A melhor maneira de viajar é sentir

Poemas de Álvaro de Campos

Retirado de Poemas de Álvaro de Campos (*)

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.

Sentir tudo ele todas as maneiras.

Sentir tudo excessivamente

Porque todas as coisas são, em verdade excessivas

E toda a realidade é um excesso, uma violência,

Uma alucinação extraordinariamente nítida

Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,

O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas

Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,

Quanto mais personalidades eu tiver,

Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,

Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,

Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,

Estiver, sentir, viver, for,

Mais possuirei a existência total do universo,

Mais completo serei pelo espaço inteiro fora,

Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,

Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,

E fora d’Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,

Cada alma é um corredor-Universo para Deus,

Cada alma é um rio correndo por margens de Externo

Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda [erguei os corações]! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos

Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho

E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!

Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande.

As coisas, ele braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos

Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.

Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.

Todo o Mundo com a sua forma visível do costume,

Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso.

Escuto-o. e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! Ó Terra, jardim suspenso, berço

Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!

Mãe verde e florida todos os anos recente,

Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal

Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis

Num rito anterior a todas as significações,

Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!

Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,

Grande voz acordando em cataratas e mares,

Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,

Em cio de vegetação e florescência rompendo

Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso

À tua própria vontade transtornadora e eterna!

Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,

Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,

Mãe caprichosa que faz vegetar e secar.

Que perturba as próprias estações e confunde

Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!

Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica íntima

Volteia serpenteando ficando como um anel

Nevoento, de sensações reminiscidas e vagas,

Em torno ao teu vulto interno túrgido e fervoroso.

Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente

Meu coração a ti aberto!

Como uma espada trespassando meu ser erguido e extático,

Intersecciona com o meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,

Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre.

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito

Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,

A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une

E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim

Não passem de mim, não quebrem meu ser, não partam meu corpo,

Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoura

Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,

Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.

Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,

No vasto chão supremo que não está em cima nem em baixo

Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos

Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,

Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo

De chamas explosivas buscando Deus e queimando

A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,

A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias

De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,

O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,

E nunca parece chegar ao tambor donde parte…

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito

Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,

Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,

Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço

Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chão

Todos os movimentos que compõem o universo,

A fúria minuciosa e (…) dos átomos

A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,

A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

E a chuva como pedras atiradas de catapultas

De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio

De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh’alma.

Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia. sacode,

Freme, treme, espuma, venta, viola, explode.

Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,

Se com todo o meu corpo todo o universo e a vida,

Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes ,

Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos

Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

1914~1922

(*) Álvaro de Campos foi o heterônimo mais produtivo da obra conhecida de Fernando Pessoa. Ao que parece, o poeta muitas vezes o utilizou como um alter ego, além de mero heterônimo. Disto resultou uma obra muito extensa em que se entrecruzam temas e estilos de escrita por vezes dissonantes entre si, próprios da mente de um poeta que se dividiu em muitas personalidades distintas.

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#FernandoPessoa #Kobo #Livros #poesia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-melhor-maneira-de-viajar-%C3%A9-sentir

A Árvore da Vida: Um Clássico Mágico Renascido para o Século XXI

Por Llewellyn.

Numa época em que a magia era vista pela maioria como suspeita na melhor das hipóteses e perigosamente má na pior, Israel Regardie via a magia como uma disciplina científica precisa, bem como um modo de vida altamente espiritual. Aos 24 anos, ele assumiu a enorme tarefa de torná-la acessível a uma ampla audiência de ávidos buscadores espirituais. Regardie queria apontar os princípios fundamentais comuns a toda magia, independentemente de qualquer tradição específica ou caminho espiritual.

O resultado foi o livro A Árvore da Vida, que apresenta uma enorme quantidade de material diversificado em um todo notavelmente unificado. Desde o dia em que foi publicado pela primeira vez, este livro permaneceu em alta demanda por sua habilidosa combinação de sabedoria antiga e experiência mágica moderna.

Esta obra-prima agora foi meticulosamente editada por dois Adeptos Sênior da Ordem Hermética da Golden Dawn (Aurora Dourada) que trabalharam pessoalmente com Regardie. O material foi esclarecido com anotações, comentários e notas explicativas. Há uma nova introdução, glossário, bibliografia e índice e uma riqueza de novas ilustrações.

“A Árvore da Vida é um livro que seria difícil elogiar demais; será um dos clássicos do ocultismo.”

Essa foi a opinião de Dion Fortune, uma respeitada autoridade nos círculos esotéricos, cujo artigo “Cerimonial Magic Unveiled (Magia Cerimonial Revelada)”, impresso na edição de janeiro de 1933 da The Occult Review, foi uma enorme ajuda para a carreira mágica do jovem Israel Regardie – uma carreira tão bem sucedida e influente que Regardie mais tarde se tornaria conhecido como o homem que removeu o sigilo excessivo que velava o ocultismo moderno e tornou as práticas mágicas da Ordem Hermética da Golden Dawn acessíveis a todos os buscadores espirituais. Antes de sua morte em 1985, “Francis” Israel Regardie foi considerado por muitas pessoas como um dos principais zeladores da tradição da Golden Dawn, uma corrente de magia e disciplina espiritual que atraiu muitos ocultistas proeminentes do final do século XIX e início do século XX. incluindo o Dr. William W. Westcott, Samuel L. MacGregor Mathers, Arthur Edward Waite, William Butler Yeats e Aleister Crowley.

A Árvore da Vida é considerada por muitos como um dos textos mais abrangentes sobre magia já escritos. Ao mesmo tempo, é uma excelente introdução ao assunto. Crowley também tentou escrever livros mágicos que fossem fáceis de ler e fáceis de compreender, mas ele nunca foi realmente capaz de fazer isso. O texto de Regardie, por outro lado, é muitas vezes considerado indispensável para a compreensão dos escritos mais obscuros de Crowley. De acordo com Francis King e Isabel Sutherland em The Rebirth of Magic (O Renascimento da Magia):

“[Crowley] escreveu com grande clareza e simplicidade sobre ioga, mas seus escritos puramente mágicos são em grande parte incompreensíveis para o leitor não equipado com um conhecimento detalhado do sistema cabalístico de Mathers, os ritos da Golden Dawn e até mesmo os eventos da própria vida de Crowley.”

“O aluno teve sucesso onde o mestre falhou. Em 1932, Regardie publicou dois livros, A Árvore da Vida e Um Jardim de Romãs, que muitos consideram pequenas obras-primas ocultas.” Temos o prazer de apresentar esta nova edição comentada e ilustrada do texto clássico de Regardie, A Árvore da Vida. Os títulos dos capítulos foram adicionados por nós para conveniência do leitor. Todas as notas finais também são nossas. Embora as edições anteriores de A Árvore da Vida contivessem um pequeno número de ilustrações, muitas outras foram adicionadas a esta nova edição. Também incluímos uma bibliografia, um glossário abrangente e um índice.

A Árvore da Vida apresenta ao leitor uma extensa pesquisa das práticas da tradição mágica ocidental, bem como uma visão panorâmica da teoria por trás dessas práticas. Em sua introdução à segunda edição, Regardie escreveu que: “Este livro tem um significado especial para mim que nenhum de meus outros escritos jamais teve”. Concordamos plenamente com esta opinião, pois A Árvore da Vida também tem um significado especial para nós. De todos os seus livros, este texto em particular parece expressar aquela rara qualidade de escrita que passamos a valorizar da caneta de Regardie – seu desejo de tocar o leitor com inspiração, seu amor pela poesia mística e invocações sagradas, seu senso de a alegria na busca espiritual pela união com o divino e, acima de tudo, seu desejo altruísta de compartilhar com os outros o que descobriu. A Árvore da Vida é uma joia de livro que tornará o leitor mais rico em espírito.

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Fonte:

The Tree of Life: A Magical Classic Reborn for the 21st Century, by Lllewellyn.

https://www.llewellyn.com/journal/article/91

COPYRIGHT (2001) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/a-arvore-da-vida-um-classico-magico-renascido-para-o-seculo-xxi/

Prece de Cáritas

A prece, denominada De Cáritas, tem sido querida e constantemente orada por várias gerações de espíritas, umbandistas e espiritualistas. quando recitada com a entonação correta, é uma das mais eficazes proteções, mesmo para iniciantes.

CÁRITAS era um espírito que se comunicava através de uma das grandes médiuns de sua época – Mme. W. Krell – em um grupo de Bordeaux (França), sendo ela uma das maiores psicografas da História do Espiritismo, em especial por transmitir poesia (que se constitui no ácido da psicografia), da lavra de Lamartine, André Chénier, Saint-Beuve e Alfred de Musset, além do próprio Edgard Allan Poe. Na prosa, recebeu ela mensagens de O Espírito da Verdade, Dumas, Larcordaire, Lamennais, Pascal, e dos gregos Ésopo e Fenelon.

A prece de Cáritas foi psicografada na noite de Natal, 25 de dezembro, do ano de 1873, ditada pela suave Cáritas, de quem são, ainda, as comunicações: “Como servir a religião espiritual”e “A esmola espiritual”.

Todas as mensagens que Mme. W. Krell psicografada em transe, e, que chegaram até nós, encontram-se no livro Rayonnements de la Vie Spirituelle, publicado em maio de 1875 em Bordeaux, inclusive, o próprio texto em francês (como foi transmitido) da Prece de Cáritas.

Deus, nosso Pai, que sois todo Poder e Bondade, dai a força àquele que passa pela provação, dai a luz àquele que procura a verdade; ponde no coração do homem a compaixão e a caridade!

Deus, Dai ao viajor a estrela guia, ao aflito a consolação, ao doente o repouso.

Pai, Dai ao culpado o arrependimento, ao espírito a verdade, à criança o guia, e ao órfão o pai!

Senhor, que a Vossa Bondade se estenda sobre tudo o que criastes. Piedade, Senhor, para aquele que vos não conhece, esperança para aquele que sofre. Que a Vossa Bondade permita aos espíritos consoladores derramarem por toda a parte, a paz, a esperança, a fé.

Deus! Um raio, uma faísca do Vosso Amor pode abrasar a Terra; deixai-nos beber nas fontes dessa bondade fecunda e infinita, e todas as lágrimas secarão, todas as dores se acalmarão.

E um só coração, um só pensamento subirá até Vós, como um grito de reconhecimento e de amor.

Como Moisés sobre a montanha, nós Vos esperamos com os braços abertos, oh Poder!, oh Bondade!, oh Beleza!, oh Perfeição!, e queremos de alguma sorte merecer a Vossa Divina Misericórdia.

Deus, dai-nos a força para ajudar o progresso, afim de subirmos até Vós; dai-nos a caridade pura, dai-nos a fé e a razão; dai-nos a simplicidade que fará de nossas almas o espelho onde se refletirá a Vossa Divina e Santa Imagem.

Assim Seja.

#Espiritismo #MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/prece-de-c%C3%A1ritas

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,

Se espera, dormindo espera,

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado,

Ele dela é ignorado,

Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

#Poemas

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/eros-e-psique

A Alquimia Como Exemplo (Despertar dos Mágicos)

Excerto de o Despertar dos Mágicos de Louis Pauwels e Jacques Bergier

Foi em Março de 1953 que encontrei pela primeira vez um alquimista. Isso passou-se no café Procope, que teve, na época, um curto período de vida. Foi um grande poeta que, na altura em que eu escrevia o meu livro sobre Gurdjieff, me preparou esse encontro e, depois disso, eu muitas vezes havia de tornar a ver esse homem singular, sem no entanto desvendar os seus segredos.

Eu tinha, a respeito da alquimia e dos alquimistas, ideias primárias, extraídas da imaginação popular, e estava longe de supor que ainda havia alquimistas. O homem que estava sentado na minha frente, na mesa de Voltaire, era jovem e elegante. Fizera profundos estudos clássicos, seguidos de estudos de química. Actualmente ganhava a vida no comércio e dava-se com muitos artistas, assim como com algumas pessoas da alta sociedade.

Não tenho diário, mas acontece-me, em determinadas ocasiões importantes, anotar as minhas impressões ou os meus sentimentos. Nessa noite, ao regressar a casa, escrevi:

“Que idade terá ele? Diz ter trinta e cinco. Isso espanta-me. A cabeleira branca, ondulada, cortada sobre o crânio como uma peruca. Inúmeras e profundas rugas numa carne rosada, num rosto cheio. Poucos gestos, e lentos, medidos, astutos. Um sorriso calmo e subtil. Olhos risonhos, mas que riem com indiferença. Tudo exprime outra idade. Nas suas frases nem a menor fenda, pausa, ou quebra de presença de espírito. Há qualquer coisa de esfinge atrás daquele rosto amável fora do tempo. Incompreensível. E não sou só eu a sentir isto. A.B., que o vê quase todos os dias há várias semanas, diz-me que jamais, nem por um segundo, o apanhou em falta de “objectividade superior”.

“O que o faz condenar Gurdjieff:

“1.o – Quem sente a necessidade de ensinar não vive inteiramente a sua doutrina e não atingiu o ponto culminante da
iniciação.

“2.a – Na escola de Gurdjieff não existe intercessão material entre o aluno a quem se persuadiu da sua inutilidade e a energia que ele deve possuir para passar ao ser real. Essa energia – “essa vontade da vontade”, diz Gurdjieff – deve o aluno encontrá-la em si próprio, apenas em si próprio. Ora tal caminhada é parcialmente falsa e só pode conduzir ao desespero. Essa energia existe fora do homem, e é preciso captá-la. O católico engole a hóstia: captação ritual dessa energia. Mas se não tiverdes fé? Se não tendes fé, arranjai uma fogueira: é o princípio de toda a alquimia. Uma autêntica fogueira. Uma fogueira material. Tudo começa, tudo acontece pelo contacto com a matéria.

“3.o – Gurdjieff não vivia só, mas sempre rodeado, sempre em falanstério. “Há um caminho na solidão, há regatos no
deserto”. Não há caminho nem regatos no homem misturado com os outros.

Faço perguntas a respeito da alquimia que devem parecer-lhe de uma assustadora estupidez. Sem o deixar transparecer
responde:

“Nada além da matéria, apenas o contacto com a matéria, o trabalho sobre a matéria, o trabalho com as mãos. Insiste
muito neste ponto.

“- Gosta de jardinagem? Eis um belo começo, a alquimia é parecida com a jardinagem.

“- Gosta de pesca? A alquimia tem qualquer coisa de comum com a pesca.

“Trabalho de mulher e brincadeira de criança.

“Não é possível ensinar alquimia. Todas as grandes obras literárias que resistiram aos séculos têm qualquer coisa desse ensinamento. São a obra de homens adultos – verdadeiramente adultos – que falaram para as crianças, mas respeitando as leis do conhecimento adulto. Jamais se apanha uma grande obra em falta a respeito dos “princípios” . Mas o conhecimento desses princípios e o caminho que leva a esse conhecimento devem manter-se secretos. No entanto, há um dever de auxilio mútuo para os investigadores do primeiro grau.

“Cerca da meia-noite interrogo-o sobre Fulcanelli[1], e dá-me a entender que Fulcanelli não morreu:

“- Pode viver-se, diz-me, infinitamente mais tempo do que o homem não esclarecido o supõe. E pode mudar-se totalmente de aspecto. Eu sei-o. Os meus olhos sabem-no. mas trata-se de outro estado da matéria, diferente daquele que conhecemos. Esse estado permite, como todos os outros estados, mensurações. Os processos de trabalho e de mensuração são simples e não exigem aparelhos complicados: trabalho de mulher e brincadeira de criança…

Acrescenta:

“- Paciência, esperança, trabalho. E, seja qual for o trabalho, nunca se trabalha o bastante.

“Esperança: em alquimia, a esperança baseia-se na certeza de que há um objectivo. Não teria começado, disse ele, se não me tivessem provado claramente que esse objectivo existe e que é possível atingi-lo nesta vida.”

*

Tal foi o meu primeiro contacto com a alquimia. Se a tivesse abordado por meio da magia, creio que as minhas investigações não teriam ido longe: falta de tempo, falta de gosto pela erudição literária. Falta de vocação também: essa vocação que se apossa do alquimista, quando ele ainda se ignora como tal, no momento em que abre, pela primeira vez, um velho tratado. A minha vocação não é a de executar, mas a de compreender. Não é realizar, mas ver. Creio, como diz o meu velho amigo André Billy, que “compreender é tão belo como cantar,” mesmo se a compreensão for apenas fugitiva 1. Sou um homem apressado, como a maior parte dos meus contemporâneos. Tive o contacto mais moderno possível com a alquimia: uma conversa num botequim de Saint-Germain-des-Prés. Em seguida, quando pretendia dar um sentido mais completo ao que me dissera aquele jovem, encontrei Jacques Bergier, que não saía coberto de pó de um sótão cheio de velhos livros, mas de locais onde a vida do século se concentrou: laboratórios e escritórios de informações. Também Bergier procurava qualquer coisa no caminho da alquimia. Não era para fazer uma peregrinação ao passado. Esse homem extraordinário, completamente ocupado com os segredos da energia atómica, tomara aquele caminho para abreviar. Eu voava, agarrado às abas do seu casaco, por entre os textos veneráveis, concebidos por gente sensata apaixonada

No seu cárcere de Reading, Óscar Wilde descobre que a falta de atenção do espírito é o crime fundamental, que a atenção extrema desvenda o acordo perfeito entre todos os acontecimentos de uma vida, e também, possivelmente, num plano mais vasto, o acordo perfeito entre todos os elementos e todos os movimentos da Criação, a harmonia de todas as coisas. E exclama: “Tudo o que é compreendido está certo”. É a mais bela frase que conheço.

