A Iniciação ao Primeiro Grau da Bruxaria

Formalmente a iniciação de primeiro grau torna-a uma bruxa(o) comum. Mas é claro que é um pouco mais complicado que isso.

Como todos os bruxos experientes, existem algumas pessoas que são bruxas (ou bruxos) de nascimento muitas vezes podem tê-lo sido desde uma encarnação passada. Uma boa Sumo-Sacerdotisa ou Sumo-Sacerdote costuma detectá-las. Iniciar um destes bruxos não é “fazer uma bruxa”; é muito mais um gesto bi-direccional de identificação e reconhecimento e claro, um Ritual de boas-vindas de uma mais-valia de peso ao Coventículo.

No outro extremo, existem os que são mais lentos ou menos aptos muitas vezes boas pessoas, sinceras e trabalhadoras que o iniciador sabe que têm um longo longo caminho a percorrer, e provavelmente muitos obstáculos e condições adversas a ultrapassar, antes de se poderem chamar verdadeiros bruxos. Mas mesmo para estes, a Iniciação não é um mero formalismo, se o iniciador conhecer a sua Arte. Pode dar-lhes uma sensação de integração, um sentimento que um importante marco foi ultrapassado; e apenas por lhes atribuir a qualidade de candidato, (apesar de não parecer terem qualquer dom), o direito de se auto-denominarem bruxos, encoraja-os a trabalhar arduamente para merecerem esta qualidade. E alguns menos aptos podem tomá-lo de surpresa com uma aceleração súbita no seu desenvolvimento após a iniciação; então saberão que a iniciação resultou.

No meio, encontra-se a maioria; os candidatos de potencial médio e forte capacidade de evolução que, se apercebem de uma forma mais ou menos clara que a Wicca é o caminho que têm procurado e porquê, mas que ainda estão no início da exploração das suas capacidades. Para estes, uma Iniciação bem conduzida pode ser uma experiência poderosa e incentivante, um genuíno salto dialéctico no seu desenvolvimento psíquico e emocional. Um bom iniciador tudo fará para que isso aconteça.

Na verdade, o iniciador não está sozinho na sua tarefa (e não nos estamos apenas a referir ao apoio de algum companheiro ou dos outros membros do Coventículo). Uma Iniciação é um Ritual Mágico, que evoca poderes e deve ser conduzido com a confiança plena que esses poderes invocados se irão manifestar.

Toda a iniciação, em qualquer religião genuína, é uma morte e renascimento simbólicos, suportados de forma consciente. No Ritual Wicca este processo é simbolizado pela venda e amarração, o desafio, a provação aceite, a remoção final da venda e das amarras é a consagração de uma nova vida. O iniciador deve manter este objectivo claro na sua mente e concentrar-se nele, e o Ritual em si deve provocar a mesma sensação na mente do candidato.

Em séculos mais remotos a imagem de morte e ressurreição era sem dúvida ainda mais notória e explícita e provavelmente desenrolava-se ainda com muito menos palavras. A famosa bruxa de Sheffield, Patricia Crowther, refere até que ponto ela teve esta experiência durante a sua Iniciação por Gerald Gardner. O Ritual era Gardneriano normal, basicamente da mesma forma que o descrevemos nesta secção, mas antes do Juramento, Gardner ajoelhou-se ao seu lado e meditou durante um bocado. Patricia enquanto esperava entrou subitamente em transe (que veio a descobrir mais tarde ter durado 40 minutos) ao que parece recordou uma reencarnação passada. Ela viu-se a ser transportada por um grupo de mulheres nuas numa procissão de archotes que se dirigia para uma caverna. Elas saíram, deixando-a aterrorizada no meio da escuridão absoluta. Gradualmente conquistou o seu medo, acalmou e no devido tempo as mulheres voltaram. Ficaram em linha com as pernas abertas e ordenaram-lhe que passasse, amarrada como estava, através de um túnel de pernas que se assemelhavam a uma vagina, enquanto que as mulheres uivavam e gritavam como se tivessem a ter um filho. Enquanto ela passava, foi puxada pelos pés e as amarras foram cortadas. A líder encarando-a “ofereceu-me os seus seios, simbolizando que me iria proteger como ela o faria aos seus próprios filhos. O corte das amarras simbolizava o corte do cordão umbilical”. Ela teve que beijar os seios que lhe foram oferecidos, tendo sido depois salpicada com água ao mesmo tempo que lhe diziam que tinha renascido no sacerdócio dos Mistérios da Lua.

Gardner comentou, quando ela voltou à consciência: “durante muito tempo eu tive a ideia que se costumava fazer algo como aquilo que tinhas descrito e agora sei que não estava longe da verdade. Deve ter acontecido há séculos atrás, muito antes dos rituais verbais terem sido adoptados pela Arte.”

A morte e o renascimento com todos os seus terrores e promessas, dificilmente poderia ser muito dramatizado; e temos a sensação que a recordação de Patricia era genuína. Ela obviamente é uma bruxa nata de há muito tempo atrás.

Mas vamos retornar ao Ritual Gardneriano. Para este efeito não tínhamos apenas três textos mas quatro; somados aos textos A, B e C (ver pág. 3?) existe a obra de Gardner denominada High Magic’s Aid. Esta obra foi publicada em 1941, antes da cessação da lei Witchcraft Acts na Inglaterra e, antes dos seus livros Witchcraft Today (1954) e The Meaning of Witchcraft (1959). Neste, Gardner revelou pela primeira vez em ficção algum do material que tinha aprendido com o seu Coventículo. No Capítulo XVII a bruxa Morven faz o herói Jan atravessar a sua iniciação do 1º Grau e o Ritual é descrito em detalhe. Pensamos que essa descrição foi muito útil para a clarificação de um ou dois pontos obscuros, por exemplo, a ordem de “os pés nem estarem amarrados nem livres”, que conhecíamos da nossa própria Iniciação Alexandrina, mas suspeitávamos estar deslocada. (5).

O Ritual de 1º Grau, provavelmente foi alterado pelo menos à data em que o Livro das Sombras, atingiu a fase do texto C. Isto acontece porque de entre o material incompleto na posse do Coventículo de New Forest teria sido naturalmente a parte que sobreviveu mais completa na sua forma original. Gerald Gardner não teria necessidade de preencher as falhas com material Crowleiano ou outro material não wiccano e desta forma Doreen Valiente não teve que sugerir o tipo de transcrição que era necessário “por exemplo para o da energia exortação”.

Na prática wiccana, um homem é sempre iniciado por uma mulher e uma mulher por um homem. E apenas uma bruxa de 2º ou 3º Grau pode conduzir uma Iniciação. Existe uma excepção especial a cada destas regras.

A primeira excepção, uma mulher pode iniciar a sua filha ou um homem o seu filho, “porque são parte deles”. Alex Sanders ensinou-nos que isto poderia ser feito numa emergência, mas o Livro das Sombras de Gardner não apresenta esta restrição.

A outra excepção, refere-se a única situação em que uma bruxa(o) de 1º Grau (e uma totalmente nova), pode iniciar outra. A Wicca põe grande ênfase na parceria de trabalho homem/mulher e muitos Coventículos ficam deliciados quando um casal avança para a Iniciação juntos. Um método muito agradável de levar a cabo uma dupla Iniciação como esta, é exemplificado pelo caso de Patricia e Arnold Crowther (que na altura ainda eram casados) por Gerald Gardner.

Gardner, começou por Iniciar Patricia enquanto Arnold esperava fora do quarto, então ele pôs o Livro das Sombras nas mãos dela incitando-a enquanto ela própria iniciava Arnold. “Esta é a forma que sempre foi feita”, disse-lhe Gardner mas temos que admitir que esta forma era desconhecida para nós até lermos o livro de Patricia.

Gostamos desta fórmula; cria uma ligação especial, no sentido wiccano da palavra, entre os dois Iniciados desde o princípio no trabalho do Coventículo. Doreen Valiente confirmou-nos que esta era a prática frequente de Gardner, e acrescenta: “De outra forma, no entanto, mantinhamos a regra que apenas um bruxo de 2º ou 3º Grau poderia fazer uma Iniciação”.

Gostavamos de mencionar aqui duas diferenças “para além dos pequenos pontos que se notam no texto”, entre o Ritual de Iniciação Alexandrino e o Gardneriano, este último temos tomado como modelo. Não mencionámos estas diferenças com algum espírito sectário todos os Coventículos vão e devem fazer o que sentem melhor para eles mas apenas para registar qual é qual e expressar as nossas próprias preferências, aquelas que nos servem de modelo.

Primeiro, o método de trazer o Postulante para o Círculo. Na tradição Gardneriana ele é empurrado para o Círculo, por trás; depois da declaração do Iniciador, “Eu dou-te uma terceira para passares através desta Porta do Mistério”, ele apenas acrescenta de forma misteriosa “dá-lhe”.

O livro High Magic’s Aid é mais específico: “Abraçando-o por trás com o seu braço esquerdo à volta da cintura e põe o braço direito dele à volta do seu pescoço e vira-se para ela e diz: “Eu dou-te a terceira senha; “Um beijo”. Ao dizer isso, ela empurra-o com o seu corpo através da porta para dentro do Círculo. Uma vez lá dentro ela liberta-o, segredando: “Esta é a forma que todos são trazidos pela primeira vez para o Círculo” (High Magic’s Aid, pág. 292).

É claro que, o acto de pôr o braço direito do Iniciador à volta do pescoço não é possível se os pulsos destes estiverem amarrados; e rodar a sua cabeça com a sua mão para o beijar sobre o ombro, é quase impossível se ele for muito mais alto que ela. Esta é a razão por que sugerimos que ela o beije antes de passar por detrás dele. É o acto de empurrar por trás que é a tradição essencial; por certo que o Coventículo de Gardner sempre o fez.

“Penso que a intenção original era ser uma espécie de teste”, diz-nos Patricia, “porque alguém podia perguntar, como no High Magic’s Aid, quem te trouxe para um Círculo?” a resposta era “Eles trouxeram-me por trás”.

A prática Alexandrina era segurar os ombros do iniciado à sua frente, beijá-lo e então puxá-lo para dentro do Círculo, rodando-o em sentido deosil. Esta foi a forma como fomos os dois Iniciados e não nos sentimos pior por isso.

Mas não vemos nenhuma razão, agora, para partir da tradição original especialmente porque ela tem um interesse histórico inerente; por isso, viramo-nos para o método Gardneriano.

Quando Stewart visitou o Museu das Bruxas na Ilha de Man em 1972 (à data aos cuidados de Monique Wilson, a quem Gardner deixou a sua colecção insubstituível que ela mais tarde de forma imperdoável vendeu à América), Monique disse-lhe que como não tinha sido empurrado por trás para dentro do Círculo na sua Iniciação, “nenhuma verdadeira bruxa se associaria a ele”. Então ela ofereceu-se para o iniciar “da forma devida”. O Stewart agradeceu-lhe educadamente mas declinou o convite. As precauções e os formalismos poderiam ter um fundamento válido nos tempos das perseguições; insistir no assunto agora é mero sectarismo.

O segundo maior afastamento Alexandrino da Tradição reside no acto de tirar as medidas. Os Coventículos Gardnerianos retém a medida; os Alexandrinos da Tradição devolvem-nas ao Postulante.

No Ritual Alexandrino, a medida é tirada com um fio vermelho de linho, não composto, apenas da coroa aos calcanhares, omitindo as medidas da cabeça, peito e ancas. O Iniciador diz: “Agora vamos tirar-te as medidas e medimos-te da coroa da tua cabeça até às solas dos teus pés. Nos tempos antigos, quando ao tirarem a tua medida também retiravam amostras do cabelo e unhas do teu corpo. O Coventículo guardaria então a medida e as amostras e se tentasses sair do Coventículo trabalhariam com eles para te trazer de volta e nunca mais de lá sairias. Mas como vieste para o nosso Círculo com duas expressões perfeitas, Amor Perfeito e Confiança Perfeita, devolvemos-te a medida, e ordenamos-te que a uses no teu braço esquerdo”.

A medida é atada à volta do braço esquerdo do Postulante até ao fim do Ritual, depois do qual, poderá fazer aquilo que entender com ela. A maior parte dos Iniciados destroem-nos, outros guardam-nos como recordação, outros põe-nos em medalhões e dão-nos de presentes aos seus companheiros de trabalho.

O simbolismo do “Amor e Confiança” no costume Alexandrino é claro, e alguns Coventículos podem preferi-lo. Mas sentimos que há ainda mais a dizer acerca do Coventículo guardar a medida, não como chantagem, mas como uma lembrança simbólica da nova responsabilidade do Iniciado perante o Coventículo. De outra forma não parece fazer sentido algum tirá-la.

Doreen diz-nos: “A ideia de devolver a medida é, na minha opinião, uma inovação de Sanders. Na tradição de Gerald, era sempre retida pelo Iniciador. Nunca, no entanto, existia alguma intenção que a medida fosse utilizada na forma chantagista descrita no Ritual Alexandrino. Ao invés, se alguém quisesse sair do Coventículo, eram livres de o fazer, desde que respeitassem da confiança dos outros membros e mantivessem os Segredos. Afinal de contas, qual é a lógica de manter alguém no Coventículo contra a sua vontade? As suas más vibrações só estragariam tudo. Mas nos tempos antigos a medida era usada contra qualquer pessoa que deliberada e maliciosamente traísse os Segredos. Gerald disse-me que “a medida era então enterrada num local lamacento, com a maldição de que apodrecesse, assim como o traidor”. Lembrem-se, traição naqueles tempos era uma questão de vida ou de morte literalmente!”

Sublinhamos de novo perspectivas das diferenças em detalhe, podem ser fortemente mantidas, mas no final é a decisão do Coventículo que interessa quanto a uma forma particular, ou até em encontrar uma forma própria. A validade de uma Iniciação não depende nunca dos pormenores. Depende apenas, da sinceridade e efectividade psíquica, espiritual do Coventículo, e da sinceridade e potencial psíquico do Iniciado. É como diz a Deusa na Exortação: “E aquele que pensa em procurar-me, saiba que procurar apenas e ter compaixão não o ajudará, a menos que conheça o Segredo: que aquilo que não procure e não encontre dentro dele, então nunca o encontrará sem ele. Para verem, eu tenho estado contigo desde o Início; E Eu sou aquilo que se alcança no fim do desejo”.

Dar importância demasiado aos pormenores tem sido, infelizmente, a doença de muitas doutrinas cristãs, incluindo aquelas que tinham as suas origens na beleza; os bruxos não devem cair na mesma armadilha. Somos tentados a dizer que as doutrinas deviam ser escritas por poetas e não por teólogos.

Uma palavra para os nomes Cernunnos e Aradia, os nomes de Deuses usados no Livro das Sombras de Gardner. Aradia, foi adoptada dos bruxos da Toscânia (ver o livro de Charles G. Leland, Aradia, O Evangelho do Bruxos); sobre as suas possíveis ligações celtas, ver o nosso livro Oito Sabbats para Bruxas, p. 84. Cernunnos (ou como lhe chama Jean Markale no seu Mulheres Celtas, Cerunnos) é o nome dado pelos arqueólogos ao Deus Cornudo celta, porque não obstante terem sido encontradas muitas representações deste, em todo o lado desde o Caldeirão Gundestrop até ao monte Tara (ver fotografia 10), apenas uma destas tem um nome inscrito um baixo relevo encontrado em 1710 na Igreja de Notre Dame em Paris, que se encontra agora no Museu de Cluny na mesma cidade. O sufixo “-os”sugere ter sido uma helenização de um nome celta; os druidas são conhecidos por serem familiares com o grego e terem usado este alfabeto para as suas transacções em assuntos vulgares, apesar neste caso as letras actuais serem romanas. Note-se também que o grego para “corno” é (Keras). Doreen Valiente sugere (e concordamos com ela) era na verdade Herne (como em Herne o Caçador, do Windsor Great Park). “Alguma vez ouviram o choro de um Veado (Fallow deer) no cio?” pergunta ela. “Ouvirão sempre durante o cio outonal do Veado na New Forest, e soa exactamente como “HERR-NN… Herr-rr-nn…” repetido vezes sem conta. É um som emocionante e nunca o esqueceremos. Agora, das pinturas rupestres em grutas e estátuas que encontramos dele, Cernunnos era eminentemente um Deus-Veado. Então como é que os mortais o denominaram melhor? Certamente pelo som que da forma mais intensa lembra um dos grandes Veados da Floresta”.

Para cada um deles podemos acrescentar que o intercâmbio dos sons “h” e “k” é sugerido pelos nomes de lugares como Abbas em Donset, local do famoso Gigante de Hillside. Existe um número razoável de lugares denominados Herne Hill em Inglaterra, bem como duas Herne Villages, uma Herne Bay, uma Herne Drove, uma Hernebridge, uma Herne Armour, uma Herne Pound, e por aí fora. Herne Hill é algumas vezes explicado como significando “Monte da Garça” mas, como Doreen explica, as garças procriam junto aos rios e lagos e não em montes; “parece mais provável para mim que Herne Hill era sagrado para o Velho Deus”.

No Livro Alexandrino das Sombras, o nome é “Karnayna” mas esta forma não surge em mais nenhum local, que quer eu quer a Doreen tenhamos visto. Ela pensa que “é provavelmente não concerteza uma confusão auditiva com Cernunnos. O nome actual pode ter sido omitido no livro de onde Alex copiou, e ele teve que se apoiar numa recordação verbal de alguém”. (conhecendo o Alex, diriamos “quase de certeza”!)

No texto que se segue, o Iniciador pode ser a Sumo-Sacerdotisa ou o Sumo-Sacerdote, dependendo se o Iniciado for homem ou mulher; assim, referimo-nos ao Iniciador como “ela” por uma questão de simplicidade, e ao “Postulante” (mais tarde “Iniciado”) como “ele” apesar de poder ser ao contrário, obviamente. O companheiro de trabalho do Iniciador, quer seja Sumo-Sacerdotisa ou o Sumo-Sacerdote, tem certamente também deveres a desempenhar, e é referido como o “Companheiro”.

A Preparação

Tudo é preparado como para um Círculo normal, com os itens adicionais seguintes também preparados:

  • Uma venda;
  • Uma distância de fio ou corda fina (pelo menos 2,50m);
  • Óleo de unção;
  • Um pequeno sino de mão;
  • Três comprimentos de corda vermelha: uma com 2,75m e duas com 1,45m.

Também é usual, mas não essencial, que o Postulante traga o seu próprio novo Athame, e corda vermelha, branca e azul para serem consagradas imediatamente após a sua Iniciação(1). Devem dizer-lhe, logo que saiba que vai ser Iniciado, que tem de adquirir qualquer faca de cabo preto com que se identifique. A maior parte das pessoas compra um punhal com bainha vulgar (a bainha é útil, para transportá-lo de e para o local de encontro) e pintam o cabo de preto (se já não for, claro). Pode não haver tempo para ele gravar os Símbolos tradicionais no cabo (ver Secção XXIV) antes de ser consagrado; isto pode ser feito mais tarde nos tempos livres. Alguns bruxos nunca chegam a inscrever quaisquer Símbolos, preferindo a Tradição alternativa, que diz que os instrumentos de trabalho não devem ser identificáveis como tal para algum estranho(2); ou porque o padrão do cabo do punhal escolhido não permite gravações. (O Athame do Stewart, agora com 12 anos, tem os Símbolos inscritos; o de Janet, com a mesma idade mas com um cabo com padrão, não tem; e temos outro Athame feito à mão por um artesão amigo que tem um cabo de pé de Veado que obviamente não dá para gravar). Sugerimos que as lâminas dos Athames sejam cegas, uma vez que nunca são usadas para cortar seja o que for mas são usadas para gestos rituais no que pode ser um Círculo apertado e populoso:

As três cordas que o iniciado tem que trazer devem ter 2,75m de comprimento cada. Gostamos de evitar que as pontes das cordas se desfaçam usando fita ou atando-as com fio da mesma cor. No entanto, Doreen diz: “Atamos nós às pontas para evitar que se soltem e a medida essencial calcula-se de nó em nó.”

Também se lhe deve dizer para levar a sua própria garrafa de vinho tinto até para lhe dar a entender logo de princípio que as despesas de comida e bebida para o Coventículo, quer seja vinho para o Círculo ou alguma comida para antes ou depois do Círculo, não devem cair inteiramente para a Sumo-Sacerdotisa ou o Sumo-Sacerdote!

Quanto aos itens adicionais listados em cima qualquer lenço servirá para utilizar como venda, mas deve ser opaco. E a escolha do óleo de unção cabe à Sumo-Sacerdotisa; o Coventículo de Gardner usava sempre Azeite virgem. O costume Alexandrino diz que o óleo deveria incluir um toque do suor da Sumo-Sacerdotisa e do Sumo-Sacerdote.

O Ritual

Antes do Círculo ser fechado, o Postulante é posto fora do Círculo a Nordeste, vendado e amarrado, por bruxos do sexo oposto. O acto de atar é feito com as três cordas vermelhas(3) – uma com 2,75m e as outras duas com 1,45m. A corda maior é dobrada ao meio para os pulsos serem amarrados juntos atrás das costas e as duas pontas são trazidas para a frente por cima dos ombros e atadas em frente ao pescoço, com as pontas caídas a formar uma pega por onde o Postulante pode ser dirigido(4). Uma corda pequena é atada no tornozelo direito e a outra por cima do joelho esquerdo cada uma com as pontas bem escondidas para que o não magoem. Enquanto se estiver a corda no tornozelo, o Iniciador diz:

“Pés nem presos nem livres.”(5)

O Círculo está agora aberto, e o Ritual de Abertura procede como normalmente, exceptuando o “Portão” a Nordeste que não está ainda fechado e o exortação não ter sido dita. Depois do Atrair a Lua(6), o Iniciador dá a Cruz Cabalística(7), como se segue: “Ateh” (tocando na testa), “Malkuth” (tocando no peito), “ve-Geburah” (tocando no ombro direito), “ve-Gedulah” (tocando o ombro esquerdo), “le-olam” (apertando as mãos à altura do peito).

Depois das Runas das Feiticeiras, o Iniciador vai buscar a Espada (ou Athame) ao Altar. Ela e o Companheiro encaram o Postulante.

Então eles declamam o exortação (ver apêndice B, pp. 297-8).

O Iniciador então diz:

“Ó tu que estás na fronteira entre o agradável mundo dos homens e os Domínios Misteriosos do Senhor dos Espaços, tens tu a coragem de fazer o teste?”

O Iniciador coloca a ponta da Espada (ou Athame) contra o coração do Postulante e continua:

“Porque digo verdadeiramente, é melhor que avances na minha lâmina e pereças, que tentes com medo no teu coração.”

O Postulante responde:

“Tenho duas Senhas. Perfeito Amor e Perfeita Confiança”(8).

O Iniciador diz:

“Todos os que assim estão são duplamente bem-vindos. Eu dou-te uma terceira para passares através desta misteriosa Porta”.

O Iniciador entrega a Espada (ou Athame) ao seu Companheiro, beija o Postulante e passa para trás dele. Abraçando-o por detrás, empurra-o para a frente, com o seu próprio corpo, para dentro do Círculo. O seu Companheiro fecha ritualmente a “porta” com a Espada (ou Athame), que depois recoloca no Altar.

O Iniciador leva o Postulante aos pontos cardeais em volta e diz:

“Tomai nota, ó Senhores do Este[Sul/Oeste/Norte] que_________está devidamente preparado(a) para ser iniciado(a) Sacerdote (Sacerdotisa) e Bruxo(a)”(9).

Então o Iniciador guia o Postulante para o centro do Círculo. Ele e o Coventículo circulam à sua volta em sentido deosil, cantando:

“Eko, Eko, Azarak,
Eko, Eko, Zomelak,
Eko, Eko, Cernunnos(10),
Eko, Eko, Aradia(10)”

Repetido sempre, enquanto empurram o Postulante para a frente e para trás entre eles, virando-o às vezes um pouco para o desorientar, até o Iniciador o mandar parar com um “Alto!”. O Companheiro toca o sino três vezes, enquanto o Iniciador vira o Postulante (que ainda está no centro) para o Altar.

