Rosacruz, Maçonaria e Martinismo

Texto de G. O. Mebes, datado de 1911.

Não queremos impor a ninguém a crença de que tenha existido, efetivamente, uma Fraternidade fundada por Christian Rosenkreuz (1378 – 1484) e composta de um pequeno conjunto de místicos castos; queremos, apenas, afirmar o fato do aparecimento no astral de uma forma apresentando, nitidamente, os ideais e caminhos de aperfeiçoamento dos quais, bem mais tarde, tratou a famosa obra “FAMA FRATERNITATIS ROSAE CRUCIS”. Nela, esses ideais foram registrados em forma de um código; mas o despertar da Egrégora aconteceu numa época bem anterior.

Estudemos como se apresenta para nós a Egrégora da Rosa-Cruz inicial, segundo a obra acima citada e também conforme o “CONFESSIO FIDEI R+C”. É claramente visível que essa poderosa Egrégora atraiu a si os fluidos de três importantes e amplos fluxos da Verdade: o Gnosticismo, a Cabala e o Hermetismo da Escola Alquímica.

O “Ponto Superior acima do Iod” deste novo aspecto da Egrégora Templária foi constituído pelo ideal do trabalho teúrgico, visando a vinda do “Reino de Elias Artista” e por uma fé inabalável de que este Reino virá no futuro.

O que quer dizer isso? Quem é “Elias Artista”?; de onde surgiu “Elias” e por que “Artista”?

Na Bíblia, Elias e Enoch são símbolos de algo que é levado vivo ao céu. No entanto, o caminho direto para o Empíreo da metafísica está aberto somente aos fluxos da Verdade Absoluta. Os Arcanos Menores do Livro de Enoch fazem parte de tais fluxos. Elias, por sua vez, é como uma imagem mais concreta de Enoch, está mais próximo de nós. Portanto, “Elias” e não “Enoch”.

Como é este Elias? Por quais caminhos pode ele nos levar aos Arcanos Menores, à Reintegração Rosacruciana? Seria este o caminho dos Bem-aventurados, caminho dos corações humildes e plenos de amor, das mentes simples e sem malícia, mas possuidoras de uma fé infinita?

Não. A Egrégora não era para eles. Era para os que haviam experimentado o refinado sabor do conhecimento e já não podiam a ele renunciar, O “Elias Rosacruciano” conduz seus seguidores aos Arcanos Menores pelo caminho difícil do estudo minucioso e profundo dos Arcanos Maiores, uma analise engenhosa, constituindo verdadeira arte; dai o nome “Artista”.

O poderoso “Iod” com o qual a Egrégora modelava seus adeptos expressou-se pelo símbolo imortal da Rosa+Cruz. Seja qual for a moldura que acompanhe este símbolo, sejam quais forem os acréscimos, sua parte central e essencial permanece sempre a mesma.

A Cruz, símbolo da auto-renúncia, do altruísmo ilimitado, submissão total às Leis Superiores, é um dos seus polos. A Rosa perfumada de Hermes, símbolo da ciência e do aperfeiçoamento nos três planos, envolve a Cruz.

Os vinculados ao símbolo da Rosa+Cruz, podem carregar a Cruz mas não poderão remover dele a Rosa. Mesmo se os espinhos do conhecimento os fizerem sofrer, não renunciarão à atração de seu perfume. A Rosa é o segundo polo do Binário .

A tarefa do Rosacrucianismo é neutralizar este binário com sua própria personalidade, harmonizar em si mesmo a Ciência e a auto renuncia, fazê-las servir a um mesmo ideal . Um Rosacriciano deve assemelhar-se ao terceiro símbolo que consta do pantáculo da Rosacruz, o Pelicano, cujas asas permanecem abertas e que sacrifica-se por seus filhotes, alimenta-os com seu próprio corpo, seu sangue e sua carne.

No emblema, os filhotes do Pelicano são de cores diferentes. Nos emblemas primitivos havia apenas três filhotes, simbolizando as três Causas Primordiais; nos emblemas posteriores há sete, simbolizando as sete Causas Secundárias, sendo cada um dos filhotes de uma cor planetária diferente. Isso indica que o sacrifício deve ser feito conforme a ciência das cores, ou seja, cada um dos filhotes necessita um tratamento especifico.

Esse “lod’ apresenta um tema a ser meditado por parte de cada um dos verdadeiros Rosacrucianos.

O “Primeiro He” do Rosacrucianismo inicial era constituído por um grupo de naturezas raras e excepcionais, capazes de unir o misticismo à mais elevada intelectualidade.

O “Shin” do esquema Rosacruciano revestiu-se de uma certa auto-apreciação, em consequência natural de se considerarem instrumentos escolhidos. Havia tão poucas pessoas, capazes de satisfazer a essas exigências, que a convicção da superioridade introduziu-se por si mesma. Ela acentuou-se ainda mais, devido as severas regras da ética Rosacruciana, que os eleitos introduziram em seu viver.

O culto, o elemento “Vau”, expressava-se pela meditação sobre os símbolos, especialmente sobre o grande pantáculo da Rosa + Cruz e, em parte, pelas cerimônias místicas durante as reuniões periódicas dos Rosacrucianos.

O “Segundo He”, a “política” da Escola, constituiu-se numa atividade que, de acordo com suas convicções, os Rosacrucianos consideravam indispensável ao progresso da Humanidade. Devido a necessidade da prudência, tanto essa atividade quanto as pessoas dos membros da Corrente, eram envolvidas num estrito anonimato. Nesse “Segundo He”, podia-se perceber facilmente a reação, ainda não dissolvida no astral puro, do violento ressentimento dos Templários contra a Igreja Romana, ressentimento que chegou a criar os elementos formais do Protestantismo.

O Rosacrucianismo inicial, como já sublinhamos, não podia, naturalmente, contar com muitos adeptos, pois exigia deles características que, em geral, se excluem mutuamente.

Mais tarde, no século XVI, da Escola inicial gradualmente aquilo que poderia ser chamado de Rosacrucianismo secundário. Se o primeiro era acessível somente a poucos, o segundo podia ser seguido por todos os homens conscientes. Se o primeiro exigia quase fanaticamente que seus seguidores adotassem regras rígidas de auto-aperfeiçoamento, o segundo era caracterizado por uma tolerância maior em todos os campos da mente e do coração.

O ponto acima do Iod é o próprio elemento “Iod” permaneceram os mesmos. Visivelmente, mudou o “Primeiro He”. O ambiente dos séculos XVI, XVII e, parcialmente, do XVIII, fecundado pelos ideais Rosacrucianos, era o dos Enciclopedistas no melhor e mais amplo sentido dessa palavra. Do adepto da nova Rosa+Cruz exigia-se uma multiplicidade de facetas intelectuais, capacidade de especulação científica, amplitude do horizonte mental e dedicação aos ideais. Na Corrente Rosacruciana entravam tanto as naturezas altamente místicas como fervorosos panteístas ou pessoas de mentalidade pratica. Todavia, tornamos a repetir, eram aceitas unicamente pessoas notáveis por sua inteligência e erudição, pessoas possuindo uma vontade desenvolvida e concepções claras a respeito do trabalho a desenvolver para a elevação da humanidade.

(A publicação do elemento Shin não foi autorizada pelo Mestre).

O elemento “Vau”, em linhas gerais, permaneceu idêntico ao da Rosacruz inicial. Segundo os vários ramos da Escola, apareceram pequenas diferenças no ritual de recepção dos novos membros, nos rituais dos graus ou nas cerimônias, durante as reuniões dos conselhos superiores. No elemento Vau devem ser também incluídos os métodos de transformação astral e de treinamento da personalidade, acrescentados à prática básica de meditação. A introdução desses métodos era devida, em grande parte, à influência de várias escolas orientais.

O ‘segundo He” ou a “política da Escola”, expressou-se pela orientação de exercer sua influência na sociedade contemporânea. No começo, essa influência tinha um caráter puramente ético, mais tarde, fortemente realizador. Os ramos e sub ramos do Rosacrucianismo Secundário possuíam seus programas políticos particulares. Estes mudavam, naturalmente com o passar do tempo, visando sempre as reformas políticas e religiosas mais necessárias. Não obstante, a Egrégora Templária, portadora do impressionante clichê da destruição do plano Físico da Corrente de Jacques DeMolay, vibrava na direção da prudência cada vez que o Rosacrucianismo se preparava para dar um passo decisivo no mundo externo, causando a escolha do modo de ação mais seguro. Em consequência de uma destas vibrações foi criada a Ordem Maçônica.

O astral muito sutil do Rosacrucianismo, apropriado ao ensino, não possuía qualidades necessárias para lidar com problemas práticos e adaptar-se aos condicionamentos e brutalidade dos homens. Podia ficar prejudicado em sua base. A fim de evitá-lo, ao redor da Rosa e da Cruz, foi criado um invólucro mais material, melhor adaptado a contatos e trabalhos externos: a MAÇONARIA.

A Maçonaria, isto é, a Maçonaria legítima do Rito Escocês, com interpretação ético-hermética do simbolismo tradicional, tornou-se a guardiã de “sua alma”, a Rosa+Cruz. Ela implantava, tanto no seu próprio ambiente, como no mundo externo, o respeito para com os símbolos tradicionais e para com seus intérpretes, os Rosacrucianos. Os Maçons espalhavam ao redor de si a convicção de que o exemplo irrepreensível de suas vidas e seu alto nível moral tinham suas bases nos ensinamentos iniciáticos.