Pela lentidão, inebriada de paciência – eu voava a uma velocidade supersónica. Bergier gozava da confiança de alguns dos homens que, ainda hoje, se dedicam à alquimia, bem como da estima dos sábios modernos. Junto dele, em breve adquiri a certeza de que existem íntimos pontos de contacto entre a alquimia tradicional e a ciência de vanguarda. Vi a ciência lançar uma ponte entre dois mundos. Meti-me por essa ponte e verifiquei que ela se aguentava. Senti uma grande felicidade, uma calma profunda. Há muito refugiado no pensamento antiprogressista hinduísta, gurdjáeffiano, vendo o mundo de hoje como um princípio de Apocalipse, não esperando mais (e com grande desespero) do que um horroroso final dos tempos e não muito seguro no orgulho de estar à parte, eis que me era dado ver o velho passado e o futuro darem-se as mãos. A metafísica da alquimia, várias vezes milenária, escondia uma técnica finalmente compreensível, ou quase, no século xx. As pavorosas técnicas de hoje abriam-se sobre uma metafísica quase semelhante à dos tempos antigos. Que falsa poesia havia no meu refúgio! A imortal alma dos homens luzia com a mesma chama de cada lado da ponte.

Acabei por acreditar que os homens, num passado muito longínquo, tinham descoberto os segredos da energia e da matéria. Não apenas por meio de meditação, mas também de manipulação. Não apenas espiritualmente, mas tecnicamente. O espírito moderno, servindo-se de vias diferentes, pelos caminhos durante muito tempo desagradáveis, a meus olhos, da razão pura, da falta de religião, com processos diferentes e que durante muito tempo me tinham parecido maus, preparava-se por sua vez para descobrir os mesmos segredos. Interrogava-se a esse respeito, entusiasmava-se e inquietava-se simultaneamente. Tropeçava no essencial, exactamente como o espírito de elevada tradição.

Vi então que a oposição entre a “prudência” milenária e a “loucura” contemporânea era uma invenção da inteligência demasiado fraca e demasiado lenta, um produto de compensação para o intelectual incapaz de tanta velocidade quanta a sua época exige.

Há várias maneiras de aceder ao conhecimento essencial. E o nosso tempo tem algumas. As antigas civilizações tiveram as delas. Não falo apenas de conhecimento teórico.

Vi finalmente que, sendo as técnicas actuais mais poderosas, aparentemente, do que as técnicas de outrora, esse conhecimento essencial, que os alquimistas provavelmente já possuíam (e outros sábios antes deles), chegaria até nós com maior força ainda, maior peso, maiores perigos e maior número de exigências. Atingimos o mesmo ponto que os Antigos, mas a uma altura diferente. Em lugar de condenar o espírito moderno em nome da sensatez iniciática dos Antigos, ou em lugar de negar essa sensatez declarando que o conhecimento real começa com a nossa própria civilização, seria conveniente admirar e venerar o poder do espírito que, sob diferentes aspectos, torna a passar pelo mesmo ponto de luz, elevando-se em espiral. Em vez de condenar, repudiar, escolher, seria conveniente amar. O amor é tudo: a um tempo repouso e movimento.

*

Vamos submeter à vossa apreciação os resultados das nossas investigações sobre alquimia. Trata-se apenas, evidentemente, de esboços. Ser-nos-iam necessários dez ou vinte anos, e talvez faculdades que não possuímos, para dar ao assunto uma contribuição realmente positiva. No entanto, aquilo que fizemos, e a maneira como o fizemos, torna o nosso trabalho muito diferente das obras até aqui consagradas à alquimia. Encontrareis poucos esclarecimentos sobre a história e a filosofia desta ciência tradicional, mas algumas explicações sobre as inesperadas relações entre os sonhos dos velhos “filósofos químicos” e as realidades da física actual. É preferível revelarmos imediatamente as ideias que nos guiaram.

A alquimia, segundo a nossa opinião, poderia ser um dos mais importantes resíduos de uma ciência, de uma técnica e de uma filosofia pertencentes a uma civilização desaparecida. Aquilo que descobrimos na alquimia, à luz do saber contemporâneo, não é de molde a fazer-nos acreditar que uma técnica tão subtil, complicada e precisa possa ter sido o resultado de uma “revelação divina” caída do céu. Não quer dizer que desprezemos toda a ideia de revelação. Mas, ao estudarmos os santos e os grandes místicos, jamais podemos chegar à conclusão de que Deus fala aos homens em linguagem técnica: “Coloca o teu crisol sob a luz polarizada, ó meu Filho! Lava as escórias com água ultradestilada!”

Também não acreditamos que a técnica alquimista se possa ter desenvolvido por meio de tentativas, pequenos passatempos de ignorantes, fantasias de maníacos do crisol, até atingir aquilo a que temos de chamar a desintegração atómica. Antes nos sentiríamos dispostos a acreditar que existem na alquimia restos de uma ciência desaparecida, difíceis de compreender e de utilizar, por faltar o contexto. A partir desses restos há inevitavelmente tentativas, mas em direcção determinada. Há também uma superabundância de interpretações técnicas, morais e religiosas. E há por fim, para os detentores desses restos, a imperiosa necessidade de guardar segredo.

Somos levados a crer que a nossa civilização, ao atingir uma sabedoria que talvez tenha pertencido a uma civilização anterior, em condições diferentes, noutro estado de espírito, talvez tivesse o maior interesse em interrogar com seriedade a antiguidade para tornar mais rápida a sua própria progressão.

Finalmente pensamos o seguinte: o alquimista no fim do seu “trabalho” sobre a matéria assiste, segundo a lenda, a uma espécie de transformação na sua própria pessoa. Aquilo que se passa no seu crisol passa-se igualmente na sua consciência ou na sua alma. Há uma mudança de estado. Todos os textos tradicionais insistem nesse ponto, evocam o momento em que a “Grande Obra” se realiza e em que o alquimista se transforma num “homem desperto”. Parece-nos que esses velhos textos descrevem deste modo o termo de todo o conhecimento real das leis da matéria e da energia, incluindo o conhecimento técnico. É para a possessão de tal conhecimento que se precipita a nossa civilização. Não nos parece absurdo supor que os homens serão chamados, num futuro relativamente próximo, a “mudar de estado”, como o alquimista lendário, a sofrer qualquer transformação. A menos que a nossa civilização desapareça por inteiro um momento antes de ter atingido o fim, como é possível que tenham desaparecido outras civilizações. Também se podia dar o caso de que, no nosso último segundo de lucidez, não desesperássemos, pensando que se a aventura do espírito se repete, é sempre, de cada vez, num grau mais alto da espiral. Remeteríamos a outros milenários o cuidado de conduzir essa aventura até ao ponto final, até ao centro imóvel, e afundar-nos-íamos com esperança.

1 O autor de Le Mystère des Cathèdrales e de Les Demeures philosophales.

Um alquimista no café Procope, em 1953. – Conversa a propósito de Gurdjieff – Um homem que pretende saber que a pedra filosofal é uma realidade. – Bergáer arrasta-me a toda a velocidade para um estranho atalho. Aquilo que vejo liberta-me do imbecil desprezo pelo progresso. – O nosso pensamento secreto a respeito da alquimia: nem revelação,
nem tentativa. – Rápida meditação sobre a espiral e a esperança.

Foi em Março de 1953 que encontrei pela primeira vez um alquimista. Isso passou-se no café Procope, que teve, na época, um curto período de vida. Foi um grande poeta que, na altura em que eu escrevia o meu livro sobre Gurdjieff, me preparou esse encontro e, depois disso, eu muitas vezes havia de tornar a ver esse homem singular, sem no entanto desvendar os seus segredos.

Eu tinha, a respeito da alquimia e dos alquimistas, ideias primárias, extraídas da imaginação popular, e estava longe de supor que ainda havia alquimistas. O homem que estava sentado na minha frente, na mesa de Voltaire, era jovem e elegante. Fizera profundos estudos clássicos, seguidos de estudos de química. Actualmente ganhava a vida no comércio e dava-se com muitos artistas, assim como com algumas pessoas da alta sociedade.

Não tenho diário, mas acontece-me, em determinadas ocasiões importantes, anotar as minhas impressões ou os meus sentimentos. Nessa noite, ao regressar a casa, escrevi:

“Que idade terá ele? Diz ter trinta e cinco. Isso espanta-me. A cabeleira branca, ondulada, cortada sobre o crânio como uma peruca. Inúmeras e profundas rugas numa carne rosada, num rosto cheio. Poucos gestos, e lentos, medidos, astutos. Um sorriso calmo e subtil. Olhos risonhos, mas que riem com indiferença. Tudo exprime outra idade. Nas suas frases nem a menor fenda, pausa, ou quebra de presença de espírito. Há qualquer coisa de esfinge atrás daquele rosto amável fora do tempo. Incompreensível. E não sou só eu a sentir isto. A.B., que o vê quase todos os dias há várias semanas, diz-me que jamais, nem por um segundo, o apanhou em falta de “objectividade superior”.

“O que o faz condenar Gurdjieff:

“1.o – Quem sente a necessidade de ensinar não vive inteiramente a sua doutrina e não atingiu o ponto culminante da
iniciação.

“2.a – Na escola de Gurdjieff não existe intercessão material entre o aluno a quem se persuadiu da sua inutilidade e a energia que ele deve possuir para passar ao ser real. Essa energia – “essa vontade da vontade”, diz Gurdjieff – deve o aluno encontrá-la em si próprio, apenas em si próprio. Ora tal caminhada é parcialmente falsa e só pode conduzir ao desespero. Essa energia existe fora do homem, e é preciso captá-la. O católico engole a hóstia: captação ritual dessa energia. Mas se não tiverdes fé? Se não tendes fé, arranjai uma fogueira: é o princípio de toda a alquimia. Uma autêntica fogueira. Uma fogueira material. Tudo começa, tudo acontece pelo contacto com a matéria.

“3.o – Gurdjieff não vivia só, mas sempre rodeado, sempre em falanstério. “Há um caminho na solidão, há regatos no
deserto”. Não há caminho nem regatos no homem misturado com os outros.

Faço perguntas a respeito da alquimia que devem parecer-lhe de uma assustadora estupidez. Sem o deixar transparecer
responde:

“Nada além da matéria, apenas o contacto com a matéria, o trabalho sobre a matéria, o trabalho com as mãos. Insiste
muito neste ponto.

“- Gosta de jardinagem? Eis um belo começo, a alquimia é parecida com a jardinagem.

“- Gosta de pesca? A alquimia tem qualquer coisa de comum com a pesca.

“Trabalho de mulher e brincadeira de criança.

“Não é possível ensinar alquimia. Todas as grandes obras literárias que resistiram aos séculos têm qualquer coisa desse ensinamento. São a obra de homens adultos – verdadeiramente adultos – que falaram para as crianças, mas respeitando as leis do conhecimento adulto. Jamais se apanha uma grande obra em falta a respeito dos “princípios” . Mas o conhecimento desses princípios e o caminho que leva a esse conhecimento devem manter-se secretos. No entanto, há um dever de auxilio mútuo para os investigadores do primeiro grau.

“Cerca da meia-noite interrogo-o sobre Fulcanelli[1], e dá-me a entender que Fulcanelli não morreu:

“- Pode viver-se, diz-me, infinitamente mais tempo do que o homem não esclarecido o supõe. E pode mudar-se totalmente de aspecto. Eu sei-o. Os meus olhos sabem-no. mas trata-se de outro estado da matéria, diferente daquele que conhecemos. Esse estado permite, como todos os outros estados, mensurações. Os processos de trabalho e de mensuração são simples e não exigem aparelhos complicados: trabalho de mulher e brincadeira de criança…

Acrescenta:

“- Paciência, esperança, trabalho. E, seja qual for o trabalho, nunca se trabalha o bastante.

“Esperança: em alquimia, a esperança baseia-se na certeza de que há um objectivo. Não teria começado, disse ele, se não me tivessem provado claramente que esse objectivo existe e que é possível atingi-lo nesta vida.”

*

Tal foi o meu primeiro contacto com a alquimia. Se a tivesse abordado por meio da magia, creio que as minhas investigações não teriam ido longe: falta de tempo, falta de gosto pela erudição literária. Falta de vocação também: essa vocação que se apossa do alquimista, quando ele ainda se ignora como tal, no momento em que abre, pela primeira vez, um velho tratado. A minha vocação não é a de executar, mas a de compreender. Não é realizar, mas ver. Creio, como diz o meu velho amigo André Billy, que “compreender é tão belo como cantar,” mesmo se a compreensão for apenas fugitiva 1. Sou um homem apressado, como a maior parte dos meus contemporâneos. Tive o contacto mais moderno possível com a alquimia: uma conversa num botequim de Saint-Germain-des-Prés. Em seguida, quando pretendia dar um sentido mais completo ao que me dissera aquele jovem, encontrei Jacques Bergier, que não saía coberto de pó de um sótão cheio de velhos livros, mas de locais onde a vida do século se concentrou: laboratórios e escritórios de informações. Também Bergier procurava qualquer coisa no caminho da alquimia. Não era para fazer uma peregrinação ao passado. Esse homem extraordinário, completamente ocupado com os segredos da energia atómica, tomara aquele caminho para abreviar. Eu voava, agarrado às abas do seu casaco, por entre os textos veneráveis, concebidos por gente sensata apaixonada

No seu cárcere de Reading, Óscar Wilde descobre que a falta de atenção do espírito é o crime fundamental, que a atenção extrema desvenda o acordo perfeito entre todos os acontecimentos de uma vida, e também, possivelmente, num plano mais vasto, o acordo perfeito entre todos os elementos e todos os movimentos da Criação, a harmonia de todas as coisas. E exclama: “Tudo o que é compreendido está certo”. É a mais bela frase que conheço.

Pela lentidão, inebriada de paciência – eu voava a uma velocidade supersónica. Bergier gozava da confiança de alguns dos homens que, ainda hoje, se dedicam à alquimia, bem como da estima dos sábios modernos. Junto dele, em breve adquiri a certeza de que existem íntimos pontos de contacto entre a alquimia tradicional e a ciência de vanguarda. Vi a ciência lançar uma ponte entre dois mundos. Meti-me por essa ponte e verifiquei que ela se aguentava. Senti uma grande felicidade, uma calma profunda. Há muito refugiado no pensamento antiprogressista hinduísta, gurdjáeffiano, vendo o mundo de hoje como um princípio de Apocalipse, não esperando mais (e com grande desespero) do que um horroroso final dos tempos e não muito seguro no orgulho de estar à parte, eis que me era dado ver o velho passado e o futuro darem-se as mãos. A metafísica da alquimia, várias vezes milenária, escondia uma técnica finalmente compreensível, ou quase, no século xx. As pavorosas técnicas de hoje abriam-se sobre uma metafísica quase semelhante à dos tempos antigos. Que falsa poesia havia no meu refúgio! A imortal alma dos homens luzia com a mesma chama de cada lado da ponte.

Acabei por acreditar que os homens, num passado muito longínquo, tinham descoberto os segredos da energia e da matéria. Não apenas por meio de meditação, mas também de manipulação. Não apenas espiritualmente, mas tecnicamente. O espírito moderno, servindo-se de vias diferentes, pelos caminhos durante muito tempo desagradáveis, a meus olhos, da razão pura, da falta de religião, com processos diferentes e que durante muito tempo me tinham parecido maus, preparava-se por sua vez para descobrir os mesmos segredos. Interrogava-se a esse respeito, entusiasmava-se e inquietava-se simultaneamente. Tropeçava no essencial, exactamente como o espírito de elevada tradição.

Vi então que a oposição entre a “prudência” milenária e a “loucura” contemporânea era uma invenção da inteligência demasiado fraca e demasiado lenta, um produto de compensação para o intelectual incapaz de tanta velocidade quanta a sua época exige.

Há várias maneiras de aceder ao conhecimento essencial. E o nosso tempo tem algumas. As antigas civilizações tiveram as delas. Não falo apenas de conhecimento teórico.

Vi finalmente que, sendo as técnicas actuais mais poderosas, aparentemente, do que as técnicas de outrora, esse conhecimento essencial, que os alquimistas provavelmente já possuíam (e outros sábios antes deles), chegaria até nós com maior força ainda, maior peso, maiores perigos e maior número de exigências. Atingimos o mesmo ponto que os Antigos, mas a uma altura diferente. Em lugar de condenar o espírito moderno em nome da sensatez iniciática dos Antigos, ou em lugar de negar essa sensatez declarando que o conhecimento real começa com a nossa própria civilização, seria conveniente admirar e venerar o poder do espírito que, sob diferentes aspectos, torna a passar pelo mesmo ponto de luz, elevando-se em espiral. Em vez de condenar, repudiar, escolher, seria conveniente amar. O amor é tudo: a um tempo repouso e movimento.

