Atos de João

Atos de João faziam parte das obras usadas pelos maniqueus no fim do século IV. Há indícios de terem sido compostos em Edessa, no final do século II d.C., em conjunto com Atos de Pedro, Paulo, André e Tomé, por um autor de nome Leucius Charinus, que viveu na Síria e teria sido discípulo de João. O Texto obedece às linhas mestras do Gnosticismo, nele encontramos uma passagem de rara beleza, trata-se do Hino anterior à Paixão.

É interessante antes de ler esse texto que você pegue um exemplar da Bíblia cristã, em Mateus 26, comece a lendo os versículos 26, 27,28,29, ao iniciar a leitura do versículo 30, você notará a falta de referencias aos salmos cantados pelos apóstolos. Pois bem, Atos de João nos revela esta fabulosa canção.

Este escrito, que você verá a seguir, foi duplamente condenado, tanto pelo papa Leão I(440-461 d.C.) quanto pelo Concílio de Bispo de Nicéia (787 d.C.). Foi proibida sua reprodução e determinada sua destruição pelo fogo.

A tradução do evangelho de João foi baseada na Evangiles Apocryphes, páginas 157 à 179 de F.Amiort. E da obra de Mario Erbetta, in Gli Apocrifi del Nouvo Testamento.

 

 

EVANGELHO DE JOÃO

 Evangelho Cristão

 

(ver Bíblia; MATEUS, 26: versículos 26 a 29)

 

26 Enquanto comiam, tomou Jesus o pão e depois de pronunciar a benção, partiu-o e deu a Seus discípulos, dizendo: 27 “Tomai e comei: Isto é o Meu corpo”. Tomou em seguida um cálice em Suas mãos, deu graças e o entregou dizendo: “Bebei dele todos. 28 Porque este é Meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos para a remissão dos pecados. 29 Eu vos digo: Não beberei mais deste produto da videira até ao dia em que o hei-de beber de novo convosco no reino de Meu pai.

 

 

 


EVANGELHO GNÓSTICO DE JOÃO


Atos de João – Complemento de Mateus 26, versículos 29A até 30.

 

 

Antes que fosse preso pelo julgamento dos Judeus, O Mestre nos reuniu a todos e disse:

 

“Antes que eu seja entregues a eles, cantaremos um hino ao Pai e, em seguida, iremos ao encontro daquilo que nos espera”.

 

Ele pediu que nos déssemos as mãos em roda e colocando-se no meio, disse:”Respondei-me Amém.”

Começou, então a cantar um hino que dizia: “Gloria ao Pai”. E nós ao redor lhe respondíamos: “Amém”.

“Glória á Graça; glória ao Espírito; glória ao Santo; glória a sua glória”.- Amém.

“Nós o louvamos, ó Pai; nós lhe damos graças, ó Luz em que não habita as trevas”.- Amém.

“Agora direi porque damos graças:”

“Devo ser salvo e salvarei.” – Amém.

“Devo ser liberto e libertarei.”-Amém.

“Devo ser gerado e gerarei.”-Amém.

“Devo ouvir e serei ouvido.”-Amém.

“Devo ser lembrado e sempre lembrarei.”-Amém.

“Devo ser lavado e lavarei.”-Amém.

“A Graça dança em conjunto, eu devo tocar a flauta, dançai todos.”-Amém.

“O reino dos anjos cantam louvores conosco.”-Amém

“Ao universo pertence àquele que participa da dança.”-Amém.

“Quem participa da dança, não sabe o que vai acontecer.”-Amém.

“Devo ir mas vou ficar.”-Amém.

“Devo honrar e devo ser honrado.”-Amém.

“Não tenho morada mas estou em todas os lugares.”-Amém.

“Não tenho templo mas estou em todos os templos.”-Amém.

“Sou um espelho para aquele que me contempla.”-Amém.

“Sou uma porta para aquele que bate.”Amém.

“Sou um caminho para ti que passa.”Amém.

“Se seguires minha dança, compreendes o que falo, guarda silêncio sobre meus mistérios.”

“Tu, que participa da dança, compreende o que faço, pois a ti pertence esse sofrimento.!

“Tu não poderia de maneira alguma compreender o que sofre, se Eu não tivesse sido enviado como Logos do Pai.”

“Viste o que sofro, me viste sofrendo, e não ficaste insensível, mas sim profundamente perturbado.”

“Tu, que pela perturbação alcançaste a sabedoria, tens em mim um leito: repousa em mim.”

“Saberás quem sou quando Eu tiver partido. O que pareço ser agora, não sou. Tu verás quando vieres.”

“Se soubesse como sofrer, seria capaz de não sofrer mais. Aprende a sofrer e tornar-te-ás capaz de não mais sofrer.”

“O que não sabes, eu mesmo vou ensinar. Sou teu Deus. Quero andar no mesmo ritmo das almas santas. Aprende comigo a palavra da sabedoria.”

“Dize-me de novo: Glória ao Pai; glória ao Logo; glória ao Espírito Santo.

“Tu queres saber o que sou? Com a palavra revelei tudo, e não fui de modo algum revelado.”

“Compreende bem: Eu estarei aqui. Quando tiveres compreendido, diz: Glória ao Pai !”-Amém.

 

EVANGELHO CRISTÃO, MATEUS 26 versículo 30:

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As Colunas e a Porta

As colunas são evidentemente símbolos do eixo. Estão expressando a idéia de ascensão vertical que une a Terra e o Céu. Quando se tratam de duas colunas rematadas em sua parte superior por um arco ou cimbre, este último simboliza ao Céu, enquanto o retângulo que formam as colunas simboliza a Terra. A porta é também uma esquematização da estrutura completa do templo, especialmente visível nos pórticos das catedrais e mosteiros cristãos. Esse semicírculo do arco simbolizando o Céu se encontra no coro do altar ou abside, que é a projeção sobre o plano de base horizontal da cúpula ou abóbada. E o resto do templo, da porta ao altar, representa a Terra.

A porta (emoldurada pelas duas colunas), com sua dupla função de separar e comunicar dois espaços (o espaço profano do espaço sagrado), está em relação com os ritos de “trânsito” ou de “passagem”, ligados por sua vez com os mistérios da Iniciação, que constituem os mistérios da vida e da morte. Trata-se de um simbolismo primordial que se encontra, sob distintas formas, em todas as tradições.

As duas colunas são um símbolo da dupla corrente de energia cósmica, ativa-passiva, masculina-feminina, rigor e graça, que articula o processo da criação universal em todas suas manifestações. Traspassar o umbral do Templo-Cosmo é ser penetrado por esta dupla energia que convenientemente harmonizada nos conduzirá, através de uma viagem regenerativa e por etapas, à saída do mesmo por outra porta, desta vez pequena (a “porta estreita” do Evangelho, ou “olho da agulha” como se diz na tradição hindu), situada na “chave de abóbada”, e, portanto, na sumidade da cúpula. “Eu sou a Porta”, diz Jesus Cristo, “e quem por mim passa vai ao Pai”. A porta de entrada ao templo, e a que está simbolicamente na sumidade da cúpula, são respectivamente, e utilizando a simbologia da Antigüidade greco-latina, a “porta dos homens” e a ”porta dos deuses”, as duas portas zodiacais de Câncer e Capricórnio. Pela “porta dos homens”, há o nascimento ou a entrada no Cosmo; pela “porta dos deuses”, deixa-se ele, acessando à realidade supracósmica, além do Ser, não condicionada por nenhuma lei espaço-temporal, e da qual nada pode se dizer.

Por sua relação com a caverna iniciática, o templo é semelhante ao corpo da Grande Mãe, sob seu duplo aspecto telúrico e cósmico. As duas colunas são também as duas pernas da Mãe parturiente, em cuja matriz o neófito, que vem do mundo das “trevas profanas”, morre para sua condição anterior, renascendo na verdadeira Vida. Trata-se naturalmente de uma iluminação na esfera da alma, do nascimento do Homem Novo que habita em cada um de nós.

Pela Iniciação, o Cosmo, com todos seus mundos e planos, aparece como a autêntica casa ou morada do homem, na qual já não se sente estranho ou alheio, pois morreu para o velho homem, e se reintegrou ao pulsar do ritmo universal, do qual toma parte.

#hermetismo

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Fantasmas segundo a Bíblia

A crença nos fantasmas remonta a épocas muito recuadas porém foi o advento da escrita que produziu os documentos mais consistentes. A Bíblia se refere à conjuração de fantasmas no Livro dos Reis: Saul, primeiro rei de Israel, recorreu à bruxa de Endor, quando desejou consultar o espírito do profeta Samuel a respeito da conveniência de uma guerra:

“Por aqueles tempos, os filisteus mobilizaram suas tropas em um só exército para combater contra Israel… Samuel tinha falecido… E Saul expulsara da terra os necromantes, feiticeiros e adivinhos… Ao ver o acampamento dos filisteus, Saul inquietou-se e teve grande medo. E consultou o Senhor, o qual não lhe respondeu nem por sonhos, nem pelo urim*, nem pelos profetas. O rei disse a seus servos: “Procurai-me uma necromante para que eu a consulte” ─ Há uma em Endor”, responderam-lhe. Saul disfarçou-se, tomou outras vestes e pôs-se a caminho com dois homens.

Chegaram à noite na casa da mulher. Saul disse-lhe: “Predize-me o futuro, evocando um morto; faze-me vir aquele que eu te designar”… Disse-lhe então a mulher: “A quem evocarei?” ─ “Evoca-me Samuel”. E a mulher, tendo visto Samuel, soltou um grande grito… disse ela ao rei: “Tu és Saul!” E o rei: “Não temas! Que vês? ─ A mulher: “Vejo um deus que sobe à terra” ─ Qual é o seu aspecto?” ─ “É um ancião, envolto em um manto”. Saul compreendeu que era Samuel, e prostrou-se com o rosto por terra. Samuel disse ao rei: “Por quê me incomodaste, fazendo-me subir até aqui?” [BÍBLIA SAGRADA ─ Reis: Samuel I, 28]

* Urim e Tumim [do hebraico אורים ותמים luzes e perfeições] é o nome dado ao processo [pelo Urim e Tumim] e aos instrumentos de adivinhação utilizados pelos antigos israelitas para descobrir a vontade de Deus sobre determinado evento [WIKIPEDIA].