A Maçonaria realizava as reformas decididas pelos Rosacrucianos, protegendo-os, com suas próprias pessoas, contra a possível hostilidade e as perseguições humanas no plano físico.

Os fundadores da Maçonaria, entre os quais ocupa um lugar proeminente ELIAS ASHMOLE (1817-1692), com muita habilidade adaptaram para seu uso o sistema dos graus dos Maçons Livres, fazendo dele a base de seus próprios três primeiros graus, os “simbólicos”, da Iniciação Maçônica. Este trabalho se iniciou em 1646 e em 1717 existia já um sistema dos Capítulos da Maçonaria Escocesa, plenamente organizado.

Assim, a Maçonaria tornou-se um instrumento indispensável no trabalho do Iluminismo Rosacruciano, cuja “política” (o “Segundo He”) recebeu o nome de “Maçônica”, nome que guardou até agora. Os efeitos da política Rosacruciana, alcançados pelos Maçons no mundo externo, receberam o nome de “tiros de canhão”. Entre outros, como “tiros de canhão”, foram consideradas as reformas religiosas de Lutero e de Calvino, assim como a libertação dos Estados Unidos da América do Norte da dependência britânica (Lafayette e seus oficiais Maçons). Os Rosacrucianos se utilizavam dos Maçons, tanto mais que entre eles escolhiam os que mereciam ser iniciados no Iluminismo Cristão.

Contudo, cada medalha tem seu reverso. Enquanto a Maçonaria foi uma organização submetida ao Rosacrucianismo, enquanto praticava o princípio da Sucessão Hierárquica por transmissão, ela cumpria sua tarefa e não havia problemas.

Infelizmente, diversos ramos bastante fortes resolveram introduzir o método de eleger seus dirigentes, rejeitando assim o princípio hierárquico tradicional. Em decorrência, o trabalho maçônico começou a mudar seu caráter e, de evolutivo, passou a ser quase revolucionário. Um momento importante neste novo rumo foi a dissidência de Lacorne e seus seguidores (em 1773) que, numa cisão, separaram-se da Maçonaria legítima e fundaram uma nova associação que passou a ser conhecida sob o nome de “Grande Oriente da França”.

Com isto concluiremos o nosso breve esboço relativo à Maçonaria e passaremos ao fim do século XVII, para analisar uma das correntes, ainda existente, do antigo Iluminismo Cristão.

Ao redor do ano de 1760, o famoso Martinez de Pasqually fundou uma fraternidade de “Seletos Servidores do Sagrado”, os “ELUS COHENS”, com nove graus hierárquicos. Os três graus superiores eram Rosacrucianos.

A Escola de Martinez era mágico-teúrgica, com forte predominância de métodos puramente mágicos. Após a morte de Martinez, seus dois discípulos preferidos, Willermoz e Louis Claude de Saint Martin, alteraram o caráter dessa Corrente.

Willermoz lhe deu um colorido maçônico e Claude de Saint Martin, um escritor conhecido sob o pseudônimo “Filosofo Descolhecido” encaminhou a Corrente para o lado místico-teúrgico. Contrariamente a Willermoz, ele favorecia uma Iniciação liberal e não as regras das Lojas Maçônicas. A influência de Saint Martin predominou e criou uma Corrente chamada “Martinismo”.

A Egrégora do Martinismo que possuía sua Maçonaria, seu círculo externo “encarnou” solidamente em todos os países da Europa. Ela era constituída, aproximadamente, do seguinte modo:

O ponto acima do Iod, correspondia à harmonização ética, do ser humano. O “Iod” baseava-se na filosofia espiritualista das obras de St. Martin, que variava, um pouco, segundo diversas épocas da vida do escritor.

O “Primeiro He” era constituído por um grupo de pessoas muito puras e desinteressadas, possuindo aspirações místicas mais ou menos pronunciadas, pessoas prontas a qualquer trabalho filantrópico

O elemento Shin era inexistente, provavelmente em virtude do caráter do “Primeiro He”. Os idealistas puros que aspiravam a harmonia interna, não necessitam de um ímã para atrair adeptos.

O elemento ”Vau” se limitava a um ritual muito simples, a oração e a cerimônia de Iniciação notável pela sua simplicidade. É verdade que alguns maçons, entre os Martinistas davam mais importância ao ritual e este em certas Lojas, tornou-se até imponente por sua magnificência; todavia nós frisamos agora o Martinismo puro, independente de qualquer acréscimo maçônico. No Martinismo todo valor era dado a meditação, à formação interna do “Homem de Aspiração” e não ao ambiente mágico, como foi o caso do Martinezismo ou do Willemozismo .

O “Segundo He” do Martinismo consistia do trabalho filantrópico de seus membros, ajudar aos necessitados e sofredores, evitando toda manifestação espetacular, na recusa de qualquer compromisso ético ao deparar-se com as influências externas e, em uma modéstia, simplicidade e presteza no adaptar-se a quaisquer condições externas de vida. Essas qualidades impressionavam fortemente todas as elites sociais contemporâneas.

Embora a Iniciação Martinista na época do Primeiro Império e, posteriormente, até a oitava década do século XIX, se transmitisse por um liame multo tênue, o Martinismo contava em suas fileiras pessoas de ato valor, como Chaptal, Delage, Constant e outros.

Aproximadamente, na oitava década , o bem conhecido Stanislas de Guaita, querendo recriar uma corrente mais esotérica, fundou a “Ordem Cabalística da Rosa+Cruz”, obedecendo o esquema seguinte:

O “Ponto acima do Iod” consistia numa conciliação da ciência acadêmica oficial com os ensinamentos esotéricos acessíveis, objetivando criar um trabalho frutífero, em conjunto, dos representantes dos dois aspectos do conhecimento.

O “Iod” resumia-se em uma síntese de todos o conhecimentos, acessíveis tanto pela pesquisa científica, quanto pelo estudo da Tradição.

O “Primeiro He” era de novo o ambiente dos Enciclopedistas, mas infelizmente, Enciclopedistas fracassados. Em nossa época, as pessoas capazes progridem rapidamente dentro de sua profissão ou especialização e, muitas vezes, falta-lhes o tempo para se desenvolver em outros sentidos, enquanto os que fracassaram em sua direção particular, procuram geralmente um derivativo no Enciclopedismo, que lhes forneça uma compensação. Para um observador superficial, tais pessoas podem aparentar possuir uma inteligência de muitas facetas, assemelhando-se, através disso, às pessoas realmente excepcionais como o foram os membros do Rosacrucianismo inicial.

O elemento “Shin” da nova Egrégora era a perspectiva, atraente para os fracassados, de receber, devido ao prestígio da Rosacruz, a mesma consideração que os reconhecidos luminares da ciência oficial.

O elemento “Vau” era o trabalho de reeditar, traduzir e comentar as obras clássicas relativas ao ocultismo, que naquela época tornaram-se raridades bibliográficas, de preços quase inacessíveis, mesmo às pessoas bem situadas materialmente. Neste campo, os Rosacrucianos de Paris fizeram um trabalho muito útil e mereceram uma profunda gratidão dos que reverenciam os grandes monumentos deixados pela Tradição.

O pior elemento do sistema revelou-se o “Segundo He”, manifestado como uma política oportunista, a fim de atrair o mundo universitário. As teses tradicionais, na sua explanação, eram alteradas para fazê-las concordar com as últimas obras científicas, perdendo assim o seu valor. O empenho de certos Rosacrucianos em obter a aprovação dos representantes da ciência oficial, prejudicava naturalmente o prestigio da Escola. Por outro lado, as tentativas de uma parte de seus membros, para atenuar as teses Rosacrucianas, a fim de não contrariarem demais a Igreja Romana, levaram a uma cisão dentro da própria Escola (o afastamento de Peladan). Em geral, ainda no tempo de Guaita, a situação tornou- se precária. Foi feita, por isso, uma tentativa de aproximação com a Maçonaria, o que, deturpando as finalidades da Ordem, precipitou sua queda. Ela existe ainda.

Paralelamente com a fundação da Ordem Cabalística da Rosa Cruz, S. de Guaita procurou dar uma nova e grande amplitude à Corrente Martinista. O “Neo-Martinismo” de Guaita, tornou-se bem diverso da corrente inicial, toda via, o Neo-Martinismo adotou o ritual Martinista da Iniciação ao grau de S:::I::: ( Superior Incógnito – NT) e neste ritual baseou seu simbololismo.

Os ideais de Saint Martin e a formação interna do Homem de Aspiração não podiam satisfazer o enérgico Guaita, atraído demais para os resultados visíveis. Ele não admitia nenhuma interrupção voluntária da atividade externa, mesmo quando necessária para magnetizar o ambiente. Nas obras de Guaita encontram-se mesmo, muitas vezes palavras irônicas a respeito de tais interrupções.

Para que a quase renascida Egrégora de Martinez de Pasqually pudesse trazer à nova Ordem da Rosa+Cruz adeptos escolhidos entre os mais capazes S:::I::: do novo Martinismo foi preciso introduzir no esquema do mesmo uma grande tolerância no campo dogmático.

O ponto acima do Iod permaneceu, como antes, a harmonização ética interna.

A escolha do elemento “Iod” foi deixada ao livre arbítrio de cada membro da Corrente Neo-Martinista. Naturalmente, as obras de Saint Martin conservavam o seu papel de linha mestra.