*

Vamos submeter à vossa apreciação os resultados das nossas investigações sobre alquimia. Trata-se apenas, evidentemente, de esboços. Ser-nos-iam necessários dez ou vinte anos, e talvez faculdades que não possuímos, para dar ao assunto uma contribuição realmente positiva. No entanto, aquilo que fizemos, e a maneira como o fizemos, torna o nosso trabalho muito diferente das obras até aqui consagradas à alquimia. Encontrareis poucos esclarecimentos sobre a história e a filosofia desta ciência tradicional, mas algumas explicações sobre as inesperadas relações entre os sonhos dos velhos “filósofos químicos” e as realidades da física actual. É preferível revelarmos imediatamente as ideias que nos guiaram.

A alquimia, segundo a nossa opinião, poderia ser um dos mais importantes resíduos de uma ciência, de uma técnica e de uma filosofia pertencentes a uma civilização desaparecida. Aquilo que descobrimos na alquimia, à luz do saber contemporâneo, não é de molde a fazer-nos acreditar que uma técnica tão subtil, complicada e precisa possa ter sido o resultado de uma “revelação divina” caída do céu. Não quer dizer que desprezemos toda a ideia de revelação. Mas, ao estudarmos os santos e os grandes místicos, jamais podemos chegar à conclusão de que Deus fala aos homens em linguagem técnica: “Coloca o teu crisol sob a luz polarizada, ó meu Filho! Lava as escórias com água ultradestilada!”

Também não acreditamos que a técnica alquimista se possa ter desenvolvido por meio de tentativas, pequenos passatempos de ignorantes, fantasias de maníacos do crisol, até atingir aquilo a que temos de chamar a desintegração atómica. Antes nos sentiríamos dispostos a acreditar que existem na alquimia restos de uma ciência desaparecida, difíceis de compreender e de utilizar, por faltar o contexto. A partir desses restos há inevitavelmente tentativas, mas em direcção determinada. Há também uma superabundância de interpretações técnicas, morais e religiosas. E há por fim, para os detentores desses restos, a imperiosa necessidade de guardar segredo.

Somos levados a crer que a nossa civilização, ao atingir uma sabedoria que talvez tenha pertencido a uma civilização anterior, em condições diferentes, noutro estado de espírito, talvez tivesse o maior interesse em interrogar com seriedade a antiguidade para tornar mais rápida a sua própria progressão.

Finalmente pensamos o seguinte: o alquimista no fim do seu “trabalho” sobre a matéria assiste, segundo a lenda, a uma espécie de transformação na sua própria pessoa. Aquilo que se passa no seu crisol passa-se igualmente na sua consciência ou na sua alma. Há uma mudança de estado. Todos os textos tradicionais insistem nesse ponto, evocam o momento em que a “Grande Obra” se realiza e em que o alquimista se transforma num “homem desperto”. Parece-nos que esses velhos textos descrevem deste modo o termo de todo o conhecimento real das leis da matéria e da energia, incluindo o conhecimento técnico. É para a possessão de tal conhecimento que se precipita a nossa civilização. Não nos parece absurdo supor que os homens serão chamados, num futuro relativamente próximo, a “mudar de estado”, como o alquimista lendário, a sofrer qualquer transformação. A menos que a nossa civilização desapareça por inteiro um momento antes de ter atingido o fim, como é possível que tenham desaparecido outras civilizações. Também se podia dar o caso de que, no nosso último segundo de lucidez, não desesperássemos, pensando que se a aventura do espírito se repete, é sempre, de cada vez, num grau mais alto da espiral. Remeteríamos a outros milenários o cuidado de conduzir essa aventura até ao ponto final, até ao centro imóvel, e afundar-nos-íamos com esperança.

1 O autor de Le Mystère des Cathèdrales e de Les Demeures philosophales.

Conhecem-se mais de cem mil livros ou manuscritos alquímicos. Essa imensa literatura, à qual se consagraram espíritos de categoria, homens importantes e honestos, essa imensa literatura que afirma solenemente a sua adesão a factos, a realidades experimentais, nunca foi explorada cientificamente. O pensamento reinante, católico no passado, racionalista actualmente, manteve em redor desses textos uma conspiração de ignorância e desprezo. Existem cem mil livros que possivelmente contêm alguns dos segredos da energia e da matéria. Se isso não é verdade, eles pelo menos assim o proclamam. Os príncipes, os reis e as repúblicas encorajaram inúmeras expedições a países longínquos, financiaram investigações científicas de todos os géneros. Nunca uma equipa de criptógrafos, historiadores, linguístas e sábios, físicos, químicos, matemáticos e biologistas se reuniu numa biblioteca alquímica completa com a missão de verificar o que há de verdadeiro e de utilizável nesses velhos tratados. Isso é que é inconcebível. Que tais limitações do espírito sejam possíveis e duradoiras, que sociedades humanas muito civilizadas e, como a nossa, aparentemente sem preconceitos de qualquer espécie, possam manter esquecidos nas suas águas-furtadas cem mil livros e manuscritos com a etiqueta de: “Tesouro,” eis o que convencerá os mais cépticos de que vivemos no fantástico.

As raras investigações sobre alquimia são feitas quer por místicos que procuram nos textos uma confirmação das suas atitudes espirituais, quer por historiadores sem o menor contacto com a ciência e as técnicas.

Os alquimistas falam da necessidade de destilar milhares de vezes a água que servirá para a preparação do Elixir. Ouvimos dizer a um historiador especializado que essa operação era demencial. Ignorava tudo a respeito da água pesada e dos métodos que se empregam para enriquecer a água simples em água pesada. Ouvimos um erudito afirmar que a refinação e a purificação indefinidamente repetidas de um metal ou de um metalóide não alteram absolutamente nada as propriedades deste; seria então necessário ver nas recomendações alquímicas uma mística aprendizagem da paciência, um gesto ritual comparável ao desfiar das contas do rosário. E, no entanto, é com essa refinação por meio de uma técnica descrita pelos alquimistas e a que hoje se chama “a fusão de zona” que se prepara o germânio e o silício puros dos transistores. Actualmente sabemos, graças a esses trabalhos sobre os transistores, que, se se purificar profundamente um metal e introduzir em seguida alguns milionésimos de grama de impurezas cuidadosamente escolhidas, concede-se ao corpo tratado novas e revolucionárias propriedades. Não desejamos multiplicar os exemplos, mas gostaríamos de fazer compreender até que ponto seria conveniente um exame verdadeiramente metódico da literatura alquímica. Seria um trabalho imenso, que exigiria dezenas de anos de trabalho e dezenas de investigadores pertencentes a todas as disciplinas. Nem Bergier nem eu pudemos sequer esboçar semelhante trabalho, mas se o nosso volumoso e desajeitado livro pudesse um dia decidir um mecenas a permitir esse trabalho, não teríamos perdido completamente o nosso tempo.

*

Ao estudarmos um pouco os textos alquímicos, constatámos que estes são geralmente modernos em relação à época em que foram escritos, ao passo que as outras obras de ocultismos estão em atraso. Por outro lado, a alquimia é a única prática pararreligiosa que, de facto, enriqueceu o nosso conhecimento real.

Alberto o Grande (1193-1280) conseguiu preparar a potassa cáustica. Foi o primeiro a descrever a composição química do cinabre, do alvaiade e do mínio.

Raimundo Lull (1235-1315) preparou o bicarbonato de potássio.

Teofrasto Paracelse (1493-1541) foi o primeiro a descrever o zinco, desconhecido até então. Introduziu igualmente na medicina o uso dos compostos químicos.

Giambattista della Porta (1541-1615) preparou o óxido de estanho.

Jean-Baptiste Van Helmont (1577-1644) descobriu a existência dos gases.

Basile Valentin (do qual ninguém jamais soube a verdadeira identidade) descobriu no século xvII o ácido sulfúrico e o ácido clorídrico.

Johann Rudolf Glauber (1604-1668) descobriu o sulfato de sódio.

Brandt (falecido em 1692) descobriu o fósforo.

Johann Friedrich Boetticher (1682-1719) foi o primeiro europeu a fazer a porcelana.

Blaise Vigenère (1523-1596) descobriu o ácido benzóico.

Tais são alguns dos trabalhos alquímicos que enriquecem a humanidade no momento em que a química progride. À medida que se desenvolvem outras ciências, a alquimia parece seguir e muitas vezes preceder o progresso. Le Breton, nas suas Clefs de la Philosophie Spagyrzque, em 1722, fala do magnetismo de maneira mais do que inteligente e frequentemente antecipa a respeito das descobertas modernas. O Padre Castel, em 1728, no momento em que as ideias sobre a gravitação começam a divulgar-se, fala desta e das suas relações com a luz em termos que, dois séculos mais tarde, ecoarão estranhamente ao pensamento de Einstein:

“Eu disse que, se subtraíssemos o peso do Mundo, subtrairíamos simultaneamente a luz. De resto a luz e o som, e todas as outras qualidades sensíveis, são uma consequência e como que um resultado da mecânica, e por consequência do peso dos corpos naturais que são mais ou menos luminosos ou sonoros, conforme têm maior peso e elasticidade.”

Nos tratados alquímicos do nosso século vê-se aparecer frequentemente, mais depressa do que nas produções universitárias, as últimas descobertas da física nuclear, e é provável que os tratados de amanhã mencionem as teorias físicas e matemáticas o mais abstractas possível.

É evidente a distinção entre a alquimia e as falsas ciências como a radiestesia, que introduz ondas ou raios nas suas publicações depois de a ciência oficial as ter descoberto. Tudo nos leva a pensar que a alquimia é susceptível de fornecer uma contribuição importante aos conhecimentos e às técnicas do futuro baseadas na estrutura da matéria.

*

Constatámos igualmente, na literatura alquímica, a existência de um número impressionante de textos puramente delirantes.

Pretenderam por vezes explicar esse delírio por meio da psicanálise (Jung: Psicologia e Alquimia, ou Herbert Silberer: Problemas do Misticismo). Como a alquimia contém uma doutrina metafísica e supõe uma atitude mística, a maior parte das vezes os historiadores, os curiosos e sobretudo os ocultistas obstinaram-se em interpretar esses conceitos demenciais no sentido de uma revelação supranatural, de uma profecia inspirada. Observando melhor, pareceu-nos prudente tomar, a par dos textos técnicos e dos textos de sabedoria, os textos demenciais por textos demenciais. Pareceu-nos também que essa demência do adepto experimentador podia ter uma explicação material, simples, satisfatória. O mercúrio era frequentemente utilizado pelos alquimistas. O seu valor é tóxico e o envenenamento crónico provoca o delírio. Teoricamente, os recipientes empregados eram absolutamente herméticos, mas o segredo desse encerramento não é divulgado a todos os adeptos, e a loucura pôde apossar-se de mais de um “filósofo químico”.

Por fim, ficámos impressionados com o aspecto criptogâmico da literatura alquímica. Blaise Vigenère, que citámos mais atrás, inventou códigos aperfeiçoadíssimos e métodos de cifragem dos mais engenhosos. As suas invenções nesta matéria ainda hoje são utilizadas. É provável que Blaise Vigenère tenha tomado contacto com essa ciência da cifra ao tentar interpretar os textos alquímicos. Seria conveniente acrescentar às equipas de investigadores que desejamos ver reunidas especialistas do deciframento.

“A fim de dar um exemplo mais evidente, escreve René Alleau[1], servir-nos-emos do jogo do xadrez, do qual conhecemos a relativa facilidade das regras e dos elementos, assim como a indefinida variedade das combinações. Se supusermos que o conjunto dos tratados acroamáticos da alquimia se nos apresenta como outras tantas partes anotadas numa linguagem convencional, é preciso admitir em primeiro lugar, com a maior honestidade, que ignoramos tanto as regras do jogo como a cifra utilizada. De contrário, afirmamos que a indicação criptográfica é composta por sinais directamente compreensíveis para qualquer indivíduo, o que é precisamente a ilusão imediata que deve provocar um criptograma bem composto. Portanto a prudência aconselha-nos a não nos deixarmos seduzir pela tentação de um sentido claro, e a estudarmos esses textos como se se tratasse de uma linguagem desconhecida.

“Aparentemente, tais mensagens só se dirigem a outros jogadores, a outros alquimistas que somos levados a crer que já possuem, por qualquer processo diferente da tradição escrita, chave necessária para a compreensão exacta dessa linguagem.”

*

Por muito longe que remontemos na investigação do passado, encontraremos manuscritos alquímicos. Nicolas de Valois, no século xv, deduzia por isso que as alterações, os segredos e as técnicas da libertação da energia foram descobertas pelos homens antes mesmo da escrita. A arquitectura precedeu a escrita. Por isso vemos a alquimia muito intimamente ligada à arquitectura. Um dos textos mais significativos da alquimia, cujo autor é um tal Esprit Gobineau de Montluisant, intitula-se: “Explicações muito curiosas dos enigmas e figuras hieroglíficas que existem no portal de Notre-Dame de Paris”. As obras de Fulcanelli são consagradas ao “Mistério das Catedrais” e às minuciosas descrições das “Moradas Filosofais”. Algumas construções medievais testemunhariam o hábito imemorial de transmitir por meio da arquitectura a mensagem da alquimia, que data de eras infinitamente longínquas da humanidade.

Newton acreditava na existência de uma cadeia de iniciados alastrando no tempo até uma antiguidade muito remota, e que teriam conhecido os segredos das alterações e da desintegração da matéria. O sábio atomista inglês Da Costa Andrade, num discurso pronunciado diante dos seus pares por ocasião do tricentenário de Newton, em Cambridge, em Julho de 1946, não hesitou em dar a entender que o inventor da gravitação talvez fizesse parte de uma cadeia e apenas revelara ao mundo uma pequena parte do seu saber:

“Não posso esperar, disse[2], convencer os cépticos de que Newton tinha poderes de profecia ou de visão especial que lhe possam ter revelado a energia atómica, mas direi simplesmente que as frases que vou citar ultrapassam em muito, na opinião de Newton ao falar da transmutação alquímica, o receio de um transtorno no comércio mundial depois da síntese do ouro. Eis o que Newton escreveu:

“A forma como o mercúrio pode ser assim impregnado foi mantida em segredo por aqueles que sabiam, e constitui provauelmente um acesso para qualquer coisa de mais nobre do que a fabricação do ouro e que não pode ser comunicada sem que o mundo corra um imenso perigo, caso os escritos de Hermes digam a verdade.”

“E, mais adiante, Newton escreve: “Existem outros grandes mistérios além da transmutação dos metais, se os grandes mestres não se gabam. Só eles conhecem esses segredos”.

“Reflectindo no sentido profundo desta passagem, lembrai-vos de que Newton fala com as mesmas reticências e a mesma prudência anunciadora nas suas próprias descobertas de óptica”.

De que passado viriam esses grandes mestres invocados por Newton, e de que passado teriam eles próprios extraído a sua ciência?

“Se subi tão alto, diz Newton, é porque estava sobre os ombros de gigantes.”

Atterbury, contemporâneo de Newton, escrevia:

“A modéstia ensina-nos a falar com respeito dos Antigos, sobretudo quando não conhecemos profundamente as suas obras. Newton, que quase as sabia de cor, tinha por eles o maior respeito e considerava-os como homens de profundo génio e de um espírito superior, que tinham levado muito mais longe as suas descobertas de todos os géneros do que nos possa parecer actualmente, segundo o que resta dos seus escritos. Há mais obras antigas perdidas do que conservadas e talvez as nossas novas descobertas não valham as perdas antigas.”

Para Fulcanelli, a alquimia seria o elo de ligação com as civilizações desaparecidas desde há milénios e ignoradas pelos arqueólogos. Evidentemente, nenhum arqueólogo considerado honesto e nenhum historiador de igual reputação admitirá a existência no passado de civilizações que tenham possuído uma ciência e técnicas superiores às nossas. Mas uma ciência e técnicas avançadas simplificam ao máximo a aparelhagem, e talvez os vestígios estejam sob os nossos olhos sem que sejamos capazes de os ver como tais. Nenhum arqueólogo e nenhum historiador honesto, que não tenha recebido uma formação científica em alto grau, poderá efectuar pesquisas susceptíveis de nos fornecer a esse respeito qualquer esclarecimento. A separação das disciplinas, que foi uma necessidade do fabuloso progresso contemporâneo, talvez nos dissimule qualquer coisa de fabuloso no passado.

Sabe-se que foi um engenheiro alemão, encarregado da construção dos esgotos de Bagdade, que descobriu na amálgama de objectos do museu local, sob a vaga etiqueta de “objectos de culto”, pilhas eléctricas fabricadas dez séculos antes de Volta, durante a dinastia dos Sassanides.

Enquanto a arqueologia apenas for praticada por arqueólogos, não saberemos se a “noite dos tempos” era obscura ou luminosa.