Como se vê, a evocação dos mortos na Antiguidade, foi condenada. Era a sessão espírita daqueles tempos. Ainda assim, o rei apelou para este expediente, sair disfarçado, sendo que ele mesmo havia proscrito seus praticantes. Note-se, também, que o fantasma não gostou de ser evocado, considerando-se incomodado e refere-se ao fato de “subir até aqui”, indicando que não veio do céu, mas de algum lugar abaixo da terra. Onde, afinal, estava o fantasma de Samuel? Meditemos…

por Ligia Cabús

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Ocultaria 2019

Evento de Ocultismo e Magia traz de volta a importância do Conhecimento.

No dia 20 de julho, no hotel Mercure Jardins, acontecerá a versão 2019 do evento OCULTARIA, que promete reunir grandes nomes do ocultismo e magia do Brasil para um dia de bate-papo e aprendizado. Nomes ilustres como Marcelo Del Debbio (maçom e autor de livros como a Enciclopédia de Mitologia, Kabbalah Hermética e organizador do Hermetic Kabbalah Tarot, trabalho que virou referência na área de hermetismo e simbolismo no tarot), Nino Denani (escritor, palestrante, youtuber e mago hermetista), Lord A.’., Projeto Xaoz, Colégio Platinorum e Conhecimentos da Humanidade se reunirão para palestrar no evento.

A ideia do OCULTARIA é desmistificar o “mundo mágico”, deixando a informação mais acessível ao grande público, incentivando em todos a necessidade da tão falada “busca pelo conhecimento”, que todos falam, mas na prática é bem restrita.

Uma preocupação muito grande dos organizadores do evento é justamente o aparente descaso da sociedade com relação a aquisição de conhecimento: a internet está cada vez mais cheia de pessoas opinando sobre assuntos que desconhecem e preferem desconhecer em vez de buscar ter uma informação íntegra. O OCULTARIA é um movimento de resistência à essa onda, feito por pessoas que estão em diversos níveis sociais e culturais, atuando de forma silenciosa.

O evento é organizado pela Ordem do Grande Oriente Místico.

» Para se inscrever no OCULTARIA, acesse ogom.org/ocultaria2019/

Mais informações:

Data: 20/07/2019

Local: Mercure Jardins – Alameda Itu, 1151 – Jardins, São Paulo – SP, 01421-001 Telefone: (11) 3089-7555

Palestrantes:

Marcelo Del Debbio – Kabbalah Hermética

Projeto XAOZ – As vertentes Mágicas da humanidade e o Caoísmo

Lord A – In viso noctis: Mistérios do vôo noturno e do sonho lúcido

Colégio Platinorum – A visão Aeônica e suas chaves sistemáticas

Conhecimentos da Humanidade – (a decidir)

Nino Denani – O Hermetismo no dia-a-dia: a Tábua Esmeralda como ferramenta de ataque e defesa.

Foto do OCULTARIA 2018:

#Ocultismo

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Anjos e Demônios

O Senhor dos Exércitos:

Nas mais antigas escrituras judaicas Iahweh, aparecia como criador e rei do universo. Tudo o que acontecia, tanto de bom como de ruim, era causado por ele. Em Isaías 45, 7, escrito no sexto século a.C., Deus diz: “Eu formo a luz e crio as trevas, asseguro o bem-estar e crio a desgraça: sim eu, Iahweh, faço tudo isto”. No Livro de Samuel, compilado no décimo século a.C., está escrito: “O Senhor tentou Samuel”. Mas no primeiro Livro de Crônicas (21,1), um texto bem posterior do Velho Testamento, é Satã quem tenta Davi para que desobedeça a Lei e seja alvo da ira de Deus. Segundo esta interpretação, o perigo passava a vir por meio de outros, e não mais através das mãos de Deus (apesar de que ainda sob as ordens dele). Por volta do segundo século a.C., os dois lados de Deus já não eram mais enfatizados nos mitos e nas histórias religiosas dos judeus. [Muitos séculos mais tarde, a primitiva idéia judaica de Iahweh voltava a ser expressada. Na Cabala medieval, dizia-se que Iahweh, que era tudo, também continha tudo – o bem e o mal. Sua mão direita dava a misericórdia, a esquerda, a destruição. Entretanto ele nunca deixou de ser o responsável pelo “mal”, ou melhor, pela “justiça”; afinal de contas não há muita diferença entre punir alguém pessoalmente ou enviar outro, sob ordens expressas, para fazer o mesmo.]

No Livro de Jó, Satã aparece como acusador e tentador do homem, mas ainda é visto como um súdito do Soberano do mundo. Ele apresenta-se diante da coorte celestial como um dos filhos de Deus, que age conforme as instruções do Senhor.

Também em textos apócrifos, midraxes, etc., o casal Samael e Lilith muitas vezes aparece como funcionários de Deus encarregados de testar a fé dos homens e punir aqueles que caírem em erro. No que diz respeito a pecados de natureza sexual, usualmente, as mulheres Lilith, Nahema, Igrat, etc. são quem testam e Samael quem pune. No mais, Lilith costuma punir pecadores matando seus filhos, portanto tirando-lhes a esperança de que sua descendência “será numerosa como as estrelas do céu”, “gerará reis” ou “governará sobre a terra”.

Anjos: Os Mensageiros de Deus

A versão grega das escrituras, conhecida como Septuaginta, traduziu a expressão hebraica “bene ha’ Elohim” por “aggelon theu”, o que acabou por dar no latim “Angelorum”. A palavra grega “ággelos” significa mensageiro, por isso a palavra Anjos passou do latim para as línguas deste derivadas trazendo mais acentuada a idéia de mensageiro do que qualquer outro aspecto da personalidade ‘angélica’, entretanto nos antigos escritos hebraicos, midraxes, etc. haviam “bene ha’ Elohim” para tudo. Por exemplo, haviam anjos para dirigir nações, cuidar do movimento dos astros, transmitir conhecimento aos profetas, guiar os estudantes da Mercabá através dos sete Hehalot, testar os homens através do ciúme, enviar pragas e morte aos infiéis, etc.

Mas também, tanto nas escrituras hebraicas e árabes quanto nas cristãs, aparecem anjos mensageiros (hebr. “Malachim”): Eles trazem mensagens importantes de Deus para os homens, como os avisos da destruição de Sodoma e Gomorra, do nascimento de Isaac (filho de Abraão e Sara), etc. – Para os cristãos a mensagem mais importante que um ser divino já trouxe está no evangelho de Lucas, no episódio em que Gabriel avisa a Maria que ela conceberia Jesus e, uma lenda árabe diz que foi também Gabriel quem teria ditado o Alcorão a Maomé.

Hierarquias Angélicas:

A Bíblia não dá uma descrição precisa a respeito da “hierarquia celeste” e os escritos hebreus conservados apresentam um material um tanto quanto desorganizado. Apesar disso, estudiosos cristãos esforçaram-se para descrever um quadro bem definido. (Podemos ver que estas descrições de autores cristãos foram bastante influenciadas pela filosofia platônica, aristotélica e textos gregos em geral, se afastando em muito do sentido original dos “bene ha’ Elohim”, principalmente nos comentários referentes aos demônios. Mas não é de todo inútil conhece-las devido à antigüidade dos textos e sua influência em autores posteriores).

Ficou mais ou menos estabelecido que os anjos (Angelorum) estariam organizados em hierarquias de sete ordens, de nove coros ou de três tríades. Dionísio, o Aeropagita, elaborou a respeito dos anjos a mais perfeita das teorias cristãs de seu tempo, mas foi São Tomas de Aquino que apresentou a tabela hierárquica atualmente mais aceita, simplesmente por conter o maior número de divisões de “cargos” entre todas as suas contemporâneas.