O elemento “He”, como consequência da livre escolha do elemento “Iod”, veio a ser constituído por círculos de diversas tonalidades e valores. Aí podiam ser encontrados os cansados da busca religiosa, os decepcionados com a ciência oficial, os que não conseguiram ingressar na Maçonaria e procuravam algo equivalente, os impressionados pelo uso dos emblemas místicos, os que se deleitavam em debates versando temas do ocultismo durante as reuniões, os simplesmente curiosos, sempre prontos a ingressar nas organizações “misteriosas”. Havia também aqueles que chegaram à conclusão de que era preferível tornar-se membro de qualquer corrente a permanecer sem nenhuma proteção egregórica.

Como a Ordem da Rosa+Cruz recebia e recebe até agora somente os que passaram pelos três primeiros graus do novo Martinismo, entre os últimos podiam ser sempre encontradas algumas pessoas adequadas a se tornarem instrutores na corrente Martinista e orientar o desenvolvimento de seus membros. Foi isso que sustentou e vivificou o Martinismo que cresceu consideravelmente depois de Guaita, e conta agora com um grande número de adeptos. Atualmente, seu Conselho Superior está chefiado pelo Dr. Gerard Encausse, escritor e propagador do ocultismo, mais conhecido sob o pseudônimo “Papus”  (lembrando que este artigo foi escrito por G. O. Mebes em 1911 – NT).

Devido a diversidade das tendências e dos níveis evolutivos de seus membros, o “Shin” da nova Corrente Martinista foi formado por vários elementos. A uns atraia o ritual; a outros a solidariedade existente entre os membros da Corrente. A uns, a possibilidade de desenvolvimento interno; a outros, a pureza da transmissão do poder, etc.

O elemento “Vau” além das cerimônias místicas, a unirem os Martinistas, consistia em meditação obrigatória acerca de temas determinados e, facilitando essas meditações, palestras dos instrutores abordando assuntos iniciáticos.

O “Segundo He” consistia numa política, bastante passiva, de aguardar o progresso ético da sociedade, colaborando neste sentido com o exemplo de uma vida em acordo com sua consciência. Muitos círculos Martinistas acrescentavam, a esse modo de viver, um elemento mais ativo, filantrópico ou algum outro. Todavia, estas atividades particulares não de vem ser levadas em consideração numa análise dos princípios Egregóricos.

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#Maçonaria #Martinismo #Rosacruz

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/rosacruz-ma%C3%A7onaria-e-martinismo

Deus e o Estado

Três elementos ou três princípios fundamentais constituem, na história, as condições essenciais de todo desenvolvimento humano, coletivo ou individual:

1º) a animalidade humana;
2º) o pensamento;
3º) a revolta.

À primeira corresponde propriamente a economia social e privada; à segunda, a ciência; à terceira, a liberdade.

Os idealistas de todas as escolas, aristocratas e burgueses, teólogos e metafísicos, políticos e moralistas, religiosos, filósofos ou poetas, sem esquecer os economistas liberais, adoradores desmedidos do ideal, como se sabe, ofendem-se muito quando se lhes diz que o homem, com sua inteligência magnífica, suas idéias sublimes e suas aspirações infinitas, nada mais é, como tudo o que existe neste inundo, que um produto da vil matéria.

Poderíamos responder-lhes que a matéria da qual falam os materialistas, matéria espontaneamente, eternamente móvel, ativa, produtiva, a matéria química ou organicamente determinada e manifesta pelas propriedades ou pelas forças mecânicas, físicas, animais e inteligentes, que lhe são forçosamente inerentes, esta matéria nada tem de comum com a vil matéria dos idealistas. Esta última, produto de falsa abstração, é efetivamente uma coisa estúpida, inanimada, imóvel, incapaz de dar vida ao mínimo produto, um caput mortuum, uma infame imaginação oposta a esta bela imaginação que eles chamam Deus; em relação ao Ser supremo, a matéria, a matéria deles, despojada por eles mesmos de tudo o que constitui sua natureza real, representa necessariamente o supremo nada. Eles retiraram da matéria a inteligência, a vida, todas as qualidades determinantes, as relações ativas ou as forças, o próprio movimento, sem o qual a matéria sequer teria peso, nada lhe deixando da impenetrabilidade e da imobilidade absoluta no espaço; eles atribuíram todas estas forças, propriedades ou manifestações naturais ao ser imaginário criado por sua fantasia abstrativa; em seguida, invertendo os papéis, denominaram este produto de sua imaginação, este fantasma, este Deus que é o nada, “Ser supremo”; e, por conseqüência necessária, declararam que o Ser real, a matéria, o mundo, era o nada. Depois disso eles vêm nos dizer gravemente que esta matéria é incapaz de produzir qualquer coisa que seja, até mesmo colocar-se em movimento por si mesma, e que por conseqüência deve ter sido criada por seu Deus.

Quem tem razão, os idealistas ou os materialistas? Uma vez feita a pergunta, a hesitação se torna impossível. Sem dúvida, os idealistas estão errados e os materialistas certos. Sim, os fatos têm primazia sobre as idéias; sim, o ideal, como disse Proudhon, nada mais é do que uma flor, cujas condições materiais de existência constituem a raiz. Sim, toda a história intelectual e moral, política e social da humanidade é um reflexo de sua história econômica.

Todos os ramos da ciência moderna, da verdadeira e desinteressada ciência, concorrem para proclamar esta grande verdade, fundamental e decisiva: o mundo social, o mundo propriamente humano, a humanidade numa palavra, outra coisa não é senão o desenvolvimento supremo, a manifestação mais elevada da animalidade pelo menos para nós e em relação ao nosso planeta. Mas como todo desenvolvimento implica necessariamente uma negação, a da base ou do ponto de partida, a humanidade é, ao mesmo tempo e essencialmente, a negação refletida e progressiva da animalidade nos homens; e é precisamente esta negação, racional por ser natural, simultaneamente histórica e lógica, fatal como o são os desenvolvimentos e as realizações de todas as leis naturais no mundo, é ela que constitui e que cria o ideal, o mundo das convicções intelectuais e morais, as idéias.

Sim, nossos primeiros ancestrais, nossos Adão e Eva foram, senão gorilas, pelo menos primos muito próximos dos gorilas, dos onívoros, dos animais inteligentes e ferozes, dotados, em grau maior do que o dos animais de todas as outras espécies, de duas faculdades preciosas: a faculdade de pensar e a necessidade de se revoltar.

Estas duas faculdades, combinando sua ação progressiva na história, representam a potência negativa no desenvolvimento positivo da animalidade humana, e criam consequentemente tudo o que constitui a humanidade nos homens. A Bíblia, que é um livro muito interessante, e aqui e ali muito profundo, quando o consideramos como uma das mais antigas manifestações da sabedoria e da fantasia humanas, exprime esta verdade, de maneira muito ingênua, em seu mito do pecado original. Jeová, que, de todos os bons deuses adorados pelos homens, foi certamente o mais ciumento, o mais vaidoso, o mais feroz, o mais injusto, o mais sanguinário, o mais despótico e o maior inimigo da dignidade e da liberdade humanas, Jeová acabava de criar Adão e Eva, não se sabe por qual capricho, talvez para ter novos escravos. Ele pôs, generosamente, à disposição deles toda a terra, com todos os seus frutos e todos os seus animais, e impôs um único limite a este completo gozo: proibiu-os expressamente de tocar os frutos da árvore de ciência. Ele queria, pois, que o homem, privado de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal, sempre de quatro patas diante do Deus “vivo”, seu criador e seu senhor. Mas eis que chega Satã, o eterno revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador dos mundos! Ele faz o homem se envergonhar de sua ignorância e de sua obediência bestiais; ele o emancipa, imprime em sua fronte a marca da liberdade e da humanidade, levando-o a desobedecer e a provar do fruto da ciência.

Conhece-se o resto. O bom Deus, cuja presciência, constituindo uma das divinas faculdades, deveria tê-lo advertido do que aconteceria, pôs-se em terrível e ridículo furor: amaldiçoou Satã, o homem e o mundo criados por ele próprio, ferindo-se, por assim dizer, em sua própria criação, como fazem as crianças quando se põem em cólera; e não contente em atingir nossos ancestrais, naquele momento ele os amaldiçoou em todas as suas gerações futuras, inocentes do crime cometido por seus ancestrais .

Nossos teólogos católicos e protestantes acham isto muito profundo e justo, precisamente porque é monstruosamente iníquo e absurdo. Depois, lembrando-se de que ele não era somente um Deus de vingança e cólera, mais ainda, um Deus de amor, após ter atormentado a existência de alguns bilhões de pobres seres humanos e tê-los condenado a um eterno inferno, sentiu piedade e para salvá-los, para reconciliar seu amor eterno e divino com sua cólera eterna e divina, sempre ávida de vítimas e de sangue, ele enviou ao mundo, como uma vítima expiatória, seu filho único, a fim de que ele fosse morto pelos homens. Isto é denominado mistério da Redenção, base de todas as religiões cristãs.

Ainda se o divino Salvador tivesse salvo o mundo humano! Mas não; no paraíso prometido pelo Cristo, como se sabe, visto que é formalmente anunciado, haverá poucos eleitos. O resto, a imensa maioria das gerações presentes e futuras arderão eternamente no inferno. Enquanto isso, para nos consolar, Deus, sempre justo, sempre bom, entrega a terra ao governo dos Napoleão III, Guilherme 1, Ferdinando da Áustria e Alexandre de todas as Rússias.