*

“Jean-Fredérich Schweitzer, dito Helvétius, violento adversário da alquimia, conta que na manhã de 27 de Dezembro de 1666 se apresentou em sua casa um estrangeiro. Era um homem de aparência honesta e séria, e de expressão autoritária, vestido com um simples capote, como um “mennonita”.

Depois de perguntar a Helvétius se acreditava na pedra filosofal (ao que o famoso médico respondeu negativamente), o estrangeiro abriu uma pequena caixa de marfim “que continha três pedaços de uma substância semelhante ao vidro ou à opala”. O seu proprietário declarou tratar-se da famosa pedra, e que com uma tão mínima quantidade podia produzir vinte toneladas de ouro. Helvétius pegou num dos fragmentos e, depois de agradecer ao visitante a sua amabilidade, pediu-lhe que lhe desse um bocado. O alquimista recusou num tom brusco, acrescentando com mais cortesia que, mesmo a troco de toda a fortuna de Helvétius, não se poderia separar da menor parcela desse mineral, por uma razão que não lhe era permitido divulgar. Instado para que desse uma prova das suas palavras, realizando uma transmutação, o estrangeiro respondeu que voltaria três semanas mais tarde e mostraria a Helvétius uma coisa susceptível de o assombrar. Voltou pontualmente no dia marcado, mas recusou executar a operação, afirmando que lhe era proibido revelar o segredo. Condescendeu no entanto em dar a Helvétius um pequeno fragmento da pedra, “não maior do que um grão de mostarda”. E como o médico emitisse a dúvida de que uma tão ínfima quantidade pudesse produzir o menor efeito, o alquimista partiu o corpúsculo em dois, deitou uma metade fora e entregou-lhe a outra dizendo: “Aqui está justamente aquilo de que precisa”.

“O nosso sábio viu-se então obrigado a confessar que durante a primeira visita do estrangeiro conseguira apoderar-se de algumas partículas da pedra, as quais tinham transformado o chumbo, não em ouro, mas-em vidro. – “Devia ter protegido a pedra com cera amarela, respondeu o alquimista, isso ajudá-la-ia a penetrar o chumbo e a transformá-lo em ouro”. O homem prometeu voltar de novo no dia seguinte de manhã, às nove horas, e realizar o milagre – mas não apareceu, e no dia a seguir também não. Posto isto, a mulher de Helvétius persuadiu-o a tentar ele próprio a transmutação:

“Helvétius procedeu de acordo com as instruções do estrangeiro. Derreteu três dracmas de chumbo, envolveu a pedra em cera, e deixou-a cair no metal líquido. E este transformou-se em ouro! “Levámo-lo imediatamente ao ourives, que declarou tratar-se do ouro mais fino que jamais vira, e propôs pagá-lo a cinquenta florins a onça”. Helvétius, ao concluir a sua narrativa, disse-nos que a barra de ouro continuava na sua mão, prova tangível da transmutação. “Possam os Santos Anjos do Senhor velar por ele (o alquimista anónimo) como sobre um manancial de bênçãos para a cristandade. Tal é a nossa prece constante, por ele e por nós”.

“A novidade espalhou-se como um rastilho de pólvora. Spinoza, que não podemos incluir no número dos ingénuos, quis saber a verdade da história. Fez uma visita ao ourives que avaliara o ouro. O relatório foi mais do que favorável: durante a fusão, a prata incorporada à mistura transformara-se igualmente em ouro. O ourives, Brechtel, era moedeiro do duque de Orange. Sabia sem dúvida do seu ofício. Parece difícil acreditar que ele possa ter sido vítima de um subterfúgio, ou que tenha pretendido enganar Spinoza. Spinoza dirigiu-se então a casa de Helvétius, que lhe mostrou o ouro e o crisol que servia para a operação. Aderiam ainda ao interior do recipiente restos do precioso metal; como os outros, Spinoza ficou convencido de que a transmutação se operara realmente.”

*

A transmutação, para o alquimista, é um fenómeno secundário, realizado apenas a título de demonstração. É difícil formar uma opinião sobre a realidade dessas transmutações, embora diversas observações, como a de Helvétius ou a de Van Helmont, por exemplo, pareçam surpreendentes. Pode alegar-se que a arte do prestidigitador não tem limites, mas será possível que tenham sido consagrados a uma aldrabice quatro mil anos de pesquisas e cem mil volumes ou manuscritos? Propomos outra coisa, como mais adiante se verá. Propomo-lo timidamente, pois o peso da opinião científica já formada é de temer. Tentaremos descrever o trabalho do alquimista que consegue a fabricação da “pedra” à “pólvora de projecção”, e veremos que a interpretação de certas operações choca o nosso actual saber sobre a estrutura da matéria. Mas não é evidente que o nosso conhecimento dos fenómenos nucleares seja perfeito, definitivo. Em especial a catálise pode intervir nestes fenómenos de uma forma ainda desconhecida para nós”.

Não é impossível que certas misturas naturais produzam, sob o efeito dos raios cósmicos, reacções nucleo-catalípticas em grande escala, susceptíveis de conduzir a uma transmutação compacta dos elementos. Seria necessário ver nisso uma das chaves da alquimia e a razão pela qual o alquimista repete indefinidamente as suas manipulações, até ao momento em que as condições cósmicas se reúnem.

A objecção é a seguinte: se tais transmutações são possíveis, que virá a ser da energia libertada? Muitos dos alquimistas deveriam então ter feito ir pelos ares a cidade que habitavam e algumas dezenas de milhares de quilómetros quadrados da sua pátria nessa mesma ocasião. Ter-se-iam produzido numerosas e imensas catástrofes.

Os alquimistas respondem: é justamente por se terem dado semelhantes catástrofes num passado longínquo que receamos a terrível energia contida na matéria e que mantemos secreta a nossa ciência. Além disso, a “Grande Obra” é atingida por fases progressivas e aquele que, ao fim de dezenas e dezenas de anos de manipulações e de ascese, aprende a desencadear as forças nucleares, aprende igualmente quais as precauções que convém tomar para evitar o perigo[3].

Argumento válido? Talvez. Os físicos de agora admitem que, em certas condições, a energia de uma transmutação nuclear poderia ser absorvida por partículas especiais a que eles chamam neutrinos e antineutrinos[4]. Parece agora comprovada a existência do neutrino. Talvez haja tipos de transmutação que libertam apenas um pouco de energia, ou nas quais a energia libertada se evola sob a forma de neutrinos. Voltaremos a este assunto.

Eugène Canseliet, discípulo de Fulcanelli e um dos melhores especialistas actuais sobre alquimia, deteve-se sobre uma passagem de um estudo que Jacques Bergier escrevera como prefácio para uma das obras clássicas da Biblioteca Mundial. Tratava-se de uma antologia da poesia do século xvI. Nesse prefácio, Bergier fazia alusão aos alquimistas e ao seu desejo de segredo. Escrevia: “Sobre este ponto especial é difícil não lhes dar razão. Se existe um processo que permite fabricar bombas de hidrogénio num fogão de cozinha, é francamente preferível que esse processo não seja revelado”.

Eugène Canseliet respondeu-nos então: “Acima de tudo seria necessário que não se tomasse isto por um gracejo. Tendes toda a razão, e eu estou em boa posição para afirmar que é possível atingir a desintegração atómica partindo de um mineral relativamente comum e barato, e isto por um processo de operações que apenas exige uma boa chaminé, um forno de fusão de carvão, alguns tubos de combustão Meker e quatro garrafas de gás butano”.

Mesmo na física nuclear, não está excluído que se possam obter resultados importantes por meio de processos simples.
É o futuro de toda a ciência e de toda a técnica.

“Podemos mais do que aquilo que sabemos”, dizia Roger Bacon. Mas acrescentava esta frase que poderia ser um adágio
alquímico: “Embora nem tudo seja permitido, tudo é possível”.

Para o alquimista, é preciso recordá-lo constantemente, poder sobre a matéria e a energia não passa de uma realidade acessória. O verdadeiro objectivo das operações alquímicas, que talvez sejam o resíduo de uma ciência muito antiga pertencente a uma civilização desaparecida, é a transformação do próprio alquimista, o seu acesso a um estado de consciência superior. Os resultados materiais são apenas as promessas do resultado final, que é espiritual. Tudo se dirige para a transmutação do próprio homem, para a sua divinização, a sua fusão com a energia divina fixa, da qual irradiam todas as energias da matéria. A alquimia é a ciência “com consciência” de que Rabelais fala. É uma ciência que hominiza, para repetir uma expressão do P.e Teilhard de Chardin, que dizia: “A verdadeira física é a que conseguir integrar o Homem total numa representação coerente do mundo”.

“Sabei, dizia um mestre alquimista, sabei vós todos, os Investigadores dessa Arte, que o Espírito é tudo, e que se nesse Espírito não está encerrado outro Espírito semelhante, esse todo para nada serve.”

1741
La Tourbe des Philosophes, in “Biblioteca dos Filósofos Químicos”,Paris.

1 Aspects de lÁlchimie Traditionnelle, Éditions de Minuit, Paris

2 Newton Tercentenary Celebrations. Universidade de Cambridge, 1947

3 Estão em curso, em vários países, trabalhos sobre a utilização de
partículas (produzidas por poderosos aceleradores) para catalisar a fusão
do hidrogénio.

4 Não se confunda com o neutrão, elemento do núcleo. (N. da T.)

Era em 1933. O pequeno estudante judeu tinha um nariz pontiagudo, encimado por uns óculos de lentes redondas atrás das quais brilhava um olhar rápido e frio. Sobre o crânio redondo começava a despontar uma cabeleira semelhante a uma penugem de pintainho. Um sotaque pavoroso, agravado por gaguejos, dava às suas frases o tom cómico e a baralhada do grasnar de patos num charco. Depois de o conhecerem um pouco melhor, dava a impressão de que bailava dentro desse homenzinho desgracioso uma inteligência bulímica, atenta, sensível, extraordinariamente rápida, de que estava cheio de malícia e de uma pueril incapacidade para viver, como um enorme balão vermelho preso por um fio ao pulso de uma criança.

“Pretende então tornar-se alquimista?”, perguntou o venerando professor ao estudante Jacques Bergier, que mantinha a cabeça baixa, sentado na beira de um cadeirão, com uma pasta cheia de papelada sobre os joelhos. O venerando era um dos maiores químicos franceses.

“Não o compreendo, senhor”, disse o estudante, vexado.

Tinha uma memória prodigiosa, e recordou-se de ter visto, aos seis anos, uma gravura alemã que representava dois alquimistas a trabalhar, no meio de uma confusão de retortas, de pincas, de crisóis, de foles. Um deles, esfarrapado, vigiava uma fogueira, de boca aberta, e outro, desgrenhado, coçava a cabeça titubeando no meio de toda aquela desordem.

O professor consultou uns documentos:

“Durante os seus dois últimos anos de trabalho interessou-se sobretudo pelo curso livre de física nuclear de Jean Thibaud. Esse curso não conduz a qualquer diploma nem certificado. Exprime o desejo de prosseguir nesse sentido ainda me seria possível compreender essa curiosidade da parte de um físico. Mas o senhor está destinado à química. Tencionará, por acaso. aprender a fabricar ouro?

– Senhor – disse o estudante judeu erguendo as pequenas mãos gordas e mal tratadas -, eu acredito no futuro da química nuclear. Penso que, num futuro próximo, serão realizadas transmutações industriais.

– Isso parece-me delirante.

– Mas, senhor. . . ”

Por vezes detinha-se no início de uma frase e começava a repetir esse início, como um gramofone avariado, não por falta de atenção, mas porque o seu espírito divagava de forma inconfessável pelo reino da poesia. Sabia de cor milhares de versos e todos os poemas de Kipling:

Copiaram tudo o que podiam entender,
Mas não podiam alcançar o meu pensamento;
Por isso deixarei-os para trás, sem fôlego,
E pensando com ano e meio de atraso…

– Mas, mesmo se V. Ex.a não acredita nas transmutações, deveria acreditar na energia nuclear. Os imensos recursos
potenciais do núcleo. . .

– Ta ta ta – exclamou o professor. – Isso é primário e infantil. Aquilo a que os físicos chamam energia nuclear é uma constante de integração nas suas equações. A consciência é o principal motor dos homens. Mas não é a consciência que faz andar as locomotivas, não é verdade? Por isso, sonha-se com uma máquina accionada pela energia nuclear… Não, meu rapaz.”

O rapaz engolia a saliva.

– Desça à Terra e pense no seu futuro. O que o incita, de momento, pois não o julgo saído da infância, é um dos mais velhos sonhos do homem: o sonho alquímico. Leia novamente Berthelot. Ele descreve muito bem essa quimera da transmutação da matéria. As suas notas não são lá muito, muito brilhantes. Dou-lhe um conselho: entre o mais depressa possível para a indústria. Faça um estágio numa refinaria de açúcar. Três meses numa fábrica pô-lo-ão de novo em contacto com a realidade. Precisa disso. Falo-lhe como um pai.”

O filho indigno agradeceu gaguejando, e saiu de nariz no ar, a enorme pasta debaixo do braço curto. Era um obstinado: pensou que era necessário tirar partido daquela conversa, mas que o mel era melhor do que o açúcar. Continuaria a estudar os problemas do núcleo atómico. E documentar-se-ia a respeito de alquimia.

*

Foi assim que o meu amigo Jacques Bergier decidiu prosseguir uns estudos considerados inúteis e completá-los com outros estudos considerados delirantes. As necessidades da vida, a guerra e os campos de concentração afastaram-no um pouco do estudo nuclear. No entanto, enriqueceu-o com algumas contribuições apreciadas pelos especialistas. Durante as suas investigações, os sonhos dos alquimistas e as realidades da física matemática misturaram-se mais de uma vez. Mas no domínio científico operaram-se grandes alterações a partir de 1933, e o meu amigo teve cada vez menos a sensação de navegar contra a corrente.

*

De 1934 a 1940, Jacques Bergier foi o colaborador de André Helbronner, um dos homens notáveis da nossa época. Helbronner, que foi assassinado pelos nazis em Buchenwald, em Março 1944, fora, em França, o primeiro professor universitário a ensinar a químico-física. Essa ciência, que é uma fronteira entre duas disciplinas, deu origem, mais tarde, a muitas outras ciências: a electrónica, a nucleónica, a estereotrónica[1]. Helbronner viria depois a receber a grande medalha de ouro do Instituto Franklin pelas suas descobertas sobre os metais coloidais. Interessou-se igualmente pela liquefação dos gases, pela aeronáutica e pelos raios ultravioletas.

Em 1934 consagrou-se à física nuclear e montou, com o auxílio de grupos industriais, um laboratório de pesquisas nucleares, no qual, até ao ano de 1940, se obtiveram resultados de interesse considerável. Além disso, Helbronner era árbitro dos tribunais em todas as questões relacionadas com a transmutação dos elementos, e por esse motivo é que Jacques Bergier teve ocasião de conhecer um certo número de falsos alquimistas, escroques ou iluminados, e um verdadeiro alquimista, um autêntico mestre.

O meu amigo nunca soube o verdadeiro nome desse alquimista, e mesmo que o soubesse evitaria dar excessivos esclarecimentos. O homem de quem vamos falar há já muito tempo que desapareceu, sem deixar rastos visíveis. Entrou em clandestinidade e cortou voluntariamente todos os contactos com a sua época. Bergier crê que se tratava simplesmente do homem que, sob o pseudónimo de Fulcanelli, escreveu por volta de 1920 dois livros estranhos e admiráveis: Les Demeures Philosophales e Le Mystère des Cathédrales[2]. Estes livros foram editados sob a vigilância de Eugène Canseliet, que nunca revelou a identidade do autor. Figuram, sem dúvida alguma, entre as obras mais importantes sobre alquimia. Exprimem um conhecimento e uma sabedoria superiores, e conhecemos mais de um espírito notável que venera o nome lendário de Fulcanelli.

“Poderia ele, escreve Eugène Canseliet, uma vez atingido o auge do conhecimento recusar obediência às ordens do Destino? Ninguém é profeta na sua terra. talvez este velho adágio dê a razão oculta da alteração que provoca, na vida solitária e estudiosa do filósofo, a chama da revelação. Sob o efeito dessa chama divina, o homem já velho é inteiramente consumido. Nome, família, pátria, todas as ilusões, todos os erros, todas as vaidades caem como pó. E dessas cinzas, como a fénix dos poetas, uma nova personalidade renasce. Pelo menos, a tradição filosófica assim o diz.

“O meu mestre sabia-o. Desapareceu quando soou a hora fatídica, quando o sinal foi dado. Quem ousaria subtrair-se à lei?

“Eu próprio, apesar do sofrimento de uma separação dolorosa mas inevitável, se de mim se apossasse a feliz exaltação que obrigou o meu mestre a fugir das homenagens do mundo, sei que não agiria de outra forma.”

Eugène Canseliet escreveu estas linhas em 1925. O homem que o encarregava de editar as suas obras ia mudar de aspecto e de ambiente. Numa tarde de Junho de 1937, Jacques Bergier julgou ter excelentes motivos para pensar que se encontrava em presença de Fulcanelli.

Foi a pedido de André Helbronner que o meu amigo se encontrou com a misteriosa personagem, no ambiente prosaico de um laboratório de experiências da Sociedade do Gás de Paris. Eis, com exactidão, a conversa que houve:

– André Helbronner, de quem V. Ex.a, segundo creio, é o assistente, anda em busca da energia nuclear. Ele teve a amabilidade de me manter ao corrente de alguns dos resultados obtidos, particularmente da aparição da radioactividade correspondente à do polónio, quando um filamento de bismuto é volatilizado por uma descarga eléctrica no deutério a alta pressão. Estão muito perto do êxito, aliás como outros sábios contemporâneos. Ser-me-á permitido pô-los de sobreaviso? Os trabalhos a que se dedicam, bem como os seus colegas, são terrivelmente perigosos. Não são apenas os senhores que correm perigo. Este é de recear para a humanidade inteira. A libertação da energia nuclear é mais fácil do que pensam. E a radioactividade artificialmente produzida pode envenenar a atmosfera do planeta dentro de poucos anos. Além disso, podem ser fabricádos explosivos atómicos a partir de alguns gramas de metal, e arrasar cidades. Posso dizer-lhe com sinceridade: há muito que os alquimistas o sabem.

Bergier tentou interromper, protestando. Os alquimistas e a física moderna! la lançar-se em sarcasmos, quando o outro o interrompeu:

– Sei o que me vai dizer, mas não interessa. Os alquimistas desconheciam a estrutura do núcleo, desconheciam a electricidade, não possuíam qualquer processo de detecção. Por isso nunca puderam realizar qualquer transmutação, nunca puderam libertar a energia nuclear. Não tentarei provar-lhes o que agora vou declarar, mas peço-lhe que o repita ao Sr. Helbronner: para desencadear as forças atómicas bastam disposições geométricas de materiais extremamente puros, sem que seja necessário utilizar a electricidade ou a técnica do vácuo. Limitar-me-ei em seguida a fazer-lhe uma pequena leitura.

O homem retirou de cima da sua secretária o livro de Frédéric Soddy, L’interprètation du Radium, abriu-o e leu:

“Penso que existiram no passado civilizações que tiveram conhecimento da energia do átomo e que uma má aplicação
dessa energia as destruiu totalmente.”

Depois continuou:

– Peço-lhe que acredite que sobreviveram algumas técnicas parciais. Peço-lhe também que medite no facto de que os alquimistas juntavam às suas pesquisas preocupações morais e religiosas, ao passo que a física moderna surgiu no século xvIII como resultado do divertimento de alguns nobres e de alguns ricos libertinos. Ciência sem consciência… Julguei meu dever avisar alguns investigadores, aqui e além, mas não tenho a menor esperança de ver esse aviso produzir efeitos. Aliás, não tenho necessidade de esperar.

Bergier nunca mais esqueceria o som daquela voz precisa, metálica e digna.

Permitiu-se fazer uma pergunta:

– Se V. Ex.a também é alquimista, não posso acreditar que passe o tempo tentando fabricar ouro, como Dunikovski ou o doutor Miethe. Há um ano que tento documentar-me sobre alquimia, e vejo-me rodeado de charlatães ou de interpretações que me parecem fantasistas. Poderá V. Ex.a dizer-me em que consistem as suas investigações?

– Pede-me para resumir, em quatro minutos, quatro mil anos de filosofia e os esforços de toda a minha vida. Pede-me, além disso, para traduzir em linguagem clara conceitos para os quais a linguagem clara não é feita. Apesar de tudo posso dizer-lhe o seguinte: não ignora que, na ciência oficial em progresso, o papel do observador se torna cada vez mais importante. A relatividade, o princípio da incerteza mostram-nos até que ponto o observador de hoje intervém nos fenómenos. O segredo da alquimia é o seguinte: existe uma forma de manipular a matéria e a energia de maneira a produzir aquilo a que os cientistas contemporâneos chamariam um “campo de força”. Esse campo de força age sobre o observador e coloca-o numa situação de privilégio em face do Universo. Desse ponto privilegiado, ele tem acesso a realidades que o espaço e o tempo, a matéria e a energia habitualmente nos dissimulam. É aquilo a que chamamos a Grande Obra.

– Mas a pedra filosofal? A fabricação do ouro?

– São apenas aplicações, casos particulares. O essencial não é a transmutação dos metais, mas a do próprio investigador. É um segredo antigo, que em cada século vários homens voltam a encontrar.

– E o que é então feito deles?

– Talvez eu um dia o venha a saber.

O meu amigo não tornaria a ver esse homem que deixou um rasto indelével sob o nome de Fulcanelli. Tudo o que dele sabemos é que sobreviveu à guerra e desapareceu completamente após a Libertação. Todas as diligências para o reencontrar foram inúteis[3].

*

Eis-nos agora numa manhã de Julho de 1945. Ainda que esquelético e triste, Jacques Bergier, com um fato de caqui, prepara-se para cortar um cofre-forte com um maçarico. É mais uma metamorfose. Durante esses últimos anos foi sucessivamente agente secreto, terrorista e deportado político. O cofre-forte está numa bela vivenda, sobre o lago de Constança, que pertenceu ao director de um grande trust alemão. Depois de cortado, o cofre-forte expõe o seu segredo: uma garrafa que contém um pó extremamente pesado. Na etiqueta lê-se: “Urânio, para aplicações atómicas”. É a primeira prova formal da existência na Alemanha de um projecto de bomba atómica suficientemente forte para exigir grandes quantidades de urânio puro. Goebbels não deixava de ter razão quando, desde o seu bunker bombardeado, fazia circular pelas ruas arruinadas de Berlim o boato de que a arma secreta estava prestes a explodir na cara dos invasores”.

Bergier participou a descoberta às autoridades aliadas. Os americanos mostraram-se cépticos e declararam que qualquer investigação sobre a energia nuclear era sem interesse. Era um disfarce. Na realidade, a primeira bomba americana explodira em segredo, em Alamogordo, e, nessa mesma ocasião, encontrava-se na Alemanha uma missão americana dirigida pelo físico Goudsmidth, em busca da pilha atómica que o professor Heisenberg elaborara antes do desmoronamento do Reich.

Em França nada se sabia de positivo, mas havia indícios. Especialmente este, para as pessoas atentas: os americanos compravam a peso de ouro todos os manuscritos e documentos alquímicos.

Bergier apresentou um relatório ao governo provisório sobre a realidade provável das investigações a respeito dos explosivos nucleares tanto na Alemanha como nos Estados Unidos. O relatório foi sem dúvida para o cesto dos papéis, e o meu amigo conservou a sua garrafa, que agitava na cara das pessoas, exclamando: “Vêem isto? Bastaria que um neutrão passasse pelo interior para que Paris fosse pelos ares!” Aquele homenzinho de sotaque cómico gostava decididamente de gracejar e era espantoso que um deportado há pouco saído de Mauthausen tivesse conservado tanto humor. Mas, bruscamente, a brincadeira deixou de ter graça, na manhã de Hiroshima. O telefone do quarto de Bergier começou a tocar sem interrupção. Diversas autoridades competentes pediam cópias do relatório. Os serviços de informação americanos pediam ao possuidor da famosa garrafa para procurar urgentemente um certo major que não queria divulgar a sua identidade. Outras autoridades exigiam o rápido afastamento da garrafa do centro de Paris. Foi em vão que Bergier explicou que essa garrafa com certeza não continha urânio 235 puro e que, mesmo se o contivesse, o urânio estava sem dúvida abaixo da massa perigosa. De contrário, há muito que teria explodido. Confiscaram-lhe o brinquedo, do qual nunca mais ouviu falar. Para o consolar, enviaram-lhe um relatório da Direcção-Geral dos Estudos e Investigações. Era tudo o que aquele organismo, pertencente aos serviços secretos franceses, sabia a respeito da energia nuclear. O relatório trazia três menções carimbadas: “Secreto”, “Confidencial,” “Para não ser divulgado”. Continha, simplesmente, recortes da revista Science et Vie.

Restava-lhe apenas, para satisfazer a sua curiosidade, procurar o famoso major anónimo de quem o professor Goudsmith
contou algumas aventuras no seu livro Alsos. Esse misterioso oficial, dotado de humorismo negro, dissimulara os seus serviços atrás de uma organização destinada à busca dos túmulos dos soldados americanos. Estava muito agitado e parecia perseguido por Washington. Em primeiro lugar quis saber tudo o que Bergier conseguira apurar ou adivinhar sobre os projectos nucleares alemães. Mas era principalmente indispensável, para a salvação do mundo, para a causa aliada e para a promoção do maior, que encontrassem com urgência Eric Edward Dutt e o alquimista conhecido sob o nome de Fulcanelli.

Dutt, sobre quem Helbronner fora encarregado de fazer investigações, era um hindu que pretendia ter consultado manuscritos muito antigos. Afirmava que deles extraíra certos processos de transmutação dos metais e que, devido a uma descarga condensada através de um condutor de boreto de tungsténio, obtinha indícios de ouro nos produtos obtidos. Muito mais tarde, os russos viriam a obter resultados análogos, mas utilizando potentes aceleradores de partículas.

Bergier não pôde prestar grandes serviços ao mundo livre, à causa aliada e à promoção do major. Eric Edward Dutt, colaboracionista, fora fuzilado pela contra-espionagem francesa na África do Norte. Quanto a Fulcanelli, desaparecera definitivamente.

No entanto, o major, como agradecimento, mandou entregar a Bergier, antes da publicação, as provas do relatório: Acerca da Utilização Militar da Energia Atómica, pelo professor H. D. Smyth. Era o primeiro documento autêntico sobre o assunto. Ora, nesse texto havia uma estranha confirmação das frases pronunciadas pelo alquimista em Junho de 1937.

A pilha atómica, peça essencial para a fabricação da bomba, era de facto apenas “uma disposição geométrica de substâncias extremamente puras”. Como Fulcanelli o dissera, esse utensílio, no início, não utilizava nem a electricidade, nem a técnica do vácuo. O relatório Smyth fazia igualmente alusão a venenos irradiantes, a gases, a poeiras radioactivas extremamente tóxicas, que era relativamente fácil preparar em grandes quantidades. O alquimista falara de um possível envenenamento de todo o planeta.

De que forma um investigador obscuro, isolado, místico pudera prever, ou ter conhecimento, de tudo aquilo? “De onde
te vem isso, alma humana, de onde te vem isso?”

Ao folhear as provas do relatório, o meu amigo recordou também esta passagem do De Alchymia, de Alberto o Grande:

“Se tens a pouca sorte de te aproximares do príncipes e dos reis, eles não cessarão de te perguntar: “Então, Mestre, como vai a Obra? Quando é que finalmente veremos qualquer coisa de positivo?” E, na sua impaciência, chamar-te-ão aldrabão e velhaco e causar-te-ão toda a espécie de aborrecimentos. E, se não obtiveres êxito, sofrerás todo o efeito da sua cólera. Se, pelo contrário, o obtiveres, conservar-te-ão em suas casas em cativeiro perpétuo, com o propósito de te fazerem trabalhar
em seu benefício.”

Seria esse o motivo por que Fulcanelli desapareceu e os alquimistas de todos os tempos mantiveram ciosamente o
segredo?

O primeiro e o último conselho dado pelo papiro Harris era: “Fechai as bocas! Cerrai as bocas!”

Anos depois de Hiroshima, a 17 de Janeiro de 1955, Oppenheimer viria a declarar: “Num sentido profundo, que nenhum gracejo de mau gosto será susceptível de extinguir, nós, os sábios, tomámos contacto com o pecado”.

E mil anos antes, um alquimista chinês escrevia: “Seria um pecado terrível desvendar aos soldados o segredo da tua arte. Toma cuidado! Que nem um insecto haja na sala em que trabalhas!”

1 A estereotrónica é uma ciência muito recente que estuda a transformação da energia nos sólidos. Uma das suas aplicações é o transistor.

2 Estas duas obras foram reeditadas pela “Omnium Littéraire” 72, Champs-Elysées, Paris. A primeira edição data de 1925. Há muito que estava esgotada e os curiosos compravam os raros exemplares em circulação por dezenas de milhares de francos.

3 A opinião dos mais cultos e dos mais qualificados é que aquele que se escondeu, ou se esconde ainda nos nossos dias, sob o famoso pseudónimo de Fulcanelli, é o mais célebre e, sem dúvida, o único alquimista autêntico (talvez o último) deste século em que o átomo é rei”. Claude d’Ygé, revista Initiation et Science, n.o 44, Paris.

O alquimista moderno é um homem que lê os tratados de física nuclear. Está convencido de que se podem obter transmutações e fenómenos ainda mais extraordinários por meio de manipulações e com um material relativamente simples. É nos alquimistas contemporâneos que se torna a encontrar o espírito do investigador isolado. A conservação de um tal espírito é preciosa para a nossa época. De facto, acabámos por acreditar que o progresso dos conhecimentos já não é possível sem equipas numerosas, sem uma enorme aparelhagem, sem um financiamento considerável. Ora as descobertas fundamentais, como, por exemplo, a radioactividade ou a mecânica ondulatória, foram realizadas por homens isolados. A América, que é o país das grandes equipas e dos grandes processos, espalha actualmente agentes pelo Mundo inteiro em busca de espíritos originais. O director da investigação científica americana, o doutor James Killian, declarou em 1958 que era prejudicial confiar-se apenas no trabalho colectivo e que achava necessário que se fizesse apelo aos homens solitários, portadores de ideias originais.

Rutheford efectuou os seus trabalhos mais importantes sobre a estrutura da matéria com latas de conserva e pedaços de guita. Jean Perrin e Madame Curie, antes da guerra, enviavam os seus colaboradores ao Marché aux Puces, ao domingo, em busca de um pouco de material. Evidentemente, os laboratórios com aparelhagem poderosa são necessários, mas seria importante organizar uma cooperação entre esses laboratórios, essas equipas, e os originais solitários. No entanto, os alquimistas furtam-se ao convite. A sua lei é o segredo. A sua ambição é a ordem espiritual. “Está fora de dúvida, escreve René Alleau, que as manipulações alquímicas servem de suporte a uma ascese interior”. Se a alquimia contém uma ciência, essa ciência é apenas um meio de atingir a consciência. Importa, portanto, que não saia para o exterior, onde se transformaria num fim.

*

Qual é o material do alquimista? O mesmo do investigador de química mineral de altas temperaturas: fornos, crisóis, balanças, instrumentos de medição, aos quais se vieram juntar os aparelhos modernos acessíveis de controlo das radiações nucleares: contador Geiger, cintilómetro, etc.

Esse material pode parecer irrisório. Um físico ortodoxo não poderia admitir que é possível fabricar um cálculo emitindo neutrões por processos simples e económicos. Se as informações que temos são autênticas, os alquimistas conseguem-no. Na altura em que o electrão era considerado o quarto estado da matéria, inventaram-se dispositivos extremamente onerosos e complicados para produzir correntes electrónicas. Após o que, em 1910, Eister e Gaitel demonstraram que bastava aquecer cal ao rubro no vácuo. Não sabemos tudo a respeito das leis da matéria. Se a alquimia é uma ciência em avanço sobre a nossa, usa processos mais simples do que os nossos.

Conhecemos vários alquimistas em França e dois nos Estados Unidos. Há-os em Inglaterra, na Alemanha e em Itália. E.J. Holmyard diz ter encontrado um em Marrocos. De Praga escreveram-nos três. A imprensa científica soviética, actualmente, parece fazer grande caso da alquimia e realiza investigações históricas.

*

E agora vamos tentar, pela primeira vez, segundo cremos, descrever com precisão o que faz um alquimista no seu laboratório. Não pretendemos revelar a totalidade do método alquímico, mas julgamos ter, a respeito desse método, alguns conhecimentos de certo interesse. Não esquecemos que a última finalidade da alquimia é a transmutação do próprio alquimista, e que as manipulações não passam de um lento caminhar em direcção à “libertação do espírito”. É sobre essas manipulações que tentamos apresentar novos esclarecimentos.

Em primeiro lugar, durante vários anos, o alquimista decifrou velhos textos onde “o leitor se deve embrenhar desprovido do fio de Ariana, mergulhado num labirinto no qual tudo foi preparado consciente e sistematicamente a fim de lançar o profano numa inextricável confusão mental”. Paciência, humildade e fé elevaram-no a um certo nível de compreensão desses textos. Nesse nível vai poder iniciar realmente a experiência alquímica. Vamos descrever essa experiência, mas falta-nos um elemento. Sabemos o que se passa no laboratório do alquimista. Mas ignoramos o que se passa no próprio alquimista, na sua alma. Pode dar-se o caso de que tudo esteja ligado. Pode ser que a energia espiritual represente um papel nas manipulações físicas e químicas da alquimia. Pode ser que uma certa forma de adquirir, concentrar e orientar a energia espiritual seja indispensável ao êxito do “trabalho” alquímico. Não é certo, mas, em questão tão delicada, não podemos deixar de reservar um lugar para a frase de Dante: “Vejo que acreditas nestas coisas porque sou eu a dizer-tas, mas não sabes porquê, de forma que por serem acreditadas nem por isso estão menos escondidas”.

O nosso alquimista começa por misturar muito bem, num almofariz de ágata, três constituintes. O primeiro, numa percentagem de 95%, é um minério: uma pirite arseniosa, por exemplo, um minério de ferro que contém especialmente, como impurezas, arsénico e antimónio. O segundo é um metal: ferro, chumbo, prata ou mercúrio. O terceiro é um ácido de origem orgânica: ácido tartárico ou cítrico. Vai moê-los e triturá-los com as mãos, depois conserva a mistura durante cinco ou seis meses. Em seguida aquece tudo num crisol. Aumenta progressivamente a temperatura e faz com que a operação dure cerca de dez dias. Deverá tomar certas precauções. Há gases tóxicos que se evolam: o vapor de mercúrio e sobretudo o hidrogénio arsenioso, que matou mais de um alquimista, logo no início dos trabalhos.

Finalmente dissolve o conteúdo do crisol com um ácido. Foi procurando um dissolvente que os alquimistas de outrora descobriram o ácido acético o ácido nítrico e o ácido sulfúrico. Essa dissolução deve efectuar-se sob uma luz polarizada: quer uma réstia de luz solar, reflectida num espelho, quer a luz da Lua. Sabe-se hoje que a luz polarizada vibra numa única direcção, ao passo que a luz normal vibra em todas as direcções em redor de um eixo. Em seguida evapora o líquido e recalcina o sólido. Recomeça essa operação milhares de vezes, durante vários anos.

Porquê? Ignoramo-lo. Talvez na expectativa do momento em que as melhores condições estejam reunidas: raios cósmicos, magnetismo terrestre, etc. Talvez a fim de obter uma “fadiga” da matéria em estruturas profundas que nós ainda ignoramos.

O alquimista fala de “paciência sagrada”, de lenta condensação do “espírito universal”. Há certamente qualquer outra coisa atrás desta linguagem pararreligiosa.

Esta forma de operar repetindo indefinidamente a mesma manipulação pode parecer demencial a um químico moderno. Ensinaram-lhe que há um único método experimental válido: o de Claude Bernard. É um método que age por meio de variações concomitantes. Repete-se milhares de vezes a mesma experiência, mas fazendo variar, de cada vez, um dos factores: proporções de um dos constituintes, temperatura, pressão, catalisador, etc. Anotam-se os resultados obtidos e deduzem-se algumas das leis que regem o fenómeno. É um método que deu as suas provas, mas não é o único. O alquimista repete a sua manipulação sem a menor alteração, até que qualquer coisa de extraordinário se produza.

No fundo, acredita numa lei natural bastante comparável ao “princípio de exclusão” formulado pelo físico Pauli, amigo de Jung. Para Pauli, num dado sistema (o átomo e as suas moléculas), não podem existir duas partículas (electrões, protões, mesões) no mesmo estado. Tudo é único na natureza: “a vossa alma não tem outra semelhante…” É por isso que se passa bruscamente, sem intermediário, do hidrogénio ao hélio, do hélio ao lítio e assim indefinidamente, como o indica, para o físico nuclear, a Tabela Periódica dos Elementos. Quando se junta uma partícula a um sistema, essa partícula não pode tomar nenhum dos estados existentes no interior desse sistema. Toma um novo estado e a combinação com as partículas já existentes cria um sistema novo e único.

Para o alquimista, da mesma forma que não existem duas almas semelhantes, dois seres semelhantes, duas plantas semelhantes (Pauli diria: dois electrões semelhantes), não há duas experiências semelhantes. Se se repetir milhares de vezes uma experiência, qualquer coisa de extraordinário acabará por se produzir. Não somos bastante competentes para lhe dar ou não
razão. Contentamo-nos em observar que uma ciência moderna, a ciência dos raios cósmicos, adoptou um método comparável ao do alquimista. Essa ciência estuda os fenómenos causados pelo aparecimento, num aparelho de detecção ou sobre uma chapa, de partículas com energia formidável, vindas de estrelas. Estes fenómenos não podem ser obtidos segundo a nossa vontade. É preciso esperar. Por vezes regista-se um fenómeno extraordinário. Foi assim que no Verão de 1957, no decorrer das
investigações feitas nos Estados Unidos pelo professor Bruno Rossi, uma partícula animada de uma energia formidável, jamais registada até ali, e vinda talvez de outra galáxia sem ser a nossa Via Láctea, impressionou 1500 calculadores ao mesmo tempo num raio de oito quilómetros quadrados, provocando, à sua passagem, um feixe enorme de destroços atómicos. Não é possível imaginar qualquer máquina capaz de produzir tal energia. Nenhum sábio tinha conhecimento de que jamais se tivesse produzido semelhante acontecimento e ignora-se se voltará a repetir-se. É também um acontecimento excepcional, de origem terrestre ou cósmica, e capaz de influenciar o seu crisol, que parece aguardar o nosso alquimista. Talvez ele pudesse abreviar a sua expectativa utilizando processos mais activos do que o fogo, aquecendo por exemplo, o crisol num forno de indução pelo método de levitação, ou ainda juntando isótopos radioactivos à sua mistura. Ele poderia então fazer e refazer a sua manipulação, não várias vezes por semana, mas milhares de vezes por segundo multiplicando desta forma as probabilidades de captar “o acontecimento” necessário ao bom êxito da experiência. Mas o alquimista actual, como o de ontem, trabalha em segredo, pobremente, e considera a expectativa uma virtude.

Prossigamos a nossa descrição: ao fim de vários anos de um trabalho sempre igual, de dia e de noite, o nosso alquimista acaba por deduzir que a primeira fase terminou. Junta então um oxidante à sua mistura: o nitrato de potássio, por exemplo. Há enxofre no crisol, proveniente da pirite, e carvão proveniente do ácido orgânico. Enxofre, carvão e nitrato: foi durante essa manipulação que os antigos alquimistas descobriram a pólvora.

Ele vai recomeçar a dissolver, depois a calcinar, sem descanso, durante meses e anos, na expectativa de um sinal. Sobre a natureza desse sinal, as obras alquímicas diferem, mas é talvez porque há vários fenómenos possíveis. Esse fenómeno produz-se no momento de uma dissolução[1]. Para certos alquimistas, trata-se da formação de cristais em forma de estrelas à superfície do banho. Para outros, uma camada de óxido surge à superfície desse banho, depois abre-se, deixando a descoberto o metal luminoso no qual parecem reflectir-se, em imagem reduzida, ora a Via Láctea, ora as constelações.[2]

Depois de receber este sinal, o alquimista retira a sua mistura do crisol e “deixa-a amadurecer”, ao abrigo do ar e da humidade, até ao primeiro dia da próxima Primavera. Quando retomar as operações, estas visarão aquilo a que se chama, nos velhos textos, “a preparação das trevas”. Recentes investigações sobre a história da química demonstraram que o monge alemão Berthold Le Noir (Berthold Schwarz), a quem vulgarmente se atribui a invenção da pólvora no Ocidente, nunca existiu. É uma figura simbólica desta “preparação das trevas”.

A mistura é colocada num recipiente transparente, em cristal de rocha, fechado de forma especial. Há poucas indicações a respeito dessa fechadura, chamada fechadura de Hermes, ou hermética. Dali em diante o trabalho consiste em aquecer o recipiente doseando, com uma infinita delicadeza, as temperaturas. No recipiente fechado, a mistura contém sempre enxofre, carvão e nitrato. Trata-se de elevar essa mistura a um certo grau de incandescência, evitando no entanto a explosão. São numerosos os casos de alquimistas gravemente queimados ou mortos. As explosões que se produzem são de particular violência e exalam temperaturas para as quais não estávamos logicamente preparados.

O fim em vista é a obtenção, no recipiente, de uma “essência”, de um “fluido”, a que os alquimistas por vezes chamam “a asa de corvo”.

Sejamos mais claros. Esta operação não tem equivalente na física e química modernas. No entanto, não deixa de ter analogias. Quando se dissolve no gás amoníaco líquido um metal como o cobre, obtém-se uma coloração azul-escuro que passa ao negro nas grandes concentrações. Produz-se o mesmo fenómeno se se dissolver no gás amoníaco liquidificado hidrogénio sob pressão ou amidas orgânicas, de forma a obter o composto instável NH4, que tem todas as propriedades de um metal alcalino e que, por esse motivo, foi chamado “amónio”. Há razões para crer que essa coloração azul-negro, que faz pensar na “asa de corvo” do fluido obtido pelos alquimistas, é justamente a cor do gás electrónico. O que é o “gás electrónico”? É para os sábios modernos, o conjunto de electrões livres que constituem um metal e lhe asseguram as propriedades mecânicas, eléctricas e térmicas. Ele corresponde, na terminologia actual, ao que o alquimista chama “a alma” ou ainda “a essência” dos metais. É essa alma ou essa “essência” que se liberta no recipiente hermeticamente fechado e pacientemente aquecido do alquimista.

Ele aquece, deixa arrefecer, aquece de novo, e isto durante meses ou anos, observando através do cristal de rocha a formação daquilo a que também se chama “o ovo alquímico”: a mistura transformada em fluido azul-negro. Abre finalmente o seu recipiente na obscuridade, apenas sob a claridade dessa espécie de líquido fluorescente. Em contacto com o ar, esse líquido fluorescente solidifica-se e separa-se.

Obterá desta forma substâncias completamente novas, desconhecidas na natureza e com todas as propriedades dos elementos químicos puros, quer dizer, inseparáveis pelos processos da química.

Os alquimistas modernos pretendem ter obtido desta forma elementos químicos novos, e isto em quantidades consideráveis. Fulcanelli teria extraído de um quilo de ferro vinte gramas de um corpo completamente novo, cujas propriedades químicas e físicas não correspondem a qualquer elemento químico conhecido. Seria aplicável a mesma operação a todos os elementos, cuja maior parte daria dois elementos novos por cada elemento tratado.

Tal afirmação é de molde a chocar o homem de laboratório. Actualmente, a teoria não permite prever outras separações além das seguintes:

– A molécula de um elemento pode alcançar vários estados: Oto-hidrogénio e para-hidrogénio, por exemplo.

– O núcleo de um elemento pode tomar um certo número de estados isotópicos caracterizados por um número de neutrões diferentes. No lítio 6 o núcleo contém três neutrões e no lítio 7 contém quatro.

Os nossos técnicos, para separar os diversos estados alotrópicos da molécula e os diversos estados isotópicos do núcleo,
exigem para isso um enorme material.

Os processos do alquimista são, em comparação, irrisórios, e ele alcançaria, não uma mudança de estado da matéria, mas a criação de uma matéria nova, ou pelo menos uma decomposição e recomposição diferente da matéria. Todo o nosso conhecimento
do átomo e do núcleo se baseia no modelo “saturniano” de Nagasoka e Rutheford: o núcleo e o seu anel de electrões. Não é impossível que, no futuro, outra teoria nos leve a realizar mudanças de estados e separações de elementos químicos por enquanto inconcebíveis.

Portanto, o nosso alquimista abriu o seu recipiente de cristal de rocha e obteve, por meio do arrefecimento do líquido fluorescente em contacto com o ar, um ou vários elementos novos. Restam as escórias. Essas escórias, vai ele lavá-las durante meses em água tridestilada. Depois manterá essa água ao abrigo da luz e das variações de temperatura.

Essa água teria propriedades químicas e medicinais extraordinárias. É o dissolvente universal e o elixir de longa vida tradicional, o elixir de Fausto[3].

Aqui, a tradição alquímica parece de acordo com a ciência de vanguarda. De facto, para a ciência ultramoderna, a água é uma mistura extremamente complexa e reagente. Os investigadores debruçados sobre a questão dos oligoelementos, especialmente o doutor Jacques Ménétrier, constataram que, praticamente, todos os metais eram solúveis na água em presença de certos catalisadores, como a glucose, e sob determinadas variações de temperatura. Além disso, a água formaria verdadeiros compostos químicos, hidratos, com gases inertes tais como o hélio e o árgon. Se se soubesse qual o constituinte da água responsável pela formação dos hidratos em contacto com um gás inerte, seria possível estimular o poder solvente da água e portanto obter um verdadeiro dissolvente universal. A revista russa Saber e Força, incontestavelmente séria escrevia no seu número 11, de 1957, que talvez um dia se obtivesse esse resultado bombardeando a água com radiações nucleares e que o dissolvente universal dos alquimistas seria uma realidade antes do final do século. E essa revista previa um certo número de aplicações, imaginava a abertura de túneis por meio de um jacto de água activada.

O nosso alquimista, portanto, encontra-se agora de posse de um certo número de corpos simples desconhecidos na natureza e de alguns frascos de uma água alquímica susceptível de lhe prolongar consideravelmente a vida, através do rejuvenescimento
dos tecidos.

Agora vai tentar combinar novamente os elementos simples que obteve. Mistura-os no seu almofariz e derrete-os a baixas temperaturas, na presença de catalisadores a respeito dos quais os textos são muito vagos. Quanto mais se avança no estudo das manipulações alquímicas, mais os textos são difíceis de compreender. Aquele trabalho irá ocupá-lo ainda durante alguns anos.

Afirmam que, desta forma, ele obteria substâncias absolutamente semelhantes aos metais conhecidos, e em especial aos metais bons condutores do calor e da electricidade. Seriam estes o cobre alquímico, a prata alquímica, o ouro alquímico. Os testes clássicos e a espectroscopia não permitiriam verificar a novidade dessas substâncias, e no entanto elas possuiriam propriedades novas, diferentes das dos metais conhecidos, e muito surpreendentes.

Se as informações que temos são exactas, o cobre alquímico, aparentemente semelhante ão cobre conhecido e no entanto muito diferente, teria uma resistência eléctrica infinitamente fraca, comparável à dos supercondutores que o físico obtém nas proximidades do zero absoluto. Este cobre, se pudesse ser utilizado, revolucionaria a electroquímica.

Outras substâncias, resultantes da manipulação alquímica, seriam mais surpreendentes ainda. Uma delas seria solúvel no vidro, a baixa temperatura e antes do momento da fusão deste. Essa substância, ao tocar o vidro ligeiramente amolecido, dispersar-se-ia no interior, dando-lhe um colorido vermelho-rubi, com fluorescência lilás na escuridão. É ao pó obtido pela trituração desse vidro, modificado no almofariz de ágata, que os textos alquímicos chamam o “pó de projecção” ou “pedra filosofal”. “Com isso, escreve Bernard, conde da Marche Trévisane, no seu tratado filosófico, se termina a elaboração dessa Pedra superior a todas as pedras preciosas, a qual é um tesouro infinito à glória de Deus que vive e reina eternamente”.

São conhecidas as maravilhosas lendas ligadas a essa pedra “pó de projecção” que seria susceptível de assegurar transmutações de metais em quantidades consideráveis. Transformaria, inclusivamente, certos metais vis em ouro, prata ou platina, mas tratar-se-ia então de um dos aspectos do seu poder. Seria uma espécie de reservatório de energia nuclear em suspensão, facilmente manejável.

Voltaremos em breve aos problemas que as manipulações do alquimista põem ao homem moderno esclarecido, mas detenhamo-nos exactamente onde se detêm os textos alquímicos. Eis a “grande obra” realizada. Produz-se no próprio alquimista uma transformação que esses textos evocam, mas que nós somos incapazes de descrever por não possuirmos a esse respeito mais do que umas poucas noções analógicas. Essa transformação seria como que a promessa, através de um ser privilegiado, daquilo que espera a humanidade inteira no termo do seu contacto inteligente com a Terra e os seus elementos: a sua fusão em Espírito, a sua concentração num ponto espiritual fixo e a sua união com outros centros de consciência através dos espaços cósmicos. Progressivamente, ou num súbito clarão, o alquimista, segundo a tradição, descobre o significado do seu longo trabalho. Os segredos da energia e da matéria são-lhe desvendados, e ao mesmo tempo tornam-se-lhe visíveis as infinitas perspectivas da vida. Ele possui a chave da mecânica do Universo. Ele próprio estabelece novas relações entre o seu espírito, dali em diante animado, e o espírito universal em eterno progresso de concentração. Serão certas radiações do pó de projecção responsáveis de uma transmutação do ser físico?

A manipulação do fogo e de certas substâncias permite, portanto, não só transmutar os elementos, como ainda transformar o próprio investigador. Este, sob a influência das forças emitidas pelo crisol (quer dizer, das radiações emitidas por núcleos a sofrerem modificações de estrutura), entra noutro estado. Nele se operam mutações. A sua vida prolonga-se, a sua inteligência e as suas percepções atingem um nível superior. A existência de tais seres, biológica e psiquicamente novos, é um dos alicerces da tradição Rosa-Cruz. O alquimista passa a outro estado do ser. É elevado a outro grau da consciência. Tem a sensação de que só ele se encontra desperto e que todos os outros homens ainda dormem. Escapa ao vulgar humano e desaparece, como Mallory sobre o Everest, depois de ter tido o seu minuto de verdade.

