, ou seja, o lugar onde ele existia, não era exatamente o nosso. Ele existia neste mundo em que habitamos, mas também existia em seus sonhos. Seus contos “criativos”, não eram meras alegorias racionais, mas transcrições, muitas vezes extremamente fiéis, das imagens que via quando sua mente racional era desligada. Nyarlathotep não era uma versão macabra de Tesla, Nyarlathotep era, e é, uma manifestação real do mundo que Lovecraft acessava via seus sonhos. E assim que começou a escrever sobre aquele que chamou de “O Caos Rastejante”, Lovecraft começou a infectar todos aqueles que liam seus contos.

Nyarlathotep aparece em apenas quatro contos e dois sonetos de Lovecraft – nenhuma outra criatura do Mito recebeu tanta atenção – mas com o tempo começou a surgir em inúmeros outros trabalhos de diferentes escritores.

O Homem Negro difere dos outros seres do Mito de inúmeras maneiras. A maioria deles foram exilados para as estrelas, como Hastur, ou se encontram aprisionados, como Cthulhu; Nyarlathotep, no entanto, está na ativa e freqüentemente anda pela Terra na forma de um ser humano, geralmente um homem magro e alto. Se no momento vivemos em um hiato onde os Antigos e os Deuses Mais Antigos estão em “stand-by” esse hiato parece não afetar o Arauto do Caos. Nyarlathotep tem “milhares” de outras formas, a maioria delas tem a reputação de ser enlouquecedoramente horríveis.

Grande parte dos Deuses Exteriores possuem seguidores e cultos que os servem; Nyarlathotep não, ele age como intermediário entre esses cultos e algo além. Eu arrisco dizer que ele é o link, o cabo de rede que liga de cada um dos diferentes cultos ao servidor primordial cego e idiota, de onde tiram o seu poder.

Nyarlathotep não apenas decreta a Vontade dos Deuses Exteriores, ele personifica esta Vontade. É seu mensageiro, coração e alma. Desta forma lidar com ele se torna um exercício não apenas de abraçar a loucura, a ruptura dessa coisa frágil que chamamos sanidade, mas de se tornar um tentáculo desta loucura. Não é à toa que alguns sugerem que será ele o responsável pelo fim da raça humana e deste planeta.

Nyarlathotep, Poderoso Mensageiro… desça do mundo dos Sete Sóis para zombar… Grande Mensageiro, o que trouxe a estranha alegria a Yuggoth através do vazio, Pai dos Milhões de favorecidos… Como explorar os aspectos místicos deste avatar, sem nos atirarmos dos mais altos edifícios? Como calcular a Gematria Cancerígena de seu nome?

NIRLAThTP = 780

MChQRI RZI MTH VMOLH {os mistérios mais profundos abaixo e acima}

ShPTh {lábio, linguagem; costa, fronteira}

Ophis {serpente, cobra}

 

NIRLAThVTP = 786

ShMSh OVLM {Sol do Mundo; Sol Eterno}

PShVTh {suave}

asteios {agradável, belo}

 

Niarlathotep = 656

Messias {O Ungido}

OQLThVN {O Tortuoso}

ShShVN {alegria, satisfação}

Assim que sonhou com Nyarlathotep, Lovecraft – Amor à Arte – o identifica com o Caos Rastejante e descreve como “o fascínio e aliciamento de suas revelações” por fim o levou a algum “cemitério revoltante do universo”, que é assombrado pela “aguda lamentação monótona de flautas blasfemas de inconcebíveis câmaras obscuras de além do tempo. ”

Nyarlathotep = 1046

aei polon {moto perpétuo, um dos títulos de Pan}

Eli eli leina sabachthani {Meu Deus, Meus Deus, por que me abandonaste?}

“Em minha solidão vem –
O som de uma flauta em bosques escuros que assombram as colinas longínquas.
Mesmo a partir do rio bravo chegarem até a borda
do deserto. E eu contemplo Pan ”

– Liber VII, Prólogo do não Nascido, 1-4, Crowley.

Nyarlathotep = 1776

Apokalypsis alethejas {Revelação da Verdade}

O Messias ek nekron {O Messias dos Mortos}

To alethinon Inysterion {O Mistério Verdadeiro}

Atributos que enfatizam o aspecto mensageiro de Nyarlathotep, ele que é o Messias do Caos, o Primeiro Emissário dos Grandes Antigos, o Mestre Negro do Necronomicon ~ Lovecraft apenas sonhou com o livro após ter sido apresentado a Nyarlathotep.

Mil máscaras escondem sua forma, privam o universo do horror de sua fisionomia. Há séculos caminhando pela Terra, chamado por mil nomes, adorado pelos insanos, os marginais, as filhas da histeria, os loucos solitários, os grupos de escolhidos.

No Congo surge como Ahtu, uma massa gelatinosa de onde saem tentáculos dourados. É adorado por humanos sem esperança, aqueles que habitam na própria loucura. Trazem em seu corpo os sinais de sua adoração – auto-mutilação. Amputados, cobertos de cicatrizes causadas por espancamentos e açoites que quase os levaram à morte. O culto moderno se mescla com o Vodu, seus sacerdotes o evocam com o uso de braceletes dourados.

Na Inglaterra é chamado de Black Man – o Homem Negro. Surge como um homem calvo, mais escuro do que a noite sem lua, apesar de suas feições caucasianas. Possui cascos e é adorado por covens de feiticeiras.

No Egito é conhecido como o Faraó Negro, e tem a aparência de um. Adorado pela Irmandade do Faraó Negro.

No Quênia é temido como o Vento Escuro, uma tempestade que varre a existência da face da Terra.

A Mulher Inchada Chinesa. A caricatura de um ser humano morbidamente obeso, coberto de tentáculos, que utiliza um leque para criar a ilusão de uma delicada donzela. Seu culto conta com emissários em Estocolmo.

Aqueles que alcançam a Terra dos Sonhos percebem sua presença como a pútrida neblina rastejante.

Os estudiosos das Artes Negras às vezes entram em contato com um demônio negro, que promete riquezas e poder, se dispondo a revelar uma sabedoria esquecida pelos primeiros seres criados no universo. Infelizmente para todos que compactuam com a criatura, ela cumpre sua parte do trato.

Na Califórnia, no Tennessee e na Louisiana já foi chamado de O Escuro. Um homem negro como o óleo que jorra do chão, sem a face. Com altura que ultrapassa os 2,40m é incapaz de ser detido por barreiras físicas.

O Que Vive nas Trevas. A criatura dos mil apêndices que habita a Floresta de N’gai.

No Antigo Egito enviava a mente de seus seguidores a eras remotas do tempo. Era adorado e temido como o Deus Sem Face, na forma de uma Esfinge Negra e sem rosto.

No Haiti o chamam de O Horror que Flutua, uma forma gelatinosa azulada, coberta de veias vermelhas, que surge no mar.

Austrália, Providência – Ilha de Rodes – e Yuggoth… nesses locais uma criatura semelhante a um morcego inchado. Ele evita a luz, como se ela o ferisse fisicamente. Adorado nesta forma pelo Culto da Sabedoria Estrelar, na América, que o evoca através do Trapezohedro brilhante. No continente australiano, aborígenes desajustados também lhe dão o título de Devorador de Faces, Asa Negra, Morcego da Areia, Pai dos Morcegos.

O Que Uiva na Escuridão. Na região norte dos Estados Unidos existem relatos de um gigante que possui um único tentáculo no lugar do rosto, que uiva pelas florestas. Relatos da Floresta de N’gai descrevem a mesma criatura.

L’rog’g! É Assim que os seres cubóides de L’gy’hx chamam o enorme morcego de duas cabeças.

Em São Paulo, Natal, Brasília, Mato-Grosso e na Califórnia, perguntando às pessoas certas, certificando-se de que não temam se passar por tolas, você pode ter a sorte de ouvir os relatos sobre o Sete Peles.

Os semitas antigos o chamaram de Samael, e hoje ainda é adorado em Israel pelo Culto de Malkira. Alguns gnósticos chegaram a afirmar que ele é o Demiurgo, que se fez passar como o criador para Moisés e lhe ditou os livros do Antigo Testamento.

Na Malásia aqueles que conhecem as velhas histórias temem Shugoran, aquele que se disfarsa como um homem negro, tocando um chifre enorme antes de grandes desgraças se abaterem sobre aqueles que escutam o som.

Em hospícios ao redor do mundo, é possível ouvir sobre o Homem Sussurrante, que atormenta os sonhos dos já insanos, lhes mostrando futuros desastres e guerras e sabendo que jamais acreditarão em seus profetas.

A Coisa Com a Máscara Amarela. Alguns afirmam que ele é o único ocupante do monastério sem nome construído no Platô de Leng, e o chamam de o Sumo Sacerdote que Não Deve Ser Descrito.

Esse é o caminho mais apropriado para quem quiser abraçar o universo de Lovecraft. Em vez de desesperadamente tentar encaixar os Deuses Antigos neste ou naquele sistema anterior veja as coisas como elas foram transmitidas. Somente assim algo novo pode explodir. Não tente categorizar nada, mas sim deixe que o nada categorizar você.

por LöN Plo

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/biologia-miskatonica-as-tripas-de-nyarlathotep/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/biologia-miskatonica-as-tripas-de-nyarlathotep/

A Missa de Panielo

Com o advento do capitalismo e a preocupação crescente no acúmulo de bens & capital, o inconsciente coletivo da humanidade acabou por resgatar uma das imagens arquetípicas primordiais: Papai Noel.

Papai Noel, como atribuição arquetipica, é visto como um velhinho simpático, que deseja sempre o bem para os seus & retribui este bem, ou seja, as boas ações, com presentes. Deste arquétipo principal derivou-se uma egrégora universal, onde um Papai Noel mundial percorre todo o globo na noite de Natal (25 de dezembro no calendario juliano, data aceita como o dia do nascimento do deus sacrificado do catolicismo) distribuindo presentes para as crianças que se comportaram conforme os padrões morais-éticos estabelecidos na época.

Esta egrégora é alimentada pelos proprio beneficiários, ou seja, as crianças. Milhões de crianças, de varios credos, raças e idades (devido à globalização da economia) unem sua vontade numa grande evocação onde pedem, fervorosamente, que Papai Noel traga, na noite de Natal, o seu presente, a sua paga pelo bom comportamento no decorrer do ano.

Papai Noel, como egrégora, vem sido alimentado há algumas décadas. O ritual da Missa de Papai Noel (PANIELO) tem como objetivo utilizar a imagem de Papai Noel como foco mágico para a concentração da vontade e reflexo das necessidades do conjurador. Sendo assim, o ritual conjura a egrégora e apresenta o desejo que cada conjurador quer ver realizado. A energia dispendida no ritual é acumulada pela egrégora, transmutada e devolvida ao conjurador na forma de seu pedido realizado.

Preparação & Materiais

O ritual deve ser realizado em um ambiente fechado, aconchegante e familiar a todos os participantes. São preferíveis ambientes tipicamente burgueses, como a sala de uma casa de familia “respeitável”, que possua, preferencialmente, uma lareira.

Deve-se encontrar um “pinheiro” (normalmente o topo deste), que caiba dentro da sala. Este pinheiro deve ser enfeitado com bolas de cristal multicoloridas, mini-lâmpadas coloridas que piscam, pequenas imagens com motivos natalinos (i.e. embalagens imitando presentes, trenos, papai-noelzinhos, etc). Não é necessário restringir os bibelôs à arvore, sendo que toda a sala pode ser enfeitada, conforme a vontade dos participantes (mas sempre seguindo a linha de motivos natalinos). A lareira, se existir, deve ser enfeitada com um cuidado especial, e nela devem ser penduradas meias (uma para cada participante).

O enfeite da árvore é de suma importância, visto que serve como um ponto de referência ao Papai Noel, para que ele reconheça a casa onde espera-se sua visita.

Esta preparação material deve ser feita pelo menos uma semana antes da realização do ritual. A sala deve ser mantida, durante essa semana, limpa e em “ordem” (i.e. ordem simétrica). Todos os participantes devem estar presentes durante a preparação da árvore e da sala, e se mostrar dispostos a ajudar na preparação.

A egrégora atual de Papai Noel tem como imagem um homem idoso (70-80 anos), caucasiano, de cabelos brancos bem aparados, uma barba longa (que vai até o meio do peito) branca e plena, bem aparada e limpa. Seu rosto apresenta poucas rugas, sendo mais visíveis quando sorri. Dentes limpos, simétricos e brilhantes. Usa um óculos de aros redondos, de grau imperceptível. Apresenta-se como obeso (120-150 kg), mas de uma forma bem “distribuída” entre os membros do corpo. É ginecomasta e possui um abdômem proeminente. Veste-se com um tecido vermelho acetinado, com as bordas brancas. Calça e camisa compridas, com um grande macacão para proteção contra frio extremo, botas pretas fechadas até o tornozelo, luvas brancas finas e um cinto preto, com uma grande fivela dourada. Utiliza um gorro em forma de cone, do mesmo tecido da roupa, e uma bola de pêlos pende da ponta do cone. Vive em uma parte obscura do Pólo Norte, provavelmente no subterrâneo. Desloca-se com a ajuda de um grande trenó dourado, próprio para neve, puxado por seis renas “mágicas”, que têm a capacidade de voar. Papai Noel traz consigo um grande saco vermelho, onde carrega os presentes que vem entregar.

O ritual deve ser realizado durante a noite, preferencialmente à meia-noite do dia 24 de dezembro. Os conjuradores devem escolher um simbolo qualquer para representar seu pedido, podendo ser um sigilo ou qualquer outro símbolo que contenha a ideia do pedido.

No dia da conjuração os participantes devem se reunir pelo menos uma hora antes do inicio da evocação. Durante essa hora os participantes podem utilizar qualquer tipo de substância que aumente sua percepção ou leve a estados catabólicos. Neste ínterim deve-se refletir ou mesmo comentar com os colegas seu pedido ao Panielo (Papai Noel).


A Conjuração

Na hora marcada, os participantes devem se reunir ao redor da arvore e bradar, em voz alta e com extremo desprendimento, apontando com o símbolo de seu pedido para a árvore, esta conjuração:

Vem turbulento pela noite! Vem!

De PANIELO! Iô PANIELO!

Iô PANIELO! Iô PANIELO! Do mar de além

Vem do Pólo Norte! Vem!

Vem trazer meu presente! Vem!

Sem mais demora! Vem!

Cortando o céu em seu trenó! Vem!

Com as renas cavalgando as nuvens! Vem!

Trazendo meu presente! Vem!

Iô PANIELO! Iô PANIELO!

Com sua barba branca! Vem!

Vem trazer meu presente! Vem!

Eu fui um(a) bom(a) menino(a)! Vem!

Ó PANIELO! Iô PANIELO!

Iô PANIELO! Iô PANIELO! Iô PANIELO!

Deve seguir uma grande gargalhada como a de Papai Noel (Hô! Hô! Hô!). Durante toda a conjuração cada participante deve visualizar um grande trenó cruzando o globo, saindo do Pólo Norte e dirigindo-se para onde o grupo agora se encontra. Dentro do trenó, o conjurador deve visualizar Panielo e seu saco, contendo seu presente.

Logo após a gargalhada, faz-se alguns instantes de silêncio, onde reflete-se novamente sobre o pedido feito ao Panielo. Então cada um dos participantes (um de cada vez) brada, em voz alta, segurando no ar (sobre a cabeça) o símbolo do pedido, esta fórmula:

Sim, Panielo! Eu fui um(a) bom(a) menino(a)!

Traga meu presente que é [falar o pedido], sem mais demora!

Repete-se a gargalhada em coro e faz-se mais alguns instantes de silêncio. Logo após finaliza-se bradando estas palavras:

Está feito!

Panielo ouviu meu clamor!

Satisfez meu desejo!

Agora volte para o Polo Norte, Panielo!

Continuarei a ser um(a) bom(a) menino(a)!

Agora cada participante gargalha livremente, de preferência até a exaustão, com grande desprendimento e entrega.

Conclusão

Dependendo da vontade de cada um, segue-se à conjuração uma grande orgia, ou um grande festim, onde cada participante deve abandonar o simbolo de seu pedido e esquecer completamente o pedido em si.

Se todos os passos do ritual forem realizados com grande devoção e desprendimento, o pedido será realizado.

 

por Leghba Valys 418 em 19980427 e.v.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-missa-de-panielo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-missa-de-panielo/

A morte de John Kennedy

Dallas, 22 novembro, 1963. O então presidente americano John Fitzgerald Kennedy, fazia uma visita a cidade texana. No roteiro estava programada uma parada em sua honra, e um desfile em carro aberto pelo centro da cidade.

Kennedy se reuniria com personalidades, empresários, senadores, o prefeito da cidade, e o governador do Texas. Na audiência JFK iria tratar dos assuntos que mais turbulência haviam causado a seu governo: URSS, e a sua aliada, Cuba. Depois de vários incidentes que colocavam em dúvida sua capacidade de administrar a política externa da superpotência. Kennedy, decidido a acabar com as dúvidas sobre sua firmeza, havia meses antes num discurso caloroso, afirmado que os EUA, haviam aceitado o desafio de chegar a Lua antes do fim da década, e antes dos soviéticos. Um golpe de propaganda forte o suficiente para alavancar a corrida espacial, e fonte de inspiração para que a NASA colocasse o homem na Lua antes dos “comunistas”.

Tudo transcorreu na maior normalidade, durante a manhã da chegada do presidente. Próximo das 12:00, o desfile em carro aberto, pelas ruas de Dallas, começou. Uma multidão foi às ruas ver o presidente, e aplaudi-lo. O desfile passaria por uma área central da cidade, onde havia um parque, tradicional cartão postal da cidade.

Ao chegar ao Parque Dealey, o carro transportando o presidente, era escoltado, por batedores, de moto, na frente, e seguido, por mais um carro idêntico, em que vinha o resto da comitiva. No carro presidencial, seguiam, o presidente, a sua esposa, Jaqueline Kennedy, e além do motorista, o governador do Texas.

Os batedores percorreram a rua que contorna o parque, seguidos pelo conversível em que estava Kennedy acenando ao público, e o resto da comitiva. Ao entrar na avenida Park Drive, na frente de centenas de pessoas, um som, estalo seco e alto foi ouvido, o primeiro tiro. Atingiu o governador do Texas. Não houve pânico. Nem reação. Em seguida o segundo tiro atingiu o ombro de Kennedy, o presidente moveu seu corpo lentamente, sem entender o que aconteceu e a primeira dama, continuava a acenar ao público. Mais dois segundos, e mais um tiro, foi disparado. Este atingiu o pescoço de JFK, que tombou o corpo, em direção a esposa, que se assustou (talvez ela tenha sido a primeira a perceber o que se passava). Em mais dois segundos, o tiro final, e mais certeiro, atingiu a parte posterior da cabeça de Kennedy, saindo na altura do pescoço, e atingindo o governador do Texas nas costas, com a bala seguindo uma trajetória, no mínimo incomum, acertando em seguida sua mão direita, sendo então rebatida pelo osso da mão, e atingindo sua perna esquerda, onde finalmente parou. Nesse momento, o motorista do carro, agente do serviço secreto, acelerou, em disparada. Horas depois, o hospital que recebeu o presidente, vivo, mas com ferimentos gravíssimos. O declarou morto.

As 17:00 horas o vice-presidente, Lyndon B. Johnsson, assumiu o cargo de presidente dos EUA, a bordo do Air Force One, na base aérea de Andrews, em Washington.

As 17:50, a polícia de Dallas, prendeu o ativista comunista, Lee Harvey Oswald, como assassino de Kennedy. Oswald foi morto uma semana depois, por um desconhecido, e o caso encerrado. Todas as informações sobre Oswald assim como seu passado, foram mantidas em sigilo absoluto, e classificadas como, artigo de segurança nacional pela CIA.

O presidente, Kennedy, foi enterrado, em um caixão lacrado, e as fotos dados de sua autópsia, também considerados de segurança nacional.

As informações só poderão ser reveladas 75 anos após a data do assassinato. Isso é em 2038, quando os membros da CIA, supostamente envolvidos na investigação, estarão, muito provavelmente, mortos.
A investigação foi toda ela conduzida pela agência de inteligência americana. E muitos fatos são considerados de veracidade duvidosa. Algumas testemunhas chave foram mortas em circunstâncias duvidosas, ou desapareceram sem deixar rastro.

São vários os pontos de interrogação:

1 – Lee Harvey Oswald, o suposto assassino de JFK, tinha ligações com a CIA. Integrara o grupo que fora formado e treinado pela agência para invadir Cuba e derrubar Fidél Castro do poder, numa iniciativa frustrada que causou muito constrangimento. O famoso incidente da “Baía dos Porcos”. Muitas de suas despesas eram pagas por funcionários do alto comando militar americano. Oswald fora um agente infiltrado americano em território soviético, e quando dentro da URSS, traiu o Pentágono, se unindo ao Exército Vermelho, crime esse que é punido com a morte. Mas ao voltar aos EUA nada lhe aconteceu.

2 – A arma que teria sido usada no assassinato, um rifle italiano, dos tempos da Segunda Guerra, era incapaz de dar 4 tiros em 7.6 segundos, (intervalo te tempo entre o 1º e o 4º tiro), com a precisão necessária. Uma arma dessas precisa ser rearmada manualmente, num processo que consome tempo, dificulta a mira, e torna impossível acertar um alvo em movimento. Os melhores atiradores do exército americano foram convocados para tentar repetir as condições dos tiros, e o resultado foi que, nenhum conseguiu dar os 4 tiros no mesmo intervalo de tempo, mesmo sem fazer mira.

3 – O tempo gasto pela polícia de Dallas para prender um suspeito foi muito pequeno. Oswald foi detido menos de 20 minutos após o assassinato de Kennedy, quando entrava em um cinema. Foi levado a interrogatório, durante 8 horas, e as fitas que gravaram o interrogatório, censuradas, e consideradas de Segurança Nacional. Dias depois um desconhecido surgiu do meio de uma multidão, quando o acusado era transferido para um presídio, e atirou 2 vezes, matando Oswald. Não houve reação e o assassino do assassino não foi sequer procurado.

4 – A trajetória das balas é terrivelmente estranha. Se sustentada a hipótese dos 4 tiros dados pela mesma arma fica claro que pelo menos um deles teria atingido a nuca de Kennedy, saído na altura do pescoço, atingido as costas do governador do Texas, (sentado no banco da frente), percorrido uma trajetória de “S” pelo seu peito, saído na altura do “umbigo”, atingido sua mão direita, onde o tiro foi refletido, atingindo finalmente a perna esquerda do governador, na altura da coxa. Não há registros de uma bala disparada por um rifle calibre 22 ter tamanha força para atravessar duas pessoas, e pior ainda, seguir uma trajetória tão absurda, sendo depois encontrado na maca do hospital em perfeito estado.

5 – Testemunhas afirmaram ter ouvido tiros sendo disparados de trás de uma cerca, ao lado do Parque Dealey, a menos de 20 metros do carro de Kennedy. E pessoas usando terno foram vistas atrás dessa mesma cerca, em atitude estranha, e logo após os disparos, esses suspeitos teriam partido em um carro. E desaparecido. As pessoas que afirmaram ter ouvido os tiros vindo da cerca, foram detidas e receberam uma ríspida advertência para que confirmassem a versão da CIA sobre os disparos, por questões de “segurança nacional”.
Haviam interesses relacionados a morte de Kennedy. Muito dinheiro estava em jogo. Kennedy queria retirar tropas americanas do Vietnam. Quando morreu, os EUA tinham 15000 soldados na região. Ele havia dado ordens para uma retirada inicial das tropas programada para antes do Natal de 63 (JFK foi morto em 11/63). Após sua morte, assumiu a presidência, Lyndon B. Johnsson, e sua primeira iniciativa foi reafirmar o compromisso de intervir no Vietnam, assinando um memorando de segurança nacional ordenando a permanência das tropas no sudeste asiático. Foram enviados no mesmo mês mais 27000 soldados. Ao final de seu primeiro ano no governo, 174000 soldados estavam na região. A guerra saiu caro aos EUA. Consumiu 75 bilhões de dólares/ano, num conflito que se arrastou de 1963 a 1974. As empresas do setor armamentista, que tem lobby enorme sobre o governo, tiveram seus dias de rei.

– A Bell Helicópters, fabricante de helicópteros, tinha um contrato de fornecimento do helicóptero Bell UH -1 Huey, e o exército americano teve nada mais nada menos que 7300 desses helicópteros abatidos durante o conflito.
– A General Dynamics venceu a concorrência para construir para a USAF, o caça-bombardeiro F-111 Aardward. Apenas para ter o projeto pronto, essa empresa cobrou 35 bilhões de dólares. E a aeronave foi considerada um fracasso. Outra empresa que forneceu armamento foi a Grumman, que recebeu do Pentágono, uma encomenda para desenvolver e construir o caça F-14 Tomcat. Foram 1200 aviões ao preço de 40 milhões de dólares a unidade.

Muito foi dito, pouco foi provado, mas é essencial dizer que em 1976, uma comissão de investigação do congresso americano, concluiu um novo relatório, e lá foi dito, que no incidente de 22 de novembro de 1963, houve provável conspiração.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-morte-de-john-kennedy/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-morte-de-john-kennedy/

A Cartografia da Consciência de Stanislav Grof

Stanislav Grof é um pesquisador da área da Psiquiatria que tem como objeto de estudo a consciência humana. Não é propriamente filósofo, pedagogo ou educador. Então por que fui buscá-lo? Porque de suas pesquisas empíricas com a consciência humana, inicialmente investigando o ácido lisérgico e depois criando a Respiração Holotrópica, emergiu uma interessante cartografia da consciência que sugere que a condição humana, o sujeito humano, tem muito mais aspectos a serem considerados em sua antropologia do que aquilo que vêm propondo as antropologias fundadas no paradigma newtoniano-cartesiano.

Grof, mediante a instalação de estados ampliados de consciência, registrou e gravou em fitas magnéticas os conteúdos elaborados pelos sujeitos de sua investigação. Coletou tais relatos, catalogou-os, organizou-os e ousou uma nova interpretação que vai além do inconsciente pessoal como proposto por Freud. Assim a cartografia que propõe não é oriunda de estudos teológicos, a partir da Revelação de livros sagrados, e nem de especulação filosófica e metafísica. É fruto de suas investigações com os estados ampliados de consciência e, portanto, tem uma base empírica.

Os detalhes da construção da cartografia sugerida por Grof encontram-se bem descritos em seus livros. Vou apresentar aqui uma breve síntese para que o leitor tenha, posteriormente, condições de compreender a concepção antropológica – concepção de ser humano – que dela emana. Tal cartografia distingue quatro níveis na consciência: a barreira sensorial, o nível biográfico- rememorativo, o nível perinatal e o nível transpessoal.

O primeiro nível, a barreira sensorial

, diz respeito a sensações físicas que sentimos quando entramos em processo de expansão da consciência e não tem muito significado na perspectiva do autoconhecimento. São sensações relativas à visão, à audição e ao olfato, por exemplo.

 

O segundo nível, o biográfico-rememorativo

, diz respeito às nossas memórias biográficas com nossos pais e pessoas próximas a nós; refere-se também à memória de acontecimentos que nos marcaram positiva ou negativamente. Aqui é possível ver toda a dinâmica psíquica como ensinada por Freud.

 

O terceiro nível, o perinatal,

diz respeito à memória e ao aprendizado experimentado por ocasião do processo de nascimento dos seres humanos no momento do parto, processo este que Grof chama de morte-renascimento, por toda dramaticidade e risco que traz. Sua cartografia sugere a existência, no nível perinatal, de quatro matrizes de aprendizado que se constituem neste momento e que, embora permaneçam inconscientes, atuam na vida pós- uterina, participando da definição de nossas características pessoais.

 

São as Matrizes Perinatais Básicas (MPB):

 

Matriz Perinatal Básica I (MPB I): também chamada por Grof de O Universo Amniótico. Esta matriz tem sua base biológica na unidade simbiótica entre o feto e o organismo materno no processo de gestação. A experiência do feto pode ser uma experiência de conforto, segurança, tranqüilidade e paz – o que o autor chama de “berço bom” – ou pode ser uma experiência de distúrbios, desconfortos e inseguranças, especialmente nos períodos finais da gestação, o “berço ruim”. Para Grof a qualidade da experiência na vida intra-uterina é um dos determinantes de comportamento futuro do sujeito humano, obviamente que em combinação com inúmeros outros fatores da vida pós-uterina. As figuras abaixo são pinturas, de autoria do próprio Stanislav Grof, que representam o que chamou de berço bom e berço ruim. Nos processos de respiração holotrópica, em estado ampliado de consciência, as experiências vivenciadas são, muitas vezes, marcadas por imagens deste tipo que Grof representou em suas pinturas. Posteriormente podem ser trabalhadas em processos psicoterápicos que guardam sensibilidade para com uma visão mais ampliada do ser humano.

 

 O Berço Bom

 

 O Berço Ruim

 

MPB II ou Devoração Cósmica Sem Saída:

ocorre no segundo momento biológico do parto e é uma situação de enorme tensão para o feto uma vez que se inicia o processo que prepara o nascimento. A sensação para o feto é tão crítica, principalmente se este experimentou o “berço bom”, que Grof denominou esta matriz de devoração cósmica. Na vida pós-uterina esta matriz associa-se a situações de estar sem saída e sem esperança pela dimensão de opressão. Permanecer preso a esta sensação pode facilitar o sujeito assumir o papel de vítima em sua vida cotidiana. A figura a seguir, também de autoria de Grof, representa a experiência dos primeiros sintomas do parto biológico e da influência da Matriz Perinatal Básica II.

 

Os primeiros momentos do parto biológico

MPB III ou A Luta Morte-Renascimento: esta matriz corresponde ao terceiro momento do parto, quando o feto começa a travessia pelo canal do nascimento. É um momento de luta e esperança. Luta porque a situação é ainda de muita opressão, mas, ao mesmo tempo, é de esperança porque é a possibilidade de fazer a travessia e superar as ameaças deste momento. A figura 7, quadro do pintor suíço Hansruedi Giger selecionada pelo próprio Grof em seu livro Além do Cérebro, sugere a experiência da MPB III ao combinar “a fragilidade anatômica dos fetos com uma maquinaria agressiva e faixas constritivas de aço à volta da cabeça, sugerindo o nascimento”.

 

 Representação da MPB III

MPB IV ou Experiência de Morte e Renascimento: é o ápice do processo de nascimento quando o feto, finalmente, completa a saída do útero materno e ganha o espaço exterior. Biologicamente tal processo apresenta os indícios ainda de luta, mas já dentro de um estágio mais evoluído e menos agressivo. Os episódios da vida pós-natal que se ligam a MPBIV são aqueles relacionados a vitórias, sucessos e triunfos sobre situações perigosas. A figura 8, de autoria de Grof, representa a Fênix que para o autor é um símbolo bastante apropriado de morte- renascimento “uma vez que envolve morte pelo fogo, nascimento de algo novo e movimento em direção da fonte de luz”.

 

A transição da MPB III para MPB IV: nascimento, luz, vitória

Grof sugere que experiências de muita dor e sofrimento numa dessas matrizes podem fazer com que a pessoa em questão guarde com esta matriz uma relação de Matriz Negativa, e afirma que “muitas observações sobre o indivíduo que está sob forte influência de matrizes perinatais negativas sugerem que ele encara a vida e seus problemas de um modo não somente vazio, mas com conseqüências destrutivas para si e para os outros, a longo prazo” (1987, p. 307-308). Entretanto, mostrou também que tais experiências podem ser acessadas e liberadas tornando a vida do sujeito mais adequada ao desenvolvimento pleno e para tanto, juntamente com sua esposa Christina Grof, criou um processo terapêutico conhecido como Respiração Holotrópica. O processo perinatal abre espaço para o quarto nível da consciência.

 

O quarto nível da consciência é o domínio transpessoal. De acordo com Grof as matrizes perinatais anteriormente apresentadas são uma ponte e fazem a comunicação entre a nossa psique individual e aquilo que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. De fato as experiências com as diferentes matrizes perinatais mostram, além das lembranças do parto biológico, seqüências que podem apresentar a história da humanidade, o envolvimento com reinos e seres mitológicos, a identificação com animais, etc… Todos estes elementos fazem parte do domínio transpessoal, que é um “lugar” descoberto pela moderna pesquisa da consciência e que está além dos campos biográfico e perinatal. É bem verdade que muitas culturas e tradições espirituais já conhecem tais domínios há muito tempo. A ciência moderna, porém, somente agora, com as últimas décadas de pesquisa da consciência, chegou a trabalhar com tal domínio que foge aos limites impostos pelo paradigma newtoniano- cartesiano. Este é o nível no qual, através da consciência ampliada, as barreiras de tempo e espaço, rigorosamente estudadas no paradigma newtoniano-cartesiano, desaparecem e dão lugar à percepção da unidade que perpassa o mundo humano, o mundo da natureza e a realidade cósmica. Aqui Grof identificou uma série de experiências, espirituais inclusive, que a humanidade há muito conhece, mas que permaneceram sufocadas, e às vezes consideradas como doentias, por uma concepção paradigmática redutiva e fragmentada. É a partir, sobretudo deste nível, que é possível considerar a espiritualidade do ser humano e também a sua dimensão ecológica, que o liga ao mundo da natureza.

 

Na tentativa de facilitar a compreensão da cartografia grofiana proponho o seguinte esquema didático apresentado na figura abaixo. Neste esquema o ponto central é o sujeito, o indivíduo humano. Tudo o que está dentro do grande “V”, que se abre sobre o sujeito, é a sua interioridade, aberta ao mundo holotrópico (do grego holos, totalidade; holotrópico é aquilo que se move em direção à totalidade). Tudo o que está fora do grande “V” é a sua exterioridade ou plano hilotrópico (do grego hylé, matéria; hilotrópico é tudo aquilo que se move em direção à matéria). Na exterioridade estão o Tempo-Espaço, a História, a(s) Cultura(s) e a(s) Sociedade(s). O mergulho (ou subida) em direção ao transpessoal, as realidades além do ego pessoal como o nome sugere, passam pela barreira sensorial, pelo campo biográfico-rememorativo e pelo campo perinatal com suas quatro matrizes básicas.

 

As pessoas podem viver seu cotidiano com atenção apenas ao mundo exterior e abrirem-se muito pouco às suas realidades internas. A vida, como é comumente vivida nas diretrizes do paradigma newtoniano-cartesiano, facilita que a pessoa chegue, no máximo, a trabalhar sistematicamente com materiais do campo biográfico-rememorativo, de modo especial dentro da dinâmica psíquica sugerida por Freud. Ao viverem assim ficam “desconectadas” de grandes energias psíquicas presentes nos campos perinatal e transpessoal. Eventos esporádicos, ocasionais ou provocados, podem, em certos momentos, “reconectá-las” com tais energias, mas uma vida que se pretenda irrigada pelas energias mais profundas da psique precisará manter esta conexão por um permanente e cuidadoso trabalho de autoconhecimento ou auto-exploração sugere Grof. A Respiração Holotrópica é uma dessas vias de autoconhecimento, mas não é a única. Muitos podem ser os caminhos utilizados para tal processo, do trabalho sistemático com os próprios sonhos às experiências artísticas diversas passando pelas diferentes técnicas de meditação. Conforme a figura 10 sugere, a pessoa que conseguiu um trabalho de auto-atenção permanente, de forma a reconectar seus níveis internos, é a pessoa re-ligada interagindo com o mundo das culturas e das sociedades com a inteireza de ser hilo-holotrópico que é.

 

 

A cartografia que apresentei sugere uma antropologia da inteireza, uma vez que Grof defende que o ser humano, para desenvolver-se plenamente, precisa re-ligar as dimensões internas de sua psique ao mesmo tempo em que necessita reconhecer suas vinculações com a realidade exterior a si mesmo, o mundo da cultura. Entende que o sujeito pode viver fragmentado: como afirmei anteriormente a cultura newtoniano-cartesiana tende a fixá-lo nos dois primeiros níveis da consciência da cartografia proposta. A conseqüência é uma vida angustiada e atormentada pela falta da energia que vem dos demais níveis da consciência e que podem ajudar a introduzir equilíbrio, ânimo, entusiasmo, capacidade de cuidado e sentido à vida. A pessoa quando desligada de suas energias vitais pode facilmente tornar-se o Zé Ninguém, sugerido por Reich.

 

O sujeito re-ligado pode, além de avançar positivamente em seu processo pessoal de individuação e realização, contribuir favoravelmente para a construção de uma cultura de paz e solidariedade. Grof chega mesmo a dizer que as situações de exploração, opressão, miséria, fome, guerras e enfermidades que nossa humanidade vive são sintomas de problemas “não apenas econômicos, políticos e tecnológicos. Eles são reflexos do estado emocional, moral e espiritual da humanidade contemporânea. (…) Esses elementos destruidores e autodestrutivos na atual condição humana são uma conseqüência direta da alienação da humanidade moderna tanto de si mesma como da vida e dos valores espirituais” (1992, p. 249-250).

 

A antropologia sugerida por Grof me faz entender o ser humano como um sujeito complexo e transpessoal, hilotrópico (=direcionado à materialidade) e holotrópico (=direcionado à totalidade), no qual estão presentes: a racionalidade, a corporeidade, a emocionalidade e a espiritualidade perpassadas por polaridades que nos fazem nos construir na história como homo sapiens-demens (Morin, 2000, p. 59-60), em meio ao conjunto dos outros seres humanos, na coletividade, o que exige uma atenção constante à complexidade sujeito individual-sujeito coletivo. Tal construção, sempre inacabada, e, portanto, sempre propiciadora de esperança (Freire, 2000, p. 114), se faz muitas vezes entre conflitos, contradições e sofrimentos, mas comporta também o desenvolvimento com amadurecimento, integração e solidariedade. Ao usar o termo transpessoal não se pretende negar o pessoal. O termo transpessoal expressa uma concepção mais ampliada de ser humano, isto é, ele não se reduz ao seu ego construído nas culturas e nas sociedades. É isto também, mas não só isto. Compreende que a construção do humano exige o pessoal e o transpessoal. Este transpessoal significa “sair de si”, de seu ego racional, e mover-se em direção aos níveis mais profundos de si mesmo; em direção aos outros seres humanos na vida interpessoal, social e cultural; em direção à natureza, aos demais viventes e ao próprio cosmo. No limite significa abrir-se, inclusive, à perspectiva do Mistério que envolve a origem e desenvolvimento da vida. Não se trata, portanto, de negar o pessoal, mas de estar aberto ao transpessoal e assim gerar uma maior capacidade de cuidado para com a vida. Esta maneira de compreender o ser humano exige de todos os humanos, e em especial do educador, um empenho de autoconhecimento, uma vez que é no trabalho consciente de religação de suas características advindas da realidade interior e da realidade exterior que se faz à consciência com a qual se apresenta à ação no mundo e ao trabalho educativo.

 

A partir desta antropologia é possível, pois, pensar uma outra educação. E é importante lembrar que educação, nesta maneira de pensar, não se confunde com ciência; e por mais que necessite desta é necessário que ela, a educação, esteja atenta aos diversos aspectos da condição humana e sua educabilidade. Assim é possível pensar uma educação na/para inteireza. Esta concepção de educação não advoga abandonar a luta política no contexto da história, mas, ao contrário, defende a participação política do educador por inteiro, re-ligado e, portanto, com energia suficiente para enfrentar obstáculos, construir sentido, favorecer a partilha, encarar os conflitos e ajudar a gerar uma cultura de paz.

 

Elydio dos Santos Neto

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-cartografia-da-consciencia-de-stanislav-grof/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-cartografia-da-consciencia-de-stanislav-grof/

Sangue, Necessidade e a Casa da Noite

Encontramos o termo ‘bruxaria’ utilizado como uma referência aos hábitos pagãos, ao naturalismo e uma série de práticas de tom mais sombrio. Em todas as suas variações, a idéia da bruxaria é diluída, enriquecida e amputada pela diversidade de práticas e inclinações que buscam este rótulo. Pode ser por isso que a que a arte das bruxas pode ser tomada por qualquer pessoa, assim como qualquer um pode se educar sobre um comércio ou arte através de alguns livros. Há outros que enveredam nos terrenos dos selvagens e há outros, por propósito ou acidente, que são reconhecidos como ‘o outro’ por um dos seus pares.

Ninguém pode ser o juiz de nada disso levado por sua própria crença, pode-se, entretanto, dizer algo sobre sua natureza. Para mim, minha percepção da Arte Tradicional vem se desenvolvendo ao longo de quase duas décadas agora, onde tenho sido abençoado em encontrar peregrinos e mestres de uma variedade de convicções que eu definiria como o Ofício dos Sábios investido na ascendência tradicional. Como muitos, tomei conhecimento do termo ‘bruxaria tradicional’ através das cartas e escritos de Robert Cochrane, e minha busca foi recompensada ao encontrar uma hoste de praticantes da arte maravilhosos, onde a consangüinidade foi mutuamente reconhecida. 

As artes e ofícios da bruxa são muitas vezes relacionados à transgressão, contudo, do tipo de transgressão e práticas que honram a natureza e desafiam a  ordem social profana em favor da verdade. Verdade — aquela incômoda palavra! Pois a verdade não está relacionada com fatos e evidências, mas com a imanência da fonte — por esta razão, podemos dizer que o ‘feiticeiro’ lida com a fonte e a bruxa transforma os trabalhos sobre a fonte em um ofício. Isto é verdade — a verdade é um estado ativo do ser. Em um mundo que ama o engano mais do que a verdade, naturalmente aqueles que defendem isto se arriscam a  serem vilipendiados e tornam-se alvo de ódio e desconfiança.

Então talvez seja correto assumir que ofício da bruxa possa ser definido como ‘possuir o conhecimento natural e oculto’, o que torna alguém apto a manipular ou apaziguar os espíritos da natureza, e fazer com que a alma do mundo seja favorável. Se assim for, muitos podem se declarar praticantes de bruxaria pela virtude feiticeira ou conhecimento íntimo do ofício de encantamentos e meios simpáticos para alcançar determinados objetivos. Naturalmente quando o conhecimento considerado oculto é revelado em divinação e pelos meios da astrologia clássica, ele pode causar suspeita — e do mesmo modo o murmurar de encantamentos que torcem e refinam uma corrente natural e desfavorável em uma favorável e gratificante.

O sábio que encanta uma verruga para desaparecer, o astrólogo que faz uma eleição e cria um talismã para determinado propósito, ou o andarilho solitário que abençoa o útero estéril para que dê luz a uma criança são praticantes da superabundância do Ofício. Poderíamos concordar que estas variedades da arte podem ser consideradas como ‘bruxaria’ no mesmo nível em que a ‘venefica’ (originalmente ‘trabalhos venerados’, que mais tarde foram associados com ‘envenenamento’) e ‘malefica’ (práticas negativas) estavam sujeitas à condenação pelo o Tribunal da Inquisição. O Ofício em si é, em última instância, os conhecimentos relacionados à ‘mão que amaldiçoa’ e à ‘mão que concede’. Também deve ser observado que há uma tendência em separar a bruxa benigna da bruxa malévola. Ginzburg descreve bem como a balança do mundo é mantida pela batalha entre os benadanti, que abençoam o mundo, e os maladante, que amaldiçoam o mundo. É o mesmo poder e segredos que são manipulados, mas por um é para benefício da comunidade e pelo outro para o detrimento do bem-estar comum. Assim, este ícone da bruxa como uma envenenadora e personificação da possível perversidade — sendo uma constante ameaça à ordem social — é, de fato, uma realidade que a bruxa abraça voluntariamente ou com relutância.

As acusações de bruxaria foram passadas às pessoas que eram acusadas de malefica, e também por agirem de formas que não estavam em conformidade com o que era considerado magia ‘lícita’. Magia lícita era, em maior parte, o trabalho simpático e com ervas, plantas e raízes, geralmente feitos por um clérigo, e daí aqueles que se envolviam com isso e estavam fora dos confinamentos eclesiásticos ou reais, e corriam risco de ser condenados por maléfica. Isso  mesmo se o trabalho fosse realizado com bons propósitos. Desde a Idade Média e até a maturidade da Idade Moderna, a ‘bruxaria’ passou por muitas fases de entendimento, mas sempre contendo algo perverso, misterioso e estranho. A palavra ‘bruxa’ se tornou tão problemática que os praticantes da Arte Tradicional muitas vezes aceitam o rótulo, só para escapar dele, como no caso de Robert Cochrane, que se limitou a aceitar o rótulo enquanto manteve um tipo de significado, embora não definisse a si como um bruxo. Para Cochrane, este desconforto com o termo ‘bruxo’ era parcialmente causado por um grupo de Wiccanos denominado por ele de ‘Gardnerianos’, que também se consideravam ‘bruxos’. Deixarei esta questão e apenas mencionar que Gerald Gardner — como demonstrado em pesquisas recentes por Philip Heselton — provavelmente obteve uma introdução tradicional em uma linhagem de bruxos tradicionais. Mas ele também queria fazer a transmissão e o conhecimento que ele recebeu como dele próprio. Para Gardner isso significava transformar a bruxaria em um sistema ritualístico mediado por uma guarnição maçônica polvilhada com alguns elementos crowleyanos e Rosacrucianos. Nada de errado nisso, mas ao fazer isso ele também se tornava o pai da religião da fertilidade moderna que vemos na Wicca hoje. Isso pode ser visto como uma transgressão em seu próprio direito, uma vez que assumiu aspectos dogmáticos distintos que são incomuns para as crenças daqueles que se definem como ‘bruxos tradicionais’ que conheço.

A idéia do sangue-bruxo/élfico é um tema constante, e de fato a questão do sangue é exatamente o que põe a bruxa à parte de um sábio ou um feiticeiro — uma linhagem secreta que vive desde tempos esquecidos, onde tudo era mistério, onde os mundos visível e invisível eram livres do véu. Possuir o sangue ou não é uma questão que às vezes é visto como provocativo e causado por elitismo, mas isso não é assim. Trata-se de linhagem e pertencimento em relação à família e aos parentes. Ao longo do tempo, muitas destas famílias se dissolveram e foram fragmentadas, levando aqueles do sangue para se encontrarem novamente, apelando ao sangue da terra e encontrando o reavivamento de seu ardente sangue lá, em sua terra natal. Para outros, o ‘cunning meeting’ (encontro sábio) e os vínculos familiares intactos fizeram o reconhecimento e aceitação do sangue-élfico menos enigmático e seus mistérios mais claros do que é para muitos peregrinos solitários que caminham pelas florestas e montanhas seguindo os sussurros de uma silenciosa pulsação na alma dos mundos.

A Arte dos Sábios é diversa, mas diversificada em todos os pólos de sangue e terra. Isso significa que uma prática específica pode manifestar-se em uma miríade de variações mediadas pela terra, pelo sangue e pelo homem — e para aqueles de olhos aguçados, estes laços se tornam salientes e evidentes onde quer que sejam encontrados. É também de minha convicção que, mesmo se o sangue for esquecido, isso não significa que ele não esteja lá.

O ícone da Bruxa que temos hoje deve muito à ‘La Celestina’ de Fernando de Rojas e a ‘La sorcière’ de Jules Michelet. Em ‘La Celestina’ encontramos o apaixonado Calisto que procura ajuda da dona do bordel, Celestina, para dominar o objeto de desejo com poções e feitiços, pintando uma imagem da bruxa sedutora e perigosa, tal como uma sereia da libertinagem possuidora da sabedoria proibida, espelhando Circe. Michelet segue essa imagem de muitas maneiras, mas dentro das anotações históricas e explicações, ele permite que a bruxa surja. Uma realidade poética — um conto de fadas encarnado — e talvez seja este ícone poético que colore nossa percepção da bruxa mais do que qualquer outro conto. Vejo Julio Caro Baroja e Carlo Ginzburg aperfeiçoarem este ícone. Também gostaria de colocar Emma Wilby e Gustav Henningsen nesta sucessão de pesquisa, pois eles alargaram o escopo de seus estudos e trouxeram mais nuances no estudo da bruxaria.

Como mencionado, Michelet argumentou que a bruxaria ocorreu como uma rebelião contra o sistema feudal e o abuso clerical na Idade Média, em outras palavras, como um contra-movimento ao abuso clerical e político. Ele se equivocou como a pesquisa de Keith Thomas e Eva Pocs demonstrou. Parece que a ‘feitiçaria’ que ele tem como foco para sua apresentação se desenvolveu dentro das paredes eclesiásticas da Igreja e dos monastérios. É possível sugerir que os clérigos e frades na verdade entraram no santo ofício com esta sabedoria ou simplesmente fizeram uso destas habilidades e encantamentos que aprenderam com os moradores da zona rural. Isso também pode ser assumido pelas idéias sobre Missa Negra e o Sabbath das Bruxas serem a mesma coisa, segundo Michelet e outros que o acompanharam. O Sabbath das Bruxas é o principal motivo que encontramos entre o povo basco e deste modo reconhecido pelas bruxas de outros lugares no mundo familiarizadas com o congresso do espírito. Pode ser que a Missa Negra seja uma corrupção deste Sabbath ou Aquelarre das Bruxas, dada a forma e significado profanos. Pelo o menos as ocorrências das Missas Negras e as investigações sobre o Sabbath das Bruxas coincidem ao longo da mesma linha de tempo e geografia. O precedente histórico das Missas Negras, no entanto, é largamente apresentado nos escândalos em torno os conventos das Ursulinas em Loudon e Aix-en-Provence, onde possessões diabólicas e matrimônios com demônios foram realizados em estilo orgiástico condizente com o imaginário popular das Missas Negras e continuados pelo abade Etienne Guibourg (1610 -1686). Guibourg morreu na prisão, mas as Missas Negras ainda foram celebradas, de verdade ou por boatos, dentre o clero francês e germânico, o que conduziu à adoração orgiástica do monsenhor carmelita Eugene Vintras e seu sucessor, o abade Boullan. Boullan adotou a Missa Negra em trabalhos de natureza sexual e mágica de forma mais similar à feitiçaria do que celebrações para apaziguar a natureza e a noite. Podemos de fato questionar se estes clérigos eram do sangue ou não — não será possível dar uma resposta, apenas admitir ou negar… O terreno da Bruxaria Tradicional é, e talvez deva ser e permanecer um mistério?

A marca da ‘bruxa’ é que ele ou ela busca ‘o outro’ em lugares de poder — e eles são encontrados em todos os lugares, assim como os parentes da ‘bruxa’ dispersos por todo o mundo, e estas encruzilhadas são encontradas em todos os lugares. É aqui que onde entra a idéia da Bruxaria Tradicional; trata-se de uma conexão com a origem pela virtude de um sangue e descendência partilhada. Trata-se de família no sentido mais radical da palavra, como famulus — habitantes de um agregado familiar, sejam eles vivos ou desencarnados, simulando a idéia de um totem entre os índios norte-americanos. A Bruxa que é Tradicional terá tal parentesco e enquanto muitas destas famílias mantêm um selo da discrição buscando manter a sua quietude e silêncio, há alguns que possuem e ainda demonstram a atividade do famulus de forma que eles se mostram ao mundo, conscientes ou não — é sobre a alteridade que fala a partir do silêncio, onde a verdade perdura e se arrasta…

A maioria dos dicionários, como por exemplo, o Webster, definirá a bruxaria como ‘um poder mais que natural’, ‘o poder da influência’ ou ‘encantar as pessoas’ — daí encantamento, o poder de atar alguém ou algo pela utilização de ligações naturais ou atividade espiritual. Feitiçaria e bruxaria são muitas vezes palavras sinônimas e definidas como ‘a arte das bruxas’ — e assim é o congresso em sonho ou ‘orgia’ (em seu real significado Elísio; uma comunhão mágica dos sentidos) com espíritos, geralmente considerados maléficos — ainda que eles sejam, na verdade, os habitantes da Noite.

O cruzamento entre feitiçaria, bruxaria, tradição e culto é um assunto delicado e se torna cada vez mais estonteante se voltarmos nosso olhar para fora e ver, por exemplo, na Índia, onde hoje a bruxaria é sinônima de maldade e é tratada como uma ameaça à ordem social. Apesar disso a bruxaria, na verdade, pode ser vista como algo transmitido entre Kapalikas e as seitas tântricas de várias orientações com o foco em yathuvidah — ‘o conhecimento feiticeiro’. Seria mais preciso, talvez, rotular estes praticantes como um tipo semelhante à idéia das ‘Bruxas Tradicionais’ do Norte da Europa, pois eles possuem um darshana/samaya, ou doutrina tradicional sobre a qual proferem a sua arte mágica em companhia dos espíritos. Da mesma forma, o obscuro keshupherim judeu — aqueles que conhecem keshup (os trabalhos secretos da lua) são pessoas conduzidas aos mistérios pela virtude da intercessão dos antigos Rabbis e Rebbas que continuam a trabalhar a partir do outro lado e abrem o mundo da noite para o praticante. Estas pessoas podem ser consideradas ‘bruxas tradicionais’ ou elas são mais semelhantes aos feiticeiros que trabalham com os poderosos djinns? Se assim for, onde está a linha divisória entre a arte da bruxa e a bruxa em si? Até certo ponto trata-se da indução de um grupo que possui uma sucessão linear que jaz no conhecimento tradicional, o conhecimento variado em foco e escopo.

Se nos voltarmos à África Ocidental, a bruxaria é considerada um poder inato com o qual algumas pessoas nascem – um fogo caótico e eruptivo que deve ser temperado, mas que, a partir de uma perspectiva do povo ioruba — não deve ser combatido. Este poder bruxo (ajé) é encontrado entre mulheres que são chamadas para receber a iniciação à Senhora dos Pássaros da Noite, Iyami Osoronga. Estas mulheres fazem parte do conselho Ogboni — a sociedade dos sábios — e somente elas possuem o poder de coroar ou destronar um rei. É somente quando malefica é proferida com férvidas paixões e em um espírito de cólera e vingança que estas mulheres são entendidas como bruxas em uma forma negativa e perversa. Do ponto de vista de uma bruxa tradicional, isso pode ser visto como um reconhecimento da ‘alteridade’ que conduz à iniciação e indução aos mistérios. Além disso, há também o Imole Oso, ao qual é dada a forma de mago e é o espírito protetor de um culto secreto ligado vagamente ao Ogboni. Acesso ao culto é concedido pela divinação e somente alguns são chamados para ingressar — eles são, então, sujeitos a iniciação destes mistérios e devem fundir-se ao espírito de Oso — tornando-se o próprio Oso. Alguns destes — ou talvez todos — são possíveis candidatos ao rótulo de Bruxaria Tradicional quando seus adornos culturais são removidos?

O ponto de debate é que, quando você convoca o espírito e ele responde, quem pode negar a você esta conexão? Se você julgar esta conexão como a do sangue, repousa apenas em sua irrevogável convicção de ter encontrado o seu Self — e isso automaticamente causará uma humilde lembrança do que foi esquecido. Ao encontrar a si mesmo você pode encontrar família e parentes — ou não. Ao afirmar isto também estou ciente de que abro as portas — porém, também sei que a Verdade fala em Silêncio e, portanto, qualquer necessidade de verificação profana sobre a descoberta do próprio Self de alguém se transformará em poeira e ilusões arruinadas. O sangue reconhece o sangue, pois a iniciação, como tal, foi um pacto do passado… que pode ser encontrado e perdido repetidas vezes.

Podemos entender a Bruxaria Tradicional como uma realidade poética da noite e da natureza que, enquanto toma várias formas, concede forma à possibilidade do ‘outro’. A Bruxaria Tradicional é um conjunto de práticas nascidas da necessidade, terra e sangue. Ela é a arte do trabalho com seu próprio Destino e a arte de trabalhar com o limiar, o monte e morro para o benefício próprio. Este benefício pode ser limitado a uma necessidade imediata própria ou a de um grupo ou conclave de pessoas e suas necessidades. A bruxa, em um sentido tradicional, é alguém que é ciente de sua linhagem — o sangue característico que põe a bruxa à parte, como o outro.

Robert Cochrane afirmou que uma bruxa nunca é uma pagã, mas uma pagã pode ser uma bruxa, apontando ao erro em confundir paganismo e reconstruções pagãs com bruxaria tradicional propriamente. A distinção encontra-se na diferença entre reverência e adoração, e aquilo que é conhecido como dupla observância, que é bastante característico de várias vertentes de bruxaria tradicional. A dupla observância indica que a pessoa é capaz de ver o mesmo mistério agindo em várias manifestações culturais e é capaz de abarcar ambos — sendo mais salientes as bruxas que utilizam santos, bem como seus próprios famulus e guias espirituais para alcançar seus fins.

Por Nicholaj de Mattos Frisvold

Do original Blood, Need and the House of Night

Traduzido por Leonardo Martins

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/sangue-necessidade-e-a-casa-da-noite

A Espada de Dâmocles dentro das Calças

Curitiba, 26 de Dezembro de 2017

dies Martis, Sol 4º in ♑ Luna 6º in ♈ Lua Crescente

 

Faz o que tu queres há de ser o todo da Lei!

 

“Deu B.O., a casa caiu, a polícia tá chegando
A mulher tá me ligando
Se esconder ela não acha
Fujo do flagrante, mando o check-in lá de casa”

Wesley Safadão, 2017

“Sentir que por detrás de toda e qualquer coisa que possa ser experienciada há algo além, que nossas mentes não conseguem compreender e cuja beleza sublime nos chega somente indiretamente e como uma pálida reflexão.”

Einstein apud Dawkins, God, a Delusion, página 5.

ajustamentoNeste último dia 24, véspera de Natal, após um longo período de trabalho bastante desgastante de quase um mês sem descanso de verdade, estávamos minha namorada e eu vendo Netflix e bebendo um carmenére reserva bem gostosinho. Lá pelas tantas, naquela pausa estratégica para fazer um xixizinho, já meio alegrão com o vinho, recebo uma daquelas perguntas que vêm da curiosidade espiritual legítima, mas que têm tudo para fazer deste Natal o último em que terei minhas bolas, caso responda de maneira menos que ideal. Decifra-me ou te DR, diz a minha esfinge exuberante, deitada em nossa cama.

Antes de desvelar a pergunta, aos prolegômenos dessa sinuca.

O filme que estávamos assistindo – muito bom, aliás! – era ‘Um Método Perigoso’, de David Cronenberg (2011). Nele temos o Lennon e o McCartney do Inconsciente, também conhecidos como Freud e Jung. Embora a visão Junguiana tenha se modificado posteriormente e evoluído para a Psicologia Analítica, naquele ponto da história os dois estão muito BFF e trabalhando juntos no desenvolvimento das idéias que comporão suas teorias posteriormente.

A trama da história concerne o relacionamento extraconjugal que o Jung safadão tem com a sua paciente Sabina Spielrein.

Após esse prólogo, vamos ao cerne do vuco-vuco.

A questão da minha parceira de vida dizia respeito à postura do tralha do Jung sob o ponto de vista de Thelema. Tendo estado ao meu lado tempo suficiente para entender que a visão Thelemita tende a esculhambar o rolê – e exemplos abundam para demonstrar como a Lei da Liberdade pode ser (mal)usada para justificar condutas babacas por aí, sua pergunta tinha um tanto de curiosidade intelectual sobre minhas baboseiras esquisotéricas e um tanto de cagaço quanto à perspectiva futura da manutenção do estado monogâmico de nosso relacionamento. Calma aí, vida… para quê essa pergunta essazora…

Sobrevivi ao polígrafo, com testículos e relacionamento incólumes, e voltei desse encontro com o ceifador para contar minha epifania.

Vi uma frase – em um grupo de Facebook chamado Memes Pagãos – que é engraçada porque é verdade na maior parte dos casos…

“Um adepto do xamanismo fumando maconha e um thelemita dando a bunda viajam em direções opostas a 80 km/h. Qual deles usa mais pretexto?”

A maior parte, não só de nós thelemitas, mas dos ocultistas em geral, não se preocupa com os aspectos cotidianos da sua prática mágicka – yama e niyama, para os patanjalétes de plantão; os caras usam thelema como desculpa para fazerem o que dá na telha e saírem esfregando o pinto em qualquer coisa que não consiga correr para longe rápido o suficiente.

Se o leitor tiver qualquer familiaridade com a visão thelêmica, poderá facilmente lembrar de exemplos do nosso querido Livro da Lei que parecem endossar essa visão libertina do conceito de thelemita.

I.22 “Nada ateis! Que não se faça diferença entre vós e uma coisa e qualquer outra coisa; pois disto resulta dor.”

I.41 “A palavra de Pecado é Restrição. Ó homem! Não recuseis tua esposa, se ela o quiser! Ó amante, se quereis, ide embora! Não há vínculo que possa unir o dividido senão o amor: tudo o mais é uma maldição. Maldito! Maldito seja pelos aeons! Inferno!”

I. 61” Vós devereis reunir bens e fartura de mulheres e especiarias;”

Além desses trechos, a própria biografia dos thelemitas mais conhecidos é notória por apresentar um balaio de putarias e os barracos oriundos delas, ao ponto de Thelema ser quase sinônimo de dedo no cu e gritaria.

Não obstante, preciso vestir agora meu balandrau de apologista da Lei da Liberdade, e gritar que essa não é a casa da mãe Joana, seus viado!

“1. O Homem tem o direito de viver pela sua própria lei;
de viver da maneira como quiser viver;
de trabalhar como quiser;
de brincar como quiser;
de morrer quando e como quiser.”

Liber OZ

A idéia de ‘faze o que tu queres’, imprescindível para o entendimento de Thelema, pretende que a vida seja bem vivida, e que possamos aproveitar do prazer da relação sexual (e todos os outros) sem culpas ou amarras, desde que isto não seja um empecilho para a consecução de nossa verdadeira vontade.

I.12. “Avançai, ó crianças, sob as estrelas, e tomai a vossa plenitude de amor.”

Neste sentido, a Lei de Thelema é a precursora do conceito de Hedonismo Responsável, presente na visão da Igreja de Satã, fundada por Anton La Vey em 1966 nos EUA.

Assim, a Lei de Thelema admite a possibilidade de relações sexuais como, com quem e quantos se quiser, sejam uma, duas, três ou cinquenta pessoas, e não propõe que isso seja necessariamente um impedimento para o desenvolvimento espiritual – desde que todos os envolvidos estejam de comum acordo e aceitem sua responsabilidade pelo ato.

Já nos diz o Liber OZ:

4. O Homem tem direito de amar como quiser;
“tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes” AL I 51

Até aí, todo mundo que sabe alguma coisa de Thelema meio que já entendeu, e parece que eu estou pregando para convertidos, reiterando a chancela à prática do oba-oba. Só que não.

Este é o momento que separa os meninos dos homens (para a tristeza dos padres católicos…), meus amigos, e que faz um thelemita guardar o pau dentro da cueca: assim como existe, no Liber Al, uma exortação à prática da liberdade e da plena realização da individualidade, existe também outra questão tão importante quanto – e quem sabe seja a mesma questão, inclusive.

II. 27 “Há grande perigo em mim; pois quem não compreende estas runas cometerá um grande erro. Ele cairá dentro da cova chamada Porque, e lá ele perecerá com os cães da Razão.”

Thelema é o entendimento de que a liberdade de ser você mesmo é um chamado a buscar ser somente a sua essência mais verdadeira e nada que não esteja ligado com sua Verdadeira Vontade. Aliás, o termo Ipsissimus, que é o grau mais alto em algumas ordens iniciáticas, é o superlativo latino do pronome demonstrativo ipse, e significa ‘próprio ou mesmo’. Dessa maneira, ipsissimus (enquanto definição semântica, e não necessariamente relacionada à uma ordem iniciática específica) significa tornar-se tão ‘você mesmo’ quanto é possível, e esta deveria ser a ambição de qualquer Thelemita.

II. 57 “Aquele que é correto permanecerá correto; aquele que é sujo permanecerá sujo.”

I. 52 “Se isto não estiver correto; se vós confundires as marcas do espaço, dizendo: Elas são uma; ou dizendo, Elas são muitas; se o ritual não for sempre para mim: então esperai pelos terríveis julgamentos de Ra Hoor Khuit!”

A maturidade da aplicação da Lei da Liberdade não é alcançada fazendo o que você quer fazer, pulando de capricho em capricho, de prazer em prazer. A maturidade do entendimento da Lei da Liberdade está em você tomar todas as diferentes partes de você e submetê-las a uma única vontade.

I.29 “Pois Eu estou dividida pela causa do amor, pela chance de união.”

Da mesma forma que em uma orquestra – em que todos os instrumentos tocam em harmonia e uníssono sob a batuta do maestro, assim também temos esta lição sintetizada sob os signos do arcano VII do Tarot de Thoth, a Carruagem, em que somente mediante o domínio das diferentes bestas-esfinges poderá o condutor da carruagem levar o veículo para a direção desejada. Antes disto, todas as bestas estão soltas e exercendo suas próprias tendências e inclinações, cada uma puxando para um lado diferente.

II. 49 “Eu sou único e conquistador.”

I.42 “Que aquele estado de multiplicidade, seja confinado e repugnado. Assim com todos vós; tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade.”

Talvez esta questão pareça um tanto desconectada do questionamento da minha namorada, mas é agora que todas as coisas se juntam para uma apoteose orgástica. Espia só!

Como Thelemita, não pode existir postura contra ou à favor de monogamia, poliamor ou suruba à priori. São todas expressões válidas de individualidade.

Contudo, responder algo dessa natureza não teria livrado meu couro da inquisição, não é mesmo? Então o que fez a diferença aos 48 do segundo tempo e me garantiu ver o sol por mais um dia?

O que eu disse para minha namorada – e que realmente é o meu entendimento da visão thelêmica aplicada à questão dos relacionamentos sexuais e de qualquer outra natureza – é que eu não vejo o comportamento de Jung no filme como desejável pelo fato de ele agir com duas posturas completamente antagônicas por temer a consequência de seus atos.

Para os que não viram o filme e não conhecem a história do Dr. Jung, o que se passa é que ele tem um caso com sua paciente, mas diante de sua esposa assume falsamente o papel de marido de moral ilibada. Curiosamente, um dos conceitos Jungianos é a noção de Persona, que vem da palavra latina usada para as máscaras de teatro. Obviamente a conceituação dentro da teoria Jungiana de personalidade é completamente distinta da aproximação que eu realizei, mas é curioso observar como o Dr. Jung acaba por vestir uma máscara nesse exemplo.

Note que o uso de máscaras sociais implica uma incapacidade de manifestação de uma coerência de comportamento, o que é algo muitíssimo comum (e até necessário para a nossa sobrevivência social), mas que deve ser gradualmente abandonada pelo adepto, para que paulatinamente possa executar a grande obra, a construção do templo e a confecção da pedra filosofal, que são alegorias para a construção dessa versão coesa de si mesmo, tão si-mesmo quanto possível: Ipsissimus.

Está escrito em Mateus 5,37: ‘Seja, porém, o teu sim, sim! E o teu não, não! O que passar disso vem do Maligno.’ Longe de mim fazer o pastor, mas essa frase é muito foda e completamente alinhada com a perspectiva thelêmica.

Ainda sobre essa questão de unidade, um dos rituais básicos mais utilizados por praticantes de magia cerimonial é o Ritual Menor do Hexagrama, e lá utiliza-se uma palavra por repetidas vezes. ARARITA. Talvez até saibamos o que as letras representam ipsis verbis, mas a apreensão real do sentido a ser utilizado é algo muito mais sutil, que escapa à maioria dos praticantes.

“Todos em Dois. Dois em Um. Um em Nada.

Assim não são nem Quatro, nem Todos, nem Dois, nem Um e nem Nada.

Gloria ao Pai, à Mãe, ao Filho, à Filha, ao Espírito Santo Externo e ao Espírito Santo Interno

como era, é e há de ser pelos Séculos dos Séculos, Seis em Um pelo Nome Sétuplo,

ARARITA” – Liber XXXVI – Ritual da Safira Estrela

Daí nêgo faz o ritual todo dia (ou deveria) e não pára para considerar o que está fazendo e dizendo. ARARITA é um notaricon (uma sigla) que nos fala sobre a unidade do Todo; só que ao invés de buscar a união do microcosmo com o macrocosmo, o praticante deveria primeiramente buscar uma união consigo mesmo dentro dessa unidade coerente e alinhada com a sua Vontade, e colocar suas esfinges-bestas sob o domínio de sua Vontade, para que a porcaria da carruagem possa ir para algum lado, percebe?

III. 4” Escolhei vós uma ilha!”

III. 5 “Fortificai-a!”

III. 6“Adubai-a ao redor com engenharia de guerra!”

O que ocorre na maioria das vezes é uma cisão entre o sujeito quando está entre seus pares no templo e a sua versão profana, que trabalha e vai no shopping. O praticante de magia cerimonial acaba utilizando seu motto mágicko como um alter ego, no sentido literal do latim, que significa ‘outro eu’, sendo quase uma esquizofrenia esotérica.

O motto mágicko não pode ser usado como uma máscara, uma persona, um alter ego, para que se esconda e se separe o trabalho interno (templo) e o trabalho externo (mundo do cotidiano).

A razão de se utilizar o motto mágicko é justamente o contrário disso. O motto representa uma morte do eu anterior à iniciação, para que essa nova existência seja completamente vivida sob a intenção do motto, que é, portanto, não uma capa que oculta, mas um estandarte a ser alardeado em cada ato, pois, como diz o careca no primeiro teorema de Magick in Theory and Practise, ‘Todo ato intencional é um Ato Mágicko.’

III. 37 “Unidade revelada ao máximo!
Eu adoro o poder do Teu alento,
Deus supremo e terrível,
Que fizestes os deuses e a morte
Estremecerem perante a Ti:–
Eu, Eu te adoro!”

Para que haja a consecução da Grande Obra, a união do microcosmo com o macrocosmo, do 5 com o 6, é necessário o trabalho árduo de depuração do indesejável e junção e transmutação do que permanece. Solve et Coagula. Apenas quando houver esta coesão, ou, nas palavras do Silvio Santos do ocultismo, Samael Aun Weor, ‘um centro de gravidade interna permanente, é que o buscador pode começar a ponderar sobre o trabalho de integração com o macrocosmo.

“11. Também eu fundi unidas a Estrela Flamejante

e a Estrela de Seis Pontas na forja de minha alma, e vede!

Uma Nova Estrela 418 que se coloca acima de todas as demais.”

Liber Ararita, p. 2

“36. Muitos apareceram, sendo sábios. Eles disseram: “Buscai a Imagem resplandecente no lugar sempre dourado e uni-vos a Ela”.
37. Muitos apareceram, sendo tolos. Eles disseram: “Descei ao esplêndido mundo da escuridão, e desposai a Criatura Cega do Lodo”.
38. Eu, que estou além da Sabedoria e da Tolice, ergo-me e vos digo: Realizai ambos os casamentos! Uni-vos com ambos!
39. Cuidado, cuidado, digo Eu, para que vós não cortejeis uma e percais a outra!
40. Meus adeptos mantêm-se erguidos; suas cabeças acima dos céus, seus pés abaixo dos infernos.” – Liber Tzaddi

Amor é a Lei, Amor sob Vontade.

Frater Melquisedeque

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Crowley, Aleister. Liber OZ

______. Liber CCXX Al vel Legis

______.Liber XXXVI Safira Estrela

______.Liber DCCCLXVIII Viarum Viae

______.Liber O vel Manus et Sagittae

______. Liber DCCCXXXI Liber Yod

______. Liber DLXX vel Ararita

Dawking, Richard. God, a Delusion

Weor, Samael Aun – Psicologia Revolucionária

Bíblia Católica Online

Frater Melquisedeque

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-espada-de-damocles-dentro-das-calcas/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-espada-de-damocles-dentro-das-calcas/

A Peste Negra

A chamada peste negra foi talvez a pandemia que mais marcou a história a história universal. Seja por sua extensão territórial, seja por ter permanecido inexplicáel por muito tempo, ou mesmo pelo número assombroso de pessoas que matou, sua lembrança persiste até hoje no imaginário ocidental como uma genuina expressão da face da morte, comparável às das  grandes guerras mundiais.

No início de 1330 o primeiro foco da peste bubônica aconteceu na China. A peste afeta principalmente roedores, mas suas pulgas podem transmitir a doença para as pessoas. Uma vez infectada, o contagio a outras pessoas ocorre de maneira extremamente rápida. A peste causa febre e um inchaço doloroso das glândulas linfáticas chamadas de bulbos, daí o seu nome. A doença pode também causar manchas na pele que apresentam primeiramente uma cor avermelhada e então se torna negra.

Como a China era um das maiores nações comerciais, foi só uma questão de tempo até que a epidemia da peste se espalhasse pela Ásia oriental e pela Europa. Em outubro de 1347, vários navios mercantes Italianos retornaram de uma viagem ao mar negro, um dos elos no comércio com a China. Quando os navios aportaram Sicília muitos dos que estavam a bordo já estavam morrendo por causa da peste. Após alguns dias a doença se espalhava pela cidade e pelos arredores. Uma testemunha ocular conta o que aconteceu:

“Percebendo que um desastre mortal havia chegado a eles, as pessoas rapidamente expulsaram os italianos de sua cidade. Mas a doença permaneceu, e logo a morte estava por toda parte. Pais abandonavam seus filhos doentes. Advogados se recusavam a sair de casa e fazer testamento para os moribundos. Frades e freiras foram deixados para trás para tomar conta dos doentes e monastérios e conventos logo estavam desertos, pois eles também foram afetados. Corpos foram deixados em casa abandonadas, e não havia ninguém para lhes dar um funeral Cristão.”

A doença atacava e matava com terrível rapidez. O escritor italiano Boccaccio disse que as vítimas normalmente,

“almoçavam com seus amigos e jantavam com seus ancestrais no paraíso.”

Em agosto no ano seguinte, a peste havia se espalhado ao norte até a Inglaterra, onde as pessoas a chamavam de “A Morte Negra” por causa das manchas negras que ela causava na pele. Um terrível assassino estava solto na Europa, e a medicina medieval não tinha nada para combatê-lo.

No inverno a doença parecia desaparecer, mas somente porque as pulgas, grandes responsáveis pelo transporte da peste de pessoa para pessoa, estavam dormentes. A cada primavera a peste atacava novamente, fazendo novas vítimas. Após cinco anos 25 milhões de pessoas estavam mortas, um terço da população da Europa.

Mesmo quando o pior havia passado epidemias menores continuaram a acontecer, não só por anos mas por séculos. Os sobreviventes viviam em medo constante do retorno da peste, e a doença não desapareceu até o século XVII.

A sociedade medieval nunca se recobrou dos resultados da praga. Tantas pessoas haviam morrido que houveram sérios problemas de mão de obra em toda a Europa. Isso fez com que trabalhadores pedissem maiores salários. No fim do século XIV revoltas de camponeses aconteceram na Inglaterra, França, Bélgica e Itália.

A doença também cobrou sua dívida na igreja. Pessoas durante a era cristã rezaram com devoção para serem liberados da praga. Por que essas preces não foram atendidas? Um novo período de distúrbio político e questionamento filosófico surgiam à vista.

O Desastre Acontece

População estimada na Europa entre os anos 1000 e 1352

1000 38 milhões
1100 48 milhões
1200 59 milhões
1300 70 milhões
1347 75 milhões
1352 50 milhões

Calcula-se que a peste negra tenha matado mais de 25 milhões de pessoas entre 1347 e 1352. Ou seja, a peste bubônica sozinha dizimou cerca de 1/3 da população na Europa em apenas cinco anos. Isso sem contar a imensidão de orfãos e viúvas deixados no rastro da epidemia.

Um Relato Sobre o Início da Peste

“No começo de Outubro, no ano 1347 da encarnação do Filho de Deus, doze galeões Genoveses que estavam fugindo da vingança de nosso Nosso Senhor, vingança essa lançada contra seus feitos nefastos, entraram no porto de Messina. Em seus ossos traziam tão virulenta doença que qualquer um que tão somente falasse com eles enfrentaria seus sintomas mortais e logo sucumbiria sem esperanças de evitar a morte. A infecção se espalhou para todos que tiveram intercurso com os doentes. Os infectados se sentiam penetrados por uma dor que se fazia sentir por todo o corpo e, por assim dizer, indeterminada. Então desenvolviam em suas virilhas e em seus braços bolhas pustulentas. Estas infectavam o corpo inteiro e penetravam tão profundamente que o paciente ficava vomitando sangue violentamente. Esses vômitos de sangue se seguiam sem pausa por um período de três dias, sem haver como curá-lo, e então o paciente expirava. Mas não só aqueles que tinham intercurso com eles morriam, mas também aqueles que haviam tocado neles ou em qualquer uma de suas coisas.

“Em breve os homens se odiavam tanto que se um filho fosse atacado pela doença seu pai não cuidaria dele. Se, apesar de tudo, ele ousasse se aproximar também se contaminaria e estaria marcado para morrer em três dias. E isso não era tudo, todos aqueles habitando a mesma casa que ele o seguiriam à morte. Conforme o número de mortes crescia em Messina muitos desejavam confessar seus pecados aos padres e expressar seus últimos desejos colocando-os em seus testamentos. Mas eclesiásticos, advogados se recusavam a entrar nas casas dos doentes. Mas se algum deles colocasse um pé dentro da casa do doente ele era imediatamente abandonado para a morte súbita. Freiras, Dominicanos e membros de outras ordens que ouviam as confissões dos moribundos eram logo subjulgados pela morte tão rapidamente que alguns nem chegavam a abandonar o quarto do doente. Logo os corpos estavam largados pelas casas. Nenhum eclesiástico, nenhum filho, nenhum pai e nenhum parente ousava entrar, mas pagavam serventes altas taxas para enterrar os mortos. Mas as casas dos mortos permaneciam abertas, com todos os seus pertences, jóias e ouro e todo aquele que decidisse entrar para reclamá-las o fazia sem encontrar obstáculos, pois a praga atacava com tanta veemência que em pouco tempo havia uma falta de serventes e finalmente não havia nenhum.

“Quando a catástrofe alcançou seu clímax os Messienses se decidiram emigrar. Uma parte deles achou abrigo nos vinhedos e nos campos, mas uma parte maior procurou refúgio na cidade da Catânia, na esperança que a Santa Virgem Agatha de Catânia lhes pouparia de seu mal. Para esta cidade se dirigiu a Rainha da Sicília e de lá convocou seu filho Don Federigo. Em novembro os Messienses persuadiram o Patriarca, Arquebispo de Catânia, a permitir que as relíquias de santos fossem trazidas para sua cidade. Mas a população de Catânia não permitiriam que os ossos sagrados fossem removidos de seu lugar. Agora processões e pelegrinagens se dirigiam a Catânia para se apresentar a Deus, mas a praga atacava com mais veemência que antes. A fuga não era mais uma opção. A doença se escondia entre os fugitivos e os acompanhava por todo lugar onde fossem buscar ajuda. Muitos dos fugitivos caiam nas beiras de estradas e eram arrastados para o campo ou escondidos entre os arbustos para morrerem lá. Aqueles que alcançaram a Catânia tiverem seu último suspiro nos hospitais que haviam lá. Os cidadãos horrorizados demandavam que o Patriarca proibisse que os doentes recebessem uma banição eclesiástica e que fossem enterrados nos arredores da cidade, e então eles eram atirados em valas cavadas do lado de fora dos muros da cidade.

“A população de Catânia era tão tímida e atéia que ninguém dentre eles ofereceu (aos fugitivos) abrigo. Se alguns grupos em segredo não houvessem ajudado um pequeno número de pessoas de Messina, elas teriam sido abandonadas sem auxilio algum. Mesmo se espalhando por toda a ilha da Sicília, e junto com eles a peste, inúmeras pessoas morreram. Sempre que alguém em Catânia sofria de dores de cabeça e calafrios essa pessoa sabia que estava destinada a morrer dentro do prazo, então saia para se confessar com os padres e para fazer seus testamentos com os advogados. Quando a praga ganhou peso em Catânia o Patriarca delegou a todos os eclesiásticos, até os mais jovens, com todos os poderes sagrados para a absolsão dos pecados que ele como bispo e patriarca possuía. Mas a pestilência continuou atacando de outubro de 1347 a abril de 1348. O próprio patriarca foi um dos últimos a morrer. Ele morreu realizando seu trabalho. Ao mesmo tempo o Duque Giovanni, que havia evitado cuidadosamente cada casa infectada e pessoa doente morreu.”

Analisando a Peste

A variedade de respostas à praga talvez seja o que melhor nos mostre a natureza da sociedade medieval Européia na Idade Média.. Mas quando investigamos as respostas humanas à peste devemos considerar o seguinte:

É a natureza humana reagir e responder a diferentes eventos e circunstâncias. Uma boa técnica de entender os complexos eventos é analisar o comportamento humano separando-o em categorias distintas. Essas podem incluir respostas científicas e médicas, políticas, sociais ou religiosas. Essas categorias não são exclusivas e uma coisa pode cair em várias categorias, mas geralmente esse método faz que vários dados sejam organizados de maneira compreensiva.

Todas as civilizações sempre se preocuparam com a saúde e doenças. Todas tiveram curandeiros de um modo ou outro e forneceram explicações para a ocorrência de doenças. Veja agora os elementos da teoria e prática médica prevalecente na Europa e no Oriente Médio na época da praga.

Rumores do Anti-Cristo

Com tantas mortes ao seu redor, os europeus começaram a enxergar o fim do mundo, como a Bíblia Cristã previa. Uma das professias do Livro do Apocalipse dizia que o Anti-Cristo apareceria.

“Os rumores citados abaixo foram escritos em 1349, pelo Irmão William de Blofield na Inglaterra para um irmão Frade Dominicano em Norwich. Existem inúmeros profetas nos arredores de Roma, cujas identidades permanecem um segredo, que inventaram estórias como esta por anos. Eles dizem que neste mesmo ano, 1349, o Anti-Cristo vive com 10 anos de idade e é uma criança encantadora, tão bem educada em todas as áreas de conhecimento que nenhum ser vivo pode se igualar a ele. E eles também dizem que existe outro garoto, agora com 12 anos, e vivendo além das terras dos tártaros, que foi criada como um cristão e será ele que destruirá os saracenos e se tornará o maior homem no reinado cristão, mas seu poder logo será trazido para um fim pela chegada do Anti-Cristo.”

Teorias Médicas Medievais

A teoria médica medieval esteve em grande dívida com os antigos filósofos Gregos e Greco-Romanos. A medicina islâmica não somente se utilizava de práticas antigas, mas os filósofos islâmicos também desenvolveram um sofisticada teoria médica. A medicina européia do século XIV aplicava as tradições antigas assim como as islâmicas. Para a maioria dos europeus existiam três grandes autoridades que representavam essas tradições médicas, Hipócrates, Galen e Avicena.

Os documentos revelam as teorias médicas envolvendo as causas da peste e seus métodos de tratamento.

Naquele tempo a peste não se encaixava no conhecimento médico contemporâneo que em sua maioria afirmavam que doenças eram transmitidas através do “ar ruim”, que geralmente possuía um cheiro nauseabundo. Para prevenir que as doenças se espalhassem era comum a terapia de aromas. Isso podia incluir a queima de incensos ou a inalação de fragrâncias, como perfumes ou flores. Isso não afetou o avanço da peste e muitos curandeiros  fugiam ao primeiro sinal da doença.

Biologia da Peste Negra

Nós devemos nos lembrar que no século XIV, as idéias modernas de medicina ainda não haviam se desenvolvido. Não foi até o século XIX que os fisiologistas foram capazes de isolar a causa precisa da peste.

A causa da peste foi finalmente descoberta pela comunidade médica na última década do século. Como resultado da então nova teoria de germes causadores de doenças, pesquisadores acharam que a peste bubônica era de fato causada por uma infecção massiva da bactéria Yersinia Pestis. Somente com esta descoberta é que se tornou possível sintetizar os antibióticos necessários para combater esta doença.

O bacilo, Yersinia Pestis, é normalmente encontrado vivendo como um parasita dentro de ratos. Lá a bactéria pode se multiplicar, infectar a corrente sangüínea, órgãos e outros sistemas dos roedores hospedeiros. Pulgas vivendo nesses ratos ingerem o sangue infectado quando se alimentam, e assim se tornam infectadas pela bactéria. Normalmente essas pulgas vivem somente nos ratos, mas a peste também os afetou assim como aos humanos, e logo os ratos hospedeiros acabam morrendo. As pulgas devem então encontrar um novo hospedeiro e, por causa da proximidade entre as duas espécies devido principalmente às condições de vida da época, logo elas migraram para seus novos hospedeiros, os humanos. A infecção acontece quando a pulga começa a se alimentar de sangue humano e acaba passando a bactéria através de fluídos para o hospedeiro humano.

Este tipo de infecção acaba causando o tipo de peste denominada “bubônica”. A bactéria começa a se multiplicar na corrente sangüínea da pessoa infectada, chegando à veias e artérias e ao tecido dos pulmões. Como resultado, uma pessoa infectada normalmente exibirá uma descoloração na pele causada pela hemorragia nos capilares. Como resultados sua pele apresenta uma aparência pálida marcada por vários hematomas. A bactéria também ataca o sistema linfático. A infecção dos nódulos linfáticos é que dá a este tipo de peste o seu nome. Os nódulos linfáticos tentam criar anticorpos para combater a infecção, o que acaba resultando num inchaço do tamanho que varia de uma noz até o tamanho de uma maçã. Os inchaços resultantes, localizados nas axilas, pescoço ou virilha eram chamados de “bulbos” ou “bubões” pelos europeus medievais. Era geralmente este sintoma em particular que permitia com que os doutores contemporâneos detectassem a presença desta doença. A forma bubônica desta doença na maioria dos casos se mostrava fatal, mas existem registros de pessoas que se recuperaram completamente após ficarem seriamente doentes.

Existem outras duas formas desta doença, pneumônica e infecciosa. A primeira envolve uma infecção no tecido pulmonar que causa o acúmulo de fluído que acaba acarretando na morte do infectado. Evidência sugere que um pessoa pode contrair esta forma da doença ao inalar gotículas de saliva ou outro fluído corporal de uma pessoa infectada. A forma pneumônica parece causar uma taxa de morte que se aproxima a 100%. A Segunda forma da doença, infecciosa, envolve uma forma de infecção tão rápida e massiva que a morte acontece antes mesmo que os sintomas principais tenham tempo de aparecer. Esse tipo relativamente raro da peste pode ser encontrado em registros médicos indicando que a pessoa simplesmente morreu durante as epidemias de peste por nenhuma razão aparente.

Ambos os tipos desta doença afetaram a sociedade européia entre os anos de 1347-1348 e em epidemias que ocorreram nos anos seguintes. Infelizmente ainda é muito difícil se dizer qual das formas da doença estava presente em algumas das localidades e em alguns casos da peste. De fato ao que tudo indica alguns casos de epidemias da peste não passavam de casos de disinteria, por exemplo, e muitas outras doenças acabaram ganhando o rótulo da peste em epidemias que ocorreram mais tarde. Uma pista para se identificar a forma da doença depende da época do ano no qual determinada epidemia aconteceu. Por causa da temperatura e umidade do ar que permitem a população de pulgas a prosperar, a peste bubônica tendia a surgir nos meses de verão enquanto a pneumônica durante o inverno. A relação entre a forma da peste, o clima e a localização geográfica da epidemia entretanto é algo complexo, e um conhecimento biológico definitivo destes eventos históricos é difícil de se estabelecer.

Durante os períodos medievais e no início do período moderno somente o rato negro, ou rato de telhado, parece ter vivido na maior parte da Europa. O rato negro (Rattus rattus) vivia próximo de humanos preferindo, por exemplo, viver em sótãos ou telhados. O rato negro não encontrou dificuldades para se adaptar aos humanos já que pesavam 315 gr e chegavam a 17,5 cm. O rato marrom, ou rato de esgoto, tomou o lugar do rato negro em algum ponto do século XVIII. As pulgas do rato marrom (Rattus nirvegicus) são menos efetivas como transmissoras da bactéria e alguns historiadores alegam que essa mudança foi a responsável pelo, de outra maneira difícil de se explicar, desaparecimento das grandes epidemias na Europa nessa época.

A Peste na Europa

No fim de 1347 a “Peste Negra” havia chegado no centro oeste e estava começando a se dirigir para a parte sul da Europa. Em seis meses, no início do verão, a doença havia se espalhado pela Itália, Europa Central e atingido a parte norte da Espanha. No Natal de 1348 o seu alcance atravessou o Canal da Mancha e os Alpes. Outros seis meses foram testemunhas do seu avanço para a Irlanda, interior da Inglaterra e para o norte da Europa. O inverno de 1349 trouxe a peste para a Escócia, partes da Escandinávia e aos Países Baixos. No ano seguinte a doença havia chegado na Suécia, norte da Alemanha e norte da Polônia. Nenhuma parte da Europa foi tão afetada como as cidades de Liege e Nuremberg, assim como algumas cidades do sul da França e da Alemanha central parecem ter sido ignoradas pela praga.

Durante a Era Medieval as rotas de comércio na Europa passavam pelo eixo norte-sul. Mercadorias dos mercados do Oriente Médio inundavam o sul da Europa chegando pelas cidades estados da Itália. De lá as rotas de comércio se ramificavam em direção ao norte seguindo os rios as passagens naturais nos Alpes. Como a tecnologia marítima ainda era muito precária as principais rotas eram terrestres.

A Peste Bubônica pode voltar?

como visto anteriormente, a peste bubônica é provocada por uma bactéria, a Yersinia Pestis, geralmente transportada por pequenos roedores (ratos) e transmitida ao homem pelas pulgas. Como facilmente se compreende, são os países das regiões mais pobres, com condições sanitárias e higiénicas mais desfavoráveis, os que estão à mercê deste tipo de doença.

Esta lógica tem elevado com frequência a preocupação da própria Organização Mundial de Saúde (OMS), quanto ao problema, especialmente depois dos anos 90 quando os relatados  de algumas dezenas de casos acoteceram na Índia. Neste mesmo país, entre os anos de 1889 e 1950 a Peste Bubonica já foi responsável por mais de 12,5 milhões de mortos.

As formas conhecidas como peste bubônica e peste pneumônica ainda existem no Brasil, especialmente na região nordeste. Apesar de dispormos de tratamento com antibiótico, este é eficaz quando o diagnóstico é feito precocemente. O diagnóstico precoce também é importante pelo caráter contagioso da forma pneumônica, que necessita isolamento respiratório do doente. Se tratado a tempo, este se recupera sem sequelas.

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-peste-negra/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-peste-negra/

Alan Moore

Pesquisa de Jose Carlos Neves

Confira abaixo um resumo dos principais fatos na vida e bibliografia do escritor e mago inglês Alan Moore. Trata-se de excertos do livro Alan Moore: Portrait of an Extraordinary Gentleman, um livro-tributo dedicado aos 50 anos do artista. São páginas recheadas de ensaios, ilustrações, artigos, fotografias, entrevistas, e opiniões sobre o mago-escritor de Northampton. Escritores, desenhistas e pessoas relacionadas aos quadrinhos comentam sua relação com Moore.

Alguns nomes presentes no livro: Michael Moorcock, Ian Sinclair, Darren Shan, Brad Meltzer, John Coulthart, Neil Gaiman, Dave Gibbons, Bryan Talbot, David Lloyd, J. H. Williams III, Kevin O’Neill, Will Eisner, Howard Cruse, James Kochalka, Adam Hughes, Peter Kuper, Jose Villarubia, Jimmy Palmiotti, Rick Veitch, Michael T. Gilbert, Steve Parkhouse, Nabiel Kanan, Bill Koeb, Rich Koslowski, Trina Robbins, Michael Avon Oeming, Sean Phillips, Jeff Smith, Sergio Toppi, Giorgio Cavazzano, Claudio Villa, Daniel Acuna, Willy Linthout, Jean-Marc Lofficier, Eduardo Risso, Dave Sim, Ben Templesmith e outros tantos.

O lançamento da editora Abiogenesis Press, do artista britanico Gary Spencer Millidge, tem caráter beneficente. Toda sua renda está destinada para o Fundos de Combate ao Mal de Alzheimer. Para mais informações, acesse www.millidge.com

Linha da Vida de Alan Moore

– Alan nasceu com pouca visão na vista esquerda e surdo do ouvido direito. Mesmo assim, ele evitou usar óculos até quinze anos. Já adulto, abandonou os óculos chegando a cogitar a possibilidade de usar um monóculo, acabando por achar essa alternativa muito kistch.

– A primeira casa do jovem escritor não tinha banheiro nem gás em sua rua.

– Em 1961, aos 7 anos, Moore descobriu os quadrinhos americanos da DC Comics.

– Moore atribui sua formação moral graças as histórias do Super-Homem.

– Padecendo de uma gripe comum, o jovem Alan Moore pediu para a mãe lhe comprar uma BlackHawk. Ao invés de trazer a HQ pedida, sua mãe o presenteou com a edição número 3 de Fantastic Four (Quarteto Fantástico). Essa revista foi o primeiro contato do escritor com os trabalhos de Jack Kirby, de quem se tornou fã imediato.

– Moore matava aulas no colegial para andar de motocicleta no pátio de um hospital para doentes mentais.

– Em 1968, Moore se tornou fã dos personagens da Charlton Comics, que mais tarde seriam os arquétipos dos personagens da maxi-saga Watchmen.

– Em 1969, ele começou a colaborar com vários fanzines, sempre como desenhista

– Aos 17, em 1970, Moore foi expulso da escola por uso de LSD. O diretor escreveu uma carta para todas as outras escolas e universidades da região, para que ele jamais fosse aceito em outro estabelecimento de ensino.

– Sem poder estudar, Alan trabalhou em um matadouro e limpou latrinas em um hotel de Northampton.

– Nessa época, ele deixou o cabelo crescer, ajudou a publicar o fanzine Embryo e conquistou sua futura esposa Phyllis lendo poesias em um cemitério. Em 1974, aos vinte anos, Moore e Phyllis se casaram.

– Em 1977, nasceu Leah, a primeira filha de Moore. Nessa época, Moore percebeu que tinha que fazer alguma coisa que gostasse logo ou então passaria a vida frustrado. O escritor começou a colaborar com jornais e revistas locais, escrevendo e desenhando tiras de humor. A mais conhecida delas foi Maxwell, the Magic Cat, uma espécie de Garfield inglês. Anos depois, Moore declarou que odiava escrever as historias de Maxwell e que se sentia envergonhado de receber dinheiro por elas. Mesmo assim, ele passou 7 anos escrevendo estas tiras. Detalhe: Moore assinava as tiras com o pseudônimo de Jill de Ray (uma alusão ao francês acusado de ter assassinado dezenas de crianças).

– A experiência com Maxwell mostrou que ele não servia como desenhista. Moore passou a dedicar “apenas” a escrever.

– Moore comecou a trabalhar com a Marvel UK (divisão anglo-saxônica da Casa das Idéias) em 1981. Aos 27 anos, Moore escrevia pequenas tramas nas revistas Star Wars e Dr. Who. Na mesma época, ele fez alguns trabalhos para a 2000AD e teve sua segunda filha: Amber.

– Em 1982, Alan recebeu sua primeira grande chance ao escrever para a recém-criada revista Warrior. Para quem não sabe, a Warrior publicava 4 a 6 histórias por edição, cada história com 6 a 8 páginas. Moore escreveu 3 sagas para a Warrior simultaneamente: The Bojeffrie’s Saga (uma família de monstros muito engraçada), Marvelman (Miracleman) e V de Vingança.

– Naquele mesmo ano, Moore começou a escrever as histórias do Capitão Bretanha. Já no primeiro capítulo, ele se livrou dos conceitos criados pelo escritor anterior e no capitulo seguinte matou o próprio protagonista da série, recriando-o totalmente reformulado na edição de número 3.

– Enquanto a fama de Moore crescia nos quadrinhos, ele encontrava tempo para se envolver em outros projetos. Ele formou uma banda chamada The Sinister Ducks, gravando um single em 1983.

– Na 2000 AD, Moore escreveu D.R. & Quinch, uma hilária saga de dois alienígenas delinqüentes. E ainda escreveu A Balada de Halo Jones e Skizz.

– Todos esses trabalhos renderam a Moore o prêmio Eagle Award de melhor escritor de 1982 e 1983. Foi quando os Estados Unidos começou a se interessar pelos trabalhos do autor.

– Em novembro de 1983, Lein Wein, criador do Monstro do Pântano, ligou para a casa de Alan perguntando se ele queria trabalhar para a DC e escrever as historias do monstro. Alan achou que era um trote e desligou na cara do escritor. É claro que depois ele viu que não era mentira e aceitou trabalhar com o personagem.

– Sob ao comando de Alan Moore, Swamp Thing passou das 17.000 cópias/mês para mais de 100.000 cópias!!!

– No período em que escreveu o Monstro do Pântano, Moore fez outros trabalhos pouco divulgados na DC, como “Tales of the Green Lantern Corps”, “Vigilante”(uma historia sobre abuso sexual de crianças) e uma historia do Batman onde ele enfrenta o Cara de Barro (publicada no Brasil na extinta SuperAmigos). Moore ainda escreveu 2 histórias memoráveis com o Homem de Aço (ambas relançadas no Brasil pela Opera Graphica). Uma delas, “For the Man who has Everything” é possivelmente uma das melhores histórias do Super-Homem.

– O próximo trabalho de Moore seria A Piada Mortal. A história foi escrita em 1985, mas devido a atrasos do desenhista Brian Bolland, a revista só foi terminada e publicada em 1988.

WATCHMEN

Ainda em 1986, a DC concordou em deixa-lo produzir sua própria série. Com o artista britânico Dave Gibbons, Moore sugeriu o projeto de uma série chamada WATCHMEN. A história, como Weaveworld de Clive Barker, é uma epopéia sobre um mundo fictício – embora o mundo que Moore inventou seja de várias maneiras igual ao mundo real de hoje.

Começando em uma Nova Iorque durante os anos 80, Watchmen descreve uma América como poderia ter sido se realmente tivesse testemunhado o surgimento de fato dos “super-heróis” – isto é, seres que possuem habilidades super-normais ou que se apresentam como vigilantes idealistas. Assim como a América nunca teria sofrido uma divergencia política progressiva dos Anos sessenta, imagina Moore, também nunca teria perdido a Guerra de Vietnã, e teria achado um modo para manter Richard Nixon como Presidente. Já no início de Watchmen, dificilmente as coisas são sublimes: alguém decidiu eliminar ou desacreditar os poucos super-heróis remanescentes enquanto que, em uma série de eventos aparentemente não relacionados, os Estados Unidos e a União soviética desenham um crescente conflito nuclear por causa de uma disputa na Ásia.

No centro da consciência desta história, de olho na (e tentando desafiar a) maneira de como o mundo está desmoronando, está um incomum herói criado por Moore: um mascarado, horrendo e transtornado vigilante direitista conhecido como Rorschach. Rorschach fala para o psiquiatra sobre a noite em que ele cruzou a linha da brutalidade:

“Me senti limpo. Senti o sombrio planeta girando sob os meus pés e descobri o que faz os gatos gritarem como bebês durante a noite. Olhado para o céu através da espessa fumaça de gordura humana, e Deus não estava lá. A escuridão fria e sufocante, continua para sempre, e nós estamos sós. Vamos viver nossas vidas na falta de qualquer coisa melhor para fazer. Deixemos a razão para depois.

Nascemos para o esquecimento; agüentando crianças destinadas para o inferno, nós mesmos; caminhando para o esquecimento. Não há nada mais. A existência é fortuita. Nenhum padrão seguro imaginado por nós depois de encarar isto por muito mais tempo. Nenhum significado seguro além do que nós escolhemos impor. Este mundo sem direção não é moldado por vagas forças metafísicas. Não é Deus que mata as crianças. Não é o destino que as abate ou que as dá de alimento para os cachorros. Somos nós. Somente nós… Estava renascido então, livre para rabiscar meu próprio desígnio neste mundo moralmente vazio..”

O assustador Rorschach

“Aquela foi uma história terrivelmente depressiva para se escrever,” disse Moore, “em parte porque Rorschach em nada se parece comigo: Eu não compartilho a sua política, e nem compartilho a sua filosofia. Ele é um homem aterrorizado e, em minha visão, ele acaba se rendendo ao horror do mundo.

Mas eu penso que o fundo do poço dos medos e ansiedades de muitas pessoas pode ser igual ao do Rorschach. As coisas que uma vez usamos para nos abrigarmos da escuridão – como Deus, a rainha, o país, e a família – foram se distanciando de nós. Em muitos casos, temos esmagados a nós mesmos, e agora nos deixamos tremendo na chuva, olhando para o mundo e vendo um obstáculo preto que não tem nenhum significado moral, afinal”.

Até que alcance seu devastador mas reafirmado fim, é evidente que, acima de tudo o mais, Watchmen é uma história de como as pessoas encaram a perplexidade do mundo de hoje: como alguns se movem furiosamente e de maneira fatal contra ele e de como outros, heroicamente, reúnem forças até mesmo em face ao Armageddon.

“Enquanto estava trabalhando em Watchmen,” conta Moore, “eu tive que me perguntar, O que é que mais me assusta? E percebi que a verdade é que quando o mundo acabar, não haverá nenhum aviso de quatro minutos, não haverá nenhum conflito nuclear de baixa escala. A verdade é que os mísseis poderiam estar no ar em cinco minutos. E se houver um Armageddon nuclear, não iremos retirar o pó de nós mesmos e nem reinventar os valores humanos. Não poderia haver nenhum valor humano após uma guerra nuclear porque não haveria nenhum humano.

Nosso passado seria erradicado. Nosso futuro seria erradicado. Nosso presente seria erradicado. E eu me achei pensando, Quando as crianças foram para escola esta manhã, eu gritei com elas ou lhes falei que eu as amo?”.

Os roteiros de Moore para essa saga viraram uma lenda pela riqueza de detalhes. O primeiro capítulo, por exemplo, tinha mais de 100 páginas e foi entregue ao desenhista Dave Gibbons sem parágrafos.

Com Watchmen, Moore virou uma celebridade do mundo dos quadrinhos, mas não estava feliz com isso. Certo dia, em uma convenção sobre HQ´s em San Diego, ele foi cercado por dezenas de fãs que o imprensaram contra uma escadaria na tentativa de agarrá-lo e conseguir um autógrafo. Moore decidiu que jamais participaria de convenções novamente.

A Casa do Trovão, em Twilight of the Superheroes

O próximo projeto de Moore na DC seria Twilight of the Superheroes, mas por razões desconhecidas, esse projeto não foi adiante. Anos depois, muitas das idéias de Moore para essa série seriam reaproveitadas na aclamada saga “Kingdon Come”(Reino do Amanhã) de Mark Waid e Alex Ross. A dupla nega qualquer reciclagem dos conceitos de Twilight.

Moore, que já não trabalhava para a Marvel desde a época de Capitão Bretanha, tambem passou a não trabalhar mais para a DC, pois discordava sobre os royalties de Watchmen e principalmente com o fato da DC adotar o código “for mature readers” (própria para leitores maduros/adultos) nas suas revistas.

A última colaboração de Moore para a DC foi o final de V de Vingança, que havia ficado incompleta apos a falência da Warrior. A série foi reeditada nos EUA e se tornou outro best-seller.

 

Miracleman

Na mesma época, ele voltou a escrever Miracleman (agora para a editora Eclipse). Além de tudo o que já havia sido escrito para a Warrior, Moore criou novas historias, entre elas a maravilhosa saga Olympus. Depois disso, ele passou os direitos autorais do personagem para Neil Gaiman (que mais tarde resultou naquele pega ´pra capar entre Gaiman e a cria do inferno, Todd McFarlane. O embate jurídico dura até os dias de hoje).

Moore recusou varios trabalhos nessa época, inclusive o roteiro de Robocop 2 (que assumiu a criança foi Frank DKR Miller). Seus próximos trabalhos foram o livro “Brought to Light”, com ilustrações de Bill Sienkieckz e a graphic novel “A Small Killing”.

Em 1989, Moore decidiu colaborar com a recém-criada revista “Taboo” de Stephen Bissete (parceiro de Moore em Swamp Thing). Para a Taboo, ele escreveu a espetacular “From Hell” – fruto de mais de 8 anos de pesquisa, e “Lost Girls”.

Ainda naquele ano, Moore passou a viver um triângulo amoroso com sua esposa e sua namorada Deborah Delano. Irritado com a intolerância do governo de Margareth Tatcher com os homosexuais, Moore colaborou com entidades GLS, publicando a história “Mirror of Love”, pela editora Mad Love, propriedade do próprio autor e de sua esposa.

Big Numbers

O próximo projeto era a serie Big Numbers, projetada para 12 capítulos e mais de 500 páginas. Somente 3 edições foram lançadas, 2 com desenhos de Sienckwiecz e uma com os traços de Al Columbia. Ninguém sabe ao certo porque o projeto nao foi adiante, mas especula-se que a complexidade do texto de Moore foi demais para os desenhistas que nao conseguiram dar conta do recado.

Nessa época teve início o inferno astral de Alan Moore: a Mad Love faliu e seu casamento terminou. A Taboo também chegou ao fim, deixando sagas como From Hell para serem completadas anos depois.

Em 1993, Moore tomou uma decisão que desapontou muitos de seus fãs. Aceitou trabalhar para a Image Comics escrevendo títulos como Spawn, Supreme, Glory, Youngblood, Wild C.a.t.s. Moore desabafou que aquilo não era um retrocesso ou que ele estava vendendo sua alma para os demônios Rob Liefeld e Jim Lee, e sim um desejo de escrever histórias mais simples, para garotos de 14 anos e não para adultos de 30. Ainda pela Image, ele participou do projeto 1963. Este ultimo projeto acabou gerando uma briga entre ele e Stephen Bissette. Até hoje eles não se falam.

Moore passou a morar com uma nova companheira: Melinda Gebbie. No dia em que completou 40 anos, Moore decidiu se tornar um mago. Ainda em 1993, ele praticou performances teatrais como “Snakes and Ladders” e “BirthCaul”. Mais tarde essas performances foram adaptadas para HQ´s por Eddie Campbell, seu companheiro de trabalho em From Hell.

Algumas conclusões de Moore em relação à magia foram adaptadas para histórias como Supreme, Glory e mais tarde Promethea. Em Supreme, Moore explorou o conceito do IDEASPACE, um mundo de arquétipos, semelhante ao Mundo das Idéias de Platão. Supreme vai investigar uma estranha cidade no alto do Tibet, encontrando uma paisagem desnorteante, formada por um grande número de paisagens diferentes fundidas numa só. Há partes dela que parecem como um bairro decadente durante a Depressão de 1930, onde ele conhece uma gangue de crianças e um herói fantasiado.

O Grande Criador

Supreme continua a vagar pela estranha paisagem até encontrar uma trincheira de um campo de batalha, onde há uma infinidade de soldados de várias etnias: Um irlandês, um judeu, um negro, tudo muito parecido com o Sgt. Fury e toda uma enorme linha de heróis patrióticos.

Isto continua até Supreme conhecer o criador supremo deste mundo, que se mostra ser Jack Kirby. Isto é muito difícil de explicar porque leva uma história inteira para ser contada, mas é basicamente uma gigantesca cabeça flutuante, que se altera sob uma fotomontagem da cabeça de Kirby em transmutação; ela sempre é apresentada no estilo dos desenhos de Jack Kirby. Esta entidade gigantesca explica a Supreme que ele foi um artista de carne e osso e sangue, mas agora ele está completamente no reino das idéias, que é muito melhor porque a carne e os ossos e o sangue tem suas limitações, já que ele podia fazer somente quatro ou cinco páginas em um dia de trabalho; mas agora ele existe puramente no mundo das idéias. As idéias só podem fluir sem interrupções. Ele fala sobre todo um conceito de um espaço onde idéias são reais, que é o tipo de lugar onde, de algum modo, todos os criadores de quadrinhos trabalham durante toda a sua vida, talvez Jack Kirby mais do que a maioria. É como se uma idéia se tornasse livre do corpo físico, e este artista pode então explorar os mundos infinitos da imaginação e das idéias.

Em 1996, Moore escreveu seu primeiro romance, intitulado A Voz do Fogo. Foram 5 anos para escrever este livro, um tratado de 5 mil anos da sua cidade natal, Northampton. O primeiro capítulo é narrado em primeira pessoa (de forma muito singular) por um personagem que vive numa Northampton paleolítica, quando a cidade tinha duas a três cabanas de barro e uma ponte. O segundo é narrado em primeira pessoa por um personagem totalmente desligado do primeiro que vive em Northampton durante a Idade de Bronze, em uma comunidade que começou a crescer, se desenvolvendo através das eras. Lentamente, nós movemos através dos séculos, até o décimo primeiro capítulo, que é narrado pelo próprio autor na Northampton do presente.

Trabalhando para a editora Wildstorm (que acabou sendo posteriormente vendida para a DC) Moore criou uma nova linha de HQ´s, a America’s Best Coomics (ou ABC), onde surgiram as aclamadas séries: Top Ten, Tom Strong, League of Extraordinary Gentlemen, Promethea e Tomorrow Stories.

Aos 50 anos, Moore anunciou que pretende se aposentar dos quadrinhos. Será?

Liga dos Cavalheiros Extraordinários

Se você assistiu LXG, a dica de leitura é um antídoto para a pataquada que você viu na telona. Leia a edição especial A Liga Extraordinária da Devir. Apesar do preço salgado (R$ 45,00), você pode encontrar esse lançamento na FNAC por R$ 36,00. Preço justificado pela luxuosa edição de 192 páginas repleta de material inédito, incluindo o tão aguardado conto “Allan e o Véu Rasgado”, no melhor estilo das obras de H.P. Lovecraft.A Liga de Moore não tem nada a ver com aquela versão X-Men Vitorianos. As Aventuras da Liga dos Cavalheiros Extraordinários é o fanfict definitivo: Imagine uma força-tarefa formada por personagens da literatura inglesa, mas com uma pitadinha do tempero de Alan Moore: Então o Capitão Nemo é uma figura intrigante, um fanático cheio de equipamentos misteriosos. Hyde é de uma complexidade assustadora. Mina Murray não é uma vampira anabolizada e o decadente Alan Quatermain passa longe da interpretação impecável de Sir Connery. Só para você ter uma idéia, o Quatermain da HQ é viciado em ópio! Leia o mais rápido possível e fique aguardando ansiosamente o volume dois, ainda “inédito” aqui no Brasil.

Entrevista com Alan Moore

Apresento-vos uma entrevista com o escriba, realizada por Alan David Doane. A tradução é de David Soares (Portugal)

Eu soube que este “Quiz de 5 perguntas” seria um esforço maior que os anteriores, excedendo certamente esse número de questões, quando o homem que eu considero ser o melhor escritor de banda desenhada de sempre deteu-se, pensativamente, durante oito minutos para responder à minha primeira interrogação (envisionando e esclarecendo, em conjunto, as seguintes). Olhando a isso, abandonei a fórmula inicial; que outra escolha tinha? Durante a década de 80, Alan Moore recriou a banda desenhada por imprevisto, como irão ler adiante, e, desde a sua estréia, uma engenhosidade e paixão superlativas constantes são as características reconhecidas no seu trabalho. Conversar com Alan Moore, mais que uma honra, foi uma aventura e é meu dever agradecer ao autor a sua disponibilidade, mas, também, a Chris Staros, da Top Shelf Productions, por apadrinhar este encontro. Esta editora publica muitos dos melhores trabalhos de Moore, como o seu romance “Voice of the Fire”.

Alan David Doane – O que te inspirou a escrever um romance com a profundeza de “Voice of the Fire”?

Alan Moore – Sempre vivi em Northampton, como os meus pais, talvez tenha sido isso. Somos todos descendentes uns dos outros nesta única grande família que são os seus cidadãos. “Nascidos de fresco com sangue em segunda-mão”, como gostamos de dizer por cá. Esta cidade fascina-me e saber que a sua história, tão singularmente rica, é completamente ignorada sempre se me apresentou contra-sensual. A maioria dos ingleses é capaz de identificar Northampton apenas como uma mancha indistinta a meio da M-1, entre Birmingham e Londres, mas quando comecei a investigar as suas origens na altura em que me lembrei de escrever este livro encontrei matéria convincente o bastante para concluir que Northampton é, mesmo, o centro do universo. No mínimo, eu fiquei convencido.

Penso que a sua é uma história esplêndida que remonta desde a Idade da Pedra quando caçadores de mamutes, e os próprios mamutes obviamente, ainda caminhavam sobre estas ruas, atravessando a Idade do Bronze e as migrações dos povos Celtas, prosseguindo pela Idade do Ferro e as invasões romanas e, ainda, parece-me ser uma cidade que assumiu sempre uma importãncia central, de um modo mais complexo que a sua simples localização geográfica. Lembro-me, se me encontro sem erro, que os avós de George Washington, e de Benjamin Franklin, habitavam duas pequenas aldeotas vizinhas durante os anos da Guerra Civil Inglesa. Os pais de Washington moravam aqui, os pais de Franklin moravam em Ekton e ambos os casais abandonaram Northampton após a guerra civil que terminou nesta cidade (provavelmente, o local mais desconfortável para comprar uma casa durante o séc. XVII) e emigraram para a América. De acordo com aquilo que sei, a própria bandeira norte-americana é baseada no seu, agora esquecido, brasão de família, tradicional de Northampton.

O tipo que descobriu o ADN, Francis Crick, viveu aqui e foi aluno na mesma escola que eu frequentei com apenas algumas décadas de intervalo entre os seus anos lectivos e os meus e ia semanalmente à catequese na igreja que ainda se encontra no fim da minha rua. Muitos episódios da história inglesa também circulam Northampton, como a Guerra das Rosas que também conheceu o seu fim neste lugar, simetricamente à nossa Guerra Civil, como já te contei, e a Conspiração da Pólvora que foi urdida nesta cidade e pretendia rebentar a sede do parlamento, em Londres, em 1605. Pensamos, inclusive, que o empreendimento foi um fracasso e é por essa razão que o tornámos numa festa anual, mas os conspiradores não se saíram, realmente, mal.

Também foi nesta cidade que a rainha Mary, da Escócia, foi decapitada e é avaliando esse conjunto de acontecimentos que te digo que existe muita história aqui, nem sempre agradável, admito, mas está presente uma força nuclear para a vida humana e que influenciou de certeza a evolução do modo de vida inglês, e, em última análise, possivelmente outros modos de vida em outros lugares.

A génese do livro nasceu dessa fé que me diz que, sim, Northampton é, na verdade, o centro do universo. Acredito nisso, assim como acredito que é esta é uma cidade despida de características especiais. Posso dizer-te que qualquer pessoa, habitante de qualquer lugar sobre o globo, pode desenterrar uma mão-cheia de maravilhas da terra do seu próprio quintal, se tiver feito uma pesquisa paciente sobre esse local e se for engenhosa o bastante para as encontrar. Demasiadas vezes caminhamos pelas nossas ruas, a pé ou de automóvel, e não compreendemos que sob as fachadas descaracterizadas se pode esconder o antigo cárcere de algum poeta ou um sítio reservado ao homicídio, o sepulcro oculto de alguma rainha lendária e é o somatório destas pequenas histórias que enriquecem um lugar: de repente, não te encontras simplesmente a passear numa cidade comum, aborrecida e homogénea, mas numa aventura em avenidas prodigiosas recheadas de histórias fantásticas. Na minha opinião, viver é uma experiência muito mais recompensadora se conhecermos intimamente a parte do mundo que nos foi destinada como casa e esta é a melhor resposta que te posso dar sobre a tua pergunta.

ADD – Bom, na verdade já respondeste às primeiras quatro perguntas.

AM – A sério? (Risos) Estou em forma.

ADD – (Risos) Sendo assim, vamos à última. Imagino que durante a criação das histórias deste livro, à medida que ias desenvolvendo a tua pesquisa e estruturando a narrativa, foste apanhado de surpresa por algumas coisas acidentais que não estavam previstas quando iniciaste o empreendimento.

AM – Fui surpreendido por uma grande quantidade de coisas. Repara que uma das minhas premissas iniciais era a de não querer escrever um trabalho histórico, por que não queria abdicar da liberdade que um trabalho de ficção me oferece, como, por exemplo, entrar na personalidade das pessoas sobre quem eu pretendo escrever e o sentido dessas vidas, pois acredito que dessa forma o resultado final é mais verdadeiro, mais humano. Contudo, mesmo conjurando todas estas vozes fictícias do passado queria que o seu discurso se baseasse em fatos reais e circunstâncias possíveis e comecei com esse objetivo em mente para, em seguida, compreender que determinados temas, determinadas imagens, estavam a emergir da minha narrativa.

Aparentemente, a maioria dos episódios ocorrem em Novembro, no dia do meu aniversário,e, paralelamente a isso, outros elementos estavam a manifestar-se repetidamente em diferentes histórias e indicavam-me uma espécie de padrão: pessoas com membros amputados; matilhas de cães pretos espectrais; cabeças decepadas e outros ícones de natureza igualmente inquietante.

O desafio de “Voice of the Fire”, se eu queria realizar esse livro de acordo com a minha ideia original, era ter um narrador diferente para cada uma das doze histórias, alguém que pertencesse a esse espaço-tempo e que relatasse na primeira pessoa. Para o último capítulo, que tem lugar nos dias de hoje, o único narrador possível só poderia ser mesmo eu próprio. Contar essa história com a minha voz, debruçando-me sobre os meus assuntos particulares sem inventar pormenores sobre o que estaria a acontecer durante essa altura e, coincidentemente, quando finalmente comecei a fazê-lo, descobri que já me encontrava em Novembro, mais uma vez… Iniciei a escrita desse capítulo com a esperança que a própria cidade me sugerisse um final que amarrasse todas as pontas e todas as hipóteses que fui deixando por rematar ao longo dos capítulos anteriores sem saber se isso iria acontecer ou se, pelo contrário, os últimos cinco anos da minha vida tinham sido um logro e que não deveria ter começado o livro, em primeiro lugar.

Sempre acreditei que existem momentos na vida de um escritor em que ele, ou ela, é confrontado com a noção de que as fronteiras entre a ficção e a vida real são, muitas vezes, inexistentes e isso é frequente em trabalhos nos quais optamos por um registro auto-referencial. Esses dois universos inclinam-se para um maior cruzamento à medida que te aproximas de casa o que pode ser desconfortável, no mínimo. Por isso não foi surpreendente, mas ainda assim bizarro, quando sucessivas ocorrências se conjugaram para satisfazer as necessidades do meu texto. Coisas sobre e com cabeças cortadas e enormes cães pretos que me mostraram que enquanto ações mirabolantes têm lugar na ficção, outros movimentos igualmente mirabolantes, e perigosos, acontecem na vida real; experiências que são simétricas. Por mais que as esperes, são sempre perturbantes.

ADD – Esse capítulo final, acredita, foi uma das coisas mais perturbantes que já li.

AM – Pois. Obrigado.

ADD – Existe uma frase nesse capítulo… Tu sabes qual: “O Homem escreve.”, “O Homem escreve.”…

AM – Sim.

ADD – Essa tua frase que aparece repetidas vezes e que parece tão absurda consegue reunir toda a informação do livro e fazer sentido no final, quando todas as centenas de páginas e todas as centenas de anos que assimilaste acabam por nos conduzir à tua casa, ao teu quarto, não é verdade?

AM – É quase isso. Não és conduzido ao meu quarto, felizmente para ti, mas à minha mente. Até esse ponto exato, ainda poderias pensar que “Voice of the Fire” é composto por uma série arbitrária de histórias suavemente associadas em órbita da minha cidade e nesse capítulo quis fundir tudo isso: as histórias, a minha vida, a minha mente e as vidas e as mentes dos leitores. Aparentemente, para surpresa de todos, o livro acaba mesmo por ser sobre mim. Pode ser sobre mim, sentado a escrever o próprio livro. Ou ser sobre o processo criativo de se escrever outro livro. Ou sobre outro assunto qualquer. É isso. E fico contente que tenhas reagido bem à frasezinha, por que ela arrepiou-me um bocadinho quando a escrevi. Lembro-me que pensei: “-Isto está a ficar sinistro, por isso devo estar a criar algo interessante”.

ADD – A frase não é sinistra, em si, mas consegue impressionar-te dessa forma.

AM – Obrigado.

ADD – É perturbante, como já te disse. Aliás, já li o teu “From Hell” e senti em algumas passagens dessa história que ultrapassaste a barreira entre autor e leitor. Uma barreira que não tinha sido ultrapassada em nada que já tivesse lido.

AM – Isso é maravilhoso…

ADD – Não tenho a certeza de qual dos livros foi editado em primeiro lugar, mas o efeito que “Voice of the Fire” me provocou pareceu-me uma ampliação do que senti em segmentos de “From Hell”, naqueles momentos em que tu, como acabaste de explicar, penetras, e nós contigo, na mente da personagem, que neste caso és tu. Não tinha pensado nisso, mas o leitor acaba por se transformar em Alan Moore.

AM – Pois… é possível. Penso, inclusive, que um ingrediente que pode ajudar a cozinhar esse efeito é o facto de que no último capítulo de “Voice of the Fire” não possuo um conhecimento “in loco” do meu consciente não-autónomo, ou seja: o meu “eu” pensante. Falando nisso, nunca utilizo a palavra “eu”, entendes? Acaba por funcionar como uma narração na primeira pessoa do singular, mas sem uma pessoa. Não sei se era a isto que fazias referência, mas eu também não compreendo muito bem o que me leva a escolher uma determinada forma de fazer as coisas. Na altura, pareceu-me que funcionava.

Pareceu-me que deixava o leitor respirar, sem estar constantemente a ser confrontado com a noção de que é um… deixa-me pensar… um ego de outra ordem que fala com ele. Fico satisfeito pela tua reacção a esta experiência.”Voice of the Fire” e “From Hell” nasceram mais ou menos na mesma altura, talvez com um ano de diferença, e isso acaba por estabelecer uma comunicação entre os dois, por que têm algumas afinidades, como, por exemplo, o facto de partilharem um momento da minha vida em que decidi tornar-me um ocultista e estudar a fundo matérias que estão imersas num mundo à parte às quais, vulgarmente, chamamos magia. No “From Hell” isso está explícito nos diálogos de William Gull quando ele nos descreve as suas crenças e que os deuses existem realmente, em majestade e monstruosidade, na nossa mente. Escrevi isso quase por acidente e compreendi depois que tinha escrito algo mais profundo, algo significante que, eventualmente, acabou por introduzir o meu interesse pela magia.

Certamente, esta inclinação coloriu com outros tons o final de “From Hell”, e a conclusão de “Voice of the Fire”. Este título reservou-me outra surpresa: comecei o livro contando a história de um xamã que procura um código de palavras, uma ladainha, um conjunto mnemónico para aglutinar o seu povo e na última história, eu sou esse xamã, inconscientemente, milénios depois, realizando a mesma rotina. Não a mesma, claro, pois os meus métodos não envolveram nenhum sacrifício humano. Podes dormir sossegado.

ADD – A mensagem de “From Hell, bom, pelo menos a que eu retirei da minha leitura e que, infelizmente, não é expressa pela sua adaptação cinematográfica…

AM – Tens de compreender que estás em vantagem sobre mim nesse tópico, por que não vi o filme.

ADD – Tudo bem. Penso que na melhor das hipóteses representar todas as preocupações do teu trabalho, já por si bastante extenso, num filme de duas horas é uma tarefa impossível de concretizar. Mas falava-te do que retirei do livro, a tal mensagem que é a de que a arte tem o poder de transformar o artista, até divinizá-lo, e no decurso da minha leitura percebi que ambos os livros, “From Hell” e “Voice of the Fire”, partilham essa preocupação. Não sei se foi intencional, mas a verdade é que quando se chega ao fim desses livros essa mensagem é, de facto, sugerida.

AM – A magia tem o poder de mudar a relação que tens com o mundo que te rodeia e isso aconteceu comigo. Comecei a olhar as coisas de outra forma, com um sentido, felizmente, mais útil, até, e considerando tudo isso, o que dizes sobre os dois livros pode ser verdade. Através deles, apresento uma visão alternativa da nossa história e das nossas experiências, mesmo que em “From Hell” a minha intenção principal fosse contar uma história sobre um crime, um homicídio. Nessa altura, nem pensei nos crimes de Jack, o estripador. Era, apenas, o uso de um crime como uma experiência avassaladora que me norteava. Felizmente, um homicídio, no contexto de uma vida, é uma experiência bastante improvável. Repara que o número de pessoas que acabam por morrer dessa forma é, ainda assim, muito reduzido.

Essa raridade sugeriu-me a idéia de falar sobre o homicídio de uma forma particular. Porquê abordar apenas a identidade do autor, que parece ser o motor constante de tantos romances policiais? Essa é uma alusão quase tão redutora como um vulgar jogo de salão. Como o CLUEDO, por exemplo, onde só precisas de descobrir quem foi o assassino, a arma que usou e em que local a vítima foi abatida. Com “From Hell” quis esclarecer, também, as variáveis sociais e culturais que permitiram a práctica desse crime, muito mais que, somente, especular sobre a identidade do homicida. Queria ver como um crime poderia agir sobre a sociedade e estudar todas as hipóteses de desenvolvimento que poderiam florescer posteriores a essa ação.

Prosseguindo nessa óptica, se estás a falar sobre um crime, essa experiência avassaladora que pode acontecer na nossa vida, tomas consciência que és capaz, inclusive, de ir mais longe e ter alguma coisa a dizer sobre a grandiosidade da própria condição humana. Podes dirigir este ponto de vista para “Voice of the Fire”, claro, mas desviado suavemente, já que a intenção desse livro não é provar-te que Northampton é o núcleo do universo, mesmo tendo fé absoluta na verdade dessa afirmação, como já te disse, mas mostrar-te que qualquer local, onde quer que te encontres, é muito mais rico, muito mais exótico e prodigioso do que parece à primeira olhadela, entendes? No primeiro livro, procurei mostrar um ponto de vista crítico sobre a condição humana e a cultura, neste caso a cultura e a sociedade inglesas, usando um crime como casa de partida, mas com “Voice of the Fire”, as minhas ambições estavam à solta, a pensar em outras paisagens e para onde a nossa evolução nos conduz. Penso que o que estabelece a comunicação entre os dois livros é mesmo o meu interesse pela magia, que influencia o meu modo de olhar as coisas e de as contar.

ADD – Gostaria  que falasses do modo como vê a tua carreira na banda desenhada e a forma como as obras que tu escreveste, como “From Hell”, mas também “Watchmen” e “The League of Extraordinary Gentlemen”, mudaram o comportamento da indústria da publicação de comics.

AM – Posso dizer-te que a minha ambição foi sempre ganhar a vida como cartunista e nem pretendia ser famoso. O problema foi quando descobri que nunca seria um artista bom e rápido o suficiente para aguentar uma carreira nessa atividade.

Lembrei-me, então, da hipótese de me concentrar na escrita, por que senti que poderia fazer um trabalho melhor como escritor e que desenhando os storyboards para as histórias a minha ligação com o desenho continuaria. Investi com essas premissas e compreendi logo no início que seria incapaz de escrever uma história de encomenda. Se uma idéia sugerida não fosse aquilo que eu tinha em mente, invertia-a para a transformar em algo que me desse prazer escrever ou que fosse, no mínimo, um desafio. Penso que o método que desenvolvi me salvou de muitos compromissos e sempre me providenciou com a motivação necessária para realizar um bom trabalho.

Comecei a ser requisitado aos poucos, para ali e para acolá, em resultado dele e apliquei-o, concisamente, quando a DC me engajou para escrever o “Swamp Thing”. Na minha lógica, o leitor nunca se irá interessar em ler uma história escrita por mim, se eu próprio não estiver interessado em escrevê-la. Isso pressente-se, não te parece? Penso que os leitores são muito bons em descobrir se o autor gostou realmente de fazer o seu trabalho.

Tive de tornar o material mais arrojado, mais destemido, para o forçar a ser interessante. Pensei que fosse arranjar uma porção de problemas por causa disso, mas não. Os leitores compreenderam as minhas escolhas e eu, encorajado por eles, inovei mais ainda, sempre com o apoio da Karen Berger, claro, a minha editora da DC na altura, e, também, por outras pessoas que apreciaram muito a subida das vendas do título, sempre maiores a cada mês. Todo esse conjunto de situações fez nascer uma relação de confiança mútua na qual os editores perceberam que se eu tivesse controlo sobre as minhas decisões criativas nunca lhes iria apresentar um trabalho inteiramente despropositado e foi essa credibilidade que me permitiu ir sempre mais longe, por vezes a locais perturbadores ou tétricos, mas sempre interessantes. De que forma é que isso influenciou a indústria? Não te posso oferecer uma explicação clara. Depende da minha disposição, se queres
mesmo saber. Se eu me sentir deprimido penso que a minha influência foi terrível e que os autores que cresceram a ler o “Swamp Thing” ou “Watchmen” só foram capazes de imitar a violência desses trabalhos, e a sua pose intelectualista, sem a suportarem com a ingenuidade e a aventura que também lá se encontram. Sinto que ignoraram completamente a minha vontade de romper os limites da própria fórmula de contar histórias em BD e contentaram-se em produzir uma série de livros tristes e penosos. Como te disse, esta visão desconsolada da realidade depende muito da minha má-disposição e hoje tiveste azar.

A sério que gostava mesmo de acreditar que, em vez de tudo isto que contei, consegui realmente mostrar com o meu trabalho que a banda desenhada permite inúmeras possibilidades aos seus autores e que estão para nascer livros fabulosos com contornos que somos incapazes de imaginar neste momento. Que podes fazer tudo com algo tão simples como palavras e imagens se as abordares sensivelmente e se fores inteligente, diligente e virtuoso no teu esforço. Talvez esteja a ser brusco, lamento, mas queres afirmar que existe uma influência minha na indústria? Então, por favor, coloca-a aqui em vez de encorajares a minha percepção de que a minha herança será invariavelmente composta por psicopatia e sarcasmo.

ADD – Sou capaz de regressar mais longe que os anos oitenta, quando o teu “Watchmen” e o “The Dark Knight Returns”, do Frank Miller, foram publicados. Na minha opinião, o que poderá ter iniciado a redefinição das personagens, dos super-heróis, poderá muito bem ter sido aquela história que escreveste no “Swamp Thing” na qual representaste os membros da Liga da Justiça, o Batman, o Super-Homem e os outros, como se fossem novos deuses, curiosos em relação à humanidade. É um segmento de quantas páginas? Duas? Contudo, penso que a mudança começou nesse momento.

AM – Quem sabe se a razão está do teu lado… Lembro-me que foi a primeira vez que escrevi sobre super-heróis, no mínimo, os americanos. O Swamp Thing não conta, por que, na altura, era refugo. Para mim, escrever essa história foi voltar a divertir-me com os brinquedos da minha infância, o Flash, o Super-Homem e sentá-los todos no seu grande gabinete cósmico e devolver-lhes o carisma que eles costumavam ter para mim e que, infelizmente, se tinha transformado num sentimento mais próximo de casa. Fi-lo usando pequenos ardis, como nunca os chamar pelo nome verdadeiro e ocultá-los na penumbra. Podes ver uma insígnia pelo canto do olho ou uma silhueta, mas isso é tudo. Sobretudo, quis fazer poesia com estas personagens.

Dizer que uma personagem consegue ver o que acontece no outro lado do globo ou que é capaz de aquecer a antracite o suficiente para a transformar em diamante, como fiz para o Super-Homem, ou que se move a uma velocidade tão intensa que a sua vida se assemelha a uma visita numa galeria de estátuas, como escrevi para o Flash. Falei em poesia e isto, de fato, não é um exemplo de boa poesia, mas constitui um novo olhar sobre estas personagens que temos inclinação a desdenhar, ou a esquecer, por que se tornaram, com o passar dos anos, demasiado familiares e a aproximação que nos liga às coisas e aos assuntos tende, por vezes, a criar essa desilusão. Só pintei uma maquilagem nova sobre o encanto que já existia. O Frank Miller fez a mesma coisa nas páginas do “Daredevil”, não? Quando introduziu outras personagens da Marvel nessa cronologia.

ADD – Tens razão, mas repara que ele não se desviou dos padrões instituídos e nunca nos fez olhar uma personagem conhecida de um modo singular. A mesma acusação é válida para a maioria dos criadores posteriores. É mesmo como dizes: se tivessem considerado a face mais experimental dos vossos trabalhos em vez de se concentrarem no sensacionalismo as coisas poderiam, certamente, ter conhecido outra evolução.

AM – Não duvides e essa face mais arriscada é o que existe de atraente no trabalho do Frank, essa sua mestria narrativa e a inovação constante que ele introduziu no género através das histórias do Demolidor e do Batman, muito mais que o desalento e a testosterona. Seria tão bom se a sua influência penetrasse mais fundo que a camada superficial feita de sexo e violência.

Não vamos dizer, todavia, que tudo o que apareceu depois de “Watchmen” e “The Dark Knight Returns” se encaixa nessa pobre categoria e posso dizer-te que na periferia do mainstream encontras grandes trabalhos que não são clones de nenhum destes títulos, mas ainda assim penso que a nossa herança é maldita e uma péssima desculpa para oportunidades perdidas, o que não desvirtua a qualidade do trabalho do Frank e do meu, obviamente.

ADD – Esta conversa sobre herança vem mesmo a propósito. O teu amigo Neil Gaiman já tornou público o que ele diz ser “a conclusão, ou o fim eminente, de um episódio interminável com um editor desonesto, desleal até ao limite do imaginável”, aludindo ao desfecho do processo que levantou contra Todd McFarlane pela posse dos direitos que envolvem parte do franchise do personagem Miracleman, que tu próprio resgataste e ressuscitaste nos anos oitenta. Passados todos estes anos, o que é que tu gostaria de ver feito com essas histórias que escreveste e qual é a tua opinião sobre o processo-crime?

AM – Estou muito contente pelo Neil, como podes imaginar. Ainda bem que acabou, por que deve ter sido um pesadelo moroso. É sempre ridículo que alguém que não seja o criador venha exigir direitos sobre um trabalho e custa-me a entender essa falta de ética, ou melhor, compreendo-a, mas não posso pronunciar-me sobre ela sem dizer um ou dois palavrões. É algo embaraçoso, seboso até, que acaba por nos sujar a todos e que não oferece uma boa imagem da indústria da banda desenhada, por culpa dela própria, também, já que, infelizmente, casos semelhantes a este são frequentes. Penso que o Neil, chegando impoluto à outra margem desse lodaçal para onde irrefletidamente o quiseram arrastar, comportou-se como um verdadeiro super-herói.

Seria divertido ver reimpressões do Miracleman, para que os leitores não estivessem a pagar preços proibitivos por edições raras guardadas religiosamente desde a sua publicação original. Algum do material apresentado nessas histórias era realmente fantástico, como o escrito pelo Neil, por exemplo, e era bom que ele, em algum momento, tivesse oportunidade para lhe dar continuidade. Ele já me propôs há uns tempos uma parceria com vista à realização de uma conta em que todos os royalties derivados das vendas das reimpressões fossem guardados para serem distribuídos com justiça aos autores que trabalharam na série, como nós ou como o Mark Buckingham.

Parte desse dinheiro podia ir, também, para o Comic Book Legal Defense Fund e se houvesse a infelicidade de um ou outro filme aparecer o dinheiro, os meus royalties pelo menos, poderiam ir diretamente para esse fundo ou ficar no estúdio para serem partilhados pelos criadores envolvidos no projeto, por que eu não quero receber um único centavo de mais um filme adaptado de um dos meus livros, nem desejo ver o meu nome associado a um empreendimento desse género. O ideal era que não se fizessem mais filmes inspirados em livros do Alan Moore. Em vez disso, era mais agradável ver bons trabalhos serem reimpressos por um bom editor, sob uma boa política editorial.
Isso seria uma excelente premissa para o futuro e não digo isto motivado pela ganância de ganhar mais uns tostões com o meu material antigo, mas com a intenção de garantir que criadores como eu e como o Neil não tenham de atravessar campos minados no percurso das suas carreiras, por que, na verdade, temos assuntos muito mais importantes com que nos preocupar.

1953 –

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alan-moore/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alan-moore/

Al-Wahhab

 

Muhammad Ibn Abd al-Wahhab (1703- 1791) foi um reformador religioso conservador que lançou o movimento Wahhabi e ajudou a fundar o primeiro estado saudita.

Ibn Abd al-Wahhab nasceu em Uyayna, uma cidade oásis localizada no Najd, a região central do que hoje é a Arábia Saudita.

Ele foi criado em uma família de juristas e estudiosos religiosos da Escola Hanbali e demonstrou um interesse inicial em estudar o Alcorão e outras áreas do aprendizado islâmico, especialmente os estudos sobre a Hadith (Coletânea de Narrações e Ditos do Profeta Muhammad e seus Companheiros).

Seu pai, um juiz da Escola Hanbali e professor da Hadith e da Fiqh (a Jurisprudência Islâmica), lhe proporcionou sua educação precoce nas ciências religiosas.

Mais detalhes sobre o início da carreira de Ibn Abd al-Wahhab são anedóticos, mas parece que ele começou a defender um rigoroso reformismo islâmico quando estava na casa dos 20 anos.

Ele ganhou seguidores em sua cidade natal, mas a oposição política o forçou a ir a Meca e Medina, onde ele se encontrou e estudou com outros Ulamas (teólogos islâmicos) reformistas.

Ele se familiarizou com os escritos do reformador medieval da Escola Hanbali, Ibn Taymiyya, e se destacou por seu conhecimento da lei Hanbali.

Mais tarde ele viajou para Basra, uma cidade portuária no Iraque, onde encontrou doutrinas e práticas do Xiismo que encontraram sua desaprovação por terem se afastado do Islã do Alcorão e da Sunna.

Depois de Basra, Ibn Abd al-Wahhab mudou-se para Huraymila, a cidade Najdi onde seu pai vivia.

Foi aqui que ele escreveu O Livro da Unidade (Kitab al-Tawhid), no qual expressou muitos dos seus principais ensinamentos.

Cópias do mesmo foram espalhadas por todo o Najd.

Após a morte de seu pai em 1740, sua missão tornou-se mais pública.

Ele promoveu a doutrina do Tawhid, a crença na unicidade absoluta de Deus e a rejeição do politeísmo (shirk), da idolatria e da descrença.

Sua crença de que o Tawhid incluía seguir os mandamentos e as proibições de Deus significava que ele também procurava tratar das questões morais em sua sociedade e cultura.Ele favoreceu a aplicação rigorosa da Sharia (a Lei Islâmica), incluindo a realização de orações, a entrega do Zakat (esmolas) e a aplicação de punições por adultério.

Aqueles que falharam em atender seus ensinamentos eram vistos como descrentes (Kafirs, os infiéis) e podiam ser subjugados através da Jihad.

Líderes tribais e Ulamas em Huraymila decidiram que não queriam que Ibn Abd al-Wahhab minasse a autoridade deles, então conspiraram contra a sua vida, forçando-o a voltar para Uyayna, sua cidade natal.

Uthman ibn Hamid ibn Muammar (d. 1749), o governante de Uyayna, a princípio deu as boas-vindas ao reformador, até mesmo providenciando para que ele se casasse com a sua tia.

A situação mudou, porém, quando ele cortou uma das árvores sagradas da cidade, demoliu um santuário pertencente a Zayd ibn al-Khattab (um dos companheiros do profeta) e, acima de tudo, condenou uma mulher à morte por apedrejamento depois que ela confessou adultério.

O clamor público que essas ações provocaram fez com que Uthman retirasse o seu apoio a Ibn Abd al-Wahhab, o qual teve que fugir de Uyayna em 1744.

Ele se estabeleceu em Diriya, a cerca de 65 quilômetros de Uyayna, perto de Riyadh.

A pequena cidade era governada pelo clã dos Saud, liderado por Muhammad ibn Saud.

Nesse mesmo ano, “os dois Muhammads” chegaram a um acordo mútuo: Ibn Saud protegeria Ibn Abd al-Wahhab de seus inimigos e o tornaria o Imã (líder religioso islâmico) de Diriya, enquanto Ibn Abd al-Wahhab coletaria Zakat para o governante saudita e o ajudaria a estender seu controle sobre a região de Najd através de sua pregação e da sua declaração da Jihad contra os inimigos dos sauditas.

Estes incluíam os “infiéis” que não atendiam ao chamado de Ibn Abd al-Wahhab (Daawa) para aceitar sua versão do Islã, bem como as tribos que não se submeteriam ao domínio saudita.

O acordo acabou sendo mais frutífero do que os dois poderiam ter imaginado.

A partir dele eles puderam criar uma confederação de grupos tribais, tanto estabelecidos como nômades, a qual forneceu a base para um novo estado na Arábia Central.

Quando Muhammad ibn Saud morreu em 1765, Ibn Abd al-Wahhab continuou a aliança com seu filho Abd al-Aziz ibn Muhammad (m. 1803).

Ele manteve sua base em Diriya, onde ensinou e escreveu, procurando conquistar outros para sua causa.

Sua estratégia incluía a designação de juízes Wahhabi para as cidades e oásis que se haviam submetido ao domínio saudita.

Na época de sua morte, o governo saudita Wahhabi alcançou Riad (a futura capital saudita) e as margens do Golfo Pérsico.

Alguns anos mais tarde, o governo saudita abrangeu a maior parte da Península Arábica, incluindo as cidades sagradas de Meca e Medina.

O legado de Ibn Abd al-Wahhab foi levado adiante por seus descendentes e discípulos.

Seu filho Abd Allah escreveu obras contra o Xiismo e endossou as incursões Wahhabi no sul do Iraque no início de 1801.

Seu neto Sulayman (m. 1818) serviu como juiz em Diriya até ser executado pelas forças otomanas-egípcias enviadas do Egito para a Arábia para destruir o estado saudita primitivo.

Hoje, seus ensinamentos fazem parte da ideologia oficial do Reino da Arábia Saudita, que surgiu das cinzas do primeiro estado saudita sob a liderança do rei Abd al-Aziz ibn Saud (m. 1953) no início do século 20.

Os herdeiros de Ibn Abd al-Wahhab, conhecidos como Al al-Shaykh (a família do Shaykh Ibn Abd al-Wahhab), agora ocupam poderosos cargos no governo saudita e se casam com membros da família real saudita.

Suas obras estão amplamente disponíveis em forma impressa, e suas ideias prevalecem entre os reformadores religiosos conservadores e radicais em muitos países Sunitas.

Entre aqueles influenciados pelos ensinamentos de Ibn Abd al-Wahhab estava Osama bin Laden, líder da organização Al-Qaeda responsável pelos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono em 2001.

No entanto, muitos muçulmanos, Sunitas, e Xiitas rejeitam o entendimento puritano do Islã conforme feito por Ibn Abd al-Wahhab.

Leitura adicional:

– Natana J. DeLong-Bas, Wahhabi Islam: From Revival to Global Jihad (Oxford: Oxford University Press, 2004);

– Madawi al-Rasheed, A History of Saudi Arabia (Cambridge: Cambridge University Press, 2002), 14–23;

– John O. Voll, “Muhammad Hayat al-Sindi and Muhammad Ibn Abd al-Wahhab: An Analysis of an Intellectual Group in Eighteenth Century Medina.” Bulletin of the School of Oriental and African Studies 38, no. 1 (1975): 32–39.

***Fonte:

Encyclopedia of Islam

Copyright © 2009 by Juan E. Campo

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/al-wahhab/

Alquimia e Harry Potter, parte II

Arianhrod.

Nota: Esta é a segunda parte da série de artigos, confira a primeira aqui.

Nota do Tradutor: O presente artigo foi escrito antes da publicação de Harry Potter e as Relíquias Morte, motivo pelo qual o autor não se refere ao mesmo.

Nicolau Flamel, a quem é atribuída à criação da Pedra Filosofal, nasceu em 1330 e morreu em 1418, tornando-se um dos maiores alquimistas do mundo. A Bibliotheque Nationale em Paris contém obras copiadas de sua própria mão e obras originais escritas por ele. Sua esposa, Perenelle, era realmente uma pessoa rara. Ela se tornou sua companheira e confidente ao longo da vida, guardando seus segredos e ajudando-o em seus estudos até o dia de sua morte. Ela nunca revelou os segredos do marido a ninguém. Seu segredo causou muitas dores de cabeça para pesquisadores posteriores, porque exatamente o que Flamel descobriu permanece um mistério até hoje.

O que parece claro, no entanto, é que Flamel devia seu conhecimento de alquimia e outras coisas esotéricas a uma única fonte: O Livro de Abraão, o Judeu, que ele recebeu de um estranho que entrou em sua livraria um dia. O livro estava cheio de palavras cabalísticas em grego e hebraico, e Flamel teve muita dificuldade em traduzi-las.

De acordo com Merton:

“Um dia, quando Nicolas Flamel estava sozinho em sua loja, um homem desconhecido que precisava de dinheiro apareceu com um manuscrito para vender. Flamel sem dúvida se sentiu tentado a recebê-lo com desdenhosa arrogância, como fazem os livreiros de nossos dias quando algum pobre estudante se oferece para lhes vender parte de sua biblioteca. Mas no momento em que viu o livro, reconheceu-o como o livro que o anjo lhe oferecera e pagou dois florins por ele sem barganhar. O livro parecia-lhe realmente resplandecente e instintivo de virtude divina. Tinha uma encadernação muito antiga de cobre trabalhado, na qual estavam gravados curiosos diagramas e alguns caracteres, alguns gregos e outros numa língua que ele não conseguia decifrar. As folhas do livro não eram de pergaminho, como as que ele costumava copiar e encadernar. Eles eram feitos de casca de árvores jovens e cobertos com uma escrita muito clara feita com uma ponta de ferro. Essas folhas foram divididas em grupos de sete e consistiam em três partes separadas por uma página sem escrita, mas contendo um diagrama que era bastante ininteligível para Flamel. Na primeira página estavam escritas palavras no sentido de que o autor do manuscrito era Abraão, o judeu – príncipe, sacerdote, levita, astrólogo e filósofo. [minha nota: Abraão da Bíblia] Seguiram-se então grandes maldições e ameaças contra qualquer um que pusesse os olhos nele, a menos que fosse um sacerdote ou um escriba. A misteriosa palavra maranatha, repetida muitas vezes em cada página, intensificou o caráter inspirador do texto e dos diagramas. Mas o mais impressionante de tudo era o ouro patinado das bordas do livro e a atmosfera de antiguidade sagrada que havia nele.” 17

Flamel fez o trabalho de sua vida para entender o texto desses segredos perdidos. Ele havia adquirido amplo conhecimento das artes alquímicas antes de obter o livro; no século 14, a sabedoria dos árabes e judeus encontrou seu caminho para a Europa cristã, e como livreiro e copista Flamel certamente teve acesso a eles. Então ele procurou os árabes e judeus para decifrar o livro. Ele viajou para universidades na Andaluzia para consultar autoridades judaicas e muçulmanas. Na Espanha, conheceu um mestre misterioso que lhe ensinou a arte de entender seu manuscrito, mas ainda levou 21 anos para desvendar o mistério do livro. Se ele conseguiu ou não realmente encontrar a Pedra Filosofal é uma questão ainda muito debatida.

De qualquer forma, após seu retorno à França, Flamel de repente se tornou fabulosamente rico. Ele estabeleceu moradias de baixa renda para os pobres, fundou hospitais e dotou igrejas, nunca vivendo de forma extravagante. Segundo o historiador Louis Figuier: “Marido e mulher socorreram os pobres, fundaram hospitais, construíram ou reformaram cemitérios, restauraram a fachada de Saint Genevieve des Ardents e dotaram a instituição dos Quinze-Vingts, cujos internos cegos, em memória deste fato, vinha todos os anos à igreja de Saint Jacques la Boucherie para rezar por seu benfeitor, uma prática que continuou até 1789.” 18

Em sua morte em 1418, Flamel foi supostamente enterrado em uma igreja e sua lápide decorada com os mais incríveis símbolos alquímicos imagináveis. Alguns anos depois, seu túmulo foi aberto e, surpreendentemente, o túmulo estava vazio. Foi o mesmo com o de Perenelle. Muitas fontes permitem a possibilidade de que talvez ele realmente tenha encontrado o Elixir da Vida. Cientistas modernos recriaram seus experimentos em um laboratório moderno e, embora fossem necessárias 700 destilações, eles conseguiram reproduzir parte de seu experimento. 19

O que aconteceu com O Livro de Abraão, o Judeu, após a morte de Flamel? Ninguém sabe ao certo, mas de alguma forma, o Cardeal Richelieu (da fama dos Três Mosqueteiros) conseguiu adquirir O Livro de Abraão, o Judeu, para sua própria coleção. A biblioteca pessoal de Richelieu estava, de fato, cheia de livros sobre esoterismo, ocultismo e vários textos gnósticos. Como ele conseguiu encontrar um dos mais famosos de todos os livros de ocultismo é um mistério, mas o livro desapareceu após sua morte, para nunca mais ser visto.

Então Flamel realmente morreu? Alguns pensam que não, por causa de uma figura curiosa que continuou surgindo ao longo dos séculos XVIII, XIX e início do XX na pessoa do Conde de St. Germain. Diz-se que St. Germain era um aristocrata francês que detinha os segredos do Elixir da Vida e o compartilhava com vários nobres e membros da realeza francesa, incluindo Madame Pompadour.

A história sabe bastante sobre St. Germain – exceto quando ele nasceu. A primeira vez que ouvimos falar dele é em Londres e em 1745 em Edimburgo, onde foi preso por espionagem, presumivelmente pelos jacobitas que travavam guerra no trono da Inglaterra na época. Ele desapareceu em 1746 e não foi visto novamente até 1758 em Versalhes. Durante este tempo em Paris, ele deu diamantes como presentes e supostamente deu a entender que ele tinha séculos de idade. Em 1760 partiu para a Inglaterra pela Holanda quando o ministro de Estado, o duque de Choiseul, tentou prendê-lo. Depois disso, o conde passou pela Holanda para a Rússia e aparentemente estava em São Petersburgo quando o exército russo colocou Catarina, a Grande, no trono. Teorias da conspiração posteriores creditam-no por causá-lo. Mais tarde esteve na Bélgica, oferecendo seus tratamentos de madeira, óleo e metais. Enquanto estava lá, ele insinuou um nascimento real para o ministro belga e realmente transformou o ferro em algo parecido com ouro.

Em 1763 ele desapareceu por mais 11 anos, e a próxima vez que ouvimos falar dele é na Baviera em 1774, depois na Alemanha em 1776, onde ele mais uma vez ofereceu suas receitas aparentemente alquímicas. Ele alienou os emissários do rei Frederico por suas alegações de transmutação de ouro e, em alguns relatos, comparou-se a Deus e afirmou ser maçom. Ele se estabeleceu em uma casa do príncipe Karl de Hesse-Kassel, governador de Schleswig-Holstein e estudou remédios de ervas e química para dar aos pobres, alegando que era um Francisco Rakoczy II, príncipe da Transilvânia.

Segundo a Wikipedia, St. Germain morreu em 1784 de pneumonia. No entanto, houve relatos de avistamentos dele vivo em Paris em 1835 (quando ele teria pelo menos 100 anos), Milão em 1867 e no Egito durante as Guerras Napoleônicas. Os relatos dele continuam até 1926, que é, curiosamente, o mesmo ano em que Tom Servolo Riddle nasceu em 31 de dezembro.

A ideia de St. Germain e Flamel como uma e a mesma pessoa parece absurda; no entanto, não se pode deixar de perguntar: onde St. Germain adquiriu o Elixir? Ele por acaso tropeçou no Livro de Abraão, o Judeu, que desapareceu após a morte do Cardeal Richelieu? Ou foi tudo uma farsa? Não importa a explicação, tanto Nicolas Flamel quanto o Conde de St. Germain continuam sendo dois dos personagens mais intrigantes de toda a alquimia.

Independentemente do status de Flamel, sua invenção desempenha o papel central no livro. A busca de Harry pela verdade por trás do misterioso arrombamento de Gringotes e a percepção de que o alvo é a Pedra Filosofal coloca ele e seus amigos constantemente no caminho de Severo Snape. Desde o início, Snape e Harry se detestam; A condescendência arrogante e a natureza ácida de Snape são um espinho constante no lado de Harry. Harry está convencido de que Snape está tentando roubar a Pedra, apenas para provar que está errado, como faria uma e outra vez.

Como mencionado anteriormente, Snape representa o vitríolo, o catalisador do processo de transformação. Está presente em todos os sete estágios (como Snape esteve presente em todos os seis livros, e seu retorno no Livro 7 é garantido). O catalisador não é destruído na reação; na verdade, ela não é alterada pela transformação. Isso se tornará crucial quando discutirmos o Livro 7.

O arqui-inimigo de Harry, Draco Malfoy, representa todo o primeiro estágio da Grande Obra. Seu nome, Draco, significa “dragão”, e o dragão representa a prima materia antes de começar sua transformação. É significativo, então, que encontremos Draco no Beco Diagonal, antes da viagem de trem para Hogwarts. Neville representa o sapo, ou matéria terrena, a Primeira Matéria, que é o primeiro estágio antes mesmo da prima materia ser obtida. Em muitos contos de fadas, o sapo é um símbolo de fracasso, e Neville pode ser visto assim até o quinto livro. Na alquimia, o sapo é uma criatura humilde até encontrar a águia ou cisne branco no quinto estágio, e isso é exatamente o que acontece com Neville quando ele começa a se destacar em Ordem da Fênix.

A introdução do Quadribol no mundo de Harry Potter está impregnada de simbolismo alquímico e arquetípico. Como apanhador do time da Grifinória, o trabalho de Harry é encontrar e pegar o pomo de ouro. No entanto, a palavra Apanhador (em inglês “Seeker”, o buscador) descreve Harry maravilhosamente – ele realmente é um buscador, um buscador da verdade e da iluminação. Os balaços representam os obstáculos ao longo do caminho, enquanto ele tenta se abaixar e se esquivar dos eventos que conspiram para mantê-lo longe de seu objetivo. O Pomo de Ouro, no entanto, é o objeto mais importante do jogo. Uma pequena bola de ouro com asas, o pomo representa os planos superiores de consciência” a Pedra Filosofal. O Harry Potter Lexicon (O Léxico de Harry Potter) descreve Bowman Wright, o homem que inventou o Pomo de Ouro, como um “encantador de metal”, que é outro nome para um metalúrgico ou alquimista. Curiosamente, uma bola dourada com asas estava no topo do caduceu de Hermes; de acordo com para o Dicionário Eletrônico Alquímico, o caduceu simboliza a “conjunção dos princípios alquímicos e sua prole, se vive, é a Pedra. Esta Pedra é representada como uma bola dourada com asas no topo do caduceu.”

Eventualmente, Harry, Ron e Hermione encontram o caminho pelo alçapão e Fofo, o cão de três cabeças inspirado no Cérbero da mitologia grega. As provações que eles enfrentam antes que Harry possa finalmente entrar na sala onde o Espelho de Ojesed é guardado são um rito de passagem em si; eles devem provar que são dignos antes que possam continuar.

A batalha final com o Professor Quirrell antes do Espelho também tem ligações alquímicas muito fortes. Embora o próprio Espelho seja uma invenção de Rowling, a maneira como ele funciona é fiel à tradição alquímica. Dumbledore, ele próprio um alquimista, está bem ciente do princípio do amor e da iluminação, e esconde a Pedra em um lugar onde apenas os puros de coração seriam capazes de obtê-la. O professor Quirrell pode se ver com a Pedra Filosofal, mas não a entende. Por quê? Porque ele queria isso para ganho material e poder” para devolver seu mestre à força. Harry, por outro lado, queria que a Pedra a mantivesse segura; de forma alguma ele pretendia usá-lo para si mesmo. É por isso que ele conseguiu pegar a Pedra do Espelho e Quirrell não.

Este é o caminho no qual Harry se encontra – o caminho para a iluminação. Somente buscando aquela parte de si mesmo “sua bondade e amor” ele encontrará os meios para destruir Voldemort de uma vez por todas. Ele deve se tornar a personificação física da Pedra Filosofal, alcançando a perfeição espiritual e a imortalidade, antes de finalmente se libertar do vínculo entre ele e Tom Riddle.

Ano 2: A Câmara Secreta:

O segundo estágio da operação, ou dissolução, representa o colapso adicional do ego. Inconscientemente, a mente começa a permitir que memórias enterradas e pensamentos reprimidos venham à tona. De acordo com Adam McLean, a dissolução pode ser descrita como um “fluxo” da felicidade de ser bem usado e ativamente engajado em atos criativos sem preconceitos tradicionais, bloqueios pessoais ou hierarquia estabelecida atrapalhando. 20

Câmara Secreta nos apresenta os conceitos bruxos de sangue e herança, e leva aos preconceitos inerentes de alguns “sangues puros” em relação aos nascidos trouxas (“sangues-ruins”) e mestiços. Harry deve aprender a navegar dentro dessa estrutura enquanto tenta desvendar o enigma da lendária Câmara Secreta.

Neste livro, somos apresentados a alguns personagens muito interessantes: Dobby, o Elfo Doméstico, Fawkes, o basilisco, Aragogue, a Acromântula, e Tom Riddle, monitor, aluno modelo e menino de ouro de Hogwarts. A partir do momento em que Harry encontra o diário de Tom, Tom Riddle captura nosso interesse assim como o de Harry. Harry sente uma curiosidade instantânea e, apesar dos avisos de Ron e Hermione, investiga ainda mais os segredos do diário.

Em uma passagem que suscitou discussões e debates fantásticos, Harry não pode jogar o diário fora:

“Harry não conseguia explicar, nem para si mesmo, por que não jogou o diário de Riddle fora. O fato é que, mesmo sabendo que o diário estava em branco, ele o pegava distraidamente e virava as páginas, como se fosse uma história que ele quisesse terminar. E enquanto Harry tinha certeza de que nunca tinha ouvido o nome T.M. Riddle antes, ainda parecia significar algo para ele, quase como se Riddle fosse um amigo que ele tinha quando era muito pequeno, e meio esquecido.” (A Câmara Secreta, página 235).

Harry está se lembrando de uma memória há muito enterrada do passado? A conexão de Harry com Lord Voldemort nunca foi adequadamente explicada, um fato que sem dúvida é intencional por parte de Rowling. Embora provavelmente não saibamos a resposta para o significado desta passagem até o Livro 7, se mesmo assim, parece que Harry tem uma conexão com Tom Riddle, bem como com Lord Voldemort, que pode ser explicada alquimicamente. Harry confia em Tom, e mesmo ele não sabe por quê. Ele não questiona, não duvida. É apenas um sentimento que ele tem de que pode depender de Tom, mesmo que ele seja apenas uma memória e não de forma alguma real.

Harry descobre através do diário (ou pensa que sabe) que Hagrid abriu a Câmara Secreta cinquenta anos antes, uma reviravolta que ele tem medo de perguntar a Hagrid. Quando a Câmara é aberta novamente e vários estudantes são atacados, Hagrid é enviado para Azkaban. Antes de ser levado, no entanto, Hagrid dá uma última ordem a Harry e Ron, dizendo-lhes para “seguir as aranhas”. Isso nos leva a Aragogue, a acromântula que Hagrid criou de um ovo.

As aranhas surgem não apenas na alquimia, mas também no Tarô. A aranha é considerada a Mestra Tecelã da Roda da Fortuna e aquela que prediz o destino. Além disso, as aranhas simbolizam as conexões entre passado, presente e futuro. Aragogue, então, representa o equilíbrio entre destino e fortuna, e realmente representa o passado como a única testemunha restante, além de Hagrid, da primeira abertura da Câmara. Ele simboliza os fios da delicada teia que tece o passado, presente e futuro juntos. Isso é exatamente o que Harry aprende neste livro – que ele e Tom Riddle estão inextricavelmente ligados pela Roda do Tempo.

Quando Harry fica cara a cara com Tom na Câmara Secreta, ele ainda confia nele, mas as coisas rapidamente ficam feias quando as motivações de Tom ficam claras. Memória Tom representa para Harry o que ele poderia se tornar, dependendo das escolhas que fizer, assim como Dumbledore representa para Tom o que ele poderia ter se tornado; Harry e Tom são dois lados da mesma moeda, reflexos sombrios um do outro. Na verdade, pode-se dizer que Tom é o alter ego de Harry. Para crédito de Harry, ele nunca vacila do Caminho Verdadeiro, e ao fazê-lo é recompensado por sua lealdade com a chegada oportuna de Fawkes, sem o qual Harry certamente teria morrido.

Rowling enfatiza fortemente ao longo da série a importância das escolhas em nossas vidas. Como Dumbledore diz: “São nossas escolhas, Harry, que mostram o que realmente somos, muito mais do que nossas habilidades”. (Prisioneiro de Azkaban, p. 333) Esse tema reverberará pelo resto dos livros e destaca a principal diferença entre Harry e Tom Riddle.

Muitos de nós nos perguntamos se Tom também era um alquimista; se ele era um, ele era um Alquimista Negro em oposição ao Alquimista Branco de Dumbledore. Como mencionado anteriormente, o alquimista deve iniciar seus estudos com um coração puro, o que Tom não fez. Cheio de raiva e raiva, ele escolheu o poder e o ganho material sobre o amor e a pureza e, ao fazê-lo, selou seu próprio destino. Ele nunca alcançará a imortalidade, apesar de suas melhores tentativas.

A própria Câmara representa o Abaixo, o reino da matéria e do mundano. Este motivo está presente em A Pedra Filosofal, na Sala dos Espelhos; em Prisioneiro de Azkaban, na Casa dos Gritos; em Cálice de Fogo, onde o confronto ocorre em um cemitério; e em Ordem da Fênix, onde a batalha acontece no subsolo do Ministério da Magia. Estes são todos símbolos do estágio Negro, que termina com a Ordem da Fênix.

Nas profundezas da Câmara, o basilisco e a fênix desempenham papéis importantes no resultado. Ambos são símbolos alquímicos; o basilisco é uma criatura alquímica simbólica que se diz ter a cabeça de um pássaro e o corpo de um dragão. Este animal serpentino sem asas nasceu de um ovo de galo hermafrodita após 900 anos e foi amamentado por uma serpente. Claramente, no entanto, o basilisco neste caso é uma serpente ou cobra. É o inimigo mortal da fênix, que representa a morte e a ressurreição. Isso é simbolizado pelas lágrimas de Fawkes, que têm poderes curativos e curam Harry do veneno do basilisco.

Curiosamente, segundo The Medieval Bestiary (O Bestiário Medieval), o nome latino do basilisco é regulus; era chamado de Rei das Serpentes porque seu nome grego basilicus significa “pequeno rei”. Regulus é latim para rei. De acordo com Plínio, o Velho [século I d.C.]:

Qualquer um que veja os olhos de uma serpente basilisco (basilisci serpentis) morre imediatamente. Não tem mais de trinta centímetros de comprimento e tem marcas brancas na cabeça que parecem um diadema. Ao contrário de outras cobras, que fogem de seu silvo, ela avança com o meio erguido. Seu toque e até mesmo seu hálito queimam a grama, matam arbustos e explodem pedras. Seu veneno é tão mortal que, uma vez, quando um homem em um cavalo espetou um basilisco, o veneno subiu pela lança e matou não apenas o homem, mas também o cavalo. Uma doninha pode matar um basilisco; a serpente é jogada em um buraco onde vive uma doninha, e o fedor da doninha mata o basilisco ao mesmo tempo em que o basilisco mata a doninha. 21

A jornada de Harry continua. Seu segundo ano em Hogwarts lhe deu muito em que pensar; algumas coisas no mundo bruxo não são o que parecem. Ele questiona seu lugar nele e o papel que ele deve desempenhar para derrotar Voldemort. Acima de tudo, ele aprende que suas escolhas o definem e, inconscientemente, decide permanecer no caminho certo, escolher o que é certo sobre o que é fácil, uma decisão que lhe servirá bem em Prisioneiro de Azkaban.

Ano 3: Prisioneiro de Azkaban:

Prisioneiro de Azkaban nos apresenta personagens ainda mais fascinantes: o pobre mas gentil Professor Lupin, o Mapa dos Marotos, Pedro Pettigrew, Bicuço o Hipogrifo, Bichento o Amassador e o malandro Sirius Black. Nós também encontramos os dementadores pela primeira vez, assim como os conceitos de mudança de tempo e patrono, que finalmente salvam tanto a vida de Harry quanto a de Sirius.

Neste livro encontramos o terceiro estágio de transformação, chamado separação, que representa a recuperação da parte de nós mesmos onde estão nossas esperanças e sonhos. A separação é um processo consciente de arrumação mental, onde decidimos o que manter e o que jogar fora, mantendo apenas as partes que se encaixam com nossa nova visão da vida. Significa abrir mão de velhas restrições impostas por professores, pais e outros, para que possamos finalmente começar a ser nós mesmos e alcançar todo o nosso potencial. 22

Sirius Black rouba a cena em Prisioneiro de Azkaban. Um homem inocente condenado injustamente à prisão perpétua em Azkaban, Sirius representa o sal no processo alquímico. Como mencionado anteriormente, o sal era uma das três substâncias mais importantes na alquimia, junto com o mercúrio e o enxofre. A Tábua de Esmeralda chama isso de “a Glória de Todo o Universo” e “o início e o fim da grande obra.” Sua importância no trabalho alquímico será discutida em maiores detalhes no Ano 5: Ordem da Fênix. basta dizer que o papel de Sirius na história é crucial, e que temos uma boa introdução ao seu personagem em Prisioneiro de Azkaban.

Antes de Harry partir para Hogwarts, ele entra em contato com um grande cachorro preto enquanto espera pelo Nôitibus depois de explodir sua tia Marge. Mal sabe ele que o cachorro é na verdade o assassino em massa Sirius Black; no entanto, o próprio cão tem conotações alquímicas. Na alquimia, os cães significam matéria primitiva ou enxofre natural. Um cachorro sendo devorado por um lobo simboliza o processo de purificação do ouro usando antimônio, e vemos esse processo perto do final do livro durante a luta entre Sirius e Lupin. Não surpreendentemente, então, o Professor Lupin representa o antimônio ou estribita, também conhecido como o Lobo Cinzento. O alquimista Basílio Valentim nomeou o metal depois de alimentá-lo a alguns monges em um mosteiro beneditino. Os monges adoeceram violentamente e alguns até morreram, daí o nome latino que significa “anti-monge”. Espiritualmente também, muitas pessoas se sentem mais ameaçadas por sua própria natureza animal. Como um lobisomem, Lupin simboliza os impulsos animais que todos nós temos em forma monstruosa, que são elementos que precisamos aprender a controlar se quisermos avançar espiritualmente.

Não é por acaso que Lupin toma o lugar de uma figura paterna na vida de Harry. Através de Lupin, ele aprende a expulsar os dementadores (a expressão de depressão de Rowling) ao perceber que não pode viver no passado. Isso se encaixa no modelo do terceiro estágio da alquimia, a separação. Harry começa a se separar de seus pais e a formar sua própria identidade. Uma vez que ele aprende a “desligar” os gritos de sua mãe quando os dementadores estão por perto, Harry pode então produzir um patrono, ou guardião. Ele recupera uma parte de si mesmo que sabe que seus pais o amaram e se sacrificaram por ele, mas que ele não pode viver no passado a ponto de esquecer-se de viver. O tremoço é crucial para este processo.

O patrono de Harry assume a forma de um cervo branco, que não só tem conotações religiosas, mas também simbolismo alquímico. Os alquimistas chamavam isso de Veado Fugitivo e representa a energia feminina (água) da Grande Obra, ou o elemento protetor e nutridor da transformação. A armação de chifres do veado representa as constelações e o zodíaco – o Acima e os reinos superiores da consciência. Este é o Acteón da mitologia grega, o caçador que foi transformado em veado por admirar a Ártemis nua enquanto ela se banhava em um lago.

Nós conhecemos Bicuço, o Hipogrifo, na primeira aula cheia de ação de Hagrid como professor de Hogwarts. Na alquimia, o Vaso de Hermes (outro nome para o Cálice de Salomão ou o Santo Graal) era chamado de Ovo do Grifo. De acordo com Legends of Charlesmagne (As Lendas de Carlos Magno) de Thomas Bulfinch:

“Como um grifo, tem cabeça de águia, garras armadas de garras e asas cobertas de penas, sendo o resto do corpo de cavalo. Este estranho animal é chamado de Hipogrifo.

A razão de sua grande raridade é que os grifos desprezam os cavalos, que consideram com os mesmos sentimentos que um cão tem por um gato. Nos tempos medievais havia uma expressão, “Para acasalar grifos com cavalos”, que significava quase o mesmo que a expressão moderna, “Quando os porcos voam”. O hipogrifo era, portanto, um símbolo de impossibilidade e amor. Isso teria sido inspirado nas Éclogas de Virgílio: … cruze Grifos com éguas, e na próxima idade veados e cães tímidos vêm beber juntos.

Entre os temas de combate animal em adornos de ouro citas podem ser encontrados grifos atacando cavalos.

O hipogrifo parecia mais fácil de domar do que um grifo. Nas poucas lendas medievais em que essa criatura fantástica aparece, geralmente é o animal de estimação de um cavaleiro ou de um feiticeiro. Faz um excelente corcel, sendo capaz de voar tão rápido quanto um relâmpago. Diz-se que o hipogrifo é um onívoro, comendo plantas ou carne.” 23

Na “execução” de Bicuço, perto do final da história, encontramos um dos símbolos da separação: o machado; embora no livro seja um machado, o simbolismo é o mesmo. MacNair afia sua lâmina em uma pedra em preparação para o evento e a usa para executar Bicuço. Outros símbolos para esta fase incluem espadas, flechas, foices e facas.

Outros simbolismos animais também aparecem em Prisioneiro de Azkaban. O apelido de Pedro Pettigrew é “Rabicho”, e com razão. Na alquimia, o verme é outra representação do Ouroboros, ou a cobra segurando sua própria cauda. O Ouroboros simboliza um grande círculo e a ideia de que “tudo é um” e que o tempo é um ciclo de destruição e regeneração. Pedro inclinou a balança em Prisioneiro de Azkaban, escapando e voltando para Voldemort. No entanto, ele se arrependerá do que fez e, no livro final, expiará seus erros contribuindo para a queda de Voldemort, redimindo-se assim. Quando isso acontecer, os eventos terão completado o círculo, assim como a cobra segurando sua cauda está completa.

Mais uma vez, os eventos na Casa dos Gritos (o Abaixo neste caso) provam de que material forte Harry é feito. Em vez de permitir que Sirius e Lupin matem Pedro, Harry o poupa, preferindo mandá-lo para os dementadores, algo que nem Sirius nem Lupin entendem completamente. A superioridade moral e o coração por excelência de Harry realmente se mostram aqui. Ele não quer que os dois melhores amigos de seu pai se tornem assassinos, e involuntariamente liga Rabicho a ele na forma de uma dívida de vida. Nisso, Harry está se destacando; ele está saindo da sombra de seu pai e se tornando sua própria pessoa. Este processo está longe de terminar, no entanto; está apenas começando.

Ano 4: Cálice de Fogo:

O quarto estágio da transformação alquímica é chamado de conjunção. A conjunção representa a união do masculino e feminino (yin e yang) em um novo sistema de crenças ou um estado intuitivo de consciência. Foi chamado de “A Pedra Menor” porque quando foi alcançado o Apanhador, ou o Buscador, sabia exatamente o que precisava ser feito. 24

Cálice de Fogo está cheio de imagens alquímicas; no entanto, vou me concentrar nas três tarefas Tribruxo nesta análise. Essas quatro tarefas juntas são preparatórias para as provações que Harry enfrentará na Ordem da Fênix. Mas primeiro, ele deve passar pelo Torneio Tribruxo.

O Cálice de Fogo em si é mais uma representação do Santo Graal e da Pedra Filosofal. Um objeto mágico muito poderoso, o Cálice sela o destino dos competidores em um contrato obrigatório do qual não há como escapar. Eles devem competir ou enfrentar as consequências. Como o Graal, o Cálice sabe quais participantes são dignos e verdadeiros o suficiente para enfrentar os difíceis desafios à frente.

A primeira tarefa é o dragão e representa o fogo. Como observado anteriormente, os dragões simbolizam a matéria no início do trabalho ou calcinação, cujo símbolo é o fogo; nesse sentido, Harry está voltando ao primeiro estágio da Grande Obra. Desta vez, no entanto, ele sabe exatamente o que fazer e consegue obter seu ovo notavelmente rápido. Em algumas interpretações, o dragão é o guardião do submundo, assim como Fofo era em A Pedra Filosofal. O tesouro mais importante que um dragão possui é sua pérola mágica, que o dragão sempre manteve perto, seja na boca ou sob o queixo. A pérola emite uma luz radiante que nunca se apaga e é o símbolo da sabedoria, iluminação, auto-realização e riqueza espiritual. Os dragões ficam impotentes se suas pérolas forem roubadas. Neste caso, os ovos dos dragões substituem as pérolas. Curiosamente, os alquimistas estavam interessados ​​em dragões por uma pedra curiosa chamada draconita, que dizia detectar e curar venenos. No entanto, a única maneira de obter essa gema era removê-la antes que o dragão morresse, ou então a criatura, ao morrer, arruinaria propositalmente a pedra.

Os dragões também representam o inconsciente e funcionam como uma porta de entrada para outras dimensões. Na alquimia indiana, chamada Nagayuna, o objetivo era unificar as energias do corpo preservando o Elixir da Vida. O símbolo de duas serpentes entrelaçadas, chamadas Naga, representa a ligação entre o céu e a terra, bem como a transição entre o Abaixo e o Acima, que é o que o Cálice de Fogo faz. Como o livro do meio da série, é o último volume a ocorrer no Abaixo; as que se seguem ocorrem no Alto, ou nos reinos mais elevados da consciência. Esse simbolismo aparece novamente na cena do cemitério na forma de Nagini, a enorme cobra de estimação de Voldemort. Em muitas culturas, os termos “serpente” e “dragão” eram intercambiáveis; na verdade, os dragões eram frequentemente chamados de “serpentes aladas”.

Depois que Harry adquire seu ovo, vence a tarefa no processo, e é aconselhado por Cedrico a abri-lo debaixo d’água para a próxima pista. Ele vai ao banheiro dos monitores e passa uma hora agradável na companhia da Murta Que Geme  e das sereias descobrindo sua pista. Como tenho certeza que você já deve ter adivinhado, mesmo algo tão inofensivo quanto um banho também tem conotações alquímicas! Os banhos na alquimia simbolizam o processo de dissolução (segunda etapa) em que os metais são limpos e purificados.

A segunda tarefa representa, obviamente, a água. O mergulho de Harry no lago é cheio de perigos. Ele tem que resgatar Ron das garras das sereias dentro do prazo. No entanto, Harry não percebe que Dumbledore não deixaria Ron, Hermione e Gabrielle se afogarem; como resultado, ele acaba salvando todos os reféns. Ao fazer isso, ele confirma que é nobre de espírito e puro de coração; ele se importava mais com a vida dos outros do que consigo mesmo. Isso também faz parte do estágio de conjunção; confirma que Harry está no caminho certo em seu caminho para a iluminação.

Há alguma confusão sobre a natureza da terceira tarefa e a diferença entre um labirinto (labyrinth) e um labirinto (maze). Ao contrário da crença popular, labirintos (labyrinths) e labirintos (mazes) não são a mesma coisa. Labirintos (labyrinths) têm um caminho bem definido que nos leva ao centro e volta para fora. Não há truques para um labirinto; oferece uma escolha: entrar ou não. Uma vez dentro, você encontrará o caminho para fora novamente. Um labirinto (maze), por outro lado, oferece várias opções, algumas com muitas entradas e saídas. Becos sem saída e curvas fechadas representam os enigmas e dificuldades da vida, que vemos na Esfinge e seu enigma da aranha. Labirintos (mazes) nos desafiam a tomar decisões corretas com base na lógica e na intuição. Em um labirinto (maze), o objetivo é encontrar o caminho através de caminhos elaborados e tortuosos para alcançar um objetivo específico; neste caso, a Taça Tribruxo. O objetivo de um labirinto (labyrinths) é encontrar o caminho para o centro de si mesmo. Intencionalmente ou não, Rowling incorporou o simbolismo de ambos os quebra-cabeças à tarefa, para que possamos ver melhor os caminhos e escolhas que Harry deve fazer em sua jornada para a iluminação.

O labirinto (labyrinth) é um antigo símbolo da jornada de vida pela qual encontramos o verdadeiro propósito de nossa vida. Ao percorrer o caminho, criamos um lugar sagrado dentro de nós mesmos e deixamos nosso ego de lado. Os celtas chamavam isso de “Coração do Coração” e é isso que Harry faz durante sua jornada pelo labirinto (maze). Os obstáculos que ele encontra ao longo do caminho o guiam pelo caminho até o centro. O aspecto do labirinto (maze) representa os enigmas e os diferentes caminhos que se pode escolher ao longo da vida para atingir nossos objetivos. No labirinto (maze), “reina a ilusão e a confusão e o alquimista corre o risco de perder toda a conexão e clareza”. 25 O Feitiço de Quatro Pontos de Harry permite que ele permaneça no caminho certo e alcance o centro do labirinto (maze) relativamente ileso.

O cemitério, na alquimia, é um símbolo para o “recipiente do alquimista”, no qual os produtos químicos que foram fermentados por três estágios atingem o ponto de ebulição, produzindo explosões tão violentas que muitas vezes o alquimista foi gravemente ferido ou morto no processo. O objetivo disso era produzir um “fluido” ou essência dentro do recipiente, algo que os alquimistas chamavam de “asa de corvo” por causa de sua cor azul-preta.26 Harry está quase morto nesta cena e está, de fato, ferido. Os eventos o ultrapassam até que ele e Voldemort duelam até a morte em uma explosão de frustração e hostilidade reprimidas. Harry mal consegue segurar Voldemort; no entanto, por causa das essências de seus pais e de Cedrico produzidas por sua varinha, ele é salvo mais uma vez por pura força de vontade e não por coragem.

Os corvos representam o estágio negro ou nigredo; neste caso, a vinda de Ordem da Fênix. O Corvo Negro ou Corvo Negro é frequentemente retratado como um processo de morte em vez de um pássaro real, como no caput mortuum, a cabeça da morte, ou como algumas ilustrações alquímicas mostram, o alquimista morrendo dentro de um frasco. (Veremos o caput mortuum novamente em Ordem da Fênix.) Assim, no símbolo do Corvo Negro temos a saída em consciência do mundo dos sentidos físicos, as restrições que nos prendem ao corpo físico. 27 É por isso que Cedrico teve que morrer, na minha opinião. Ele representa a cabeça da morte e o início da ascensão do Abaixo para o Acima.

Pouco depois de seu renascimento, Voldemort menciona alegremente a poção que ele instruiu Pedro a preparar para que ele pudesse habitar um corpo rudimentar até sua Festa de Renascimento e até lista os ingredientes:

“O corpo de Rabicho, é claro, estava mal adaptado para possessão, já que todos supunham que ele estava morto, e atrairia muita atenção se notado. No entanto, ele era o servo de que eu precisava, e, pobre bruxo como ele é, Rabicho foi capaz de seguir as instruções que lhe dei, o que me devolveria a um corpo rudimentar e fraco, um corpo que eu poderia habitar enquanto esperava os ingredientes essenciais para o verdadeiro renascimento… um feitiço ou dois de minha própria invenção… com uma pequena ajuda de minha querida Nagini’ Os olhos vermelhos de Voldemort caíram sobre a cobra que circulava continuamente, “uma poção preparada com sangue de unicórnio, e o veneno de cobra que Nagini forneceu… Eu logo voltei a uma forma quase humana e forte o suficiente para viajar”. (Cálice de Fogo, p. 656)

Sangue de unicórnio é outro nome para mercúrio ou mercúrio, e veneno de cobra é mencionado por Valentim em suas Doze Chaves como um dos componentes do Elixir da Vida. Voldemort estava tentando fazer sua própria Pedra Filosofal? Parece possível. Ele falhou em roubar a Pedra no primeiro livro, mas certamente sabia o suficiente sobre alquimia para inventar tal poção (ou dar instruções explícitas a Pedro sobre sua preparação), e assim como ele sabia que o sangue de unicórnio em A Pedra Filosofal mantê-lo vivo, ele sabia que essa poção em particular ajudaria a fortalecê-lo por tempo suficiente para adquirir um corpo. Parece estranho que Rowling escolhesse esses ingredientes em particular a menos que ela conhecesse a conexão entre eles e o Elixir. Além disso, quando lembramos do objetivo de Geber de takwin ou vida artificial, vemos como ele poderia ter instruído Pedro a realizar a magia necessária para que ele adquirisse um corpo rudimentar até que seus planos atingissem a maturidade.

É interessante notar que muitas pessoas se perguntaram o que era o corpo infantil de Voldemort e do que era feito. Logo no início, mencionei a busca de Geber pela criação da vida e que Paracelso afirmou ter criado um homúnculo – e o corpo rudimentar de Voldemort pode ter sido exatamente isso.

Homúnculo (alt: homonculus) significa “homenzinho” e na alquimia se refere a falsos seres humanos criados a partir de uma variedade de ingredientes. De acordo com a Wikipédia, um método envolvia raízes de mandrágora, que vemos na Câmara Secreta como o antídoto para petrificação. Diz a lenda que a mandrágora, cujas raízes lembravam vagamente um ser humano, cresceu onde o sêmen ejaculado por homens enforcados durante os últimos espasmos convulsivos antes da morte cair no chão. A raiz deveria ser colhida antes do amanhecer de uma sexta-feira de manhã por um cão preto, depois lavada e “alimentada” com leite e mel e, em algumas receitas, sangue, após o que se desenvolveria completamente em um humano em miniatura que guardaria e protegeria seu proprietário. Outro método era pegar um ovo posto por uma galinha preta, fazer um pequeno buraco na casca, substituir uma porção do branco do tamanho de um feijão por esperma humano, selar a abertura com pergaminho virgem e enterrar o ovo no esterco na primeira dia do ciclo lunar de março. Um humanoide em miniatura emergiria do ovo após trinta dias, o que ajudaria e protegeria seu criador em troca de uma dieta constante de sementes de lavanda e minhocas. Ainda outra receita, a usada supostamente por Paracelso, prescrevia o uso de um saco de ossos, fragmentos de pele e pelos de qualquer animal. Curiosamente, o homúnculo seria um híbrido do animal escolhido – então, se uma cobra fosse escolhida, a criação se pareceria com uma cobra.

O homúnculo é mencionado no Ato II do Fausto de Goethe como uma criação alquímica do aluno de Fausto, Wagner. Na verdade, é uma inteligência artificial e talvez o primeiro bebê de proveta do mundo. O homúnculo naquela obra se assemelhava a um ser de fogo, um ser de alma e espírito puros que vive completamente dentro de seu frasco e não tem um corpo real. (Soa familiar?) Seu maior desejo é se tornar um humano completo, e ele leva Fausto e Mefisto ao reino da Grécia antiga para tentar isso. Homúnculo aprende que deve se unificar com o elemento água para ver seus sonhos realizados. Com o incentivo de Proteu, Homúnculo entra nas ondas em seu frasco para encontrar Galatea, a deusa do oceano. Disto vem uma celebração dos quatro elementos. Mais tarde, porém, Fausto tenta quase a mesma coisa, e sua tentativa pode ser caracterizada como o estupro da ordem natural, uma perversão da natureza que sela seu destino como instrumento de sua própria queda.

Já comentamos sobre a presença de Nagini no livro, mas e a aparência medonha de Voldemort após seu renascimento? A descrição que Rowling nos dá é decididamente a de uma cobra: fendas vermelhas para os olhos, narinas achatadas e pele escamosa. Por que uma cobra? Na minha opinião, Rowling usa essa analogia para descrever a alma interior de Voldemort – esfarrapada e serpentina. A cobra representa o primeiro estágio da transformação; ao torná-lo parecido com uma cobra, Rowling nos diz que Tom Riddle nunca saiu do primeiro estágio de transformação simplesmente porque seu coração não era puro. Ele é um lembrete horrível dos perigos da ganância, brutalidade e orgulho. Outra possibilidade é que Tom começou “iluminado” e retrocedeu pelos estágios de transformação, começando com um belo rapaz e jovem e terminando com uma serpente. Isso também explicaria como Tom conseguiu adquirir uma varinha com um núcleo de penas de cauda de fênix, quando de todas as aparências ele certamente não merece. Aos 11 anos, ele pode ter sido digno da pena de Fawkes de uma maneira que nunca poderá ser agora.

Harry emerge de seu confronto com Voldemort espancado e ferido, mas vivo. Os eventos da noite abalaram suas crenças sobre o mundo bruxo; ele alcançou a Pedra Menor em virtude de sua sobrevivência e seu conhecimento de que Voldemort está de volta, com seus antigos seguidores ao seu lado, e pronto para lutar pelo destino do mundo bruxo. Ele começa a perceber que “esta é sua luta e só dele” que, eventualmente, ele e Voldemort se confrontarão novamente, e apenas um deles sobreviverá.

Ano 5: Ordem da Fênix:

A fermentação, também conhecida como Estágio Negro, é também a primeira a ocorrer no “Acima”, ou nos planos superiores de consciência. A fermentação era um processo de duas etapas, a primeira das quais envolvia a “morte” do precipitado inerte nascido no estágio de conjunção. Isso foi chamado de “putrefação” e simbolizava a morte e a ressurreição para um nível superior de ser. Uma vez concluído, iniciava-se o processo de fermentação com a nova vida “nascendo” dessa ressurreição, visando fortalecê-la e garantir sua sobrevivência. A alma se livra das coisas que a estão desgastando; isso ocorre em um lampejo de cor iridescente chamado Cauda Pavonis, isto é, a Cauda do Pavão. 28

Ordem da Fênix prepara o cenário para os dois últimos livros da série. Embora os quatro primeiros livros também façam parte do estágio negro, é este que configura os eventos posteriores.

Ordem da Fênix começa com um ataque de dementadores a Harry e Duda. Em seu julgamento, Harry sente pela primeira vez o que o próximo ano reserva para ele na pessoa de Dolores Umbridge. Ela é um trabalho desagradável, e é justo que seu próprio nome (Black, isto é, Negro) represente o estágio Negro; umbra significa sombra ou escuridão. Também representativo disso é o sobrenome de Sirius, Black, assim como a presença de Kingsley Shacklebolt, o Rei Negro. Os próprios dementadores representam a depressão e a escuridão da mente, mas desta vez Harry é capaz de lidar com eles.

Encontramos Sirius em sua casa no Largo Grimmauld, 12. Ele está mal-humorado e deprimido, confinado a uma casa que odeia para seu próprio bem. Uma das imagens mais estranhas que vemos na casa são as cabeças dos elfos-domésticos mortos que revestem as paredes. Este é outro exemplo do caput mortuum mencionado em Cálice de Fogo, representando o início do estágio negro.

Ordem da Fênix apresenta mais novos personagens: Ninfadora Tonks, a Metamorfomaga, Luna Lovegood, Monstro e o irmão mais novo de Sirius, Regulus. Como mencionado anteriormente, regulus também é o nome do basilisco, que vimos em Câmara Secreta, e vemos uma conexão entre os negros e o basilisco no capítulo 4: “Tanto o lustre quanto o candelabro em uma mesa frágil nas proximidades foram em forma de serpentes.” No entanto, essa não é a única conexão que o nome tem com a alquimia. Regulus também é um termo alquímico geralmente associado a Isaac Newton e Nicolas Flamel. Na alquimia de Newton, um metal era anteriormente chamado de regulus do minério do qual era reduzido; regulus (sem especificação adicional) significava regulus de antimônio (ou seja, antimônio na nomenclatura moderna). Um regulus era a substância pesada que afundava no fundo do cadinho durante a reação. Em outras palavras, o regulus é o metal puro derivado do minério.

Mencionei anteriormente que Sirius representava o sal ou corpo (corpus) do trabalho alquímico, assim como Hagrid representa a alma e Dumbledore a mente ou intelecto. Sirius é absolutamente crucial neste estágio e no estágio vermelho, que seguirá no Livro 7. De acordo com Hauck, em The Sorcerer’s Stone: A Beginner’s Guide to Alchemy (A Pedra Filosofal: Um Guia para Iniciantes à Alquimia), o sal é a chave para a alquimia, o início e o fim da Grande Obra. De acordo com isso, e para encurtar a história, o estágio negro é encerrado pela alma deixando o corpo. A morte de Sirius, em outras palavras.

O sal é uma das três substâncias mais importantes da alquimia (as outras são o mercúrio e o enxofre) e representa a manifestação final da Pedra. Qualquer substância que fosse resistente ao fogo era chamada de sal. A Tábua de Esmeralda chama isso de “a Glória de Todo o Universo”. 29 No entanto, Harry ainda não está pronto para a perfeição da Pedra. Ele acabou de adquirir a Pedra Menor, e há muitas outras lições a serem aprendidas antes que ele alcance a iluminação. A manifestação final virá no Livro 7, onde veremos Sirius novamente.

Em geral, o Sal representa a ação do pensamento sobre a matéria, e é isso que Sirius representa. Sirius é um homem ativo e espirituoso que está enjaulado em sua casa; como um homem de ação, isso é decididamente desagradável para ele e deixa Harry sem fim de preocupação. No final, Sirius faz exatamente o que Harry teme que faça: deixa o Largo Grimmauld, recusando-se a ser deixado para trás mais uma vez. É essa imprudência que leva à sua morte; se ele tivesse ficado parado, ele teria vivido. Mas Rowling afirma que Sirius teve que morrer, e é por isso. Harry não pode ir para o estágio de purificação enquanto os estágios negros ainda estiverem vivos.

A relação de Sirius com Snape também é curiosa. Sozinho e confinado a uma casa que ele odeia, Sirius sofre insultos contra sua bravura e utilidade ao longo do livro. Harry fica do lado de Sirius contra Snape, a quem ele sempre odiou. Quando lembramos que Snape é o vitríolo ou o catalisador da série, esse comportamento faz todo o sentido. É trabalho de Snape irritar e irritar, perturbar e difamar; em outras palavras, tornar a vida de Harry a mais miserável possível. Quando combinado com a personalidade sinistra de Umbridge, o ano de Harry em Hogwarts não é nada pacífico.

De todos os personagens dos livros, Luna é um dos mais interessantes. Com o nome da deusa romana da lua, Luna simboliza a feminilidade e a intuição, que era frequentemente retratada como um sol de sete raios em desenhos alquímicos. Um dos símbolos do sexto estágio, que discutiremos no Ano 6: O Enigma do Príncipe, Luna ajuda Harry a ver o outro lado das coisas “as coisas que não são baseadas em fatos ou razões, mas na intuição e fé. Esses traços são tradicionalmente considerados femininos e naturais. A visão de mundo singular de Luna ajuda Harry a lidar com a morte de Sirius; ninguém mais é capaz de consolá-lo, mas Luna o faz se sentir melhor e ele começa a se curar.

Neste livro, conhecemos o irmão de Dumbledore, Aberforth, que tem uma queda por cabras e copos sujos enquanto cuida de seu bar na Pousada Cabeça de Javali. As cabras, que são mencionadas repetidamente em conexão com Aberforth, simbolizavam a quimera da mitologia grega. A alquimia em si é uma quimera, que compreende muitas disciplinas diferentes provenientes de muitas fontes diferentes. De acordo com o Musaeum Hermeticum Reformatum et Amplificatum:

“Os alquimistas costumavam simbolizar seus metais por meio de uma árvore, para indicar que todos os sete eram ramos dependentes do único tronco da vida solar. Assim como os Sete Espíritos dependem de Deus e são ramos de uma árvore da qual Ele é a raiz, o tronco e a terra espiritual da qual a raiz deriva seu alimento, assim o único tronco da vida e do poder divinos nutre todas as múltiplas formas das quais o universo é composto.”

Aberforth e suas cabras são mais conhecidas como o Bode de Mendes, ou Baphomet das tradições dos Templários. De acordo com a Magia Transcendental de Levi, “A prática da magia “branca ou negra” depende da capacidade do adepto de controlar a força vital universal, aquilo que Eliphas Levi chama de grande agente mágico ou luz astral. essência fluídica são produzidos os fenômenos do transcendentalismo. O famoso e hermafrodita Bode de Mendes era uma criatura composta formulada para simbolizar essa luz astral. É idêntico a Baphomet, o panteão místico daqueles discípulos da magia cerimonial, os Templários, que provavelmente a obtiveram de os árabes”. 30

Gostaria de mencionar aqui a proeminência que os pássaros têm na alquimia. Como vimos em Cálice de Fogo, o aparecimento do Corvo Negro anuncia o início do estágio negro. Daqui em diante, os pássaros simbolizam cada etapa da transformação. Depois do Corvo Negro vem o Cisne Branco ou a Águia, depois o Pavão, o Pelicano e finalmente a Fênix, que representa a transformação final e a manifestação final da Pedra. Em Ordem da Fênix, vemos dois desses pássaros enquanto Harry passa rapidamente pelo estágio negro. Vemos o Cisne Branco na figura do patrono de Cho Chang, que representa as primeiras incursões de Harry em seu eu interior e sua crescente conexão com sua alma:

“Oh, não seja tão desmancha-prazeres”, disse Cho brilhantemente, observando seu Patrono prateado em forma de cisne voar pela sala durante a última aula antes da Páscoa. (Ordem da Fênix, p. 606)

A Cauda Pavonis, isto é, a Cauda do Pavão é uma das imagens mais curiosas de toda a alquimia. Como observado anteriormente, a Cauda do Pavão ocorre de repente em um lampejo brilhante de cor iridescente. Isso ocorre perto do final do livro, com Harry viajando de chave de portal do Ministério de volta ao escritório de Dumbledore:

“Harry sentiu a sensação familiar de um gancho sendo puxado atrás de seu umbigo. O piso de madeira polida havia sumido sob seus pés; o Átrio, Fudge e Dumbledore haviam desaparecido, e ele estava voando para frente em um turbilhão de cores e sons…” (Ordem da Fênix, p 819)

No entanto, o estágio da Cauda do Pavão também é marcado por visões estranhas e sonhos significativos. 31 Vemos isso consistentemente ao longo do livro. Não é por acaso que a conexão de Harry com Voldemort é mais forte neste livro. Inconscientemente, o poder de Harry nesta área está crescendo rapidamente com a força de sua conexão com Voldemort, e isso é mostrado em vários sonhos muito poderosos, incluindo aquele em que Harry, como Nagini, ataca Arthur Weasley:

“O sonho mudou…

Seu corpo parecia suave, poderoso e flexível. Ele estava deslizando entre barras de metal brilhantes, através de pedra escura e fria… Ele estava deitado contra o chão, deslizando sobre sua barriga… Estava escuro, mas ele podia ver objetos ao seu redor brilhando em cores estranhas e vibrantes… Ele estava virando a cabeça… À primeira vista, o corredor estava vazio… mas não… um homem estava sentado no chão à frente, seu queixo caído sobre o peito, seu contorno brilhando no escuro…

Harry colocou a língua para fora… Ele sentiu o cheiro do homem no ar… Ele estava vivo, mas cochilando… sentado na frente de uma porta no final do corredor…

Harry desejava morder o homem… mas precisava dominar o impulso… Ele tinha um trabalho mais importante a fazer…

Mas o homem estava se mexendo… um manto prateado caiu de suas pernas enquanto ele se levantava de um salto; e Harry viu seu contorno vibrante e borrado elevando-se acima dele, viu uma varinha retirada de um cinto… Ele não teve escolha… Ele se ergueu do chão e golpeou uma, duas, três vezes, mergulhando suas presas profundamente no a carne do homem, sentindo suas costelas se partirem sob suas mandíbulas, sentindo o jorro quente de sangue…

O homem estava gritando de dor… então ele ficou em silêncio… Ele caiu para trás contra a parede… O sangue estava espirrando no chão…

Sua testa doía terrivelmente… Estava a ponto de explodir…” (Ordem da Fênix, pgs. 462-63)

Não apenas Harry se torna Nagini, ele também se torna o próprio Voldemort:

O dormitório estava vazio quando ele chegou… Ele rolou de lado, fechou os olhos e adormeceu quase imediatamente… Ele estava parado em um quarto escuro com cortinas, iluminado por um único ramo de velas. Suas mãos estavam apertadas nas costas de uma cadeira na frente dele. Eram dedos longos e brancos como se não tivessem visto a luz do sol há anos e pareciam aranhas grandes e pálidas contra o veludo escuro da cadeira. Além da cadeira, em uma poça de luz projetada no chão pelas velas, ajoelhou-se um homem de túnica preta.

“Eu fui mal aconselhado, ao que parece”, disse Harry em uma voz alta e fria que pulsava com raiva.

“Mestre, eu imploro seu perdão…” resmungou o homem ajoelhado no chão. A parte de trás de sua cabeça brilhou à luz de velas. Ele parecia estar tremendo.

Eu não culpo você, Rookwood’ disse Harry naquela voz alta, fria e cruel. Ele soltou a cadeira e caminhou ao redor dela, mais perto do homem encolhido no chão, até que ele parou diretamente sobre ele na escuridão, olhando para baixo de uma altura muito maior do que o normal…

Deixado sozinho no quarto escuro, Harry virou-se para a parede. Um espelho rachado e manchado de idade estava pendurado na parede nas sombras. Harry se moveu em direção a ela. Seu reflexo ficou maior e mais claro na escuridão… Um rosto mais branco que uma caveira… olhos vermelhos com fendas para pupilas… (Ordem da Fênix, págs. 585-86)

Ano 6: O Príncipe Mestiço:

De acordo com The Seven Stages of Alchemical Transformation (Os Sete Estágios da Transformação Alquímica), o sexto estágio é chamado de destilação ou leucose. Também chamada de Estágio Branco, a destilação é:

“… a agitação e a sublimação das forças psíquicas são necessárias para garantir que nenhuma impureza do ego inflado ou do id profundamente submerso seja incorporada ao próximo e último estágio. A destilação pessoal consiste em uma variedade de técnicas introspectivas que elevam o conteúdo da psique ao mais alto nível possível, livre de sentimentalismo e emoções, desvinculado até da identidade pessoal. A destilação é a purificação do Eu não nascido – tudo o que realmente somos e podemos ser.”

Fisiologicamente, a Destilação está elevando a força vital repetidamente das regiões inferiores do caldeirão do corpo para o cérebro (o que os alquimistas orientais chamavam de Circulação da Luz), onde eventualmente se torna uma maravilhosa luz solidificante cheia de poder. Diz-se que a destilação culmina na área do Terceiro Olho da testa, ao nível das glândulas pituitária e pineal, no Chakra Frontal ou Prata. 32

Curiosamente, a cicatriz de Harry aparece na região do Terceiro Olho ou Chakra Frontal: no meio de sua testa. Além disso, o Terceiro Olho é controlado pela glândula pineal, que os antigos egípcios consideravam um bezoar.

O Pulvis Solaris Negro é uma mistura de antimônio metálico e enxofre purificado. Esses dois se combinam para formar uma substância dura como pedra chamada bezoar (parece familiar?), que na verdade são bolas duras de comida não digerida encontradas nos intestinos; eles foram descobertos pelos antigos egípcios enquanto trabalhavam em suas múmias e acreditavam ser uma pílula mágica formada pela “serpente” no homem; ou seja, os intestinos. A mistura de óxido de mercúrio vermelho com enxofre formou um bezoar vermelho. Como sabemos desde a primeira aula de poções de Snape, acreditava-se amplamente que os bezoares eram um antídoto para a maioria dos venenos e na verdade eram prescritos pelos médicos como cura para muitas doenças. Os egípcios também procuraram uma “pílula” semelhante na “pequena serpente” do homem “o cérebro” e podem tê-la encontrado na glândula pineal. Da mesma forma que os egípcios acreditavam que os bezoares eram formados nos intestinos, eles acreditavam que o ouro era formado nas entranhas da terra. Isso deu origem à crença de que o ouro era um bezoar mineral.

Ao longo do livro vemos referências a bezoares. Ron, por exemplo, tem um encontro com um em seu aniversário:

Harry saltou sobre uma mesa baixa e correu em direção ao kit de Poções aberto de Slughorn, tirando potes e bolsas, enquanto o som terrível da respiração gargarejada de Ron enchia a sala. Então ele a encontrou – a pedra enrugada parecida com um rim que Slughorn havia tirado dele em Poções.

Ele se jogou de volta para o lado de Ron, abriu sua mandíbula e enfiou o bezoar em sua boca. Rony deu um grande estremecimento, um suspiro ruidoso, e seu corpo ficou flácido e imóvel. (Harry Potter e o Enigma do Príncipe – EDP, p. 397-98)

Psicologicamente, a destilação é a purificação das forças necessárias para garantir que nenhuma imperfeição do id e do ego sobreviva até o estágio final. 33  Através de Dumbledore, Harry se torna imune à emoção, sentimentalismo e até identidade pessoal, elevando-se ao nível espiritual mais alto possível para que possa completar sua transformação. Este é o propósito das aulas de Harry com Dumbledore. Em um nível pessoal, Harry pode se livrar de qualquer emoção ou pena em relação a Voldemort vendo até onde ele foi para alcançar seu objetivo final. Ao assumir o manto do Escolhido, Harry abandonou sua identidade pessoal (assim como Voldemort fez, mas por um motivo diferente!) e se dedicou a derrotar Voldemort para o bem de todos.

Os símbolos do estágio branco são o lírio, a lua e o pelicano. Slughorn fala sobre Lílian Potter quase incessantemente, elogiando suas habilidades como fabricante de poções e sua beleza como pessoa” e possivelmente preparando-a para um papel ainda maior no Livro 7. A lua também aparece na pessoa de Luna Lovegood, a quem Harry convida para a festa de Natal de Slughorn. Ainda outra possível conexão com o estágio branco é Gina. Em celta, seu nome completo, Ginevra, significa “espuma branca” e ela desempenha um grande papel nos acontecimentos do livro, especialmente perto do final. Mencionei no início deste artigo que a única coisa que pode emitir um fogo ácido é espuma ou um agente de terra seca; Snape representa o ácido ou vitríolo, e seu papel no assassinato de Dumbledore choca e entristece a todos. No entanto, é Gina quem faz Harry se sentir melhor e começar a aceitar sua perda. Ela o conforta e pergunta. nada dele em troca. Ela é igual a ele em todos os sentidos, e a única que pode aliviar sua raiva de Snape.

Mas a pessoa que realmente representa esse estágio é o próprio Dumbledore. Seu nome, Alvo, significa “branco”, e encontramos a palavra “alvo” espalhada pelas obras de pesos pesados ​​alquímicos como Agripa e Paracelso. Através dele, Harry aprenderá os segredos de Voldemort enquanto Dumbledore transmite seu vasto conhecimento como se estivesse passando a tocha. Este é o Pelicano, que nutre seus filhotes do próprio peito para garantir sua sobrevivência:

“O Pelicano é mostrado apunhalando seu peito com o bico e nutrindo seus filhotes com seu próprio sangue. O alquimista deve entrar em uma espécie de relação sacrificial com seu ser interior. Ele deve nutrir com suas próprias forças da alma, o embrião espiritual em desenvolvimento interior. Qualquer um que tenha feito um verdadeiro desenvolvimento espiritual conhecerá bem esta experiência. A imagem de si mesmo deve ser mudada, transformada, sacrificada ao eu espiritual em desenvolvimento. Esta é quase invariavelmente uma experiência profundamente dolorosa, que testa os recursos internos da pessoa. A partir disso, eventualmente emergirá o eu espiritual, transformado pela experiência do Pelicano.” 34

Vemos que isso é exatamente o que Harry faz. Ele deixa Gina por causa da causa, sacrificando-se ao que ele sente ser um final inevitável. E isso machuca. A traição de Snape, a morte de Dumbledore e o conhecimento de que ele é o Escolhido o forçam a deixar de lado seus desejos pessoais pelo bem do mundo bruxo. Ele não tem certeza de que sairá vivo da experiência, mas pelo menos morrerá lutando.

O assassinato de Dumbledore é o momento mais chocante do livro e talvez até de toda a série. O papel de Snape como vitríolo está chegando ao auge; ele agora é responsável por mais do que poderia levar crédito. Ele inclinou a balança do destino por suas ações, mas quando lembramos que o vitríolo é um catalisador, isso dá esperança de que ele não seja mau, afinal. Sem Snape, não há razão para Harry passar para a próxima fase, nenhum fator motivador para ele continuar a batalha. Existe a possibilidade de que ele realmente estivesse do lado de Dumbledore e que ele foi forçado a matar Dumbledore pelo Voto Inquebrável. De qualquer forma, seu papel no livro final será crucial” o final da série dependerá das ações e lealdade de Snape.

Perto do final do livro temos a sensação de que a fase branca está acabando e a fase vermelha está amanhecendo. Várias coisas apontam para isso, entre elas a morte de Dumbledore. Em Ordem da Fênix, o estágio negro, o nigredo, terminou com a morte de Sirius e o estágio branco, o albedo, começou com a bomba de Dumbledore sobre a profecia. Em O Enigma do Príncipe, o estágio branco termina com a morte de Dumbledore e o estágio vermelho, o rubedo, começa com a pessoa que será a mais importante na transformação final: Hagrid.

Após a morte de Dumbledore, Harry escorrega em sangue enquanto corre atrás de Snape e Malfoy. (EDP, p. 600). Quando ele chega ao hall de entrada, ele vê os rubis da ampulheta da Grifinória espalhados por todo o chão. (EDP, p. 601) Harry aponta um jato de luz vermelha para Snape para impedi-lo de escapar. (EDP, p. 602) Ele persegue Snape e Malfoy até a cabana de Hagrid, onde ele eventualmente ajuda Hagrid a apagar o fogo feito pelos Comensais da Morte. (EDP, p. 606) A aparição de Hagrid em si anuncia o fim do estágio branco e o início do vermelho; O nome de Hagrid, Rúbeo, significa “vermelho”. Harry permanece com Hagrid durante todo o caminho até o castelo, e é Gina (uma ruiva) que o leva para longe do corpo de Dumbledore.

Após a presença constante de Hagrid ao longo da série, em O Enigma do Príncipe ele se destaca apenas por sua ausência. E, no entanto, daqui em diante ele está em quase todas as cenas pelo restante do livro. Rowling se esforça para nos mostrar sua importância; durante a reunião com Slughorn, Sprout e os outros professores restantes, McGonagall pede especificamente a opinião de Hagrid. O que ele pensa e sente tem um grande peso, e continuará a sê-lo durante o livro final.

Havia alguns sinais de que Dumbledore morreria neste livro. Em memória de Bob Ogden, Ogden se aproxima da casa de Gaunt e vê uma cobra pregada na porta. Na alquimia, a morte de um rei era anunciada exatamente por uma imagem assim: uma cobra pregada a uma porta ou a uma cruz. Embora saibamos por Lupin que não existe realeza no mundo bruxo, Dumbledore é sem dúvida a coisa mais próxima da realeza na série. Sua graça e nobreza de espírito o diferenciavam de outros bruxos e, de fato, de outros seres humanos, bruxos ou trouxas. E Dumbledore frequentemente usa roxo; isso ocorre não apenas em O Enigma do Príncipe, mas também nos outros livros. Roxo é a cor da realeza.

A Morte do Rei simboliza a sublimação da matéria. Dependendo do seu ponto de vista, a Morte do Rei pode ser tomada como a crucificação de Cristo, quando Cristo teve que se sacrificar antes de se tornar um com Deus. No entanto, tradicionalmente o Rei é uma metáfora para o ego; ao matar o rei, o ego morre também, e qualquer sentimentalismo em relação à tarefa em mãos desaparece. Harry fará o que deve; ele tem que fazê-lo, ou tudo o que ele conhece e ama desaparecerá.

Em um obscuro texto alquímico chamado Lexicon alchemiæ sive dictionarium alchemisticum, cum obscuriorum verborum, et rerum Hermeticarum, tum Theophrast-Paracelsicarum phrasium, planam explicationem continens (Alchemical Lexicon, o Léxico Alquímico), Ruland diz sobre a prima materia: de Deus que se chama Matéria Primordial, especialmente quanto à sua eficácia e mistério, que lhe deram muitos nomes e quase todas as descrições possíveis, pois não souberam louvá-lo suficientemente”. 35 Ele continua mencionando que um dos nomes dados à matéria prima é “veneno, veneno, chambar, porque mata e destrói o Rei, e não há veneno mais forte no mundo”. Isso possivelmente alude à poção que Dumbledore bebeu na caverna. Se aceitarmos que Dumbledore é um rei, podemos ver que a pedra é tão capaz de matar quanto de curar, uma propriedade geralmente atribuída ao Santo Graal. Ruland continua dizendo que também é chamada de “Água da Vida, pois faz com que o Rei, que está morto, desperte para um modo melhor de ser e viver. É o melhor e mais excelente remédio para a vida da humanidade.” Ele também o chama de espírito, “porque voa para o céu, ilumina os corpos do Rei e dos metais e lhes dá vida”. Após a morte de Dumbledore, sua alma se eleva de seu corpo na forma de uma fênix; ele encontrou seu ouro e atravessou para o outro lado – um modo de vida melhor, de acordo com os textos religiosos. Ele também aparece como um retrato, então ele não se foi completamente, embora ele não possa mais ajudar Harry da maneira que fazia antes.

Estágio 7: Coagulação (Harry Potter e o …):

Como obviamente ainda não sabemos o que o Livro 7 contém, é hora de fazer um pouco de teorização e tentar prever o que pode acontecer. Mas primeiro, vamos definir o sétimo estágio e as transformações que precisam ocorrer antes que Harry possa alcançar a iluminação.

O Estágio Vermelho, o último e último estágio da transformação alquímica, é chamado de coagulação, quando os elementos dos seis primeiros estágios se unem no mais alto estágio de perfeição. Ela libera a Ultima materia da alma – o Corpo Astral, que é a Pedra Filosofal. Com a Pedra, os alquimistas acreditavam que poderiam existir em todos os planos da realidade.

A maioria das pessoas geralmente experimenta este estágio pela primeira vez como uma nova confiança em si mesmo, a sensação de que você pode fazer qualquer coisa, embora muitos o experimentem – como um Segundo Corpo de luz dourada coalescida, um veículo permanente de consciência que incorpora as mais altas aspirações e evolução da mente.” 36

A coagulação é representada pelo Pulvis Solaris Vermelho, que na verdade era um bezoar vermelho ou uma mistura de enxofre puro e óxido de mercúrio. Pulvis solaris significa “Pó do Sol”, e os alquimistas acreditavam que aperfeiçoaria instantaneamente qualquer composto. A fênix, que simboliza a vida, ressurreição e reencarnação, também representa esta etapa. Os primeiros cristãos consideravam a fênix uma criatura real e equiparavam sua canção com o Espírito Santo.

Então, que coisas DEVEM ocorrer alquimicamente no último livro?

  1. A fênix de alguma forma deve aparecer no livro final.

Convenientemente, já temos uma fênix na forma de Fawkes, embora não tenha certeza de qual papel ele desempenhará no livro final. No final de O Enigma do Príncipe, Harry ouve o Lamento da Fênix e se sente renovado quando sua dor começa a se dissipar:

“Em algum lugar na escuridão, uma fênix estava cantando de uma forma que Harry nunca tinha ouvido antes: um lamento ferido de terrível beleza. E ele sentiu, como havia sentido sobre a canção da fênix antes, que a música estava dentro dele, não fora. Foi sua própria dor que se transformou magicamente em música que ecoou pelos jardins e pelas janelas do castelo.” (EDP, págs. 614-15)

No entanto, Harry sente que Fawkes deixou Hogwarts para sempre.

Deitado ali, percebeu que o terreno estava silencioso. Fawkes tinha parado de cantar.

E ele sabia, sem saber como ele sabia, que a fênix tinha ido embora, tinha deixado Hogwarts para sempre, assim como Dumbledore tinha deixado a escola… tinha deixado Harry. (EDP, págs. 631-32)

Recentemente, uma teoria interessante surgiu em torno do Leaky. Essa teoria diz que o patrono de Harry mudará de um veado para uma fênix no decorrer do livro final. Isso faz muito sentido. Vimos que o patroni pode mudar quando o mago está sob grande tensão ou recebe um forte choque emocional. Por que não pode mudar quando uma pessoa endurece sua determinação de lutar até a morte? Ele não está mudado por dentro, assim como um bruxo deprimido ou chocado? Não acho que essa ideia seja muito absurda e pode muito bem acontecer. Outra ideia sobre Fawkes é o fato de que em Câmara Secreta e Ordem da Fênix, Fawkes chegou em cima da hora para salvar o dia de Voldemort. Talvez ele faça isso de novo. Fawkes é atraído pela lealdade a Dumbledore, e Harry afirmou em várias ocasiões que ele é leal a Dumbledore, chegando ao ponto de dizer a Rufus Scrimgeour que ele é “o homem de Dumbledore por completo”. Essa lealdade vai nos dois sentidos, no entanto. Dumbledore era tão ferozmente leal a Harry quanto Harry é a ele. Em O Enigma do Príncipe, quando Dumbledore pede a Harry para obter a memória Horcrux de Slughorn, Fineus Nigellus pergunta por que ele acha que Harry seria capaz de fazer melhor. Dumbledore responde: “Eu não esperava que você entendesse, Fineus”. (Ordem da Fênix, p. 372) Mais tarde, após a cena da caverna, Harry diz a Dumbledore para não se preocupar e que tudo ficará bem. Dumbledore se vira para Harry e diz: “Não estou preocupado, Harry, porque estou com você”. (EDP, p. 578) Fawkes pode pegar esse vínculo entre diretor e aluno e decidir ir para Harry.

  1. O Grande Casamento – a união do Rei Vermelho e da Rainha Branca.

É o casamento de mercúrio e enxofre, sol e lua, masculino e feminino, ouro e prata. E temos um casamento desses chegando: Gui Weasley, o Rei Vermelho, e Fleur Delacour, a bruxa parte-Veela da Escola de Beauxbatons, a Rainha Branca. Na mitologia grega, o deus do sol Apolo era chamado de “quebrador de maldições” ou “quebrador de juramentos”. Que apropriado que Gui fosse um quebrador de maldições para o Banco Gringotes e tivesse o cabelo da cor do fogo. Prata é a cor da lua, e Fleur é descrita como tendo cabelos loiros prateados, devido a sua ascendência Veela. Da união do rei e da rainha surge a Criança Simbólica, a Criança Hermafrodita do Sol e da Lua. Uma criança coroada ou vestida com mantos roxos significa Sal ou Pedra Filosofal. O nascimento de tal criança representaria uma nova ordem mundial, de paz e harmonia. Procure essa possibilidade no último livro!

Mas há outros Reis Vermelhos e Rainhas Brancas: Rony e Hermione e Tiago e Lílian. Ron e Hermione representam o Casal Brigante, da notória relutância do mercúrio e do enxofre em combinar quimicamente. Procure por Ron e Hermione para deixar suas diferenças de lado e finalmente se tornar um casal depois de seis livros de guerra e ciúmes quase constantes. No entanto, eu não acho que Ron e Hermione terão um filho, pelo menos não ainda. O filho de sua união será Harry como a quintessência, assim como ele é literalmente o filho simbólico de Tiago e Lílian. Harry, para o mundo bruxo, representa aquele que colocará o mundo em ordem e inaugurará a paz e a prosperidade que ele buscou por tanto tempo.

  1. A unidade das quatro casas.

Se Harry é a quintessência, então ele tem o poder de juntar todos os elementos em um. Uma vez unificados, eles terão uma chance muito maior de derrotar Voldemort. No entanto, os Sonserinos são um problema. A única maneira de eles se unirem sob uma bandeira é se Draco de alguma forma conseguir convencê-los; ele é seu líder de fato e eles o seguirão. O outro candidato é Slughorn. Ele pode ser um sonserino, mas é um homem decente que realmente lamenta sua parte na criação de Lord Voldemort. De qualquer forma, a Sonserina deve se juntar às outras casas. Só então o poder de Harry será suficiente para derrotar Voldemort.

  1. A iluminação de Harry.

Este é todo o propósito da série; isso tem que acontecer. Acredito que isso não acontecerá até perto do final do livro, e ocorrerá de uma só vez. Os alquimistas sempre afirmaram que a iluminação, se e quando vier, aconteceu de repente e rapidamente. Eles ficaram surpresos com a simplicidade da resposta a todas as suas perguntas. O mesmo será verdade com Harry. Quando finalmente chegar, ele ficará surpreso ao saber que este é o poder que ele tinha dentro dele o tempo todo, e ele o usará para derrotar Voldemort de uma vez por todas. Como citado anteriormente, a iluminação às vezes era experimentada como “como um segundo corpo de luz dourada coalescida, um veículo permanente de consciência que incorpora as mais altas aspirações e evolução da mente”.

Então, o que acontece após a transformação final? A resposta pode ser resumida em um pequeno parágrafo do The Chemical Arcana (O Arcano Químico):

Depois que a reação final termina, a única coisa que resta é uma solução fraca de ácido sulfúrico e uma variedade de compostos de sódio. Os alquimistas acreditavam que a Quintessência era um desses compostos de sódio, um “segundo corpo” de Natron, ou Natrão, formado durante o experimento. Esta quinta essência estava além dos Quatro Elementos e exibia uma durabilidade e permanência que faltavam aos outros elementos. Para os alquimistas, esses sais inertes representavam um corpo ressuscitado e incorruptível.

Infelizmente, isso parece implicar que Hagrid não viverá. Eu tenho procurado alto e baixo por evidências que digam sem dúvida que ele vai conseguir, mas até agora não encontrei nenhuma. Eu realmente espero estar errado, mas acredito que Hagrid vai morrer. Snape, por outro lado, vai conseguir, e por algumas razões:

  1. “A única coisa que resta é uma solução fraca de ácido sulfúrico…” Snape, como mencionado várias vezes, representa ácido sulfúrico e vitríolo.
  1. Snape é o catalisador. Em uma reação química, um catalisador é definido como:

* Substância, geralmente presente em pequenas quantidades em relação aos reagentes, que modifica e principalmente aumenta a velocidade de uma reação química sem ser consumida no processo;

* Aquele que precipita um processo ou evento, especialmente sem ser envolvido ou alterado pelas consequências. 37

O catalisador não é alterado nem destruído pela reação, embora os reagentes ao seu redor sejam. Acredito que Snape sobreviverá, mas sua personalidade não sofrerá nenhuma alteração drástica. Ele ainda será maldoso, amargo, mordaz e mesquinho com Harry, mas eles podem chegar a um entendimento e pelo menos não se odiarem. Dadas as circunstâncias, acredito que é o melhor que se pode esperar.

E os outros? Neste momento é difícil dizer sem mais pesquisas. Há alguma evidência de que Ron/Hermione ou Gui/Fleur não viverão, embora eu acredite que um dos Weasleys morrerá. Harry é outro assunto. Acredito que ele pode ter que se sacrificar para conseguir o ouro; no entanto, esse sacrifício pode ser simbólico e não literal. Se, como suspeito, o véu está envolvido, então isso é inteiramente possível. Lembre-se, também, que devemos ver Sirius novamente, porque o sal é o começo e o fim da Grande Obra. Acredito que Harry verá Sirius do outro lado do véu, e Sirius o ajudará a decidir se continua ou se volta. Se tivermos em mente, no entanto, que os sais inertes permanecem na solução de ácido sulfúrico como a quintessência, então Harry será “ressuscitado”; ele pode morrer simbolicamente e renascer em um estado iluminado de consciência.

O que Voldemort fará neste livro? Podemos apenas adivinhar, mas suspeito que entre tentar matar Harry ele pode estar ocupado tentando fazer sua própria Pedra Filosofal. A série começou com a Pedra e terminará com ela, na minha opinião, e pode ser aí que Lílian finalmente entra. Acredito que há muito mais nela do que nos disseram, e sua aptidão em Poções sugere seu possível conhecimento de alquimia. Há muitas evidências para sugerir que Voldemort também está familiarizado com tradições e princípios alquímicos, então teoricamente não há nada que o impeça de fazer uma Pedra Filosofal por conta própria. Se ele suspeitar que suas Horcruxes estão sendo destruídas, ele pode decidir pela Pedra como um plano alternativo.

Em Cálice de Fogo, Voldemort nos conta que a poção que o manteve vivo consistia em sangue de unicórnio e veneno de cobra. Esses dois ingredientes são, segundo Valentine, componentes da Pedra Filosofal. Mas faltam ingredientes-chave: sangue de dragão e algo da fênix. O leitor se lembrará da Parte II que sangue de dragão é outro nome para cinábrio ou sulfeto de mercúrio; é a matéria prima para criar a Pedra. Mas onde está? Em seis livros, ainda temos que ver, além de uma menção no primeiro livro sobre o cartão Sapo de Chocolate de Dumbledore. Parece que para Harry completar sua transformação, o sangue de dragão deveria estar envolvido no último livro. Isso pode acontecer de várias maneiras: de Slughorn, que tem um frasco empoeirado; ou de Charlie Weasley, que trabalha com dragões na Romênia. Seria fantástico, na minha opinião, se Harry adquirisse o sangue do dragão de ninguém menos que Norbert, o animal de estimação de Hagrid.

Na 12ª Chave de Valentim, ele menciona a fênix como sendo crucial para a conclusão do Elixir da Vida, mas não especifica exatamente qual parte da fênix é tão importante. Além disso, ele é bastante explícito sobre os perigos da 12ª Chave se for feito incorretamente. Em poucas palavras, o alquimista selou seu próprio destino. Mas como a fênix afetaria o desfecho da história? Há a questão das varinhas de Harry e Voldemort: ambas têm penas de cauda do próprio Fawkes. Assim, os destinos de Harry e Voldemort podem estar de alguma forma ligados à relação entre suas varinhas e Fawkes. Por outro lado, vimos na Câmara Secreta que as lágrimas de fênix têm poderes curativos; sem elas, Harry teria morrido então.

Então Voldemort estará muito ocupado neste livro! No entanto, todas as suas intrigas e planejamentos não darão em nada; Voldemort vai morrer. É a única conclusão lógica da série, e ele morrerá de tal forma que impossibilitará seu retorno. Vou deixar para a imaginação de Rowling como isso vai acontecer, mas não ficaria surpreso se uma combinação do poder de Harry como a quintessência e a música de Fawkes tivesse algo a ver com isso. Como a quintessência, Harry é incorruptível e puro de espírito; ele poderia invadir a mente e a alma de Voldemort e não sofrer nenhum dano a si mesmo. A canção da Fênix, como mencionado anteriormente, foi considerada como o Espírito Santo pelos primeiros cristãos, e infunde medo e terror nos corações dos indignos. Uma combinação dessas duas coisas pode causar a queda de Voldemort, e somente no final ele perceberá sua perda de humanidade e alma. Eu sinceramente espero que Tom Riddle, se não Lord Voldemort, tenha a chance de redenção, mesmo que ele escolha não aproveitá-la. Acredito que seria um final adequado para uma série que valoriza o amor, a amizade, a lealdade e o perdão.

JK Rowling deu a Harry uma tarefa aparentemente impossível. Para finalmente derrotar Voldemort, Harry deve embarcar em uma jornada de autodescoberta e autorrealização para alcançar uma perfeição que poucos alcançam. Seu sucesso depende de seu contínuo crescimento espiritual, emocional e psicológico; ele deve lembrar que precisa de seus amigos e, como quintessência, ele é o único que pode finalmente unir as quatro casas de Hogwarts em uma única frente na luta. Usando suas consideráveis ​​habilidades como bruxo e nutrindo seu poder interior de amor e perdão, Harry continuará a crescer e finalmente alcançará o ouro. No final, ele será a personificação viva da Pedra Filosofal, exatamente como Dumbledore pretendia. Ao tecer os fios da alquimia através dos romances, Rowling cria um mundo rico cheio de alegorias e simbolismos enquanto planta dicas de eventos futuros com tanta habilidade que não é de admirar que mal podemos esperar para colocar as mãos no próximo.

Figura 2: As Etapas da Alquimia e seus Símbolos, Planetas Regentes e Metais.

ESTÁGIO COR ELEMENTO SUBSTÂNCIA SÍMBOLOS PLANETA REGENTE METAL
Calcinação Magenta, vermelho-púrpura Fogo Dragão, sapo Saturno Chumbo
Dissolução Azul-claro Água Banheiras, fontes Júpiter Estanho
Separação Vermelho-alaranjado Ar Lobo, cachorro Marte Ferro
Conjunção Verde Terra Corvo negro, o Ovo de Griffin Vênus Cobre
Fermentação Turquesa Sal Pavão, Rei, esqueletos Mercúrio Mercúrio
Destilação Azul-escuro Mercúrio Lírio, Lua-Luna, Rainha, Pelicano, bezoar, fontes Lua Prata
Coagulação Violeta, púrpura Enxofre Fênix, Pulivs Solaris Vermelho, coroas Sol Ouro

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/alquimia-e-harry-potter-parte-ii/