O Iniciador então diz:

“Noutras religiões o Postulante ajoelha-se enquanto o Sacerdote o olha de cima. Mas na Arte Mágica somos ensinados a ser humildes, e ajoelhamo-nos para dar as boas-vindas e dizemos…”

O Iniciador ajoelha-se e dá o “Beijo Quíntuplo” ao Postulante, como se segue:

“Abençoados sejam os teus pés, que te trouxeram para estes caminhos” (beijando o pé direito e depois o esquerdo).

“Abençoados sejam os teus joelhos, que devem ajoelhar perante o Altar Sagrado” (beijando o joelho direito e depois o esquerdo).

“Abençoados sejam o teu falo (ventre) sem o qual não existiríamos” (beijando acima do pêlo púbico).

“Abençoado seja o teu peito, formado na força [seios, formados na beleza]” (11) (beijando o seio direito e depois o esquerdo).

“Abençoados sejam os teus lábios, que irão proferir os Nomes Sagrados” (abraçando-o e beijando-o nos lábios).

O Companheiro passa o comprimento de fio ao Iniciador, que diz:

“Agora vamos tirar a tua medida.”

O Iniciador, com ajuda de outro bruxo do mesmo sexo, estica o fio do chão aos pés do Postulante até ao alto da sua cabeça, e corta esta medida com a faca de cabo branco (que o seu Companheiro lhe traz). O Iniciador então mede-o uma vez à volta da cabeça e ata um nó para marcar a medida; outra (da mesma ponta) à volta do peito e ata outro nó a marcar; outra à volta das ancas atravessando os genitais e dá um nó.

Então retira a medida e pousa-a no altar.

O Iniciador pergunta ao Postulante:

“Antes de jurares a Arte, estás preparado para passar a provação e ser purificado?”

O Postulante responde:

“Estou.”

O Iniciador e outro bruxo do mesmo sexo ajudam o Postulante a ajoelhar-se, e curvar a sua cabeça e ombros para a frente. Eles soltam as pontas das cordas que atam os tornozelos e os joelhos juntos(12). O Iniciador vai então buscar o chicote ao Altar.

O Companheiro toca o sino três vezes e diz: “Três.”

O Iniciador dá três chicotadas leves ao Postulante.

O Companheiro diz: “Sete.” (Não volta a tocar o sino).

O Iniciador dá sete chicotadas leves ao Postulante.

O Companheiro diz: “Nove.”

O Iniciador dá nove chicotadas leves ao Postulante.

O Companheiro diz: “Vinte e Um.”

O Iniciador dá vinte e uma chicotadas leves ao Postulante (a vigésima primeira chicotada pode ser mais vigorosa, como lembrança que o Iniciador tem sido contido propositadamente.)

O Iniciador diz:

“Passaste o teste com valentia. Estás pronto a jurar que serás sempre verdadeiro com a Arte?”

O Postulante responde: “Estou.”

O Iniciador diz (frase a frase):

“Então repete comigo: “Eu,__________, na presença dos Todo Poderosos, de minha livre vontade e da forma mais solene juro manter sempre secreto e nunca revelar os segredos da Arte, excepto se for a uma pessoa adequada, devidamente preparada num Círculo como aquele em que eu estou agora; e nunca negarei os segredos a uma pessoa como esta se ele ou ela provarem ser um Irmão ou Irmã da Arte. Tudo isto eu juro pelas minhas esperanças numa vida futura, ciente que a minha medida foi tirada; e que as minhas armas se virem contra mim se eu quebrar este juramento solene.”

O Postulante repete cada frase depois do Iniciador.

O Iniciador e outro bruxo do mesmo sexo ajudam agora o Postulante a pôr-se de pé.

O Companheiro traz o óleo de unção e o cálice de vinho.

O Iniciador molha a ponta do dedo no óleo e diz:

“Eu por este meio te marco com o Sinal Triplo. Consagro-te com óleo.”

O Iniciador toca o Postulante com óleo logo acima do pêlo púbico, no seu seio direito, no seu seio esquerdo e outra vez acima do pêlo púbico, completando o triângulo invertido do 1.º Grau.

Depois molha a ponta do dedo no vinho, diz “Consagro-te com vinho” e toca-lhe nos mesmos locais com o vinho.

A seguir diz “Consagro-te com os meus lábios”, beija o Postulante nos mesmos locais e continua “Sacerdote (sacerdotisa) e Bruxo(a).”

O Iniciador e outro bruxo do mesmo sexo tiram-lhe a venda e desatam as cordas.

O Postulante é agora um bruxo iniciado, e o ritual é interrompido para cada membro do Coventículo lhe dar as boas-vindas e os parabéns. Quando acabarem, o ritual prossegue com a apresentação dos instrumentos de trabalho. À medida que cada instrumento é apresentado, o Iniciador trá-lo do Altar e dá-o ao Iniciado com um beijo. Outro bruxo do mesmo sexo do Iniciador aguarda, e à medida que se acaba a apresentação de cada instrumento este leva-o de volta ao Altar.

O Iniciador explica as ferramentas como se segue:

“Agora apresento-te os Instrumentos de Trabalho. Primeiro, a Espada Mágica. Com isto, como com o Athame, dás forma aos Círculos Mágicos, dominas, subjugas e punes todos os espíritos rebeldes e demónios, e podes até persuadir anjos e espíritos bons. Com isto na tua mão, lideras o Círculo.”

“A seguir apresento-te o Athame. Esta é a verdadeira arma do bruxo, e tem todos os poderes da Espada Mágica.”

“A seguir apresento-te a Faca de Cabo Branco. É usada para formar todos os instrumentos usados na Arte. Só pode ser usada num Círculo Mágico.”

“A seguir apresento-te a Varinha. A sua utilidade é chamar e controlar certos anjos e génios quando não seja apropriado o uso da Espada Mágica.”

“A seguir apresento-te o Cálice. Este é o receptáculo da Deusa, o Caldeirão de Cerridwen, o Santo Graal da Imortalidade. Neste bebemos em camaradagem, e em honra à Deusa.”(13)

“A seguir apresento-te o Pentáculo. Este tem o objectivo de chamar os espíritos apropriados.”

“A seguir apresento-te o Incensário. É usado para encorajar e dar as boas vindas aos espíritos bons e banir espíritos maus.”

“A seguir apresento-te o Chicote. É o símbolo do poder e do domínio. Também é purificador e iluminador. Por isso está escrito, “Para aprender deves sofrer e ser purificado”. Estás disposto a sofrer para aprender?”

O Iniciado responde: “Estou.”

O Iniciador continua: “A seguir e por fim apresento-te as Cordas. Elas são usadas para prender os Sigilos da Arte; também a base do material; e também são necessárias para o Juramento.”

O Iniciador diz: “Agora saúdo-te em nome de Aradia, novo Sacerdote(Sacerdotisa) e Bruxo(a)”, e beija o Iniciado.

Finalmente, conduz o Iniciado a cada um dos pontos cardeais em volta e diz: “Ouçam ó Todos Poderosos do Este [Sul/Oeste/Norte]; ___________foi consagrado Sacerdote (Sacerdotisa), Bruxo(a) e criança escondida da Deusa.”(14)

Se o Iniciado trouxe o seu novo Athame e/ou as Cordas, ele pode agora, como seu primeiro trabalho mágico, consagrá-los (ver Secção IV) com o Iniciador ou com a pessoa que irá ser o seu Companheiro de Trabalho, se já for conhecido, ou se (como no caso de Patricia e Arnold Crowther) eles foram iniciados na mesma ocasião.

Notas 

(1) Estas cordas são para trabalhar a ‘magia da corda’ e cada bruxa deve ter o seu próprio conjunto pessoal. (Não se deve confundir com a corda longa e duas curtas, mencionados na lista acima, que são usadas para atar o Postulante; sugerimos que coventículo deva manter um jogo destas cordas separadas das outras, para ser usado somente em iniciações). Um modo tradicional de usar uma corda de 2,74 m pode ser, de a atar em laço, pô-la sobre o athame espetado no solo, esticando o laço totalmente (1,36 m) e usa-lo como um compasso para desenhar o círculo mágico. Doreen diz: Este método era realizado antigamente em que os soalhos das casas era, constituídos de terra batida. penso que poderiam ter usado a faca branca ou giz para desenhar o círculo real, dependendo da superfície em que trabalhavam’.

(2) Uma das nossas bruxas, doméstica, que tivesse que realizar as suas práticas de uma forma secreta, tinha como athames, duas facas brancas entre o seu conjunto de cozinha, identificável somente por ela; o seu pentáculo era um determinado prato de prata no seu armário; e assim, por diante. Tal secretismo era necessário, nos dias de perseguição, e naturalmente a vassoura tradicional de bruxa num passe de mágica disfarçada num espanador.

(3) Na prática Alexandrina, utilizam-se somente duas cordas. Uma vermelha para a garganta e os pulsos e uma branca para um dos tornozelos. Ainda segundo Doreen: ‘As nossas cordas eram geralmente vermelhas, a cor da vida, tendo sido também usadas outras cores,como o verde, azul ou preto. Nenhum significado particular foi unido a esta cor, excepto ser uma cor da nossa preferência vermelho apesar de não ser fácil encontrar corda de seda de qualidade apropriada para o efeito.

(4) Isto assemelha-se a uma característica da iniciação Maçónica, apontando ao peito do Postulante.

(5) Dos textos de Gardner, isto aparece somente no Hight Magic’s Aid. O ritual Alexandrino usa-o, mas como uma regra.

(6) Drawing Down The Moon (Atrair a Lua) Se o Iniciador é o Sumo-Sacerdote, pode sentir ser uma altura apropriada para acrescentar o Drawing Down The Sun (ver Secção VI) ao Ritual tradicional.

(7) A Cruz Cabalística é pura prática da Aurora Dourada (ver Israel Regardie, The Golden Dawn, 3ª edição, vol. I, p. 106). Surge nos textos de Gardner, “mas na prática não me lembro de alguma vez termos feito isto” diz-nos Doreen. Incluímo-lo aqui para ficar mais completo, mas também não o usamos nas Iniciações; como muitos bruxos, usamos muitas vezes Magia Cabalística, mas sentimos que está fora do contexto em algo como tradicionalmente wiccano num Ritual de Iniciação. Malkuth, Geburah e Gedulah (de outra forma Chased) são obviamente Sephorith da Árvore da Vida, e a declaração Hebraica significa claramente “porque Teu é o Reino, e o Poder, e a Glória, para sempre” uma pista interessante de que Jesus conhecia a sua Cabala. Alguns cabalistas acreditam que foi este conhecimento, mesmo quando era rapaz, que espantou os doutores do Templo (Lucas II, 46-7).

(8) O High Magic’s Aid dá esta forma; o Texto B descreve “Perfeito Amor para a Deusa, Perfeita Confiança na Deusa”.Preferimos a forma mais curta, porque também significa Amor e Confiança para com o Coventículo, e pode ser citado e guradado como um modelo a manter.

(9) O High Magic’s Aid dá esta forma; o Texto B descreve “Ó Senhores Misteriosos e gentis Deusas”. Uma vez que os Guardiães das Torres de Vigia são os reconhecidos Guardiães dos Pontos Cardeais e foram invocados no ritual de fecho do Círculo, preferimos a forma do High Magic’s Aid. Aqui é utilizado o nome vulgar do Postulante, uma vez que só se toma um nome mágico a partir do Segundo Grau.

(10) Ou qualquer nome de Deus ou Deusa que o Coventículo use (ver os nossos comentárioa aos nomes Cernunnos e Aradia na p.14).

(11) Os textos de Gradner utilizam a mesma expressão para ambos os sexos: “peitos formados na beleza e força.” Doreen explica-nos: “Esta expressão era uma alusão ao corpo humano como uma forma de Árvore da Vida, com Gedulah de uma lado e Geburah do outro.” Preferimos “peitos, formados na beleza” para uma mulher e “peito, formado na força” para um homem; este identifica-se mais com o Beijo Quíntuplo como uma saudação à polaridade homem/mulher, e com o tom essencialmente Wiccano (em vez do Cabalístico) das outras quatro declarações.

(12) Noutro ponto (ver p.54) o Livro das Sombras diz que enquanto se ajoelha a ponta do fio deve estar presa ao Altar.

(13) Esta é a nossa própria contribuição para a lista de apresentações do Livro das Sombras: fazê-mo-lo pelas razões que damos na página 258.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-iniciacao-ao-primeiro-grau-da-bruxaria/

Teologia Matemática: A Religião do Futuro

Tanto a Religião quanto o Governo podem ser compreendidos como partes integrantes de um complexo conjunto de Tecnologias desenvolvidas para assegurar ou manter o Controle Social efetivo sobre os indivíduos, por estabelecerem sistemas de regras ou normas para a convivência em sociedade. Este foi justamente o argumento elaborado por dois dos maiores pensadores da Renascença, Galileu Galilei e Nicolau Maquiavel, para oporem-se à interferência e à ingerência das doutrinas defendidas pela Igreja Católica em seus respectivos campos de atuação intelectual, a Ciência e a Política. Naquela época a Igreja Católica exercia uma autoridade incontestável sobre todos os aspectos da vida cotidiana; a Bíblia era tida como um Livro Sagrado que continha verdades reveladas diretamente por Deus, cabendo aos sacerdotes dessa instituição o exclusivo privilégio de interpretá-lo, ainda que sob os auspícios e direcionamento do Papa; regente vitalício de inúmeras congregações cristãs que é escolhido em assembléia dentre e pelos membros de um colegiado de cardeais.

As doutrinas Aristotélicas haviam sido incorporadas à visão de mundo cristã alguns séculos antes em decorrência da obra de São Tomás de Aquino, substituindo o Platonismo vigente até então, sendo consideradas como Dogmas absolutamente inquestionáveis principalmente nos campos da Física e da Ética. Consequentemente, qualquer tentativa deliberada de  confrontá-las era punível com a sentença de morte nas fogueiras da Inquisição; o que constituía um obstáculo intransponível para que os avanços sociais e culturais necessários pudessem transcorrer livremente, condenando todas as pessoas que viveram durante aquela época (conhecida como Idade Média) a experimentarem um dos períodos históricos de maior estagnação e recrudescimento de suas condições e qualidade de vida, higiene e costumes. Ainda que estivesse certo sobre muitas coisas, Aristóteles(4) não era perfeito; suas conclusões e até mesmo observações sobre fenômenos físicos chegavam a ser ridiculamente constrangedoras! Por exemplo, ele acreditava por convicção (e subseqüentemente também as autoridades eclesiásticas que sucederam a Tomás de Aquino, por força da tradição) que objetos de diferentes pesos caiam a velocidades diferentes, ou ainda que a realidade fosse dividida em “dois mundos”; o sub-lunar (o nosso imperfeito e transitório) e o sobrenatural (um paraíso perfeito e imutável), acimae além da Lua. Galileu foi o homem que ousou combater essas crenças com a força dos fatos. Para atingir esse objetivo ele realizou experimentos na torre inclinada de Pisa, sua cidade natal, derrubando ao mesmo tempo objetos de diferentes pesos, submetendo-os ao campo gravitacional terrestre, provando experimentalmente que caiam ao chão na mesma velocidade; desse modo refutando magistralmente o pensamento Aristotélico e, por tabela (ainda que não intencionalmente), a autoridade da Igreja Católica sobre assuntos terrenos.

Ele foi também o primeiro a apontar um telescópio para os céus, encontrando evidências objetivas de uma gama de fenômenos inexplicáveis segundo os paradigmas vigentes até então, ao observar fases em Vênus, manchas solares, montanhas na Lua, satélites em Júpiter, cometas, meteoritos.

Em um curto espaço de duas semanas, o cosmos se descortinou perante os olhos atentos daquele ser humano, que encontrou então dentro de si o estímulo para desconsiderar quaisquer preocupações  com a sua autopreservação; a ponto de se sentir compelido a tentar mudar a posição do Papa em relação à validade das doutrinas de Aristóteles. Seu argumento: que a Ciência experimental, então conhecida como “Filosofia Natural”, deveria ser o único método acatado para nos direcionar às verdades sobre o mundo e que o propósito da Bíblia fosse reconhecido como o de, apenas, ensinar um dos caminhos como alcançar, neste mundo, o acesso ao “próximo”; a salvação. Em suas próprias palavras:

“Não seria talvez senão mais sábio e útil parecer não acrescentar à Escritura outros artigos sem necessidade, além dos concernentes à salvação e ao fundamento da Fé, contra cuja firmeza não há perigo algum de que possa surgir jamais doutrina válida e eficaz?”

Por essa ousadia, quase foi condenado a perecer nas chamas da Inquisição, como inclusive chegou a ocorrer com seu genial conterrâneo, o monge Giordano Bruno que, diferentemente de Galileu, se recusou a abjurar sua doutrina da Infinitude dos Mundos quando teve oportunidade. Ele havia concluído que o Sol é uma estrela como qualquer outra e, pelo mesmo raciocínio, que haveria incontáveis planetas habitáveis além deste, o que colocava a Igreja em uma situação problemática; afinal, como as autoridades eclesiásticas poderiam garantir que cada um desses planetas teria sido também, ou seria ainda, visitado por Jesus?

Na base do argumento de Galileu estava a tese de que a Igreja, a teologia, as crenças religiosas, formavam uma espécie de Tecnologia para o Controle Social fundamentada em componentes metafísicos ou abstratos e que, portanto,a Ciência e seu método, concebidos como a Tecnologia para a descoberta de padrões de recorrência das Leis matemáticas e universais da Natureza, deveriam possuir completa autonomia para realizar o objetivo a que se propunham. Novamente, em suas próprias palavras:

“A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que encontra- nossos continuamente se abre perante os nossos olhos (isto é, o Universo), que não se pode compreender antes de entender a conhecer língua e conhecer os caracteres com que está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências, e outras figuras sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto.”

Considerando a importância desse pensador nas Revoluções cientificas, políticas, sociais e culturais, que se seguiram desde então, analisarei neste contexto a Tecnologia de Controle Social supracitada, a Religião, me focando mais precisamente no modo como a evolução de nosso conhecimento científico altera suas estruturas e instituições; e vou sugerir um novo modelo para a Religião do Futuro…

A RELIGIÃO DO FUTURO

A Religião do futuro deverá ser universal, no seguinte sentido, independentemente de como e onde, por quem ou se, uma pessoa tenha sido educada, o conteúdo desse sistema de crenças deverá ser significativo; podendo ser assimilado naturalmente por ela sem que seja necessário recorrer à intimidação para convencê-la.

Também deverá ser plenamente compatível com o método científico, o que implica que deva ser indistinguível de uma boa “obra de ficção científica”; coerente com os paradigmas atuais da comunidade científica internacional (ainda que os extrapole circunstancialmente), para evitar um confronto direto entre sistemas de crenças válidas em diferentes campos de discurso (o factual e o metafísico). E deverá ser de livre interpretação, além de moral e eticamente neutra, para não interferir no modo como as pessoas decidem, coletivamente, levar as suas vidas em uma sociedade onde se dissemina um laicismo cada vez mais radical. Como afirmava o célebre Albert Einstein, de forma memorável e sem qualquer cerimônia ou traço de proselitismo:

“O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas queconsideram Deus um Ser de quem Deus castigo, esperam benignidade e do qual temem o castigo, com uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai, um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam. Mas o sábio, bem convencido, convencido, da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da em espantar- siar- extasiar Natureza, harmonia das Leis da Natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. dela, Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos.”

Deverá, além disso, ser também ser uma fonte inesgotável de discernimento, ainda que possua certo fator alienante, constituindo um refúgio da rotina altamente estressante da atualidade, dando origem a uma sensação de temporalidade e causalidade transcendentais quando  nos dedicamos a sua prática; e o único sistema de crenças que se qualifica, dentre todos os disponíveis, adequando-se firmemente a cada um desses critérios e requisitos fundamentais, em uma análise pormenorizada de nosso passado recente, é a Matemática! Em primeiro lugar faz-se necessário ressaltar que a Matemática não constitui uma disciplina científica; é, portanto, um sistema de crenças.

Sim, muitas pessoas erroneamente atribuem a ela o título de “Ciência dos Números”, mas isso é um equívoco compreensível. Segundo o critério de demarcação de Karl Popper, que é embasado na noção de falseabilidade, só podemos distinguir as teorias científicas daquelas que não possuem qualquer poder de previsão se as submetermos a testes de validação embasados em sua refutabilidade. Ou seja, algum conceito ou conjunto de idéias só leva legitimamente a designação de “Ciência” se tivermos como formular experiências, em lugares ou circunstâncias controladas, que as puderem refutar; tudo o mais não passa de pressuposições metafísicas a princípio desqualificáveis. Não vemos, no entanto, matemáticos seguindo procedimentos análogos.

Uma teoria matemática é demonstrada (assim permanecendo indefinidamente) tão somente pelo raciocínio; e, embora o método científico dependa largamente de teorias matemáticas para organizar, refletir e tentar explicar a estrutura intrínseca aos dados colhidos em experimentos, ainda assim ela não deve serconsiderada uma Ciência. Logo, ainda que estes conjuntos de Axiomas, possam ser tomados como as Escrituras Sagradas de uma Religião, está garantida sua total compatibilidade com a metodologia aplicada pelos cientistas.

A Matemática é também universal, não há uma Matemática para cada cultura ou agrupamento étnico em nosso planeta, muito pelo contrário, grupos culturais e étnicos possuem rigorosamente o mesmo pensamento matemático, ainda que estivessem isolados uns dos outros por milênios; como a população nativa do Continente Americano e os europeus, o quê é comprovado pela descoberta de geoglifos na Amazônia indistinguíveis dos polígonos descritos pelos gregos antigos e arquivados em pergaminhos de ensino matemático. O que mais pode haver, então, tão próximo a um ideal de VERDADE ABSOLUTA, do que a Matemática?

Existem até mesmo casos em que pessoas tiveram, simultaneamente, os mesmos insights em relação a um problema sem que tivessem jamais se encontrado, como constatam os relatos sobe a criação do Cálculo, infinitesimal e integral, por Leibniz e Newton ou as descobertas de Abel e Galois, causando várias confusões.

Mas a Matemática é inventada ou desvendada, existindo antes de vir à cabeça de alguém, independentemente de seus pensamentos, de acordo com os princípios do Platonismo-Pitagórico(13)?

[[Pitágoras de Samos (supostamente entre 570 e 497  A.C., mas não há evidências de sua exitência): filósofo grego radicado na Itália. Era dedicado a estudos matemáticos, além de reconhecidamente ter sido um reformador religioso e fundador de uma comunidade iniciática onde era tido como profeta; a Escola Pitagórica, que santificava toda a vida. Eles também se interessavam por questões filosóficas e tinham profundo interesse intelectual sobre diversos temas, dentre estes se destacavam a Aritmética e a Geometria. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas, cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do Universo e traçar, de acordo com ela, as regras da vida individual e do governo das cidades. Foi quem cunhou as palavras “Filósofo” e “Matemática”, acreditava na metempsicose, ou seja, a transmigração da alma de um corpo para o outro após a morte, e descobriu que se dividirmos uma corda esticada em variados tamanhos vamos obter vibrações proporcionais que vão formar a harmonia das notas musicais. Se essas notas forem divididas em determinadas frações e a combinadas com as notas simples, obtemos sonsmelódicos, já frações diferentes produzem sons que não podem ser considerados prazerosos. Sua cosmologia, estreitamente vinculada à esta religião astral, foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam, pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias imutáveis, presos à esferas concêntricas. A geometrização do cosmo estava aliada, no pitagorismo, às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: essa “harmonia matemática das esferas”, permanentemente soante e que pode ser concebida como uma melodia. Acreditavam também que este som geralmente não é percebido pelas pessoas porque o escutamos desde que nascemos e nossos ouvidos, além de acostumados, não são próprios para percebê-lo; ou seja, seria a própria tessitura do que consideramos o “silêncio”.

Partindo dessas idéias, o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental, de natureza divina, entre todos os seres. Essa similaridade profunda entre os vários entes existentes era sentida pelo homem sob a forma de um “acordo com a Natureza”, que era qualificada como uma “harmonia”, garantida pela presença do divino em tudo. Natural que dentro de tal concepção o mal seja entendido sempre como desarmonia. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras foi a transformação do processo de libertação da alma em um esforço puramente humano, porque basicamente intelectual. A purificação ou salvação resultaria do trabalho intelectual, que se esforça para descobrir a estrutura numérica das coisas e tornar, assim, a alma semelhante ao cosmo; entendido como unidade harmônica, sustentada pela ordem e pela proporção, e que se manifesta como beleza. A escola praticava rituais de purificação através do estudo da Matemática e da Astronomia. Eles propuseram também a relação da Matemática com assuntos abstratos como a Justiça, desenvolvendo assim um misticismo em torno dos números que foi adotado posteriormente por Platão como base de sua doutrina das formas. Consideravam  que os números constituíam a essência de todas as coisas, que o Universo era governado pelas mesmas estruturas matemáticas que governam os números e que estes simbolizavam a harmonia; essa harmonia ou ordem que percebiam analisando a Natureza. Assim, para eles o cosmos é organizado através de uma ordem matemática e a prova disso são os movimentos perfeitos das estrelas, as mudanças de estações e a alternância entre o dia e a noite. Assim como o dia e a noite, existem diversos opostos, que são conciliados pela diversidade entre si.

Este princípio matemático, de que a essência da harmonia é regida pelos números, é irrefutável mas, no entanto, não pode ser demonstrado, o que gerou grandes controvérsias no mundo antigo.

Apesar desses impasses – e talvez por causa deles – o pensamento pitagórico evoluiu e se expandiu, influenciando praticamente todos os aspectos o desenvolvimento da cultura grega e permanecendo conosco até hoje como aprópria base do método científico. Em seus estudos concluíram também que a Terra é redonda e que gira em torno de seu eixo.]]

Isso ninguém pode responder; o fato é que parece haver um ordenamento matemático em todas as coisas, e se Deus é um matemático, ou a Matemática é a própria essência da realidade em que estamos inseridos, isso ainda é uma questão em aberto… Aponto apenas um pronunciamento de Kepler cuja opinião, admiravelmente bem colocada, compartilho sem restrições:

“A Geometria existia antes da criação. É tão eterna como o Geometria Deus pensamento de Deus. A Geometria deu a Deus um modelo para a Geometria Deus! criação. A Geometria é o próprio Deus!”

Que a Matemática é moral e eticamente neutra é fácil perceber, não há qualquer menção à conduta humana, a crimes ou castigos em teorias matemáticas. Mas ela é, inegavelmente, uma fonte de discernimento; é na Matemática que surgiram noções como igualdade, proporção e harmonia, das quais se serve o Direito para garantir que a Justiça seja o resultado do estabelecimento de uma ordem social. Já imaginou uma sociedade onde o princípio da igualdade não vale (escravidão), onde a sentença não é proporcional ao crime (totalitarismo) ou onde o objetivo não é a paz e o bem comum (anomia)? Todos esses direitos existem por conta da Matemática!

Mas para se ter uma idéia verdadeira de como a Matemática corresponde a uma fonte de enobrecimento espiritual, um refúgio sagrado, devemos ter uma vivência em primeira mão dessa benção, devemos experimentar a sensação de ser um matemático; e para isso não basta aprender a Matemática, buscar conhecimento já formalizado, pois é isso que faz um simples estudante! Não, devemos aguçar a nossa intuição, ousando nos dedicar a encontrar a resposta para relevantes problemas matemáticos em aberto; deixando que a busca por essa solução nos encaminhe, motive e direcione a nossa pesquisa de novos conceitos e técnicas, só então perceberá a Matemática e a realidade com os olhos de um matemático. E assim compreenderá o Nada como a Origem de Tudo, o Espaço como a Fronteira Final, o Infinito como a Incógnita Suprema, a Harmonia como a Simetria da Forma e o Acaso, como a Aleatoriedade do Caos…

Todos esses termos mencionados anteriormente são conceitos abstratosaos quais os seres humanos, independentemente de seus costumes, credo ou nível educacional, tendem a atribuir significados místicos, transcendentais ou sobrenaturais; situando-os, portanto, no campo de discurso teológico. No entanto, é trivial perceber como cada um desses conceitos pertence legitimamente à Matemática, tendo sido incubados através de um longo processo intuitivo envolvendo matemáticos de diferentes tradições, que nada tinham a ver uns com os outros além da adoção de métodos investigativos similares, tendo sido posteriormente interpretados  por místicos como importantes componentes ontológicos integrantes de seu pensamento teológico. O último ponto que evidencia a similaridade da Matemática com os sistemas tradicionais de crenças religiosas, está, curiosamente, no fato de que a Matemática possui o poder de tornar efetivas as promessas dos sacerdotes das demais Religiões. Onde as Religiões prometem milagres e culpam-nos pela falta de Fé quando estes não ocorrem conforme programado, diariamente a Matemática nos oferece milagres (ou pelo menos aquilo que teria certamente sido considerado como tal pelos nossos antepassados) por meio da Tecnologia, que pode ser considerada como um aspecto concreto de abstrações matemáticas, um testemunho de sua aplicabilidade.

A mesma Tecnologia que cura enfermos, alimenta multidões, aproxima as pessoas, melhora a nossa qualidade de vida, aumenta a inteligência de nossas crianças, veste, abriga, diverte e nos permite ascender aos céus nas asas de nossa imaginação; não há limites para o que é tecnologicamente viável para a humanidade, se houvesse uma quantidade suficiente de matemáticos competentes em nosso meio, uma massa crítica de mentes pesquisando, idolatrando, a Matemática. E é exatamente isso que resultará de sua adoração, de sua adoção como a RELIGIÃO DO FUTURO!

A DESCOBERTA DA MATEMÁTICA COMO ALGO SAGRADO

Vou publicar aqui, sem a devida autorização, mas pleiteando a compreensão do autor por essa falta de cortesia, um texto do ex-professor de Matemática da USP Piotr Koszmider, que trata sobre  esse tema, e então compartilharei a minha perspectiva pessoal sobre esta que pode ser considerada a “Rainha das Ciências”: Matemática – uma missão de construções mentais “Sendo náufragos dos mares de culturas, abandonados  numa ilha da modernidade, somos destinados a formar a nossa espiritualidade com nossas próprias mãos. Os idiomas da Matemática contêm a substância da Arte, Religião e Ciência e ao mesmo tempo do esporte na forma de jogos mentais lúdicos.

“Seja L uma reta infinitamente comprida”, “Seja M um espaço onde alguns pontos diferentes são identificados”, “Seja f uma deformação infinitamente lisa” nos introduzem no mundo onde realiza-se um drama parecido com aquele das fugas de Bach ou telas de Kandinsky: uma metáfora do mundo esboçada através de meios simples, desafiando a humanidade, desafiando-nos para um confronto espiritual – construção matemática. “Os pontos do contínuo espacial não podem ser arranjados numa seqüência”, “todos inteiros positivos podem ser fatorados em números primos”, “existem curvas contínuas, não lisas em nenhum ponto” ressoam como “você vai nascer contra a sua vontade, você vai morrer contra a sua vontade e você vai ser responsável contra a sua vontade” e definem nosso mundo onde a liberdade é dada a nós, porém não estamos aqui para nos divertir, mas estamos aqui para desempenhar a nossa missão.

A missão, como fazer o bem ou descobrir a verdade,  aqui é demonstrar teoremas, definir os conceitos, participar na abertura do livro dos segredos divinos que trata dos tais marcos miliários como infinidade, espaço, ordem, caos, números, forma, mudança. Como Arte ou Religião, na forma do teatro de rua ou procissão da páscoa, Matemática também é um jogo ou esporte (até profissional) na forma de quebra cabeças e adivinhação. Ironicamente, os mais mágicos lados da Matemática podem ser vistos na relação dela com as Ciências e Tecnologia. Para chegar ao computador, avião ou tomógrafo foram necessários séculos de pensamento matemático. É mágico que precisamos imaginar algo infinito e abstrato para conquistar o mundo finito e concreto.”

Agora voltando a falar a meu respeito; desde pequeno a Matemática exerceu uma enorme fascinação sobre mim. Os números, sua seqüência interminável, as dízimas periódicas com seus adoráveis padrões repetitivos, formas geométricas com a divina proporção ou razão áurea que introduzem em nosso espírito um ideal de beleza, pureza e uniformidade, operações como a simplificação e a montagem de sistemas de equações com sua dinâmica própria que por vezes remetia a passes de mágica; tudo isso marcou muito a minhainfância causando uma impressão avassaladora que perdura até os dias de hoje.

Relativamente a esta divisão, temos o seguinte princípio: para que um todo dividido em duas partes desiguais pareça belo do ponto de vista da forma, deve apresentar a parte menor e a maior a mesma relação que entre esta e o todo. A escola pitagórica estudou e observou muitas relações e modelos numéricos que apareciam na natureza, beleza, estética, harmonia musical e outros, sendo esta a mais importante Se quiséssemos dividir um segmento AB em duas partes, teríamos uma infinidade de maneiras de fazê-lo. Existe uma, no entanto, que parece ser mais agradável à vista, como se traduzisse uma operação harmoniosa para os nossos sentidos. Corresponde ao número irracional Ф = ( 1 + sqrt 5 ) / 2.

Havia algo de inefável por trás daqueles gráficos, que pareciam adquirir vida própria, como se simbolizassem uma presença que emanasse a partir deles.. Mas outras coisas ocupavam a minha mente. Sempre fui muito ligado à metafísica e ao misticismo, não especificamente a qualquer Religião pré- estabelecida, porém buscando entender os mistérios do sobrenatural, conhecer as mitologias e as lendas dos diversos povos; as suas histórias, tradições e
superstições. Com a expansão da consciência, que resulta desse tipo de estudo, percebe-se que a criação que foi dada pela sua família, em sua escola, e reforçada pelas interações que você manteve durante a maior parte da sua vida, não lhe preparou completamente para um convívio harmonioso com pessoas que tenham nascido em outras localidades e que foram educadas de modo distinto.

Talvez o mesmo ocorra independentemente de onde nascemos e que seja assim em toda parte; nenhum sentimento de amor pela humanidade em geral está sendo incutido na mente das crianças, e por essa razão milhões de pessoas acabam sendo condenadas a mortes estúpidas e horrendas em áreas de conflito religioso, na defesa dos interesses particulares de líderes políticos dos variados grupos extremistas que mais se beneficiam disso. Um dia entendi que essas distinções étnicas e culturais realmente não possuem qualquer relevância em um contexto mais abrangente.

Existe algo na Matemática, ou melhor, na universalidade do conhecimento matemático que transborda além de qualquer fronteira física ou comportamental, relativizando esses traços superficiais que compõem nossaidentidade coletiva primária, e nos despertam para um vínculo global que é compartilhado por todo ser humano. Não, vou além, por qualquer inteligência, seja ela orgânica, sintética, alienígena ou imaterial.. a Matemática é a mesma para todos!

Na faculdade tive contato com pesquisadores que realmente vivem constantemente imersos em Matemática; e, por ter entrado relativamente tarde nesse curso, eu já tinha acumulado suficiente experiência de vida, inclusive sobre assuntos metafísicos e espirituais, para notar como a atitude daquelas pessoas perante a Matemática, e a pratica de pesquisas nessa área, é indistinguível da atitude de sacerdotes e místicos de tradições religiosas, tanto ocidentais quanto orientais, perante seus objetos de culto e adoração.

Matemáticos se preocupam com coisas que a maioria de nós nem se dá conta de que existam, com coisas que estão além da nossa percepção, mas aquilo que resulta de seu trabalho tem enormes conseqüências práticas palpáveis para todos nós, independentemente de crermos em suas palavras ou não…  A partir daí, me convenci de que a Matemática será inexoravelmente a única atividade tida como sagrada em algum ponto do futuro, e há anos venho trabalhando incessantemente na formulação de um movimento religioso de vanguarda, inovador em todos os aspectos, mas fundamentado nesta que considero a tradição espiritual mais antiga da humanidade. A única que realmente merece o título de verdadeira!

Queria dar uma real dimensão da importância da aquisição de conhecimento matemático para as pessoas e vocês sabem como isso funciona; a menos que seja considerado sagrado, a população em geral não tem o devido apreço ou respeito em relação a um conjunto de conhecimentos abstrato ou teórico. É muito comum, até como uma ferramenta didática, explorar a relação existente entre a Matemática e algum outro campo do conhecimento. Mas a maioria das pessoas geralmente escolhe a relação entre Matemática e as artes: os paralelos entre a composição musical e a estrutura de uma teoria matemática, ou entre a relação de espaços e formas em um estilo de pintura e os gráficos de funções complexas. Dificilmente fazem uma associação direta entre Matemática e os sistemas de crenças espirituais que foram sendo desenvolvidos pelas sociedades ao longo das eras.

Apesar disso, existem muitos pontos de intersecção entre a história das religiões e a Matemática, o que parece sustentar a viabilidade de um estudosistemático que classifico como Teologia Matemática. O mais fascinante dentre
eles talvez seja a origem da Teoria dos Conjuntos, relacionada à transição do conceito de “infinito potencial” ao de “infinito real”. Nos trabalhos de Bernard Bolzano e Georg Cantor, os pais da Teoria dos Conjuntos, encontramos inúmeras referências teológicas, cuja análise ainda desempenha um papel importante na compreensão dessa teoria. As perguntas essenciais a serem consideradas enquanto interpretamos teologicamente os conceitos matemáticos e a interação existente entre eles são:

“O que é a Matemática?”, “Quem sou eu?” e “Como minha vida pode ser transformada por esse complexo conhecimento sem fim?”. O autor pressupõe que o conhecimento matemático é por natureza teológico e que todo o apanhado de literatura Matemática deve ser lido e interpretado dentro deste enfoque.

Mais em http://www.wix.com/templodavida/online

Dr. Clandestino

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/teologia-matematica-a-religiao-do-futuro/

Cultos a Corpos Incorruptos

Nos anos de 1989 e 1990 o GIFI efectuou um levantamento sobre os cultos a corpos incorruptos existentes no Norte de Portugal, nas regiões do Porto, Braga e Lamego.

Tendo em conta a informação de que dispúnhamos, resultante da escassa bibliografia sobre o tema e de notícias veiculadas por órgãos da comunicação social, os objectivos deste projecto de investigação resumiam-se à localização geográfica desses cultos, identificação da sua origem e avaliação do seu nível de implantação entre as populações.

No decurso da investigação identificámos uma dezena de cultos activos, entre os quais se encontram fenómenos de índole estritamente local, com meia dúzia de adeptos, lado a lado com santuários que contam com a visita de vários milhares de fiéis.

O resultados obtidos foram, no nosso entendimento, um sucesso, na medida em que para além de terem sido cumpridos os objectivos inicialmente delineados, foi possível obter dados físicos e laboratoriais que concedem absoluto rigor científico às conclusões deste trabalho.

Posteriormente, no início de 1995 e por força dos trabalhos de preparação de uma reportagem sobre o tema realizada pelo GIFI para a TVI, foi possível actualizar alguma da informação de que dispomos, relativamente à situação à data de alguns dos cultos, o que se mostrou particularmente relevante para a sua compreensão, como adiante se demonstrará.

Antes ainda de se avançarem os resultados sistemáticos da investigação, importa apresentar sumariamente cada um dos cultos identificados pelo GIFI.

A- Região de Lamego

LAMEGO- Padre José António Alves de Almeida

No cemitério de Lamego diz-se existir o corpo incorrupto de um padre de nome José António Alves de Almeida.

O GIFI entrevistou o coveiro do cemitério que nos prestou algumas declarações.

O povo “diz que o corpo está direito” e que a barba teria crescido, no entanto como “está chumbado” não percebe como foi possível observar o cadáver.

O caixão encontra-se depositado numa sala subterrânea com paredes de granito e tampa do mesmo material e pressupõe-se que foi originalmente enterrado dessa forma.

O coveiro afirmou ainda que ” a terra é muito areenta e já não tem a mesma força para comer corpos como tinha dantes “e certos medicamentos que as pessoas tomam podem também contribuir para os mesmos ficarem incorruptos”.

Acrescente-se que este coveiro ocupa o lugar desde 1975 e que até à data da investigação nunca encontrou um corpo incorrupto.

Na medida em que, pelas razões acima referidas, não é possível observar o cadáver, nenhuma das informações obtidas foi susceptível de confirmação.

LALIM- Santinha Aparecida

Sendo certo que correm várias versões em Lalim sobre a matéria, de acordo com a que parece ser a melhor tradição oral, o cadáver incorrupto da Santa Aparecida de Lalim terá sido encontrado no cemitério da localidade, pelo ano de 1890, quando o coveiro abria uma cova para que se procedesse a um enterro.

Anote-se que àquela data o cemitério encontrava-se em redor da igreja local.

Parece ser esta a versão mais exacta, contada por uma senhora que há data da investigação tinha 104 anos e que teria seis anos à data dos factos. No entanto, um dos testemunhos obtidos refere a ocorrência da descoberta do corpo cerca de 68 anos antes da data da investigação.

Importa referir que na época a taxa de mortalidade na região era muito elevada, designadamente em resultado de doenças como a peste e a cólera, razão pela qual o coveiro tinha sempre muito trabalho. Conta-se que, por isso, era vulgar recorrer ao vinho para ganhar algum alento.

A decisão do coveiro terá sido a de voltar a enterrar o corpo, juntamente com aquele que devia naquele momento ser enterrado. No entanto, conta-se que a “santinha” lhe terá de novo aparecido fora da campa, nos três dias seguintes, pelo que o coveiro, desesperado com a situação, terá dado uma forte sacholada na face do cadáver.

Passado aquele acesso de raiva, o coveiro terá depreendido que a falecida teimava em reaparecer por ter alguma promessa por cumprir, decidindo então pegar no corpo e arrastá-lo à volta da igreja.

Foi assim que a população tomou conhecimento do aparecimento da “santinha”, já não permitindo que voltasse a ser enterrada.

Quanto ao coveiro, conta-se que, de pronto, comunicou aos responsáveis da freguesia que não mais enterraria qualquer cadáver, posto o que foi para sua casa, onde teria sido encontrado morto, “todo tolhidinho”. É evidente que a tradição local sobre o aparecimento da “santinha” imputa, indirectamente, a morte do coveiro ao facto de não ter reconhecido a santidade do cadáver e de, ainda para mais, o ter mutilado na cara.

Há quem refira que, antes da intervenção da população, o corpo terá ficado abandonado no cemitério, debaixo de uma forte chuvada que, diz a tradição local, não molhou minimamente o cadáver.

O corpo foi limpo com uma escova de arame e a cara coberta com uma máscara de cera, por forma a corrigir os danos provocados pelo acesso de fúria do coveiro.

Afirma-se que o padre da paróquia à data da descoberta do cadáver, de nome Eduardo, terá picado a “santinha” na língua e no peito, provocando o seu sangramento.

O cadáver foi levado, primeiro para a fábrica (igreja) e depois para um palacete existente na localidade, onde os fiéis o podiam visitar. No entanto, havendo notícia de que a vizinha aldeia de Cambros pretendia comprar o corpo, para obter a sua trasladação, o povo conseguiu que o colocassem numa pequena sala da igreja local, para onde o levaram em procissão e onde permaneceu até meados da década de oitenta do século XX.

Nessa sala o corpo terá sido muito pouco visitado, até que algumas senhoras começaram a juntar-se no local para ouvir a missa, pois o quarto tinha duas portas com grandes janelas de vidro.

Há quem afirme que o corpo foi enterrado há mais de trezentos anos, ninguém lhe conhecendo a identidade.

A clara antipatia da Igreja relativamente ao culto provocou um episódio no qual o pároco local resolveu oferecer o corpo a Cambros, o que veio a ser inviabilizado pelo facto do sacristão ter tocado os sinos a rebate, o que provocou a reunião do povo, que impediu a entrega do corpo à localidade rival. Ao que parece, houve até quem tentasse matar o padre, pelo facto de ele ter dado aquilo que não lhe pertencia.

À data da investigação já a santinha se encontrava, há cerca de quatro anos, exposta numa pequena capela existente próximo da igreja, sendo visível a devoção que merece, ao menos ao nível local, tendo em conta os ex-votos, recordações várias e objectos em ouro que ali se encontravam depositados.

Fomos informados de que a maior parte do ouro da “santinha”, que não será pouco, está depositado no Banco Nacional Ultramarino, por iniciativa da Irmandade do Senhor, confraria local que assegura a preservação do culto. Anteriormente era a confraria que guardava o espólio da “santinha”, o que implicava que o ouro fosse guardado por determinados períodos de tempo na casa de cada membro da confraria.

Foi o padre Avelino quem impulsionou o depósito do ouro no referido Banco, pois já se tinham verificado vendas irregulares de algumas peças.

Registe-se que a Igreja Católica se limita a tolerar o culto, não o combatendo, nem fomentando.

Fala-se de alguns milagres atribuídos à Santa Aparecida, tanto ao nível de curas, como de mulheres que teriam engravidado, após dirigirem preces à “santinha” para obtenção dessa graça.

As senhoras que cuidam do santuário e da “santinha” afirmam que é fácil mudarem-lhe a roupa, pois o corpo terá flexibilidade ao nível dos braços e do abdómen.

O padre Avelino que esteve colocado na paróquia de Lalim e que, à data da investigação, era capelão da Companhia de Instrução de Operações Especiais de Lamego, recorda com um misto de espanto e horror a mobilidade do cadáver que era venerado na sua igreja. De acordo com o seu testemunho o corpo era conservado numa pequena sala que seria necessário limpar de tempos a tempos. Uma vez que o espaço era extremamente exíguo o corpo era retirado do esquife em que se encontrava, dobrado pela cintura e sentado para se proceder à limpeza.

Quando esse sacerdote iniciou funções naquela localidade, foi recebido friamente pela população, tendo-lhe sido dito que poderia ser acometido de doença se se mostrasse adverso ao culto à “santinha”. O facto é que o padre que foi substituir teve um cancro na garganta e o seu antecessor, primo do padre Avelino, teve uma trombose que o deixou com paralisia facial parcial.

Foi-nos referido que foram vistas pessoas retirando pedaços do corpo para os guardarem como relíquia.

Há quem afirme que médicos consultados sobre o assunto ficaram impressionados com a ausência de odores desagradáveis no corpo.

Diz-se que um dos braços do cadáver se encontra partido, sendo apresentadas como hipóteses justificativas desse facto ou o ataque que sofreu por parte do coveiro ou a retirada de uma oliveira junto ao local onde se encontrava enterrado.

Da nossa observação directa resulta que o cadáver se apresenta claramente mumificado, em razoável estado de conservação. A pele do pescoço tem uma tonalidade castanha e conserva uma certa elasticidade, ou seja, a pele cede quando é pressionada e depois volta a ocupar a posição inicial. Os membros superiores mantém igualmente alguma mobilidade, mas que parece resultar essencialmente de zonas deterioradas das articulações e pele envolvente.

São-lhe atribuídos os seguintes milagres ou graças, que nos foram relatados pelo padre Avelino:

– Um jovem de Setúbal que via muito mal fez uma promessa à “santinha” e ficou curado;

– Uma professora que estava de visita a Lalim foi ver o corpo, tendo-se mostrado descrente e considerando inclusivamente ridículo o culto dedicado a um corpo que se encontrava mumificado. Como tinha sete
filhos, todos rapazes, disse “se és santa, faz com que eu tenha uma filha”. Diz-se que engravidou nessa noite e teve uma filha, pelo que desde então todos os anos vem a Lalim, ver a “santinha”;

– A irmã do padre Avelino estava casada há oito anos e não tinha filhos, o que estava a afectar o seu casamento. Os médicos consultados apenas apontavam uma causa psicológica para o facto, à falta de outros indícios. Após ter realizado uma promessa à “santinha” engravidou finalmente, tendo dois filhos à data da nossa investigação. Registe-se que a promessa tinha em vista o sucesso no exame de condução, que faria no dia seguinte e que temia fosse um desastre, não tendo qualquer relação directa com a dificuldade em engravidar;

– Uma pessoa de nome Serafim, funcionário da Real Companhia Velha foi acometido de um acesso de loucura, pelo que teve de ser internado. O padre Avelino telefonou para o local de internamento, de onde o informaram que o paciente não deveria sobreviver àquela noite. Informou a família da situação desesperada do senhor Serafim, por forma a que tivessem disponível uma muda de roupa, para lhe prepararem o enterro. Os familiares do paciente fizeram uma promessa à “santinha”, sendo que no dia seguinte o padre Avelino foi informado pelo hospital que o doente tinha melhorado bastante, não havendo notícia de que tenha vindo posteriormente a falecer em consequência da causa do internamento.

SANFINS- Santo Justo

Este corpo foi encontrado em 1918 e está exposto no capela de Sanfins. Acredita-se que tenha sido um eclesiástico e num panfleto encontrado no capela a data atribuída ao seu enterro não está concretizada, mas supõe-se que tenha ocorrido há pelo menos um século.

A descoberta do cadáver ficou-se a dever ao nascimento diário de um Lírio por cima do local onde o corpo veio a ser encontrado.

Além disso, duas senhoras andavam há muito tempo a sonhar com aquele local e, num certo dia, os seus sonhos foram de tal forma coincidentes que não resistiram a ir escavar o local.

Nessa altura encontraram não um, mas dois corpos incorruptos estando o do “Justo de Sanfins” por baixo do primeiro.

Uma vez que o outro corpo se encontrava em pior estado do que o do “Justo de Sanfins”, ficou sempre por baixo da urna deste e nunca foi exposto ao publico.

O corpo foi vestido uma única vez, sem que nos tenha sido indicada data desse facto.

O único registo de milagres efectuados pelo Santo Justo é o seguinte: “Maria Gomes de Abreu Nova, 1974. Padecia de doença, gastou muito dinheiro em médicos e nada. Fez uma promessa e curou-se.”.

Na capela mandada erigir por um dos comissários locais, encontraram-se também alguns ex-votos.

Apenas nos foi possível observar a face e as mão do cadáver, que se apresenta mumificado e em razoável estado de conservação. Estando a urna fechada, nada mais foi possível registar sobre a situação em que o corpo se encontra.

VILA CHÃ- São Julião

Tratar-se-à do cadáver de um missionário de nacionalidade espanhola, que andava a pregar naquelas freguesias e que há 97 anos (V. contado de quando) adoeceu e morreu em Vila Chã, depois de ali ter rezado missa.

Passados Vinte um anos após o enterro, uma senhora sonhou que o cadáver estava em cima da terra, logo abaixo da pedra tumular. Algumas pessoas vieram verificar a eventual veracidade dom sonho e quando tocaram na pedra tumular esta abriu-se sozinha, como se não tivesse peso, mostrando o caixão.

O corpo estaria conservado, tal como se encontrava à data da morte, tendo “secado” por lhe terem posto cal em cima muito ouro – comissão da igreja.

O presidente da câmara, consultado sobre o assunto, autorizou que o corpo fosse levantado e exposto ao público.

BARCOS (Tabuaço)- Maria Adelaide Sá Menezes

Morreu em 17 de Junho de 1878, com 51 anos de idade, sendo viúva há já vinte anos e sem filhos.

Terá sido uma pessoa descuidada na vivência da fé, razão pela qual não recebeu sacramentos, a quando da sua morte.

Antes da sua morte, Maria Adelaide mandou fazer um túmulo em granito, no cemitério recém inaugurado. Foi enterrada directamente sobre a pedra, sendo o túmulo fechado com uma laje de granito. O corpo foi coberto de cal e, como o falecimento ocorreu no Verão, o túmulo ficava directamente exposto ao Sol, nas horas mais quentes do dia.

Um médio legista de Coimbra afirmou a jornalistas que a cal absorveu a húmidade do corpo, tendo o calor do Sol e o facto do túmulo se de pedra e fechado contribuído para a petrificação do cadáver. Descoberto em 1916, trinta e oito anos após a morte, por um familiar, de nome Luís Cabral.

Na tradição local diz-se que a “santa” foi enterrada num caixão de chumbo, que para ser aberto exigiu os esforços de quatro homens, um  dos quais viria a danificar o cadáver na zona dos lábios. Afirma-se que Maria Adelaide terá morrido sem cabelo, o qual só teria voltado a crescer após a sua morte. Atribuem-lhe o crescimento das unhas e do cabelo, bem como o facto de ajudar a trocar a roupa. Diz-se ainda que o Bispo tentou queimá-la, quatro vezes, sem sucesso.

A “santa” está exposta na capela de Santa Bárbara, junto ao cemitério.

Uma referência curiosa, no âmbito da tradição do culto, é a de que a “santa” não aceita a cor preta, nem sapatos.

No túmulo onde foi enterrada, encontram-se os restos mortais do padre Ismael de Araújo Vilela, de Barcos, onde foi pároco de 1909 a 1938.

O padre da paróquia à data da investigação, Luís Ribeiro da Silva, opunha-se de forma declarada ao culto, razão pela qual o corpo se encontrava depositado na referida capela.

O sacerdote contestou de forma veemente à lenda do crescimento do cabelo e das unhas, bem como afirmou inexistirem quaisquer registos que suportem a afirmada vontade do Bispo no sentido de que o cadáver fosse queimado.

Na opinião do padre, o culto tem sido promovido por força de interesses comerciais, visto que são organizadas excursões para visita ao local, bem como por parte das autoridades, interessadas em promover o turismo na região.

Habitantes de Barcos disseram-nos, no entanto, que o padre se aproveita do facto da capela onde se encontra o corpo pertencer à Igreja para se apropriar das esmolas e dos bens doados para cumprimento de promessas.

A maioria das promessas são feitas por emigrantes e por pessoas que vivem fora de Barcos, tendo-nos sido referidas excursões organizadas por uma senhora de Famalicão.

B- Região de Braga

PROZELO (Amares) – Maria de Jesus

Faleceu, assassinada, nos anos trinta do século XX.

O corpo foi encontrado incorrupto em 1967 ou 1969, pelo coveiro. Muito destruído e abandonado.

A 17 de Março de 2001 regressámos ao local, tendo em vista verificar a situação actual do culto a “santa” Maria de Jesus.

Nesse Sábado ao final de tarde, encontrámos o cemitério praticamente vazio, mas notámos actividade na pequena capela – jazigo, onde se encontra exposto em urna com tampo de vidro a “santinha” local. Ambas as portas da edificação estavam abertas, estando uma mulher a realizar a sua limpeza. O jazigo encontrava-se caiado e pintado, o que constituiu outro factor indicativo de que o culto estará mais activo, pelo menos em termos da atenção dada à conservação do “santuário”, onde se observam diversos ex-votos, roupas e fotografias.

A mulher acima referida explicou-nos que ajuda na limpeza da “santinha” e que a encarregada do jazigo reside numa casa próxima do cemitério.

Interpelada relativamente ao estado de abandono que o jazigo denotava na nossa anterior visita ao local, afirmou que o antigo encarregado do jazigo foi afastado por não cumprir a sua tarefa e por existir a suspeita de que ficava com o dinheiro das esmolas. Por fim, referiu que costuma ver alguns visitantes no local, principalmente aos Domingos.

C- Região do Porto

ARCOZELO (Vila Nova de Gaia)- Maria Adelaide

Morta em 1885 e desenterrada em 1915.

A dimensão do culto de Arcozelo não tem qualquer comparação com as do demais que estudámos.

Aqui, um grande parque de estacionamento permite aceder ao cemitério local, onde ficam situados a capela, o museu e a sala dos ex-votos, bem como a uma pequena praça onde proliferam lojas de recordações e restaurantes.

Sob todos os aspectos a organização do recinto lembra, à devida escala, a dos grandes santuários da Igreja Católica, sendo evidente o envolvimento da autarquia local na administração do culto, a qual beneficia claramente das visitas de forasteiros e dos gastos por estes realizados.

BEIRE (Paredes) – António Moreira Lopes

O corpo venerado na localidade de Beire (Paredes) é o de um tal António Moreira Lopes, falecido em 1907 e exumado em 1978. Ao que parece, a anormal condição de conservação em que o corpo se encontrava chamou a atenção à população, que já não deixou voltar a enterrar o cadáver.

A administração do culto era, no final da década de oitenta, da responsabilidade da Junta de Freguesia, que construiu uma capela onde o corpo se encontra em exposição, bem como um pequeno museu, que funciona igualmente como loja de recordações do santuário.

A recolha de dados adicionais sobre o “santo” e respectivo culto foi inviabilizada pela hostilidade dos responsáveis autárquicos, que claramente não viam com bons olhos a curiosidade de forasteiros quanto ao “seu” corpo incorrupto, bastando, por exemplo, referir que estão interditas as fotografias, que, no entanto, podem ser adquiridas no santuário.

ARREIGADA (Paços de Ferreira)- Princesinha da Calçada

Março 1917, trinta e sete anos após a sua morte.

Encontrado pelo coveiro.

Oposição da Junta de Freguesia, com reacção do povo.

Miraculados.

Em Arreigada existia o costume, considerado perfeitamente normal, de as noivas concederem em promessa os seus vestidos à santa local. Um destes vestidos é-lhe posto todos os anos no Verão, por altura da festa da aldeia, e o que ela tinha vestido vai para um mostruário na sala contígua ao santuário. Outras noivas , de menores posses e de maior fé , alugam depois estes vestidos usados pela “santa” para os seus próprios casamentos.

Bruxaria e encerramento da capela – depoimento dos coveiros em 1995.

VILELA (Paredes) – Maria Carolina

O cadáver de Vilela participa igualmente, mas de forma mais directa, nos casamentos locais, pois existem no santuário fotografias de pelo menos um casamento em que o corpo foi retirado da urna para figurar entre os noivos, numa das fotografias da cerimónia. (rever)

Em Vilela, num cemitério, que alberga três corpos incorruptos, a população local tem em exposição o cadáver que revelou características mais extraordinárias.

Enquanto a maior parte dos corpos observados não passavam de verdadeiras múmias este diferia dos restantes não só pela coloração mais clara como pelo cheiro, menos agradável, que exalava.

A conservadora da capela revelou-nos que o corpo está em exposição à cerca de 20 anos e que é lavado regularmente com o intuito de aliviar o dito odor. Este processo da lavagem é conduzido com uma esponja humedecida e com um vulgar sabonete, mas há uns anos atrás o corpo era lavado numa tina por imersão.

Na sequência destas explicações a conservadora da capela comentou connosco que o cadáver sua e mancha a roupa que lhe vestem, fenómeno muito natural para esta senhora, aliás, atribui a isso mesmo a origem do mau cheiro que se sente.

O GIFI conseguiu trazer para Lisboa a camisa de dormir que o cadáver tinha vestido tendo esta sido analisada no Instituto de Medicina Legal com o objectivo de determinar que tipo de liquido produziria aquelas manchas.

Determinou-se que se trata de uma amina de putrefacção normalmente encontrada precisamente em cadáveres em decomposição.

Não deixa de ser curioso referir que este corpo enterrado durante dezenas de anos e exposto ao ar há pelo menos 20 anos sofra um processo de decomposição tão lento uma vez que estas lavagens decorrem de acordo com os testemunhos que recolhemos desde que o corpo foi encontrado.

Algumas notas conclusivas

A- Enquadramento social e religioso:

Aceitação do culto por parte da hierarquia religiosa ou de autoridades locais:

Cultos apoiados pela Igreja e ou autarquia local: Arcozelo; Beire; Sanfins;
Cultos tolerados, mas não incentivados: Lalim (à data da investigação);
Cultos objecto de oposição pela Igreja ou autarquia local: Lalim (no passado); Barcos; Vilela (à data da investigação);
Cultos desactivados por intervenção da Igreja ou autarquia local: Vilela (enterramento do cadáver, em meados dos anos 90);

Aceitação do culto pela população:

Relevância nacional: Arcozelo;
Relevância regional: Barcos; Beire;
Relevância local: Sanfins; Prozelo (actualmente);
Relevância para pequenos grupos locais: Vilela;
Irrelevância ou abandono: Prozelo (à data da investigação);

Localização do corpo:

Uma vez que a posição da Igreja é, em quase todos os casos, de contemporização forçada os cultos têm lugar quase sempre em pequenas capelas, construídas nos próprios cemitérios onde os corpos foram encontrados.

Jazigo em cemitério: Vilela; Prozelo; Arreigada; Lalim;
Capela em cemitério ou nas suas imediações: Barcos;
Capela em igreja ou nas suas imediações: Sanfins;
Capela autónoma: Arcozelo; Beire;

Rituais, milagres, graças e cultos não religiosos associados:

Em termos de ritual a maior parte destes cultos é extremamente pobre, muito embora se possam encontrar em alguns casos características verdadeiramente qualificáveis como macabras.

Limpeza do cadáver e mudança de roupa: Lalim; Barcos; Vilela;
Presença de ex-votos: Arcozelo; Vilela;
Presença de objectos valiosos, nomeadamente em ouro: Arcozelo; Lalim; Beire;
Registo de milagres ou graças concedidas: Arcozelo (em grande número); Sanfins;
Rituais relativos ao casamento: Arcozelo; Arreigada;
Práticas mágicas: Arreigada;

B- Tipologia dos cadáveres:

Sexo:

O objecto destes cultos é normalmente um cadáver do sexo feminino, o qual se apresenta habitualmente vestido de noiva. As raras excepções em que o culto era devotado a indivíduos do sexo masculino tratavam-se de padres, frades ou missionários.

Sexo feminino: Arcozelo, Lalim, Barcos, Vilela, Prozelo, Arreigada
Sexo masculino: Lamego; Beire, Sanfins;

Estado de conservação:

Muito deteriorados: Arcozelo; Prozelo;
Deteriorados, apresentado sinais de conservação por acção humana:
Lalim; Arreigada; Beire
Mumificados, em bom estado de conservação: Sanfins;
Courificados: Vilela

Causas de deterioração:

Vandalismo ou ataque: Arcozelo; Lalim;
Exposição ao público e obtenção de relíquias: Lalim;
Limpeza e lavagem: Lalim; Vilela;

Forma de exposição e actividades de conservação:

Estes corpos estão normalmente expostos em urnas com tampo em vidro, muitas vezes abertas, expostos à manipulação dos seus devotos, bem como, aliás, à de qualquer curioso.

Lavagem e mudança de roupas: Lalim; Barcos; Vilela;

por Morgana Le Fay

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/cultos-a-corpos-incorruptos/

Cultos Fálicos

O falo se venera por seu estado de ereção. Nesta forma, como frutificador e doador da vida, se transforma em emblema da divindade. O falo era um elemento recorrente na arte paleolítica e aparece, com freqüência, justaposto a figuras de animais.  Antes de uma abordagem histórica sobre o falicismo é preciso esclarecer que o culto ao falo não é, ao contrário do que pode parecer um culto ao patriarcado e ao homem. O falo, não é apenas o pênis, mas sim o pênis ereto. E a ereção só acontece diante da presença (mesmo que apenas imaginária) da figura sexual passiva que é admirada e desejada ardentemente. Assim o falo é antes do símbolo do homem, o representante do desejo de união entre o macho e a fêmea.

A adoração ao falo só acontece porque o falo é ele mesmo uma afirmação inocultável e de adoração de aprovação. Existe nos cultos fálicos uma união e uma perda de identidade entre quem é adorado e quem adora. No falicismo, assim como no sexo, as figuras se unem e se confundem, sendo portanto óbvio porque desta ser uma das formas mais antigas de religião.

O que é seguro é que no antigo Egito, nos tempos de Sesostris I (à 1900 a.c), aos dias das colheitas, Min, se representava como uma figura em permanente ereção e se comparava com um touro montando na vaca ou um marido fecundando sua esposa. Com seu enorme e nada ambíguo falo empinado, Min era também deus dos caminhos, guia e protetor dos viajantes, uma função que compartilha com outros deuses fálicos.

As primeiras “imagens” do deus grego Hermes consistiam em montões de pedras, chamados herms, completados por uma pedra maior, que serviam como montes. Mais adiante, o herm foi se transformando em um bloco quadrado, com um falo e dois testículos talhados frontalmente. Hermes não somente guiava os vivos; também era o guia das almas.

Devido, possivelmente por que os mastros e montes se encontrassem nas margens das fronteiras, muitos deuses fálicos se transformaram em espíritos guardiões, como se sucedeu com os Dosojin japoneses. Todavia existem milhares destas figuras talhadas nas pedras, geralmente colocadas nos campos de trigo, onde asseguram a fertilidade da colheita e atuam como divindades guardiãs que protegem os campos dos intrusos e dos maus espíritos.

Todas as religiões têm conservado ao menos alguma reminiscência dos cultos fálicos. Os conquistadores e missionários, nas Américas, Ásia e Oceania, substituíram os antigos deuses locais por figuras equivalentes de seus panteões, porém muitos deuses originais sobreviveram a essa usurpação.

O budismo ascético pretendeu assimilar os Dosojin para a imagem do bodhisattva Kisitigarbha, que têm suas “partes intimas dentro de uma vagem”; porém no templo budista de Nagoya – Japão, atrás da estátua de Kisitigarbha há uma cortina que oculta falos talhados, descritos como os Dosojin.

Quando os arianos invadiram a Índia, criticaram o povo conquistado por “terem como deus o “falo” entretanto poucos séculos depois os mesmos arianos estavam adorando a linga [lingam] (falo) de Shiva. Há elementos fálicos nas tradições populares referentes a árvores sagradas, sobretudo na Irlanda, Europa Mediterrânea e Japão.

Em uma carta datada de 30 de Dezembro de 1781 Sir William Hamilton, K.B., ministro de sua majestade na Corte de Nápoles a Sir Joseph Banks, Bart., presidente da Royal Society, falasobre similitudes entre o “Papismo” (Cristianismo católico) e as religiões Pagãs:

A carta fala da devoção popular a Priapus, “divindade obscena” dos antigos. As provas seriam evidentes e disponíveis a qualquer um que visitasse o British Museum. Segundo Sir Hamilton: “Mulheres e crianças da classe baixa, em Nápoles e vizinhanças, freqüentemente usam [nas roupas] um tipo de amuleto, que elas imaginam ser protetor contra o mau olhado, os evil eyes, os encantamentos [e propiciador de outros benefícios]…

Esses amuletos que têm evidente relação com o Culto de Príapus são comumente feitos de prata, mas também de marfim, coral, âmbar, cristal e outras gemas… Na cidade de Isernia, uma das mais antigas do Reino de Nápoles, uma festa celebra, desde 1780, o moderno Príapus, São Cosmo. Sir William chama a atenção para a “indecência da cerimônia! – veja na ilustração abaixo, um “voto” de Isernia.

As relíquias dos santos são expostas e carregadas em procissão, da catedral até a igreja dedicada aos santos. No percurso da romaria, fac símiles de cera – os votos, representando as partes masculinas da geração, de vários tamanhos, são publicamente colocados à venda. Esses “devotos” distribuidores de tais votos [estatuetas de cera], com a cesta cheia do “produto”, daquelas “lembrancinhas”… comercializam sua mercadoria aos gritos de “São Cosme e São Damião!”

No cristianismo,o culto fálico sobreviveu como “o inimigo” na figura de um Satanás muito parecido com o Priapo ou o Pan (grego) e também nas figuras dos santos priápicos, quase sempre inventados. Por exemplo, São Guignole, primeiro abade de Landevenec (França), se converteu numa figura fálica por confusão de seu nome com o verbo gignere, gerar. Sua capela se manteve até 1740. As estátuas destes santos apresentavam membros exagerados, que as vezes se ungiam e veneravam separadamente e também eram utilizados para fecundar mulheres que desejavam engravidar.

Original de Carol Beck, Trad. EL CULTO AL FALO. Clifford Bishop. Revista Libertália. Itália: 2002

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/cultos-falicos/

O Alcorão e a Papisa Joana

Olá crianças,

Esta semana continuaremos a história oculta da Igreja Católica, e as origens do Islã, uma das religiões mais bombásticas do planeta, bem como os acontecimentos que dariam início à formação dos Cavaleiros Templários, Hospitalários e Teutônicos. Estamos no ano de 590 DC e São Gregório Magno acaba de ser coroado o 64º papa.
Esta é a quinta parte da série “Queima ele, jesus!”. Para quem não estava acompanhando, recomendo ler as partes anteriores deste texto AQUI, AQUI, AQUI e AQUI.

Enquanto o papa Sabiano I (604-606) organizava o número de vezes que os sinos deveriam ser tocados antes da missa ou se as velas deveriam ou não ser mantidas acesas o tempo todo nas igrejas, o papa Bonifácio III (607) decidia quantos dias seriam necessários esperar entre a morte de um papa e a eleição do próximo, Bonifácio IV (608-615) convertia os templos Vestais de Roma em Templos dedicados à Virgem Maria, Aedodato I (615-618) criava o “timbre papal” para validar documentos, Bonifácio V (619-625) instituía “imunidade de asilo” dentro das igrejas e Honório I (625-638) perseguia ingleses e restaurava igrejas em Roma, Abu al-Qasim Muhammad ibn ‘Abd Allah ibn ‘Abd al-Muttalib ibn Hashim estava ocupado batendo em hereges, destruindo ídolos antigos e convertendo guerreiros no deserto Árabe.

Allah Akhbar!
Para os muçulmanos, Maomé (Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso)(570-632) foi precedido em seu papel de profeta por Jesus, Moisés, Davi, Jacob, Isaac, Ismael e Abraão. Como figura política, ele unificou várias tribos árabes, o que permitiu as conquistas árabes daquilo que viria a ser um império islâmico que se estendeu da Pérsia até à Península Ibérica.
Não é considerado pelos muçulmanos como um ser divino, mas sim, um ser humano; contudo, entre os fiéis, ele é visto como um dos mais perfeitos seres humanos
Nascido em Meca, Maomé (louvado seja, Senhor do Universo) foi durante a primeira parte da sua vida um mercador que realizou extensas viagens no contexto do seu trabalho. Tinha por hábito retirar-se para orar e meditar nos montes perto de Meca. Os muçulmanos acreditam que em 610, quando Maomé (Clemente, o misericordioso) tinha quarenta anos, enquanto realizava um desses retiros espirituais numa das cavernas do Monte Hira, foi visitado pelo anjo Gabriel que lhe ordenou que recitasse uns versos enviados por Deus. Estes versos seriam mais tarde recolhidos e integrados no Alcorão. Gabriel comunicou-lhe que Deus tinha-o escolhido como último profeta enviado à humanidade.
Maomé (soberano do dia do Juízo) não rejeitou completamente o judaísmo e o cristianismo, duas religiões monoteístas já conhecidas pelos árabes. Em vez disso, informou que tinha sido enviado por Deus para restaurar os ensinamentos originais destas religiões, que tinham sido corrompidos e esquecidos.

Na opinião dos ocultistas, Maomé (Só a Ti adoramos e só de Ti imploramos ajuda) provavelmente conseguiu entrar em contato com o seu Sagrado Anjo Guardião durante suas meditações, escrevendo os versos do Alcorão da mesma maneira que, 1.300 anos mais tarde, Aiwass teria ditado o Livro da Lei a Aleister Crowley.

Claro que, para variar, os habitantes de Meca rejeitaram a sua mensagem e começaram a perseguí-lo, bem como aos seus seguidores (mas nós já vimos este filme antes, certo?).
Meca era nesta altura uma cidade-estado no deserto, onde se encontrava um santuário conhecido por Caaba (“Cubo”) administrado pelos Coraixitas. A Caaba era venerada por todos os árabes, sendo alvo de uma peregrinação anual. Nela se encontrava a Pedra Negra (o nome dela é Al-Hajarul Aswad para quem quiser procurar no google… é uma pedra negra com cerca de 50cm de diâmetro que segundo as lendas “foi enviada por Deus dos céus”) e uma série de ídolos, representações de deusas e de deuses, dos quais se destacava o deus nabateu Hubal. Alguns habitantes de Meca distanciavam-se quer dos cultos pagãos, quer do monoteísmo dos judeus e dos cristãos, declarando-se hunafá, isto é, crentes no Deus único de Abraão, que acreditavam ter sido o fundador da Caaba. Apesar de a cidade não possuir recursos naturais, ela funcionava como um centro comercial e religioso, visitado por muitos comerciantes e peregrinos.

Em 622 Maomé (Guia-nos à senda reta) foi obrigado a abandonar Meca, numa migração conhecida como a Hégira (Hijra), tendo se mudado para Yathrib (atual Medina). Nesta cidade, Maomé (À senda dos que agraciaste, não à dos abominados, nem à dos extraviados) tornou-se o chefe da primeira comunidade muçulmana. O seu tio Zubair fundou a ordem de cavalaria conhecida como a Hilf al-fudul, que assistia os oprimidos, habitantes locais e visitantes estrangeiros. O profeta foi um membro entusiasta; ajudou na resolução de disputas, e tornou-se conhecido como Al-Ameen (“o confiável”) devido à sua reputação sem mácula nestas intermediações.

Seguiram-se uns anos de batalhas entre os habitantes de Meca e Medina, que terminaram com a vitória do profeta e seus seguidores. A organização militar criada durante estas batalhas foi usada para derrotar as tribos da Arábia e estabelecer uma unidade cultural.
Após a Hégira, o profeta começou a estabelecer alianças com tribos nômades. À medida que a sua força e influência cresceu, insistiu que as tribos potencialmente aliadas se tornassem muçulmanas. Casou suas filhas com líderes de outras tribos e ele mesmo casou-se com filhas de líderes influentes.
Alguns viram agora Maomé como o homem mais poderoso da Arábia e a maioria das tribos enviou delegações para Medina, em busca de uma aliança. Antes da sua morte, rebeliões ocorreram em uma ou duas partes da Arábia mas o estado islâmico tinha força suficiente para lidar com elas.
Um ano antes da sua morte, o profeta dirigiu-se pela última vez aos seus seguidores naquilo que ficou conhecido como o sermão final. A sua morte em Junho de 632 em Medina, com a idade de 63 anos, deu origem a uma grande crise entre os seus seguidores. Na verdade, esta disputa acabaria por originar a divisão do islão nos ramos dos sunitas e xiitas. Os xiitas acreditam que o profeta designou Ali ibn Abu Talib como seu sucessor, num sermão público na sua última Hajj, num lugar chamado Ghadir Khom, enquanto que os sunitas discordam.

Matem o Infiel !!!
30 anos após a morte do profeta, a comunidade islâmica mergulhou numa guerra civil que deu origem a três grupos. Uma causa próxima desta guerra civil foi que os muçulmanos do Iraque e do Egito estavam muito putos da vida com os desmandos de poder do terceiro califa e dos seus governadores; outra causa foi a de rivalidades comerciais entre facções da aristocracia mercantil.
Após o assassinato do califa, a guerra eclodiu entre grupos diferentes, todos eles lutando pelo poder. A disputa sangrenta só foi terminar com a instauração de uma nova dinastia de califas que governavam desde Damasco (e esta dinastia vai continuar até as cruzadas)

Um dos grupos que surgiram desta disputa foi o dos sunitas. Eles tomam-se como os seguidores da sunna (“práctica”) do profeta tal como relatada pelos seus companheiros (a sahaba). Os Sunitas também acreditam que a comunidade islâmica (ummah) se manterá unida. Eles desejavam reconhecer a autoridade dos califas, que mantinham o governo pela lei e persuasão. Os sunitas tornaram-se o maior grupo do Islã (cerca de 84% do total).
Dois outros grupos menores surgiram também deste cisma: Os xiitas e os kharijitas, também conhecidos por “dissidentes”. Os xiitas acreditavam que a única liderança legítima era a que vinha da linhagem do primo e genro do profeta, Ali. Os xiitas acreditavam que o resto da comunidade cometera um erro grave ao eleger Abu Bakr e seus dois sucessores como líderes. Já os kharijitas inicialmente apoiaram a posição dos xiitas de que Ali era o único sucessor legítimo do profeta, e ficaram decepcionados quando Ali não declarou a guerra no momento em que Abu Bakr tomou a posição de califa, crendo que isto era uma traição ao seu legado por Deus. Ali foi mais tarde assassinado pelos kharijitas com uma espada envenenada.
Os Kharijitas consideravam que qualquer homem, até mesmo um escravo, poderia ser eleito califa, desde que reunisse um elevado carácter moral e religioso, e que era legítimo contestar um poder considerado injusto. Como os critérios de “justo” ou “injusto” são um tanto quanto subjetivos, podemos perceber uma certa tendência para a carnificina aparecendo nesta facção.
Tanto foi que em menos de 30 anos os Kharijitas se dividiram em quatro facções: os Azraquitas, os najadat, os sufris e os ibaditas.
A facção mais radical de todas eram os Azraquitas: consideravam como pecadores todos os outros grupos de muçulmanos e advogavam a luta contra o poder instituído, praticando atos de verdadeiro terrorismo político.
Distinguiam-se por duas práticas peculiares: a primeira era uma prova de sinceridade do recém-convertido ao movimento na qual se exigia que este decapitasse um prisioneiro adversário (imtihân) e a segunda constituía o assassinato religioso, que autorizava matar homens, mulheres e crianças fora do grupo (isti’râd). Entendiam que o território no qual viviam os outros muçulmanos era um território de infiéis (dar kufr), onde era permitido pilhar e matar.

O Alcorão
Entre 650 e 656, durante o califado de Otman, o Alcorão (livro cujo nome significa “a recitação”) se estruturou de uma forma mais oficial. Otman nomeou uma comissão para decidir o que deveria ser incluído ou excluído do texto final do Alcorão. Foi então constituído um “livro-referência” a partir do qual se criaram cópias que foram enviadas para Meca, Iémen, Bahrein, Bassora e Kufra. Somente mil anos mais tarde, em 1694, uma versão completa do Alcorão seria publicada no Ocidente, na cidade de Hamburgo, por Abraham Hinckelmann, um estudioso rosacruz não-muçulmano.

De 632 a 661, os muçulmanos dominaram toda a península Árabe, a Pérsia (chegando até Damasco) e partes do Egito (chegando até Trípoli). Por volta de 732, ou seja, um século após a morte de Maomé, os muçulmanos expandiram seus domínios até a Espanha.

Enquanto Isso, no Vaticano…
Severino I foi eleito em 640 e seu governo durou dois meses: como primeiro ato, desafiou o Imperador de Constantinopla criticando a Igreja Ortodoxa. Como castigo, o Imperador invadiu Roma, saqueou a cidade e matou o papa. João IV (640-642) também criticou o monotelismo e a Enciclopédia Católica diz que ele “aceitou e repatriou vários dissidentes da Igreja Copta”. Comparando os gráficos, vemos que, na realidade, estes refugiados não estavam deixando a Igreja Copta e se tornando católicos, mas sim fugindo do Egito para não terem suas cabeças cortadas pelos muçulmanos Kharijitas…
Teodoro I (642-649) conseguiu durar 7 anos criticando a heresia monofisista, até que foi envenenado por agentes do Imperador. Martinho I (649-655) convocou um concílio em Latrão para terminar de uma vez por todas com estas desavenças e acabou sendo preso e exilado para a ilha de Naxos pelo Imperador, onde acabou morrendo devido aos maus-tratos. Eugênio I (654-657) teve mais sorte. Em 655 os ataques incessantes dos muçulmanos estavam dando tanta dor de cabeça ao Imperador Constante II que ele mal tinha tempo para se preocupar com os católicos. O papa Vitaliano (657-672), vendo que os muçulmanos estavam dominando toda a Pérsia e avançando pela Espanha, tomou uma importante decisão: foi o primeiro papa a autorizar o uso de som de órgãos durante a missa.
Adeodato II, percebendo que os muçulmanos haviam tomado diversas cidades no sul da Espanha e estavam fortificando cada vez mais suas posições na Turquia, tomou uma decisão importantíssima: Foi o primeiro papa a datar os seus atos com os anos do seu pontificado e a usar nas leituras a fórmula “Salute ed apostolica benedizione“. O papa Dono (676-678) preocupou-se em resolver uma disputa entre bispos de Ravena, Agato I (678-681) preocupou-se com a Irlanda e com a Inglaterra; Leão II viajou até Constantinopla para o III Concílio de Constantinopla, para dar fim ao monotelismo, mas a seqüência de disputas filosóficas sobre a natureza divina de Jesus prosseguiu pelos governos de Bento II (684-685), João V (685-686), Conon (686-687), Sérgio I (687-701) e João VI (701-705), quando finalmente os turcos otomanos cortadores de cabeças vieram bater às portas de Roma, após terem causado por toda a Espanha durante quase 50 anos sem que o Vaticano tivesse mexido um único dado a respeito.

A expansão Omíada
Muawiya era um homem poderoso, governava a Síria, tinha o seu próprio exército e era o chefe da Casa Omíada. Com o passar do tempo, ele foi cada vez mais liderando os sentimentos de insatisfação que dominavam Medina. A autoridade de Ali foi enfraquecendo e ele acabou assassinado em 661, numa conspiração armada pelos Kharijitas (cortem-lhe a cabeça!!!). Ali foi o último dos califas a representar o verdadeiro conceito islâmico de governante, ou seja, aquele que combina as funções de chefe de estado com as de líder espiritual.

Muawiya proclamou-se califa, inaugurando a dinastia omíada, com capital em Damasco, que governou o mundo muçulmano por 90 anos, de 661 até 750. Ainda que Muawiya não possuísse as qualidades de um chefe religioso, ele foi um administrador eficiente e mesmo seus críticos são unânimes em afirmar que ele foi um grande estadista. Durante seu governo ele passou por cima de todas as cidades do Sul da espanha. Seguindo em direção à Ásia, os muçulmanos completaram a conquista de Corassã e chegaram ao território que hoje corresponde ao Afeganistão, ocupando Cabul. Muawiya construiu uma linha de fortalezas ao longo da fronteira, o que ajudava a manter os bizantinos afastados. Herdeiro dos estaleiros bizantinos da Síria, ele criou a primeira marinha do califado, e com ela chegou a atacar Constantinopla.

A Reconstrução de Roma
João VI e Sísino enfrentaram, com o auxílio das tropas de Ravena, os sarracenos que tentaram invadir Roma. Sísino passou a maior parte dos seus 3 meses de papado reconstruindo as muralhas destruídas de Roma. Constantino passou seu papado (608-615) pregando na Alemanha (curiosamente bem longe dos sarracenos), trabalho de fuga de evangelização, que foi continuado por Gregório II, que permaneceu fugindo pregando na Germânia de 715 a 731 (embora tenha mandado erguer e renovar as muralhas de Roma, por medo dos muçulmanos). Gregório II também foi o primeiro papa a enfrentar os iconoclastas.

Vamos quebrar tudo!!!
Iconoclastia (do grego eikon [ícone], klastein [quebrar]) é a doutrina que se opõe ao culto de ícones religiosos e outras obras, geralmente por motivos políticos ou religiosos. No cristianismo, a iconoclastia é geralmente motivada pela interpretação literal dos dez mandamentos, que proíbem os fiéis de adorar imagens. As pessoas envolvidas em tais práticas são conhecidas como iconoclastas, um termo que passou a ser aplicado a qualquer um que quebra dogmas ou convenções estabelecidas ou as desdenha.
As escolas iconoclastas enfatizam a compreensão e a transformação interior. São exemplos delas: o sufismo na religião islãmica, hassidismo e a cabala no judaísmo, advaita ventana no hinduísmo e o zen e o dzogchen no budismo. Esses movimentos nunca se expandiram bastante por serem considerados suspeitos pelas hierarquias religiosas estabelecidas.
O primeiro ciclo do Iconoclasmo foi constituído nas culturas judaico-cristã e islâmica e na tradição filosófica grega. O segundo durante o Império Bizantino (século VIII e IX), quando a produção, disseminação e o culto das imagens foram proibidos. A doutrina dilacerou o lado do antigo Império Romano durante mais de um século e provocou uma sangrenta guerra civil, que só terminaria em 843, com a restauração do culto aos ícones na catedral de Santa Sofia, em Constantinopla.

Gregório III (731-741) seguiu firme na batalha contra os iconoclastas e também teve uma idéia brilhante: pedir o chamado “Óbolo de São Pedro”, que eram doações de reis e governantes para a manutenção do Vaticano, uma das fontes de renda da cidade até os dias de hoje. Zacarias (741-752) foi o primeiro papa a investir e aprovar uma coroação (no caso, Pepino, o breve, rei dos Francos, em troca de fartos óbolos para a ICAR). Zacarias também enfrentou uma situação inusitada: os mercadores de Veneza estavam traficando escravos cristãos para os muçulmanos.
Os próximos sete papas (Estevão III, Paulo I, Estevão IV, Adriano I, Leão III, Estevão V e Pascoal I) passaram seu tempo bajulando ora os lombardos, ora os francos, ora os bizantinos, ora os carolígenos, dependendo de quem tinha o maior exército e desse os melhores óbolos na época. O Vaticano praticamente se prostituiu diante dos reis e imperadores europeus, alternando seu apoio para quem lhe pagasse mais.
O centésimo papa, Eugênio I (824-827), organizou a Cúria Romana e preparou novamente o conjunto de leis que regiam a escolha dos papas e as transições do bispado.

Enquanto isso, no reino dos sarracenos, Al-Khawarizmi desenvolvia a Álgebra e a Geometria entre as Escolas de Estudos Árabes, difundindo os algarismos que mais tarde ficaram conhecidos como “indo-arábicos”. Com as conquistas muçulmanas, os sábios árabes tiveram contato com as Escolas Iniciáticas Egípcias e absorveram muito do conhecimento de matemática, geometria, astronomia, astrologia, espiritualismo, kabbalah, música e alquimia (Al Kimia significa “do país dos negros”) que os antigos gregos também detinham. Hoje em dia a maior parte destes ensinamentos ainda existe, dentro da filosofia chamada Sufismo (uma corrente iniciática muçulmana que existe até os dias de hoje).

A Papisa Joana
Os muçulmanos foram avançando pelo território até que conseguiram invadir e saquear Roma em 846, no papado de Sérgio II. O papa Leão IV passou boa parte de seu governo (847-854) reconstruindo os muros da cidade. Quando faleceu, elegeram por unanimidade o papa João VIII… ou melhor, a papisa Joana.
A história da papisa Joana é bem controversa. Os católicos vão negar até o último fio de cabelo que ela tenha existido, embora haja um decreto no século IX proibindo explicitamente a sua colocação na lista de papas, a falta de um “João” na lista de papas e a existência da famosa “cadeira papal” que durou do século IX ao XVI não teria razão de existência se não fosse necessário comprovar o sexo do papa por algum motivo.
Na época, o escândalo de ter uma mulher infiltrada na Igreja que tivesse chegado à condição de papa teria sido abafado de todas as maneiras possíveis, tendo esta indiscrição perdurado até quase o século XI, quando o respeitável historiador Murdoch MacGroarty (1028-1082) estava compilando a lista de papas conhecida como “Chronicles of the Popes” e chegou a 20 papas de nome João. A lista de papas de Murdoch foi aprovada por Victor III, Urbano II, Pascoal II e Alberic de Montecassino e menciona a existência de uma papisa Joana.
Quando refizeram as contas, eliminando a papisa Joana quase 200 anos depois, o papa João XXI se recusou a mudar seu título e acabou ficando uma brecha entre os papas João VIII e João XIX. É ela quem aparece na imagem do Tarot de Marselha ocupando o arcano II, que se chama “Papisa” ao invés do tradicional “Sacerdotisa”.
A história mais confiável conta que Joana nasceu na Inglaterra, filha bastarda de um padre que, para ocultar o caso, precisou fugir para a Alemanha, onde a criou como um coroinha. Quando chegou a adolescência, Joana já sabia falar três línguas e possuía uma inteligência fora do comum. Foi enviada para estudar nas melhores escolas, sempre assumindo uma identidade masculina, pois não era permitida a presença de mulheres nos monastérios. Ela possuía um amante, também padre, que a acompanhou à Inglaterra, França e Grécia. Porém, conforme ficavam mais velhos, tiveram de mudar-se para Roma pois em todos os outros monastérios era comum os homens cultivarem barbas e a presença de Joana estava ficando difícil de ser explicada.
Joana conseguiu ser nomeada cardeal, quando teria ficado conhecida como João, o Inglês. Segundo as fontes católicas, no dia 17 de julho de 855, Leão IV faleceu.
João, em virtude de sua notável inteligência, foi eleito Papa por unanimidade. Apesar de ter sido fácil ocultar sua gravidez, devido às vestes folgadas dos Papas, terminou por sentir as dores do parto em meio a uma procissão numa rua estreita, entre o Coliseu de Roma e a Igreja de São Clemente, e deu à luz perante a multidão.
As versões também divergem sobre este ponto, mas todas coincidem em que a multidão reagiu com indignação por considerar que o trono de São Pedro havia sido profanado. Ela teria sido amarrada num cavalo e apedrejada até a morte.
O clero de Roma, ferido na sua dignidade e cheio de vergonha por aquele acontecimento singular, publicou um decreto proibindo aos pontífices atravessarem a praça pública onde tivera lugar o escândalo. Por isso, depois dessa época, no dia das Rogações, a procissão, que devia partir da basílica de São Pedro para se dirigir a Igreja de São João de Latrão, evitava aquele lugar abominável situado no meio do seu caminho, e fazia um longo roteiro.
Os ultramontanos, confundidos pelos documentos autênticos da história e não podendo negar a existência da papisa Joana, consideraram toda a duração do seu pontificado como uma vacância da santa sede e fazem suceder a Leão IV o papa Bento III, sob o pretexto de que uma mulher não pode desempenhar as funções sacerdotais, administrar os sacramentos e também conferir ordens sagradas. Mais de trinta autores eclesiásticos alegam este motivo para não incluirem Joana no número dos papas; mas um fato essencialmente notável vem dar um desmentido formal à sua opinião.

A Cadeira Furada
Para impedir que um semelhante escândalo pudesse renovar-se, imaginou para a entronização dos papas um uso singular e apropriado à circunstância, o qual leve o nome de “a prova da cadeira furada”.
O sucessor de Joana foi o primeiro a se submeter a essa prova, que passou a ser realizada na eleição do pontífice, no momento em que era conduzido ao palácio de Latrão para ser consagrado solenemente. Em primeiro lugar, o papa sentava em uma cadeira de mármore branco colocada no pórtico da igreja, entre as duas portas de honra; essa cadeira não era furada, e deram lhe esse nome porque o santo padre, ao levantar se dela entoava o seguinte versículo do salmo cento e treze: “Deus eleva do pó o humilde para o fazer assentar acima dos príncipes!”
Em seguida, os grandes dignitários da igreja davam a mão ao papa e conduziam-no á capela de São Silvestre, onde se achava uma outra cadeira de pórfiro, furada no centro, na qual faziam assentar o pontífice.
Antes da consagração, os bispos e os cardeais faziam colocar o papa sobre essa segunda cadeira, meio estendido, com as pernas separadas, e permanecia exposto nessa posição, com os hábitos pontífices entreabertos, para mostrar aos assistentes as provas da sua virilidade. Finalmente, aproximavam-se dele dois diáconos, asseguravam-se pelo tato de que os olhos não eram iludidos por aparências enganadoras e davam disso testemunho aos assistentes gritando com voz alla: “Temos um papa!”.
Este funcionário é chamado de Carmelengo e esta função era uma das mais importantes na aprovação do novo papa. Daqui originou-se o termo “Puxa-saco”.
Essa cerimônia das cadeiras furadas é mencionada na consagração de Honório III, em 1061; na de Pascoal II, em 1099; na de Urbano VI, eleito no ano de 1378. Alexandre VI, reconhecido publicamente em Roma como pai dos cinco filhos de Rosa Vanozza, sua amante, foi submetido à mesma prova. Finalmente, ela subsistiu até o décimo sexto século, e Cressus, mestre de cerimônias de Leão X, refere no jornal de Paris todas as formalidades da prova das cadeiras furadas a que o pontífice foi submetido.
Leão X foi o último papa a ter de passar pela cerimônia de Puxação de saco.

Na semana que vem:

A Reconquista, os Princípios da Cavalaria Templária
E Marosia: gente que faz!

#ICAR

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-alcor%C3%A3o-e-a-papisa-joana

Aloogenes (Biblioteca de Nag Hamad)

(falta 5 linhas)

… pois são indivíduos perfeitos e habitam todos juntos, unidos à mente, e ao guardião que eu providenciei que te ensinou (sg.). E é o poder que existe dentro de você que muitas vezes se estendeu como palavra do Triplo-Poderoso, aquele de todos aqueles que realmente existem com o Imensurável, a Luz eterna do Conhecimento que apareceu, o Jovem virginal masculino, o primeiro dos Aeons de um único Aeon triplo-poderoso, o Triplo-Poder-Uno que realmente existe, pois quando ele se acalmou, foi estendido e quando ele foi estendido, ele se tornou completo e recebeu poder de todos eles. Ele conhece a si mesmo e ao perfeito Espírito Invisível. E ele veio para um Aeon que sabe que ela o conhece. E ela se tornou Kalyptos, que atuou naqueles que ela conhece. Ele é um Protophanes-Harmedon perfeito, invisível e noético. E capacitando os indivíduos, ela é um Tripo-Macho. E sendo individualmente…

(falta 5 linhas)]

… individual por um lado, eles estão juntos por outro, já que ela é uma existência deles, e ela vê todos eles também verdadeiramente. Ela contém os divinos Autogenes.

Quando ela conheceu sua Existência e quando ela se levantou, ela trouxe Este (masc.), já que ele viu todos eles existindo individualmente como ele é. E quando eles se tornarem como ele é, eles verão o divino Tríplice Macho, o poder que é maior que Deus. Ele é o Pensamento de todos estes que existem juntos. Se ele os pondera, ele pondera o grande […] macho noético Protophanes, a procissão destes. Quando o vê, vê também aqueles que realmente existem e a procissão dos que estão juntos. E quando ele viu isso, ele viu o Kalyptos. E se ele vê um dos escondidos, ele vê o Aeon de Barbelo. E quanto à descendência não-gerada d’Aquele, se alguém vir como ele vive…

(4 linhas faltando)…

você certamente já ouviu falar sobre a abundância de cada um deles.

Mas a respeito do invisível e espiritual triplo-poderoso, ouça! Ele existe como um Invisível que é incompreensível para todos eles. Ele os contém todos dentro de si, pois todos eles existem por causa dele. Ele é perfeito, e ele é maior que perfeito, e ele é abençoado. Ele é sempre Um e existe em todos eles, sendo inefável, inominável, sendo Aquele que existe através de todos – aquele a quem, se alguém o discernisse, não desejaria nada que exista antes dele entre aqueles que possuem existência, pois ele é a fonte de onde todos foram emitidos. Ele é anterior à perfeição. Ele era anterior a toda divindade, e é anterior a toda bem-aventurança, pois provê todo poder. E ele é uma substância não-substancial, pois é um Deus sobre o qual não há divindade, cuja grandeza e beleza transcendem…

(falta 5 linhas)

… potência. Não é impossível para eles receberem uma revelação dessas coisas, se elas se juntarem. Como é impossível para os indivíduos compreender o Uno Universal situado no lugar que é mais alto que o perfeito, eles apreendem por meio de um Primeiro Pensamento – não como Ser sozinho, mas é junto com a latência da Existência que ele confere o Ser. Ele fornece tudo para si mesmo, pois é ele que virá a ser quando se reconhecer. E ele é Aquele que subsiste como causa e fonte do Ser, e um material imaterial e um número inumerável e uma forma informe e uma forma informe e uma impotência e um poder e uma substância insubstancial e um movimento imóvel e uma atividade inativa. No entanto, ele é um provedor de provisões e uma divindade da divindade – mas sempre que eles apreendem, eles participam da primeira Vitalidade e de uma atividade indivisa, uma hipóstase do Primeiro daquele que realmente existe. E uma segunda atividade […] porém, é a […]. Ele é dotado de bem-aventurança e bondade, porque quando é reconhecido como o atravessador da imensidão do Espírito Invisível que nele subsiste, ela (a ilimitação) o volta a ele (o espírito invisível) para que saiba o que é dentro dele e como ele existe. E ele estava se tornando salvação para todos, sendo ponto de partida para aqueles que realmente existem, pois por meio dele perdurava seu conhecimento, pois é ele quem sabe o que é. Mas eles não trouxeram nada além de si mesmos, nem poder, nem posição, nem glória, nem aeon, pois todos são eternos. Ele é Vitalidade e Mentalidade e Isso-Que-É. Pois então Aquilo-Que-É constantemente possui sua Vitalidade e Mentalidade, e a Vida tem Vitalidade possui não-Ser e Mentalidade. A mentalidade possui Vida e Isso-Que-É. E os três são um, embora individualmente sejam três.

Agora depois que eu ouvi essas coisas, meu filho Messos, eu fiquei com medo, e me virei para a multidão […] pensamento […] dá poder àqueles que são capazes de saber essas coisas por uma revelação que é muito maior . E eu era capaz, embora a carne estivesse sobre mim. Eu ouvi de você sobre essas coisas e sobre a doutrina que está nelas, pois o pensamento que está em mim distingiu as coisas que estão além da medida, bem como o incognoscível. Portanto, temo que minha doutrina possa ter se tornado algo além do que é adequado.

E então, meu filho Messos, o Todo-Glorioso, Youel, falou comigo novamente. Ela fez uma revelação para mim e disse: “Ninguém é capaz de ouvir essas coisas, exceto os grandes poderes, ó Allogenes. Um grande poder foi colocado sobre você, o qual o Pai do Todo, o Eterno, colocou sobre você antes de você vim para este lugar, para que você possa distinguir as coisas que são difíceis de distinguir e as coisas que são desconhecidas da multidão que você conhece, e para que você possa escapar (em segurança) para Aquele que é seu, que foi o primeiro salvar e quem não precisa ser salvo…

(falta 5 linhas)

… para você uma forma e uma revelação do invisível, espiritual, triplo-poderoso, fora do qual reside um conhecimento indiviso, incorpóreo e eterno.

Como todos os Aeons, o Aeon de Barbelo existe também dotado dos tipos e formas daqueles que realmente existem, a imagem de Kalyptos. E dotado da Palavra intelectual destes, ele carrega o noético Protophanes masculino como uma imagem, e age dentro dos indivíduos, seja com habilidade ou habilidade ou com instinto parcial. Ele é dotado dos divinos Autogenes como uma imagem, e conhece cada um deles. Ele age separada e individualmente, continuando a retificar as falhas da natureza. Ele é dotado do divino Homem Triplo como salvação para todos eles, em cooperação com o Espírito Invisível. Ele é uma palavra de um conselho, <ele> é o Jovem perfeito. E essa hipóstase é uma…

(faltam 6 linhas)

… minha alma se afrouxou, e fugi e fiquei muito perturbado. E me virei e vi a luz que me cercava e o Bem que estava em mim, tornei-me divino.

E a Todo-Gloriosa, Youel, me ungiu novamente e ela me deu poder. Ela disse: “Já que sua instrução se tornou completa, e você conheceu o Bem que está dentro de você, ouça sobre o Triplo-Poder essas coisas que você guardará em grande silêncio e grande mistério, porque elas não são ditas a ninguém, exceto aqueles que são dignos, aqueles que são capazes de ouvir: nem é apropriado falar a uma geração sem instrução sobre o Universal que é mais alto que perfeito. em bem-aventurança e bondade, Aquele que é responsável por tudo isso.

“Existe dentro dele muita grandeza. Na medida em que ele é um em um…

(falta 5 linhas)

… do Primeiro Pensamento, que não se afasta daqueles que habitam na compreensão e no conhecimento e na compreensão. E Aquele Movia-se imóvel naquilo que governa, para não afundar no ilimitado por meio de outra atividade da Mentalidade. E ele entrou em si mesmo e apareceu, sendo todo-abrangente, o Universal que é mais alto que perfeito.

“De fato, não é por mim que ele é tão anterior ao conhecimento. Enquanto não há possibilidade de compreensão completa, ele é (no entanto) conhecido. E isso por causa do terceiro silêncio da Mentalidade e da segunda atividade indivisa que apareceu no Primeiro Pensamento, isto é, o Aeon de Barbelo, junto com o Indivisível das semelhanças divisíveis e o Triplo-Poder e a Existência não-substancial.”

<Então> o poder apareceu por meio de uma atividade que está em repouso e silenciosa, embora emitisse um som assim: zza zza zza. Mas quando ela (Youel) ouviu o poder e ela se encheu…
(falta 5 linhas)

… “Tu és […], Solmis! […] de acordo com a Vitalidade que é tua, e a primeira atividade que deriva da divindade. Tu és grande, Armedon! Tu és perfeito, Epifânio!

“E de acordo com essa tua atividade, o segundo poder e a mentalidade que deriva da bem-aventurança: Autoer, Beritheus, Erigenaor, Orimenios, Aramen, Alphleges, Elelioupheus, Lalameus, Yetheus, Noetheus, tu és grande! Um Universal! Tu és Um, tu és Um, Aquele que é bom, Aphredon! Tu és o Aeon dos Aeons, Aquele que é perpetuamente!”

Então ela elogiou o Universal, dizendo “Lalameus, Noetheus, Senaon, Asine[us, …]riphanios, Mellephaneus, Elemaoni, Smoun, Optaon, Aquele que é! Tu és Aquele que é, o Aeon dos Aeons, o Incriado , que és superior aos não-gerados (os), Yatomenos, tu sozinho para quem todos os não-nascidos foram gerados, o Inominável! … (10 linhas faltando) … conhecimento.”

Agora, depois de ouvir essas coisas, vi as glórias dos indivíduos perfeitos e dos todos-perfeitos que existem juntos, e dos todos-perfeitos que estão diante dos perfeitos.

Novamente o grandemente glorioso, Youel, me disse: “Ó Allogenes, em um conhecimento desconhecido, você sabe que o Triplo Poderoso existe antes das glórias. Eles não existem entre aqueles que existem. Eles não existem junto com aqueles que existem nem aqueles que realmente existem, mas todos eles existem como divindade e bem-aventurança e existência, e como existência não-substancial e não-ser”.

E então orei para que a revelação me ocorresse. E então o todo-glorioso, Youel, me disse: “Ó Allogenes, é claro, o Triplo-Macho é algo além da substância. Ainda que ele fosse insubstancial…

(9 linhas faltando)

… aqueles que existem em associação com a geração daqueles que realmente existem. Os autogerados existem com o Triplo-Macho.

“Se você buscar com uma busca perfeita, então você conhecerá o Bem que está em você; então você também conhecerá a si mesmo, (como) aquele que deriva do Deus que realmente preexiste. Pois depois de cem anos haverá venha a você uma revelação Daquele por meio de Salamex e Sêmen e […] os Luminares do Aeon de Barbelo. E que além do que é adequado para você, você não saberá a princípio, para não perder sua E se assim for, então quando você recebe uma concepção d’Aquele, então você é preenchido com a palavra até a perfeição. Então você se torna divino, e você se torna perfeito. Você os recebe…
(4 linhas faltando)

… a busca […] a Existência […] se ela apreende alguma coisa, é apreendida por aquele e por aquele que é compreendido. E então torna-se maior aquele que compreende e sabe do que aquele que é compreendido e conhecido. Mas se ele desce à sua natureza, ele é menor, pois as naturezas incorpóreas não estão associadas a nenhuma magnitude; tendo esse poder, eles estão em toda parte e em parte alguma, pois são maiores que toda grandeza e menores que toda exiguidade”.

Agora depois que o Todo-Glorioso, Youel, disse estas coisas, ela se separou de mim e me deixou. Mas não me desesperei com as palavras que ouvi. Eu me preparei para isso e deliberei comigo mesmo por cem anos. E regozijei-me muito, pois estava em uma grande luz e um caminho abençoado, porque aqueles que eu era digno de ver, bem como aqueles que eu era digno de ouvir (são) aqueles a quem convém que somente as grandes potências… (5 linhas faltando) … de Deus.

Quando a conclusão dos cem anos se aproximava, isso me trouxe a bem-aventurança da esperança eterna cheia de auspiciosidade. Eu vi o bom divino Autogenes; e o Salvador, que é o jovem e perfeito Menino Triplo; e sua bondade, o perfeito noético Protophanes-Harmedon; e a bem-aventurança dos Kalyptos; e a origem primária da bem-aventurança, o Aeon de Barbelo, cheio de divindade; e a origem primária daquele sem origem, o espiritual, invisível, Triplo-Poderoso, o Universal que é mais elevado que perfeito.

Quando eu fui tirado pela luz eterna do manto que estava sobre mim, e levado para um lugar santo cuja semelhança não pode ser revelada no mundo, então por meio de uma grande bem-aventurança eu vi todos aqueles sobre os quais eu tinha ouvi. E eu louvei todos eles e eu permaneci no meu conhecimento e me inclinei para o conhecimento dos Universais, o Aeon de Barbelo.

E eu vi poderes sagrados por meio dos Luminares do macho virginal Barbelo me dizendo que eu seria capaz de testar o que acontece no mundo: e, buscando a si mesmo, retire-se para a Vitalidade que você verá se mover. E embora seja impossível para você ficar de pé, não tema nada; mas se você quiser ficar de pé, retire-se para a Existência, e você a encontrará de pé e em repouso depois a semelhança daquele que está verdadeiramente em repouso e (que) abraça tudo isso silenciosa e inativa. E quando você recebe uma revelação dele por meio de uma revelação primária do Desconhecido – Aquele que se você o conhecesse, ignorante dele – e você fica com medo naquele lugar, retire-se para trás por causa das atividades. E quando você se tornar perfeito naquele lugar, fique quieto. E de acordo com o padrão que habita em você, saiba também que é assim em todos esses (assuntos) após este tapinha andorinha E não se dissipe mais, para que possa ficar de pé, e não deseje ser ativo, para que não caia de forma alguma da inatividade em você do Desconhecido. Não o conheça, pois é impossível; mas se por meio de um pensamento iluminado você deve conhecê-lo, ignore-o.”

Agora eu estava ouvindo estas coisas enquanto aqueles as falavam. Havia dentro de mim uma quietude de silêncio, e ouvi a bem-aventurança pela qual eu conhecia meu próprio eu.

E eu me retirei para a Vitalidade enquanto eu buscava a mim mesmo, e me juntei a ela, e fiquei, não com firmeza, mas em silêncio. E eu vi um movimento eterno, intelectual e indiviso que pertence a todos os poderes sem forma, (que é) ilimitado por limitação.

E quando quis ficar firme, retirei-me para a Existência, que encontrei parada e em repouso, como imagem e semelhança do que me é conferido por uma revelação do Indivisível e do que está em repouso. Eu estava cheio de revelação por meio de uma revelação primária do Incognoscível. Como se eu o ignorasse, eu o conhecia e recebi poder por ele. Tendo sido permanentemente fortalecido, eu conheci Aquele que existe em mim, e o Triplo-Poder, e a revelação de sua inconsistência. E por meio de uma revelação primária do Primeiro Incognoscível para todos eles, o Deus que está além da perfeição, eu o vi e o Triplo-Poder que existe em todos eles. Eu estava procurando o Deus inefável e Incognoscível – que se alguém o conhecesse, ele seria absolutamente ignorante dele – o Mediador do Triplo-Poder que subsiste em quietude e silêncio e é incognoscível.

E quando eu fui confirmado nestas coisas, os poderes dos Luminares me disseram: “Cessa de impedir a inatividade que existe em você, procurando coisas incompreensíveis; antes, ouça sobre ele na medida do possível por meio de um primeiro revelação e uma revelação.”

“Agora ele é algo na medida em que ele existe no que ele existe e se tornará, ou age ou sabe, embora ele viva sem Mente ou Vida ou Existência ou Não-Existência, incompreensivelmente. E ele é algo junto com seu próprio ser. não sobra de alguma forma, como se ele entregasse algo que é ensaiado ou purificado ou que recebe ou dá. ele tem qualquer desejo de si mesmo ou de outro; isso não o afeta. Antes, ele não dá nada por si mesmo, para que não se torne diminuído em outro aspecto; nem por isso ele precisa da Mente, ou da Vida, é de fato algo em Ele é superior aos Universais em sua privação e incognoscibilidade, isto é, a existência do não-ser, pois é dotado de silêncio e quietude para que não seja diminuído por aqueles que não são diminuídos.

“Ele não é nem divindade, nem bem-aventurança, nem perfeição. Pelo contrário, (esta tríade) é uma entidade incognoscível dele, não aquilo que lhe é próprio; antes, ele é outro superior à bem-aventurança e à divindade e à perfeição. Pois ele não é perfeito, mas é outra coisa que é superior. Ele não é ilimitado, nem é limitado por outro. Ao contrário, ele é algo superior. Ele não é corpóreo. Ele não é incorpóreo. Ele não é grande. Ele não é pequeno, não é um número, não é uma criatura, nem é algo que existe, que se possa conhecer, mas é outra coisa de si mesmo que é superior, que não se pode conhecer.

“Ele é a revelação e o conhecimento primários de si mesmo, pois só ele se conhece. Como ele não é um dos que existem, mas é outra coisa, ele é superior aos superlativos, mesmo em comparação com o que é seu e não seu. Ele não participa da idade nem participa do tempo. Ele não recebe nada de mais nada. Ele não é diminuído, nem diminui nada, nem é indefinível. Mas ele é autocompreensível, como algo tão incognoscível que ele excede aqueles que se destacam na incognoscibilidade.

“Ele é dotado de bem-aventurança e perfeição e silêncio – não <a bem-aventurança> nem a perfeição – e quietude. Em vez disso (esses atributos) é uma entidade dele que existe, que não se pode conhecer, e que está em repouso. Em vez disso, eles são entidades dele incognoscíveis para todos eles.

“E ele é muito mais belo em beleza do que todos aqueles que são bons, e ele é, portanto, incognoscível para todos eles em todos os aspectos. E através de todos eles ele está em todos eles, não apenas como o conhecimento incognoscível que lhe é próprio. E ele está unido à ignorância que o vê. Quer se veja de que maneira ele é incognoscível, ou o veja como ele é em todos os aspectos, ou diga que ele é algo como conhecimento, ele pecou contra ele, sendo sujeito a julgamento porque não conheceu a Deus. Ele não será julgado por Aquele que não está preocupado com nada nem tem qualquer desejo, mas (julgamento) vem de si mesmo, porque ele não encontrou a origem que realmente existe Ele era cego, fora o olho da revelação que está em repouso, o (um) que é ativado, o (um) do Triplo-Poder do Primeiro Pensamento do Espírito Invisível. Este, portanto, existe de …
(falta 15 linhas)
… algo […] fixado firmemente no […], uma beleza e uma primeira emergência de quietude e silêncio e tranquilidade e grandeza insondável. Quando ele apareceu, ele não precisou de tempo nem <participou> da eternidade. Em vez disso, ele é insondavelmente insondável. Ele não se ativa para ficar quieto. Ele não é uma existência, para que não passe necessidade. Espacialmente, ele é corpóreo, enquanto propriamente é incorpóreo. Ele tem existência de não-ser. Ele existe para todos eles para si mesmo sem qualquer desejo. Mas ele é um cume maior de grandeza. E ele é mais alto que sua quietude, para que…

(falta 15 linhas)

… ele os viu e os capacitou a todos, embora eles não se preocupem com Aquele, nem, se alguém receber dele, ele recebe poder. Nada o ativa de acordo com a Unidade que está em repouso. Pois ele é incognoscível; ele é sem laço de infinitude. Já que ele é ilimitado e impotente e inexistente, ele não estava dando o Ser. Em vez disso, ele contém tudo isso em si mesmo, estando em repouso (e) destacando-se daquele que permanece continuamente, uma vez que apareceu uma Vida Eterna, o Espírito Invisível e Triplo-Poder que está em todos estes que existem. E envolve todos eles, sendo mais alto do que todos eles. Uma sombra …

(falta 15 linhas)

… ele estava cheio de poder. E ele estava diante deles, capacitando-os a todos, e encheu a todos”.

E a respeito de todas essas coisas você certamente ouviu. E não procure mais nada, mas vá. Não sabemos se o Incognoscível tem anjos ou deuses, ou se Aquele que está em repouso continha algo dentro de si, exceto a quietude, que é ele, para que não seja diminuído. Não é apropriado gastar mais tempo procurando. Era apropriado que você (pl.) soubesse, e que eles falassem com outro. Mas você vai recebê-los…

falta 5 linhas)

… e ele me disse: “Escreve as coisas que eu te direi, e das quais eu te lembrarei, por causa daqueles que serão dignos depois de você. E você deixará este livro sobre uma montanha e você vai adjurar o guardião: “Vem Terrível”.

E depois que ele falou essas (coisas), ele se separou de mim. Mas eu estava cheio de alegria e escrevi este livro que foi designado para mim, meu filho Messos, para que eu pudesse revelar a você as (coisas) que foram proclamadas diante de mim na minha presença. E a princípio eu os recebi em grande silêncio, e fiquei sozinho, preparando-me. Estas são as coisas que me foram reveladas, ó meu filho Messos…
(falta 13 linhas)

… proclame-os, ó meu filho Messos, como o selo para todos os livros de Allogenes.

 

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/aloogenes-biblioteca-de-nag-hamad/

A Escola de Elêusis

Os mais antigos mistérios gregos parecem ser os de Elêusis, pequena povoação, hoje Lefsina, do noroeste de Atenas, pois eles datam dos tempos pré-micênicos, como o demonstram as pesquisas arqueológicas realizadas no local.

Um hino homérico do século VII antes da nossa era conta, sob a forma de lenda, a fundação do santuário.

Zeus e a deusa mãe Deméter tinham uma filha querida, Cora, que um dia foi raptada por Hades, deus dos Infernos.

Deméter, louca de dor, procurou a filha por toda a parte, mas em vão, certa vez, disfarçada de velha, foi recolhida na corte do rei Chélios e pediu para beber uma mistura de cevada, água e erva-dormideira. Atenderam ao seu desejo. Como agradecimento, ela encarregou-se de cuidar do filho recém-nascido da rainha e, para torná-lo imortal, ungia-o de dia com ambrósia e à noite submetia-o às chamas purificadoras de um fogo sagrado.

A rainha, surpreendendo este ritual, ficou deveras assustada, mas então a deusa revelou-lhe a sua identidade: «Sou», disse, «Deméter, a Venerada, a que regenera os homens e faz crescer as plantas. É meu desejo que se erga aqui um templo onde eu própria ensinarei os mistérios.»

Em seguida, desapareceu, deixando atrás de si uma claridade divina e os aromas maravilhosos de todas as flores da Primavera.

Zeus acabou por conceder a sua esposa o privilégio de tornar a ver Cora durante um terço do ano, ficando outro terço reservado a Hades que desposara aquela que ele raptara.

É este o primeiro mito de Perséfone.

Tranqüilizada, Deméter revelou aos soberanos de Elêusis: Triptoleme, Diocles, Emuope e Cheleos, os mitos que viriam a tornar-se célebres (Existem tantas versões como autores).

Alguns dão um lugar quase primordial a Dioniso, ou Baco (o deus Soma dos Arianos = bebida de iniciação), o que bastante associa os Mistérios aos mais antigos cultos arianos da Gália e das Índias.

Noutra versão, dada por Clemente de Alexandria, o Mistério começa com Afrodite (Vênus) e os Coribantas, ou Cabiros. Uma descrição da cena da bebida pedida por Deméter esclarece o rito do cesto (cofre) na tradição completamente falsificada.

Eis o texto de Clemente de Alexandria, que torna ridículo o que ele considera uma fábula de mau gosto:

«Contudo, Baubo (a rainha) recebe Deo (Deméter) na sua casa e apresenta-lhe a bebida chamada cyceon. Mas a deusa, dominada pela dor, afasta a taça e recusa-se a beber. Então Baubo, triste com este desprezo, despe-se e mostra-se em toda a sua nudez.

«Este gesto alegra a deusa e a vontade de rir que ela sente decide-a a tomar a bebida!

«Eis pois o que Atenas esconde nos seus mistérios, não o negueis, viso que tenho a meu favor a descrição feita por Orfeu.

«Citar-vos-eis os seus versos a fim de reproduzir, contra essa infâmia, o testemunho do próprio mistagogo: «Proferindo estas palavras, ela ergueu a sua túnica e desnudou as partes baixas do seu corpo, que se escondem aos olhares; a seu lado estava o pequeno Iaco que, com a mão, acariciava, rindo, a parte inferior do seio de Baubo; ao ver isto, Deo teve vontade de rir, e ela pegou então na taça decorada com pinturas na qual deitara o cyceon.»

«Eis um espetáculo admirável e muito conveniente para uma deusa!…

«Não há nada mais ímpio do que os mistérios… é uma lei sem valor, uma opinião vã, e o mistério do dragão não passa de uma mentira, como o resto.

«A iniciação que se lhe associa é o contrário da iniciação verdadeira.»

É certo que Clemente de Alexandria (160 D. C.) era um filósofo grego cristão e parcial por princípio, contudo não podemos senão aprovar as suas conclusões.

Incontestavelmente, os mistérios egípcios, há 4.000 anos, e os mistérios gregos, há 2.000 anos, eram paródias da iniciação autêntica, dos conhecimentos que a classe sacerdotal tinha completamente esquecido.

Daremos, adiante, um apanhado dos ritos de Elêusis, mas há boa razões para se crer que o mistério do cofre, tornado simples cesto, se referia a um falo de madeira ou de pedra, e a uma vulva, consistindo o «trabalho» na introdução de um na outra.

Compreende-se então toda a ironia do bom Clemente de Alexandria, num século em que o cristianismo, novinho em folha, não era senão pureza e espírito de sacrifício!

Aliás, devemos recordar-nos de que os Gregos eram fundamentalmente anti-religiosos, dando que a sua mitologia não era, em suma, mais do que uma sucessão de relações licenciosas, de incestos, de adultérios, de raptos e de outras brincadeiras de velhos guerreiros e de deuses olímpicos!

Na lenda de Elêusis, a aventura inicia-se com uma nota escabrosa: « Júpiter uniu-se a Deo, sua própria mãe, e depois a Prosérpina, sua filha. depois de tê-la gerado, desflorou Core.»

A propósito de um desses objetos encerrados no cesto, o falo, o bom Clemente indigna-se!

Evidentemente, ele ignorava que a sua própria religião cristã iria venerar a virgem de Airão, a amêndoas mística em forma de vulva irradiante que envolve as imagens da Virgem.

Amadores do erotismo, estetas e incrédulos por natureza, os Gregos tiravam o caráter sagrado às divindades integrando-as nas fábulas, como se, sabendo que os deuses tinham sido simples anjos iniciadores de forma humana, viris e por vezes sem escrúpulos, tivesse sido sacrílego assimilá-los a criaturas celestes…

O que, de resto, também não teria sido sério!

Para mais, o Olimpo dos Gregos era terrestre e tudo estava genialmente imaginado para atrair os deuses à Terra e abolir a distância que os separava dos mortais. Neste estado de espírito, a iniciação não podia ter um caráter religioso, pelo menos nas épocas historicamente conhecidas.

Os mistérios de Elêusis eram fundamentalmente os mesmos que os de Delos, consagrados a Apolo, e os de Samotrácia, dedicados aos Cabiros.

Em todos eles eram transmitidos os segredos dos Iniciadores vindos do céu, a sua identidade, a crença em outra pátria situada em uma estrela, a ciência da astronomia, da física, da química, dos encantamentos, da serpente voadora, do dilúvio, a lei infringível da preservação do patrimônio biológico humano e a necessidade de uma transmissão secreta.

Tais foram os segredos iniciais dos Mistérios, disto temos a certeza absoluta.

É de notar que, como acontecia com os Celtas (e no livro de Enoch), a iniciação a Elêusis é dada por uma mulher: Deméter, com o ritual da bebida mágica: ambrósia ou cyceon.

Os Druidas Eumolpe e Musée, que foram grandes Mestres, ensinavam, de preferência, mulheres.

Consideram-se por vezes os Mistérios de Elêusis como provenientes dos Mistérios Cabiros Fenícios, os quais descendiam dos Mistérios Druidas votados a Taliesin, filho de Korrigan ou Gwyon, e de Koridwen.

No rito, o «cofre» tinha dupla importância: intrínseca, primeiro, e depois por encerrar o segredo «dos objetos».

Como os mistérios foram instituídos para transmitir o conhecimento depois do dilúvio julgamos que o cofre representava a arca, o barco que salvou alguns seres humanos.

Nos arredores de Roma, em 1696, descobriu-se um vaso que tinha a forma de um pequeno barril. Datava de uma época grega muito antiga, e continha vinte casais de animais e mais de trinta e cinco figurinhas humanas, todas elas na postura de pessoas que procuram escapar a uma inundação. As mulheres eram representadas aos ombros dos homens.

Pensa-se que este vaso servia para as festas chamadas Hidroforias, as quais, segundo Apolônius citado por Suedas, se celebravam em memória dos que tinham perecido no dilúvio.

Vasos semelhantes teriam servido nos mistérios de Elêusis.

Tudo isto se tornou bastante compreensível, muito razoável para o nosso espírito de homens do século XXI, mas há dois ou três mil anos a Criação do Mundo (Omphalos), a refração da luz e as funções da glândula pineal constituíam mistérios tão grandes que só os iniciados os conheciam, não sendo conveniente revelá-los à «maioria».

Os ritos Eleusinianos do período decadente eram tidos pelos sacerdotes tanto mais secretos quanto a Verdade é que em nada os compreendiam. Assim, entendiam ser indispensável, para manter uma aparência de dignidade, adotar ares misteriosos e dar aos objetos um significado nebuloso.

As Eleusínias, celebradas, originalmente, de cinco em cinco anos, tinham por oficiantes os sacerdotes, ou Hierofantes, e as sacerdotisas, ou Tisíades, coroadas de mirto e portadoras de uma chave, símbolo dos mistérios.

Decorriam durante, pelo menos, duas semanas, sendo nove os dias principais:

1º – dia da reunião dos neófitos.

2º – chamado «alaze, mystoï» (para o mar, mistos!): purificação pela água.

3º – jejum = preparava-se o leito nupcial da virgem divina. À noite, interrompia-se o jejum comendo bolos de cevada e dormideira, e bebia-se cyceon, bebida sagrada.

4º – procissão do calathus (cesto).

5º – dia dos archotes, com procissão noturna.

6º – dia da partida de Atenas para junto de Elêusis. Cultos de Ceres, de Iaco e de Dionísio.

7º – dia do regresso ao templo, com cerimônias da figueira sagrada e brincadeiras da ponte. Esta ponte era a Cephise, por onde passava a procissão por entre a gozação e brincadeiras maliciosas da multidão. Aliás, a procissão tomava parte nelas.

8º – Cerimônias dedicadas a Esculápio que, em tempos tendo chegado nesse dia a Atenas, vindo de Epidauro, depois das cerimônias, foi iniciado à noite, costume que se perpetuou para todos os que se encontravam nas mesmas circunstâncias.

9º – e último dia, chamado plémochoé, do nome de dois vasos que se enchiam de vinho colocando-os um a ocidente e outro a oriente. Depois do que eram quebrados, ao mesmo tempo que se pronunciavam palavras mágicas.

O sentido deste símbolo é claro: «O conhecimento (os vasos) vinha do ocidente através dos Pélagos – Celtas, e do Oriente, pelos indo-europeus e os Persas. Os vasos podem ser partidos, a sabedoria foi já transmitida ao iniciado.»

As Eleusínias celebravam-se na Primavera e no Outono, os dois períodos de sementeira dos grãos, correspondentes aos pequenos e grandes Mistérios obrigatórios para todos os iniciados.

Existia também um grau superior, a Epóplia ou Autópsia (do grupo autos = ele próprio, e opsis = vista), isto é, visão interior, êxtase, pondo em comunicação com Deus e buscando um poder paranormal.

A iniciação era pois dada no templo de Deméter, situado no lado da colina, sob uma fonte; a entrada do santuário era proibida aos profanos, sob pena de morte.

O jejum incidia principalmente sobre a carne de aves domésticas, peixe, favas, romãs e maçãs (fruta do conhecimento).

Os Hierofantes a fim de melhor suportarem a abstinência, tinham autorização para beber sumo de cicuta (a cicuta é um veneno, mas dosada, possui virtudes medicinais e alucinógenas).

Na ilha de Céos, no mar Egeu, na antigüidade, os anciães inúteis à pátria deixavam habitualmente a vida bebendo cicuta.

Perto do fogo do sacrifício estava «o filho do lar», que tinha de ser de puro sangue ateniense, nos últimos tempos, iniciavam-se os homens, as mulheres e as crianças, com excepção dos bárbaros, dos assassinos, e dos cristãos.

Os ritos misteriosos tinham lugar durante vigílias sagradas, em Elêusis: percursos nas trevas, provas de terror e de ansiedade, visões de objetos aterradores, vozes misteriosas e desconhecidas, e depois fulgor e fantasmas que desapareciam por alçapões… numa palavra, todo o arsenal bem conhecido da Iniciação!

O momento mais importante e sem dúvida o menos afastado da verdade primitiva era o confronto dos objetos misteriosos e a revelação das palavras sagradas.

Clemente de Alexandria dá um resumo desses Mistérios:

«Eis», diz, «na fórmula Eleusiana: jejuei, bebi cicuta, peguei no que havia dentro do cesto e, depois do meu trabalho, coloque tudo na bolsa; em seguida, pegando outra vez naquelas coisas, coloque-as dentro do cesto.»

A cicuta não é a bebida simples reclamada por Deméter: água, cevada, dormideira, embora semelhante mistura se revele, a priori, nitidamente alucinógena.

Segundo os autores antigos, essa bebida compunha-se principalmente de cevada primitiva, leite, mel, azeite ou vinho, mas há tantas receitas quantos os autores!

Aquele que a bebia devia adquirir o conhecimento do passado e responder de às perguntas do Hierofantes.

Quanto aos «objetos misteriosos» encerrados no cofre, temos uma lista que certamente seria maior ainda com a superstição, a ignorância dos sacerdotes e a deturpação do segredo inicial: as seis cores do arco-íris, as seis plantas «eficazes», um falo, uma vulva, um Omphalos (ovos primordial), uma serpente (a iniciadora), trigo, mel, uma pinha (símbolo da glândula pineal, ou 3º olho), um torrão de terra, um «maná» e os xoanon (Parece haver uma aproximação etimológica a fazer-se entre o xoana, pedra negra, e o xoarcam, o primeiro dos cinco paraísos da mitologia hindu. No xoarcam, trinta e três milhões de deuses e quarenta e oito mil penitentes julgados dignos da felicidade vivem uma existência paradisíaca entre mulheres maravilhosamente belas, sensuais e sábias) pedras negras milagrosamente caídas do céu no reinado de Cécrops e às quais estava ligada a fortuna de Atenas.

A tudo isto acrescentar-se-iam ainda os bustos de deuses e deusas, «ídolos de madeira mal talhados», dizia Tertuliano, dos quais alguns estavam enlaçados por serpentes, comemorando assim a união fecunda das mulheres terrestres com os Iniciadores do Céu. A manipulação desses objetos devia, na crença geral, transmitir as forças misteriosas que os habitavam e estabelecer uma espécie de filiação divina.

Uma Iniciação era custeada pelo neófito devido aos custos da Escola e custava trinta dracmas, mais um porco e ainda uma gratificação aos Sacerdotes de Elêusis.

Flávio Lins

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-escola-de-eleusis/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-escola-de-eleusis/

A Deusa Demeter e os Mistérios Eleusis

Acredita-se que o culto à Deméter tenha sido trazido à Grécia vindo de Creta durante o período micênico, carregando consigo o seu nome.. Sendo assim, ela é descendente direta da Deusa-Mãe cretense, que com suas virgens e sacerdotisas, empunhavam serpentes e prestavam culto ao touro. Neste caso, podemos afirmar que Deméter representaria a sobrevivência da religião e dos valores matriarcais durante a cultura patriarcal guerreira dos gregos clássicos.

O hino homérico relata que ela teria chegado a Eleusis disfarçada de anciã, na época em que as pessoas vinham do outro lado do mar, de Creta.

A filha de Deméter, Perséfone, também nasceu em Creta, e a lenda arcaica da união de Zeus, em forma de serpente, com sua filha também teve lugar em Creta. O filho que nasceu dessa união foi Dionísio. As coincidências demonstram que existe uma conexão entre a Deméter documentada em Creta e a que é conhecida na Grécia.

Na Grécia antiga, Deméter era responsável por todas as formas de reprodução da vida, mas principalmente da vida vegetal, o que lhe rendeu o título de “Senhora das Plantas”, “A Verde”, “A que atrai o fruto” e “A que atri as estações”. As pessoas a honravam ao usar guirlandas de flores enquanto marchavam pelas ruas, geralmente descalças. Acreditava-se que pisar na terra descalço aumentava a comunicação entre os humanos e a Deusa.

Para os gregos, Deméter era a criadora do tempo e a responsável por sua medição em todas as formas. Seus sacerdotes eram conhecidos como Filhos da Lua.

Outro vestígio da antiga consciência matriarcal da Deusa-Mãe, foi transmitido na devoção católica popular da Virgem Maria entre os povos do Mediterrâneo. Quase certamente há uma continuidade psíquica entre Maria, a Mãe de Deus, as antigas deusas da Grande Mãe no Mediterrâneo e no Oriente Próximo e a deusa Deméter. Mas embora se conheça muitas representações medievais de Maria com cereais e flores, ela não possui o poder emocional das antigas Mães da Terra e suas filhas.

Deméter era a protetora das mulheres e uma divindade do casamento, maternidade, amor materno e fidelidade. Ela regia as colheitas, o milho, o arado, iniciações, renovação, renascimento, vegetação, frutificação, agricultura, civilização, lei, filosofia da magia, expansão, alta magia e o solo.

O RAPTO DE PERSÉFONE

Quando falamos de Deméter, devemos falar de duas Deusas. O cerne do mito e do culto a Deméter, era o fato dela ter perdido sua adorada filha Coré (donzela, em grego). A intimidade entre mãe e filha ressalta o caráter profundamente feminino dessa religião e constelação mitológica. Coré mais tarde passa a ser conhecida como Perséfone.

O mais antigo documento que narra este mito é o belo “Hino à Deméter” homérico, que nos fala tanto da Deusa Deméter como de sua filha Coré. O objetivo deste poema é explicar a origem dos mistérios de Elêusis.

A jovem Coré, diz a narrativa, encontrava-se colhendo flores, quando foi atraída por um narciso muito belo, mas ao estender a mão para pegá-lo, a terra se abriu e Plutão (Hades), Senhor dos Mortos, em sua carruagem de ouro puxada por dois cavalos negros, arrebatou-a e levou-a para ser sua noiva e Rainha do Subterrâneo. Coré lutou e gritos, mas nem os deuses imortais como os homens mortais, ouviram seus clamores. Deméter só pode ouvir o eco do apelo de sua filha e então apressou-se para encontrá-la. Procurou sua filha por nove dias e nove noites, não parando para comer, dormir ou banhar-se, só andando errante pela terra, carregando em suas mãos tochas acesas. Porém quando se apresentou pela décima vez a Aurora, encontrou-se com Hécate, Deusa da Lua Escura, que lhe diz:

–“Soberana Deméter, dispensadora das estações, de esplendidos dons, quem dos deuses celestes ou dos homens mortais raptou Perséfone e afligiu teu animo? Ouvi a sua voz, porém não vi com meus olhos quem era. Em breve vamos desfazer esse engano”.

Assim falou Hécate que partiu com Deméter, levando em suas mãos as tochas acesas. As duas então chegaram até Hélio, o deus do sol, que compartilha esse título com Apolo e a mãe aflita perguntou:

-“Sol, respeita-me tu ao menos, como Deusa que sou…A filha que pari, encantadora por sua figura…ouvi sua vibrante voz através do límpido éter, como a de quem se vê violentada, mas não a vi com meus olhos. Porém tu que sobre toda a terra e por todo o mar diriges desde o éter divino a olhar de teus raios, diga-me sem enganos se teria visto a minha filha querida em alguma parte; quem dos deuses ou dos homens mortais ousou capturá-la para longe de mim, contra sua vontade, pela força”.

Hélio então respondeu:

-“Filha de Rea, ..pois é grande o meu respeito e compaixão que sinto por ti, aflita como estás por tua filha de esbeltos tornozelos. Nenhum outro dos imortais é mais culpado que Zeus fazedor de nuvens, que a entregou à Hades para que se torne sua esposa…Assim que tu, Deusa, dá fim a teu copioso pranto. Nenhuma necessidade há de que tu, sem razão, guarde então um insaciável rancor.”

Deu a entender para a Deméter que ela deveria aceitar a violação de Perséfone, pois Hades, não era um genro tão sem valor, mas a Deusa não aceitou seu conselho e agora sentia-se traída por Zeus. Retirou-se do monte Olimpo, disfarçou-se de uma mulher anciã e vagou sem ser reconhecida entre as cidades dos homens e os campos. Um certo dia, ela se aproximou de Elêusis, sentou-se perto do poço Partenio e foi encontrada pelas filhas de Céleo, o governador de Elêusis. Quando Deméter disfarçada lhes revelou que procura um emprego de babá, ela a levaram para casa, à sua mãe Metanira, para cuidar do um irmãozinho chamado de Demofonte.

Sob os cuidados da Deusa, Demofonte criou-se como um deus. Ela o alimentou com ambrosia e secretamente o colocou em um fogo que o teria tornado imortal não tivesse Metanira entrado no local e gritado por medo do filho. Deméter reagiu com fúria, reclamou à Metanira por sua estupidez, e revelou sua verdadeira identidade. Ao mencionar seu nome mudou completamente seu visual revelando sua beleza divina. Seu cabelo dourado caiu pelas costas, e seu perfume e esplendor encheram a casa de luz.

Imediatamente Deméter ordenou que fosse construído um templo só seu e lá permaneceu envolta em sua dor e não permitindo que nada germinasse na terra.

Zeus, tendo conhecimento da situação enviou sua mensageira Íris até Deméter, pedindo que Deméter retornasse ao Olimpo. Como não concordou, um a um dos deuses olímpicos vieram até ela, trazendo dádivas e honras. Mas a cada um Deméter fez saber que de modo algum retornaria ao monte Olimpo, até que sua filha lhe fosse devolvida.

Finalmente Zeus resolve enviar seu mensageiro Hermes até Hades, ordenado-lhe que trouxesse Perséfone de volta para que “quando sua mãe a visse com seus próprios olhos, abandonasse a sua raiva”. Hermes ao chegar ao mundo de Hades, encontrou-o sentado próximo à Perséfone que se encontrava muito deprimida.

O Senhor dos Mortos, antes de libertar Perséfone, deu-lhe uma semente de romã para comer, o que faria com que ela voltasse para ele. Assim, foi-lhe permitido voltar para Deméter dois terços do ano e o restante do ano no mundo das trevas com Hades.

Com a satisfação de recuperar a filha perdida, Deméter fez com que os cereais brotassem novamente e com que toda a Terra se enchesse de frutos e flores. Imediatamente mostrou esta feliz visão aos princípios de Elêusis, Triptolemo, Diocles e ao próprio rei Celeo e, além disso, revelou-lhes seus sagrados ritos e mistérios.

O amor entre Deméter e Coré é um sentimento que somente uma mãe e uma filha podem realmente compartilhar. Não importa o quanto um pai ame e adore sua filha, jamais chegará perto do estreito vínculo que existe entre mãe e filha. Ao dar á luz, a mãe, vê a si mesma em pura inocência naquela pequena pessoinha. Jung nos diria que uma mãe vê em sua filha é a percepção de seu próprio “self” feminino transcendente, a perfeição do ser feminino.

Podemos afirmar, com convicção, segundo Carl Jung, que “em toda mãe já existiu uma filha e toda a filha contêm sua mãe” e que toda mulher se estende para trás em sua mãe e para frente em sua filha. A conscientização destes laços gera o sentimento de que a vida se estende ao longo de gerações e provocam a sensação de imortalidade.

ARQUÉTIPO MATERNAL

No momento que a mulher recebe em seus braços o seu bebê, o poder arquetípico de Deméter é plenamente despertado. As dores do parto, consideradas como uma transição iniciática, desaparecem e uma irradiação de amor demétrico tudo abrange. Estará aqui e agora desperta para uma nova fase de sua vida: ser mãe. Uma vez mãe, permanecerá sempre mãe, pois nada apaga a emoção de carregar um filho sob o coração.

O arquétipo da Mãe era representado no Olimpo por Deméter. Embora muitas Deusas tenham sido mães, nenhuma se compara à esta Deusa, pois ela deseja ser mãe. Quando está grávida ou criando seus filhos, Deméter atinge o ápice de sua plenitude enquanto mãe. Ela orgulhosamente proporcionou vida nova e novas esperanças à sua comunidade. No antigo simbolismo de seu ciclo, ela corporifica agora a lua cheia, e também o verão abundante com frutos da terra. O cálice da força vital dentro de si está transbordante.

Este arquétipo não está restrito à mãe biológica. Ser mãe de criação ou ama seca, permite que outras mulheres expressem seu amor maternal. A própria Deméter representou este papel com Demofonte.

MÃE-NATUREZA

O povo grego. ano após ano, via, com natural pesar, os dias brilhantes do verão desvanecer-se com a tristeza da estagnação do inverno. Ano após ano, saudava a explosão de vida e cores da primavera. Habituado a personificar as forças da natureza e a vestir suas realidades com roupagem de fantasia mítica, ele criou para si um panteão de deuses e deusas, de espíritos e duendes, que oscilavam com as estações e seguiam as flutuações anuais de seus fados com emoções alternadas de alegria e tristeza, que expressava na forma de ritual e de mito. Um destes mitos é o da Deusa Deméter. Os romanos a conheciam como Ceres.

O símbolo principal de Deméter era um feixe de trigo e, em seus mistérios em, Elêusis, uma única espiga de milho. É retratada como uma mulher bonita de cabelo dourado e vestida com roupão azul, considerada a Senhora das Plantas. Seu animal sagrado é o porco, que representava um sacrifício de fertilidade em todo o mundo por causa de seus múltiplos úteros. Seu animal sagrado marinho era o golfinho.

AS TESMOFORIAS

O festival grego da “Tesmoforias” era celebrado anualmente em outubro, em honra a Deméter e era exclusivo para mulheres. Se constituía de três dias de celebrações pelo retorno de Core ao Submundo.

Neste festival, os iniciados compartilhavam uma beberagem sagrada, feita de cevada e bolos.

Uma das características da Tesmoforia era uma punição aos criminosos, que agiam contra as leis sagradas e contra as mulheres. Sacerdotisas liam a lista com os nomes dos criminosos diante das portas dos templos das Deusas, especialmente Deméter e Ártemis. Acreditava-se que aqueles desta forma amaldiçoados morreriam antes do término de um ano.

O primeiro dia da Tesmoforia era celebrado o “kathodos”(baixada) e o “ánodos”(subida), um ritual em que as sacerdotisas castas levavam leitões para serem soltos dentro de grutas profundas cheias de serpentes e os restos decompostos dos porcos do ano anterior eram recolhidos.

O segundo dia era chamado de “Nestía”, nele as mulheres jejuavam, sentadas no chão, imitando a forma ritual dos processos da natureza e, de acordo com uma perspectiva mitológica, representando a dor de Deméter pela perda da filha, quando, inconsolada, se sentou ao lado do poço. O ambiente era triste e, portanto, não se usavam guirlandas.

No terceiro dia, se celebrava um banquete com carne e os leitões recolhidos (do ano anterior) eram espalhados na terra arada, e se invocava a Deusa de belo nascimento, “kalligeneia”.

MISTÉRIOS ELEUSIANOS

O propósito e o significado dos Mistérios Eleusianos era a iniciação à uma visão. “Eleusis”, significa “o lugar da feliz chegada”, de onde os campos Elíseos tomam seu nome. O termo “Mistérios” provêm da palavra “muein”, que significa “fechar” tanto os olhos como a boca. Faz referência ao segredo que rodeia as cerimônias e a conformidade requerida do iniciado, ou seja, se exige de ele ou ela permita que se faça algo: daí se deduz o significado de “iniciar”. A culminação da cerimônia consistia na exposição de objetos sagrados no santuário interno à mãos do sumo sacerdote ou hierofante (hiera phainon), “o que faz que os objetos sagrados apareçam”. Era somente permitido fazer alusões indiretas sobre o que ocorria. Entre elas, a fundamental era que Deméter falava à sua filha e se reunia com ela em Eleusis. Mas, alguns escritores cristãos violaram essa regra e um assinalou que o ponto culminante da cerimônia consistia em cortar uma espiga de trigo em silêncio.

Qualquer pessoa podia assistir os Mistérios, desde que falasse grego, mulheres e escravos inclusive, desde que não tivessem as mãos sujas de sangue por nenhum crime. Os Mistérios eram realizados uma vez ao ano para mais ou menos três mil pessoas. Se sabe que esses iniciados não formavam nenhuma sociedade secreta, eles vinham de todos os pontos da Hélade, participavam da experiência e logo se separavam.

Os Mistérios menores, que se celebravam até o final de inverno no mês das flores, o Antesterion (nosso fevereiro) e era pré-requisito para a participação nos Mistérios maiores, que se celebravam no outono. Esses Mistérios exploravam o que havia acontecido à Perséfone, Deusa do Mundo Subterrâneo, quando estava colhendo flores em Nisa. Se diz que ela foi raptada por Hades enquanto colhia um narciso de cem cabeças. Os gregos chamavam de narciso toda a planta que tinha propriedades narcóticas.

Esse rapto representa várias idéias, uma é o processo que experimenta a semente ao cair na terra e decompõem-se para voltar de novo à vida. Que se representava simbolicamente como as primeiras núpcias entre os reinos da vida e da morte.

Porém, também representa o rapto extático que proporcionavam certas substâncias que estavam relacionadas com Dionísio, deus da embriaguez, que por sua vez era Senhor de Hades por sua relação com tudo que apodrecia, fermentava e se transformava em outra coisa.

O primeiro estágio da iniciação no Mistérios menores era o sacrifício de um porco jovem, o animal consagrado à Deméter, que substituía simbolicamente a morte do próprio iniciado. Como nas Tesmoforias esse rito se ajusta à variante órfica do mito, que associava a morte do leitão com o rapto de Perséfone.

O segundo estágio da iniciação era uma cerimônia de purificação na qual o iniciado era vendado. As sucessivas etapas dos ritos de iniciação são descritas, através de alusões, inteligíveis para os já iniciados, porém não para os profanos. O acontecimento central dos Mitos Eleusinos era a noite em que se consumia a poção sagrada Kykeon. Os ingredientes dessa poção se constituiu um segredo durante esses 4 mil anos.

Os Mistérios maiores se celebravam a princípio à cada cinco anos. Mais tarde passaram a celebrar anualmente, no outono: começava no dia 15 do mês Boedromión (nosso mês de setembro) e duravam nove dias. Se reuniam iniciados de todos os lugares do mundo helênico e romano, e se declarava uma trégua entre as cidades estado gregas durante quarenta e cinco dias, desde o mês anterior até o mês seguinte.

Na véspera do início, se levavam os objetos sagrados, o “hierá”, de Deméter em procissão desde Eleusis até Atenas.

1- dia 15 do boedromion: Agyrmos, reunião. Proclamação:

Nesse dia tinha lugar a convocação e preparação dos iniciados. Os hierofontes declaravam o “prorrhesis”, o início dos ritos.

2 dia- 16: Elasis ou Helade Mistay: “Ao mar, ó iniciados!”