“A Pedra filosofal representa desta forma o primeiro degrau susceptível de auxiliar o homem a elevar-se em direcção ao Absoluto. Para além começa o mistério. Aquém não há mistério, nem esoterismo, nem outras sombras excepto as que projectam os nossos desejos e sobretudo o nosso orgulho. Mas, como é mais fácil satisfazermo-nos de ideias e de palavras do que fazer qualquer coisa com as próprias mãos, com a nossa dor e a nossa fadiga, no silêncio e na solidão, é mais cómodo procurar um refúgio no pensamento chamado “puro”, do que batermo-nos corpo a corpo contra o peso e as trevas da matéria. A alquimia proíbe qualquer evasão deste género aos seus discípulos. Deixa-os frente a frente com o grande enigma. . . Apenas nos assegura que se lutarmos até ao fim para nos libertarmos da ignorância, a própria verdade lutará por nós e vencerá finalmente todas as coisas. Talvez comece então a VERDADEIRA metafísica.”

1 Este método consiste em suspender a mistura a derreter no vácuo, fora todo o contacto com uma superfície material, por meio de um campo magnético.

2 Funde-se então por meio de uma corrente de alta frequência. O semanário americano Life, em Janeiro de 1958, publicou lindíssimas fotografias de um forno deste género em acção. Jacques Bergier declara ter assistido a esse fenómeno.

3 O professor Ralph Milne Farley, senador dos Estados Unidos e professor de física moderna na Escola Militar de West Point, chamou a atenção para o facto de certos biologistas pensarem que o envelhecimento é devido à acumulação de água pesada no organismo. O elixir de longa vida dos alquimistas seria uma substância eliminando selectivamente a água pesada. Tais substâncias existem no vapor de água. Porque não existirão na água líquida tratada de certa maneira? Mas poderia uma descoberta desta natureza ser divulgada sem perigo? O professor Farley imagina uma sociedade secreta de imortais, ou quase-imortais, existindo desde há séculos e reproduzindo-se por cooptação. Uma sociedade destas, que não se meteria em política e não se imiscuiria de forma alguma nas questões dos homens, teria todas as probabilidades de passar despercebida. . .


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[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-alquimia-como-exemplo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-alquimia-como-exemplo/

Rastros Luminosos

Só vale a vida terrestre – pelo bem que fizermos…

Pelo rasto de luz que deixarmos após a partida…

Se entre o teu berço e esquife bocejar um vácuo hiante, uma treva estéril, não viveste – vegetaste apenas…

“Aqui jazem os restos mortais de fulano, que morreu – mas não viveu”…

Meu amigo, faze da tua vida um poema de fé – uma epopéia de amor…

Assinala tua passagem pela terra com uma esteira de amor e benquerença…

São tantos os males – não os aumentes com tua chegada…

São tantas as dores – não as intensifiques com tua aspereza…

Ilumina a zona da tua presença com grandes idéias e belos ideais…

Por que extinguir essas lâmpadas que, incertas, bruxuleiam?

Por que quebrar de todo a cana fendida?

Por que apagar a mecha fumegante?

Fala às alma sem luz das luzes eternas…

Aponta às almas tristes as alturas de Deus…

Não olhes, como o chorão, para a terra – que um ente querido tragou…

Verdade nas palavras, sinceridade nas intenções, bondade nos atos, indulgência no juízo, fidelidade nas promessas, serenidade na dor, castidade contigo, caridade com todos – margeia destas luzes tua vida e a vida dos outros…

Ninguém é infeliz em hora noturna – quando sabe que à noite sucede sorridente alvorada…

Faze transbordar nas almas o excesso da tua plenitude.

Transfunde nos homens a abundância da tua luz.

Comunica ao mundo a beatitude de que Deus te encheu.

Fixa a estrela polar da vontade divina – e dirige tua nau por trevas e procelas…

Mão firme no leme! – serena confiança na alma!…

Tua calma acalmará os companheiros da travessia…

Se, algum dia, desalento te invadir o coração – dize-o ao Deus eterno, e não a creaturas efêmeras!

Se lágrimas rebeldes romperem as represas – chora a sós com o Onipotente, e não com seres impotentes.

Se dúvida atroz te oprimir o espírito – pede luzes ao Sapiente, e não aos insipientes.

Vive assim como desejarias ter vivido quando a morte teu corpo ceifar…

Erige nas almas dos pósteros um monumento de amor – um obelisco de fé…

Fonte:

Huberto Rohden, De Alma para Alma: Martin Claret, 2011. pg. 55.

#poesia #Rohden #Universalismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/rastros-luminosos

Fernando Pessoa e a Filosofia Hermética

A filosofia hermética assume-se como uma das facetas mais importantes do pensamento de Fernando Pessoa. Se é verdade que é na obra poética que se dá a grande realização de Fernando Pessoa, não é menos verdade que a contínua reflexão filosófica e religiosa, é uma faceta igualmente importante que convém revelar.

Em certos poemas de Alexander Search, o heterónimo juvenil, revela-se já o interesse pelo ocultismo.

O ocultismo é precisamente uma das chaves da pluralidade de que ele se reclama.

“Todos os que pensam ocultistamente criam em absoluto todo um sistema do Universo, que fica sendo real. Ainda que se contradigam: há vários sistemas do universo, todos eles reais”. (Textos Filosóficos I).

Um dos seus projectos de conto, arquivado no espólio, tem precisamente por título O Filósofo Hermético. Aqui define o oculto “como o interno, a outra face das coisas”, e diz ainda que o oculto “significa o que não é presente, o que não é actual… o que já passou, o que virá a ser e também o que é, mas nós não o conhecemos”.

A criação literária é para Fernando Pessoa, uma das faces do mistério iniciático. Mistério que se encontra subjacente na Mensagem, na heteronímia, no diálogo entre os vários poetas.

A iniciação única e sempre a mesma, que se encontra no pensamento filosófico, como na actividade literária é a do desdobramento que na criação se verifica desde o primeiro ser. Desdobramento, multiplicação, que depois de assumidos e esgotados permitem a unidade pela transcendência.

Em Essay of Initiation ele identifica transcendência com a fusão de toda a poesia lírica, épica e dramática: “O meu destino pertence a outra lei…”, escreve numa carta a Ofélia.

A perfeição, para os gnósticos supõe a androginia, o regresso ao estado de pureza original do Eden.

A energia sexual deve ser canalizada para outros tipos de actividades. No poema Eros e Psique (1934) apontará uma via e uma revelação (com uma epígrafe tirada do Ritual do Grande Mestre do Átrio da Ordem Templária de Portugal).

Este gnosticismo, explica talvez parte da dificilmente explicável filosofia de Pessoa, que é hermética, mas numa multiplicidade de sentidos, apenas comparáveis aos múltiplos da heteronímia.

Explica também a recusa do casamento e a ausência da mulher na sua obra. “Sentir tudo de todas as maneiras” é um elo bem explícito, entre a filosofia hermética e a prática dos heterónimos, a maneira que tem de se entregar à multiplicidade até chegar à unidade, ao não-diferenciado.

A visão do mundo do poeta é altamente sincrética. A busca, como a iniciação, diz respeito a três ordens de coisas – 1- A verdadeira natureza da alma humana, da vida e da morte; 2- A verdadeira maneira de entrar em contacto com as forças secretas da natureza e manipulá-las; 3- A verdadeira natureza de Deus ou dos Deuses e da criação do mundo (Esp. 54-97).

Fernando Pessoa revela-se venerador de um Deus-Mundo, de um Deus-Homem e um Deus-Deus-Reflexo do Espírito Santo, do Filho e de Si Mesmo “manifestação de si mesmo a si mesmo, hermafrodita espírito-matéria”, segundo diz num apontamento sobre a Kabala (Esp. 54 A-20).

Assim, o simultaneismo da heteronimia é, um verdadeiro exercício espiritual não confessado: “Organiza a tua vida como uma obra literária, pondo nela toda a unidade que fôr possível” (Esp. 28-43).

A Ordem do Subsolo organiza-se à volta de um projecto, a criação de uma ordem interior “Ordem da Emoção”, com os seus graus próprios. Os textos apresentados não passam de fragmentos ou projectos semi-alinhavados de ensaios que o poeta não chegou a acabar.

Faz a distinção entre “Ordem Interna” e “Ordem Externa”, estabelecendo esquemas e correspondências entre duas ordens.

Faz também alusão a uma ordem de ciência ou de sabedoria que é a da emoção: “Há três ordens de scª: a da vontade, a da inteligência, a da emoção. A intuição é a inteligência da emoção. Mas a emoção pura – eis a ciência”.

Mais adiante escreve: “O mistério (que é tudo) não é comprehensível se não há emoção. A inteligência não pode compreender o mistério”.

O Subsolo parece ser o esboço de uma estrutura simbólica servindo de suporte às ordens iniciáticas conhecidas, uma espécie de “assinatura”, de “fundamento” de todas as que o poeta procurasse organizar. Ordem simbólica, para o seu entendimento contribui o texto em que se indica a gradação dos vários sentidos dos símbolo, literal, alegórico, moral, espiritual e divino. Para concluir que “numa cadeia racional, tudo é um” (Esp. 54-91).

Encontramo-nos em plena filosofia hermética .

São vários os documentos em que Fernando Pessoa se ocupa da Ordem do Templo, de que se disse filiado, afirmando que ela se encontra em “dormência” desde 1888 (data do seu nascimento). Herdeira da Ordem do Templo, surge em Portugal a Ordem de Cristo, cujo ideário é o mesmo.

No “documento 54 A-29 do Espólio, Fernando Pessoa refere-se ao celebrado Pymandro de Hermes: O que está em baixo é como o que está em cima. Por esta citação se estabelece o elo (que ele deseja ser relacional, mas que não precisa de o ser, quando se trata do oculto) do Subsolo ao Átrio.

Pessoa diz que a organização das chamadas Baixas Ordens copia “guardadas as diferenças obrigatórias” a organização das Altas Ordens.

As Ordens do Átrio iniciam por meio de símbolos as Ordens do Claustro, superiores às primeiras, por meio de chaves herméticas, e as Ordens do Templo “iniciam plenariamente – isto é, dizendo e explicando os mystérios” (Esp. 54 A-95).

Ao adepto são pedidas várias vitórias: a vitória sobre o Mundo, a vitória sobre a Carne, a vitória sobre o Diabo (Esp. 53-59/60). Mas no fim do caminho, descobre que “terá o que sempre teve”, isto é, que nada lhe é dado exteriormente que ele já não possua primeiro interiormente.

Este é o sentido místico de toda a iniciação. Dá-se “no Ego Íntimo” (Esp. 53-78), em quem morrer o mundo, a carne, o diabo (a tentação de ambos) e que ressurge para uma vida nova, esclarecida, iluminada.

Para Pessoa “a vida é uma symbolologia confusa” (Esp. 53 B-79) e nada deve ser tomado como definitivamente conhecido. Existe sempre o perigo do erro e da ilusão.

Desenvolve ainda a ideia de que a iniciação tem a ver com alma, sendo “uma espécie de nova região por onde a alma se transforma” (Esp. 53 B-83).

Os graus de inciação representam estados de conhecimento que são simultaneamente estados de vida. Quando se consegue esta união de verdade, o inferior liga-se ao superior, ou seja, o inferior revela-se o superior, pois tudo é um.

A maçonaria é para Fernando Pessoa, “uma vida”, mais do que uma sociedade ou uma Ordem. O objectivo final que se pretende atingir é, na sua opinião, a sabedoria e não um Grau. Entendido pela intuição (que é a inteligência da emoção, como ele diz), o significado dos símbolos ritualmente recebidos, o adepto transforma-se em filósofo.

Ao filósofo ele aconselha como regra o silêncio, o estudo e o trabalho. E que organize a sua vida “como uma obra literária pondo nela a maior unidade possível” (Esp. 28-43).

Diz contudo que “o significado real da iniciação é, para este mundo em que vivemos um símbolo e uma sombra, que esta vida que conhecemos pelos sentido é uma morte e um sono, ou, por outras palavras, que o que vemos é uma ilusão” (Esp. 54 A-55). A iniciação é o dispersar desa ilusão.

Confia-se sobretudo no estudo e na intuição. A intuição é reveladora de conteúdos profundos e espirituais. Permite “a união com deus” de que se fala (Esp. 54 A-63).

Aquele que procura iniciar-se torna-se adepto da Ordem Interior, despido de preconceitos dogmáticos. Dos três caminhos à escolha poderá seguir o místico, o mágico e gnóstico (no entanto, a verdadeira iniciação inclui os três).

Os graus também são três: Neófito, Adepto, Mestre, ou melhor, são dez: quatro em Neófito, três em Adepto e três em Mestre. O Neófito é essencialmente um estudioso. No Adepto há o progresso da unificação do conhecimento com a vida. No Mestre há a destruição desta unidade por via de uma unidade mais alta. (Esp. 54 B-17)

Diz ainda Pessoa que escrever poesia é o objectivo da iniciação. O grau de Neófito será a aquisição dos elementos culturais com que o poeta terá de lidar ao escrever poesia; o grau de Adepto será o de escrever simples poesia lírica; o grau e Mestre será o de escrever poesia épica, poesia dramática; e a fusão de toda a poesia, lírica, épica e dramática, em algo de superior que as transcenda (Esp. 54 B-18).

Fernando Pessoa encontra na poesia hermética uma via para o instruir sobre a natureza do homem (e da arte, como sua mais elevada dimensão), a natureza do Universo e Deus.

Alcança deste modo uma forma de sabedoria, em que, segundo as palavras do livro do Desassossego, resta a literatura, que é a única verdade, com o pensamento, que é afinal a única maneira de conhecer e sentir, em que a escrita (a sua obra literária) é a grande revelação.

Fonte: http://www.ufp.pt/ – Universidade Fernando Pessoa – Portugal

#Arte

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As Fadas e o Amor

Por Cassandra Eason

(Nota do Tradutor: O nome “Fadas” (em inglês: Faeries, Faery, Faes, etc.) neste e em outros textos designa os seres feéricos de modo geral, tanto masculinos quanto femininos).

A tradição do reino das fadas tem, como o mundo dos humanos, tradicionalmente focado no amor – tanto contos de amantes de fadas quanto de seres feéricos que se apaixonaram por mortais e às vezes tentaram mantê-los para sempre em seus reinos de fadas. Essas histórias, sejam percebidas como pura sabedoria ou usadas como uma maneira de explicar ocorrências mortais passadas, contam histórias de amor verdadeiro, de fadas sedutoras, de brigas de amantes e muito mais.

Talvez a história de amor feérica mais trágica seja a da história celta de Cliodna do Cabelo Dourado. A filha de Manannan mac Lir, que governava o mar, Cliodna tinha a fama de ser a mulher mais bonita do mundo em forma mortal. Ela amava tanto o jovem mortal Ciabhan que deixou o reino das fadas para viver com ele. No entanto, enquanto Ciabhan estava caçando, o pai de Cliodna enviou um menestrel feérico para encantá-la; ela foi levada de volta à terra das fadas em um sono mágico. Ela ainda é vista à beira-mar, seja como uma enorme onda ou uma ave marinha, em busca de seu amor perdido; diz-se que ela ajuda os amantes mortais separados a se reunirem.

Abaixo estão dois métodos de invocar Cliodna se você deseja se reunir com um amor separado.

•       Dê um nome ao seu amor perdido enquanto segura conchas iguais, encontradas na praia ou em um lago, amarradas com algas marinhas ou ervas secas. Lance suas conchas na nona onda enquanto ela se move para a costa. Chame o nome do seu amor perdido nove vezes.

•       Se você estiver sem litoral, improvise com cristais de água-marinha correspondentes lançados em qualquer corpo de água corrente. Conte nove antes de jogar os cristais juntos na água. Chame o nome do seu amor perdido nove vezes.

Os Casamentos das Fadas:

Alguns contos de noivas fadas que se casaram com mortais parecem ter comprovação terrena.

As Gwragedd Annwn são lindas, galesas, mulheres fadas de cabelos louros, do mesmo tamanho que os humanos, vivendo em palácios subaquáticos em lagos próximos às Montanhas Negras. Essas donzelas do lago, de vez em quando – de acordo com o folclore da região – tomaram maridos humanos, embora raramente ficassem com eles. Algumas famílias locais ainda reivindicam herança feérica.

Uma Dama do Lago em Llyn y Fan Fach é, no entanto, considerada a fada ancestral de uma linha ininterrupta de curandeiros e médicos galeses. Ainda mais incomum, essa lenda das fadas pode ser datada. Por volta de 1230, os registros contam que um jovem fazendeiro viu três belas mulheres dançando na praia. A mais bela concordou em ser sua esposa e seu pai, o rei das fadas do lago, veio de debaixo do lago para conceder um dote de gado de fadas. No entanto, o rei das fadas impôs uma série de condições para que sua filha ficasse com seu marido mortal. Uma condição era que ela nunca deveria ser tocada com ferro, outra que ela não deveria ir à igreja, e uma terceira que se seu marido a batesse três vezes ela e seu dote retornariam ao lago.