Santo Agostinho em sua época de pregação enfrentou um problema causado pela grande popularidade dos anjos: As pessoas estavam fazendo-lhes sacrifícios, orando, etc. e esta devoção aos anjos estava causando prejuízos à igreja. Por isso ele pregava ao público: «Sejam quais forem, por conseguinte, os bem aventurados imortais habitantes das mansões celestes, se não tem amor por nós, se não desejam nossa felicidade, não merecem nossa homenagem. Se nos amam, se querem nossa felicidade, querem sem dúvida que a recebamos da mesma fonte que eles»; «Legítimos habitantes das moradas celestes, os espíritos imortais, felizes pela posse do Criador, eternos por sua eternidade, fortes de sua verdade e santos por sua graça, tocados de compulsivo amor por nós, infelizes e mortais, e desejosos de partilhar conosco sua imortalidade e beatitude, não, querem que sacrifiquemos a eles, mas Àquele que sabem ser, como nós, o sacrifício [ou seja, Jesus Cristo]. Porque somos com eles uma só Cidade de Deus.»; «Quanto aos milagres, sejam quais forem, operados pelos anjos ou por qualquer outro modo, se se destinam a glorificar o culto da religião do verdadeiro Deus, princípio único da vida bem aventurada, devem ser atribuídos aos espíritos que nos amam com verdadeira, é preciso acreditar ser o próprio Deus quem neles e por eles opera.»; «… Aquele cuja palavra é espírito, inteligência, eternidade, palavra sem começo e sem fim, palavra ouvida em toda a pureza, não pelos ouvidos do corpo, mas do espírito, por intermédio de seus ministros, enviados que gozam de sua verdade imutável, no seio de eterna beatitude, palavra que lhes comunica de maneira inefável as ordens que devem transmitir à ordem aparente e sensível, ordens que executam sem demora e facilmente.»; «Assim, mostram-nos os anjos fiéis com que sincero amor nos amam; com efeito, não é à sua própria dominação que querem submeter-nos, mas ao poderio daquele que são felizes de contemplar, soberana beatitude a que desejam cheguemos também e de que não se apartam.» (De civitate Dei, X). – De qualquer forma, Santo Agostinho também não deixou a hierarquia angélica bem definida, anotando cerca de três tipos de “anjos” de forma que a fonte mais abalizada para a obtenção de uma angelologia cristã é Dionísio, mais conhecido como o Pseudo-Dionísio, o Areopagita. Seus tratados Gerarchia celeste, Gererchia ecclesiastica, Nomi divini e suas Epistole formaram um corpo que granjeou a estima de muitos, inclusive Gregório Magno, são Tomé, a Escolástica, Dante, Meister Eckhart e são João da Cruz. Seu texto Gerarchia celeste é o mais conhecido e apreciado da angelologia cristã. Nesse texto ele menciona: «Vejo que os Anjos também foram iniciados primeiro no Mistério Divino de Jesus e em Seu amor pelo homem e através deles o Dom desse conhecimento nos foi passado: pois o divino Gabriel anunciou a Zacarias, o sumo sacerdote, que o filho gerado pela Graça Divina, quando já desprovido de esperanças, seria um profeta de Jesus e manifestaria a união entre as naturezas humana e divina mediante a vontade da Boa Lei pela salvação do mundo; ele revelou a Maria que dela nasceria o Mistério Divino da inefável encarnação de Deus.» Dionísio estabeleceu que existem nove ordens celestes, subdividas em três ordens principais: A primeira é aquela que está sempre na presença de Deus e inclui os Tronos e suas legiões ‘com muitos olhos e muitas asas’ (os Querubins e os Serafins) A Segunda ordem inclui os Poderes, as Dominações e as Virtudes; a terceira os Anjos, os Arcanjos e as Potestades. Foi só com Dionísio e Tomás de Aquino que o número das hierarquias foi estabelecido e tornou-se praticamente definitiva nas obras posteriores de autores cristãos. São Tomás de Aquino faz uma longa descrição das hierarquias celestes na Suma contra os gêntios:

«Como as coisas corporais estão governadas pelas espirituais, segundo consta, e entre as corporais existe uma certa ordem, é mister que os corpos superiores sejam governados pelas substâncias intelectuais superiores, e os inferiores pelas inferiores. Além disso, porque quanto mais superior é uma substância, tanto mais universal é sua virtude. Logo, a virtude da substância intelectual é mais universal que a virtude corpórea; e por conseguinte, as substâncias intelectuais superiores possuem virtudes que não podem ser desempenhadas por virtude corporal alguma, e por isso não estão unidas a corpos; já que as inferiores possuem virtudes parciais e que podem ser desempenhadas por alguns instrumentos corporais, dessa forma, é preciso que estejam unidas aos corpos.

E como as substâncias intelectuais superiores tem uma virtude mais universal, por isso também estão mais perfeitamente dispostas por Deus, de maneira que conhecem com detalhe a finalidade da ordem que Deus lhes comunica. E esta manifestação da ordenação divida, realizada por Deus, chega inclusive às substâncias intelectuais mais inferiores, como confirma [a palavra] de Jó: “Inumeráveis são Seus servidores, e sobre qual deles não resplandece Sua luz?” (Jó 25:3). Não obstante, as inteligências inferiores não a recebem de maneira tão perfeita que possam conhecer com detalhe quanto hão de executar em vista do ordenado pela providência, mas somente em geral; pois, quanto mais inferiores são, menos conhecimento detalhado da ordem divina recebem ao serem iluminadas pela primeira vez; entretanto, o entendimento humano, que possui o último grau do conhecimento natural, só tem notícia de algumas coisas universalíssimas.

Assim, pois, as substâncias intelectuais superiores recebem imediatamente de Deus um conhecimento perfeito da ordem divina e, em conseqüência, o hão de comunicar às inferiores, tal como, segundo dissemos, o conhecimento universal do discípulo é aperfeiçoado pelo mestre, que conhece com detalhe. Por isso, Dionísio, falando das supremas substâncias intelectuais, que chama primeiras hierarquias, em outras palavras, sagrados principados, disse que não são santificadas por outras, mas que alcançam imediatamente e plenamente de Deus a santidade, e, enquanto cabe, são transportadas à contemplação da beleza imaterial e invisível e ao conhecimento dos motivos das obras divinas; e disse que por elas são doutrinadas as ordens subalternas de espíritos celestes. Segundo ele, as inteligências mais elevadas recebem do princípio mais alto a perfeição de seu conhecimento. […]»

«Assim, pois, aquelas inteligências que percebem imediatamente em Deus o conhecimento perfeito da ordem da divina providência estão dispostas numa certa hierarquia, porque os superiores e primeiros vêem a razão da ordem da providência – em si mesma – o último fim, que é a bondade divina; porém uns com maior clareza que outros. E estes se chamam Seraphim, i. e., ardentes ou incandescentes, porque o incêndio designa a intensidade do amor ou do desejo, que são duas tendências em relação ao fim. Por isso disse Dionísio que com este nome se designa sua rapidez ou eterno movimento em torno da divindade, fervente e flexível, e sua capacidade de influenciar os seres inferiores excitando-os a um sublime fervor à divindade.

Os segundos conhecem perfeitamente a razão da ordem da providência na imagem mesma de Deus. E se chamam Cherubim, que quer dizer plenitude da ciência, já que a ciência se aperfeiçoa pela forma cognoscível. Por isso disse Dionísio, que tal nome significa que são contempladores da primeira virtude operante da divina beleza.

Dessa forma, os terceiros contemplam a disposição das ordens divinas nelas mesmas. E se chamam Throni, porque trono significa o poder de julgar, segundo o dito: “Te sentas no trono e distribui justiça” (Salmos 9:5). Conforme isso, disse Dionísio que com este nome se declara que são portadores divinos e tomam parte familiarmente em todas as determinações divinas. […]

Por outra parte, entre os espíritos inferiores que para executar a ordem divina recebem das superiores um conhecimento perfeito é preciso estabelecer uma ordem. Pois os mais altos deles tem uma virtude mais universal do conhecimento; por isso conhecem a ordem da providência nos princípios e causas mais universais enquanto os inferiores o obtêm em causas mais particulares. […]

Também estas substâncias intelectuais (i. e. os anjos da Segunda hierarquia) hão de ter certa ordem. Porque, efetivamente a disposição universal da providência se distribui, em primeiro lugar, entre muitos executores. E isso se realiza pela ordem das Dominationum, pois é próprio dos senhores mandar o que hão de executar os outros. Por isso disse Dionísio que este nome (de) dominação designa certo senhorio que rejeita toda servidão e que é superior a toda submissão.

Em segundo lugar, a providência é distribuída e aplicada a vários efeitos pelo que age e executa. E isso se faz mediante a ordem das Virtutum [virtudes], cujo nome, segundo Dionísio, significa certo augusto poder aplicado à todas as obras divinas, que não abandona a nenhum movimento a sua própria debilidade. E isso demonstra que o princípio universal da atividade pertence à esta ordem. Segundo isso, parece que movimento dos corpos celestes, dos quais procedem, como de certas causas universais, os efeitos particulares da natureza, pertence à esta ordem. Por este motivo se chamam virtudes celestes no cap. 21 de S. Lucas, onde diz: “Se moveram as virtudes celestes”. Parece também que a execução das obras divinas que se realizam à margem da ordem natural pertence à esta classe de espíritos, porque tais obras são o que há de mais sublime nos mistérios divinos. Por esta razão diz S. Gregório que “se chamam virtudes aqueles espíritos que freqüentemente fazem coisas milagrosas” (Homil. 34). Por fim, se no cumprimento das ordens divinas há algo principal e universal, é conveniente que pertença à esta ordem.

Em terceiro lugar, a ordem universal da providência, estabelecida já nos efeitos, é preservada de toda confusão pela coerção exercida sobre aquilo que poderia perturbá-la. Coisa que corresponde à ordem das Potestatum [potestades]. Por isso disse Dionísio que o nome de potestade implica certa ordenação, bem disposta e sem confusão alguma acerca do estabelecimento por Deus. E por isso disse S. Gregório que corresponde a esta ordem o conter das forças opostas.

As últimas das substâncias intelectuais superiores são aquelas que conhecem divinamente a ordem da providência através das causas particulares, e são as imediatamente superiores às coisas humanas. Sobre elas Dionísio disse que esta terceira ordem de espíritos manda, por conseguinte, nas hierarquias humanas. E por coisas humanas se há de entender todas as naturezas inferiores e causas particulares que estão ordenadas ao homem e sujeitas a seu serviço.

Aqui também existe uma ordem. Pois nas coisas humanas existe certo bem comum, que é o bem da cidade ou dos cidadãos, e que, ao parecer, pertence a ordem dos Principatuum [principados]. Por isso, disse Dionísio que o nome de principados significa certa categoria de caráter sagrado. Conforme isso, Daniel fez menção de Miguel, príncipe dos judeus e príncipe dos persas e gregos (Dan. 10, 13-20). Segundo isso, a disposição dos reinos, a transmissão de poder de um povo a outro, deve pertencer ao ministério desta ordem. Inclusive a inspiração daqueles que são príncipes entre os homens com respeito a como hão de administrar seu governo, parece que corresponde à esta ordem.

Há, porém, outro bem humano que não é comum, mas individual, ainda que não se utilize em benefício próprio, mas em benefício de muitos: Como as coisas de fé, que todos e cada um hão de crer e observar; o culto divino, etc. E isto corresponde aos Archangelos [arcanjos], de quem disse S. Gregório que anunciam o maior; razão porque chamamos arcanjo a Gabriel, que anunciou a encarnação do Verbo à Virgem.