No segundo dia os iniciados se purificavam no mar (Falero), num rito chamado de “expulsão”. Durante nove dias fariam estas abluções na água do mar, nove dias como Deméter peregrinou pela terra em busca da verdade sobre o rapto de Perséfone. Nesse mesmo dia, os iniciados sacrificavam um leitão enquanto o hierofante os instava: Helade, Mysthai!

3 dia- 17: Hiereia Deuro: Sacrifício

Parece que nesse dia se celebravam o sacrifício oficial em nome da cidade de Atenas.

4 dia- 18: Asclepia

Esse dia era chamado de Asclepia em honra de Asclepio, deus da cura, era outro dia de purificação.

5 dia- 19: Yacós ou Pampa, procissão

Esse era um dia de celebração onde se realizava um grande procissão que inciava em Ceramico (Cemitério de Atenas) até Eleusis, seguindo o itinerário sagrado. Percorriam uns 32 Km. Algumas sacerdotisas levavam as “hierás” em “kistas”fechadas, ou cestas, rodeadas por uma multidão que dançava e gritava o nome de Yaco, cuja estátua, coroada de myrto e carregando uma tocha.

Yaco era o outro nome de Dionísio que, segundo a lenda órfica, era filho de Perséfone e Zeus, pai da mesma. Fui concebido em uma noite em que o deus se aproximou de uma caverna subterrânea transformado em serpente. Não se tratava de Dionísio, deus do vinho e do touro (cujo equivalente é o cretense Zagreo), deus que é desmembrado, porém vive de novo. Era Dionísio como criança de peito místico, o deus que morre e vive eternamente, imagem da renovação perpétua.

Na fronteira entre Eleusis (era uma cidade pequena à 30km noroeste de Atenas) e Atenas, pessoas mascaradas parodiavam a procissão. Encenavam o mito que relatava como Yambe ou Baubo animou Deméter. Como em tantas festas de renovação, preparavam o nascimento do novo para substituir o velho. Quando as estrelas apareciam, os “mystai” (iniciados) rompiam seu jejum, pois o dia vigésimo do mês havia chegado e segundo as “Ranas” de Aristófanes, o resto da noite passavam entre cantos e bailes. Os templos de Poseidón e Ártemis se abriam para todos, porém atrás deles estava a porta que dava ao santuário, e nada, exceto os iniciados, poderiam passar sob pena de morte.

6 dia – 20: Telete (mysteriodites Nychtes)

Esse era um dia de descanso, jejum, purificação e sacrifícios, de acordo com o mito de jejum de Deméter, representando o ritual de esterilidade do inverno. O jejum se rompia com a bebida de cevada, mel e polén (Kykeon) que preparavam e então se permitia que os iniciados entrassem no santuário sagrado. Essa celebração acontecia em um lugar chamado de Telesterion, chamado assim porque aqui se alcançava “o objetivo” ou “telos”. Era um local enorme, que podia albergar milhares de pessoas e onde se exibiam os objetos sagrados de Deméter. No centro estava o Anactoron, uma construção retangular de pedra com uma porta em um de seus extremos, que só o hierofonte podia passar. Essa era a parte mais reservada dos Mistérios eleusianos.

Mas o que exatamente ocorria neste momento?Seria o começo da própria iniciação? Parece que se desenvolvia em três etapas: “drómena, o feito (Ação); legómena, o dito (texto falado); deiknýmena, o mostrado (visão). Depois tinha lugar uma cerimônia especial conhecida como “epoptía”, o estado de “haver visto”, se celebrava para os iniciados do ano anterior.

Em drómena os iniciados participavam de um desfile sagrado pelo qual se representava o relato de Deméter e Perséfone. Os legómena consistiam em invocações ritualísticas curtas, pequenos comentários que acompanhavam o desfile e explicavam o significado do drama. Os deiknýmena, a exibição dos objetos sagrados, culminava na revelação proferida pelo hierofante, cuja difusão era proibida. Os epoptía também incluiam a exibição de “hierá”, não se sabe ao certo o que eram esses objetos sagrados. Segundo as fontes arqueológicas de A. Kórte (Zu den Eleusinischen Mysterien, «Archiv für Religions Wissenschaft» 15, 1915, 116) supõe-se que a enigmática cesta que tomavam os iniciados, entre outros objetos, havia um que representava o órgão sexual feminino, o qual, em contato com o corpo dos mystai, contribuía com a sua regeneração e passavam a ser considerados filhos de Deméter.

M. Picard (L’épisode de Baubó dans les mystéres d’pleusis, «Revue d’histoire des religions» 1927, 220-255) adiciona o órgão masculino. O iniciado tocaria sucessivamente os dois objetos, simbolizando assim a verdadeira união sexual.

7 dia- 21: Epopteia

Somente à tarde tinha início os ritos secretos. Em determinado momentos deviam pronunciar uma contra-senha sagrada:”Jejuei, bebi o kykeon, o tomei do canasto (calathus) e, depois de prová-lo o coloquei de novo no canasto e dali, ao cesto”. Misteriosas palavras, que sem sombra de dúvida, tinham grande significado para os iniciados. Todo o resto do dia era passado em compasso de espera e somente à noite os iniciados entravam no santuário. Um muro à sua direita impedia que vissem o local da “Rocha sem alegria” (local em que se supõe que a Deusa Deméter esteve sentada). Ouviam lamentos procedentes dali. Chegavam ao Telesterion e depositavam os leitões nas “mégara”, uma espécie de sótão do templo. Em seguida peregrinavam fora do Telesterion em busca de Core (Perséfone), na escuridão e com a cabeça coberta com uma carapuça que não lhes permitia ver nada, cada iniciado era guiado por um mystagogo. Imagine andar na escuridão, totalmente desorientado, esperando em silêncio, até que um gongo soa como um trovão e o hierofonte clamando por Core, até que o mundo inferior se abre e das profundezas da terra aparece a Deusa. Daí um clarão de luz enche a câmara, crescem as chamas da fogueira e o hierofonte canta:

-“A Grande Deusa deu à luz a um filho sagrado: Brimo pariu à Brimós”. Então, em silêncio profundo, levanta com a mão uma espiga de trigo.

Para que entendam, Brimo era uma Deusa do Mundo Inferior em Tesália, ao norte. Os nomes Brimo e Brimós sugerem à introdução da agricultura e de que nos Mistérios da Grécia houve influência tesalia.

Mas que estão fazendo Brimo e Brimós em Eleusis?

Kerényi diz que Brimo é “fundamentalmente um nome que designa a rainha do reino dos mortos, atribuído à Demeter, Core e Hécate em sua qualidade de Deusas do Mundo Inferior”. Nesse caso, o filho é o espírito da renovação concebido no Mundo Inferior como testemunho vivo de que na morte há vida, já que está na “riqueza” da colheita, o “tesouro” do conhecimento intuitivo espiritual.

Brimo, portanto, foi o nome dado ao filho de Perséfone, ao qual ela deu à luz no inferno em meio as chamas. Esse nome parece referir-se à Dionísio, o deus de vida indestrutível.

8 dia – 22: Plemochoai

Era dia de sacrifício e festa. Sacrificavam-se touros à Deméter e Perséfone (Core) e outros animais, especialmente leitões. Este festival era chamado Plemochoai, porque esse era o nome dado aos vasos (ou taças) que o sacerdote enchia com um certo líquido e, virando-se para oeste e depois para leste, derrama ao solo o que continham. O povo, olhando para o céu, grita “chuva!” e, olhando para a terra, grita “concebe!”, hýe, kýe.

Harrison escreve que “o rito do matrimônio sagrado e o nascimento da criança sagrada….era o mistério central”. Entretanto, a cerimônia final nos mostra o matrimônio simbólico da chuva celestial com à terra, que havia de conceber o filho do grão (da semente), porém existia a possibilidade se ser celebrado esse casamento simbólica ou literalmente, entre o hierofante e uma sacerdotisa antes do regresso de Core.

9 dia – 23: Epistrofe

Neste dia os iniciados voltavam à Atenas. Eleusis voltava a velar-se em seus mistérios, enquanto se despedia dos visitantes, agora renascidos, levando consigo as experiências de vinculação com as divindades. Assim acabam os Mistérios de Eleusis.

A gestão desse culto era exclusiva das famílias aristocráticas, com funções definidas para cada uma delas. O sumo sacerdote, o chamado hierofante, devia pertencer a família dos Eumólpidas, enquanto a família dos Cérices procediam dos sacerdotes de traço imediatamente inferior, o portador da tocha. A sacerdotisa vivia sempre no santuário. O hierofante ostentava o privilégio de escolher seus iniciados. Sobre todos eles se sobrepunha uma outra figura, o chamado arconte rei (archon basileus) no eleusino, que era ateniense (era os atenienses que controlavam o culto), ao qual assiste uma equipe de colaboradores (epistatai), encarregados das finanças.

MORRER PARA RENASCER

Morrer para renascer, esse é o sentido da iniciação. O sangue dos animais sacrificados simbolizavam a própria morte do iniciado. É Plutarco que nos diz que “morrer é ser iniciado”. Só através da morte se regressa à luz. Clemente e Foucart realmente estão de acordo com essa idéia: representar a busca de Deméter e identificar-se com Perséfone é precisamente vagar no mundo subterrâneo da morte, do mesmo modo que encontrar Core é retornar à vida depois da morte.

Esse mito grego recupera um mito bem mais antigo conhecido como a “Descida de Inanna”, que vai e vem entre ambos os mundos. Perséfone aqui é a faceta da mãe que desce e regressa de novo à mãe, configurando uma totalidade nova. Se percebe claramente uma continuidade nessa relação: vida em morte e morte em vida. Se “vê através” de uma a outra, e isso liberta a humanidade de sua natureza de entidades antagônicas. Quando mãe e filha se percebem como uma única realidade, nascimento e renascimento se convertem em fases que provêm de uma fonte em comum: através da dita percepção se transcende a dualidade.

A DEUSA TRÍPLICE

A triplicidade pode ser vista na lua, que é: crescente, cheia e minguante. E, no fato da Deusa reger o mundo superior, a terra e o mundo inferior. Ela era também a Donzela ou Virgem, a Mãe e a Anciã, as três principais fases da vida de toda a mulher. Pois Deméter se vê “Donzela” em sua filha Coré. É “Mãe” desta filha e de tudo que brota e cresce. Mas, ao perder sua filha Coré para Hades, torna-se “Anciã” associada diretamente com a morte.

Para cada fase ou ciclo há perdas que devem ser vivenciadas por todas as mulheres. No primeiro ciclo, visualiza-se a “morte da donzela”, que torna-se uma jovem nubente e é uma iniciação para fase seguinte, que se tornará mãe, abençoada com seus próprios filhos. Quando a Mãe não pode mais conceber (menopausa), passa a tocha da maternidade para filha, transferindo para ela todos os poderes da fecundidade. A morte da mãe, constitui a mulher idosa que tem agora o potencial para ingressar na esfera espiritual das anciãs, guardiãs dos mistérios da morte.

Hoje estes ciclos raramente são reconhecidos e vividos plenamente pelas mulheres, pelo fato de habitarem um mundo predominantemente masculino. A realidade moderna e científica tornou a “Mãe” uma máquina biológica de produção de bebês, que favorece ou prejudica a política financeira de uma determinada sociedade.

DEMÉTER HOJE

Por mais belo que se pinte um quadro de uma mãe com o filho nos braços, ele estará longe de ser a realidade para a maioria das mães das sociedades industrializadas e urbanas do Ocidente. As pressões financeiras, privam a mulher de permanecer no seio da família, cuidando de seus amados filhos. Até a licença-maternidade, através de duras penas conseguida, possui um tempo vergonhosamente limitado, pois a volta ao trabalho quase de imediato, não permitem que a mãe acompanhe o desenvolvimento de seu bebê. Além de ser estigmatizada por tal feito, pois ter um filho em nossos dias, significa estar fora de ação, inativa e lhes é somente permitido olhar saudosamente para o mundo que caminha sem elas.

Deméter sofre com o eclipse em nossa civilização. As mulheres que representam seu modo de ser, não têm condições de competir com as mulheres mais instruídas, pois a Deméter natural não é tão intelectualizada. Ela adora apenas criar seus filhos e acaba ficando muito sentimentalizada, tratada com condescendência e destituída do poder por suas irmãs feministas.

Deméter nas antigas comunidades agrárias, tinha dignidade, autoridade e uma vida bastante gratificante. Tudo se perdeu numa sociedade onde tudo é subserviente às exigências econômicas do monopólio do consumo.

Por Rosane Volpatto.

#Magia #Mitologia #Ocultismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-deusa-demeter-e-os-mist%C3%A9rios-eleusis

Arcano 2 – Gimmel – A Sacerdotisa

A Sacerdotisa - Marselha Grimaud (1760)

Uma mulher sentada, com um livro aberto sobre a saia e uma coroa tripla na cabeça.

Olha para a esquerda e veste uma túnica vermelha sobre a qual se desdobra um manto azul (em algumas versões as cores são opostas). Duas partes da sua tiara estão ornadas de florões, mas a parte superior é uma simples abóbada. Um véu, que lhe cai sobre os ombros, cobre totalmente os seus cabelos; na mesma altura desse véu, por trás, aparece uma cortina cujos pontos de fixação não são visíveis. Tampouco se podem ver os pés da mulher, assim como a base do trono.

Fato curioso, que é reencontrado somente no arcano XXI, é que a figura ultrapassa a margem superior do quadro: o extremo da tiara supera a linha negra, um pouco à direita do número II.

Significados simbólicos

A Sabedoria, a Gnose, a Casa de Deus e do homem, o santuário, a lei, a Cabala, a igreja oculta, a reflexão.

Fala também do binário, do princípio feminino, receptivo, materno.

Mistério. Intuição. Piedade. Paciência, influência saturnina passiva.

Interpretações usuais na cartomancia

Reserva, discrição, silêncio, meditação, fé, confiança atenta. Paciência, sentimento religioso, resignação. Favorável às coisas ocultas.

Mental: Grande riqueza de ideias. Responde a problemas concretos melhor do que a questões vagas.

Emocional: É amistosa, recebe bem. Mas não é afetuosa.

Físico: Situação garantida, poder sobre os acontecimentos, revelação de coisas ocultas, segurança de triunfo sobre o mal. Boa saúde, mas com um ritmo físico lento.

Sentido negativo: Dissimulação, hipocrisia, intenções secretas. Mesquinharia, inação, preguiça. beatice. Rancor, disposição hostil ou indiferença. Misticismo absorvente, fanático. Peso, passividade, carga. As intuições que traz invertem seu sentido e se tornam falsas. Atraso, lentidão nas realizações.

História e iconografia

A tradução exata do nome que o Tarô de Marselha dá a este arcano (La Papesse) é A Papisa. Outras versões, como A Sacerdotisa ou A Alta Sacerdotisa, vêm do nome que lhe é dado em inglês (The High Priestess).

A figura da Papisa faz alusão a um fato histórico, ou melhor, lendário, que ocupa um lugar notável na literatura da Idade Média: a pretensa existência de um Papa do sexo feminino. A tradição popular diz que uma mulher ocupou a cadeira de São Pedro durante alguns anos sob o nome de João VIII.

Várias versões aparecem, mas o mais antigo testemunho que chegou até nós é bastante posterior à data de seu suposto reinado.

De qualquer modo, para o estudo tradicional e iconográfico do Tarô, não importa estabelecer alguma fidelidade histórica. Embelezada com o correr do tempo, uma de suas versões combina admiravelmente com o simbolismo maternal que se atribui à estampa: segundo tal versão, a papisa teria ficado grávida de um dos seus familiares e, como não se recolheu à época do parto, o acontecimento teria se dado em plena rua, durante uma procissão entre a igreja de São Clemente e o palácio de Latrão.

Com a dramática descoberta do embuste, o enfurecido séquito papal teria assassinado Joana e seu filho. Antigas tradições romanas asseguram que, no lugar do homicídio, permaneceu durante séculos um túmulo ornado por seis letras P, que podiam ser lidas de três maneiras diferentes (jogando com a inicial comum a Papa, Pedro, pai e parto).

Ainda com relação a essa lenda, deve-se assinalar um fato notável: na célebre Bíblia ilustrada alemã do ano de 1533, a grande prostituta do Apocalipse está representada com uma tiara na cabeça, A tradição afirma que foi desenhada deste modo por desejo expresso e sugestão de Martinho Lutero.

Enquanto o Mágico não poderia permanecer em repouso (numa unidade andrógina onde tudo é impulso e estímulo), a Sacerdotisa é o próprio repouso: sentada, majestosa, receptiva, seu reino é binário, uma etapa na distinção da polaridade do universo. Se o binário equivale a conflito, no sentido de rompimento da unidade, de abandono do caos essencial onde não existem as magnitudes nem os nomes, é também a primeira etapa dolorosa e imprescindível das vias iniciáticas, o começo da busca da identidade.

A Sacerdotisa representa a submissão majestosa às exigências dessa iniciação, o equilíbrio que a repartição elementar de forcas produz no conflito.

O que o Arcano I era para a encarnação das energias espirituais o Arcano II o é quanto à aceitação dessa metamorfose: o reconhecimento prévio da luta entre os princípios branco-negro, dia-noite, Yang-Yin.

Alguns autores veem na Sacerdotisa a representação de Isis, com todas as suas conotações noturnas e ocultas. Também a associam a Cassiopéia, a rainha negra da Etiópia e mãe da constelação Andrômeda, e a Belkis, a belíssima rainha de Sabá, para quem Salomão teria composto o Cântico dos Cânticos. Essa relação da Sacerdotisa com deusas e rainhas negras (ou escuras) não parece casual e acentua a contrapartida com a carta a seguir: o simbolismo branco, luminoso e diurno do Arcano III (A Imperatriz), com quem a Sacerdotisa forma a dupla oposta e complementar da feminilidade.

Este símbolo subterrâneo, que se refere ao aspecto esotérico da revelação, teria passado para o cristianismo sob a forma das virgens negras, cujo ritual se realiza com frequência numa cripta ou num lugar inacessível.

Mãe, esposa celeste, senhora do saber esotérico, a Papisa ou Sacerdotisa ocupa na estrutura do Tarô o lugar da porta, da passagem entre o exterior e o interior, do ponto imóvel e comum entre a Casa e a rua.

Por Constantino K. Riemma

http://www.clubedotaro.com.br/

#Kabbalah #Tarot

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-2-gimmel-a-sacerdotisa

Arcano 2 – Sacerdotisa – Gimmel

Uma mulher sentada, com um livro aberto sobre a saia e uma coroa tripla na cabeça.

Olha para a esquerda e veste uma túnica vermelha sobre a qual se desdobra um manto azul (em algumas versões as cores são opostas). Duas partes da sua tiara estão ornadas de florões, mas a parte superior é uma simples abóbada. Um véu, que lhe cai sobre os ombros, cobre totalmente os seus cabelos; na mesma altura desse véu, por trás, aparece uma cortina cujos pontos de fixação não são visíveis. Tampouco se podem ver os pés da mulher, assim como a base do trono. Fato curioso, que é reencontrado somente no arcano XXI, é que a figura ultrapassa a margem superior do quadro: o extremo da tiara supera a linha negra, um pouco à direita do número II.

Significados simbólicos
A Sabedoria, a Gnose, a Casa de Deus e do homem, o santuário, a lei, a Cabala, a igreja oculta, a reflexão.

Fala também do binário, do princípio feminino, receptivo, materno.

Mistério. Intuição. Piedade. Paciência, influência saturnina passiva.

Interpretações usuais na cartomancia
Reserva, discrição, silêncio, meditação, fé, confiança atenta. Paciência, sentimento religioso, resignação. Favorável às coisas ocultas.

Mental: Grande riqueza de idéias. Responde a problemas concretos melhor do que a questões vagas.

Emocional: É amistosa, recebe bem. Mas não é afetuosa.

Físico: Situação garantida, poder sobre os acontecimentos, revelação de coisas ocultas, segurança de triunfo sobre o mal. Boa saúde, mas com um ritmo físico lento.

Sentido negativo: Dissimulação, hipocrisia, intenções secretas. Mesquinharia, inação, preguiça. beatice. Rancor, disposição hostil ou indiferença. Misticismo absorvente, fanático. Peso, passividade, carga. As intuições que traz invertem seu sentido e se tornam falsas. Atraso, lentidão nas realizações.

História e iconografia
A tradução exata do nome que o Tarô de Marselha dá a este arcano (La Papesse) é A Papisa. Outras versões, como A Sacerdotisa ou A Alta Sacerdotisa, vêm do nome que lhe é dado em inglês (The High Priestess).

A figura da Papisa faz alusão a um fato histórico, ou melhor, lendário, que ocupa um lugar notável na literatura da Idade Média: a pretensa existência de um Papa do sexo feminino. A tradição popular diz que uma mulher ocupou a cadeira de São Pedro durante alguns anos sob o nome de João VIII.

Várias versões aparecem, mas o mais antigo testemunho que chegou até nós é bastante posterior à data de seu suposto reinado.

De qualquer modo, para o estudo tradicional e iconográfico do Tarô, não importa estabelecer alguma fidelidade histórica. Embelezada com o correr do tempo, uma de suas versões combina admiravelmente com o simbolismo maternal que se atribui à estampa: segundo tal versão, a papisa teria ficado grávida de um dos seus familiares e, como não se recolheu à época do parto, o acontecimento teria se dado em plena rua, durante uma procissão entre a igreja de São Clemente e o palácio de Latrão.

Com a dramática descoberta do embuste, o enfurecido séquito papal teria assassinado Joana e seu filho. Antigas tradições romanas asseguram que, no lugar do homicídio, permaneceu durante séculos um túmulo ornado por seis letras P, que podiam ser lidas de três maneiras diferentes (jogando com a inicial comum a Papa, Pedro, pai e parto).

Ainda com relação a essa lenda, deve-se assinalar um fato notável: na célebre Bíblia ilustrada alemã do ano de 1533, a grande prostituta do Apocalipse está representada com uma tiara na cabeça, A tradição afirma que foi desenhada deste modo por desejo expresso e sugestão de Martinho Lutero.

Enquanto o Mágico não poderia permanecer em repouso (numa unidade andrógina onde tudo é impulso e estímulo), a Sacerdotisa é o próprio repouso: sentada, majestosa, receptiva, seu reino é binário, uma etapa na distinção da polaridade do universo. Se o binário equivale a conflito, no sentido de rompimento da unidade, de abandono do caos essencial onde não existem as magnitudes nem os nomes, é também a primeira etapa dolorosa e imprescindível das vias iniciáticas, o começo da busca da identidade.

A Sacerdotisa representa a submissão majestosa às exigências dessa iniciação, o equilíbrio que a repartição elementar de forcas produz no conflito.

O que o Arcano I era para a encarnação das energias espirituais o Arcano II o é quanto à aceitação dessa metamorfose: o reconhecimento prévio da luta entre os princípios branco-negro, dia-noite, Yang-Yin.

Alguns autores vêem na Sacerdotisa a representação de Isis, com todas as suas conotações noturnas e ocultas. Também a associam a Cassiopéia, a rainha negra da Etiópia e mãe da constelação Andrômeda, e a Belkis, a belíssima rainha de Sabá, para quem Salomão teria composto o Cântico dos Cânticos. Essa relação da Sacerdotisa com deusas e rainhas negras (ou escuras) não parece casual e acentua a contrapartida com a carta a seguir: o simbolismo branco, luminoso e diurno do Arcano III (A Imperatriz), com quem a Sacerdotisa forma a dupla oposta e complementar da feminilidade.

Este símbolo subterrâneo, que se refere ao aspecto esotérico da revelação, teria passado para o cristianismo sob a forma das virgens negras, cujo ritual se realiza com freqüência numa cripta ou num lugar inacessível.

Mãe, esposa celeste, senhora do saber esotérico, a Papisa ou Sacerdotisa ocupa na estrutura do Tarô o lugar da porta, da passagem entre o exterior e o interior, do ponto imóvel e comum entre a Casa e a rua.

Por Constantino K. Riemma
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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-2-sacerdotisa-gimmel