O casal teve três filhos, mas o fazendeiro quebrou sua barganha batendo em sua esposa fada três vezes (embora de acordo com contadores de folclore menos esclarecidos, o pobre marido apenas bateu levemente na fada e por boas razões). Uma barganha feérica sendo uma barganha feérica, lá se foram o gado e a donzela feérica, embora ela tenha retornado para ensinar a seus filhos o conhecimento de ervas e cura. Eles se tornaram os médicos de Myddfai, curandeiros dos reis galeses. Quando morreram, deixaram um tratado médico, cujas cópias existem até hoje. Acredito que haja um no Museu do Castelo de Cardiff.

As Noivas em Faeryland (A Terra das Fadas):

Mulheres mortais que se casaram ou foram abduzidas por fadas parecem ter tido um destino ainda menos feliz.

Uma mulher no dia ou na noite de seu casamento era, segundo o mito celta, considerada um grande prêmio pelas fadas, pois ainda era virgem, mas no auge da fertilidade. Por esta razão, até os tempos medievais, uma mulher era acompanhada à igreja por damas de honra vestidas de forma idêntica, de modo que as fadas que observavam não poderiam identificar a verdadeira noiva.

Algumas dessas abduções de fadas podem ter uma explicação menos etérea. Em partes da Europa durante a Idade Média, o senhor local da mansão foi oficialmente autorizado a usar as noivas de seus servos na noite de núpcias. O estupro cometido por ricos proprietários de terras e seus filhos era uma ameaça real para as mulheres do campo, mesmo na época vitoriana, especialmente entre os servos das grandes casas. Pode ser que a história de um retorno tradicional da noiva sequestrada das fadas depois de um ano e um dia dando à luz um bebê de vários meses fosse uma maneira aceitável para um marido camponês não parecer traído pelo escudeiro, se a infeliz noiva se tornasse grávida durante este rapto. Uma noiva despojada pode ter sido colocada em um asilo distante durante a gravidez, com o conluio do marido ou do pai no caso de uma moça solteira.

Uma típica história de abdução de noivas transformada em balada era a de Colin, um escocês, cuja esposa foi levada pelas fadas. Sua esposa, dizia-se, voltava invisível todos os dias para ordenhar as vacas e fazer as tarefas; apenas seu canto podia ser ouvido. Em outras versões ela retorna depois de um ano e um dia com um bebê. Colin estava mantendo sua noiva trancada porque descobriu na noite de núpcias que ela estava grávida de outra pessoa, embora por estupro? Ou ela era realmente uma noiva das fadas?

Algumas abduções de fadas tiveram consequências mais sérias. Uma esposa que consistentemente produziu meninos doentes que não sobreviveram ou filhos femininos para um homem que precisava desesperadamente de um herdeiro, pode desaparecer de repente; a explicação oficial e muitas vezes inquestionável de seu desaparecimento era que ela foi levada para sempre pelas fadas. Ainda há partes do mundo onde o valor de uma mulher, exceto como portadora de filhos, é baixo; este é um lembrete de que não tem sido de outra forma na sociedade ocidentalizada também.

Bridget Cleary:

Registros de séculos passados ​​são obviamente escassos, e o rapto de fadas como desculpa para assassinato ou espancamento de esposas pode parecer pura especulação. Dito isso, sabemos que em Tipperary, na Irlanda, em 1895, uma mulher chamada Bridget Cleary foi torturada e queimada até a morte por seu marido Michael. Ele alegou que sua esposa havia sido roubada pelas fadas e fora substituída por uma changeling (uma pessoa-réplica encantada da sua esposa). Michael insistiu que, destruindo a forma encantada de sua esposa, a verdadeira Bridget retornaria em um cavalo branco à meia-noite. Sete de seus vizinhos e parentes, incluindo o pai e a tia de Bridget, estavam envolvidos e mais tarde condenados pelo crime. Cem anos depois, Angela Bourke, professora do University College de Dublin e autora de The Burning of Bridget Cleary (A Queima de Bridget Cleary), afirmou que o caso demonstrava o choque entre duas visões de mundo diferentes, duas formas de lidar com pessoas problemáticas, duas formas de explicar o irracional, em um momento de profunda mudança social, econômica e cultural.

O crime de Bridget Cleary foi que ela era econômica e socialmente independente por seus próprios esforços, e não por nascimento. Presumivelmente, se o caso ficasse impune, sua morte teria sido muito lucrativa para o marido e a família, que herdariam seu dinheiro.

As Tentadoras Rainhas das Fadas:

À medida que as deusas foram rebaixadas a fadas, algumas adquiriram o papel de sedutoras e sequestradoras de machos inocentes. Na Escócia, os mitos falam do Bean chaol a chot uaine’s na gruaige buidhe, “A mulher esbelta com túnica verde e cabelos amarelos” – uma rainha das fadas que tinha a habilidade de transformar água em vinho tinto e tecer os fios das aranhas em tartan. A fada tentadora, tocando sua flauta mágica de junco, atrairia os jovens para sua colina de fadas. A menos que eles deixassem um pedaço de ferro sobre o lintel da entrada, eles seriam forçados a dançar e servir o prazer da rainha das fadas até que ela se cansasse deles e os mandasse para casa. Diz-se que esses jovens descobririam que, embora parecesse que apenas uma noite havia se passado no reino das fadas, décadas poderiam ter se passado no mundo mortal e a namorada leiteira de rosto fresco a quem ele jurou sua fidelidade eterna era agora uma avó envelhecida.

O mais famoso abduzido do sexo masculino que parece ter realmente ganho com sua visita ao reino das fadas foi Thomas the Rhymer, cuja balada ainda é tocada em clubes folclóricos com conexões celtas. O verdadeiro Thomas era Thomas de Earlston (Erceldoune), um poeta do século XIII que alegou ter conhecido a Rainha de Elfland (Terra dos Elfos) sob uma árvore mágica de sabugueiro. Em troca de um beijo, ele conta como foi forçado a ir para a terra das fadas com ela, embora outras versões sugiram que Thomas estava mais do que disposto a ser seduzido. Em alguns relatos, a rainha se torna uma bruxa feia e o ritual de acasalamento da juventude com a antiga deusa anciã ocorreu para manter o ciclo das estações e garantir a fertilidade da terra. Thomas permaneceu na terra das fadas por sete anos, embora fossem apenas três dias no tempo das fadas. Ele foi recompensado com os dons da poesia, profecia e uma harpa mágica.

Argumentou-se nos últimos anos que Thomas foi de fato iniciado em um culto de bruxas local e que suas visões da terra das fadas eram xamânicas.

Uma Fuga das Fadas:

Nem todos os cativos estavam tão dispostos quanto Thomas, nem a rainha das fadas tão disposta a se separar de seu amante mortal. Um dos contos mais famosos, registrado pelo poeta escocês Robert Burns, bem como vários outros poetas, é o de Tam Lin, um cavaleiro escocês que caiu de seu cavalo e foi capturado pela Rainha das Fadas. Ela o amarrou com magia e o colocou para guardar uma das entradas para o mundo dos humanos no poço de Carteraugh, perto das fronteiras da Escócia.

As jovens donzelas foram avisadas para não beber no poço, pois cada vez que o fizessem e colhiam uma das rosas que o penduravam, Tam Lin aparecia e exigia que a garota lhe desse um manto verde ou oferecesse sua virgindade.

Uma jovem ousada, Janet, decidiu ver se o mito era verdade e arrancou uma rosa do poço. Ela e Tam Lin se apaixonaram, e ele queria escapar do Reino das Fadas para se casar com Janet.

A noite seguinte era o Halloween, e Tam Lin explicou que havia uma oportunidade que só ocorria a cada sete anos para ele escapar. O Passeio das Fadas aconteceria, quando então as fadas se mudassem para seus aposentos de inverno (em algumas versões vistas como o inferno). A tropa de fadas teve que cavalgar ao longo da estrada. Tam Lin disse a Janet para esperá-lo na encruzilhada à meia-noite e segurá-lo, qualquer que fosse a forma que tomasse.

Enquanto Tam Lin cavalgava na procissão das fadas, Janet o puxou de seu cavalo e o segurou firme. Assim como ele havia avisado Janet, a Rainha das Fadas transformou Tam Lin primeiro em uma salamandra, depois em uma cobra, um tigre, um urso e, finalmente, em metal em brasa. Janet segurou firme e, quando ele se tornou metal derretido, ela o mergulhou no poço mágico.

O feitiço foi quebrado. Tam Lin emergiu da água em forma humana, e ele e Janet logo se casaram.

As Brigas Conjugais das Fadas:

Os casamentos das fadas eram frequentemente tão turbulentos quanto os terrestres.

Titânia é mais famosa na literatura como a esposa de Oberon, rei das fadas, em Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare. Nesta peça, ela é retratada como petulante, disposta a deixar as estações irem à ruína enquanto persegue sua vingança contra Oberon, que retaliou fazendo-a se apaixonar por um camponês com cabeça de burro.

Titânia era, antes de ser cristianizada e rebaixada (como muitas deusas pagãs) ao status de fada, conhecida como Themis, a antiga deusa titã grega da justiça e da ordem, e a mãe dos destinos e das estações.

Finvarra ou Fin Bheara, que governava as fadas do oeste da Irlanda, era o marido aparentemente dedicado da rainha Oonagh. Oonagh foi descrito no verdadeiro estilo vitoriano por Lady Wilde, que coletou relatos do folclore das fadas na Irlanda, como tendo cabelos dourados caindo no chão, vestidos com teias de prata brilhando como se fossem diamantes, que na verdade eram gotas de orvalho.

Apesar da beleza etérea de sua esposa, Finvarra era obcecado por mulheres mortais que, dominadas pela música do reino das fadas, foram levadas para viver lá com ele para sempre. Ele também foi dito ter uma segunda rainha, Nuala. Oonagh, sem surpresa, não estava dando boas-vindas às donzelas mortais da corte das fadas.

Outras donzelas seduzidas pela música de Finvarra dançaram a noite toda com ele e pela manhã, encontraram-se em uma colina de fadas, possuindo conhecimento de poções de amor e de magia – e às vezes uma gravidez de fadas.

Feitiço dos Desejos do Amor das Fadas:

1.      Encontre uma árvore das fadas: um espinheiro, ancião, freixo, salgueiro ou carvalho, ou no hemisfério sul, um eucalipto, árvore do chá, acácia dourada ou a manuka espessa.

2.      Sente-se embaixo ou perto de seus galhos em uma noite de lua cheia durante a semana da lua cheia.

3.      O melhor de tudo é a noite de lua cheia. Olhe para cima para a lua e sinta as energias positivas do cosmos e da mãe lua, associadas ao amor fiel e à fertilidade, fluindo para você.

4.      Observe o filtro da luz da lua através das folhas e faça padrões, e você pode estar ciente das energias vivas e em movimento dentro dos galhos e folhas.

5.      Toque o tronco da árvore com as mãos e deixe a força vital do espírito da árvore fluir para dentro de você, para que você possa sentir as energias pulsantes de sua essência como uma leve eletricidade.

6.      De pé e ainda tocando a árvore, pressione os pés em direção às raízes, permitindo que a mãe Terra lhe ofereça sua fertilidade e o poder para que você encontre ou viva com o companheiro certo para sempre.

7.      Agora estenda os braços para cima e atraia para dentro a força e a cura das folhas manchadas de lua.

8.      Afaste-se da árvore e, mantendo a lua à vista, gire a árvore nove vezes no sentido horário (em sentido horário) em círculos cada vez menores, deixando seus pés guiá-lo. Os nove círculos de poder são um antigo dispositivo mágico, e se você estiver agora dentro do anel mais interno, alcançando apenas o tronco com as pontas dos dedos, poderá momentaneamente fazer contato com o espírito da árvore.

9.      Peça à essência dentro da árvore, da terra e da mãe da lua para abençoar seu amor ou para trazer a você a pessoa que o fará feliz. Você também pode pedir fertilidade se estiver tentando conceber uma criança.

10.     Passe um pouco mais observando o filtro do luar através das folhas e amplificando as energias das árvores.

11.     Enterre um brinco de prata ou nove moedas prateadas, o metal da mãe lua, sob as raízes como sinal de agradecimento; sussurre o nome do seu amor ou chame no ar aquele que vai te fazer feliz por te encontrar.

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Fonte:

Faeries and Love, by Cassandra Eason.

https://www.llewellyn.com/journal/article/2353

COPYRIGHT (2013) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/as-fadas-e-o-amor/

Breve conversa com uma das nereidas

Um conto sobre as almas e suas máscaras…

“Ora, faz o que bem quiser” – diz-me Lídia sempre que venho propor mais uma de nossas conversas a beira de seu lago. Não é sempre que consigo achá-la em casa, pois sua morada é distante – alguns séculos no passado – e somente podemos chegar até lá nos raros momentos em que há esta distinta paz na alma. Lídia é bela e gosta de conversar sobre tudo, menos sobre a acusação de que ela e as irmãs exigiram um sacrifício…

“Há de ser toda a Lei: que não fiquem inventando mitos sobre nós! Deixem-nos cuidar das águas, cuidem de sobreviver que nós cuidamos de viver” – é quando ela fala isso que consigo sentir que, apesar de meio-deusa, ela é ainda tão mortal quanto nós. Dizem que a linguagem é sempre uma ficção, e que nada que pode ser descrito por palavras corresponde à realidade. Ora, mas isso é óbvio, me surpreende que as pessoas creiam que mitos tratem da realidade em que sobrevivemos – não, eles tratam de heterônimos, de máscaras para as almas.

Pessoa também foi amigo de Lídia, mas se despediu lá pelo passado e não pôde mais se defender nem se explicar… Dizem que inventou tantos heterônimos que ele próprio era um desconhecido de si mesmo, uma mitologia feita pessoa. Dizem que tudo o que há de real em Pessoa é sua poesia, e isso basta. Ora, mas ele fica muito agradecido, só não entende como podem ter vasculhado toda sua obra e ter convenientemente esquecido de publicar exatamente à parte em que ele fala de si mesmo. Pessoa vivia uma vida oculta, apenas isso – “está tudo lá explicado” – ele dizia a Lídia…

A linguagem trata sempre de dois mundos, o transitório e exposto, e o oculto e permanente. O mundo oculto não possuí movimento algum, apenas essência, e por isso empresta seus mitos ao mundo transitório, onde cada grão se move e vibra em turbilhão, onde absolutamente tudo está catapultado rumo a imensidão. Todos os heterônimos de Pessoa falavam sobre isso, e eram todos mitos de um homem só, de uma só essência… Depois que se compreende, é simples.

Mas eu sempre trago a questão das disputas religiosas e anti-religiosas para Lídia. E ela sempre me diz mais ou menos assim: “deixem que se digladiem pelos seus espantalhos de mitos, nós aqui não temos nada a ver com isso… No fim, tudo se resume a questão da sobrevivência sobre a vivência. São como símios que precisam impor-se ante seu pequeno grupo, mas ocorre que ninguém poderá jamais domar o pensamento alheio; ao menos não o pensamento que se encontra livre, do tipo que ainda consegue enxergar a essência por detrás de todas essas máscaras…”

“O amor, o amor é o que importa, o que nos une a todos em uma teia de luz” – ela geralmente completa… E são nesses momentos que percebo que sua beleza não está na superfície, na menina de seus olhos, mas bem mais aprofundada, como pequenos cristais de calcário capazes de refletir ao Sol mesmo lá debaixo, por dentre todo o lodo de seu lago.

Eu tenho visitado e conhecido esses mitos, essas almas… Tudo o que há são almas – algumas puras em sua ignorância, outras que se comprazem na própria ignorância e insistem em caminhar em círculos; ainda outras que sofreram já o suficiente, deixando o rastro de seu sangue em diversos espinhos da floresta. E existem as bem-aventuradas, que evitam espinhos e sangue, e chegam tão mais depressa na margem do lago das nereidas.

O amor sob a vontade, a vida sobre a sobrevivência, o dar sobre o receber, o buscar sobre o encontrar, a máscara sob a alma – “não, não é necessária mais essa máscara, agora você já pode nos ver como sempre temos lhe visto” – este é mais ou menos o caminho que leva a casa de Lídia. Tenho passado boas temporadas por lá…

raph’10

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Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,

Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

(trecho de poema de Ricardo Reis)

***

Nota: No meu conto eu faço um paralelo entre Lídia e o mito das nereidas, mas não tenho certeza se Pessoa tinha tal intenção. Em todo caso, não existe nenhuma nereida chamada Lídia, mas existe uma que se chama Ligea – há uma proximidade entre ambos os nomes.

Crédito da foto: Bernd Vogel/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/breve-conversa-com-uma-das-nereidas

Podcast Mayhem – 05 – Vikings, Runas e Mitologia Nórdica

Neste episódio, Frater Qos, Rodrigo Grola, Cussa Mitre e Marcelo Del Debbio conversam sobre Mitologia Nórdica, tradições Vikings, Origens e usos das Runas, poesias das Edas e a cristianização dos fragmentos da mitologia; um pouquinho sobre os principais Deuses Nórdicos e muito mais.

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