Há, também, certo bem humano que pertence a cada um em particular. E os bens desta classe correspondem à ordem dos Angelorum [anjos], que, segundo S. Gregório, anunciam as coisas pequenas; e por isso se chamam custódios dos homens, segundo o dizer do salmo: “Te encomendará a seus anjos para que te guardem em teus caminhos” (Sl. 90;11). Por isso, disse Dionísio que os arcanjos são intermediários entre os principados e os anjos, e tem como ambos algo em comum; dessa forma, com os principados, enquanto que são chefes dos anjos inferiores, (…) e com os anjos, porque anunciam aos anjos e, mediante estes – cujo ofício é manifestarem-se aos homens -, a nós o que lhes corresponde segundo a categoria. Por este motivo a última ordem se apropria do nome comum como especialmente seu, porque desempenha o ofício de anunciar aos homens sem intermediários. Daí que os arcanjos tem um nome composto pelos dois, pois se chamam arcanjos, i. e., príncipe dos anjos. (…)

Por último, em todas as virtudes ordenadas é comum que todas as inferiores obrem em virtude da superior. Segundo isso, o que dissemos que pertence à ordem dos serafins o executam as inferiores na virtude dos mesmos. E isso se aplica também às ordens seguintes.»

Tomás de Aquino fala sobre os anjos em outras partes de sua vasta obra, como por exemplo, nos seguintes trechos da Suma Teológica: «Nos anjos (lat. angelis) não pode haver outra virtude senão a intelectiva e a vontade, conseqüente ao intelecto, porque nisso consiste toda a virtude do mesmo. A alma [humana], porém, tem muitas outras potências; assim, as sensitivas e as nutritivas. E portanto, não há símile.»; «o intelecto angélico está sempre em ato em relação aos seus inteligíveis, por causa da proximidade com o intelecto primeiro, que é ato puro como antes se disse.»; «Há, porém, outra virtude cognoscitiva que nem é ato de órgão corpóreo, nem está, de qualquer modo, conjunta com a matéria corpórea, como o intelecto dos anjos. Por onde, o objeto desta virtude é a forma subsistente sem a matéria. Pois, embora conheçam os anjos as coisas materiais, só as vêem no imaterial a saber, em si mesmos ou em Deus»; «inversamente [aos homens], os anjos conhecem as coisas materiais pelos seres imateriais»; etc.

Satã, os olhos do Rei:

Depois do Cativeiro da Babilônia, a religião judaica, influenciada pela doutrina de Zoroastro do Bem e do Mal, e impregnada pelos conceitos religiosos mesopotâmicos, concebeu Satã, baseado num funcionário do sistema de governo mesopotâmico. A origem da palavra Satã é conhecida. Significa “o adversário”, “o acusador”. Sabemos que um funcionário com essas atribuições existia no Império Persa, em oposição a outro funcionário, chamado “Os olhos do rei”. O “acusador” ou os “acusadores”, tinham como função percorrerem secretamente o reino e fiscalizar tudo o que estava sendo feito de errado, para apresentar denúncias diante do Imperador, que mandava chamar os funcionários faltosos e os castigava. Pode-se perceber, facilmente, as conotações de medo, repulsa e verdadeiro pavor que os funcionários exerciam. No livro “Bases da Política Imperial dos Aquemênidas”, Pedro Freire Ribeiro refere-se, também, a verdadeiras expedições de fiscalização, acompanhadas de tropas, para arrecadar impostos e aplicar corretivos (pag. 66). Jeayne Auboyer, na “História Geral das Civilizações”, volume I, pg. 205, diz também, sobre este sistema: “mas apenas a correspondência não é sucifiente: o governo central envia, além disto, a fim de controlar a administração local, inspetores designados, por uma metáfora já corrente nas monarquias precedentes, como ‘os olhos e ouvidos do rei’”. Eis, portanto, a origem de Satã. Estamos diante de uma tradição calcada no sistema administrativo dos Mesopitâmicos e dos Persas. No livro de Jó, Satã aparece, claramente, como uma espécie de inspetor, que se apresenta depois de percorrer a terra junto com os outros anjos (ou “olhos do rei”), para apresentar seu relatório, sobre o que tinha visto.

Satã, em suma, é um “acusador” e este é um dos significados da palavra. Mas Satã não é, obviamente, um demônio. Ele apresenta-se em um concílio diante do Senhor, junto com os anjos e dialoga calmamente com Deus. Naturalmente, esta mesma idéia de Jó, tentado com todas as desgraças, não é originalmente, hebraica. Samuel Kramer em “A Mesopotâmia” (pg. 123), nos dá um resumo da lenda de Jó, na Babilônia: “Entre os mitos da Suméria, figura a história de um homem de nome desconhecido, que um dia se encontrou sozinho por motivos que não era capaz de compreender. Cercado de torturadores, ele é visto aqui no fundo do quadro numa súplica ao seu deus tutelar, que observa do alto. O homem lastima sua sorte, exclamando: “Minha palavra honrada transformou-se em mentira… uma doença maligna cobriu meu corpo… Deus meu… por quanto tempo me abandonarás, me deixarás sem proteção?” A história deste “Jó” sumeriano também tem um desfecho feliz, porque o deus lhe ouviu as preces e fez que as provações terminassem tão abruptamente como tinham começado. Mas as questões fundamentais do sofrimento humano e da justiça divina, formuladas pelos sumérios e ainda com maior pungência pelo seu descendente bíblico, ainda nos desafiam”. Apenas para finalizar o assunto da identificação com os funcionários conhecidos como “os olhos do rei”, vejamos esta passagem em Crônicas (16:9):

“Porque, quanto ao Senhor, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para aquele cujo coração é totalmente dele; nisto procede loucamente, por isso desde agora haverá guerra contra ti.” (Crônicas, 16:9)

Os seus olhos que passam por toda a terra (o império) são os funcionários que fiscalizam. No caso, alguém foi apanhado em flagrante delito pelos “olhos acusadores” de Satã. E o Rei lhe fará guerra ou perdão… Satã só aparece nos livros mais recentes da Bíblia. Começa no livro de Jó e depois surge em Zacarias e nas Crônicas. Se, no princípio é um acusador, a etimologia da palavra nos levaria, inclusive a “chatám”, isto é, “o adversário”, mais tarde vai tomando as formas de “o contraditor” ou “o acusador”. É uma espécie de procurador de Javé e trata de ver se seus “filhos” são realmente fiéis. Mas, não é só. Depois do cativeiro da Babilônia, Satã vai ganhando contornos cada vez maiores, até que se transforma num ser que induz ao pecado. Neste instante, já estamos entrando na chamada Era Cristã. (Para mais detalhes, veja Fernando G. Sampaio. A História do Demônio. Editora Garatuja. Porto Alegre. 1976.)

A história de Jó:

O autor do Prólogo de Jó, conservou neste relato em prosa seu cunho de narrativa popular onde Deus recebe ou dá audiência em dias determinados, como faz um monarca. Começa com uma introdução elogiando Jó, da terra de Hus, ao sul de Edom: Era um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se afastava do mal. Tinha sete filhos, três filhas e era o homem mais rico do Oriente, até que Satã, duvidando de sua honestidade, resolveu testa-lo:

«No dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar a Iahweh, entre eles veio também Satã. Iahweh então perguntou a Satã: “De onde vens?” – “Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo”, respondeu Satã. Iahweh disse a Satã: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal.” Satã respondeu a Iahweh: “É por nada que Jó teme a Deus? Porventura não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Abençoaste a obra das suas mãos e seus rebanhos cobrem toda a região. Mas estende tua mão e toca nos seus bens; eu te garanto que te lançará maldições em rosto.” Então Iahweh disse a Satã: “Pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não estendas tua mão contra ele.” E Satã saiu da presença de Iahweh.» (Jó: 6-12)

Logo os sabeus, uma tribo de nômades, “passaram os servos a fio de espada” e roubaram os rebanhos de Jó. No mesmo dia, em outro lugar, “um furacão se levantou das bandas do deserto e se lançou contra os quatro cantos da casa, que desabou sobre os jovens [filhos de Jó] e os matou.” (Jó 1: 19) O Targum, Jó 1:15 acrescenta ainda que:

«Lilith, a Rainha de Zemargad, lanchou, atacou, agarrou [as canções de Jó] e matou o jovem homem…» (Targum, Jó 1:15)

Apesar de toda esta desgraça repentina, Jó conformou-se, não cometeu pecado nem protestou contra Iahweh. Entretanto, o pessimista Satã não ficou totalmente convencido da fidelidade de Jó e continuou a duvidar de sua integridade:

«Num outro dia em que os Filhos de Deus vieram se apresentar novamente a Iahweh, entre eles, para apresentar-se diante de Iahewh veio também Satã. Iahweh perguntou a Satã: “De onde vens?” Ele respondeu a Iahweh: “Venho de dar uma volta pela terra, andando a esmo”. Iahweh disse a Satã: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal. Ele persevera em sua integridade, e foi por nada que me instigaste contra ele para aniquilá-lo.” Satã respondeu a Iahweh e disse: “Pele após pele! Para salvar a vida, o homem dá tudo o que possui. Mas estende a mão sobre ele, fere-o na carne e nos ossos; eu te garanto que te lançará maldições em rosto”. “Seja!”, disse Iahweh a Satã: “fase o que quiseres com ele, mas poupa-lhe a vida.” E Satã saiu da presença de Iahweh.» (Jó: 6-12)

Satã feriu Jó com chagas malignas dos pés à cabeça. Contudo, ele não maldisse a Deus. A partir daí história continua em forma de discursos e só retoma o formato de prosa no Epílogo (Jó 42). No primeiro ciclo de discursos, Jó amaldiçoou a noite de seu nascimento:

«Que a amaldiçoem os que amaldiçoam o dia,
Os entendidos em conjurar Leviatã!» (Jó 3:8)

Passado um tempo, Jó, abatido com sua miséria, fala:

«Levo cravadas as flechas de Shaddai
e sinto absorver seu veneno.
Os terrores de Deus assediam-me.» (Jó 6:4)

Mais tarde, finalmente Satã consegue seu intento. Jó revolta-se e entra em debates com três sábios, a respeito de sua condição. Por fim, ele lamenta-se de não poder ele mesmo ir até Deus defender sua causa, entretanto Deus vem até ele e mostra seu poder. Jó responde:

«Reconheço que tudo podes
e que nenhum dos teus desígnios fica frustrado.
Sou aquele que denegriu teus desígnios,
Com palavras sem sentido.» (Jó 42:2-3)

Por fim, Jó arrepende-se e faz penitência, Iahweh repreende os três sábios porque “não falastes corretamente de mim como o fez meu servo Jó” (Jó 42:7) e recompensou Jó, duplicando todas as suas posses, que teve também outros sete filhos e três filhas em substituição dos que morreram. Suas novas filhas Rola, Cássia e Azeviche foram as mais belas mulheres de toda a terra e seu pai repartiu-lhes herança em igualdade com seus irmãos [o que é fora da regra corrente, pois as filhas só herdavam em último caso, na falta de filhos varões]. Depois desses acontecimentos, Jó viveu cento e quarenta anos, e viu seus filhos e netos até a quarta geração. Jó morreu “velho e cheio de dias”. (Jó 42)

Por Shirley Massapust

Alimente sua alma com m

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/anjos-e-demonios/

Referências Ocultistas em Promethea

O Alan Moore é um gênio. E Promethea é uma de suas obras primas, com referências muito mais complexas do que Watchmen ou mesmo a Liga Extraordinária.

Recentemente, comentei sobre uma sequencia de páginas de Promethea referentes a Daath e o pessoal me pediu para escrever sobre toda a série. Nesta série de posts, que começará no Sedentário e continuará no Teoria da Conspiração, tentarei comentar sobre as referências ocultistas que ele utilizou enquanto escrevia Promethea.

Não será um trabalho simples. Ao longo de 32 edições (que por si só já foi uma escolha pensada, visto que a Árvore da Vida possui 32 Paths (entre 10 Esferas e 22 Caminhos) que relacionam praticamente todos os Sistemas magísticos e filosóficos que existem.
A primeira HQ, “The Radiant Heavenly City”, traz na capa Promethea desenhada por ninguém menos do que Alex Ross, em um estilo egipcio, mas a própria capa já traz dentro de si algumas surpresas e referências:

O Nome “The Radiant Heavenly City” é uma referência bíblica; Apocalipse 22,14 “Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na Cidade Celestial pelas portas.”. A Cidade Celestial mencionada é o Paraíso que os crentes pensam que é de verdade e os ateus pensam que é de mentira mas, na realidade, é apenas simbólica para representar Kether, o Universo e a origem de todas as idéias. A Árvore da Vida é uma estrutura simbólica que representa todos os níveis de consciência humanos, de Malkuth (a pedra bruta) a Kether (o todo).

“Se Ela não existisse, nós teríamos de inventá-la” é uma referência ao maçon Voltaire, que disse “Se deus não existisse, nós teríamos de inventá-lo“.

E finalmente, o conjunto de imagens à direita de Promethea não são apenas desenhos aleatórios: são hieróglifos egipcios e símbolos esotéricos que contam uma história: O Sol (que acompanha Promethea durante sua jornada – o iniciado, iluminado); Ibis (que representa o Pai); O Por do Sol (que representa o fim de um período ou era); o Labirinto (que representa a jornada); O capacete (representando as muralhas de tróia, o conflito e a guerra); As águas e o olho (o despertar da consciência e a pesquisa – a protagonista entra na Jornada do Herói fazendo uma pesquisa a respeito de Promethea); os dois ankhs (herança – promethea é filha do sábio que morre no início da HQ), o escaravelho (renascimento de Promethea) e o Alef (o Começo)… em resumo para quem não leu: Alan Moore conta a história da primeira HQ em hieroglifos!

No Lado esquerdo, os hieroglifos representam as águas (consciência, emoções), a serpente e os dois lados da árvore da Vida (A via úmida e a via Seca dos alquimistas), a pena de Maat queimada (a incompletude), o abismo (a separação entre o reino material e o das idéias) a Lira e louros (representando a poesia e poetas), o Ankh (o domínio da árvore, a própria Promethea) e finalmente Hórus, filho do Sol. Novamente, para quem não leu, spoilers: Alan Moore explica que a idéia de Promethea e a escalada até a iluminação não pode ser destruída, permanecendo dormente até cruzar novamente o abismo através da poesia (ou textos).

O caduceu e as duas vias de subida na Árvore da Vida são representadas no bastão que Promethea segura. A palavra “Promethea” vem de Prometeus, o titã que roubou o fogo dos deuses para trazer aos mortais e, por causa, disso foi punido e condenado a permanecer acorrentado a uma rocha pela eternidade, com uma águia comendo seu fígado, que renascia a cada novo dia. Tal qual os símbolos, cujos significados atravessam o tempo e as culturas.

e acabamos a CAPA… faltam 32 paginas. Agora vocês têm uma idéia do porquê o Alan Moore é foda!

Alexandria 411 DC – Ano em que Santo Agostinho faz o discurso sobre “A imutabilidade de Deus é percebida através da mutabilidade de suas criações”. O mesmo tema de Promethea, já que estamos falando de idéias e formas mutáveis. Voce pode conferir este discurso no site do Vaticano. Obviamente a escolha da data não é uma coincidência.

O pai de Promethea está terminando traduções do egipcio para o grego (note as estátuas de Hermes e Toth sobre a mesa, representando o mesmo deus na cultura grega e egípcia) quando é abordado pelos fanáticos cristãos malucos. Ele possui o dom da profecia, não apenas avisando Promethea sobre seu reencontro (que só vai acontecer lá pela edição 19) mas também falando as frases dos cristãos antes deles próprios, demonstrando que já sabia seu destino e o aceitava (se ele previa o futuro, poderia ter fugido, mas não o fez, e estava sorrindo quando o mataram). Note as imagens do Sol nos cantos dos quadrinhos, desenhados como se estivesse pondo. A partir do começo da história, o Sol é retratado de uma forma moderna, mas DE OLHOS FECHADOS no presente, até o final do capítulo, quando o sol moderno abre os olhos ao renascimento de Promethea.

Na página 20-21, Promethea conversa pela primeira vez com Toth-Hermes. Ambos conversam com ela como se fossem uma única pessoa e explicam o que Moore chamou de Immateria, ou o que os cabalistas conhecem como Ruach, o Mundo das Idéias e Emoções. Ali, todas as histórias possuem vida e podem acessar nosso mundo de tempos em tempos. Carl Jung chamou este estado de consciência de Inconsciente Coletivo e Richard Dawkins chamou estas “idéias vivas” de Memeplexes.

Na página 22 é mostrado um Centauro como sendo o tutor de Promethea. Centauros são construções imagéticas que representam o signo de Sagitário. Sagitário, ou Fogo Mutável, é a essência espiritual/filosófica manifestada no estado mental; é o processo de síntese: de reunir várias teorias e configurá-las em uma tese, como uma espiral.
No arquétipo grego, este período de tempo no qual estas energias estavam mais manifestas coincidia com a fase próxima ao inverno, quando eram valorizados os caçadores e os cavalos (a caça era necessária para obter carne e peles para o inverno e o cavalo para percorrer estas distâncias), daí a fusão de cavalo + cavaleiro em uma única figura, que absorvia o arquétipo de acadêmico e se tornava Quíron, o professor de Herakles (o Sol, filho de Deus com uma humana, Jesus, o Iniciado).

Na última página, uma referência o Arcano do Mundo, do tarot. Moore coloca como símbolos dos quatro elementos o Escaravelho (Terra), os Louros (Fogo), o pássaro/Toth (Água) e o Homem/Hermes (Ar).
Esta representação iconográfica acaba confundindo um pouco os iniciantes, porque aparentemente o pássaro deveria representar o Ar, mas a razão para isso é astronômica. Quando os primeiros zodíacos foram criados na Babilônia, o posicionamento das constelações no céu era diferente do que está ai hoje e a que ocupava o correspondente às emoções era a Constelação de Aquila (daí a imagem da Águia Dourada estar associada à Coragem) e o Ar é a constelação de Aquadeiro (era representado por um homem carregando uma jarra de água, o que causa confusão nos esquisotéricos com o nome Aquário e a correlação com o elemento AR). Constelações e os Signos nunca tiveram nada a ver um com o outro, ao contrário do que a Veja e os leigos astrônomos afirmaram recentemente.

#AlanMoore

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/refer%C3%AAncias-ocultistas-em-promethea

Magia na corte da Rainha Elizabeth

O presente estudo é destinado a estudantes aos adeptos do chamado Sistema Enoquiano de Magia e aos pesquisadores da história do ocultismo em geral. Faz-se aqui um apanhado da corte Elizabetâna e sobre como o ocultismo floresceu durante o reinado da Rainha Virgem. O mérito da biografia aprofundade de John Dee e Edward Kelley será deixado para uma outra oportunidade visto que a compreensão do background histórico onde atuaram trata-se de um conhecimento mais básico e necessário num primeiro momento.

A Dinastia Tudor

O Rei Henrique VIII, como todo rei, desejava um filho homem para se tornar o herdeiro do trono da Inglaterra. A então Rainha Catherine de Aragão, que havia lhe dado uma filha, Mary, foi substituída por Anne Boleyn na esperança de com ela conseguir o filho que Catherine não lhe deu, mas em setembro de 1533, no Palácio Greenwich suas esperanças vão por água a baixo: nasce sua segunda filha, Elizabeth. Anne chegou a ter um filho homem, mas natimorto. Henrique, cansado já da rainha, começou a planejar sua queda e em 1536, antes de Elizabeth completar três anos de idade, a rainha, acusada de incesto, é decapitada.

Por ser uma lembrança constante da mãe, Elizabeth é afastada da corte. Henrique se casa novamente com Jane Seymour que dá a luz ao tão esperado filho, Edward (que viria a se tornar Edward VI), morrendo logo depois.

A última madrasta de Elizabeth foi Katherine Parr, a sexta esposa de Henrique VIII, foi a responsável por trazer de volta à corte inglesa Elizabeth e sua meio-irmã Mary. Henrique morre em 1547 mas seu filho Edward ainda era muito jovem para assumir a coroa, então Edward Seymor (irmão da Rainha e tio do jovem herdeiro) se torna Senhor Protetor da Inglaterra. A Rainha Katherine estava grávida de seu novo marido, Lorde Almirante Thomas Seymor, e morreu um tempo depois de dar a luz a uma filha.

O jovem Edward nunca foi uma criança saudável e caiu vítima de uma doença desconhecida na época, que hoje se supõe ter sido tuberculose. Quando se tornou aparente que Edward estava prestes a morrer sem deixar um herdeiro, a luta pela coroa teve início.

Quando Edward morreu em 1553 Jane foi proclamada Rainha por seu pai e por seu sogro que a apoiaram com a ajuda do exércio; entretanto haviam muitos outros que apoiavam Mary, a filha de henrique VIII e Katherine de Aragão sua primeira esposa, e desejavam que ela subisse ao trono. Nove dias após a posse da Rainha Jane, Mary foi para Londres levando Elizabeth com ela. Jane Grey e seu marido foram aprisionados na Torre.

Logo após se tornar Rainha, Mary se casou com o príncipe Felipe da Espanha, o que a tornou muito impopular. Mary era católica e todos os Protestantes que começaram a ser perseguidos começaram a enxergar em Elizabeth sua salvadora. Ela era um ícone da “Nova Fé”, já que foi para se casar com sua mãe que Henrique enfrentou Roma e transformou o Protestantismo na religião oficial do reino. Por causa disso inúmeras rebeliões e levantes foram realizados em nome de Elizabeth.

A Rainha Mary morreu em novembro de 1558, acredita-se hoje, por causa de um enorme cisto no ovário. Elizabeth finalmente se tornou rainha da Inglaterra.

Elizabeth nunca se casou. Os últimos anos de seu reinado ficaram conhecidos como a Era de Ouro da Inglaterra. Após sua morte em março de 1603 foi sucedida por James I (James VI da Escócia), o filho de sua prima Mary, Rainha da Escócia.

A Igreja da Inglaterra Elisabetana

Antes de Henrique VIII se desentender com o Papa e estabelecer a Igreja da Inglaterra, o seu país foi durante séculos um país Católico. O próprio Henrique VIII, antes de enfrentar Roma para anular seu primeiro casamento, era um fiel Católico e ganhou o título de “Defensor da Fé” após escrever um tratado contra a nova religião protestante.

Quando ficou claro para o Rei que ele não teria um filho com Catherine de Aragão ele decidiu que anularia seu casamento com ela e arranjaria outra esposa. Catherine não concordou com a anulação dizendo que era esposa legítima do Rei, na época existiam poucos recursos para terminar um casamento, a anulação era o reconhecimento de que nem o Rei nem a Rainha haviam sido realmente casados, as únicas circunstâncias que permitiam a anulação eram: se um ou ambos os cônjuges tivessem sido muito jovens para se casar ou que a cerimonia não houvesse sido conduzida corretamente ou ainda se o casal tivesse laços sanguineos.

Henrique usou o fato de Catherine ter sido esposa de seu irmão para fazer uma apelação para o Papa com base na relação sanguínea de ambos mas não obteve a resposta que desejava. Catherine era a sobrinha do grande Imperador Charles V, o homem mais influente da Europa, e sabendo das convicções dela o Papa não ousou ofendê-la. Durante anos Henrique tentou conseguir a anulação, mas o Papa foi irredutível, o Rei decidiu então que para se casar novamente com outra mulher ele teria que buscar outra maneira de anular o casamento, e essa maneira foi o estabelecimento da Igreja da Inglaterra, totalmente independente do poder Papal. Como Protestantes não reconheciam o poder do Papa, Henrique, como Rei, poderia moldar a igreja de acordo com sua vontade. Ele se tornou “Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra” e assim conseguiu anular seu casamento.

Como chefe da Igreja ele se tornou responsável pelos Arquebispos, Bispos e todo clérigo que a Igreja da Inglaterra ainda possuía. Por um lado a nova Igreja Inglesa era muito similar à velha Igreja Católica, por ter sido criado como Católico realizou muito poucas mudanças nas crenças religiosas; mas por outro lado a mudança da religião na Inglaterra causou enormes repercussões através do país.

O filho tão esperado de Henrique VIII morreu com 16 anos deixando o trono para sua filha mais velha, Mary. Mary era uma Católica devota e estava determinada a reestabelecer a sua fé na Inglaterra.

Muitas pessoas estavam desconfortáveis com os planos da nova Rainha, tendo ganho riquezas e terras com as dissoluções de conventos e monastérios temiam perder tudo o que tinham. Também a fé Protestante havia secularizado certos aspectos da política local e os oficiais não tinham nenhum interesse em perder sua influência e prestígio para a Igreja Romana. Entretanto a maior parte da população inglesa ainda era Católica e havia muito entusiasmo na restauração de sua antiga fé.

Teve então início a perseguição aos Protestantes. Mary substituiu o clero Protestante por um Católico, prendendo vários Protestantes proeminentes como Cranmer, Latimer e Ridley. O Parlamento de 1553 repugnou a maior parte das legislações Protestantes, o Ato de Supremacia de 1554 devolveu o país à obediência Papal. Em 1555 aqueles que se recusavam a aderir ao Catolicismo eram queimados como hereges, mais de 300 pessoas foram queimadas entre 1555 e 1558. Nesta época Mary de tornou uma figura extremamente impopular, muitas pessoas se horrorizavam com a violência da perseguição, ninguém era poupado, mulheres grávidas eram queimadas até a morte, enquanto Elizabeth foi se tornando cada vez mais admirada, como mostra um poema dedicado a ela:

“When these with violence were burnt to death,
We prayed to God for our Elizabeth””Quando violentamente eram queimados até a morte,
Nós rezávamos para Deus por nossa elizabeth”

Quando Elizabeth se tornou Rainha em novembro de 1558 todos achavam que ela fosse restaurar a fé Protestante na Inglaterra, a perseguição feita por Mary havia maculado o Catolicismo existente no país e a população Protestante crescia a cada dia. Mesmo tendo aderido à fé Católica durante o reinado de sua irmã, Elizabeth teve uma criação Protestante e se mostrou incrivelmente tolerante dizendo que acreditava que tanto os Católicos quanto os Protestantes faziam parte da mesma fé: “Existe apenas um Cristo, Jesus, uma fé.” Durante seu reinado sua principal preocupação foi a de manter a paz e a estabilidade do reino e perseguição só era usada quando certos grupos religiosos ameaçavam essa paz. Elizabeth desejava uma igreja que tivesse apelo para ambos os grupos e não tinha planos de tornar a igreja mais ou menos Protestante desfavorecendo um grupo ou outro, ela queria uma igreja popular e se o Catolicismo fosse se extinguir na Inglaterra que fosse de forma natural conforme o povo fosse se convertendo.

Elizabeth tinha capelas particulares em quase todos os seus palácios e rezava nelas todos os dias, em sua visão ela era o veículo de Deus na terra e rezava para que a Vontade Divina se revelasse para que pudesse levá-la a diante.

Não existem evidências concretas de suas crenças pessoais mas podemos observar alguns detalhes em suas atitudes e gestos: suas capelas eram conservadoras, todas possuíam crucifixos, ela também gostava de velas e música. Ela não gostava dos longos sermões Protestantes assim como não gostava de vários rituais Católicos como a comunhão, o que mostrava que ela rejeitava a crença Católica da transubstanciação. Ela também não aprovava o casamento dentro do clero, um aspecto integral do protestantismo. Uma indicação mais pessoal de suas crenças podem ser encontradas nas orações que escrevia para o povo e nas cartas que escrevia para amigos e conhecidos, nessas cartas era comum se referir a Deus e à necessidade de aceitar Sua Vontade.

Após sua morte em 1603 a Inglaterra era um pais de maioria dominante Protestante, os Católicos se tonaram a grande minoria.

A Ciência e a Magia Elizabetâna

A Rainha Elizabeth herdou um reino despedaçado: discordância entre Católicos e Protestantes abalavam as bases da sociedade, o tesouro real, graças à Rainha Mary e a seus conselheiros, havia sido gasto completamente, Mary ainda contribuiu para a falência da Inglaterra com a perda de Calais, o último território Inglês no continente. Além do descontentamento por parte do povo (principalmente os Católicos) havia problemas envolvendo a Europa. A França possuia um controle forte na Escócia e a Espanha, a mais forte nação da época, era uma ameaça para a segurança inglesa. Mas a nova Rainha provou ser mestre nas ciências políticas, empregando homens capazes e distintos para levar adiante as prerrogativas reais.

O Reinado Elizabetano foi um dos períodos mais construtivos na história da Inglaterra. A literatura florescia através dos trabalhos de Spenser, Marlowe e Shakespeare. A influência inglesa se espalhou pelo Novo Mundo através de Francis Drake e Walter Raleigh.

Antes do século XVII, que estabeleceu a visão científica moderna do mundo, a relação entre magia e ciência era muito diferente da que temos hoje, elas se complementavam e nem sempre era possível dizer onde uma terminava e a outra começava. Astrologia e Alquimia eram disciplinas muito respeitadas, e a Rainha Elizabeth possuia ocultistas iniciados entre seus conselheiros, ela havia sido avisada da data de sua coroação por astrólogos e seu respeito pela arte era tamanho que chegava a impedir que navios partissem dos portos até que as influências astrológicas fossem favoráveis.

Mantendo em mente que a palavra ciência, que significa literalmente conhecimento só começou a ser usada popularmente como nós a conhecemos após o século XIX. Na época existia a divisão entre magia e a filosofia natural, a magia ainda era dividida em natural e sobrenatural.

A magia natural não precisava de nenhum auxílio sobrenatural para acontecer, ela era compreendida como uma sabedoria natural porém oculta, enquanto a Filosofia Natural (a ciência) lidava com aquilo que era evidente para os sentidos a Magia Natural lidava com aquilo que estava distante da vista do homem comum, com aquilo que era “escondido”.

O magnetismo era considerado um fenômeno oculto, forças magnéticas eram consideradas como “laços simpáticos” existentes entre objetos magnéticos, uma harmonia que não podia ser vista, e a crença era a de que existiam muito mais dessas forças ocultas, o trabalho do mago era descobri-las. Existia uma ênfase na idéia de que Deus havia criado o mundo usando essas forças e harmonias naturais, o homem era um micro cosmo vivendo em um macro cosmo e haviam inúmeras relações interessantes entre o micro e o macro cosmo. Era através da Vontade Divina e da interpretação dos desígnios divinos que era possível encontrar esses laços harmônicos.

E claro havia a magia sobrenatural, onde o mago lidava com eventos que não faziam parte da natureza. Praticantes usavam feitiços para evocar espíritos, demônios e anjos. O mago John Dee se tornou famoso por suas conversações com anjos. Hoje se acredita que na época existiu uma “rede” de comunicação entre magos, cientistas e ocultistas que se correspondiam como Nostradamus, Agrippa von Nettesheim, o próprio Dee, Giordano Bruno e Paracelso entre outros, trocando experiências e “segredos científicos” adquiridos em peregrinações.

Rev. Obito, Templo de Satã

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/magia-na-corte-da-rainha-elizabeth/

Resultados da Hospitalaria – Fev/Mar/Abril 2019

Neste primeiro trimestre foram feitos ao todo 80 Mapas, 42 Sigilos Pessoais e 30 Mapas Sephiroticos

Principais entidades assistidas:

– MSF – Médicos sem fronteiras

– GACC – Grupo de Assistência à Criança com Câncer

– LBV (Legião da Boa Vontade)

– APAE

– Casa menino Jesus

– GOAs

– UNICEF

– Casas André Luiz

Tivemos 38 doações de sangue 🙂

E continuamos com o projeto de Hospitalaria. Quem estiver a fim de participar, é só seguir as instruções e pegar seu Mapa Astral ou Sigilo Pessoal via o TdC. Também é possível conseguir os Mapas através do . Quem quiser se aprofundar nos estudos de Astrologia Hermética, pode fazer o curso de EAD (Ensino a Distância) de Astrologia no EADeptus.

#Hospitalaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/resultados-da-hospitalaria-fev-mar-abril-2019

Assentamentos e Firmezas

O candomblé não tem imagens para representar os orixás, o que representa um orixá é o seu Igbá (assentamento), ao olharmos um Igbá é como se estivéssemos olhando para o Orixá. Existem representações em forma de desenhos e esculturas mas que são frutos apenas de criatividade de artistas e não tem uso litúrgico.

Um dos principais usos que se dá a ele é receber os Ebós, que são sacrifícios de todo o tipo (entendendo que o sentido de sacrifício na religião não envolve o uso de sangue em si. Um sacrifício por ser qualquer oferenda que vai se converter em axé).

 Assentamento de Orixá no Candomblé

 O assentamento de Orixá é uma representação do orixá no espaço físico, no mundo, no aiê (terra).  Dessa maneira, cada Assentamento representa um Orixá através de um recipiente e seu conteúdo.

O Assentamento é feito usando materiais que estão ligados ao Orixá que ele representa. Assim o material e o seu conteúdo ajudam a estabelecer a relação, devendo ser utilizados sempre elementos completamente afins com o Orixá e que traduzem a matéria original do Orun. Conhecer essas relações e afinidades é parte do aprendizado do iniciado.

Esses recipientes podem ser de porcelana, barro ou madeira de acordo com o orixá que ele representa. São usados elementos físicos comuns, como tigelas, sopeiras, gamelas e alguidares.

Sua função não é trazer o orixá para o médium, até porque os orixás já estão presentes em nossa vida o tempo todo. O assentamento é, de fato, um dos elementos mais importantes e significativos por traduzir a contínua relação entre o Orun e o Aiê. Ele representa o reconhecimento da existência do espaço espiritual, o Orun, e a ligação perene que existe entre os 2 espaços (Orun e Aiê) na forma de um contínuo duplamente alimentado e da circulação, transformação e reposição de axé. Dessa maneira o seu valor não está somente na sua existência como instrumento ritualístico, mas também no que ele representa.

Sempre junto ao Assentamento fica uma quartinha contendo água pura, que deverá estar sempre sendo renovada a cada ativação.

 Como fazer o Ossé:

O Ossé deve ser feito pelo próprio médium, dentro da casa dos orixás, e sem a presença de nenhum outro médium a não ser algum dos Pais e Mães da casa.

  1. Preparar 2 bacias com água limpa e uma com o amaci do orixá.
  2. Colocar uma esteira no chão com as bacias sobre ela.
  3. Recomenda-se rezar para o Orixá durante o Ossé.
  4. A partir deste ponto o médium deve permanecer em respeitoso silêncio, ou então cantando baixinho pontos para seu orixá.
  5. Remover o assentamento do local onde está pedindo licença ao Orixá e colocar também sobre a esteira.
  6. Na primeira bacia colocar um pedaço de sabão da costa e uma “buchinha” feita de palha da costa.
  7. Remover um a um os elementos contidos no assentamento e ir colocando-os na primeira bacia.
  8. O excesso dos elementos líquidos do assentamento pode ser despejado num recipiente a parte para serem despachados posteriormente.
  9. É importante neste momento tomar cuidado para não deixar nenhum elemento para trás junto com o que será despachado.
  10. Cada elemento deve ser lavado com sabão da costa e esfregado com sabão da costa; depois lavado na segunda bacia (com água limpa); e por fim colocado na bacia com o amaci.
  11. Após todos os elementos serem limpos, a louça do assentamento deve ser igualmente limpa.
  12. Depois que todos os elementos e as tigelas estiverem devidamente limpos o assentamento deve ser remontado.
  13. Atenção neste momento para colocar a Otá na mesma posição em que estava antes.
  14. Em seguida o assentamento deverá ser novamente ativado com os elementos líquidos apropriados (mel, azeite doce, azeite de dendê, etc.) de acordo com o orixá.
  15. Por fim, o Assentamento deve ser colocado de volta no seu lugar juntamente com uma vela acesa.

Ativando o Assentamento de Orixá:

  1. Colocar somente o necessário, dos elementos líquidos (mel, dendê, etc.) sem exageros.
  2. Transmita a ele somente energias positivas.
  3. Não colocar NADA dentro do seu assentamento que não diga respeito ao material inicial que foi usado para prepará-lo (papéis com nomes inclusive).
  4. Não colocar sob o assentamento nomes de terceiros mesmo que seja com a melhor das intenções.
  5. Evite que outras pessoas zelem por ele, a obrigação é sua.
  6. Limpar apenas o local onde ele estiver colocado. O Assentamento assim como seus elementos internos devem ser limpos através do Ossé, seguindo a ritualística apropriada.

 Assentamentos de Exu:

No caso dos assentamentos de Exu a preparação (uso de elementos ligados à entidade) é bem semelhante, variando alguns elementos de acordo com a área de atuação do Exu (cemitério, estrada ou encruzilhada) e de acordo com alguma solicitação da própria entidade.

Normalmente na Umbanda não existem assentamentos para os Exus (entidades) sendo usadas tradicionalmente imagens masculinas com referências ao diabo cristão e seus equivalentes femininos.

Na SEMAV (Sociedade Espiritualista Mata Virgem) optamos por utilizar assentamentos semelhantes aos do candomblé, pois não aceitamos esse “sincretismo” dos nossos exus com o diabo cristão; e nem a associação das pombo-giras com imagens de mulheres seminuas ou desrespeitosas.

Os assentamentos de Exu diferem do assentamento dos Orixás pois tratam-se não só de referência à energia do local de trabalho dos mesmos, mas também de verdadeiros Para-Raios onde as entidades descarregam determinadas energias.

As entidades costumam colocar em seus assentamentos papéis com pedidos e nomes de pessoas que precisam de ajuda.

Junto ao assentamento de Exu podem ser oferecidas flores, bebidas, fumo, incenso de acordo com a preferência da entidade.

A ativação é feita sempre com cachaça e dendê (ou mel em alguns casos).

Junto ao assentamento também fica uma quartinha contendo água pura, que deverá estar sempre sendo renovada a cada ativação.

Firmezas:

Podemos entender por firmezas os assentamentos coletivos.

Estes são cuidados pelos Pais e Mães da casa ou por um Cambono de Terreiro que é um médium preparado para esta atividade.

A função de uma firmeza e atrair para si energias positivas e distribuí-las para todos ou, atrair para si e eliminar todas as energias negativas que possam chegar até o local.

Exemplos de Firmezas:

Nas casas de umbanda, temos firmezas na tronqueira, no Ogum de Ronda e também no centro do terreiro no alto. (Consagrada à Iansã no nosso caso).

Alguns médiuns podem ter também em suas casas por solicitação dos guias firmezas para a proteção do seu lar.

Em alguns casos firmezas também são solicitadas para estabelecimentos comerciais para proteção e atração de energias positivas, facultando prosperidade dos mesmos.

Ás vezes as entidades também pedem firmezas em escritórios ou locais de reuniões como forma de buscar equilíbrio e boas relações entre os funcionários e participantes.

Fonte: Assentamentos e Firmezas. Curso de Umbanda, Sociedade Espiritualista Mata Virgem,

Texto revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/assentamentos-e-firmezas/

As lições da ciência

Quando eu debatia em comunidades online onde haviam embates homéricos entre céticos e espiritualistas, acabava por confundir a ambos quando tocava em assuntos científicos. Para os últimos, a ciência geralmente não despertava muito interesse, pois raramente a analisavam sob o ponto de vista espiritual; Para os primeiros, era tão estranho que um espiritualista estivesse citando Carl Sagan e Richard Feynman, que alguns pensavam se tratar de um cientista “brincando” de ser espiritualista – um “místico fake”. Obviamente, eles estavam mesmo confusos…

Podem nunca haver lhe contado na escola, mas nem sempre a espiritualidade esteve dissociada da ciência. Porém, nesta ciência de hoje, interpretada apenas como um conhecimento estritamente objetivo da realidade detectável, apenas um método sem nenhuma relação com qualquer espécie de ideologia ou filosofia, restou muito pouco da ciência antiga, a filosofia da Natureza, o conhecimento da physis.

Os sábios antigos chamavam Natureza à realidade primeira e fundamental de todas as coisas, a essência em torno da qual gira tudo o que é transitório: “A noite segue o dia. As estações do ano sucedem-se uma à outra. As plantas e os animais nascem, crescem e morrem. Diante desse espetáculo cotidiano da natureza, o homem manifesta sentimentos variados – medo, resignação, incompreensão, admiração e perplexidade. E são precisamente esses sentimentos que acabam por levá-lo à filosofia. O espanto inicial traduz-se em perguntas intrigantes: O que é essa physis, que apresenta tantas variações? Ela possui uma ordem ou é um caos sem nexo?”.

Eis que os cientistas nem sempre foram chamados de doutores. Também já atenderam por naturalistas, filósofos, sábios, alquimistas, astrólogos, druidas, ocultistas, etc. Portanto, imaginar que a vivência da ciência moderna deveria estar totalmente desconexa da espiritualidade é, antes de tudo, uma ignorância da história do pensamento humano. Uma ignorância de tantos e tantos que vieram antes de nós, e fizeram as mesmas perguntas ao céu noturno salpicado de estrelas. E, como o Cosmos não respondeu de volta tal qual um deus lendário, foram obrigados a arregaçar suas mangas e buscar pelas respostas eles mesmos. É precisamente da atitude desses cientistas – os de outrora e os de hoje – que podemos tirar preciosas lições:

A Natureza fala por si

Talvez a qualidade mais notável de todo verdadeiro cientista seja esse tal contentamento, esta real aceitação, este estoicismo perante o que a physis realmente é, e não o que gostaríamos que fosse. Feynman dizia que a imaginação da Natureza é muito, muito maior do que a nossa: ela jamais nos deixará relaxar. Sempre haverá, para o real buscador, mais uma galáxia oculta atrás de um grande conglomerado, mais uma partícula oculta nalgum nível de energia ainda indetectável pelo nosso mais avançado instrumento, mais uma lei natural oculta de nossa mais simples e elegante equação, mais um tanto do Cosmos que jamais alcançamos com nossa luz: não fomos capazes de ver sua escuridão antes que a luz fosse acesa.

Nós podemos estar errados

Outra lição é esta, tão simples, e tão essencial: podemos, sim, estar errados, e geralmente estamos. Os atomistas acreditavam que a matéria era feita de pequenas partes dos elementos que sustentavam todo o Cosmos – Hoje sabemos que átomos e quarks não são formados pelo fogo, ou a água, ou a terra, ou o ar [1]… Mas foram dos erros passados que vieram novos acertos; acertos esses que podem também se comprovar como erros no futuro. O que importa, portanto, é que hoje conhecemos um pouco mais da physis do que ontem, e amanhã conheceremos ainda um pouco mais do que hoje. Mas, decerto não existe um conhecimento infalível, uma verdade derradeira, ou pelo menos ainda estamos num nível de consciência muito distante dela. Admitir que podemos estar errados é o melhor caminho para que prossigamos adiante no fluxo deste rio sagrado, sem jamais ficarmos uma vez mais aprisionados, represados pelo dogma.

O conhecimento é uma conquista

Ainda que a Verdade pudesse realmente nos ser revelada em antigos livros escritos sob inspiração divina, não significa que tivemos a capacidade de interpretá-la. Ainda que a inspiração tenha sido uma ponte direta para os segredos mais ocultos do Cosmos, e ainda que a informação escrita tenha passada ilesa por séculos de guerras de interesses e traduções de cada época, ainda assim tudo o que temos são palavras, linguagem, símbolos de gramática que já provaram serem incapazes de traduzir tudo o que é sentido e experimentado em uma verdadeira experiência mística – por isso muitos grandes sábios jamais escreveram coisa alguma, pois eles sabiam que cascas de sentimento não fariam jus à sacralidade da experiência.

O conhecimento, portanto, é e sempre foi uma conquista. E muitos cientistas têm nos auxiliado em conhecer a physis de fora, mas nenhum, absolutamente nenhum deles, poderá realizar por nós uma conquista que foi profetizada e ofertada pelo próprio Deus: mergulhar em si mesma, isto apenas a própria alma poderá realizar.

De pé sobre o ombro de gigantes

Foi o próprio Isaac Newton quem confessou que se havia visto mais longe do que os demais, foi por ter estado em pé sobre o ombro dos gigantes de outrora. A beleza da ciência é que, desde que não tenha sido queimado por bárbaros ou eclesiásticos coléricos, seu conhecimento armazenado, em livros e outros artefatos, por toda a história da humanidade, está ainda situado nos alicerces da torre pela qual podemos observar o Cosmos cada vez mais de perto… Ao contrário do que disseram os supersticiosos, nenhum deus raivoso desceu dos céus para nos punir por nossa ousadia: continuaremos a construir torres de Babel e abrir tantas quantas foram às caixas de Pandora encontradas. Foi graças a Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, que chegamos onde chegamos: ele foi apenas o primeiro gigante, o primeiro titã.

Mas, ao contrário do que o mito possa te levar a pensar, os deuses não se chatearam conosco – aquilo foi pura encenação. Puro teatro, para que pudéssemos assim, uns auxiliando aos outros, numa colaboração digna dos maiores exércitos do Céu, marchar para cada vez mais perto da montanha sagrada… E, quando lá chegarmos, quem sabe não possamos acender a pira do salão de Zeus, e realizarmos por lá uma grande festa – na qual mesmo os gigantes estarão convidados.

Não há elite

Na ciência genuína, todos tem a oportunidade de colaborar: não importa onde nasceram, sua cor de pele, seu sexo – desde que possam pensar, podem auxiliar nossa ciência.

Apesar de ainda haverem os “donos da verdade”, aqueles ignorantes que pensam poder determinar quem pode ou não pode falar em nome da ciência, a verdade é que não há elite na physis: assim como somente os peixes podem nos falar do mar profundo, somente os pássaros podem nos falar do céu, e os morcegos da escuridão das cavernas. Apenas assim, juntos, podemos ter alguma esperança de conhecer a Natureza sob todos os pontos de vista.

Até onde a luz pode chegar

Muitas das ideias mais místicas que fomos capazes de um dia conceber hoje estão sendo melhor desenvolvidas, e comprovadas, na cosmologia, e não mais na religião. Sabemos hoje que tudo o que há neste universo surgiu de uma singularidade, um ponto, um grão de milho que, nos primeiros momentos, englobava todo o espaço-tempo – e não havia nada “do lado de fora”, pois o tecido do espaço-tempo é tudo o que há. Sabemos também que a velocidade da luz tem um limite, e que provavelmente nada no universo o possa ultrapassar… Há não ser o próprio tecido espaço-temporal, em seu berço de crescimento inflacionário, quando venceu a própria luz. Eis que, dessa forma, existem espaços deste universo que jamais poderão ser conhecidos, espaços onde nenhuma luz poderá um dia sair, ou chegar. Essa ideia de Infinito é suficientemente mística para você?

Poeira de estrelas

Ao observar o pequenino e pálido ponto azul, flutuando numa nuvem de gás sideral, parte de uma das fotos da sonda espacial Voyager I, Carl Sagan prontamente identificou: aquele ponto era a Terra, toda a Terra! Mas, a despeito da beleza de suas reflexões acerca desta imagem, há ainda algo mais belo e profundo sobre o que pensar: não apenas nosso planeta é apenas um grão de poeira na Via Láctea, nós mesmos somos formados por elementos pesados que só podem ser gerados nas fornalhas estelares. Nós somos, realmente, não somente os filhos das estrelas – nós somos formados por partes delas.

Atomicamente, somos formados pela mesma divina poeira que forma todas as outras substâncias cósmicas. Mergulhada no oceano, toda poeira é também uma parte do mar…

Conhecer a si mesmo

E foi exatamente aqui, este pequeno ponto azul em meio a escuridão infindável do oceano da noite, que despertamos pela primeira vez e dissemos: “nós aqui também existimos, também somos da raça dos deuses!”.

Não se sabe se existem outros como nós, mas provavelmente existem, e aos montes… Seja neste pequeno planeta, ou na infinidade de moradas da casa cósmica, nós parecemos ser um espécie de imagem espelhada, de semelhança, uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo.

E, nesta tal aventura do conhecimento, nesta tal jornada para sondarmos a inconcebível natureza da Natureza, podemos navegar tanto acima quanto abaixo – tanto faz, uma parte é apenas o espelho da outra.

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[1] Pelo menos não da forma literal como tais elementos são compreendidos. Como símbolos, no entanto, foram, e ainda são, poderosos aliados para nossa compreensão da physis.

Crédito das imagens: [topo] APOD (telescópios em Atacama/Chile); [ao longo] APOD (lua cheia em Paris/França)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#Ciência #Espiritualidade #natureza

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-li%C3%A7%C3%B5es-da-ci%C3%AAncia