Tais são os contos absurdos que se narram e as doutrinas monstruosas que se ensinam, em pleno século XIX, em todas as escolas populares da Europa, sob ordem expressa dos governos. Chama-se a isto civilizar os povos! Não é evidente que todos os governos são os envenenadores sistemáticos, os embrutecedores interessados das massas populares?

Eis os ignóbeis e criminosos meios que eles empregam para reter as nações em eterna escravidão, a fim de poder melhor despojá-las, sem dúvida nenhuma. O que são os crimes de todos os Tropmann do mundo, em presença deste crime de lesa-humanidade que se comete quotidianamente, abertamente, sobre toda a superfície do mundo civilizado, por aqueles mesmos que ousam chamar-se de tutores e pais dos povos?

Entretanto, no mito do pecado original, Deus deu razão a Satã; ele reconheceu que o diabo não havia enganado Adão e Eva ao lhes prometer a ciência e a liberdade, como recompensa pelo ato de desobediência que ele os induzira a cometer. Assim que eles provaram do fruto proibido, Deus disse a si mesmo (ver a Bíblia): “Aí está, o homem tornou-se como um dos deuses, ele conhece o bem e o mal; impeçamo-lo pois de comer o fruto da vida eterna, a fim de que ele não se torne imortal como Nós”. Deixemos agora de lado a parte fabulosa deste mito, e consideremos seu verdadeiro sentido, muito claro, por sinal. O homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu homem; ele começou sua história e seu desenvolvimento especificamente humano por um ato de desobediência e de ciência, isto é, pela revolta e pelo pensamento .

O sistema dos idealistas apresenta-nos inteiramente ao contrário. É a reviravolta absoluta de todas essas experiências humanas e deste bom senso universal e comum, que é a condição essencial de qualquer conhecimento humano, e que, partindo desta verdade tão simples, há tanto tempo reconhecida, que 2 mais 2 são 4, até às considerações científicas mais sublimes e mais complicadas, não admitindo, por sinal, nada que não seja severamente confirmado pela experiência e pela observação das coisas e dos fatos, constitui a única base séria dos conhecimentos humanos.

Concebe-se perfeitamente o desenvolvimento sucessivo do mundo material, tanto quanto o da vida orgânica, animal, e da inteligência historicamente progressiva do homem, individual ou social. É um movimento completamente natural, do simples ao composto, de baixo para cima, ou do inferior ao superior; um movimento conforme a todas as nossas experiências quotidianas e, consequentemente, conforme também à nossa lógica natural, às leis próprias de nosso espírito, que só se formam e só podem desenvolver-se com a ajuda destas mesmas experiências, que nada mais são senão sua reprodução mental, cerebral, ou o resumo ponderado.

Longe de seguir a via natural, de baixo para cima, do inferior ao superior, e do relativamente simples ao mais complicado; ao invés de admitir sabiamente, racionalmente, a transição progressiva e real do mundo denominado inorgânico ao mundo orgânico, vegetal, animal, em seguida especialmente humano; da matéria ou do ser químico à matéria ou ao ser vivo, e do ser vivo ao ser pensante, os idealistas, obsedados, cegos e impulsionados pelo fantasma divino que herdaram da teologia, tomam a via absolutamente contrária. Eles vão de cima para baixo, do superior ao inferior, do complicado ao simples. Eles começam por Deus, seja como pessoa, seja como substância ou idéia divina, e o primeiro passo que dão é uma terrível queda das alturas sublimes do eterno ideal na lama do mundo material: da perfeição absoluta na imperfeição absoluta; do pensamento ao ser, ou ainda, do Ser Supremo ao Nada. Quando, como o por que o Ser divino, eterno, infinito, o perfeito absoluto, provavelmente entediado de si mesmo, decidiu-se a esse salto mortal desesperado, eis o que nenhum idealista, nem teólogo, nem metafísico, nem poeta, jamais soube compreender, nem explicar aos profanos. Todas as religiões passadas e presentes e todos os sistemas de filosofia transcendentes apoiam-se nesse único e iníquo mistério[‘].

Santos homens, legisladores inspirados, profetas e messias, procuraram lá a vida e só encontraram a tortura e a morte. Assim como a esfinge antiga, ele os devorou, porque não souberam explicar esse mistério. Grandes filósofos, desde Heráclito e Platão até Descartes, Spinoza, Leibnitz, Kant, Fichte, Schelling e Hegel, sem falar dos filósofos hindus, escreveram amontoados de volumes e criaram sistemas tão engenhosos quanto sublimes, nos quais disseram passagens muito belas, e grandes coisas, e descobriram verdades imortais, mas deixaram este mistério, objeto principal de suas investigações transcendentes, tão insondável quanto antes deles.

Os esforços gigantescos dos mais admiráveis gênios que o mundo conhece, e que, uns após outros, durante trinta séculos pelo menos, empreenderam sempre esse trabalho de Sísifo, só conseguiram tornar este mistério mais incompreensível ainda. Podemos esperar que ele nos seja desvendado pelas especulações rotineiras de algum pedante discípulo de uma metafísica artificialmente requentada, numa época em que todos os espíritos vivos e sérios desviaram-se dessa ciência equivoca, saída de uma transação entre o contra-senso da fé e a sadia razão científica? É evidente que esse terrível mistério é inexplicável, isto é, absurdo, e absurdo porque não se deixa explicar. E evidente que alguém que dele necessite para sua felicidade, para sua vida, deve renunciar à sua razão e retornar, caso seja possível, à fé ingênua, cega, estúpida; repetir com Tertuliano e com todos os crentes sinceros estas palavras que resumem a própria quintessência da teologia: Credo quja absurdum.

Nesse caso cessa toda a discussão e só resta a estupidez triunfante da fé. Mas logo em seguida surge uma outra pergunta: Como pode nascer, em um homem inteligente e instruído, a necessidade de crer nesse mistério? Que a crença em Deus, criador, ordenador, juiz, senhor, amaldiçoador, salvador e benfeitor do mundo, tenha se conservado no povo, e sobretudo nas populações rurais, muito mais do que no proletariado das cidades, nada mais natural.

O povo, infelizmente, é ainda muito ignorante e mantido na ignorância pelos esforços sistemáticos de todos os governos que consideram isso, com muita razão, como uma das condições essenciais de seu próprio poder. Esmagado por seu trabalho quotidiano, privado de lazer, de comércio intelectual, de leitura, enfim, de quase todos os meios e de uma boa parte dos estímulos que desenvolvem a reflexão nos homens, o povo aceita, na maioria das vezes, sem crítica e em bloco, as tradições religiosas. Elas o envolvem desde a primeira idade, em todas as circunstâncias de sua vida, artificialmente mantidas em seu seio por uma multidão de corruptores oficiais de todos os tipos, padres e leigos, elas se transformam entre eles em um tipo de hábito mental, freqüentemente mais poderoso do que seu bom senso natural.

Há uma outra razão que explica e legitima de certo modo as crenças absurdas do povo. Esta razão é a situação miserável à qual ele se encontra fatalmente condenado pela organização econômica da sociedade, nos países mais civilizados da Europa. Reduzido, sob o aspecto intelectual e moral, tanto quanto sob o aspecto material, ao mínimo de uma existência humana, recluso em sua vida como um prisioneiro em sua prisão, sem horizontes, sem saída, até mesmo sem futuro, se se acredita nos economistas, o povo deveria ter a alma singularmente estreita e o instinto aviltado dos burgueses para não sentir a necessidade de sair disso; mas, para isso, há somente três meios: dois fantásticos, e o terceiro real. Os dois primeiros são o cabaré e a igreja; o terceiro é a revolução social. Esta última, muito mais que a propaganda antiteológica dos livres-pensadores, será capaz de destruir as crenças religiosas e os hábitos de libertinagem no povo, crenças e hábitos que estão mais intimamente ligados do que se pensa. Substituindo os gozos simultaneamente ilusórios e brutais da orgia corporal e espiritual pelos gozos tão delicados quanto ricos da humanidade desenvolvida em cada um e em todos, a revolução social terá a força de fechar ao mesmo tempo todos os cabarés e todas as igrejas. Até lá, o povo, considerado em massa, crerá, e se não tem razão de crer, pelo menos terá o direito de fazê-lo .

Há uma categoria de pessoas que, se não crêem, devem pelo menos fazer de conta que sim. São todos os atormentadores, os opressores, os exploradores da humanidade: padres, monarcas, homens de Estado, homens de guerra, financistas públicos e privados, funcionários de todos os tipos, soldados, policiais, carcereiros e carrascos, capitalistas, aproveitadores, empresários e proprietários, advogados, economistas, políticos de todas as cores, até o último vendedor de especiarias, todos repetirão em uníssono essas palavras de Voltaire: “Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo”. Vós compreendeis, “é preciso uma religião para o povo”. E a válvula de escape. Há também um número de almas honestas, mas fracas, que, muito inteligentes para levar os dogmas cristãos a sério, rejeita-os a retalho, mas não têm a coragem, nem a força, nem a resolução necessária para repeli-los por atacado. Elas abandonam à crítica todos os absurdos particulares da religião, elas desdenham de todos os milagres, mas se agarram desesperadamente ao absurdo principal, fontes de todos os outros, ao milagre que explica e legitima todos os outros milagres, à existência de Deus.

Seu Deus não é, em nada, o Ser vigoroso e potente, o Deus totalmente positivo da teologia. E um ser nebuloso, diáfano, ilusório, de tal forma ilusório que se transforma em Nada quando se acredita tê-lo agarrado; é uma miragem, uma pequena chama que não aquece nem ilumina. E entretanto elas se prendem a ele, e acreditam que se ele desaparecesse, tudo desapareceria com ele. São almas incertas, doentes, desorientadas na civilização atual, não pertencendo nem ao presente nem ao futuro, pálidos fantasmas eternamente suspensos entre o céu e a terra, e ocupando, entre a política burguesa e o socialismo do proletariado, absolutamente a mesma posição. Elas não seu tem força para pensar até o fim, nem para querer, nem para se decidir, e perdem seu tempo e sua ocupação esforçando-se sempre em conciliar o inconciliável. Na vida pública, estas pessoas se chamam socialistas burgueses .

Nenhuma discussão é possível com elas. Elas são muito doentes.

Mas há um pequeno número de homens ilustres, dos quais ninguém ousará falar sem respeito, e dos quais nada poderá colocar em dúvida nem a saúde vigorosa, nem a força de espírito, nem a boa fé. Basta que eu cite os nomes de Mazzini, Michelet, Quinet, John Stuart Mill [2] Almas generosas e fortes, grandes corações, grandes espíritos, grandes escritores, o primeiro, regenerador heróico e revolucionário de uma grande nação, são todos apóstolos do idealismo, e desprezadores, adversários apaixonados do materialismo, e, consequentemente, do socialismo, em filosofia tanto quanto em política. É pois contra eles que é preciso discutir esta questão.

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Constatemos inicialmente que nenhum dos homens ilustres que acabo de citar, nem qualquer outro pensador idealista com alguma importância em nossos dias ocupou-se, para dizer a verdade, com a parte lógica desta questão. Nenhum tentou resolver filosoficamente a possibilidade do salto mortal divino das regiões eternas e puras do espírito à lama do mundo material. Será que eles temeram abordar esta insolúvel contradição e se desesperaram de resolvê-la, depois que os maiores gênios da história fracassaram, ou será que eles a consideraram como já suficientemente resolvida? É segredo deles. O fato é que eles deixaram de lado a demonstração teórica da existência de um Deus, e só desenvolveram suas razões e conseqüências práticas. Eles falaram dele como de um fato universalmente aceito e, como tal, não podendo mais tornar-se objeto de uma dúvida qualquer, limitando-se, contra qualquer prova, a constatar a antigüidade e mesmo a universalidade da crença em Deus .
Esta unanimidade imponente, segundo a opinião de muitos homens e escritores ilustres, e, para citar apenas os mais renomados dentre eles, Joseph de Maistre e o grande patriota italiano Giuseppe Mazzini, vale mais do que todas as demonstrações da ciência; e, se a lógica de um pequeno número de pensadores conseqüentes e mesmo muito influentes, mas isolados, lhe é contrária, tanto pior, dizem eles, para estes pensadores e para sua lógica, pois o consentimento geral, a adoção universal e antiga de uma idéia foram sempre consideradas como a prova mais vitoriosa de sua verdade.

O sentimento de todo o mundo, uma convicção que é encontrada e se mantém sempre e em todos os lugares não poderia se enganar; eles devem ter sua raiz numa necessidade absolutamente inerente à própria natureza do homem. E visto que foi constatado que todos os povos passados e presentes acreditaram e acreditam na existência de Deus, é evidente que aqueles que têm a infelicidade de duvidar disso, qualquer que seja a lógica que os tenha levado a esta dúvida, são exceções, anomalias, monstros. Assim, pois, a antigüidade e a universalidade de uma crença seriam, contra toda ciência e contra toda lógica, uma prova suficiente e irrecusável de sua verdade. Por quê? Até o século de Galileu e de Copérnico, todo mundo acreditava que o sol girava em torno da terra.

Todo mundo não estava errado? O que há de mais antigo e de mais universal do que a escravidão? A antropofagia, talvez. Desde a origem da sociedade histórica, até nossos dias, sempre houve, e em todos os lugares, exploração do trabalho forçado das massas, escravos, servos ou assalariados, por alguma minoria dominante, opressão dos povos pela Igreja e pelo Estado. Deve-se concluir que esta exploração e esta opressão sejam necessidades absolutamente inerentes à própria existência da sociedade humana? Eis alguns exemplos que mostram que a argumentação dos advogados do bom Deus nada prova. Nada é, com efeito, nem tão universal nem tão antigo quanto o iníquo e o absurdo; é ao contrário a verdade, a justiça que, no desenvolvimento das sociedades humanas, aio as menos universais e as mais jovens. Assim se explica, por sinal, um fenômeno histórico constante: as perseguições àqueles que proclamam a primazia da verdade, por parte dos representantes oficiais, privilegiados e interessados pelas crenças “universais” e “antigas”, e freqüentemente também por parte destas mesmas massas populares que, após tê-los inicialmente desconhecido, acabam sempre por adotar e por fazer triunfar suas idéias.

Para nós, materialistas e socialistas revolucionários, não há nada que nos surpreenda e nos amedronte nesse fenômeno histórico.

Fortalecidos em nossa consciência, em nosso amor pela verdade, por esta paixão lógica que por si só constitui uma grande força, e fora da qual não há pensamento; fortalecidos em nossa paixão pela justiça e em nossa fé inquebrantável no triunfo da humanidade sobre todas as bestialidades teóricas e práticas; fortalecidos, enfim, em nossa confiança e no apoio mútuo que se dá o pequeno número daqueles que compartilham nossas convicções, nós nos resignamos por nós mesmos a todas as conseqüências desse fenômeno histórico no qual vemos a manifestação de uma lei social tão invariável quanto todas as outras leis que governam o mundo.

Esta lei é uma conseqüência lógica, inevitável, da origem animal da sociedade humana; e diante de todas as provas científicas, fisiológicas, psicológicas, históricas, que se acumularam em nossos dias, assim como diante das façanhas dos alemães conquistadores da França, que dão uma demonstração tão ruidosa, não é mais possível, realmente, duvidar disso. Mas, do momento em que se aceita esta origem animal do homem, tudo se explica. A história nos aparece então como a negação revolucionária, ora lenta, apática, adormecida, ora apaixonada e possante, do passado. Ela consiste precisamente na negação progressiva da animalidade primitiva do homem pelo desenvolvimento de sua humanidade. O homem, animal feroz, primo do gorila, partiu da noite profunda do instinto animal para chegar à luz do espírito, o que explica de uma maneira completamente natural todas as suas divagações passadas e nos consola em parte de seus erros presentes. Ele partiu da escravidão animal, e atravessando a escravidão divina, termo transitório entre sua animalidade e sua humanidade, caminha hoje rumo à conquista e à realização da liberdade humana.

Resulta daí que a antigüidade de uma crença, de uma idéia, longe de provar alguma coisa em seu favor, deve, ao contrário, torná-la suspeita para nós. Isto porque atrás de nós está nossa animalidade, e diante de nós nossa humanidade; a luz humana, a única que pode nos aquecer e nos iluminar, a única que nos pode emancipar, tornar-nos dignos, livres, felizes, e realizar a fraternidade entre nós, jamais está no princípio, mas, relativamente, na época em que se vive, e sempre no fim da história. Não olhemos jamais para trás, olhemos sempre para a frente; à frente está nosso sol, nossa salvação; se nos é permitido, se é mesmo útil, necessário nos virarmos para o estudo de nosso passado, é apenas para constatar o que fomos e o que não devemos mais ser, o que acreditamos e pensamos, e o que não devemos mais acreditar nem pensar, o que fizemos e o que nunca mais deveremos fazer. Eis o que concerne à antigüidade.

Quanto à universalidade de um erro, ela só prova uma coisa: a semelhança, senão a perfeita identidade da natureza humana, em todos os tempos e sob todos os climas. E, visto que está constatado que todos os povos, em todas as épocas de sua vida, acreditaram e acreditam ainda em Deus, devemos concluir disso, simplesmente, que a idéia divina, emanada de nós mesmos, é um erro historicamente necessário no desenvolvimento da humanidade, e nos perguntarmos por que, como ele foi produzido na história, por que a imensa maioria da espécie humana o aceita, ainda hoje, como uma verdade? Enquanto não soubermos dar-nos conta da maneira como a idéia de um mundo sobrenatural e divino se produziu, e pôde fatalmente se produzir no desenvolvimento histórico da consciência humana, de nada adiantará estarmos cientificamente convencidos do absurdo desta idéia, não conseguiremos nunca destruí-la na opinião da maioria, porque não saberemos jamais atacá-la nas profundezas do ser humano, onde ela se originou. Condenados a uma esterilidade sem saída e sem fim, devemos sempre contentar-nos em combatê-la somente à superfície, em suas inúmeras manifestações, cujo absurdo, tão logo abatido pelos golpes do bom senso, renasce imediatamente após, sob uma nova forma, não menos insensata.

Enquanto a raiz de todos os absurdos que atormentam o mundo não for destruída, a crença em Deus permanecerá intacta e jamais deixará de produzir novos brotos. E assim que, em nossos dias, em certas regiões da alta sociedade, o espiritismo tende a se instalar sobre as ruínas do cristianismo. Não é somente no interesse das massas, é no interesse da saúde de nosso próprio espírito que devemos nos esforçar para compreender a gênese histórica, a sucessão das causas que desenvolveram e produziram a idéia de Deus na consciência dos homens. De nada adianta nos dizermos e nos considerarmos ateus; enquanto não tivermos compreendido essas causas, nos deixaremos sempre mais ou menos dominar pelos clamores dessa consciência universal, da qual não teremos descoberto o segredo, e dada a fraqueza natural do indivíduo, mesmo do mais forte, contra a influência todo-poderosa do meio social que o entrava, corremos sempre o risco de recair, cedo ou tarde, de uma maneira ou de outra, no abismo do absurdo religioso. Os exemplos dessas conversões vergonhosas são freqüentes na sociedade atual.

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Falei da razão prática principal do poder exercido ainda hoje pelas crenças religiosas sobre as massas. Essas disposições místicas não denotam no homem somente uma aberração do espírito, mas um profundo descontentamento do coração. E o protesto instintivo e apaixonado do ser humano contra as estreitezas, as vulgaridades, as dores e as vergonhas de uma existência miserável. Contra esta doença, já disse, só há um único remédio: a Revolução Social. Em outros escritos me preocupei em expor as causas que presidiram ao nascimento e ao desenvolvimento histórico das alucinações religiosas na consciência do homem. E aqui quero tratar desta questão da existência de um Deus, ou da origem divina do mundo e do homem sob o ponto de vista de sua utilidade moral e social, e direi poucas palavras sobre a razão teórica desta crença, a fim de melhor explicar meu pensamento .

Todas as religiões, com seus deuses, seus semideuses e seus profetas, seus messias e seus santos, foram criadas pela fantasia crédula do homem, que ainda não alcançou o pleno desenvolvimento e a plena possessão de suas faculdades intelectuais. Em conseqüência, o céu religioso nada mais é do que uma miragem onde o homem, exaltado pela ignorância pela fé, encontra sua própria imagem, mas ampliada e invertida, isto é, divinizada. A história das religiões, a do nascimento, da grandeza e da decadência dos deuses que se se sucederam na crença humana, não é nada mais do que o desenvolvimento da inteligência e da consciência coletivas homens.

À medida que, em sua marcha histórica progressiva, eles descobriam, seja neles próprios, seja na natureza exterior, uma força, uma qualidade, ou mesmo grande defeito quaisquer, eles os atribuíam a seus deuses após tê-los exagerado, ampliado desmedidamente, como fazem habitualmente as crianças, por um ato de sua fantasia religiosa. Graças a esta modéstia e a esta piedosa generosidade dos homens, crentes e crédulos, o céu se enriqueceu com os despojos da terra, e, por conseqüência necessária, quanto mais o céu se tornava rico, mais a humanidade e a terra se tornavam miseráveis. Uma vez instalada a divindade, ela foi naturalmente proclamada a causa, a razão, o árbitro e o distribuidor absoluto de todas as coisas: o mundo não foi mais nada, ela foi tudo; e o homem, seu verdadeiro criador, após tê-la tirado do nada sem o saber, ajoelhou-se diante dela, adorou-a e se proclamou sua criatura e seu escravo.

O cristianismo é precisamente a religião por excelência, porque ele expõe e manifesta, em sua plenitude, a natureza, a própria essência de todo o sistema religioso, que é empobrecimento, a escravização e o aniquilamento da humanidade em proveito da divindade. Deus sendo tudo, o mundo real e o homem não são nada. Deus sendo a verdade, a justiça, o bem, o belo, a força e a vida, o homem é a mentira, a iniqüidade, o mal, a feiúra, a impotência e a morte. Deus sendo o senhor, o homem é o escravo. Incapaz de encontrar por si próprio a justiça, a verdade e a vida eterna, ele só pode alcançar isso por meio de uma revelação divina. Mas quem diz revelação diz reveladores, messias, profetas, padres e legisladores inspirados pelo próprio Deus; e estes, uma vez reconhecidos como os representantes da divindade sobre a terra, como os santos instituidores da humanidade, eleitos pelo próprio Deus para dirigi-la em direção à via da salvação, exercem necessariamente um poder absoluto. Todos os homens lhes devem uma obediência passiva e ilimitada, pois contra a razão divina não há razão humana, e contra a justiça de Deus não há justiça terrestre que se mantenha.

Escravos de Deus, os homens devem sê-lo também da Igreja e do Estado, enquanto este último for consagrado pela Igreja. Eis o que de todas as religiões que existem ou que existiram, o cristianismo compreendeu melhor do que as outras, sem excetuar a maioria das antigas religiões orientais, as quais só abarcaram povos distintos e privilegiados, enquanto que o cristianismo tem a pretensão de abarcar a humanidade inteira; eis o que, de todas as seitas cristãs, o catolicismo romano, sozinho, proclamou e realizou com uma conseqüência rigorosa .
É por isso que o cristianismo é a religião absoluta, a última religião, é por isso que a Igreja apostólica e romana é a única conseqüente, a única lógica. A despeito dos metafísicos e dos idealistas religiosos, filósofos, políticos ou poetas, a idéia de Deus implica a abdicação da razão e da justiça humanas; ela é a negação mais decisiva da liberdade humana e resulta necessariamente na escravidão dos homens, tanto na teoria quanto na prática. A não ser que queiramos a escravidão e o envilecimento dos homens, como o querem os jesuítas, como o querem os mômiers [3], os pietistas[4] e os metodistas protestantes, não podemos nem devemos fazer a mínima concessão, nem ao Deus da teologia nem ao da metafísica. Aquele que, neste alfabeto místico, começa por Deus, deverá fatalmente acabar por Deus; aquele que quer adorar Deus, deve, sem se pôr ilusões pueris, renunciar bravamente à sua liberdade e à sua humanidade. Se Deus é, o homem é escravo; ora, o homem pode, deve ser livre, portanto, Deus não existe. Desafio quem quer que seja para sair deste circulo, e agora que se escolha.

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É preciso lembrar quanto e como as religiões embrutecem e corrompem os povos? Elas matam neles a razão, o principal instrumento da emancipação humana e os reduzem à imbecilidade, condição essencial da escravidão. Elas desonram o trabalho humano e fazem dele sinal e fonte de servidão. Elas matam a noção e o sentimento da justiça humana, fazendo sempre pender a balança para o lado dos patifes triunfantes, objetos privilegiados da graça divina. Elas matam o orgulho e a dignidade humana, protegendo apenas a submissos e os humildes. Elas sufocam no coração dos povos todo sentimento de fraternidade humana, preenchendo-o de crueldade. Todas as religiões são cruéis, todas são fundadas sobre o sangue, visto que todas repousam principalmente sobre a idéia do sacrifício, isto é, sobre a imolação perpétua da humanidade à insaciável vingança da divindade. Neste sangrento mistério, o homem é sempre a vítima, e o padre, homem também, mas homem privilegiado pela graça, é o divino carrasco. Isto nos explica por que os padres de todas as religiões, os melhores, os mais humanos, os mais doces, têm quase sempre no fundo de seu coração – senão no coração, pelo menos em sua imaginação, em seu espírito – alguma coisa de cruel e de sanguinário.

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Tudo isso, nossos ilustres idealistas contemporâneos sabem melhor do que ninguém. São homens sábios, que conhecem sua história de memória; e como eles são ao mesmo tempo homens vivos, grandes almas penetradas de um amor sincero e profundo pelo bem da humanidade, eles amaldiçoaram e estigmatizaram todas estas malfeitorias, todos estes crimes da religião com uma eloqüência sem igual. Eles rejeitam com indignação toda solidariedade com o Deus das religiões positivas e com seus representantes passados e presentes sobre a terra. O Deus que eles adoram, ou que eles pensam adorar, distingue-se precisamente dos deuses reais da história por não ser um Deus positivo, determinado da maneira que se quiser, teologicamente, ou até mesmo metafisicamente. Não 6 nem o Ser supremo de Robespierre e de Rousseau, nem o deus panteísta de Spinoza, nem mesmo o deus, ao mesmo tempo inocente, transcedente e muito equívoco de Hegel. Eles tomam cuidado de lhe dar uma determinação positiva qualquer, sentindo muito bem que toda determinação o submeteria à ação dissolvente da crítica. Eles não dirão se ele é um deus pessoal ou impessoal, se ele criou ou não criou o mundo; sequer falarão de sua divina providência .

Tudo isso poderia comprometê-lo. Eles se contentarão em dizê-lo: Deus, e nada mais do que isso. Mas então o que é seu deus? Não é sequer uma idéia, é uma aspiração. É o nome genérico de tudo o que parece grande, bom, belo, nobre, humano. Mas por que não dizem então: o homem? Ah! E que o rei Guilherme da Prússia e Napoleão III, e todos os idênticos a eles são igualmente homens: eis o que os embaraça muito. A humanidade real nos apresenta um conjunto de tudo o que há de mais vil e de mais monstruoso no mundo. Como sair disso? Eles chamam um de divino e o outro de bestial, representando a divindade e a animalidade como dois pólos entre os quais eles situam a humanidade. Eles não querem ou não podem compreender que estes três termos formam um único, e que se os separarmos, nós os destruímos. Eles não são bons em lógica, e dir-se-ia que a desprezam. E isso que os distingue dos metafísicos panteístas e deístas, e o que imprime às suas idéias o caráter de um idealismo prático, buscando suas inspirações menos no desenvolvimento severo de um pensamento do que nas experiências, direi, quase nas emoções, tanto históricas e coletivas quanto individuais, da vida. Isto dá à sua propaganda uma aparência de riqueza e de potência vital, mas aparência somente, pois a vida se torna estéril quando é paralisada por uma contradição lógica. Esta contradição é a seguinte: eles querem Deus e querem a humanidade. Obstinam-se em colocar juntos dois termos que, uma vez separados, só podem se reencontrar para se entredestruir.

Eles dizem de uma só vez: Deus e a liberdade do homem, Deus e a dignidade, a justiça, a igualdade, a fraternidade, a prosperidade dos homens, sem se preocupar com a lógica fatal, em virtude da qual, se Deus existe, ele é necessariamente o senhor eterno, supremo, absoluto, e se este senhor existe, o homem é escravo; se ele é escravo, não há justiça, nem igualdade, nem fraternidade, nem prosperidade possível. De nada adiantará, contrariamente ao bom senso e a todas as experiências da história, eles representarem seu Deus animado do mais doce amor pela liberdade humana: um senhor, por mais que ele faça e por mais liberal que queira se mostrar, jamais deixa de ser, por isso, um senhor. Sua existência implica necessariamente a escravidão de tudo o que se encontra debaixo dele. Assim, se Deus existisse, só haveria para ele um único meio de servir à liberdade humana; seria o de cessar de existir .

Amoroso e ciumento da liberdade humana e considerando-a como a condição absoluta de tudo o que adoramos e respeitamos na humanidade, inverto a frase de Voltaire e digo que, se Deus existisse, seria preciso aboli-lo.

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A severa lógica que me dita estas palavras é muito evidente para que eu necessite desenvolver esta argumentação. E me parece impossível que os homens ilustres, dos quais citei os nomes tão célebres e tão justamente respeitados não tenham sido tocados e não tenham percebido a contradição na qual eles caem ao falar de Deus e da liberdade humana simultaneamente. Para que tenham passado ao longo do problema, foi preciso que tivessem pensado que esta inconseqüência ou esta injustiça fosse, na prática, necessária para o próprio bem da humanidade .
Talvez, também, ao falar da liberdade como de uma coisa que é para eles respeitável e cara, eles a compreendam completamente diferente da que concebemos, nós, materialistas e socialistas revolucionários. Com efeito, eles não faiam jamais dela sem acrescentar imediatamente uma outra palavra, a da autoridade, uma palavra e uma coisa que detestamos com toda a força de nosso coração.

O que é a autoridade? E a força inevitável das leis naturais que se manifestam no encadeamento e na sucessão fatal dos fenômenos do mundo físico e do mundo social? Efetivamente, contra estas leis, a revolta é não somente proibida, é também impossível. Podemos conhecê-las mal, ou ainda não conhecê-las, mas não podemos desobedecê-las porque elas constituem a base e as próprias condições de nossa existência: elas nos envolvem, nos penetram, regulam todos os nossos movimentos, pensamentos e atos; mesmo quando pensamos desobedecê-las, não fazemos outra coisa que manifestar sua onipotência. Sim, somos absolutamente escravos destas leis. Mas nada há de humilhante nesta escravidão. A escravidão supõe um senhor exterior, um legislador que se situe fora daquele ao qual comanda; enquanto as leis não estão fora de nós, elas nos são inerentes, constituem nosso ser, todo nosso ser, corporal, intelectual e moralmente: só vivemos, só respiramos, só agimos, só pensamos, só queremos através delas. Fora delas não somos nada, não somos. i)e onde nos viria então o poder e o querer de nos revoltarmos contra elas? Em relação às leis naturais, só há, para o homem, uma única liberdade possível: reconhecê-las e aplicá-las cada vez mais, conforme o objetivo de emancipação ou de humanização coletiva e individual que ele persegue. Estas leis, uma vez reconhecidas, exercem uma autoridade que jamais é discutida pela massa dos homens. E preciso, por exemplo, ser, no fundo, um teólogo ou um economista burguês para se revoltar contra esta lei, segundo a qual dois mais dois são quatro. E preciso ter fé para pensar que não nos queimaríamos no fogo e que não nos afogaríamos na água, a menos que tenhamos recorrido a algum subterfúgio, fundado sobre qualquer outra lei natural. Mas estas revoltas, ou melhor, estas tentativas ou estas loucas fantasias de uma revolta impossível não formam mais do que uma exceção bastante rara, pois, em geral, se pode dizer que a massa dos homens, na vida quotidiana, se deixa governar pelo bom senso, o que significa dizer, pela soma das leis naturais geralmente reconhecidas, de maneira mais ou menos absoluta .

A infelicidade é que grande quantidade de leis naturais já constatadas como tais pela ciência, permanecem desconhecidas das massas populares, graças aos cuidados desses governos tutelares que só existem, como se sabe, para o bem dos povos. Há, além disso, um grande inconveniente: é que a maior parte das leis naturais, que estão ligadas ao desenvolvimento da sociedade humana e são tão necessárias, invariáveis, quanto as leis que governam o mundo físico, não foram devidamente constatadas e reconhecidas pela própria ciência [5].

Uma vez tivessem elas sido reconhecidas pela ciência, e que da ciência, através de um amplo sistema de educação e de instrução popular, elas passassem à consciência de todos, a questão da liberdade estaria perfeitamente resolvida. As autoridades mais recalcitrantes devem admitir que aí então não haverá necessidade de organização, nem de direção nem de legislação políticas, três coisas que emanam da vontade do soberano ou da votação de um parlamento eleito pelo sufrágio universal, jamais podendo estar conformes às leis naturais, e são sempre igualmente funestas e contrárias à liberdade das massas, visto que elas lhes impõem um sistema de leis exteriores, e consequentemente despóticas. A liberdade do homem consiste unicamente nisto: ele obedece às leis naturais porque ele próprio as reconheceu como tais, não porque elas lhe foram impostas exteriormente, por uma vontade estranha, divina ou humana, coletiva ou individual, qualquer.

Suponde uma academia de sábios, composta pelos representantes mais ilustres da ciência; imaginai que esta academia seja encarregada da legislação, da organização da sociedade, e que, inspirando-se apenas no amor da mais pura verdade, ela só dite leis absolutamente conforme às mais recentes descobertas da ciência. Pois bem, afirmo que esta legislação e esta organização serão uma monstruosidade, por duas razões: a primeira, é que a ciência humana é sempre necessariamente imperfeita, e que, comparando o que ela descobriu com o que ainda lhe resta a descobrir, pode-se dizer que está ainda em seu berço. De modo que, se quiséssemos forçar a vida prática dos homens, tanto coletivo quanto individual, a se conformar estritamente, exclusivamente, com os últimos dados da ciência, condenar-se-ia tanto a sociedade quanto os indivíduos a sofrer martírio sobre um leito de Procusto, que acabaria em breve por desarticulá-los e sufocá-los, ficando a vida sempre infinitamente maior do que a ciência.

A segunda razão é a seguinte: uma sociedade que obedecesse à legislação emanada de uma academia científica, não porque ela tivesse compreendido seu caráter racional – em cujo caso a existência da academia se tornaria inútil – mas porque esta legislação, emanando da academia, se imporia em nome de uma ciência que ela veneraria sem compreendê-la, tal sociedade não seria uma sociedade de homens, mais de brutos. Seria uma segunda edição dessas missões do Paraguai, que se deixaram governar durante tanto tempo pela Companhia de Jesus. Ela não deixaria de descer, em breve, ao mais baixo grau de idiotia .

as há ainda uma terceira razão que tornaria tal governo impossível. É que uma academia científica, revestida desta soberania por assim dizer absoluta, ainda que fosse composta pelos homens mais ilustres; acabaria infalivelmente, e em pouco tempo, por se corromper moral e intelectualmente. E atualmente, com o pouco de privilégios que lhes deixam, a história de todas as academias. O maior gênio científico, no momento em que se torna acadêmico, um sábio oficial, reconhecido, decai inevitavelmente e adormece. Perde sua espontaneidade, sua ousadia revolucionária, e a energia incômoda e selvagem que caracteriza a natureza dos maiores gênios, sempre chamada a destruir os mundos envelhecidos e a lançar os fundamentos dos novos mundos. Ganha sem dúvida em polidez, em sabedoria utilitária e prática, o que perde em força de pensamento. Numa palavra, ele se corrompe. É próprio do privilégio e de toda posição privilegiada matar o espírito e o coração dos homens. O homem privilegiado, seja política, seja economicamente, é um homem depravado de espírito e de coração. Eis uma lei social que não admite nenhuma exceção e que se aplica tanto a nações inteiras quanto às classes, companhias e indivíduos. E a lei da igualdade, condição suprema da liberdade e da humanidade.

O objetivo principal deste estudo é precisamente demonstrar esta verdade em todas as manifestações da vida humana. Um corpo científico, ao qual se tivesse confiado o governo da sociedade, acabaria logo por deixar de lado a ciência, ocupando-se de outro assunto; e este assunto, o de todos os poderes estabelecidos, seria sua eternização, tornando a sociedade confiada a seus cuidados cada vez mais estúpida e, por conseqüência, mais necessitada de seu governo e de sua direção. Mas o que é verdade para as academias científicas, o é igualmente para todas as assembléias constituintes e legislativas, mesmo quando emanadas do sufrágio universal. Este último pode renovar sua composição, é verdade, o que não impede que se forme, em alguns anos, um corpo de políticos, privilegiados de fato, não de direito, que, dedicando-se exclusivamente à direção dos assuntos públicos de um pais, acabem por formar um tipo de aristocracia ou de oligarquia política .
Vejam os Estados Unidos e a Suíça. Assim,. nada de legislação exterior e nada de autoridade, uma, por sinal, sendo inseparável da outra, e todas as duas tendendo à escravização da sociedade e ao embrutecimento dos próprios legisladores.

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Decorre daí que rejeito toda autoridade? Longe de mim este pensamento .

Quando se trata de botas, apelo para a autoridade dos sapateiros; se se trata de uma casa, de um canal ou de uma ferrovia, consulto a do arquiteto ou a do engenheiro. Por tal ciência especial, dirijo-me a este ou àquele cientista. Mas não deixo que me imponham nem o sapateiro, nem o arquiteto, nem o cientista. Eu os aceito livremente e com todo o respeito que me merecem sua inteligência, seu caráter, seu saber, reservando todavia meu direito incontestável de crítica e de controle. Não me contento em consultar uma única autoridade especialista, consulto várias; comparo suas opiniões, e escolho aquela que me parece a mais justa .

Mas não reconheço nenhuma autoridade infalível, mesmo nas questões especiais; consequentemente, qualquer que seja o respeito que eu possa ter pela humanidade e pela sinceridade desse ou daquele indivíduo, não tenho fé absoluta em ninguém. Tal fé seria fatal à minha razão, à minha liberdade e ao próprio sucesso de minhas ações; ela me transformaria imediatamente num escravo estúpido, num instrumento da vontade e dos interesses de outrem. Se me inclino diante da autoridade dos especialistas, e se me declaro pronto a segui-la, numa certa medida e durante todo o tempo que isso me pareça necessário, suas indicações e mesmo sua direção, é porque esta autoridade não me é imposta por ninguém, nem pelos homens, nem por Deus. De outra forma as rejeitaria com horror, e mandaria ao diabo seus conselhos, sua direção e seus serviços, certo de que eles me fariam pagar, pela perda de minha liberdade e de minha dignidade, as migalhas de verdade, envoltas em muitas mentiras que poderiam me dar. Inclino-me diante da autoridade dos homens especiais porque ela me é imposta por minha própria razão. Tenho consciência de só poder abraçar, em todos os seus detalhes e seus desenvolvimentos positivos, uma parte muito pequena da ciência humana. A maior inteligência não bastaria para abraçar tudo. Daí resulta, tanto para a ciência quanto para a indústria, a necessidade da divisão e da associação do trabalho. Recebo e dou, tal é a vida humana. Cada um é dirigente e cada um é dirigido por sua vez .

Assim, não há nenhuma autoridade fixa e constante, mas uma troca contínua de autoridade e de subordinação mútuas, passageiras e sobretudo voluntárias. Esta mesma razão me proíbe, pois, de reconhecer uma autoridade fixa, constante e universal, porque não há homem universal, homem que seja capaz de aplicar sua inteligência, nesta riqueza de detalhes sem a qual a aplicação da ciência a vida não é absolutamente possível, a todas as ciências, a todos os ramos da atividade social. E, se uma tal universalidade pudesse ser realizada em um único homem, e se ele quisesse se aproveitar disso para nos impor sua autoridade, seria preciso expulsar esse homem da sociedade, visto que sua autoridade reduziria inevitavelmente todos os outros à escravidão e à imbecilidade. Não penso que a sociedade deva maltratar os gênios como ela o fez até o presente momento; mas também não acho que os deva adular demais, nem lhes conceder quaisquer privilégios ou direitos exclusivos; e isto por três razões; inicialmente porque aconteceria com freqüência de ela tomar um charlatão por um gênio; em seguida porque, graças a este sistema de privilégios, ela poderia transformar um verdadeiro gênio num charlatão, desmoralizá-lo, animalizá-lo; e, enfim, porque ela daria a si um senhor .
Resumindo.

Reconhecemos, pois, a autoridade absoluta da ciência porque ela tem como objeto único a reprodução mental, refletida e tão sistemática quanto possível, das leis naturais inerentes à vida material, intelectual e moral, tanto do mundo físico quanto do mundo social, sendo estes dois mundos, na realidade, um único e mesmo mundo natural. Fora desta autoridade exclusivamente legítima, pois que ela é racional e conforme à liberdade humana, declaramos todas as outras autoridades mentirosas, arbitrárias e funestas. Reconhecemos a autoridade absoluta da ciência, mas rejeitamos a infalibilidade e a universalidade do cientista. Em nossa igreja – que me seja permitido servir-me por um momento desta expressão que por sinal detesto: a igreja e o Estado são minhas duas ovelhas negras; em nossa Igreja, como na Igreja protestante, temos um chefe, um Cristo invisível, a ciência; e como os protestantes, até mais conseqüentes do que os protestantes, não queremos tolerar nem o papa, nem o concilio, nem conclaves de cardeais infalíveis, nem bispos, nem mesmo padres. Nosso Cristo se distingue do Cristo protestante no fato de este último ser um Cristo pessoal, enquanto o nosso é impessoal; o Cristo cristão, já realizado num passado eterno, apresenta-se como um ser perfeito, enquanto a realização e a perfeição de nosso Cristo, a ciência, estão sempre no futuro: o que equivale a dizer que elas jamais se realizarão .

Ao não reconhecer outra autoridade absoluta que não seja a da ciência absoluta, não comprometemos de forma alguma nossa liberdade. Entendo por ciência absoluta a ciência realmente universal, que reproduziria idealmente, em toda a sua extensão e em todos os seus detalhes infinitos, o universo, o sistema ou a coordenação de todas as leis naturais, manifestas pelo desenvolvimento incessante dos mundos. É evidente que esta ciência, objeto sublime de todos os esforços do espírito humano, jamais se realizará em sua plenitude absoluta. Nosso Cristo permanecerá pois eternamente inacabado, o que deve enfraquecer muito o orgulho de seus representantes titulados entre nós. Contra este Deus, filho, em nome do qual eles pretendiam nos impor sua autoridade insolente e pedantesca, recorremos a Deus pai, que é o mundo real, a vida real, do qual ele é apenas a expressão muito imperfeita, e do qual somos os representantes imediatos, nós, seres reais, vivendo, trabalhando, combatendo, amando, aspirando, gozando e sofrendo .

Numa palavra, rejeitamos toda legislação, toda autoridade e toda influência privilegiada, titulada, oficial e legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencido de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses da imensa maioria subjugada. Eis o sentido no qual somos realmente anarquistas.

* * *

Os idealistas modernos entendem a autoridade de uma maneira totalmente diferente. Ainda que livres das superstições tradicionais de todas as religiões positivas existentes, eles dão, todavia, a esta idéia de autoridade, um sentido divino, absoluto. Esta autoridade não é absolutamente a de uma verdade milagrosamente revelada, nem a de uma verdade rigorosa e cientificamente demonstrada. Eles a fundam sobre um pouco de argumentação quase-filosófica, e sobre muita fé vagamente religiosa, sobre muito sentimento e abstração poética. Sua religião é como uma última tentativa de divinização de tudo o que constitui a humanidade nos homens.

É bem o contrário da obra que realizamos. Em vista da liberdade, da dignidade e da prosperidade humanas, pensamos ter de retirar do céu os bens que ele roubou e queremos devolvê-los à terra. Eles, ao contrário, esforçando-se em cometer um último roubo religiosamente heróico, desejariam restituir ao céu, a este divino ladrão, tudo o que a humanidade tem de maior, de mais belo, de mais nobre. E a vez dos livre-pensadores pilharem o céu pela audaciosa impiedade de sua análise científica! Os idealistas acreditam, sem dúvida, que, para gozar de uma maior autoridade entre os homens, as idéias e as coisas humanas devem ser revestidas de uma sanção divina. Como se manifesta esta sanção? Não por um milagre, como nas religiões positivas, mas pela grandeza ou pela própria santidade das idéias e das coisas: o que é grande, o que e belo, o que é nobre, o que é justo, é divino. Neste novo culto religioso, todo homem que se inspira nestas idéias, nestas coisas, torna-se um padre, imediatamente consagrado pelo próprio Deus. E a prova? Não há necessidade disso; é a própria grandeza das idéias que ele exprime e das coisas que ele realiza. Elas são tão santas que só podem ter sido inspiradas por Deus.

Eis em poucas palavras toda a sua filosofia: filosofia de sentimentos, não de pensamentos reais, um tipo de pietismo metafísico. Isto parece inocente, mas não o é em absoluto, e a doutrina muito precisa, muito estreita e muito seca, que se esconde sob a onda inapreensível destas formas poéticas conduz aos mesmos resultados desastrosos de todas as religiões positivas: isto é, à mais completa negação da liberdade e da dignidade humanas. Proclamar como divino tudo o que se encontra de grande, de justo, de real, de belo, na humanidade, é reconhecer implicitamente que a humanidade, por si própria, teria sido incapaz de produzi-lo; isto significa dizer que abandonada a si própria, sua própria natureza é miserável, iníqua, vil e feia. