A Teosofia Termina no Vaishnavismo

Por Srila Prabhupada

O resumo de uma palestra proferida na sessão de abertura da Quinquagésima-Sexta Convenção Anual da Sociedade Teosófica na América, realizada em 25 de julho de 1943, foi-me entregue por um amigo bem intencionado em um panfleto sob o título “O Teosofista como o Cidadão Ideal na Guerra e na Paz”. Ao ler o panfleto, pudemos reunir os seguintes pontos que levam aos ideais e à filosofia do Vaishnavas.

O Teosofista acredita em uma Consciência Personalizada ou uma Vontade Direta por trás da operação da atividade universal. Esta conclusão é bastante lógica, como podemos ver em todos os campos de nossas atividades. Podemos observar que nada no mundo é possível de ser realizado sem uma Vontade Direta. A matéria não tem poder de movimentação sem um toque de Livre Vontade direcionadora e como tal é bastante natural pensar que toda a natureza material, por maior e consumadora que seja, é dirigida por trás, por uma grande Vontade que é denominada de forma diferente por diferentes especuladores.

Mas os Vaishnavas ou os devotos da Personalidade Absoluta da Divindade, não só acreditam em uma Consciência Personalizada no processo de direção das atividades universais, mas também aceitam Sri Krishna como a Pessoa Absoluta que é a raiz de todas as causas e de todos os efeitos.

Neste contexto, se nos referirmos a literaturas autênticas como Bhagavad Gita, Brahma-samhita etc., elas podem nos ajudar a nos aproximar mais da Consciência Personalizada da Personalidade Absoluta da Divindade. A primeira estrofe do Quinto Capítulo em Brahma-samhita, afirma muito enfaticamente que o Senhor Sri Krishna, que é conhecido como Govinda, é a Suprema Divindade. Ele tem um corpo espiritual eterno e bem-aventurado. Ele é a Origem de todos e Ele não tem outra origem, pois Ele é a Causa Principal de todas as causas.

Sua Divina Graça Sri Srimad Bhakti Siddhanta Saraswati Goswami Prabhupada explica esta estrofe da seguinte forma:

“Krishna é a entidade Suprema exaltada tendo Seu nome eterno, forma eterna, atribuição eterna e passatempos eternos. O próprio nome Krishna implica sua designação amorosa, expressando por sua eterna nomenclatura o Acme de entidade. Seu eterno e belo corpo azul-celeste brilhando com intensidade de conhecimento sempre existente, tem uma flauta em ambas as mãos. Como sua inconcebível energia espiritual está se estendendo, ele ainda mantém seu tamanho médium todo encantador por seus instrumentos espirituais qualificados. Sua suprema subjetividade é bem manifestada em sua forma eterna. A presença concentrada de todos os tempos, o conhecimento descoberto e a felicidade inebriante têm nEle sua beleza. A porção mundana manifestativa de Seu próprio Eu é conhecida como Paramatma, Iswara (Senhor Superior) ou Vishnu (Tudo-animador). Por isso é evidente que Krishna é a Única Divindade Suprema. Seu incomparável ou único corpo espiritual de encanto superexcelente é eternamente revelado com inúmeros instrumentos espirituais (sentidos) e atributos incontáveis mantendo sua localização significante adequadamente, ajustando-se ao mesmo tempo por seus inconcebíveis poderes conciliadores. Esta bela figura espiritual é idêntica a Krishna e a Entidade Espiritual de Krishna é idêntica a Sua própria figura”.

“A própria entidade combinada de intensidade de presença eterna de cognição feliz é o charmoso Ícone de mira ou transcendental. Segue-se que a concepção da magnitude indistinguível sem forma (Brahman), que é um indolente, laxista, pressentimento de bem-aventurança cognitiva, é meramente uma penumbra de intensidade de brilho misturado dos três concomitantes, ou seja, o bem-aventurado, o substantivo e o cognitivo. Este Ícone de manifestação transcendental de Krishna em sua face original é o fundo primordial da magnitude infinita Brahman e de toda a Superalma universal de Krishna como verdadeiramente visionada em seus variados passatempos, tais como Proprietário de vacas transcendentais, Chefe de vaqueiros, Consorte de criadas de leite, Governante da Morada terrestre Goloka e Objeto de adoração por residentes transcendentais das belezas de Goloka, é Govinda. Ele é a causa raiz de todas as causas que são os agentes predominantes e predominantes do Universo.

O olhar de Sua porção fracionária projetada na água Sagrada Originária, ou seja, a Alma Excedente Pessoal ou Paramatma, dá origem a uma potência-natureza secundária que cria o universo mundano. Esta energia intermediária da Superalma traz as almas individuais analogamente aos raios emanados do Sol”. O olhar de Sua porção fracionária projetada, como mencionado acima, é confirmado no 10º sloka do nono capítulo de Bhagavad Gita. A Personalidade da Divindade diz: “A Natureza Material (Prakriti) sob minha vigilância, dá à luz tudo que se move ou se fixa (animado ou inanimado) e por este processo, ó filho de Kunti, o universo evolui”.

Este olhar, superintendência ou vigilância, como podemos preferir chamar pela Suprema Personalidade da Divindade, é como a superintendência de um chefe executivo de um governo que faz tudo como vontade direta, mas ainda assim não o vê em todas as esferas das atividades governamentais. Sem ele, nada pode ser feito a não ser à face da atividade que ele parece estar ausente, pois o desempenho é completado por outro agente. Tal é a relação da Natureza Material com a Personalidade Absoluta da Divindade.

A Natureza Material é chamada de ‘Mãe Brahman’, ou seja, Ela está impregnada com as sementes da criação pela Personalidade Absoluta da Divindade, conforme confirmado no Bhagavad Gita no 14º capítulo.

Sri Krishna diz ali “Que a Natureza Material que também é chamada ‘Mahat Brahma’ é meu ventre; aí eu coloco as sementes ou germes da criação de onde vem o nascimento de todas as entidades, ó filho de Bharata”.

Sob a Consciência Personalizada em que o Teosofista acredita, é natural concluir que existe um grande plano para o universo criado.

Os Vaishnavas aceitam este plano de uma maneira muito simples. Sendo a Personalidade Suprema da Divindade o Desfrutador Absoluto e Criador de tudo o que é, o plano é feito de tal forma que tudo na criação é destinado à gratificação do sentido do Ser Supremo. Qualquer um que crie perturbação neste grande Plano do Ser Supremo é considerado pelo Vaishnava como Aparadhi ou Ofensor e aí ele conclui muito naturalmente que quando uma entidade ou alma Jiva se esquece de si mesmo como o eterno servidor do Ser Supremo para o ajuste do Grande Plano e se considera um desfrutador, ele é imediatamente apanhado pela potência externa do Ser Supremo que é chamado de Maya, e começa sua existência na natureza material esquecendo-se de sua verdadeira natureza de Espírito. Ele arrasta uma vida condicional sob os modos da Natureza, depois disso.

Este Grande Plano é explicado no Bhagavad Gita em dois slokas finais, ou seja, o 65o e o 66o slokas do 18o Capítulo que concluem os ensinamentos de Bhagavad Gita. A Personalidade da Divindade Sri Krishna diz ali que cada um deve oferecer-se a si mesmo como o eterno servo transcendental ou devoto de Sri Krishna com coração e alma. Ele não deveria ser como o “Karmayogi”, “Jnanyogi” ou “Dhyanyogi”, mas deveria ser “Bhaktayogi” puro e simples e, em cada esfera de sua atividade, ele deveria servir apenas ao propósito da Personalidade Suprema da Divindade, de acordo com Seu Grande Plano, sob a orientação Dele ou de Seu representante de boa-fé. Isto o levará gradualmente à posição de servidão eterna da Pessoa Eterna e este conselho foi dado a Sri Arjuna porque ele era o peito e o amigo mais querido de Sri Krishna.

Dentro deste plano de ação, Arjuna também foi aconselhado a desistir de todos os outros compromissos e simplesmente a seguir a Personalidade da Divindade. No início das lições de Gita, a Personalidade da Divindade explicou a Arjuna tantos compromissos diferentes como os deveres de um renunciante, de um Sanyasin, de um Yogi, ou um Jnani, de um Karmi, etc., e agora ele ordena diretamente a Arjuna que desista de todos esses compromissos e siga diretamente os desejos da Personalidade da Divindade. Dessa forma, ele garantiu a Arjuna que o protegeria de todos os vícios que pudessem acumular por não ter tentado cumprir todos os outros deveres e por isso teve que lamentar por nada. Pelos atos de serviço amoroso transcendental à Personalidade da Divindade, a pura natureza espiritual de cada um e tudo se torna manifesta. Os desempenhos de todos os chamados deveres neste mundo mundano, tais como o desempenho de deveres religiosos, deveres mundanos, deveres purificadores para um estado de vida superior, aquisição de conhecimento, meditação para controlar os sentidos e a mente, etc., são realizadas para se elevar da vida condicional da existência corporal e mental e para alcançar a existência espiritual de forma simples e simples; mas quando se transcende todo esse estado condicional de vida e se eleva alto pela atração espiritual da forma eterna e bem-aventurada de Sri Krishna, ele não tem nada a fazer e nada a realizar.

Todas as atividades da existência material são direcionadas a algum tipo de ideal ou plano. “O universo nunca é em momento algum o resultado de um mero ‘concurso fortuito de átomos’, mas, por outro lado, o resultado das operações da Direção da Vontade”. A partir disto, segue-se a conclusão lógica de que o Testamento opera de acordo com um plano: Em resumo, um crente da Teosofia aceita como fato que, “em e através de todas as coisas, uma Vontade Direta está em ação, com um plano de Ação de momento em momento em direção a um fim predominante”. Essa é a versão do Teosofista de uma maneira diferente como funciona o Vaishnavita. O fim predominado é servir ao propósito do Absoluto Predominador.

Em outras palavras, todas as nossas atividades são dirigidas ou ao fim de algum propósito corporal, ou algum propósito mental ou algum propósito espiritual. As atividades até o fim de algumas finalidades corporais e mentais não têm praticamente nenhum valor permanente, tendo em vista que o próprio fim é transitório e temporário e, portanto, são classificadas sob duas cabeças: boas ou más. Mas as atividades para o fim espiritual são chamadas transcendentais para todos os bons e todos os maus propósitos e como tais atividades podem ser divididas em três departamentos para a existência permanente e eterna. Esses três departamentos podem ser denominados apego à existência espiritual impessoal em oposição à existência material variegada, apego à Divindade Tudo-Perigosa ou ao aspecto localizado de Paramatma, a Superalma, ou apego à Personalidade Predominadora da Divindade em sua forma todo-brilhante, eterna e todo-atrativa. Se analisarmos todas as nossas atividades neste mundo, elas podem ser agrupadas sob qualquer um dos diferentes títulos acima, ou seja, mundano ou transcendental, temporário ou permanente e todas essas atividades atingem algum tipo de atmosfera de acordo com o plano ou ideal do executante. Eles são nomeados de forma diferente sob diferentes cabeçalhos e diferentes planos, mas tais atividades que são orientadas para a gratificação do sentido transcendental do Predominador, Personalidade da Cabeça de Deus Sri Krishna, são denominadas como devoção sem vínculo. Tais atividades são atividades devocionais e nunca devem ser mal concebidas como atividades comuns sob os títulos de plano de ação corporal ou mental. Estas atividades ou as atividades devocionais são atividades reais no final do Grande Plano e nunca devem perturbar o ajuste do Grande Plano, enquanto todas as outras atividades podem ser boas ou ruins, são simplesmente perturbadoras para o Grande Plano do Predominador e devem, portanto, ser abandonadas por alguém que deseje trabalhar de acordo com o Plano.

No nono capítulo (24º Sloka) a Personalidade da Divindade declara enfaticamente que “Eu sou o Desfrutador e Senhor também de todos os sacrifícios, mas os homens não Me conhecem na verdade e por isso sofrem”.

Sempre que qualquer atividade que não satisfaça os sentidos transcendentais da Personalidade da Divindade ou que não ajuste o Grande Plano de Ação é chamada de pecado. Quando Sri Krishna quis que Moharaj Judhisthir contasse uma mentira direta a Dronacharya, Moharaj Judhisthir primeiro se recusou a contar tal mentira e depois contou a verdade de uma forma que aparentemente parecia aos homens comuns ser inverdade de uma forma redonda. Mas o próprio Moharaj Judhisthir disse a verdade na medida do possível. Mas o resultado posterior foi que Judhisthir teve que visitar o inferno pela razão de que ele se recusou a contar uma mentira de acordo com o Plano de Sri Krishna. Os homens comuns entenderam que Judhisthir foi obrigado a visitar o inferno porque ele disse mentira de uma forma rotunda, mas os savants puderam entender que ele teve que visitar o inferno pela razão de que ele se recusou a dizer mentiras de acordo com a ordem de Sri Krishna. A importância da história é que contar mentiras ou dizer a verdade não importa se ela pode se reconciliar com o Fim Predominado. Na vida comum também podemos julgar um meio pelo resultado de seu fim. O fim justifica os meios. Se o fim é satisfazer o Grande Plano do Predominador Personalidade Absoluta da Divindade, não importa se os meios estão certos ou errados de acordo com o julgamento deficiente dos juízes imperfeitos. A Personalidade Absoluta da Divindade sendo o Desfrutador Supremo Ele deve ser satisfeito por todos os meios que é o Grande Plano de acordo com a filosofia dos Vaishnavitas.

O Teosofista empírico dá a este Grande Plano da Pessoa Absoluta nomes diferentes como “o Plano de Deus, que é Evolução”, o “Mundo Arquetípico”, um “Poder, não nós mesmos”, que faz justiça” e o Teosofista argumentará “que em e através de todas as coisas, de um elétron a uma estrela, de uma ameba a um anjo, há um padrão” e quem descobriu este padrão é chamado de Teosofista.

O Vaishnavita acredita no “Plano de Deus, que é Evolução”, mas não do modo como o Teosofista aceita. O Teosofista acredita que “todas as coisas estão se movendo para um fim ordenado, assim como uma raiz de lótus enterrada na lama, no processo de seu crescimento ordenado, produzirá inevitavelmente a bela flor”. Mas o Vaishnavita lhe aplicará mais razão do que qualquer outro filósofo, e ele dirá que o processo de crescimento ordenado também é condicional. A semente ou raiz de um lótus pode estar enterrada na lama, mas ainda assim o crescimento será verificado se não houver ajuda adequada da Natureza ou do Prakriti. A condição é oferecida pela natureza que faz com que a flor cresça ou morra no botão. A evolução não é constante de um estágio para outro, mas o mesmo depende também dos modos da Natureza Material e de acordo com os modos de trabalho de cada um. Portanto, não se deve concluir que uma vez que uma alma ou espírito Jiva é encarnado em forma humana, ele não é mais transformado em tigre ou anjo, mas de acordo com os Vaishnavitas a Evolução é tão flexível que um Anjo pode se tornar um tigre ou um tigre pode se tornar um Anjo a qualquer momento de acordo com as obras do livre arbítrio ajudado pelos modos da Natureza.

Cada alma individual que faz parte da Superalma tem independência subordinada à independência Absoluta do Predominador e esta independência nunca é prejudicada pela independência Predominadora da Pessoa Absoluta. Ele está cheio em Si mesmo e sua independência nunca é condicional à independência da alma Jiva. De acordo com o Plano Arquetípico, o Vaishnavita acredita que o Homem é feito de acordo com o próprio Modelo de Deus e, portanto, o Homem é considerado o ser mais elevado no processo de Evolução e é realmente assim, como podemos julgar pelas circunstâncias favoráveis.

A altura do homem, sua beleza em relação à cor e forma, sua inteligência e força, seu poder de resistência e acima de tudo seu desenvolvimento psíquico indicam claramente que ele é o mais alto de todos os seres criados. E para isso o Vaishnavita afirma que a encarnação de uma alma Jiva como ser humano é a forma de vida mais cobiçada e rara que é útil para a salvação espiritual dos encarnados e, portanto, o Vaishnavita conclui que esta forma de vida humana é muito mais importante do que a vida de um anjo e o que falar de outros em animais inferiores.

Mas infelizmente muito poucos homens percebem esta importância da vida humana e a maioria deles prefere aproveitar a vida ao máximo em suas melhores capacidades nas condições oferecidas pela natureza Material. Quando um homem percebe que sua forma humana de vida lhe foi concedida após crostas e crostas de nascimentos e mortes através de muitas espécies de encarnação pelo processo de Evolução e reconhece “um Poder, não nós mesmos, que faz justiça” e como tal distingue o mesmo com outro poder que faz justiça indiretamente, então ele tenta elevar-se à incondicional vida e atividade completamente livre no reino da Divindade e para este propósito ele engaja sua vida, dinheiro, inteligência e palavras para alcançar a mais alta forma de existência espiritual.

No processo de Autorrealização acima, o Vaishnavita como o Teosofista não só percebe que ele é também, em alguma medida, o Bom, o Verdadeiro e o Belo, mas também se lembra constantemente que quantitativamente sua bondade, veracidade e beleza nunca são comparáveis com as do Predominador. Como dizem os filósofos egípcios, “O Princípio que dá vida habita em nós, e sem nós, é imortal e eternamente benéfico, não é ouvido ou visto, ou cheirado, mas é percebido pelo homem que deseja a percepção”; assim, o Vaishnavita também percebe o mesmo Princípio tanto qualitativa quanto quantitativamente. Qualitativamente ele não faz diferença com o grande Predominador, mas quantitativamente ele sempre mantém uma diferença entre o Predominador e o Predominado.

Assim, o Vaishnavita não só reconhece “um Poder que não é nós mesmos, que faz justiça”, mas também reconhece o mesmo de forma indireta e dá a estes diferentes nomes, tais como Jogamaya e Mohamaya e as Jiva-almas que estão sob o controle de qualquer um dos Poderes ou Energias acima, são chamados de Poder Marginal. E acima de todos estes três Poderes, coloca o Poder ou o Predominador como a Personalidade Absoluta da Divindade. A Filosofia de Kshetra e Kshetrajna como discutida no Bhagavad Gita é baseada nestes três poderes e acima deles a Personalidade Todo-Poderosa da Cabeça-de-Deus Sri Krishna. Nosso ensaio sobre a Divindade e Suas potencialidades publicado neste folheto tenta explicar este assunto de forma mais elaborada. A conclusão pode ser tirada assim: a Divindade é o Todo e o Todo Poderoso e os Poderes podem ser grosseiramente divididos em três títulos que são como acima. O Vaishnavita, como o Teosofista, se acredita como uma unidade no mesmo Todo, sob o subtítulo Poder Marginal.

O deleite do Teosofista no sentimento de fraternidade de todas as entidades vivas é o plano mais alto do Vaishnavita chamado de palco de Mohabhagabat; mas o processo de realização dessa forma mais alta de fraternidade universal pelo Vaishnavita é diferente daquele do Teosofista.

O ideal de fraternidade universal do Teosofista é sem uma relação Central, enquanto que a fraternidade universal do Vaishnavita se baseia em uma relação Central. O Teosofista coloca seu ideal de fraternidade universal da seguinte forma:

“Mas ser irmão de tudo o que vive significa para o Teosofista uma responsabilidade para com tudo o que vive”. Como o Teosofista é um ser humano, sua responsabilidade é para com todos os outros seres como ele”. O conceito de uma Fraternidade Universal de toda a Humanidade passa de um mero ideal intelectual a uma Realidade sempre presente, sempre impulsionadora.

“É a partir desta realização de uma interligação de toda a humanidade, e de uma maneira muito precisa a interligação do homem e do homem dentro de qualquer comunidade, seja pequena como uma aldeia, ou grande como uma nação, que a realidade subjacente à palavra ‘cidadão’ deriva suas implicações de responsabilidade, dever e sacrifício. O Teosofista sabe, por seu conhecimento do padrão, que os homens não se uniram para formar comunidades por causa da ganância ou com o propósito de autoproteção; mas que se uniram principalmente porque devem ser mutuamente úteis, cada um para dar o que pode aos outros, e receber deles o que precisa e ajudar a liberar em todos os outros a Bondade, o Amor e a Beleza que se escondem no coração de cada homem, mulher e criança.

“É para este objetivo que o Grande Plano tem fomentado a civilização de selvagem para civilizado; portanto a palavra civilizado conotava os deveres da Cidadania. Entre estes deveres estão uma defesa corajosa daqueles que são injustamente atacados, para proteger os fracos contra a exploração pelos fortes, e para liberar a Beleza oculta do Divino em todos os homens e coisas, ajudando no desenvolvimento das ciências e das artes, e por todas as formas que apelam ao Altíssimo no Homem e que ligam o homem ao homem e nação à nação”.

O Vaishnavita aceita todos os princípios acima no vínculo da fraternidade universal, mas ele pode ver que estes laços de irmandade são apenas superficiais e não podem suportar um relacionamento permanente. Grandes líderes de pensamento em quase todos os países do mundo tentaram este método de ligar o homem ao homem e nação à nação por algum tipo de método altruísta, mas o Vaishnavita difere deles que tal processo pode causar temporariamente algum tipo de fraternidade externa entre homem e homem, etc., mas falhará no final, a menos que não seja ajudado a reviver sua natureza inata tecnicamente chamada de “Swarupa” como distinguida de sua “Birupa” ou natureza externa. A valente defesa daqueles que são injustamente atacados ou protegem os fracos da exploração pelos fortes, são sem dúvida dignos de menção por ligarem o homem ao homem e nação a nação, mas a Vaishnavita quer tornar cada um e todos tão fortes que ele não precisaria de nenhuma proteção externa nem será explorado por… …ninguém mais. O Vaishnavita diz que uma entidade viva quando ele esquece sua verdadeira “Swarupa” como a eterna unidade de serviço transcendental subordinada, torna-se explorada e constantemente atacada pela “Birupa” ou natureza material. A exploração e o ataque que geralmente vemos externamente sobre nossos semelhantes não são mais que os ataques e a exploração da natureza material sombria que tenta colocar a alma condicionada no caminho da retidão num método indireto – assim como o professor castiga o aluno a fim de colocá-lo na retidão. A ajuda temporária para salvar um de tal ataque ou exploração, pode salvar um de tais ataques ou exploração por um agente visível da natureza material, mas isso não salvará o doente das mãos da natureza material que é chamada de Deus e insuperável no Bhagavad Gita. Quando um culpado é punido dentro das paredes de uma prisão pelo Superintendente da prisão, o grito infantil de outros prisioneiros ou o protesto deles pode dar algum alívio temporário ao prisioneiro destinado à punição, mas isso não pode lhe dar alívio real. A fraternidade dentro dos muros da prisão pelos próprios prisioneiros não melhorará certamente seu ideal de fraternidade universal sob as rédeas do carcereiro responsável.

Todo o ideal de fraternidade universal, paz e amizade certamente dará prazer permanente assim que os irmãos receberem alívio da exploração e dos ataques da Natureza Material, assim como os prisioneiros, quando forem libertados do controle do Superintendente da Cadeia para desfrutar da doçura da fraternidade concebida por eles. Dentro dos muros da fraternidade de uma prisão para alívio mútuo está a revolta contra as leis da Cadeia e como tal a fraternidade universal dentro das leis da Natureza Material não tem sentido.

O Vaishnavita, portanto, tenta tirar um primeiro da exploração e ataque das mãos da Natureza Material, colocando um sob a orientação do Yogamaya e depois só ele concebe para uma verdadeira fraternidade universal entre homem para homem e nação para nação.

O processo de obter alívio da exploração e do ataque das mãos da Natureza Material é entregar-se incondicionalmente aos cuidados da Personalidade Absoluta da Divindade e essa é a fórmula reconhecida no Bhagavad Gita. Quando alguém consegue “VOLTAR A DEUS” ele pode realmente formar uma unidade nos ideais da Fraternidade Universal e nenhuma outra.

Toda ação no mundo mundano é influenciada pelos modos da Natureza Material e como tal são ativados ou por bons ideais, paixão ou ignorância. As ações de primeira classe são realizadas sob os modos de bondade, mas mesmo tais ações são influenciadas pela natureza material como resultado da qual elas são não permanentes, imperfeitas e não propícias.

Assim, para se livrar das mãos exploradoras e atacantes da natureza material, é preciso transcender os modos da natureza material através do serviço constante da Personalidade da Divindade, pois esse é o processo de transcender os modos da natureza material. Quando cada um, portanto, está engajado no serviço da Personalidade da Divindade é então e somente em relação à Personalidade da Divindade, tudo se torna perfeito, permanente e transcendental. Este é o processo concluído em Bhagavad Gita.

A Personalidade da Divindade diz no 26º sloka do 14º capítulo:

“E aquele que Me adora por uma devoção exclusiva no serviço, tendo passado por todas as três modalidades, está em conformidade com a natureza de Brahman (o Absoluto)”.

Assim, de acordo com o Vaishnavita, somente aqueles que se engajarem no serviço devocional da Personalidade da Divindade por sua vida, dinheiro, inteligência e palavras podem ser elegíveis para ser um membro do vínculo da fraternidade universal. Ao servir ao todo, somente as unidades podem ser servidas.

Os ideais do Teosofista, tal como foi dito por H. P. Blavatsky, são os seguintes:

“Que a tua Alma empreste seus ouvidos a todo grito de dor, como se o lótus batesse seu coração para beber o filho da manhã”.

Não deixe o sol feroz secar sobre lágrimas de dor antes que você mesmo as tenha enxugado do olho do sofredor”.

Mas que cada lágrima humana ardente caia sobre seu coração e lá permaneça; nem nunca a escove até que a lágrima seja removida.

Estas lágrimas, ó misericordioso de coração, são os rios que irrigam os campos da caridade imortal”.

Estas palavras só podem ser dadas forma prática por aqueles que dedicaram sua vida por cento do serviço da Personalidade da Divindade e sem isso simplesmente permanecerão como ideais de ouro que nunca serão cumpridos no reino do homem. Os devotos só pensam pelos caídos e abatidos, tentam pegá-los da lama da existência material e são eles que apenas tentam para o benefício permanente dos que sofrem com a exploração e o ataque das mãos da Natureza Material Soturna representada pela figura da Deusa Kalika em modo destrutivo.

A “Caridade imortal” só pode ser realizada quando somos capazes de reavivar a lembrança do serviço eterno da Personalidade da Divindade. Como este serviço pode ser realizado é um assunto a ser delineado em outro capítulo, mas como o Teosofista diz que tornar-se um cidadão no reino de Deus implica responsabilidade, dever e sacrifício, a responsabilidade de um Vaishnavita é reavivar na consciência de todos e de cada um, a relação transcendental da Divindade. O dever é primeiro se engajar no serviço transcendental da Personalidade da Divindade e depois tentar engajar outros também no mesmo compromisso transcendental e, portanto, deve haver sacrifício de vida, dinheiro, inteligência e palavra para a propagação e o renascimento de tais atividades transcendentais. O Senhor Jesus Cristo sacrificou Sua vida por esta causa e todos que querem entrar no Reino de Deus devem estar prontos para sacrificar pelo menos parte de sua renda se não outras coisas, a fim de transformar este inferno no Reino de Deus. Deus é Grande e Ele se reserva o direito de não ser exposto ao mundano especulador e filósofo seco, mas Ele próprio aparece por Sua própria vontade e independência quando lhe são oferecidos serviços amorosos transcendentais em todos os aspectos. O Sol aparece pela manhã apenas por Sua própria vontade e sem estar preso ao esforço alheio do cientista. O cientista deixará de fazer aparecer o Sol à noite pela descoberta de todos os holofotes e instrumentos científicos.
Quando Ele aparece, a ignorância desaparece e a pessoa é capaz de vê-lo Todo Bom, Todo Sabido e Todo Bonito e também é capaz de ver a si mesmo, que ele também é Todo Bom, Todo Sabido e Todo Bonito qualitativamente. Quando ele se levanta, pode-se ver o sol nos raios do sol e não só o sol, mas também a si mesmo e todas as outras coisas por ele. Assim como com a aparência do Sol, a escuridão voa, assim com a aparência da divindade por seu nome transcendental, fama, forma, qualidades, etc., a ignorância, a pobreza e a miséria desaparecem; esse é o veredicto de todos os aforradores e escrituras.

O Teosofista tenta conhecer a Divindade e Seu Reino no Padrão em graus lentos no processo de esforço próprio e pelo processo indutivo de generalização, mas o processo de Vaishnavita é o oposto. Ele se aproxima de uma Autoridade Superior que conhece a Divindade e Seu Reino e tenta saber dele submissamente pelo processo de dedução em um modo de serviço e perguntas sinceras relevantes para conhecer a verdade. O trigésimo quarto sloka do quarto capítulo de Bhagavad Gita ordena isto com as seguintes palavras:

“Aprenda isto (conhecimento da Divindade e de Seu Reino, etc.) fazendo reverência (isto é, tornando-se discípulo) por contraquestões e por serviços. O Sábio (aquele que realizou a Divindade e Seu Reino) que viu a Verdade te ensinará (este conhecimento)”.

O processo do Vaishnavita é mais fácil e perfeito do que o processo dos filósofos empíricos que tentam conhecer Deus e Seu Reino por causa de seu pobre fundo de sentidos limitados e conhecimento imperfeito derivado da especulação sensual. No curso normal de nossa vida também nos aproximamos da pessoa certa para aprender um assunto perfeitamente. Não nos aproximamos de um engenheiro se quisermos aprender a ciência dos medicamentos. Da mesma forma, se quisermos conhecer Deus e Seu reino ou se quisermos ser servidores de Deus, devemos nos aproximar de um verdadeiro servo de Deus e não devemos nos aproximar de um servo de cachorro. A menos, portanto, que não nos aproximemos dos pés de alguém que seja transcendentalmente sábio e perfeito, é inútil falar de Deus e de Seu reino.

Nesse processo, o Vaishnavita percebeu Sri Krishna como a Personalidade Absoluta da Divindade e a Origem de todas as causas. Os Grandes Goswamins descobriram 64 qualidades transcendentais em sua plenitude em Sri Krishna que nunca devem ser descobertas em nenhuma outra pessoa ou deus e, portanto, O encontraram (Krishna) como Todo Bom, Todo Conhecedor e Todo Bonito.

O Teosofista percebe Sri Krishna em seu aspecto impessoal Brahman ou Vishnu que reside dentro como Paramatma e fora como a Virata e esta realização está em perfeita harmonia com a observação do Vaishnava. Mas o Vaishnava vai ainda mais fundo e O vê como a Personalidade da Divindade “Bhagwan”. O aspecto que permeia tudo da Personalidade da Divindade é realizado pelo Vaishnava simultaneamente com a realização de seu Aspecto Pessoal. O exemplo vívido para isto é Pralhad Moharaj. Quando Pralhad Moharaj estava sendo ameaçado por seu pai ateu Hiranyakashipu de ser morto instantaneamente, Ele (Pralhad Moharaj) permaneceu firme e corajosamente sem qualquer cuidado com as palavras ameaçadoras de seu pai. Hiranyakashipu perguntou: “Como é que você, menino tolo, ousa negligenciar minha raiva que ameaça todo o universo? Sob a influência de quem você é tão destemido que não se importa com as minhas palavras”?

Pralhad Moharaj respondeu a seu pai: “Oh rei, a força da qual eu dependo não é apenas minha força, mas é também a sua força e essa força é também a força de todos os homens fortes. Sob essa força tudo anima ou inanimado neste universo funciona como subordinado. Ele é o Todo-Poderoso, Ele é o Tempo, Ele é o Poder dos sentidos, Ele é a força da mente, Ele é a força do corpo e Ele é o espírito dos órgãos dos sentidos. Seu poder é ilimitado, Ele é o Maior de todos, Ele é o Senhor dos três modos da natureza e Ele, por sua própria força, cria, mantém ou destrói todo este universo. Você pode desistir deste caráter infiel, não nutra esta natureza de inimizade e amizade dentro do seu coração, mas seja igual a todos os seres. Não há outro inimigo maior do que a mente que está descontrolada e sempre se extraviando. Sentir para todas as entidades como uma só conosco é a forma mais elevada de religião. Nos tempos antigos, alguns homens tolos como você costumavam pensar como se tivessem conquistado todos os quatro cantos do universo, sem conquistar os seis sentidos dentro de si mesmos, que são objetos que matam a todos. Mas não há inimigo para aquele, que é igual a todas as entidades, santo autoconquistado. O inimigo é criado apenas por nossa ignorância”.

O pai ateísta ficou muito irritado com estas palavras de seu filho Pralhad Moharaj e começou a insultá-lo dizendo: “Seu tolo, você se atreve a me fama de mal e se chama de conquistador de todo inimigo e, portanto, você está orgulhoso de sua aquisição. Com isto posso entender claramente que você está fortemente desejoso de morrer, pois conheço aqueles que querem morrer, dizem todas estas palavras de lixo diante de mim. Você acredita que existe algum Deus mais poderoso do que eu? Onde Ele vive? Se Ele é todo-penetrante, por que Ele não vive dentro deste pilar diante de mim? Eu arrancarei sua cabeça de seu corpo que está tão orgulhoso e deixarei seu Deus vir aqui e salvá-lo”.

Pralhad Moharaj ainda permaneceu em silêncio, pois sabia que Deus é onipresente e que Ele certamente viverá dentro do pilar marcado por Hiranyakashipu. Hiranyakashipu quebrou o pilar e a Personalidade da Divindade saiu dele na forma de Narasingha apenas para matar o ateu Hiranyakashipu e outras pessoas demoníacas.

Assim, a realização do Vaishnavita da Divindade Absoluta é plena e perfeita em todos os seus diferentes aspectos, enquanto a realização do Empirista ou do Trabalhador Místico (Iogins) ou Fruitivo é apenas parcial e imperfeita, pois eles só podem perceber em um aspecto da Verdade Absoluta.

O Teosofista como uma unidade no Todo deseja moldar seu destino e, portanto, o destino do Todo. A alma individual quando ele se torna um Vaishnava ou seja, se identifica com o interesse do Visnu, o Senhor do Universo, é então apenas ele percebe sua verdadeira posição como unidade no Todo e assim ele descobre seu dever para com o Todo também. Ele percebe que faz parte do Todo e não é igual ao Todo. Ele é simultaneamente um com o Todo e diferente também. Ele percebe que Sri Krishna, a Personalidade Absoluta da Divindade, é Grande e Infinita enquanto ele mesmo, embora a parte e parcela desse Infinito, seja infinitesimal. Ele é o Fogo e as almas individuais são inumeráveis faíscas emanadas Dele. Como tal, qualitativamente, as almas individuais têm a mesma potência de fogo que o próprio Fogo. Sri Krishna, a Personalidade Absoluta da Divindade, é Todo-atraente, portanto, a alma individual, quando realmente se dá conta de sua própria posição e assim se torna atraída por Sri Krishna, é então capaz de atrair milhares e milhares de outras almas individuais para os pés de lótus de Sri Krishna. Em outras palavras, quando uma alma individual se realiza plenamente pela misericórdia de Sri Krishna, então só é possível para ele atrair outros para os Pés de Lótus da Personalidade Absoluta da Divindade. Nesta fase, somente a alma individual pode perceber que ele é um eterno servidor do Grande e do Infinito. A vida eterna é sua constituição e o amor transcendental da Divindade é seu negócio ou religião. Como tal, o Vaishnavita nesta fase molda seu destino por atividades que transcendentalmente aumentam seu Amor a Deus e da mesma forma ele tenta para os outros de modo que eles também possam reviver sua constituição latente de Amor e Serviço para a Pessoa Absoluta. Estas atividades são tão práticas quanto temos que fazer nossos trabalhos diários necessários e nunca devem ser simplesmente uma especulação intelectual com resultado de fadiga e desapontamento. Os trabalhos práticos são tão reais que gradualmente se colocam no oceano da bem-aventurança transcendental e todo o universo aparecerá a tal amante de Deus, como todo bem-aventurado, eterno e cheio de luz. Isto é chamado de vida pura e eterna incondicional da alma individual em sua existência espiritual.

Como tal, o Vaishnavita pode distinguir a vida de uma alma individual em divisões: incondicional e condicional. Como mencionado acima, a alma individual permanece a mesma parte e parcela do Grande e do Infinito, tanto no estado incondicional quanto no condicional. Nunca deve ser mal entendido que no estado incondicional a alma individual se torna o Infinito do Infinito. E porque a alma individual é infinitesimal sempre e nunca o Infinito, ela está sujeita a se tornar condicional sob as leis da natureza material e se fosse infinita em qualquer estágio, ela nunca teria sido sujeita a uma vida condicional sob as leis da natureza. Essa é sua posição marginal.

[Este artigo também apareceu em duas partes em Back to Godhead Vol I Parte VIII e Vol I Parte IX publicado em 1952].

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PRABHUPADA, Srila. Theosophy Ends in Vaishnavism. In. Back To Godhead. January, 1944. Disponível em:
<https://back2godhead.com/theosophy-ends-in-vaishnavism/>. Acesso em 4 de março de 2022.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-teosofia-termina-no-vaishnavismo/

A Corrupção Moderna da Magia

Eu me identifiquei muito com o autor do texto. Ao longo destes 30 anos estudando ocultismo, presenciei praticamente os mesmos problemas que o “Prophecy” (autor do texto original). Atualmente, graças à internet, tenho visto tomos e mais tomos de magias disponíveis em pdf, e gente que se acha mago e thelemitas de facebook só porque leram meia dúzia de livros, mas que se você for ver, não sabem nem ao menos fazer os rituais mais básicos do Pentagrama ou um banimento simples.

Magia é como kung fu ou natação: você pode ler todos os livros do mundo a respeito, mas não vai saber fazer a não ser que tenha a parte prática.

Esta será uma lição longa, portanto, ao trabalho. Não pule partes por causa de seu tamanho. Leia cada palavra, e tome notas diligentemente.

A predominante abordagem à magia, nos dias atuais, deve ser abolida. O processo iniciatório dos maçons do passado e a ideia do avanço espiritual através apenas do conhecimento devem ser deixados como relíquias do passado. Como a Jnana Yoga atesta, e como Francis Bacon declara, existe, certamente, poder no conhecimento. Porém, o melhor poder é aquele adquirido da prática e, consequentemente, da experiência. Um pouco de prática vale muitos livros. Esta deve ser a ideia predominante dos anos vindouros, se a humanidade quiser reviver a irmandade de magos no mundo e redistribuir a carga de trabalho espiritual que, no momento, cai quase inteiramente nos ombros de iogues.

A incompreensão da magia legítima criou uma ameaçadora carência de adeptos ocidentais iluminados. Esses adeptos mestres, reais Deuses-Homens do passado, estão raramente reencarnando. Parece, portanto, que, no geral, existem poucos grandes magos disponíveis. O número deles se tornou escasso; seu nível, baixo. Nos meus tempos de garoto, antes de minhas memórias retornarem, eu procurei aqui e ali alguma faísca de sabedoria, estudei muitos sistemas de magia e de xamanismo, e, no fim, me senti como Abraão, o Judeu, depois de seus anos de procura pela Ciência Divina, antes de ser abençoado por seu guru, Abramelin. Em lugar algum, eu pude encontrar alguém que merecesse o título de professor da ciência divina. Fraudes e charlatãos eram numerosos, e pessoas pensavam que eles eram magos só porque nunca conheceram um mago verdadeiro. Hoje, essas mesmas pragas ainda infectam bastante as buscas de jovens aspirantes ao redor do mundo.

Existe um número de razões para a escassez atual de sábios na tradição oculta ocidental. Eu me esforçarei aqui para compartilhar com vocês algumas das razões que as minhas experiências com aspirantes esperançosos, os ensinamentos de várias ordens e paradigmas, e meu tempo com as “vítimas” de vários movimentos new age, me levaram a classificar como causas para o problema. Eu baseei essas conclusões nas súplicas de aspirantes esperançosos buscando iniciação, e nos meus encontros pessoais com alguns dos ditos adeptos de vários grupos e ordens. Ao fazê-lo, eu compreendo totalmente que falar com alguns estudantes e alguns membros superiores nunca pode dar uma representação compreensiva. Porém, eu também compreendo que, não importa quão ideais as condições internas de uma ordem possam ou não ser, ela não deveria levar seus estudantes externos à procrastinação ou a um treinamento inadequado.

Eu identifiquei dez problemas principais na magia de hoje. O primeiro é que o treinamento proposto por certas ordens nos últimos 200 anos ou mais era incompleto, e por eles terem ditado a regra para as ordens de hoje, os problemas continuaram. O segundo é que os materiais originais e manuscritos para certos sistemas são atribuídos com mais valor do que o que eles realmente possuem. O terceiro é que a mente ocidental transformou a magia em algo feito para se realizar os desejos materiais. A quarta razão para o problema presente é que, na medida em que nossa cultura propaga a concessão à preguiça, a abordagem ocidental à magia se torna mais e mais preguiçosa. A quinta razão é a tendência peculiar da mente ocidental de se tornar altamente investida em sua própria personalidade. A sexta razão é a destruição da sucessão de mestre e discípulo, a causa que é a raiz para muitos outros problemas. A sétima razão, que é um verdadeiro veneno para a evolução, é o movimento presente, na magia ocidental, de se tentar remover a ideia essencial de Deus e o valor da moralidade da magia. A oitava razão é a popularidade crescente de charlatãos, e seu poder sobre as massas ignorantes. A nona razão é a tendência de magos legitimamente treinados permanecerem silenciosos, aceitarem poucos estudantes e escreverem pouco ou nada. A décima e última razão que discutiremos é a atenção dada, no Ocidente, ao desenvolvimento dos poderes mágicos em vez do desenvolvimento de estados elevados de consciência. Essas dez razões primárias bastarão para nossa consideração, embora mais razões pudessem ser listadas.

A Primeira Razão

Treinamento Inadequado em Ordens Modernas

Entre aproximadamente 1850 e 1920, o mundo ocultista presenciou a formação de várias ordens que se ergueram no mundo como realizações gloriosas. De seus ensinamentos, vieram muitos dos livros influentes que agora são considerados clássicos do ocultismo, e os quais agora muitos estudantes otimistas estudam. Infelizmente, essas ordens não eram tão ideais quanto tentavam parecer. A maioria delas usava como fonte manuscritos desatualizados, sobre os quais falaremos mais daqui a um momento, e o resto usava métodos que se baseavam inteiramente sobre estimulação intelectual ou emocional, e muito pouco sobre a consciência da alma.

Essas ordens iludidas criaram muitos iniciados igualmente ou até mais iludidos. Um número considerável deles publicou livros, muitos dos quais agora são considerados clássicos do oculto no mundo da literatura ocidental ocultista. Em alguns casos, esses livros tinham riqueza de informação teórica, mas a maioria deles não tinha quase um momento de percepção prática. O aspirante esperançoso é levado a folhear um livro de centenas de páginas, para perceber que ele não absorveu nada dele além de filosofia. Até mesmo os livros chamados de “teoria e prática” deveriam ser renomeados para “teoria e possível aplicação ritual”.

Isso pode parecer uma afirmação iconoclástica. Ela é, e com razão, porque a iconologia da magia está falhando gravemente. Portanto, o que não produz resultados deve ser jogado de lado. “E agora também o machado é enterrado nas raízes das árvores: desse modo, qualquer árvore que não traga bons frutos é cortada, e jogada no fogo. (Mateus 3:10)”. A série de ações à qual a magia ocidental foi levada não trouxe muitos frutos. Essas ações produziram pseudoiniciados que conseguem executar truques de salão, que eles, erradamente, chamam de magia. Enquanto magos de cadeira estiveram gastando seu tempo, exercitando suas mentes com teorias e filosofias, o trabalho prático que realmente cria um mago esteve apodrecendo. Quem pode culpá-los, quando cada livro que lêem diz que precisam saber essa ou essa outra palavra hebraica ou magia simbólica para serem efetivos? Tudo isso compõe as armadilhas postas para o teste de iniciados, testes nos quais essas “autoridades” não passaram.

Um indivíduo pode memorizar sigilos do sol, kameas planetários, selos e talismãs salomônicos, e compreender intelectualmente os muitos processos que compõem a Maquinaria Universal. Ainda assim, ele não será um mago nos olhos de iniciados verdadeiros. Eu conheci pessoas que poderiam ser chamadas de enciclopédias de filosofia oculta, e, ainda assim, não possuem rotina diária de prática estabelecida, e nenhuma faculdade mágica de qualquer tipo. Eles estão presos à ilusão de Maya do mesmo modo que os homens comuns também o estão. A única diferença é que eles sabem que existe uma ilusão, enquanto a maioria nem se apercebe disso. Pessoas assim gostam de falar muito, porque, ao se ouvirem, tentam apoiar sua abordagem à magia, psicologicamente, para si mesmos. Tais pessoas sempre terão uma opinião, sempre parecerão ter respostas prontas, e esse tipo de “aspirante em potencial” torna-se particularmente perigoso aos buscadores genuínos da verdade. Você não pode construir uma base confiável somente nas palavras! Ao mago treinado, aos irmãos e irmãs de minha Ordem (N.T.: Fraternidade Rosa-Cruz), e os verdadeiros mestres reinantes deste mundo, essas pessoas estão mais enganadas do que o mais cru dos iniciantes neste caminho. O grupo deles é o pior, e, infelizmente, não é sempre a culpa deles. Para essas pessoas, eu farei muito esforço para desligar suas mentes e abrir seus corações para receber instrução prática. É por isso que eu aconselho a todos não se tornarem ligados demais a livros. Eu já li todos esses livros, e extraí seus pontos importantes em artigos no fórum do Veritas para o benefício de todos.

Isso não significa que a informação teórica é ruim. Um conhecimento sólido da filosofia oculta é necessário para que o mago compreenda tudo que faz. Ele deveria se orgulhar de conhecer todas as operações em funcionamento quando ele manipula um tipo de energia, e, quando uma operação mágica se manifesta, ele deveria ser capaz de explicar perfeitamente os mecanismos envolvidos. De fato, ele deve ser um cientista. Contudo, mais e mais pessoas se contentam apenas com o conhecimento da filosofia e o “como fazer”, sem nunca colocarem nada na prática, e, normalmente, sem terem ideia de como fazê-lo. Em muitas ocasiões, estudantes vieram a mim e disseram, “Eu li todos os livros que as pessoas me recomendaram, mas não tenho idéia alguma de como começar o caminho.” Isso acontece porque a estimulação intelectual somente não faz de alguém um mago, e, lá no fundo, o estudante inteligente sabe isso. A mente procura por fórmulas e símbolos; a alma busca por prática e experiência.

Que utilidade há em se conhecer como as estrelas afetam as nossas atividades, e não ser capaz de meditar por nem dez minutos? Que utilidade há em se conhecer todas as filosofias sobre quem Deus é, sem nunca experimentar Deus diretamente? Essas pessoas nunca se tornam nada na verdade, mas sim só aparentam ser magos. Você não pode alcançar o Reino através de inquisição intelectual somente. Você precisa viajar até lá.

O ponto ao qual eu quero chegar aqui é que o estudo intenso da Tábua de Bembine de Ísis, ou do selo da Rosa-Cruz, ou do dodecaedro mágico, etc, é incorreto. Eu não estou sugerindo que, por exemplo, a investigação das fórmulas do Etz Chaim e dos Nomes Divinos é inútil. Eu não estou dizendo que uma pessoa não deveria compreender os usos mágicos do pentagrama e do hexagrama. Do contrário, eu sou um forte defensor de tudo isso. Porém, tudo deve ser aprendido no tempo certo! Um aspirante não tem razão alguma para estudar os pentagramas, hexagramas, etc. Ele não deveria passar seus dias praticando magia ritual. Sim, com o passar do tempo isso gerará resultados no termo de crescimento de poder, mas afetará muito pouco a consciência e a realização geral do mago, depois, em sua carreira mágica. Por, pelo menos, os dois ou três anos iniciais, dependendo da aptidão do estudante, o foco deveria ser colocado no treinamento da mente, do corpo material, e do corpo astral para a verdadeira execução da magia. Uma vez que o estudante se preparou dessa maneira, e criou uma excelente base em sua consciência, então ele pode continuar, a fim de compreender e apreciar totalmente o poder de tal conhecimento e do simbolismo oculto.

A razão pela qual esses autores, embora não intencionalmente, cobriram o mundo ocultista ocidental em filosofia, é a de que eles nunca receberam o treinamento correto que deveria dá-los a base da experiência espiritual autêntica. Eles serviam como enciclopédias que regurgitavam o que eles foram ensinados. Juntos, eles criaram uma imagem contraprodutiva de que a prática diária não era necessária para se tornar um adepto. Eles se referiam a pessoas que nem tinham conquistado suas emoções primitivas e desejos como adeptos! Desse modo, eles baixaram muito o nível para as gerações seguintes, que seriam forçadas a olhar os ensinamentos dessas pessoass se quisessem saber alguma coisa sobre magia. Agora que o nível está tão baixo, as pessoas em geral são incapazes de alcançar grandeza espiritual. Portanto, esse nível deve ser elevado novamente, certo?

O que exatamente essas ordens estão fazendo de errado? Seus dois problemas principais foram que eles tentaram ensinar aos iniciados a correr antes de mostrá-los como engatinhar e andar, e eles não incluíram o desenvolvimento do caráter como parte de seu treinamento. O aspirante egoísta, glutão, e de pavio curto, entraria na ordem como neófito, e sairia como um “adepto” ainda contendo essas falhas de caráter. Eles são todos capazes de pequenos feitos de magia, e pelo fato de o nível ser baixo, pensam que são adeptos.

Muitas vezes o aspirante começaria a trabalhar com ritual e forças espirituais muito antes de ter aprendido a como sensibilizar seu corpo astral ou desenvolver suas faculdades mágicas. Através de repetição contínua, alguma proficiência poderia ser alcançada, talvez algumas pancadas fantasmais durante uma evocação ou coisa do tipo, mas o resto de seu ser nunca era desenvolvido. O caminho para a evocação deveria ser um caminho longo e frutífero, que preparasse o estudante de modo que, pela primeira vez que ele execute um ritual, ele receba a total experiência, por causa de seu treinamento e as faculdades que ele já desenvolveu. Pessoas que entram na sala ritual para evocar sem tal treinamento estão apenas enganando a si mesmas. Elas irão, é claro, ser as primeiras a te contar que são magas bem-sucedidas, e que elas conversam regularmente com esse ou aquele espírito. Eles dirão que “sentiram” isso ou aquilo, ou receberam essa ou aquela “impressão”, e desse modo “sabiam” que um espírito estava presente. Deixe essas pessoas continuarem desse modo em suas práticas. Na verdade, o que você pode experimentar em uma evocação real não são “sensações” ou “impressões”, mas fenômenos muito reais!

Quantos aspirantes perdidos pensam que executar o Ritual Menor do Pentagrama cem vezes por dia os levará às alturas espirituais? Até mesmo o mago aspirante que medita somente 10 minutos por dia para controle e foco mental fará um progresso em um ano que o outro estudante fará em cinqüenta!

A Segunda Razão

Manuscritos originais Sobrestimados

Um número das ordens populares que surgiram no século 19 estilizou uma parte de suas práticas e rituais, baseando-se em coisas que não continham, na verdade, o valor atribuído a elas. Desses manuscritos, talvez aquele que foi mais usado (e abusado) foi o Livro Egípcio dos Mortos. Embora seja uma bela série de rituais e de invocações, os fundadores de uma pretensa ordem oculta não deveriam precisar de se basear em antigos pergaminhos empoeirados e da interpretação de seus hieróglifos para serem capazes de ensinar magia! Se a fonte deles para muitas de suas práticas e filosofias vem de tais coisas, então isso só serve para demonstrar que eles não tinham experiência prática real através da qual organizavam seus ensinamentos, e não eram treinados por adeptos verdadeiros que podiam iniciá-los numa linha de sucessão de mestre e discípulo. Simplesmente o fato de se ler algo que está disponível num Museu de História Egípcia nunca poderia ser o suficiente para permitir que alguém iniciasse uma ordem ocultista.

O Livro Egípcio dos Mortos não foi a única coisa atacada pela ignorância dos autoproclamados adeptos, no entanto. Sua hostilidade os levou também ao coração de Jerusalém, onde eles se uniram, com suas facas, para despejar terror sobre a Cabala. Usando dois ou três textos hebraicos pobremente traduzidos, eles presumiram ter diante deles informação cabalística suficiente para uma compreensão do sistema inteiro. Assim sendo, eles roubaram uma pequena parte desse sistema glorioso de misticismo e a levaram de volta a suas ordens, onde eles tentaram ao máximo fazer com que um fragmento se parecesse com algo completo.

A Cabala ocidental moderna, frequentemente chamada de Cabala Rosacruz (erradamente), se tornou apenas uma fina camada de manteiga espalhada em muito pão. Interpretações e mais interpretações bombardearam o sistema, e o tornaram inteiramente sujeito aos caprichos filosóficos de intelectuais e estudantes de simbolismo. Agora, reconhecidamente, a beleza da Cabala é a de que ela é um sistema universal, cuja ideia pode ser aplicada fora do esquema judaico. Porém, tudo deve ter seus limites razoáveis, e esses limites foram ultrapassados há muito tempo atrás pela maioria dos autores desse assunto. Se você quiser relacionar a esse esquema os deuses de outras religiões, os nomes divinos judaicos, plantas, animais, ações, planetas etc, tudo bem com isso, mas essas relações deveriam fazer ao menos sentido!

A mais infeliz destruição da Cabala não ocorreu em relação ao simbolismo empregado ou a seu papel como um método de categorização conveniente. Embora essas duas coisas tenham saído do controle, elas não são a jóia da Cabala. A jóia, o verdadeiro tesouro, é sua real aplicação prática na ciência da magia. Essa jóia tem sido quase inteiramente esquecida por ordens modernas e autores, que proclamam que a aplicação prática da Cabala reside somente em se conhecer quais nomes divinos ou cartas de tarô correspondem a quais sephiroth e a quais caminhos. Esse é um dos usos da Cabala, mas não é a verdadeira essência da Cabala prática posta em execução. Em sua raiz, anterior a todas as culturas, num nível muito mais profundo do que qualquer associação religiosa, a Cabala é uma bela síntese de forma, de som e de virtude. Isso pode ser dito de outra maneira, ao se afirmar que a Cabala combina, numa maneira prática, os três pilares primários de quantidade, vibração e qualidade. Isso se torna aplicado tangivelmente como luz, som e vibração. Quando isso é compreendido pelo iniciado, então, muitas portas são abertas a ele, e o uso prático da Cabala é entendido. Então, em vez de passar horas num devaneio espiritual, tentando fazer “pathworking” de uma esfera para outra, o adepto consegue absorver praticamente as autoridades e poderes daquela esfera e conquistá-los diretamente, de uma maneira mágica. Não apenas tal abordagem é muito mais eficiente, mas, por causa do maior número de habilidades conseguidas, artigos de sabedoria que se tornam compreensíveis, e por causa de mais trabalho meticuloso em todos os três reinos, é, dessa maneira, uma experiência mais significativa. Passar tempo se contemplando os símbolos de uma esfera pode ser uma prática útil, mas torná-la o curso principal é um erro. A consciência se expande mais quando todo o ser se torna imergido nas energias através de suas utilizações, não apenas através de sua contemplação.

A Cabala e sua aplicação apropriada devem ser, necessariamente, reservadas para um trabalho posterior em minha vida, mas é importante para o estudante sincero da magia de hoje compreender que uma das pedras angulares da magia ocidental moderna foi enormemente corrompida, e que ela não é tudo que as pessoas tentam fazê-la parecer. É meu conselho ao aspirante, se ele deseja aprender a Cabala, que espere até que um professor apropriado seja conseguido. Deixo que o estudante avançado contemple, nesse meio tempo, o significado da sabedoria de Poimandres a Hermes Trismegisto, quando ele disse, “A vida é união da palavra e mente.” O estudante que consegue entender isso, mais especialmente em conexão à formula Abracadabra, começará a pegar a essência da Cabala prática.

Portanto, acontece que os fundadores das ordens mágicas eram, simplesmente, intelectuais. No início, eles só eram mais avançados que o homem comum, em vista de sua compreensão superior de linguística e sua vontade de visitar frequentemente os museus. Por causa de sua habilidade de apenas traduzir, não por sua proeza mágica, tais homens eram tratados como adeptos. Embora houvesse alguns raros, como MacGregor Mathers, que eventualmente se tornou um adepto por um curto tempo, em essência, a maioria deles era simplesmente de intelectuais. Intelectuais podem treinar intelectuais, mas eles não têm nem uma ideia de como criar magos.

A Terceira Razão

A Corrupção da Magia para a Realização de Desejos Pessoais

Quando se folheia livros sobre espiritualidade, e até livros que, supostamente, ensinam a evolução espiritual, descobre-se que a maioria dos ensinamentos espirituais se adequou à satisfação de paixões e desejos mundanos. Ironia peculiar, porque o indivíduo iluminado compreende que essas duas coisas (evolução espiritual e desejos materiais) não podem vir juntos, porque um é contraprodutivo à consumação do outro. Eu não consigo deixar de rir alto ao ler títulos tais como “Tornando-se um Mestre Ascencionado: Como Materializar Todos os Seus Desejos”. Seria igual a intitular um livro de “Tornando-se Elevado: Como ser Inferior.”

A poluição da tecnologia espiritual foi uma inevitabilidade quando alguns relances das leis espirituais foram obtidos pelas massas indisciplinadas. O homem normal, abatido pela tristeza, procura um caminho fácil de sair dela, e erradamente acredita que ele encontrou a alegria dentro dos salões da espiritualidade. Realmente, nada poderia ser mais distante da verdade. Essas pessoas, desejando modos de alcançarem facilmente todos os seus desejos mundanos e terem sucesso, glória, honra, riquezas etc, se trancam ao pequeno número de leis espirituais que foi publicado, nas esperanças de usá-las para seus próprios fins egoísticos. Eles lêem um livro que discute alguns dos pequenos mistérios, e então corrompem essas chaves para fins egoísticos. Se eles tiverem algum sucesso, eles ficam cheios de excitação e, ansiosamente, escrevem livros ou criam websites que pregam os bons ensinamentos do egoísmo. Desse modo, em apenas poucas décadas, a vasta maioria de livros “ocultistas” se tornou livros que prometem ao homem fraco e egoísta um caminho fácil, ao se usar leis ocultas básicas para abastecerem seu animalismo. As pérolas foram jogadas aos porcos, e, tão certo quanto o sol deva nascer e se pôr novamente, também os porcos pisaram sobre essas pérolas, aprofundando-as na lama.

Muito mais perigosos do que o homem de negócios ambicioso desejando modos de aumentar seu portfólio, ou do que aquelas pessoas em sofrimento que procuram por um modo fácil de sair dele, são aqueles que perseguem seriamente a magia prática e ainda assim a corrompem numa arte egoística. Eles proclamam, ignorantemente, “A Magia é uma ferramenta do homem, e deixemos o homem usá-la para conseguir tudo que ele deseja!”. Eles gritam orgulhosamente, “Faça como quiser, tudo é caos mesmo, e não existem repercussões negativas”. Tais pessoas cegaram a si mesmas a até a mais básica das operações, observada até na própria natureza. Elas são tão cegas, contudo, que nem percebem que suas “realizações” não são realmente mágicas. Elas são egoístas e egoísticas, e, realmente, executam apenas truques de salão. Elas ficam tão presas em suas ilusões de sucesso por terem sido capazes de ganhar um aumento de salário ou seduzir alguém que não percebem quão fracos e inferiores esses pequenos truques são. Quando essas pessoas, iludidas como são, passam para os mundos espirituais depois da morte física, eles percebem imediatamente o tempo que gastaram, e depois de servirem o seu tempo, voltam ao mundo para levarem uma vida mais frutífera. Por eles nunca terem buscado uma realização imortal, e não “construíram seu tesouro no céu”, eles não estão mais distantes no caminho supremo do que o homem mediano. Esse é um ponto importante, que todos aqui deveriam dedicar à memória: você NÃO CARREGA poderes mágicos com você para a sua próxima encarnação. Até que você alcance henosis, que é a deificação e a imortalidade do corpo astral, a única coisa que continuará a crescer e expandir, de uma vida a outra, é a sua consciência. Isso irá, naturalmente, carregar algumas siddhis, que são poderes inerentes, mas não os frutos de uma grande parte de seu treinamento mágico. O corpo astral cresce e evolui de uma vida a outra, como resultado de treinamento mágico, e discutiremos isso mais no futuro.

Por causa da obsessão com os pequenos mistérios, que podem ser aprendidos até antes de alguém ter alcançado um caráter iluminado, as pessoas se tornaram satisfeitas com o aperitivo e esqueceram até que a entrada principal exista. O resultado disso é que o termo “magia” tomou um significado ambíguo, que nunca pretendeu de ter: na mão esquerda, refere-se simplesmente à mudança de acordo com a vontade, e, na mão direita, significa a perseguição da evolução espiritual. Se o mundo fosse um lugar bom e o último significado de magia o mais bem conhecido, todos compreenderiam que a magia é uma maneira de se buscar Deus. Esse não é o caso, contudo, e o mundo é um lugar predominantemente egoístico. Assim, a mais comum compreensão do quê magia significa é fenomenalmente egoísta e corrompida. Através da graça de Deus, o século por vir verá uma evolução acontecer dentro do mundo da magia, no qual esse grande e glorioso caminho será exaltado à sua altura correta em seu mérito espiritual.

A Quarta Razão

Preguiça

Na medida em que a tecnologia avança e o mundo material se torna mais e mais uma parte do ser de alguém, as pessoas têm se tornado mais e mais preguiçosas. A preguiça, é claro, é um instinto diretamente conectado ao egoísmo, o qual vimos acima como um desejo dominante no modo com o qual as pessoas abordam a magia. Assim, a preguiça também é inerente na maioria das abordagens das pessoas à magia.

Hoje, as pessoas se acostumaram a ter tudo em suas mãos. O sucesso se tornou definido como se fazer o mínimo possível para alcançar alguma coisa. Pessoas ao redor do mundo, todos os dias, prefeririam passar dez minutos em busca de um controle remoto do que levantarem e ligarem ou desligarem a televisão em poucos segundos de esforço físico. Essas pessoas abordam a magia do mesmo modo. Querem saber onde o controle remoto para a evolução espiritual está, de modo que eles possam se ligar em Samadhi quando não estão muito ocupados para Deus, e então o desligam novamente quando eles têm coisas “melhores” para fazer. Do mesmo modo que se procura por um controle remoto, eles gastarão uma hora numa livraria procurando por um livro “torne-se um mago rapidamente”, quando o fato de se gastar até mesmo dez minutos daquela hora em meditação teria sido muito mais benéfico.

A profundidade do egoísmo da pessoa comum nunca cessa de me impressionar. Eu falo a eles sobre magia, e sobre se procurar Deus e evolução espiritual, e eles desistem porque soa como “muito trabalhoso”. As mesmas pessoas que não jogarão nem dez dólares para um dízimo também não darão a Deus nem dez minutos de seu dia. “Eu dou a Ele uma hora por semana todo domingo”, dizem para si mesmos. “Se isso não é bom o bastante para Ele, Ele precisa superar isso. Eu estou ocupado.”

A falta de habilidade de se perturbar a rotina usual de preguiça por até poucos minutos, por Deus, é precisamente o que muitos autores e os chamados professores pregam hoje. Eles ganham centenas de milhares de dólares ao escreverem livros especificamente criados para esse tipo de pessoa, dizendo a ela “É normal ser preguiçoso”. Nos olhos desse autor, é claro que é normal. Essas pessoas irão torná-lo rico!

Formas de magia que estão surgindo hoje estão refletindo essa preguiça. As pessoas estão tentando convencer outras de que a magia pode ser um esporte de um tipo fácil, e que tudo estará bem. O que eles estão ganhando? Eles estão convencendo pessoas de que magia não é real, porque, depois de tentarem essas tentativas preguiçosas e não verem nenhum resultado, proclamam que, uma vez, tentaram fazer magia e descobriram que era tudo mentira. Nunca diriam que talvez eles só estivessem sendo preguiçosos. O homem comum se levanta orgulhosamente e grita, “Eu, com certeza, não sou o problema!”.

Não espere ter uma boa colheita sem primeiro trabalhar o solo e cultivar as plantas com cuidado. Não espere ter uma boa refeição sem primeiro cozinhá-la. Não espere chegar a um lugar distante sem viajar até lá. O universo não é mau; mas ele não atenderá à sua egoística letargia.

A Quinta Razão

Egomania

A quinta razão que eu observei como fonte dos problemas de hoje na magia, é a egomania geral que infesta o mundo ocidental. No mundo de hoje, somos constantemente ensinados a sermos individuais, que ser único é o sonho humano, que você é especial e diferente de todo mundo, e que tudo isso é bom e verdadeiro. Infelizmente, o incorreto nessas autoafirmações é uma ligação fenomenalmente resistente à falsa percepção de quem se é. As pessoas se tornaram absolutamente investidas em suas cascas de ego que permeiam a parte mais externa de sua personalidade, e a defendem selvagemente.

Um dos medos mais comuns que as pessoas têm no que diz respeito à evolução espiritual é a perda de autoidentidade. Esse medo é baseado sobre duas percepções inteiramente falsas: a falsa percepção do que a iluminação é, e a falsa percepção de si mesmo. Quando esses dois se unem, um medo intrínseco surge, colocando muralhas entre a mente e a ideia de realização espiritual. Em algum ponto, as pessoas colocaram em suas cabeças que a destruição do ego é a destruição de sua personalidade, de seu caráter, e isso é, simplesmente, não verdadeiro. É, na realidade, simplesmente, a purificação do seu caráter, de modo que se eliminem os vícios e defeitos maiores, removendo-se assim o desequilíbrio espiritual. O problema real surge quando alguém é tão defensivo de sua personalidade que defenderá até mesmo seus vícios. Eles dirão coisas como “Claro, eu sou um mentiroso crônico, mas isso é quem eu sou, é assim que Deus me fez”. Tal ideia é inteiramente sem fundamento. Você não é um mentiroso crônico, porque, em sua essência, você é Deus. Apenas sua casca de ego mais externa é mentirosa, e não foi porque Deus o fez, mas por causa de suas ações que você, conscientemente, escolheu perseguir. Contudo, as pessoas não aceitarão isso.

Isso cai novamente no quarto problema, o da preguiça. As pessoas desejam tudo por nada, ou, se elas investem dez dólares, querem instantaneamente cem dólares de volta. Elas não acreditam que um relacionamento com Deus é um relacionamento recíproco, mas sim que é um relacionamento de “servidão”, onde Deus dá tudo, enquanto nós recebemos. Não funciona dessa maneira; nunca funcionou, nunca funcionará. Deus é um pai melhor que isso. Infelizmente, as pessoas prefeririam se apegar a seus vícios do que oferecerem seus aspectos negativos ao fogo alquímico para que sejam destruídos. A uma pessoa assim, o “ser único” é sempre mais importante que a Divindade. Existe esperança para tal pessoa? Você não pode ajudar alguém que não ajuda a si mesmo.

A falta de desejo de se sacrificar as falhas pecaminosas de caráter resultou não apenas na corrupção da magia, mas contribuiu grandemente à queda de um grande número de ordens ocultistas. No campo geral da magia, autores não treinados, que não são mais maduros do que uma criancinha de um ponto de vista mágico estão lançando livros que são absolutamente corrompidos por suas falhas pessoais. No campo das ordens ocultistas, os “adeptos superiores” são ainda crianças egoístas que tramarão vários dramas dentro da ordem, normalmente a fim de abolirem a autoridade do Grão-Mestre, de modo que possam competir com esse poder. Uma ordem ocultista genuína consiste de adeptos que ultrapassaram tais simples preocupações, e que nunca tentarão se elevar para prejudicar outras pessoas ou ao risco de prejudicarem um bem maior. Quando pessoas são permitidas a carregarem todas as suas falhas mundanas para uma posição de, supostamente, autoridade divina, o caos deve, necessariamente, resultar. Precisa-se meramente olhar a história do Papa para ver as evidências.

Deveria ser suficiente, nesse meio tempo, enfatizar que aspirantes nunca são postos em algum programa de lavagem cerebral que faz com que eles pensem e ajam de um modo determinado. Isso não poderia ser mais verdadeiro. Cada pessoa tem uma personalidade absolutamente única, e essa personalidade é uma expressão muito real do próprio Deus. Desse modo, todos são um avatar, uma manifestação de uma Personalidade Divina. A diferença entre uma pessoa comum e um santo realizado, porém, é a de que a pessoa comum turvou e sujou sua personalidade divina com uma lama imunda, enquanto o santo realizado poliu sua alma de modo que sua verdadeira personalidade pudesse brilhar. Você não é quem pensa que é! As pessoas acreditam que são tão velhas quanto seus corpos físicos, mas, na verdade, você é muito mais velho. Pelo fato de que a única personalidade que você pode lembrar é aquela em seu presente corpo, que tem apenas alguns anos de idade, você pensa que é você. A verdade é que você tem uma personalidade universal, uma personalidade muito única, sendo a única expressão total de Deus em essa forma exata, que esteve por aí por muito mais tempo do que o seu corpo. Deslocar a sua identidade de si mesmo da falsa percepção de seu corpo, para o supremo local de sua alma, é a meta da Grande Obra, a Verdadeira Alquimia. Para fazer isso, você deve remover gradualmente a lama que se acumulou como um grosso muco sobre sua alma, de modo que você se torne o você verdadeiro, em vez de esse você mortal e temporário. A personalidade que você tem neste momento tem todas as virtudes positivas da sua alma, mas você adicionou a elas os vários vícios e defeitos que você adquiriu nesta e nas últimas encarnações. A sua personalidade pode ser vista como uma parede cheia de buracos. A luz que brilha através desses buracos é sua personalidade real, enquanto o resto da parede é a imundície e o muco com o qual você se cobriu. A meta da sublimação pessoal é fazer com que o seu inteiro ser brilhe com pura luz.

Isso é, como muitos assuntos do oculto são, uma coisa difícil de ser explicada se usando a linguagem humana. Até com a explicação acima, será difícil, até para os mais inteligentes leitores, absorverem exatamente o que eu estou tentando dizer, até se pensam que compreendem. É algo que deve ser experimentado individualmente para saber, e, portanto, eu evitarei qualquer discussão compreensiva sobre isso.

A Sexta Razão

A Destruição da Sucessão de Mestre e Discípulo

A sexta maior razão para o deplorável estado da magia moderna é a destruição de uma linha de sucessão entre o guru e chela, mestre e discípulo. Quanto mais pessoas lançaram vários livros contendo os Pequenos Mistérios, mais pessoas começaram a, lentamente, substituir o mestre pela estante. Eles colocam em suas cabeças que, desde que consigam ler muito, nunca precisarão de um professor. Não é preciso dizer que essa abordagem raramente encontra sucesso. Por razões que já foram clarificadas, a vasta maioria dos livros de hoje é quase inteiramente inútil para alguém que esteja procurando por um meio prático e eficiente de autoavanço. Seu conhecimento pode crescer, mas sua alma normalmente não.

Uma razão para essa substituição, que deveria agora ser óbvia ao leitor, é o fato de que as pessoas hoje simplesmente não gostam da ideia de um professor, de um guru. Um mentor é, às vezes, bem recebido, mas apenas sob a exigência de que o mentor não seja saudado com muita apreciação, e a de que ele possa ser facilmente afastado. O ego da maioria das pessoas as leva a odiar a ideia de serem subservientes a um verdadeiro professor, por até mesmo pouco tempo, para assegurarem sua evolução espiritual. Isso as faria sentir menos sagradas que o guru, o que, de fato, elas são, e isso machucaria demais os seus egos. Dessa forma, elas não tolerarão isso.

Isso tudo fez com que muitos autores de hoje não tenham recebido treinamento legítimo de um professor verdadeiro. O conhecimento que eles apresentam em seus livros é, simplesmente, a mesma informação reprocessada que qualquer um poderia armazenar com tempo suficiente numa biblioteca, e eles, portanto, não se tornaram melhores que seus predecessores uma centena de anos atrás, os quais pensavam ser adeptos simplesmente por causa de sua habilidade de compilar a informação disponível. Tais autores, assim, começaram uma tendência que infectará totalmente os autores do amanhã, e, dessa maneira, solidificará essa tendência infeliz e autodestrutiva. Eu rezo seriamente para que, no futuro, mais adeptos que tenham passado por treinamento real nas mãos de um professor treinado dêem um passo à frente e passem os ensinamentos de seus mestres para o mundo. Até se isso acontecesse, cada livro deveria dizer dentro de suas páginas o que eu estou precisamente para dizer: embora o conhecimento ajude e ilumine a mente, a iluminação da alma deve ser recebida de um bom professor.

Por que você não pode fazer tudo sozinho? Por que você não pode ser aquele “lobo solitário” sobre o qual você ouviu falar? Aquele lobo solitário e durão que nunca precisa da ajuda de ninguém? Supere você mesmo. Você não pode fazer isso sozinho porque você nem sabe o que fazer ou onde começar, e se você soubesse, você não entenderia como fazê-lo mesmo assim. Se você pode derrotar o seu ego o suficiente para admitir isso, então você pode ainda ter esperança para o Reino de Deus. Se não, então você está muito mais interessado em si mesmo do que em Deus. Um livro pode sugerir lugares para começar, pode fornecer fórmulas e técnicas práticas (embora poucos, muito poucos o fazem) e podem até suprir uma rotina de treinamento completa. Até se você tenha esses livros memorizados, a quem você se voltaria quando um obstáculo surgisse que você não pudesse superar intelectual ou espiritualmente? Se você, embora com treinamento rigoroso, não visse resultados, como adivinharia o porquê disso? De qual lugar você receberia a informação que nunca foi antes publicada? Além disso, você seria forçado a aceitar a legitimidade de qualquer sistema de treinamento ou séries de informação, baseado inteiramente sobre a sua própria crença. Quando você tem um bom professor que está lhe iniciando diretamente, numa linha de mestre e discípulo, na magia genuína, então você tem alguém para se referir como um modelo e um exemplo. Você consegue ver quão efetiva essa abordagem à magia é, toda vez que você vê o seu professor. Através das ações dele, você pode decidir se o sistema é válido ou não. Dessa forma, o professor destruirá níveis de dúvida que, frequentemente, infectam pessoas que se submetem ao que agora é popularmente chamado de “autoiniciação”.

Neste ponto, nós dificilmente poderíamos continuar sem uma rápida consideração de uma jóia em particular, o livro O Caminho do Adepto, pelo Mestre Arion, Grande Iniciador Rosacruz, o S.F.C.R. (Sagrado Frater Christian Rosencreutz), que vocês conhecem pelo nome de Franz Bardon. Essa grande alma, um dos doze maiores adeptos mestres na inteira Fraternidade Branca, que governa particularmente sobre a iniciação, veio ao mundo em total Nirvikalpa Samadhi, na glória de seu corpo astral imortal, por toda a humanidade. Houve um grande sacrifício nisto.

Urgaya o invocou e ordenou que, enquanto estivesse aqui, ele lançasse ao mundo os primeiros três dos vinte e dois estágios de iniciação da Fraternidade Branca. Ele o fez, mas, do mesmo modo que Veos e eu fizemos, ele suavizou o sistema consideravelmente, para alcançar e ajudar o maior número possível de pessoas, enquanto tomava como estudantes pessoais aqueles poucos que estavam prontos para os ensinamentos mais sérios. O resultado desse serviço altruísta foram os três livros que ele escreveu, que foram feitos para levar o estudante até o ponto em que ele atraia um mestre espiritual que o inicie nos Grandes Mistérios. Embora essa trilogia seja excelente, particularmente seu primeiro livro, O Caminho do Adepto, eles ainda contém todas as inibições que um livro traz. Você não pode perguntar questões ao livro, não pode receber experiências espirituais dele, não pode chorar nos seus ombros quando o mundo parece ter se voltado contra você. O livro não irá assumir o seu karma para te ajudar, não limpará suas nadis e trabalhar nos seus chakras, não imergirá você, amavelmente, em sua própria aura. Acima de tudo, não servirá como um canal de mediação entre sua Kundalini pequena e a Kundalini Cósmica superior.

É minha convicção, baseada na experiência, que existe somente um tipo de pessoa que pode se submeter à autoiniciação com sucesso sem nunca ter tido um professor. Deve ser um adepto reencarnado que está simplesmente recapitulando seu desenvolvimento mágico de vidas passadas. Para tal pessoa, na medida em que ele aprende até apenas técnicas básicas, suas memórias mágicas começarão a, quietamente, voltar a ele, na forma de intuição acurada sobre como certas coisas deveriam ser executadas. Essa intuição mágica guiará suas ações, e sua alma guiará a consciência aos lugares corretos. Essa pessoa não precisa de um professor. Porém, a um tempo atrás ele certamente teve um, e se não tivesse sido pelo professor, ele nunca teria se tornado o adepto que se tornou.

A Sétima Razão

A Remoção de Deus da Situação

Na medida em que o mundo se torna, gradualmente, mais materialista, uma escuridão começa a envolver o intelecto de pessoas inteligentes. É um tipo de doença que dá a uma pessoa cegueira e a torna surda; de fato, deixa-a quase completamente insensível a qualquer estímulo. O nome dessa aflição, que paralisa e torna mudos todos os três corpos, é chamado Ateísmo. Quando algumas pessoas são afligidas por ele, tornam-se totalmente desafiantes contra todos os impulsos espirituais que sugiram a existência de Deus. Eles são uma ninhada de pessoas peculiar, sendo ignorantes ao grau de se tornarem engraçados aos olhos do iniciado.

Existe uma ninhada particular de ateístas que é mais divertida que todas as outras. É uma ninhada relativamente nova, que apareceu apenas neste século passado. Esse tipo de pessoa é um ateísta que acredita que fenômenos espirituais são, na verdade, fenômenos físicos num nível altamente refinado, e dessa forma buscam explicações para as coisas espirituais. Eles não negarão que as energias dos elementos, por exemplo, existem. Eles simplesmente pensarão em alguma teoria absurda e estúpida de como essas energias são apenas divisões de uma substância mental física, mas enormemente refinada, e que suas qualidades atribuídas são algum tipo de ilusão. Eles dirão que espíritos são as expressões externas de arquétipos subconscientes na psique, e sugerem que, quando eles são conjurados à aparência visível, tudo que está ocorrendo é autohipnotismo. Essa estranha espécie de pessoa fará tudo pelo motivo de ser capaz de sugerir que Deus não existe, que mundos espirituais não são reais, que não existe alma, etc, etc.

É óbvio ao iniciado que qualquer pessoa que se submeta ao treinamento adequado possa provar a si mesma além de qualquer possibilidade de dúvida que espíritos não são arquétipos pessoais, que mundos espirituais existem, que existem energias externas diferenciadas, que a alma é real e imortal, e que Deus é uma verdade eterna. Qualquer pessoa que sugere ao contrário está fazendo-o do ponto de vista da teoria e especulação somente, e não tem base prática na magia. Embora o iniciado devesse sempre mostrar respeito sobre a opinião da outra pessoa, de modo a não causar conflito imediato e desconforto, ele não deveria permitir ser persuadido por tais argumentos. Frequentemente, essas pessoas são ótimas em argumentar e debater, mas não podem fazer quase nada a esse respeito com magia verdadeira. Dessa forma, deixe-os falarem a si mesmos enquanto você quietamente volta a sua mente à meditação sagrada.

Isso precisa que consideremos um ponto importante, contudo. Apenas você, no fim, pode provar a si mesmo a realidade de todas essas coisas. Apesar de todos os meus poderes e siddhis, eu não posso fazê-lo. A mente animal duvidará da sua escolha de perseguir esse caminho a cada virada, e, acima de tudo, também tentará me fazer duvidar, não importa o que eu faça. Alguns exemplos podem ilustrar bem este ponto. Ano passado, quando eu estava morando com um grupo de oito aprendizes (com mais cinco visitando regularmente) num belo lote de 5 acres firmado entre árvores e invisível a todos os vizinhos ou à estrada, uma grande tempestade apareceu sobre nós. O vento uivava ferozmente, a chuva parou por um momento, e, então, no pátio próximo a nós, um tornado começou a descer. Os aprendizes, até Veos (até hoje eu brinco com ele sobre isso!) ficaram muito assustados. Na verdade, eu estaria assustado também, apesar da minha confiança para lidar com a situação, se eu não tivesse aberto meus olhos de uma maravilhosa hora de meditação profunda no momento em que o tornado começou a surgir. A mim, naquele estado elevado de felicidade, o tornado era apenas uma demonstração da natureza para ser amada e reverenciada. Apesar disso, eu me esforcei o suficiente para me convencer de que o tornado, tão próximo à casa, era uma coisa ruim. Eu me coloquei na direção da tempestade, com Veos ao meu lado e ajudando, e nós dois elevamos o tornado de volta ao céu e redirigimos a direção da tempestade para longe da casa. Isso foi feito com todos os estudantes assistindo. Em outra ocasião, apenas quatro semanas antes, eu usei um sigilo para criar uma chama sólida e negra no coração de um grande fogo ritual que todos viram e cuja realidade de sua presença atestaram. No momento em que começou a chover, por ele ser um importante ritual do fogo, eu chamei um espírito que me serve para nos proteger da chuva. A chuva parou, mas os estudantes logo notaram que estava chovendo em todos os lugares da propriedade, menos no lugar onde estávamos!

Eu estou relembrando essas coisas não para glorificar a mim mesmo, mas para ajudar a ilustrar este assunto. Embora eu demonstrasse essas aparentemente “maravilhosas” ocorrências, sem pouco esforço meu, eu rudemente exibia a magia aos meus estudantes como um prêmio por sua devoção duradoura aos meus ensinamentos, e, mesmo assim, essas coisas não preveniam suas mentes de, às vezes, duvidar que magia não existia. Pouco menos de um mês depois do incidente com o tornado, um dos meus estudantes melancolicamente veio a mim e confessou que ele estava tendo de lutar com a dúvida, porque ele nunca tinha visto antes um poder mágico. Numa classe do Veritas quatro anos atrás, eu tive um estudante para o qual, um dia, eu mandei uma mensagem e informei que ele estava desenvolvendo uma infecção de sinus. Sendo alguém que duvida por natureza, ele decidiu não tomar nenhum remédio. Quatro dias depois, ele pegou uma infecção de sinus, e, num instante, eu o curei da infecção completamente. Eu não consegui mais informações desse estudante, que terminou aquela classe como um estudante de magia muito devotado, por um longo tempo depois que a classe terminou. Eu descobri, poucos meses atrás, que, pouco depois da minha classe terminar, ele decidiu que eu era uma fraude e um mentiroso, e que eu não tinha habilidade mágica ou consciência elevada, e que ele estava convencido de que magia em si pudesse nem ser real.

Essas, e outras experiências parecidas, me convenceram de que não é o dever do professor fazer o estudante acreditar em magia, e, realmente, que o professor não é capaz de fazê-lo, não importa quais habilidades ele possa ter demonstrado. No final, a última evidência convincente que o estudante será capaz de usar para conquistar a dúvida de seu ser inferior é a evidência que surge de suas próprias práticas continuadas, as recompensas de sua fé douradoura em seu caminho.

Mas, voltando ao assunto à mão, é uma grande má sorte ao mundo dos aspirantes sinceros que esses mesmos ateístas estão realmente se juntando para formar sistemas de “magia” juntos, embora esses, na realidade, sejam feitiçaria astral no máximo. Ao fazê-lo, eles estão apelando aos lados animalistas e mundanos da consciência do ego que governa sobre os não iniciados antes de alma ter uma chance de se agarrar a algo significativo. Por tais sistemas de feitiçaria não terem nenhuma ênfase real na moral, por eles não terem ideia nenhuma de Deus ou de avanço espiritual, as pessoas estão se unindo para achar uma desculpa para praticar o que eles pensam que é magia sem ter de desistir de seus modos pecaminosos de viver. Tais pessoas adoram se ostentar, dizendo “Eu descobri que magia é tão efetiva sem o componente espiritual desnecessário”. Eu juro a todos vocês, pelo meu grande amor por essa ciência, que, nos meus anos de magia, eu nunca encontrei, nunca mesmo, nenhum estudante dessa escola de feitiçaria que poderia produzir até a mais simples das demonstrações mágicas. Eu nunca descobri um estudante dessa escola que possuísse alguma das faculdades mágicas a um grau demonstrável ou talvez significativo. Por quê? Porque eles estão praticando ideias, não verdades. Eles estão tentando fazer com que o universo satisfaça os seus próprios desejos egoísticos, em vez de quererem sacrificar qualquer coisa que seja para se tornarem magos reais.

A Oitava Razão

Charlatãos

À luz de todas as razões previamente mencionadas, deveria se tornar óbvio que charlatãos e fraudes naturalmente surgiriam. A falta quase total de iniciados verdadeiros e adeptos conhecidos às pessoas comuns tornou impossível se comparar uma fraude contra a coisa real. Os fraudadores, é claro, saberão isso, e usam isso ao seu favor. O fato de que existam tantos enganadores que se tornaram muito bem-sucedidos não sugere em momento algum que eles tenham alguma habilidade, mas, em vez disso, simplesmente mostra o quão mal informada e enganada a pessoa comum é nesses assuntos.

Bem como fizeram no início dos anos 1900, médiuns começaram a ir e vir e a escreverem pilhas de lixo para encherem as estantes das livrarias modernas. Essas pessoas, que são normalmente tão boas em enganar a si mesmas quanto a enganar os outros, lançam livro após livro. Eles escrevem centenas de páginas, e ainda, de alguma forma, não dizem nada nelas. Eles citam seres espirituais como a fonte de sua sabedoria, ou guias espirituais, ou animais totem, ou trevos de quatro folhas e tal nonsense. Embora eu ainda não o tenha encontrado, eu estou certo de que exista um médium por aí que alega receber instruções místicas de seu sanduíche de presunto. Não seria mais absurdo que as alegações anteriores. Embora, é claro, uma vez, eu tive uma conversa muito reveladora com uma garrafa de coca-cola, e um espírito decidiu, por uma razão qualquer, falar comigo numa voz audível que até os não iniciados poderiam ter ouvido.

Se tais médiuns estão de fato conversando com seres espirituais, então esses espíritos são muito misteriosos ou são muito estúpidos. Se esses médiuns estão conversando com guias espirituais, eles devem estar precisando despedir seus guias e encontrar novos. Em minhas experiências com seres espirituais, animais totem e guias espirituais, nenhum deles era tão mal informado quanto os desses médiuns. Dessa forma, podemos concluir que é muito provável que eles não estejam falando com nenhum dos acima, mas, em vez disso, que eu estou terrivelmente enganado, e que todos estão, na verdade, conversando com sanduíches de presunto. Se eles estivessem conversando com garrafas de coca, então, baseado na experiência, eu seria levado a acreditar que seus livros poderiam ter sido melhores.

Nada disso implica que todos os médiuns são fraudes. É, porém, um infeliz fato que a vasta maioria de fraudadores alegue ser médium, e, se o resto da comunidade de bons médiuns não quiser ser associada com esses charlatãos, então eles deveriam aparecer e lutar contra eles. Eu conheci vários bons médiuns em meu tempo, alguns deles naturais e outros treinados, portanto, essas declarações, de modo algum, se aplicam a esses tipos de pessoa. O leitor observador, porém, será capaz de fazer uma caminhada, achar uma estante de New Age numa livraria popular e ser capaz de ver precisamente de quais autores eu estou falando.

O grupo de médiuns impostores é apenas uma das duas maiores categorias de fraudadores na comunidade ocultista. Para a pessoa firmada em pensamento racional e com pelo menos alguma educação em literatura ocultista, os médiuns impostores são comparativamente fáceis de serem reconhecidos. Embora eles agarrem um número entristecedor de otimistas da New Age, os mais eruditos tendem a ficar longe deles. É, portanto, minha opinião que o mais perigoso dos dois grupos não é o médium impostor, mas o sim mago impostor.

O mago impostor é muito mais difícil de distinguir, e apenas alguém que é firmemente enraizado na experiência prática pode descobrir o disfarce. Existem autores que escrevem livros que fascinam seus leitores sobre simbolismo oculto, aparente conhecimento da Cabala, algumas correspodências ocultas etc, e mostram isso como se a experiência os tivesse levado a acreditar nessas coisas. Eu não estou falando aqui de meros ocultistas. Um ocultista é um filósofo, portanto ele se preocupa com as várias cosmogonias filosóficas, em vez de experimentar o lado prático da espiritualidade. Desse modo, é perfeitamente normal para um ocultista falar num nível puramente intelectual, igual ao filósofo. Não, eu não estou me referindo a esses autores, mas aos autores que criam um véu de suposto conhecimento experimental. Essas pessoas são geralmente indivíduos que aprenderam e, subsequentemente, praticaram apenas duas ou três técnicas básicas, e, então, se consideraram a si mesmos grandes magos. Eles escrevem livros sob esse propósito, e prescrevem ridículos regimes de treinamento para seus leitores.

Tudo isso naturalmente resultou numa situação na qual pessoas que queiram aprender magia, queiram comprar um livro e, por causa da probabilidade, pegarão um livro escrito por um autor fraudulento. Percebendo como pessoas que são completamente novas à magia não são tão sábias, elas acreditam em muito do que é dito, e assim a corrupção começa. Muitos desses aspirantes promissores vieram à minha casa por um curto tempo, e eu descobri que, depois de alguns anos de encherem suas mentes com tal lixo, eles se tornaram ligados demais a esses mundos ilusórios para serem salvos pela luz da experiência prática. Espero que, nas próximas vidas deles, suas almas levarão suas mentes a buscarem algo mais elevado.

A Nona Razão

O Silêncio dos Adeptos

Durante o período do Renascimento, e por um tempo após, houve um número de adeptos que escrevia. O advento do aparecimento público dos rosacruzes na Europa, por um pouco tempo, gerou informação suficiente para os autores discutirem por muitos anos. Pessoas como Paracelso, Agrippa e Francis Bacon forneceram suficientemente os Pequenos Mistérios às pessoas. Autores rosacruzes como Francis Bacon promoviam a iluminação intelectual das pessoas, como a Ordem Exterior Rosacruz (que eventualmente gerou a Maçonaria), focada primariamente no avanço espiritual através de conhecimento e de sabedoria em vez da prática. As práticas estavam presentes, mas eram normalmente ritualísticas e reservadas para dias especiais. Os exercícios mágicos verdadeiros eram mantidos para o próximo nível de iniciados.

Autores como esses forneciam tanto uma vantagem quanto uma desvantagem. De um lado, as pessoas estavam engajando suas mentes, pela primeira vez, no feijão-e-arroz da magia teórica. Em vez de lerem sobre demônios e feitiços mágicos, eles podiam aprender sobre o magnetismo espiritual, o archeus, os éteres, a lei de atração, a lei do microcosmo, e por aí vai. Alguns dos Pequenos Mistérios mais básicos tinham finalmente se tornado disponíveis às pessoas. Isso permitiu que leitores da época checassem duas vezes os escritos de pessoas sobre ocultismo contra autoridades conhecidas. Embora fraudes e charlatãos estivessem ainda rampantes, eles não estavam se focando tanto nas contribuições literárias ao ocultismo e assim não deixaram uma impressão duradoura sobre aspirantes das gerações futuras.

Por outro lado, a explosão de informação intelectual sem uma fundação de trabalho prático levaria gerações futuras ao engajamento somente na filosofia, em vez de na magia verdadeira. Isso permitiria a todos que tivessem lido alguns livros a regurgitarem a informação em novos livros e chamá-los seus. Acima de tudo, deixaria muitas questões sem resposta nas mentes de muitos aspirantes sinceros, sobre onde começar e como avançar na magia. A tendência de alguns dos grandes magos do passado de não aceitarem discípulos diretos resultou numa falta de sucessão de mestre e discípulo, como foi falado anteriormente, e o fato de nenhum manual real de avanço na magia ter sido publicado resultaria em autores lançando livros em assuntos puramente teóricos, em vez de terem investigado praticamente suas ideias.

Nos últimos cinqüenta anos, quase não houve adeptos escritores, e até aqueles que escreveram algo normalmente não forneceram uma base prática para os leitores. Toda uma geração surgiu e desapareceu sem ter quase informação publicada confiável sobre magia. É claro, tudo isso aconteceu de acordo com a Providência Divina, e há razões exatas para os períodos históricos de silêncio que os adeptos escritores assumiram e assumem. Ainda assim, é importante considerar os efeitos desses períodos.

Os poucos adeptos que ainda estão por aí no hemisfério ocidental têm permanecido silenciosos, e talvez por razão, porque o dom de expressar ideias na linguagem escrita não pertence a todas as pessoas. Pelo fato de existirem tão poucos adeptos, existem poucos autores entre eles. Eu espero honestamente que, num futuro próximo, isso comece a mudar.

A Décima Razão

A Falta de Expansão da Consciência

A natureza incompleta das deploráveis desculpas de muitas ordens modernas para rotinas de treinamento resultou na quase extinção da real expansão de consciência entre os chamados iniciados. Seus estudantes recebem complicado “pathworking” e várias invocações para executarem, mas esses são meios tão indiretos de progresso que uma inteira vida de prática renderia pouco sucesso. Infelizmente, a lavagem cerebral de muitos aspirantes hoje os convenceu de que um conhecimento simplesmente experimental dos símbolos das esferas elevadas, e até seu funcionamento, é a realização de modos superiores de consciência. Isso simplesmente não é verdadeiro. Até se você colocar sua mente regularmente na contemplação de reinos nos quais vibrações são muito mais elevadas e puras que as suas, nunca se produzirão os mesmos resultados se você tivesse elevado sistematicamente sua consciência a esse nível. Isso dá um bom suplemento, mas não deveria ser a completa abordagem.

Existem duas principais maneiras de se expandir a consciência:

1) Imergir-se em energias, como em invocação ou viagem esférica.

2) A ascensão gradativa da Kundalini psicossexual da base da espinha e órgãos sexuais até o córtex cerebral.

Nenhum desses métodos resultará necessariamente na realização do outro. A ativação dos seis maiores centros inteiros da consciência na espinha não resultará no aumento de vibração no seu corpo astral, para se adequar às vibrações das esferas elevadas, e passar tempo em esferas mais elevadas não despertará automaticamente a Schechinah-Kundalini e despertar as fortalezas, de modo que ela possa entrar e estar com Elohim-Siva. No mago, ambos deveriam ser realizados. O primeiro é a deificação de si de fora para dentro, e o segundo de dentro para fora.

Até os sistemas de treinamento que utilizam pelo menos o primeiro método de ascensão da consciência, sendo o mais comum no mundo ocidental hoje, não prestam tanta atenção a ele quanto deveriam. Muito frequentemente, ênfase excessiva é dada sobre as habilidades mágicas, ou pelo professor ou na mente do estudante. A meta da magia se torna o poder, em vez da evolução da consciência pessoal. Quando nenhuma habilidade é conseguida, ou uma vez que a curiosidade científica do estudante seja satisfeita, o caminho para. É por essa razão que as escrituras orientais advertem tão ferozmente que poderes mágicos devam ser rejeitados, e não porque tais poderes são inerentemente maus. Os iniciados do Oriente compreendiam simplesmente que, se o estudante acreditasse, do primeiro dia de seu treinamento, que habilidades mágicas eram ruins, ele provavelmente não sacrificaria depois sua evolução espiritual por causa da tentação dessas siddhis. Ele não se distrairia. Na realidade, isso não é ruim, e o estudante é altamente encorajado a adquirir várias habilidades mágicas para manifestar a Vontade Divina mais efetivamente no mundo, mas isso deve ser abordado muito metodicamente e apenas de uma base muito bem estabelecida, com os motivos corretos.

“Pathworking” se tornou, infelizmente, o modo principal com o qual as escolas ocidentais tentam fazer com que seus estudantes expandam sua consciência, mas existem muitas desvantagens nisso. O estudante consegue captar uma compreensão intuitiva de esferas superiores ao elevar suas vibrações às delas diretamente. Quando ele tem um flash e uma visão de Tzaphqiel, ele percebe o simbolismo de Luna e de Hécate, e compreende o tridente e os quatro minotauros índigo que cercam o Templo da Deusa de Três Faces e o Homem Nu, e começa a acreditar que ele realmente elevou seu status espiritual à esfera de Yesod. A iluminação intelectual sobre simbolismo universal é confundida com realização espiritual legítima. O resultado é que o tolo que consegue superar as imagens do Demônio de Face de Cachorro e o Portador do Vinho no limiar do abismo intelectual acredita ter fatualmente cruzado esse abismo e emergido no outro lado como “Magister Templi” ou qualquer cargo sua facção possa ter designado para essa realização. A direção do simbolismo, e a natural habilidade da mente de entrar num modo de resolução de problemas, quando confrontada com a diversidade, levou, neste caso, a mente racional a uma série de equações lineares, resultando na compreensão de certos símbolos ocultos. Embora essa compreensão tenha um efeito positivo sobre o espírito, é quase uma blasfêmia dizer que essa estimulação intelectual sozinha pode ser considerada como uma cruzada do Abismo. Quando a respiração cessa, quando a pele se torna gelada e as suturas entre os ossos parietal e occipital do crânio ficam quentes, quando visões de anjos e personificações de Deus aparecem no olho da mente, quando todas as escrituras se tornam instantaneamente compreendidas, quando os joelhos de cada anjo e arcanjo se dobram em reverência, quando a aura se estende para encompassar um inteiro vale, quando a palavra se torna universalmente criativa, então saiba que o abismo foi cruzado. Procure o homem com o inteiro universo em seus olhos; ele é um deus.

Isso deve bastar por agora. O estudante terá agora uma sólida compreensão dos problemas no modo com o qual a magia é frequentemente praticada hoje, e, com esse conhecimento, ele pode escolher começar seu caminho com uma compreensão correta e a salvação resultante desta bela ciência. Eu forneci nesta aula meras linhas de direção pelas quais o estudante pode checar a si e àqueles que se chamam gurus. Busque o homem que fala da autoridade da experiência, e não da autoridade dos livros.

#Magia #Pessoal

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-corrup%C3%A7%C3%A3o-moderna-da-magia

Vedanta

Vedanta é a tradição espiritual explicada nos Upanishads e que lida com os aspectos da auto-realização, onde procuramos entender a natureza da Realidade Última, chamada Brahman.

A tradução da palavra Vedanta é “o final de todo conhecimento”. No entanto, uma tradução mais profunda pode ser feita, tornando a palavra “conhecimento interior” (ou do Ser).

A tradição da Vedanta é baseada em leis espirituais imutáveis, comuns a todas as religiões ou tradições espirituais e tem como objetivo a conquista da Consciência Cósmica. É portanto, uma filosofia de cunho Universal ou universalista.

De forma mais didática podemos dizer que a palavra Vedanta é composta por duas outras, a saber:

veda = “conhecimento” + anta = “fim, conclusão”: “o ponto culminante do conhecimento”

veda = “conhecimento” + anta = “essência”, “núcleo”, ou ainda “interior”: “a essência dos Vedas” ou “ o conhecimento interior (esotérico)”.

A Vedanta também é conhecida como Uttara Mimamsa, ou a “última” ou “investigação elevada”.

Há também a filosofia conhecida como P?rva Mimamsa, geralmente chamada apenas de Mimamsa e que lida com explicações de sacrifícios e uso dos mantras na parte conhecida como Samhita dos Vedas e dos Brahmanas. Já a Vedanta lida com os ensinamentos esotéricos dos Aranyakas (“escritos da floresta”) e dos Upanishads, compostos aproximadamente entre 9 A.C. e 8 D.C.

A filosofia Vedanta foi formalizada por volta do 200 A.C. com o surgimento do tratado “Vedanta Sutra”, composto pelo grande Sábio Vyasa, também conhecido como Badarayana.

O texto é conhecido por vários outros nomes como “Brahma Sutra”, “Vyasa Sutra”, “Badarayana Sutra” e “Vedanta Darshana”.

Por causa de sua linguagem esotérica, várias interpretações diferentes surgiram com relação ao texto, dando origem a várias sub-escolas de pensamento, cada uma clamando por ser a interpretação correta do texto original. No entanto, todas as sub-escolas concordam em pontos comuns como, por exemplo, o abandono dos rituais secos em favor da prática da meditação, fundamentada no dharma e em um sentimento amoroso, que traz ao praticante a certeza da bem-aventurança vindoura no final do processo discriminativo.

Todas as sub-escolas derivam seus conhecimentos primariamente dos Upanishads.

O foco principal da filosofia contida nos Upanishads, de que a Realidade Última, chamada Brahman, é absoluta, imutável e sempre a mesma, é o núcleo da Vedanta.

Com o passar do tempo, muitos sábios interpretaram a sua maneira os Upanishads e o Vedanta Sutra, escrito pelo sábio Vyasa.

É importante salientar que essas interpretações eram pertinentes ao tempo e contexto em que os sábios viviam.

Dessas interpretações, podemos ressaltar seis como sendo as mais importantes e dessas seis, três como sendo as mais proeminetes: Advaita Vedanta, Vishishtadvaita and Dvaita.

Podemos dizer que a filosofia possui oito subescolas:

Advaita Vedanta

Vishishtadvaita

Dvaita

Dvait?dvaita

Shuddhadvaita

Achintya Bhed?bheda

Purnadvaita ou Advaita Integral

Vedanta Moderna

As seis primeiras são tradicionais e as duas últimas são mais recentes.

Advaita Vedanta.

Essa interpretação foi proposta pelo sábio Adi Shankara e seu Guru Gaudapada.

De acordo com essa escola de Vedanta, Brahman é a única realidade e o mundo, como ele nos aparece, é ilusório. Essa linha de pensamento deu origem ao conceito de Ajativada ou não-criação.

É pela ação de um poder ilusório de Brahman, chamado Maya, que o mundo surge.

Ela afirma que a causa de todo o sofrimento existente no mundo é o esquecimento, através da ignorância, da Realidade Última, Brahman. Sendo assim, apenas o conhecimento de Brahman pode nos trazer a liberação.

Essa filosofia nos explica que, quando tentamos compreender Brahman através da mente, ele (Brahman) aparece a nós como Ishvara (o Senhor, Deus no sentido de Criador, o Pai), separado da criação e dos indivíduos. No entanto, os proponentes da filosofia nos dizem que, em verdade, não há diferença entre a alma individual (muitas vezes chamada de Atman) e Brahman.

A emancipação ou liberação estaria no conhecimento dessa não-dualidade (advaita). Assim, o caminho final rumo à liberação só poderia ser conquistador através de Jñana ou sabedoria.

Vishishtadvaita

Essa subescola foi proposta pelo sábio Ramanuja e tem como principal ensinamento a idéia de que a alma individual, o Atman é uma parte de Brahman, ou a Alma Cósmica. Assim, mesmo sendo similares, ambas não são idênticas.

Enquanto a Advaita Vedanta nega qualquer tipo de atributo à Brahman, essa escola prega a existência de atributos em relação à Brahman, como por exemplo o conceito de almas individuais e o do mundo fenomênico.

Portanto, para a Vishishtadvaita, Brahman, as almas individuais e a material são coisas distintas.

Enquanto a Advaita Vedanta prega a Jñana Yoga como caminho para a liberação, essa escola propõe o caminho de Bhakti ou devoção a Deus como forma de liberação. Na maioria das vezes (mas não em todas, importante frisar) a devoção é direcionada ao segundo aspecto da trindade hindu, chamada Vishnu, e a seus avatares ou encarnações.

Dvaita

O pensamento Dvaita foi proposto por Madhva e relaciona Deus à Brahman e este a Vishnu, mais precisamente na figura de Krishna, que segundo a tradição, é a oitava encarnação de Vishnu.

Para o pensamento Dvaita, Brahman, todas as almas individuais (jivatman) e a matéria são ambos eternos e ao mesmo tempo entidades separadas.

Um aspecto muito interessante dessa filosofia é a negação da existência de Maya (no sentido de não-existência, ilusão), apesar de o próprio Krishna, no Baghavad Gita, pregar a existência dela.

Essa sub-escola também prega o caminho de Bhakti como sendo a senda para a liberação.

Ao contrário do que vemos na escola Advaita, aqui se sutenta que a diferença está na natureza da substância (composta pelos gunas). Por causa disso, muitos chamam essa escola de Tattvavâda.

Segundo essa sub-escola, existem cinco diferenças, a saber:

Entre Brahman e a alma individual

Enrte cada alma individual

Entre Brahman e a matéria (prakriti)

Entre a alma individual e a matéria

Entre os fenômenos materiais (matéria x matéria)

Outro aspecto importante dessa filosofia é a sua visão sobre o sistema de castas exposto nos Vedas.

Segundo o Dvaita, as castas não são determinadas pelo nascimento e sim pela tendência da alma.

Um brâmane pode nascer na casta dos párias e vice-versa.

Em verdade, o sistema de Varna ou castas é determinado pela natureza da alma, e não pelo nascimento.

Hoje o sistema se encontra deturpado e mantido apenas por questões discriminatórias.

Dvait?dvaita

Escola propostas pelo sábio Nimbarka, que viveu por volta do século 13 D.C.. Ele usou como base os ensinamentos de uma escola anterior chamada Bhed?bheda, que era ensinada pelo sábio Bh?skara.

Essa filosofia prega que a alma individual (jivatman) é, ao mesmo tempo, igual e diferente de Brahman.

Essa escola também vê em Krishna a personificação de Deus.

A Dvait?dvaita vê a alma individual como sendo naturalmente Consciência (jñana-svarupa), sendo apta a conhecer sem a ajuda dos sentidos corporais.

Como métodos para se atingir a liberação, a escola propõe quatro sadhanas ou disciplinas:

Karma- ação. – Quando feito conscientemente e com o espírito adequado, de acordo com seu contexto de vida, traz o conhecimento que conduz à salvação.

Vidya- conhecimento.

Upasana ou dhyana – meditação

Ela é de três tipos: A primeira é a meditação na igualdade entre Brahman e a alma individual (dos seres animados). O Segundo tipo é a meditação em Brahman como sendo o controlador interior de todos os objetos não sencientes. A terceira é a meditação em Brahman como sendo diferente dos seres animados e dos objetos inanimados.

Gurupasatti – Devoção e auto-entrega ao guru (mestre spiritual).

Shuddhadvaita

Shuddhadvaita foi proposta por Vallabha (1479-1531).

É um sistema que enfatiza a prática de Bhakti como o único meio para a libertação.

Vallabha pregava que esse mundo era um “passatempo” (leela) de Krishna e que ele (Krishna) é Sat-Chit-Ananda.

Achintya Bhed?bheda

Essa sub-escola foi proposta por Chaitanya Mahaprabhu (1486-1534).

Sua doutrina também prega devoção a Krishna e se baseia em uma tradição antiguíssima, que foi transmitida através de uma linhagem de gurus, cujo primeiro teria sido o próprio Krishna.

Purnadvaita ou Integral Advaita

Foi proposta por Sri Aurobindo, grande sábio do século XX.

Ele sintetizou todos os ensinamentos das escolas de Vedanta e nos forneceu uma compreensiva integração desses conceitos da filosofia oriental com a ciência moderna.

Vedanta moderna ou Neovedanta

Esse nome é dado a interpretação dada a Advaita Vedanta pelo renomado yogue Swami Vivekananda, discípulo de Sri Ramakrishna Paramahansa.

Sua interpretação nos diz:

Por mais que Brahman seja a Realidade Absoluta, o mundo possui uma realidade relativa. Sendo assim, o mundo não deve ser completamente ignorado.

Condições limitantes como a pobreza deve ser removida; somente assim as pessoas serão capazes de voltar à mente na busca e compreensão de Brahman.

Todas as religiões buscam o mesmo objetivo: A Realidade Absoluta. Logo, discussões sectárias devem ser abandonadas e a tolerância religiosa deve ser praticada – seja entre hindus de diferentes denominações, seja entre cristãos, muçulmanos, judeus ou budistas (dentre outras religiões).

Swami Vivekananda foi o primeiro yogue a vir para o ocidente. No ano de 1893 ele participou do Parlamento Mundial das Religiões, em Chicago, EUA.

Desde então se tornou figura de grande influência tanto no oriente como no ocidente.

Vivekananda nos mostrou que a Vedanta não era algo seco e meramente esotérico, mas sim algo vivo e presente em nosso dia-a-dia.

Em sua interpretação da Advaita Vedanta, aceitava o principio de Bhakti (devoção), recomendando primeiro a meditação em Brahman como sendo possuidor de atributos, seja na figura de um guru ou na personificação de sua deidade pessoal.

Só depois de longa prática e entendimento e que recomendava a meditação em Brahman sem atributos.

Swami Vivekananda ainda apresentou ao ocidente os diferentes caminhos, ou yogas (Jnana, Karma, Bhakti, Raja).

Texto de Dario Djouki

#Hinduismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/vedanta

Ciência e Budismo

Aleister Crowley

O propósito deste ensaio é traçar uma comparação exata entre as concepções da ciência moderna sobre o Fenômeno e suas explicações, onde elas existam, e as antigas idéias dos Budistas; mostrar que o Budismo, tanto em teoria quanto na prática, é uma religião científica e uma superestrutura lógica, com base na verdade experimentalmente verificável; e que o seu método é idêntico ao da ciência. Nós devemos certamente excluir as características acidentais de ambos, especialmente as do Budismo; e, infelizmente, em ambos os casos, nós temos que lidar com desonestas e vergonhosas tentativas de se impingir a ambos opiniões das quais nenhum deseja ser fiador. Professor Huxley lidou com uma destas tentativas em seu “Pseudo-Científico Realismo”; Professor Rhys Davids demoliu outra neste certeiro comentário sobre o “Budismo Esotérico”, afirmando que ele ““não era Esotérico e certamente não era Budismo”. Mas ainda há alguma lama Teosófica que se gruda na carruagem do Budismo; e ainda existem pessoas que acreditam que a ciência sã tem ao menos uma saudação amigável para o Ateísmo e o Materialismo, em suas formas mais grosseiras e militantes.

Que seja entendido, portanto, desde o início, que se eu incluo na Ciência a metafísica, e no Budismo práticas de meditação, eu não me inclino nem para os reducionistas ou “reconciliadores”, por um lado, e nem para os prestidigitadores Animistas, pelo outro. À parte do entulho Teosófico, encontramos Sir Edwin Arnold escrevendo:

“Quaisquer que digam que Nirvana é cessar, Diga a tais que mentem.”

Mentir é uma palavra muito forte, e deveria ser lida como “traduzir incorretamente”.

Eu suponho que assim o poema não fosse metrificar, nem rimar: mas Sir Edwin é a última pessoa que se deteria por uma coisa pequena como esta.

Dr. Paul Carus também, no “Evangelho de Buda”, se satisfaz em apresentar o Nirvana como um paralelo ao Céu dos Cristãos. Será suficiente se eu reiterar a unanime opinião dos estudiosos competentes, de que não há um fragmento de evidência suficiente em qualquer livro canônico para se estabelecer tais interpretações no cerne da tradição e da prática Budistas; e que qualquer pessoa que persista em tocar o Budismo em sua própria harpa Judia desta forma, está arriscando a sua reputação, tanto intelectual quanto de boa fé. Homens científicos são bastante comuns no Ocidente, se os Budistas não o são; e eu posso seguramente deixar em suas mãos a tarefa de castigar os gatunos da área científica.

As características essênciais do Budismo foram resumidas pelo próprio Buda. Para mim, é claro, o que o Buda realmente disse ou não não importa; algo é verdadeiro ou não, não importa quem o tenha dito. Nós acreditamos no Sr. Savage Landor quando ele afirma que Lhasa é uma cidade importante do Tibete. Aonde apenas probabilidades são referidas nós somos sem dúvida influenciados pelo caráter moral e pelas capacidades mentais do informante; mas aqui eu não estou lidando com nada incerto.

Existe um teste excelente para o valor de qualquer passagem em um livro Budista. Nós estamos, é claro, justificados ao descartar estórias que são claramente ficções Orientais, assim como o criticismo moderno, embora secretamente Teísta, descarta a Estória de Hasisadra ou de Noé. Em justiça ao Budismo, não vamos sobrecarregar as suas escrituras com a tarefa Sisífeana de defender seriamente a interpretação literal de suas passagens obviamente fantásticas. Que os nosso zelotes Budistas sejam alertados pelo destino da ortodoxia Inglesa fora de moda! Mas quando o Budismo condescende em ser científico; em observar, classificar, pensar; eu considero que devemos levar o assunto com seriedade, e conceder uma investigação razoável a suas afirmações. Exemplos desta concisão e claridade podem ser encontrados nas Quatro Nobres Verdades; nas Três Características; nos Dez Grilhões; e existe claramente uma teoria sobre a idéia do Karma. Tais idéias são básicas, e são como uma linha na qual as contas do rosário das Mil e Uma Noite Árabes são colocadas.

Eu proponho portanto lidar com estes e alguns outros pontos menores da metafísica Budista, e traçar suas analogias com a Ciência, ou, como ainda mais espero demonstrar, suas não raras identidades.

Primeiramente vamos examinar o grande Sumário da Fé Budista, as Quatro Nobres Verdades.

As Quatro Grandes Verdades

1. Sofrimento: Existência é sofrimento. Isto significa que “nenhuma forma de Existência é separável do Sofrimento”. Esta verdade é atestada por Huxley, quase que com as mesmas palavras, em Evolução e Ética. “Não era menos claro para alguns destes filósofos antigos do que para os pais da filosofia moderna, que o sofrimento é a insígnia de toda a tribo dos seres sensíveis; ele não é um acompanhamento acidental, mas um constituinte essencial do Processo Cósmico.” E, no mesmo ensaio, embora ele esteja disposto a negar qualquer coisa além de rudimentos de consciência às formas inferiores de vida, ele é bastante claro no fato de que a dor varia diretamente (colocando de forma superficial) com o grau de consciência. Cf. também “Automatismo Animal”, pg.236-237.

2. A Causa do Sofrimento: A causa do sofrimento é o desejo. Eu considero aqui desejo como incluindo fenômenos tais como a tendência de duas moléculas de hidrogênio e cloro se combinarem sob certas circunstâncias. Se a morte é dolorosa para mim, ela o é presumivelmente para uma molécula; se nós representamos uma operação como agradável, a oposta presumivelmente é dolorosa. Embora eu não esteja consciente da dor individual das incontáveis mortes envolvidas em meu ato de escrever, elas podem estar lá. E o quê eu chamo de “fadiga” pode ser o eco na minha consciência central do grito de uma angústia periférica. Aqui nós deixamos o domínio do fato; mas ao menos até onde o nosso conhecimento vai, todas ou quase todas as operações da Natureza são vaidade e vexação de espírito. Considere a comida, cujo desejo surge periodicamente em todos os seres conscientes.

A existência desses desejos, ou melhor, necessidades, as quais eu percebo serem minhas, é desagradável. É o desejo, inerente a mim, por um estado de consciência contínuo, que é o responsável por isto tudo; e isto nos leva à Terceira Nobre Verdade.

3. O Cessar do Sofrimento: A cessação do desejo é a cessação do sofrimento. Esta é uma simples inferência lógica da segunda verdade, e não precisa de comentário.

4. A Nobre Senda Óctupla: Há um caminho, a ser considerado adiante, para se realizar a Terceira Verdade. Mas nós devemos, antes de percebermos a sua possibilidade, por um lado, ou a sua necessidade, por outro, formar uma clara idéia sobre quais são os princípios Budistas sobre o Cosmos; e, em particular, sobre o homem.

O Nobre Caminho Óctuplo

O Nobre Caminho Óctuplo oferece simplesmente um guia prático para o desenvolvimento das habilidades que devem ser cultivadas se o praticante desejar alcançar o objetivo final de extinguir os desejos que levam ao sofrimento:

  1. Ponto de Vista Correto
  2. Pensamento Correto
  3. Fala Correta
  4. Ação Correta
  5. Meio de Vida Correto
  6. Esforço Correto
  7. Atenção Correta
  8. Concentração Correta

O nobre caminho óctuplo pode ser didaticamente dividido em três grupos:

Prajna, sabedoria

1. Ponto de Vista Correto – Conhecer e compreender as Quatro Verdades Nobres acima citadas.
2. Pensamento Correto – querer renunciar os pensamentos que levem ao desejo ou nasçam dele.

Shila, ética

3. Fala Correta – Surge do pensamento correto. Não mentir, não usar linguagem pesada, não falar mal dos outros, não falar frivolamente mas sim de maneira honesta, reconfortante e significativa.
4. Ação Correta – Surge também do pensamento correto. É a prática de ações éticas e a renuncia as ações anti-éticas. Não matar, não roubar, não se viciar, não cometer adultério mas sim proteger e cuidar de todos os seres.
5. Meio de Vida Correto. Surge da fala e ação correta. Seus hábitos e modo de sustento e trabalho também devem ser éticos.

Samadhi, comtemplação

6. Esforço Correto – Dedicar-se constante e assíduamente ao nobre caminho óctuplo produzindo e aumentando o que é bom e prevenindo e eliminando o que é mal de sua vida
7. Atenção Correta – É a contemplação do corpo, sentimentos, mente e fenômenos tais como realmente são sem apego paixões, desejos e ilusões.
8. Concentração Correta – Refere-se aos Dhyanas ou prática meditativa, por meio do qual os outros pontos se fortalecem.

As Três Características

As três características (as quais nós podemos predicar de todas as coisas existentes conhecidas):

  • Mudança. Anikka.
  • Sofrimento. Dukkha.
  • Ausência de Ego. Anatta.

Esta é a Afirmação Budista. O que diz a Ciência?

Huxley, “Evolução e Ética”: “Assim como nenhum homem vadeando um córrego ligeiro pode mergulhar seu pé duas vezes na mesma água, nenhum homem pode, com exatidão, afirmar de qualquer coisa no mundo sensível que ela é. Assim que ele pronuncia as palavras, não, assim que ele as pensa, o predicado deixa de ser aplicável. O presente se tornou o passado; o “é” deveria ser “era”. E quanto mais aprendemos sobre a natureza das coisas mais evidente fica o fato de que o que chamamos de repouso é apenas atividade imperceptível; que a paz aparente é silenciosa mas tenaz batalha. Em toda parte, a todo momento, o estado do cosmos é a expressão de um transitório ajustamento de forças em luta, uma cena de conflito, na qual todos os combatentes caem na sua vez. O que é verdade para cada parte é verdade para o todo. O conhecimento Natural tende mais e mais para conclusão de que “todo o coro dos céus e todas as coisas da terra” são formas transitórias de parcelas da substancia cósmica movendo-se pela estrada da evolução, partindo da nebulosa potencialidade, através de infindáveis desenvolvimentos de sol e planeta e satélite, através de todas as variedades da matéria; através de infinitas diversidades de vida e pensamento, possivelmente através de modos de ser dos quais nós não temos nenhuma idéia, e sequer somos competentes para imaginar, e voltando à indefinida latência da qual surgira. Portanto o mais óbvio atributo do cosmos é a impermanência. Ele assume o aspecto não tanto de uma entidade permanente quanto o de um processo modificante, no qual nada permanece a não ser o fluxo de energia e a ordem racional que o pervade.”

Este é um admirável sumário da doutrina Budista.

Veja acima sobre a Primeira Nobre Verdade.

Esta é a grandiosa posição que Buda defendeu contra os filósofos Hindus. Em nosso próprio país é o argumento de Hume, seguindo Berkeley a um ponto que Berkeley certamente não pensou em ir — um curioso paralelo da maldição de Cristo sobre Pedro (João, xxi). O Bispo demole a idéia do substratum da matéria, e Hume segue aplicando processo idêntico de raciocínio ao fenômeno da mente.
Vamos considerar a teoria Hindu. Eles classificam o fenômeno (aqui bom e ruim não importam), mas o representam como presente em, mas sem a afetar, uma certa existência imutável, onisciente, bem-aventurada chamada Atman. Mantendo o Teísmo, a existência das forças malignas os forçam a uma posição Fichteana na qual “o Ego põe o Não-Ego”, e nós aprendemos que afinal nada realmente existe além de Brahma. Eles então distinguem entre Jivatma, a alma condicionada; e Paramatma, a alma livre; a primeira sendo a base da consciência normal; a segunda da consciência Nirvikalpa-Samadhi; esta sendo a única condição pela qual a moral, a religião, e as oferendas aos sacerdotes podem continuar. Pois o Teísta tem apenas que avançar a sua idéia fundamental para ser forçado a um círculo vicioso de absurdos.

O Budista faz uma clara varredura de todo este tipo de bobagem. Ele analisa o fenômeno da mente, adotando o paradoxo de Berkeley de que “a matéria é imaterial”, de uma maneira sã e ordenada. O “Filósofo do senso comum”, a quem eu deixo a ruminar as amargas folhas do ensaio do Professor Huxley “Sobre a sensação e a unidade da Estrutura dos Órgãos Sensíveis”, observa , ao levantar o seu braço, “Eu ergo o meu braço”. O Budista examina a proposição rigorosamente, e começa:

“Há o levantar de um braço.”

Por esta terminologia ele evita as discussões Teutônicas relativas ao Ego e o Não-Ego. Mas como ele sabe que a proposição é verdadeira? Através da sensação. O fato, portanto, é:

“Existe a sensação de se levantar um braço.”

Mas como ele sabe disto? Através da percepção. Portanto ele diz:

“Existe a percepção de uma sensação, etc..”

E como [ele tem] esta percepção? Através da tendência inerente.

(Note-se cuidadosamente o ponto de vista determinista envolvido na enunciação desta Quarta Skandha; e que ela vem abaixo de Vinnanam.)

“Existe uma tendência a perceber a sensação, etc..”

E como ele sabe que existe uma tendência? Através da consciência. A análise final diz:

“Existe uma consciência da tendência de se perceber a sensação do levantar de um braço.”

Ele não vai, por não ser possível, além disto. Ele não irá supor, sem nenhum tipo de evidência, o substratum do Atman unindo consciência à consciência através da sua eternidade, ao mesmo tempo em que estabelece um grande espaço entre elas através de sua imutabilidade. Ele atesta o conhecível, atesta-o acuradamente, e o abandona. Mas existe uma aplicação prática desta análise da qual eu vou tratar mais adiante (veja “VIII. Mahasatipatthana”).

Nos é ensinado que a memória é uma prova de algum “Eu” real. Mas como é traiçoeira esta área! Um evento passado da minha vida não ocorreu porque eu o esqueci? A analogia da água do rio dada acima é extremamente válida! Eu que escrevo isto não sou o eu que o relê e corrige. Será que desejo brincar com soldadinhos de chumbo? Sou eu o aborrecido velho inválido que precisa ser paparicado e alimentado com uísque, pão e leite? E a minha diferença em relação a estes é tão menos notável do que a ao corpo morto, do qual os que o virem dirão: “Este foi Aleister Crowley”?

Que idiotice é supor que uma substância eterna, sensível ou não, onisciente ou não, dependa para a sua informação de uma série tão absurda de corpos quanto os agrupados sob este “Crowley”!

Entretanto, o Budista encara todos os argumentos de ordem espiritual com uma simples afirmação a qual, se não é certa, ao menos não é improvável. Existe, ele dirá a você, um mundo “espiritual”, ou, para evitar qualquer (bastante injustificado) mal-entendido, digamos um mundo de matéria mais sutil do que o visível e tangível, que tem as suas próprias leis (análogas, se não idênticas, às leis da matéria as quais estamos acostumados) e cujos habitantes mudam, e morrem, e renascem tanto quanto os seres mortais comuns. Mas, como eles são de matéria sutil, seu ciclo é menos rápido.

Como um nominalista, eu espero não ser mal interpretado quando eu comparo isto a relativa mutabilidade do indivíduo e das espécies. Nós temos bastantes exemplos livres desta possibilidade de má interpretação em nossos próprios corpos. Compare a logevidade do osso com a de um corpúsculo. Mas é este “Substratum” universal, o qual não deve ser confundido com o substratum, cujo argumento para a sua existência Berkeley tão completamente destruiu, que poderia conservar a memória por um período muito maior do que o de um de seus avatares particulares. Por isso o “Jataka”. Mas a doutrina não é muito essencial; seu principal valor é mostrar que sérias dificuldades nos confrontam, e fornecer uma razão para o esforço por um estado melhor. Pois se nada sobrevive à morte, o que isto tudo significa para nós? Por que deveríamos ser tão altruístas a ponto de evitar a reencarnação de um ser em todos os pontos diferente de nós? Como disse o menininho, “O que a posterioridade fez por mim?”. Mas algo persiste; algo mudando, embora mais lentamente. Qual a evidência que nós temos, afinal, de que um animal não recorda a sua encarnação humana? Ou, como Levi diz, “Nos sóis eles recordam, nos planetas eles esquecem”. Eu penso (talvez) de maneira diferente, mas, na total ausência de evidência a favor ou contra — ao menos em relação a última hipótese! — eu suspendo o meu julgamento, deixo a questão entregue a si mesma, e avanço para pontos mais práticos do que os que nos são oferecidos por estas interessantes, mas pouco úteis, especulações metafísicas.

Karma

A lei da causação é formalmente idêntica a esta. Karma significa “aquilo que é feito”, e eu creio que devia ser considerado com estrita acuidade etimológica. Se eu coloco uma pedra no telhado de uma casa, é certo que ela irá cair mais cedo ou mais tarde; ou seja, assim que as condições o permitirem. Também, em sua fundação, a doutrina do Karma é idêntica ao determinismo. Sobre este assunto muita sabedoria, com um infinito amontoado de bobagem, foi escrita. Eu, portanto, o encerro nestas pouca palavras, confiante de que a identidade estabelecida não possa nunca ser abalada.

Os Des Grilhões ou Sanyoganas

 

  1. Sakkaya-ditthi. Crença em uma “alma”.
  2. Vikikikkha. Dúvida.
  3. Silabbata-parâmâsa. Confiança na eficácia dos ritos e cerimônias.
  4. Kama. Desejos corporais.
  5. Patigha. Ódio.
  6. Ruparanga. Desejo pela imortalidade corporal.
  7. Aruparaga. Desejo pela imortalidade espiritual.
  8. Mano. Orgulho.
  9. Udhakka. Auto-justificação.
  10. Avigga. Ignorância.

(1) Pois isto é uma petitio principii.

(2) Isto, para o cientista, é aparentemente um anátema. Mas apenas significa, eu penso, que se nós não estamos assentados em nossas mentes, não podemos trabalhar. E isto é inquestionável. Imagine um químico que começa a trabalhar para determinar o ponto de ebulição de uma nova substância orgânica. Ele para no meio da experiência, paralisado pelo receio de que o seu termômetro seja impreciso? Não! Ele, previamente, a não ser que seja um idiota, já o testou. Nós temos que ter nossos princípios fixados antes de poder executar o trabalho de pesquisa.

(3) Um cientista dificilmente requer convicção neste ponto!

(4) Você pensa em combinar Newton com Calígula? As paixões, quando livres para dominar, interferem com a concentração da mente.

(5) Ficar pensando em seus desafetos contribui para uma observação acurada? Eu admito que a controvérsia pode movê-lo a realizar prodígios em seu trabalho, mas enquanto você está realmente trabalhando você não permite que se interfira com a concentração da sua mente.

(6 & 7) Este grilhão e o próximo são contigentes a se perceber o sofrimento de todas as formas de existência consciente.

(8) Não precisa de comentário. Orgulho, assim como humildade, é uma forma de ilusão.

(9) Da mesma forma, só que no campo moral.

(10) O grande inimigo. Apenas os Teístas tiveram a infame audácia de exaltar os méritos desta insígnia da servidão.

Nós vemos, portanto, que o cientista irá concordar com esta classificação. Não precisamos discutir a questão de se ele acharia outras para adicionar. O Budismo pode não ser completo, mas, até onde ele vai, é acurado.

A Relativa Realidade de Certos estados de Consciência

Se nós adotamos o dictum de Herbert Spencer de que o testemunho primário da consciência é para existência da exterioridade, ou não; se nós voamos ou não para e posição idealista extrema; não existem dúvidas de que, para o nosso estado normal de consciência, as coisas como elas se apresentam — excluindo-se a ilusão óbvia, se mesmo nós ousamos excepcioná-la — são inegáveis para a apreensão imediata. Qualquer coisa que diga a este respeito a nossa razão, nós agimos precisamente como se Berkeley nunca tivesse existido, e o hérculeo Kant tivesse sido estrangulado ainda no berço pelas serpentes gêmeas de sua própria perversidade e terminologia.

Quais os critérios que devemos aplicar para as realidades relativas da consciência normal e onírica? Por que eu tão confiantemente afirmo que o estado onírico é transitório e irreal?

Neste estado eu estou igualmente certo de que meu estado de consciência normal é inválido. Mas como os meus sonhos ocupam uma porção relativamente pequena do meu tempo, e como a lei da causação parece suspensa, e como a sua vividez é menor do que a da consciência normal, e, acima de tudo, como na grande maioria dos casos eu posso mostrar uma causa, originária das minhas horas acordado, para o sonho, eu tenho quatro fortes razões (a primeira explanatória em parte para a minha aceitação das demais) para concluir que o sonho é fictício.

Mas e quanto ao estado “sem sonhos”? Para o sonhador suas faculdades normais e a memória surgem em alguns momentos, e são consideradas como fragmentárias e absurdas, assim como as lembranças de um sonho para o homem desperto. Não podemos conceber uma vida “sem sonhos”, da qual nosso sonhos são a vaga e perturbada transição para a consciência normal? A evidência fisiológica não nos serve literalmente para nada neste caso. Mesmo se fosse provado que o aparato recipio-motor do sonhador “sem sonhos” é relativamente tranqüilo, isto traria algum argumento válido contra a teoria que sugeri? Sugeri, pois admito que a nossa presente posição é completamente agnóstica a esse respeito, uma vez que não temos nenhuma evidência que traga luz sobre o assunto; e o estudo do tema parece mero desperdício de tempo.

Mas a sugestão é valiosa por prover-nos de uma possível explanação racional, em conformidade com a opinião do homem desperto, e à qual o sonhador iria indignadamente rejeitar.

Suponha, entretanto, um sonho tão vívido que o homem acordado sente-se diminuído diante de sua memória, que a sua consciência dele pareça mil vezes mais real do que a das coisas ao seu redor; suponha que toda a sua vida é moldada para acomodar os novos fatos assim revelados a ele; que ele de bom grado renunciaria a anos de vida normal para obter alguns minutos desta vida sonhada; que o seu senso de tempo é abalado como nunca antes, e que estas influências são permanentes. Então, você diria, delirium tremens (e intoxicação por haxixe, que afeta particularmente o sentido de tempo) nos fornecem um paralelo. Mas o fenômeno do delirium tremens não ocorre nos saudáveis. E quanto à sugestão de auto-hipnose, a memória do “sonho” é uma réplica suficiente. De qualquer forma, o simples fato de se experimentar esta realidade aparentemente superior — uma convicção inabalável, inépuisable[1] (pois o Inglês não tem a palavra adequada), é teste suficiente. E se nós condescendemos em o debater, é por prazer, e aparte do fato vital; trata-se uma escaramuça, e não de uma batalha arrojada.

O “sonho” que eu descrevi é o estado chamado Dhyana pelos Hindus e Budistas. O método de se alcançá-lo é sensato, saudável e científico. Eu não me daria ao trabalho de descrever este método, se iletrados, e muito freqüentemente defensores místicos da prática, não tivessem obscurecido a grandeza simples do nosso edifício com jimcrack pinnacles of stucco — como alguém que cobrisse o Taj Mahal com lâmpadas de feira e panos de chita.

É simples. A mente é compelida a fixar sua atenção em um único pensamento, enquanto o poder de controle é exercido e uma profunda vigília é mantida para que o pensamento não se perca por um instante. A última parte é, para mim, a essencial. O trabalho é comparável ao de um eletricista que precisa sentar por horas com seu dedo em uma delicadamente ajustada caixa de resistência, enquanto mantém o seu olho no marcador luminoso de um galvanômetro, encarregado da tarefa de manter o marcador parado, ou ao menos sem se mover além de um determinado número de graus, e de anotar os detalhes mais importantes da experiência. Nosso trabalho é idêntico em design, embora feito com meios mais sutis. O dedo na caixa de resistência nós substituímos pela Vontade, e o seu controle se estende até a Mente; o olho nós substituímos pela Faculdade Introspectiva, com a sua precisa observação da menor perturbação, enquanto o marcador luminoso é a própria consciência, o ponto central da escala do galvanômetro, o objeto pré-determinado; e as demais figuras da escala são outros objetos, conectados com o primário por ordem e grau, algumas vezes de maneira óbvia, outras de forma obscura, talvez até mesmo indetectável, de forma que nós não temos nenhum direito real de predicar a suas conecções.

Como alguém pode descrever este processo como enganoso e doentio está além da minha compreensão; que algum cientista possa fazê-lo implica em uma ignorância da sua parte quanto aos fatos.

Eu devo acrescentar que é estritamente necessário para se iniciar esta prática uma perfeita saúde de corpo e mente; o ascetismo é severamente desencorajado, tanto quanto a indulgência. Como poderia o eletricista fazer o seu trabalho após o Banquete Guidhal? O esforço de observar seria demasiado, e ele pararia para dormir. Assim com o meditador. Se, por outro lado, ele estivesse sem comer por vinte e quatro horas, ele poderia — de fato, tem sido assim feito com freqüência — realizar prodígios de trabalho no período necessário; mas uma reação de igual severidade deverá seguir. Ninguém pretende que o melhor trabalho seja feito em inanição.

Para tal observador, certos fenômenos se apresentam mais cedo ou mais tarde, os quais tem as mesmas qualidades do nosso “sonho” imaginário, precedido por um estado de transição muito semelhante ao de uma total perda da consciência. Serão estes fenômenos de fadiga? Será que esta prática, por algum motivo desconhecido, estimula algum nervo central especial? Talvez; o assunto requer investigação, e eu não sou um fisiologista. Aparte qualquer coisa que o fisiologista possa dizer, é claro ao menos que, se este estado é acompanhado por uma intenso e desapaixonado êxtase além de qualquer coisa que o homem normal pode conceber, e não é acompanhado do menor prejuízo para a saúde física e mental, ele é extremamente desejável. E para o cientista ele apresenta um magnífico campo de pesquisa.

Sobre as teorias metafísicas e religiosas que foram construídas sobre os fatos aqui apresentados, eu não direi nada agora. Os fatos não estão a disposição de todos; sobre a natureza do objeto cada homem deve ser a sua própria testemunha. Eu fui uma vez ridicularizado, por uma pessoa de mentalidade medíocre, pelo fato de que, se a minha posição não podia ser demonstrada em laboratório, eu deveria, portanto, ser um místico, um ocultista, um teosofista, um mercador do mistério, e não sei mais o quê. Eu não sou nada disso. O criticismo acima se aplica a todo psicólogo que já escreveu, e a todo homem que critica por criticar. Eu posso apenas dizer: “Você tem o seu próprio laboratório e aparato, a sua mente; e se o local está sujo e a aparelhagem mal arrumada, não é a mim que você deve culpar”.

Os fatos sendo de importância individual, então há pouca utilidade em se detalhar os resultados de minha própria experiência. E a razão para esta reticência — pois eu me culpo pela reticência — é que explicá-la iria danificar o mesmo aparato cujo uso eu estou defendendo. Pois se eu disser que tal e tal prática leva alguém a ver um porco azul, a sugestão será suficiente para fazer com que toda uma classe de pessoas veja um porco azul onde nenhum existe, e outra negue, ou suspeite, quando o porco azul realmente aparecer, embora a última alternativa seja improvável. O fenômeno da consciência, e o do êxtase, são de uma natureza tão estupenda e bem definida, que eu não posso imaginar nenhuma idéia preconcebida poderosa o suficiente para diminuí-los apreciavelmente. Mas por causa da primeira classe eu seguro a minha língua.

Eu creio que agora está perfeitamente claro, se as minhas declarações foram aceitas — e eu posso apenas assegurar o mais seriamente possível que honestos experimentos de laboratório as verificarão em cada detalhe — que quaisquer argumentos apresentados contra a realidade de Dhyana, aplicam-se com muito maior força ao estado normal, e é evidente que negar o último seriamente é ipso facto deixar de ser sério. Aonde o testemunho normal possa ser atacado de cima, insistindo-se na realidade superior de Dhyana — e a fortiori do Samadhi, o qual eu não experimentei, e do qual consequentemente não trato, contentando-me em aceitar as afirmações altamente prováveis daqueles que o afirmam conhecer, e que até agora não me decepcionaram (i.e. quanto a Dhyana), trata-se de uma questão que não cabe ao presente argumento discutir. Eu irei, entretanto, sugerir certas idéias na seção seguinte, na qual eu me proponho a discutir a mais famosa das meditações Budistas (Mahasatipatthana), seu método, objetivo, e resultados.

Mahasatipatthana

Esta meditação difere fundamentalmente dos métodos Hindus comuns pelo fato de que a mente não é restrita a contemplação de um único objeto, e não há interferência com as funções naturais do corpo, como, por exemplo, em Pranayama. É essencialmente uma prática de observação, a qual assume um aspecto analítico em relação a pergunta “O que é realmente observado?”.

O Ego-idéia é resolutamente excluído desde o início, e assim o Sr. Herbert Spencer não terá nada para objetar (“Princípios de Psicologia”, ii.404). A respiração, movimentos de andar, etc., são meramente observados e anotados; por exemplo, pode-se sentar quietamente e dizer: “Há um entrar da respiração”, “Há uma expiração”, etc. Ou, caminhando-se, “Há o erguer do pé direito”, e assim por diante, assim que o fato acontece. É claro que o pensamento não é rápido o suficiente para notar todos os movimentos ou as suas causas sutis. Por exemplo, nós não podemos descrever as complicadas contrações musculares, etc.; mas isto não é necessário. Concentre-se em uma série de movimentos simples.

Quando, através do hábito, isto se tornar intuitivo, de forma que o pensamento for realmente “Há um erguer”, ao invés de “Eu ergo” (este último sendo na realidade uma complexa e amadurecida idéia, como os filósofos freqüentemente notaram, até Descartes cair na armadilha), deve-se recomeçar a analisar, conforme explicado acima, e o segundo estágio será “Há uma sensação (Vedana) de um erguimento”, etc. As sensações são depois classificadas de agradáveis e desagradáveis.

Quando este for o verdadeiro, intuitivo, instantâneo testemunho da consciência (de forma que “Há um levantar”, etc. é rejeitado como sendo uma mentira palpável), passamos para Sañña, percepção.

“Há uma percepção (agradável ou desagradável) de um erguer, etc..”

Quando isto tiver se tornado intuitivo — ora! aqui está um estranho resultado! as sensações de dor e prazer desapareceram. Elas estão sub-incluídas na skandha inferior de Vedana, e Sañña é livre disto. E, para aquele que pode viver neste terceiro estado, e assim viver para sempre, não há mais dor; apenas um intenso interesse, semelhante ao que permitiu a homens de ciência observar e anotar o progresso de sua própria agonia de morte. Infelizmente, o viver neste estado é condicionado a uma firme saúde mental, e é interrompido pela morte ou pela doença a qualquer instante. Se assim não fosse, a Primeira Nobre Verdade seria uma mentira.

Os dois estágios seguintes Sankhara e Viññanam seguem a análise até o seu limite, “Há uma consciência da tendência para se perceber a (agradável ou desagradável) sensação de se erguer o pé direito” sendo a forma final. E eu suponho que nenhum psicólogo de qualquer linha irá questionar isto. O raciocínio, de fato, leva a esta analise; o Budista vai além somente até poder derrubar o andaime do processo de raciocínio, e assimilar a verdade atual do assunto.

É a diferença entre o garoto de escola que dolorosamente constrói “Balbus murum aedificavit”[2], e o Romano que anuncia este fato histórico sem sequer pensar em sua gramática.

Eu chamei esta meditação de a mais famosa das meditações Budistas, por quê é atestado pelo próprio Buda que se alguém a pratica com honestidade e diligência o resultado é certo. E ele não diz isto de nenhuma outra.

Eu pessoalmente não encontrei tempo para me devotar de forma séria a esta Mahasatipatthana, e as afirmações aqui feitas derivam da razão e não da experiência. Mas eu posso dizer que a irrealidade dos estados mais grosseiros (rupa) em relação ao mais sutil Vedana e ao ainda mais sutil Sañña torna-se rapidamente aparente, e eu posso apenas concluir que com tempo e esforço o processo deve continuar.

O que ocorre quando alguém atinge o estado final de Viññanam, e não encontra nenhum Atman além dele? Certamente o estágio de Viññanam será logo visto como tão irreal quanto o anterior pareceu. É inútil especular; mas se eu devo escapar da acusação de explicar o obscuro pelo mais obscuro, eu posso sugerir que tal pessoa deve estar muito próxima do estado chamado Nirvana, o que quer que seja indicado pelo termo. E eu estou convencido, em minha própria mente, que o Ananda (êxtase) de Dhyana irá surgir muito antes de alguém passar mesmo a Sankhara.

E, quanto à realidade, será um bravo gracejo, meus senhores, atirar de volta aos materialistas esta terrível troça de Voltaire aos mercadores de mistérios de sua época: “Ils nient ce qui est, et expliquent ce qui n’est pas”[3].

Nota à Seção VIII – Realismo Transfigurado

Não gastarei o meu tempo e o dos meus leitores com uma longa discussão sobre o “Realismo Transfigurado” do Sr. Herbert Spencer. Não colocarei em muitos detalhes como ele propõe, por uma cadeia de raciocínios, derrotar as conclusões que ele admitem serem as da razão.

Mas a sua afirmação, de que o Idealismo não é verbalmente inteligível, é, para o meu propósito, a melhor coisa que ele poderia ter dito.

Ele erra ao dizer que os idealistas são confundidos pela sua própria terminologia; o fato é que, as conclusões idealistas são apresentadas diretamente à consciência, quando esta consciência é Dhyanica (cfe. Seção XI).

Nada está mais claro para a minha mente, do que o fato de que a maior dificuldade, geralmente experimentada pela mente normal na assimilação da metafísica, deve-se à atual falta de experiência, na mente do leitor, do fenômeno discutido. Eu irei tão longe ao ponto de dizer que talvez, o próprio Sr. Spencer é tão amargo por não ter, ele mesmo, nenhuma experiência de “Realismo Transfigurado” como um fenômeno diretamente presente; pois se ele supõe que a mente saudável e normal pode perceber o que ele percebe, os argumentos de Berkeley devem lhe parecer mera e frívola estupidez.

Eu classifico a filosofia Hindu junto com o Idealismo, e a Budista com a do sr. Herbert Spencer; a grande diferença entre elas sendo que os Budistas reconhecem claramente estas (ou similares) conclusões como sendo fenômenos, e o sr. Spencer, bastante inconsistentemente, apenas como verdades verificadas por um raciocinar mais alto e mais correto do que o dos seus oponentes.

Nós reconhecemos, com Berkeley, que a razão nos ensina que o testemunho da consciência é inverídico; é absurdo, com Spencer, refutar a razão; ao invés disto, tentamos trazer à consciência o sentido de sua improbidade. O nosso diagnóstico (empírico) é o de que é a dissipação da mente a principal responsável por sua inconfiabilidade. Buscamos (também por meios empíricos, é claro!) controlá-la, concentrá-la, e observar, mais acuradamente — será que esta fonte de possível erro foi suficientemente reconhecida? — o que o seu testemunho realmente é.

A experiência me ensinou, até onde fui capaz de ir, que a Razão e a Consciência se encontram; Apreensão e Análise se beijam. A reconciliação (de fato, lembrem-se, e não em palavras) é ao menos tão perfeita que eu posso, confiantemente, predizer que uma futura busca nesta (empiricamente indicada) senda irá certamente levar a uma unificação ainda mais alta.

A realização das esperanças mantidas pela hipótese é, portanto, de claro e evidente valor no apoio desta mesma hipótese, empírica como ela era, e é. Mas, com o crescimento e a reunião, classificação, e criticismo dos nossos fatos, nós estamos no caminho certo para erguer uma estrutura mais segura sobre uma base mais ampla.

Agnosticismo

Deve ser claramente entendido, e bem relembrado, que, através de todas estas meditações e idéias, não há nenhum caminho marcado que leve a qualquer tipo de ontologia ortodoxa. Em relação ao caminho da salvação, nós não contamos com o Buda; a mentira viciosa da expiação delegada não encontra lugar aqui. O próprio Buda não escapa da lei da causação; se isto é metafísica, então até aqui o Budismo é metafísico, mas não mais do que isto. Ao mesmo tempo em que nega mentiras óbvias, ele não estabelece dogmas; todas as sua afirmações são passíveis de prova — uma criança pode perceber as mais importantes. E isto é Agnosticismo. Nós temos aqui uma religião científica. Até onde Newton teria ido se tivesse aderido a Tycho Brahe como o Guia? Até onde o Buda, se tivesse reverenciado os Vedas com fé cega? Ou até onde podemos prosseguir, mesmo a partir da verdade parcial, se não mantermos uma mente aberta a seu respeito, conscientes de que novos fenômenos podem derrubar as nossas hipóteses mais fundamentais! Me dê uma prova sobre uma existência (inteligente) que não esteja sujeita ao sofrimento, e eu jogarei a Primeira Nobre Verdade aos cães sem nenhuma dor. E, sabendo disto, quão esplêndido é ler as grandes palavras proferidas a mais de dois mil anos atrás: “Portanto, ó Ananda, sejam lâmpadas para si mesmos. Sejam um refúgio para si mesmos. Não recorram a nenhum refúgio externo. Busquem sem tardar a verdade como a uma lâmpada. Busquem sem tardar a verdade como a um refúgio. Não busquem refúgio para ninguém além de si mesmos.” (Mahaparanibbana Sutta, ii.33) E a tais buscadores apenas o Buda promete “a mais elevada Altura” — se eles apenas forem “ansiosos em aprender”. Esta é a pedra fundamental do Budismo; podem homens científicos negar a sua aprovação a estas palavras, quando olham para trás, na história do Pensamento no ocidente: a tortura de Bruno, a vergonha de Galileo, o obscurantismo dos Escolásticos, o “mistério” dos padres opressores, as armas carnais e espirituais da fogueira e da tortura, os labirintos de mentiras e vis intrigas pelos quais a Ciência, a criança, era deformada, distorcida, atrofiada, no interesse da proposição contrária?

Se vocês me perguntarem por que deveriam ser Budistas, e não indiferentes, como agora são, eu respondo que venho, talvez desmerecidamente, tomar a espada que Huxley manejou; eu digo que o Opressor da Ciência em sua infância ainda está trabalhando para violentar a sua virgindade; que uma hesitação momentânea, por comodismo, seguramente pode nos tirar da posição tão arduamente ganha. Não iremos ainda mais a frente, além disto? Devem ainda às nossas crianças serem ensinadas como fatos as estúpidas e indecentes fábulas do Velho Testamento, fábulas que o próprio Arcebispo de Canterbury iria indignadamente repudiar? Devem as mentes serem pervertidas ainda cedo, o método científico e a imaginação reprimidas, a faculdade lógica frustrada — milhares de trabalhadores perdidos a cada ano para a Ciência?

E o caminho para tudo isto não é apenas através no senso comum da indiferença; organizem-se, organizem-se, organizem-se! Pois uma bandeira nós oferecemos a vocês, a imaculada insígnia da lótus de Buda, em defesa da qual nenhuma gota de sangue jamais foi, e jamais será, derramada; uma bandeira sob a qual vocês juntarão forças com quinhentos milhões de companheiros. E vocês não serão soldados rasos no exército; para vocês os mais altos postos, os lugares de liderança, aguardam; quando se diz respeito aos triunfos do intelecto, é para a Ciência ocidental que olhamos. Suas realizações destruíram a ordem de batalha do dogma e do despotismo; suas colunas avançam com poder triunfante através das brechas da falsa metafísica e da lógica sem base; vocês lutaram a batalha, e os louros estão em suas testas. A batalha foi lutada por nós a mais de dois mil anos atrás; a autoridade dos Vedas, as restrições de casta, foram esmagadas pela invulnerável espada da verdade na mão de Buda; nós somos seus irmãos. Mas na corrida do intelecto nós ficamos um pouco para trás; não terão vocês interesse em nós, que fomos seus camaradas? O Budismo clama pela Ciência: Lidera-nos, reforme-nos, dê-nos idéias claras sobre a Natureza e suas leis; dê-nos a base da lógica irrefutável e o amplo conhecimento de que precisamos, e marchem conosco rumo ao Desconhecido!

A fé Budista não é uma fé cega; suas verdades são óbvias para todos os que não estão cegos pelos espetáculos de bibliolatria e ensurdecidos pelo clamor dos padres, presbíteros, ministros: qualquer nome que eles escolham para si mesmos, nós podemos ao menos colocá-los de lado em uma grande categoria, a dos sufocadores do Pensamento; e estas verdades são as que nós a muito tempo aceitamos e que vocês recente e duramente conquistaram.

É para homens do seu talhe, homens de pensamento independente, de fino êxtase amoroso pelo conhecimento, de treinamento prático, que o Buddhasanana Samagama apela; é hora do Budismo reforma-se por dentro; embora sua verdades tem se mantido impolutas (e mesmo isto não ocorre em toda parte), seus métodos, sua organização, estão em triste necessidade de reparos; buscas devem ser feitas, homens devem ser aperfeiçoados, o erro deve ser combatido. E se no Ocidente uma grande sociedade Budista for construída por homens de intelecto, homens em cujas mãos está o futuro, haverá então um despertar, uma verdadeira redenção, dos desgastados e esquecidos impérios do Leste.

– Notas –

[1] Em Francês, no original.

[2] Em Latim, no original.

[3] Em Francês, no original.

Crowley, Aleister. Tradução: Dajjal (Fra.)

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/ciencia-e-budismo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/ciencia-e-budismo/

A submissão de Indra, o rei dos semideuses hindus

(Texto extraído em espanhol do livro Mitos de la luz: Metáforas orientales de lo eterno, de Joseph Campbell, o qual extraiu o texto de uma passagem do Brahmavaivarta Purana).

Permita-me contar uma história hindu.

Uma vez, um monstro chamado Vrtra tentou reter (seu nome significa “abrangendo”) todas as águas do universo para que houvesse uma enorme seca que durasse mil anos. Bem, Indra, o Zeus do panteão hindu, finalmente teve uma ideia. Por que não atirar um raio nesse cara e transformá-lo em pó? Então Indra pegou um raio, disparou em direção ao centro de Vrtra, e bang! Vrtra explode, as águas fluem e a Terra e o universo esfriam.

Bem, então Indra pensa: “Como sou grandioso”, então ele sobe a montanha cósmica, o Monte Meru, que é o Olimpo dos deuses hindus, e percebe que todos os palácios têm sinais de decadência. “Bem, agora vou construir uma cidade totalmente nova aqui, que faz jus à minha dignidade”, diz ele. Ele convoca Visvakarman, o artesão dos deuses, e conta a ele sobre seus planos.

Ele diz: “Olha, vamos trabalhar aqui e construir esta cidade. Acho que poderíamos ter palácios aqui e torres ali, plantas de lótus neste setor, etc.”

Então Visvakarman vai trabalhar, mas, toda vez que Indra volta, ele vem com ideias maiores e melhores sobre o palácio, de modo que Visvakarman começa a pensar: “Meu Deus, nós dois somos imortais, então o que posso fazer?”

Visvakarman decide ir reclamar perante Brahma, ou o assim chamado criador do mundo dos fenômenos. Brahma senta-se em um lótus (assim é seu trono), e Brahma e o lótus crescem do umbigo de Vishnu. Por sua vez, Vishnu está pairando sobre o oceano cósmico, reclinado sobre uma grande serpente cujo nome é Ananta (que significa “sem fim”).

Aqui está a cena. Nas águas, Vishnu dorme e Brahma está sentado no lótus. Visvakarman aparece e depois de muitas reverências diz: “Estou com problemas”. Ele então conta a história para Brahma, que responde: “Tudo bem. Vou consertar tudo”.

Na manhã seguinte, o porteiro da entrada de um dos palácios de Indra que estava em construção nota a presença de um jovem brâmane de pele azul e negra, cuja beleza surpreende muitas crianças. O porteiro procura Indra e diz: “Acho que seria auspicioso convidar este belo jovem brâmane para o palácio e dar-lhe hospitalidade.” Indra concorda que isso certamente será auspicioso, então o menino é convidado. Indra está sentado em seu trono e, após as cerimônias de hospitalidade, ele diz: “Bem, jovem, o que o traz ao palácio?”

Com uma voz como um trovão no horizonte, o menino diz: “Ouvi dizer que você está construindo o maior palácio que qualquer Indra já construiu, e agora que o verifiquei, posso lhe dizer que nenhum Indra jamais construiu tal palácio antes.”

Aturdido, Indra exclama: “Indras diante de mim? Do que você está falando?”

“Sim, Indras antes de você”, responde o menino. “Apenas pense, o lótus cresce do umbigo de Vishnu, o lótus se abre, e Brahma se senta nele. Brahma abre os olhos e o universo se manifesta, governado por um Indra. Fecha os seus olhos. Abre os seus olhos: outro universo. Fecha os seus olhos. .. e por trezentos e sessenta anos de Brahma, é isso que ele faz. Depois o lótus é removido, e após um tempo insondável outro lótus se abre, Brahma aparece, abre seus olhos, fecha seus olhos… Indras, Indras, Indras.”

“Considera agora todas as galáxias no espaço e no espaço exterior, cada um com um lótus, cada lótus com seu Brahma. Podem haver sábios em sua corte que se voluntariam para contar as gotas do oceano e os grãos de areia nas praias do mundo, mas quem contaria aqueles Brahmas, sem falar sequer dos Indras?

Enquanto ele fala, um desfile de formigas em fileiras perfeitas aparece no chão do palácio, e o menino olha para elas e ri. A barba de Indra se eriça, seus bigodes ficam tensos; ele pergunta: “E agora? Do que você está rindo?”

O menino responde: “Não me pergunte a menos que esteja preparado para ser ferido”.

Indra diz: “Eu pergunto”.

O menino aponta a sua mão para as filas de formigas e diz: “Aqui estão todos os Indras anteriores. Passarão por inúmeras encarnações e se elevam ao nível dos céus, chegam ao alto trono de Indra e matam o dragão Vrtra. Todos eles proclamam: ‘Como sou grandioso’, e então caem.

A esta altura, aparece um iogue velho e excêntrico vestido somente com um cinto, e que carrega sobre a sua cabeça um guarda-sol feito
com folhas de bananeira. Sobre seu peito tem um pequeno círculo de
cabelos, e o jovem olha para ele e faz as perguntas que fervilham na mente de Indra. ” Quem é? Qual é o seu nome? Onde vive? Onde é sua casa?

“Não tenho família, não tenho casa. A vida é curta. Este guarda-sol é suficiente para mim. Apenas adoro Vishnu. Quanto a esses pêlos, é uma coisa curiosa; cada vez que um Indra morre, um fio de cabelo cai. Metade deles já foi embora. Muito em breve todos eles irão embora. Por que construir uma casa?”

Bem, esses dois personagens eram na verdade Vishnu e Shiva. Tinham vindo para dar uma lição a Indra, e uma vez que ele os escutou, partiram. Agora Indra está destroçado, e quando entra Brhaspati, o sacerdote dos deuses, Indra diz: “Eu sairei para me tornar um iogue. Eu adorarei os pés de Vishnu.”

Então ele vai ao encontro de sua esposa, a grande rainha Indrani, e diz a ela: “Minha querida, vou deixá-la. Eu irei para a floresta para me tornar um iogue. Vou jogar fora toda essa bobagem sobre governar o mundo e vou adorar os pés de Vishnu.”

Bem, ela olha para ele por um tempo, então ela procura por Brhaspati e
conta a ele o que aconteceu. “Ele colocou essa ideia na cabeça e vai
partir para se tornar um iogue.”

Então o sacerdote a pega pela mão e eles vão se sentar juntos, diante do trono de Indra, a quem ele diz: “Você está no trono do universo. Você representa virtude e dever -dharma- e incorpora o espírito divino neste papel terreno. Já escrevi um ótimo livro para você sobre sobre a arte da política, como manter o Estado, vencer guerras, e assim por diante. Agora vou escrever para você um livro sobre a arte de amar, para que o outro aspecto de sua vida, que você compartilha com Indrani, também
também tornar-se uma revelação do espírito divino que habita em todos nós. Qualquer um pode se tornar um iogue, mas, quem pode representar na vida do mundo a imanência desse mistério da eternidade?”

Assim Indra foi salvo do problema de abandonar tudo e tornar-se um iogue. Agora ele tinha tudo dentro dele, assim como todos nós. Tudo que você tem a fazer é acordar para o fato
que você é uma manifestação do eterno.

Este conto, conhecido como “Submissão de Indra”, aparece no Brahmavaivarta Purana. Os Puranas são textos sagrados do Índia, por volta do ano 400 desta era.

O surpreendente sobre a mitologia hindu é que ela abrange o universo em que estamos falando, com os grandes ciclos de vidas estelares, as galáxias, as galáxias além das galáxias, e o aparecimento e desaparecimento da universos. Isso dilui a força do momento presente.

Quanto a todos os nossos medos sobre bombas atômicas que pulverizam o universo, o que há com isso? Antes já houveram universos
e mais universos, cada um deles explodido por uma bomba atômica. Então identifique-se agora com o eterno que está dentro de você
e dentro de todas as coisas. Isso não significa que você quer ver cair
uma bomba atômica, e sim que você não deve parar de perder seu tempo se preocupando com ela.

Uma das grandes tentações do Buda foi a tentação de luxúria. A outra tentação era o medo da morte. Este é um tema interessante para meditar, o medo da morte. A vida nos joga essas tentações, essas distrações, e o problema é encontrar dentro de nós o centro inabalável. Então você pode sobreviver a qualquer coisa. O mito irá ajudá-lo a fazê-lo. Isso não significa que você não deve sair e protestar contra as pesquisas atômicas. Faça-o, mas faça-o brincando. Lembre-se que o universo é o jogo de Deus.

***

Tradução e adaptação do espanhol para o português por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-submissao-de-indra-o-rei-dos-semideuses-hindus/

O Tantra

Quando se fala em Tantra, a maioria das pessoas pensa logo em sexo. Mas não é nada disso, e é um símbolo claro da deturpação com que recebemos as doutrinas orientais aqui no Ocidente. Um texto de Enki ajuda a esclarecer o que é o Tantra:

O Tantra pode ser considerado como uma continuação dos ensinamentos antigos e asseguram sua origem nos Vedas, sendo muitas vezes considerado como o quinto Veda. Muitos iniciados sustentam até uma idade bem mais antiga aos Tantras, afirmando que foram os Vedas que se originaram dos Tantras e não o oposto. O Tantra pode ter surgido a mais de sete mil anos. Há indícios de praticas tântricas nos Vedas, confirmando sua antiga origem e, apesar das similaridades, a corrente védica e tântrica são distintas, sendo o Tantra um complemento importante para a corrente védica de conhecimento. As relações entre Tantra e os Vedas continuam grandes e complexas até hoje.

Os objetivos do Tantra

A disciplina tântrica ou Tantra-Yoga tem como objetivo o resgate da percepção do fluxo continuo da consciência, da percepção unitiva da consciência. Para isso ela usa da compreensão do mundo em que vivemos baseados no Samsara, cuja origem é o Karma. Samsara é a existência cíclica de nascimento, morte, renascimento (morte, renascimento…) O que conhecemos como destino nada mais é do que as relações kármicas que existe entre os seres. Karma é ação, seja ela boa ou ruim, e suas respectivas reações. O ocidental costuma confundir dharma com o “karma positivo” e karma com o “karma negativo”. Dharma é palavra sânscrita que possui várias traduções de acordo com o contexto. No budismo ela vai representar a Lei Devidamente Apontada e no hinduísmo recebe a tradução mais comum de Dever, seja ele espiritual, social ou moral. O iniciado tântrico usa de dois meios importantes e complementares para compreender o mundo em que vive para assim transcendê-lo. São eles: O domínio dos reinos sutis através do desenvolvimento dos centros psico-espirituais e a investigação descriminativa dos objetos exteriores (mundo objetivo) e interiores (mundo subjetivo) através da meditação, a fim de se tornar mais sábio. Sabendo que o mundo é uma escola e que a vida é uma incessante busca pela sabedoria, o iniciado passa associar o samsara a Maya ou ilusão (ilusões) enraizada firmemente na nossa incapacidade de compreendermos basicamente a nós e ao mundo. Para ilustrar melhor o objetivo do Tantra finalizamos essa parte com as palavras de Shiva: “Samsara é a raiz do sofrimento. Aquele que vive no mundo é submetido ao sofrimento. Mas, ó Amado, aquele que pratica a renúncia, e nenhum outro, é feliz. Ó Amado, devia-se abandonar o samsara, que é o local de nascimento de todo sofrimento, solo de toda adversidade e a morada do mal. Ó Deusa, a mente ligada ao samsara está atada sem laços, cortada sem armas e exposta a um veneno terrivelmente poderoso.”

O Tantra foi desenvolvido e aprimorado por uma classe de seres conhecida como Siddhas, seres perfeitos e altamente iluminados. Dessa classe podemos citar nomes como Boghanathar, Agastyar, Babaji, Milarepa, Nagarjuna, Nandi e o próprio Shiva. Para entender o Tantra é preciso primeiro entender o ponto de vista consciencial de quem o desenvolveu.

Os Siddhas possuíam uma visão monista pura, mas, no entanto eles não eram radicais. Sábios que eram, tinham o conhecimento de que a consciência humana se desdobra em vários graus e aspectos. Assim, foram densificando seus ensinamentos para atingir todos os níveis conscienciais. Revestiram o conhecimento mais sutil com a roupagem do profano, no sentido que rompiam com a velha ortodoxia brâmane, pois não consideravam as castas ou o grau social e consciencial das pessoas para passar o ensinamento espiritual. Esse rompimento tornou o tantra uma prática marginal, constantemente perseguida pelos brâmanes e seus praticantes sempre foram vistos com o “manto do mistério”, sendo temidos por todos.

No processo de “densificação” do conhecimento, os Siddhas explicaram o tantra com base nos referenciais mais acessíveis a todas as classes de seres. Esse processo deu origem a três escolas: o Kaula, que compreende o tantra da esquerda e o da direita; o Mishra, que é o caminho intermediário entre as práticas mais grosseiras e as mais sutis; e o Samaya, que é o caminho mais sutil – talvez até mais que o Advaita Vedanta – que é o caminho original dos Siddhas, o mais puro.

Da época dessa densificação havia mestres competentes em todas as três escolas e o processo de aprendizagem não era deturpado. Com o passar do tempo esses mestres autênticos foram se tornando cada vez mais raros e os conhecimentos corretos foram se perdendo pelos caminhos dos egos dos seus praticantes de visão turva. Assim, a egrégora do Tantra foi se desfazendo, restando poucos mestres autênticos, entranhados nas montanhas dos Himalayas e que custam a passar o verdadeiro conhecimento, visto que é difícil achar um verdadeiro discípulo.

Foi nesse caminho de deturpação dos ensinamentos que surgiram as primeiras práticas que associavam o sexo com o Tantra. Em verdade essa associação não existe, mas é fruto da compreensão turva de textos altamente sutis, que tratam de aspectos avançados da percepção consciencial, mas que usavam de linguagem metafórica para facilitar o entendimento. Essa sobreposição é facilmente perceptível quando se entende o ponto de vista consciencial dos Siddhas.

As práticas do Tantra foram adequadas às suas escolas, existindo práticas avançadas de meditação, que estudam a manifestação consciencial até práticas físicas como o Hatha Yoga. Essas práticas se apóiam e se completam.

#Tantra

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-tantra

Chisaku

Robson Belli

Chisaku é um dos 63 germes assustadores escritos em Harikikigaki , um livro de conhecimento médico escrito em 1568 por um morador desconhecido de Osaka. Aparece no estômago após uma doença grave.

Pode ser controlado aplicando shukusha.

 No Harikigaki

O Museu Nacional de Kyushu, no Japão, possui uma cópia do Harikikigaki – um texto médico do século 16 de autoria desconhecida que afirmava que as doenças eram causadas por pequenos insetos que rastejavam para dentro do corpo. O Harikikigaki aconselha o uso de acupuntura e ervas para lidar com os germes.

A crença

Bem na Era Moderna (final do século 19), os japoneses acreditavam que a doença era transmitida por kami malignos chamados yakubyogami. A princípio, pensava-se que esses deuses tomavam forma humana, mas depois, influenciados pelo pensamento em textos da China , algumas pessoas passaram a pensar neles como pequenas criaturas pequenas o suficiente para entrar no corpo. O Harikikigaki, escrito em 1568, é principalmente sobre acupuntura, no entanto, este texto raro inclui 63 representações coloridas dos vários mushi (germes) que se acredita causarem doenças.


Robson Belli, é tarólogo, praticante das artes ocultas com larga experiência em magia enochiana e salomônica, colaborador fixo do projeto Morte Súbita, cohost do Bate-Papo Mayhem e autor de diversos livros sobre ocultismo prático.

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/chisaku/

A Primazia da Shakti

Por Dr. David Frawley

Libertação: O Objetivo da Vida:

O objetivo final da vida humana é a libertação ou moksha, a realização do Eu Puro ou Brahman além de todo tempo, espaço e carma. Só nisso está a paz e a liberdade completas e duradouras. Isto fica claro em muitos grandes ensinamentos espirituais desde os Vedas.

Esta realidade suprema de pura unidade não é difícil de descrever e a busca por ela é algo que conhecemos em nossos corações, onde buscamos a unidade com todos. A questão importante e difícil que se coloca, no entanto, é como chegar lá? Esse Eu puro está tão distante de nossa experiência de vida comum que requer uma mudança radical de todo o nosso modo de vida para chegarmos até mesmo a ele.

Brahman é nirguna (desprovido de qualidades), nishkriya (além da ação) e nishkama (além do desejo). É extremamente difícil de acessar mesmo para aqueles com as mentes mais afiadas e os estilos de vida mais puros. Brahman, além disso, está além de todos os caminhos, todos os esforços e todos os esforços. Ele está fora do tempo, do espaço e da causalidade e não pode ser produzido por nada. Aquele que o procura deve ele mesmo desaparecer antes de encontrá-lo. No entanto, mesmo tendo esse pensamento sobre sua ultimidade não o leva lá ou mesmo a assegurar que se esteja indo na direção certa.

Somente se nossas mentes puderem estar totalmente concentradas dentro do coração é que poderemos conhecer Aquele Ser Supremo. Aqueles cujas mentes são claras e focalizadas internamente podem certamente entrar nesse Brahman sem forma. Mas se existe algum desejo não satisfeito, não podemos alcançá-lo, ou se o tocamos, não podemos permanecer nele. O problema é que estamos cheios de desejos, mesmo que nossas mentes sejam fortes. O desejo é a essência de tudo o que fazemos e a própria força por trás de nossas vidas.

Não vivemos em Brahman ou no imanifesto além do tempo e do espaço, mas no reino manifesto da experiência de vida, repleto de suas energias, atrações, repulsões e apegos. Em nossas mentes e emoções comuns, somos produtos do tempo e do espaço. Somos apanhados no lugar, pessoa, forma e carma como o próprio alicerce de nossa realidade pessoal e social.

Não podemos ir além deste reino manifesto, a menos que primeiro reconheçamos o poder por trás dele. Não está ao nosso alcance ir além do reino em que existimos e do qual somos um produto. Somente o poder que nos criou pode fazer isso por nós. Portanto, a verdadeira questão, qual é o poder por trás do universo, por trás de nossos corpos e mentes e como podemos trabalhar com ele para alcançar o Último?

Shakti, a Deusa como o Poder de Brahman:

O verdadeiro poder por trás deste universo manifesto é Shakti ou a energia da Deusa, que é a força de expressão e manifestação de Brahman. Shakti ou o poder da criação controla tudo o que ocorre dentro de seu campo. O brâmane sem forma além da criação não tem nenhuma preocupação com este reino ou com qualquer coisa que façamos dentro dele. Ele não pode nos ajudar nem nos atrapalhar de forma alguma. Do seu ponto de vista, nunca houve nascimento ou morte, individual ou cosmos, escravidão ou libertação. Mesmo nossa busca de libertação não tem nenhum significado para ela.

Nossas vidas dependem inteiramente de Shakti, o que nos confere vitalidade, sentimento e consciência, através dos quais operamos em todos os níveis e podemos pôr em movimento tanto nossas ações externas quanto nossa sadana interior ou prática espiritual. Shakti controla toda a manifestação, assim como a eletricidade permite que todos os aparelhos funcionem. Ela governa sobre os processos de nascimento e morte e o carma do desdobramento. Ela fornece às nossas almas os corpos e mentes e os mundos nos quais experimentar a vida. Tudo o que comemos, respiramos, percebemos, sentimos ou conhecemos consiste em alguma porção de sua energia e um aspecto de Seus processos dinâmicos que nos cercam de todos os lados. Tudo o que buscamos adquirir para o sustento, felicidade, conhecimento ou crescimento faz parte dela e vem dela.

No entanto, Shakti também controla o caminho além da manifestação, o retorno ao Brahman. Mesmo para buscar o Brahman, para buscar o que está além de Shakti, devemos trabalhar com Shakti. Shakti nos proporciona o poder da meditação e a visão discriminadora através da qual podemos transcender o tempo e o espaço. Isto significa que o melhor meio para a realização espiritual e para alcançar todos os outros objetivos da vida é adorar Shakti, para trabalhar com e para a Deusa. Não existe outra maneira tão eficaz, se é que existe qualquer outra maneira. Se o Brahman é o objetivo, a Shakti é tanto o caminho quanto o poder de atravessá-lo. Podemos despertar e seguir sua corrente até Brahman, ou permanecer adormecidos e ser apanhados em suas correntes externas que se movem em diferentes direções.

Portanto, a questão não é Brahman, que está além de tudo, mas Shakti que se manifesta em todos os lugares. Shakti está ao nosso redor, piscando em tudo, quer reconheçamos Sua peça ou não. A questão é como ganhar a graça dessa Shakti – Como nos aliarmos às Shaktis certos para facilitar nosso desenvolvimento como uma alma.

Devemos reconhecer a primazia de Shakti, ou poucos, se algum de nós puder vir a Brahman, ou mesmo ganhar com sucesso os objetivos comuns da vida. Mesmo grandes Vedantistas adoraram primeiro Shakti, como no caso dos grandes ensinamentos do texto a Tripura Rahasya, ou tiveram que reconhecer Shakti eventualmente, como no caso de Tota Puri, o guru de Ramakrishna.

Tudo é controlado por Shakti. Shakti está intimamente ligada a todos os aspectos da vida dos quais dependemos, que nos atraem e mantêm a vida em andamento e desenvolvimento. Pense bem sobre isso. O nascimento, a reprodução e a sexualidade são tudo através de Shakti. Alimentação e nutrição são outro passatempo de Shakti. A respiração, a vida (Prana), a emoção e o sentimento são todos devidos a Shakti. Os grandes elementos da Terra, Água, Fogo, Ar e Éter são todas as formas de Shakti, que é sua energia subjacente. Os principais gunas de Sattva, Rajas e Tamas são as forças raízes de Shakti. Ou sucessos, ganhos, metas e realizações em qualquer esforço só são possíveis por causa de Shakti ou do poder de realizá-los com os quais temos sido capazes de descobrir como trabalhar.

Energia, ciência e tecnologia são meios de trabalhar com Shakti em um nível externo e transformaram nosso mundo. A mídia de massa é um jogo da Shakti no campo da comunicação, que derrubou barreiras de comunicação em todos os lugares. A própria Terra, com sua rica diversidade de vida, é Shakti em forma manifesta como a terra em que vivemos. As estrelas são os flashes da Shakti cósmica através da imensidão sem limites do espaço. Mesmo as partículas subatômicas estão vivas com poderosas forças sutis da Shakti, que formam o oceano ou matriz a partir da qual elas dançam para dentro e para fora.

Todas as coisas às quais estamos apegados ou envolvidos são formas da Shakti ou estão enraizadas na Shakti. O que amamos, buscamos ou desejamos é algum aspecto da Shakti que confere às formas cor, beleza, encanto e deleite. Não é o objeto, pessoa, lugar ou experiência em si que é a verdadeira fonte de nosso fascínio por elas, mas a energia, rasa ou essência, a Shakti trabalhando através dela. Estamos sob o fascínio da Shakti de uma forma ou de outra, quer reconheçamos ou não essa Shakti subjacente.

Não podemos ir além de nada, a menos que primeiro honremos a Shakti por trás dela, o que significa tocar sua energia central na consciência. Não se pode renunciar a nada pelo qual se sinta realmente atraído, por mais que se tente. Mas você pode reconhecer a Shakti por trás dela e, seguindo-a, ir além das limitações da forma, como a abelha que pode reunir o pólen e não se lembra da forma. A Shakti dentro de qualquer objeto ou experiência individual é, em última análise, a mesma Shakti dentro de todos.

Não podemos sair do reino da Shakti a menos que reconheçamos e honremos a Shakti, que está tanto neste reino como além dele – a menos que ela decida. Se ela não estiver disposta, nossos esforços serão em vão. Se ela estiver disposta, então seremos guiados ao longo do caminho e ela mesma nos conduzirá adiante. Podemos então simplesmente seguir seu fluxo e não precisamos calcular ou empurrar nosso caminho para frente, levados para frente por seu fluxo. No entanto, para que isso ocorra, devemos primeiro aprender a olhar para dentro de nós mesmos e descobrir o movimento mais profundo da Shakti. Isso descobriremos como nossa própria busca mais interior da verdade e da divindade.

Shakti como o Caminho e o Objetivo:

Shakti é o caminho para Deus ou Brahman. Mesmo que você só queira praticar Yoga, você deve despertar e honrar a Kundalini Shakti para levá-lo adiante. Se você é devoto a Deus ou à Deusa em qualquer forma, você deve ter aquela Shakti de devoção para levá-lo adiante. Para que qualquer yantra, puja ou mantra trabalhe, sua Shakti deve ser invocada primeiro a fim de lhe dar poder.

Mesmo que você seja totalmente dedicado à Autorrealização ou Jnana, isso só é possível através da graça de Shakti e seu poder de conhecimento, sua Buddhi Shakti através do qual a maior discriminação funciona. Sem que Shakti apoie seus esforços para a Autorrealização ou declarações de Autorrealização que você possa fazer, não terá energia, força ou convicção.

Nessa Shakti primordial não há dualidade entre o manifesto e o não-manifesto. É a mesma Shakti em suas modalidades ativa e inativa. Que Shakti detém o Brahman sem forma no mundo da forma, não limitando-o, mas como parte de seu transbordamento que é sua dança. Portanto, se um devoto adora Shakti para casa e felicidade ou para a maior libertação, é o mesmo movimento da Shakti em diferentes níveis e de diferentes maneiras.

Mesmo que você queira mudar o mundo através da ação política, você deve primeiro ganhar a Shakti ou o poder para fazê-lo. Se você quer ser um grande artista, você precisa da capacidade correspondente de Shakti, do poder e da habilidade na arte. Tudo tem sua chave Shakti, que contém não apenas a energia, mas o código de sua manifestação como o DNA, tanto sua motivação como a energia para realizá-la.

Portanto, durante as práticas espirituais que você escolher ou o que quer que você procure na vida que lhe trará paz e felicidade, não esqueça a primazia da Shakti e você nunca perderá seu caminho. O verdadeiro Shakti reunirá todas as Shaktis exteriores e o conduzirá ao seu objetivo interior.

Há duas formas principais de trabalhar com Shakti. A primeira é reconhecer as diferentes Shaktis no universo, externa e internamente, suas qualidades, energias e movimentos e como trabalhar com eles. Isto é como um médico aprendendo os poderes de cura em diferentes níveis, incluindo tanto os de diagnóstico como os de tratamento.

A segunda e mais simples maneira é simplesmente adorar Shakti diretamente, vendo a Shakti suprema em todas as coisas. Se alguém honrar a Shakti por trás de todas as Shaktis, então ganhará seu apoio, assim como aprenderá a entender suas formas específicas. No entanto, estes dois aspectos do trabalho com Shakti estão relacionados, ao aprender a descobrir a Shakti única em cada coisa, também se toca na Shakti suprema que está em toda parte.

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Fonte:

FRAWLEY, David. The Primacy of Shakti. Vedanet, 2017. Disponível em: <https://www.vedanet.com/the-primacy-of-shakti/>. Acesso em 11 de março de 2022.

COPYRIGHT (2017) American Institute of Vedic Studies.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-primazia-da-shakti/

A Meditação da Introspecção (Vipassana Bhavana)

Do livro “O Budismo Vivo e o Mundo Contemporâneo”
de Lama Anagarika Govinda  

A Meditação Vipássana chamada de Meditação da Introspecção ou da Percepção opera em dois níveis: no nível psicológico e no nível espiritual.  

No nível psicológico a meditação ajuda-nos primeiro a chegar a um acordo com os nossos estados mentais negativos. Aprendendo a observar atentamente as nossas variações de humor e aceitando-as, iremos conhecer os nossos eus secretos: os estados mentais de raiva, culpa, ansiedade, tristeza e depressão. A meditação nos ensina como lidar com todos eles. Estando consciente desses estados, não tentando fugir deles mas aceitando-os realmente como são. Isto significa que nós nem os ampliamos nem fazemos as coisas piores fantasiando, nem sonhamos acordados pensando nos deixar ser apanhados pelas emoções. Ao invés disso, desenvolvemos a conscientização e a observação, nós permitimos que os estados mentais sejam eles mesmos. Então experimentamos por nós mesmos exatamente o que o Buda ensinou: observando e vigiando os estados da mente, eles perdem energia, enfraquecem gradativamente e após um tempo extinguem-se completamente.  

Do mesmo modo, até mesmo os sentimentos profundamente reprimidos no subconsciente vão emergir e enfraquecer até que tenhamos purificado completamente a mente de todos os estados negativos. Gradativamente começamos a experimentar mais e mais os estados positivos da mente: amor, compaixão, alegria, harmonia e paz. Esta transformação tem seu efeito sobre nossos relacionamentos e na nossa vida diária, fazendo-nos pessoas muito mais felizes!  

No nível espiritual, como o processo de purificação da mente continua, com a concentração e a conscientização, surge então a sabedoria intuitiva e começamos a ver a natureza real da mente. Percebe-se e compreende-se as características da vida humana: sua insatisfatoriedade essencial e sua natureza impermanente. A consciência continua operando assim até o momento em que, sendo favoráveis as condições, ela penetra no Absoluto, além do corpo e da mente – o Nirvana.  

Isto é apenas um resumo de como a meditação funciona, mas lembrem-se quando meditamos, não pensamos acerca disto, nós apenas desenvolvemos a vigilância e a consciência. Apenas observamos o que surge na mente, não ficamos procurando por coisa alguma.  

Você compreendeu que o Buda não ensinou um sistema no qual todos tivessem que acreditar antes de começar a praticar. O que ele fez foi ensinar uma teoria, dar-nos um método, uma técnica: a prática da meditação. através da qual podemos testar tal teoria. Como a meditação não é um sistema de crença, ela pode ser praticada por qualquer pessoa independente de sua religião ou crença pessoal. Ela é simplesmente o Caminho para a Purificação Mental. Ela é útil para cada e para todos os seres humanos.  

Esperamos que você continue a praticar para seu próprio benefício e para o benefício de todos os seres. Possa sua meditação ser proveitosa!  

Venha meditar conosco!  

O Significado De “Insight”, Conhecimento e Sabedoria No Budismo  

Em contraste com as religiões baseadas em improváveis artigos de fé, a base do budismo é o entendimento. Esse fato iludiu alguns observadores ocidentais que pensavam no budismo como uma doutrina puramente racional que pode ser compreendida em termos apenas intelectuais. No entanto, o entendimento no budismo significa um insight na natureza da realidade é de sempre o produto de experiência imediata.  

Começando com a experiência do sofrimento como um axioma primário, válido universalmente, o budismo adota o ponto de vista de que somente aquilo que foi experimentado, e não o que se pensou, tem valor de realidade. Desta maneira, o Buda-Dharma prova que é uma religião genuína, mesmo que não solicite revelações não-provadas advindas de um domínio sobrenatural como os adeptos de uma religião normalmente têm que aceitar.  

Próximo da virada desse século, alguns hinduistas tentaram apresentar o budismo como um sistema filosófico-moral amplamente baseado em considerações psicológicas.  

Mas o budismo é mais do que uma filosofia, porque não despreza a razão nem a lógica, apenas as usa dentro da esfera apropriada. Também transcende os limites de qualquer sistema psicológico porque não está confinado à análise e à classificação de forças e fenômenos psíquicos reconhecidos, mas ensina seu uso, transformação e transcendência. O budismo também não pode ser reduzido a um sistema moral válido para o tempo todo ou como “um guia para fazer o bem”, pois penetra uma esfera que transcende todo o dualismo e está estabelecida em uma ética que sai do entendimento mais profundo e da visão interior.  

Assim, poderíamos dizer que o Buda-Dharma é, como experiência e como caminho para a realização prática, uma religião; como a formulação intelectual dessa experiência, uma filosofia, e como resultado da análise sistemática, uma psicologia. Quem trilha esse caminho adquire uma norma de comportamento que não vem por imposição externa, mas é resultante de um processo de amadurecimento interior que podemos observar de fora, chamar de moralidade. Mas essa moralidade no Budismo não é tanto o ponto de partida – como em muitas outras religiões – quanto o resultado de uma experiência religiosa que produziu tal mudança decisiva em nosso ponto de vista que começamos a ver o mundo com novos olhos.  

Por essa razão, Buda não colocou no início da Nobre Senda Óctupla uma mudança em nosso modo de vida e comportamento, mas a visão controlada de mundo em nós e com relação a nós mesmos; pois só assim conseguimos conquistar um insight sem preconceitos sobre natureza da existência e das coisas, e então, através da mudança em nosso ponto de vista, atingir uma reorientação completa para a nossa luta. Esse modo de observar as coisas é chamado em páli samma ditthi, que os indologistas sempre traduzem como “visão correta ou “opinião”.  

Mas samma ditthi significa mais do que um mero acordo com algumas idéias morais ou dogmáticas preconcebidas. É uma maneira de ver que ultrapassa os pares de opostos dualisticamente concebidos, de um ponto de vista unilateral, condicionado pelo ego. Samma significa o que é perfeito, inteiro, isto é, nem dividido nem unilateral; alguma coisa de fato, completamente adequada a todos os níveis de consciência.  

Aquele que desenvolveu o samma ditthi é, portanto, uma pessoa que não olha as coisas de forma parcial, mas as vê de forma equilibrada e sem preconceitos, e que em objetivos, atos e palavras é capaz de enxergar e respeitar o ponto de vista dos outros tanto como o seu próprio. Pois Buda estava bem consciente da relatividade de todas as formulações conceituais. Não estava, portanto, preocupado em divulgar uma verdade abstrata, mas em apresentar um método que desse capacidade às pessoas para chegar à visão da verdade, isto é, experimentar a realidade. Assim, ele não apresentou uma nova fé, mas tentou libertar o pensamento das pessoas dos princípios dogmáticos de forma a possibilitar uma visão da realidade livre de preconceitos.  

Está bem claro que ele foi o primeiro entre os grandes líderes religiosos e pensadores da humanidade a descobrir que o que importa não é tanto os resultados finais padronizados, isto é, nosso conhecimento conceitual em forma de idéias, confissões religiosas e “verdades eternas”, ou na forma de “fatos científicos” e fórmulas, mas o que leva a esse conhecimento, o método de pensamento e ação. A adoção dos resultados do pensamento das outras pessoas – ou até mesmo dos chamados “fatos simples”, quando isso é feito sem senso crítico, geralmente é mais um obstáculo do que vantagem, porque coloca um bloqueio à experiência direta e por isso pode se tornar um perigo. Dessa forma, uma educação que consiste inteiramente de um acúmulo conhecimentos e padrões de pensamento já prontos leva à esterilidade espiritual. O conhecimento e a fé que perderam sua ligação com a vida se transformam em ignorância e superstição. O mais importante e o mais essencial é a capacidade para a concentração e para o pensamento criativo. Em vez de ter como objetivo a erudição, deveríamos preservar a capacidade para o aprendizado em si, e assim manter a mente aberta e receptiva.  

Por outro lado, Buda jamais negou a importância do pensamento e da lógica; designou o lugar que ocupam e mostrou a seus discípulos a sua relatividade: a ligação insolúvel pela qual o pensamento e a lógica se encerram em um único sistema de interdependência e condicionalidade mútuas.  

Há uma admissão tácita de que o mundo que construímos com o nosso pensamento é idêntico ao mundo de nossa experiência, na verdade ao mundo “tal como é”. Mas, essa é uma das fontes principais de nossa visão errônea daquilo que chamamos de “mundo”. O mundo que experimentamos na verdade inclui o mundo dos nossos pensamentos, mas esse mundo nunca pode compreender totalmente aquele que experimentamos, porque vivemos simultaneamente em várias dimensões, das quais o intelecto (ou acapacidade para o pensamento discursivo) é apenas uma delas.  

Buda não procurava discípulos cegos que seguissem suas instruções mecanicamente, sem entender suas razões ou necessidades. Para ele, o valor da ação humana não está no efeito aparente, mas no motivo, na atitude dessa consciência da qual surgiu. Queria que seus discípulos o seguissem por causa de seu próprio insight na realidade acentuada pelo ensinamento, e não da simples fé na superioridade de sua sabedoria ou de sua pessoa. A única fé que esperava de seus alunos era a fé em seus próprios poderes interiores.  

O que o mestre suscitou, portanto não foi a ênfase em um racionalismo frio, unilateral, mas a cooperação harmoniosa de todos os poderes da psique humana, entre os quais a razão é o princípio da discriminação e do direcionamento.  

O ensinamento do Buda começa com a apresentação das Quatro Nobres Verdades. Mas, devido aos limites estreitos da consciência individual, seu significado não pode ser percebido de forma completa quando se está iniciando no Caminho. Se fôssemos capazes de atingir isso, conquistaríamos a liberdade imediatamente e os passos seguintes seriam desnecessários. Mas o simples fato do sofrimento e suas causas imediatas é algo que podemos experimentar em todas as fases da vida, de forma que um simples processo de observação e análise da experiência de uma pessoa, ainda que limitado, é suficiente para convencer um ser pensante de que a tese do Buda é razoável e aceitável.  

Da mesma forma, se o indivíduo inicia seu caminho exigindo a “visão perfeita”, isso não significa a aceitação de um dogma em particular estabelecido para todo o tempo, ou de alguma crença ou artigo de fé, mas o insight imparcial e sem preconceitos na natureza das coisas e de todas as ocorrências exatamente como são 

Samma ditthi, então, não é uma simples aceitação de algumas idéias religiosas ou morais preconcebidas. Significa uma maneira cada vez mais perfeita e nunca unilateral de ver as coisas. Portanto, não é verdade que tantos problemas do mundo vêm principalmente do fato de todos verem as coisas a partir de seu próprio ponto de observação? Não deveríamos, em vez de nos trancarmos a tudo que seja desagradável e doloroso, encarar o fato do sofrimento e descobrir suas causas, fato este que está em nós e que conseqüentemente só por nós pode ser superado?  

Se prosseguirmos dessa maneira, manifesta-se dentro de nós a consciência do objetivo grandioso, o objetivo do esclarecimento e da libertação, e também do caminho que leva a sua realização. Samma ditthi é assim o experimentar, e não apenas a aceitação intelectual das Quatro Nobres Verdades proclamadas por Buda. Somente a partir de tal atitude é que a decisão perfeita que abrange toda a humanidade pode surgir, o que exige o compromisso da pessoa como um todo no pensamento, na palavra e na vontade, o que levará, através da interiorização e penetração, à perfeita iluminação.  

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-meditacao-da-introspeccao-vipassana-bhavana/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-meditacao-da-introspeccao-vipassana-bhavana/

A Vontade em Thelema: Aspectos positivos e negativos

A base de Thelema é a Vontade (que, em grego, é exatamente “Thelema”). Os mandamentos “Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei” (Liber AL I: 40) e “Não existe lei além de ‘Faze o que tu queres’” (Liber AL III: 60) são muitas vezes distinguíveis do frequentemente mal compreendido e mal traduzido “Faça o que quiser”. Por que “Faze o que você tu queres” é diferente de “Faça o que der na telha?”(NT da tradução: esse é um jogo com as palavras Will e want, a partir daqui será escrito como “que der na telha”) e seriam eles semelhantes em alguns aspectos? Sobre este ponto, podemos examinar os aspectos positivos e negativos de Thelema/Vontade, conquanto positivo signifique afirmar e negativo signifique negar.

O aspecto negativo de “Faça o que tu queres”

O aspecto negativo de “Faça o que tu queres” e de Thelema /Vontade em geral se refere a esses princípios e sugestões aos quais podemos responder com um “Não” ou negativamente. A ideia principal para a qual Thelema diz “Não” é para a ideia de uma moralidade absoluta, vinculativa e qualquer tipo de declaração moral. Nesse sentido, “Faze o que tu queres” é quase idêntico a “Faça o que der na telha”, porque ambos negam os pronunciamentos que se parecem com “Você poderia/deveria fazer isso ou aquilo” e [que] são irrelevantes para nossas preocupações. Isto é explicado sucintamente por Crowley quando [ele] afirma:

– “A fórmula desta lei é: Faze o que tu queres. Seu aspecto moral é bastante simples em teoria. Faze o que tu queres não significa Faça o que desejas, embora implique este grau de emancipação, que não é mais possível dizer a priori que uma determinada ação é ‘errada’. Cada homem tem o direito – e um direito absoluto – de realizar sua Verdadeira Vontade.” Aleister Crowley, “O Método de Thelema”

Aqui Crowley afirma que “Faze o que tu queres” implica o mesmo grau de emancipação de “Faça o que der na telha”, na medida em que “não é mais possível dizer a priori que uma determinada ação é ‘errada’”. É o cerne do “aspecto negativo” de Thelema/Vontade – que não se pode argumentar contra uma determinada ação como ruim, má, não útil, impura, etc. Crowley afirma também:

“Não há ‘padrões de Direito’. A ética é um disparate. Cada Estrela deve seguir em sua órbita. Ao inferno com o “Princípio moral”, não existe tal coisa; isso é uma ilusão de rebanho, e faz dos homens gado.” Aleister Crowley, A lei é para todos, II: 28

Novamente, “não há ‘padrões de Direito’” ou “errado e “cada Estrela deve seguir em sua órbita”. O fato de não haver padrões objetivos e externos nos permite com segurança fazermos a nossa Vontade. Mas isso nos leva ao “aspecto positivo” de Thelema/Vontade: Qual é a nossa Vontade? Qual é exatamente a nossa “órbita” particular como uma estrela no Corpo do Espaço Infinito?

O aspecto positivo de “Faze o que tu queres”

Na medida em que a moral e o dogma são um fardo sobre o livre exercício da própria Vontade individual e única, eles são restrições, e “a palavra do Pecado é Restrição” (Liber AL I: 41). A isso podemos acrescentar os “cães da Razão” com suas perguntas de “Porquê” e “Porque” dado que a Vontade é supra-racional e não para ser limitado por eles [questionamentos de razão]. Mais uma vez, a questão premente uma vez descartadas as correntes de restrição em suas muitas formas é “Qual é a minha Vontade?” Isto se refere ao aspecto da Vontade para o qual podemos dizer “Sim”…

O comando mais sucinto neste “aspecto positivo” é aquele antigo aforismo e comando para “Conhece-te a ti mesmo”. É aqui que “Faze o que tu queres” se separa e é superior à simples noção de “Faça o que der na telha” ou “Faça o que quiser”. A maioria das pessoas nem sabe o que eles realmente querem – sua Vontade real – e isso requer um intenso e contínuo processo de exploração e introspecção. Tradicionalmente, isso é feito pelos métodos de Magia e Yoga em Thelema. Isso nos permite não só controlar o nosso corpo e mente, mas também explorar as regiões ocultas e expandir ao máximo a compreensão de nós mesmos . Como Crowley diz no ensaio “On Thelema”: “O valor de qualquer ser é determinado pela quantidade e qualidade daquelas partes do universo que tenha descoberto e que, portanto, compõem sua esfera de experiência. Ele cresce estendendo essa experiência, ampliando, por assim dizer, essa esfera”. Portanto, devemos usar a Magia, o Yoga e quaisquer métodos que temos Vontade para explorarmos a nós mesmos e, assim, manifestar nossas Vontades mais plena, livre, pura e perfeitamente.

Com estas considerações tanto dos aspectos negativos quanto dos positivos de Thelema/Vontade, podemos entender a proclamação do Mestre Therion quando ele diz:

“A partir [destas considerações] deve ter ficado claro que “Faze o que tu queres” não significa “Faça o que você desejar”. Ela é a apoteose da Liberdade; mas é também o vínculo mais restrito possível. Faze o que tu queres — e então não faça nada mais. Não permita que nada te desvie daquela tarefa austera e santa. A Liberdade é absoluta para fazer a tua vontade; mas busque fazer qualquer outra coisa, e instantaneamente os obstáculos surgirão. Todo ato que não esteja dentro do curso definido daquela órbita é errático, um impedimento. Vontade não pode ser duas, mas só uma” – Aleister Crowley, Liber II:The Message of the Master Therion

Amor é a Lei Amor sob vontade

Link original: https://iao131.com/2010/07/14/the-positive-and-negative-aspects-of-the-will-in-thelema/

Tradução: Mago Implacável

Revisão: Maga Patalógica

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-vontade-em-thelema-aspectos-positivos-e-negativos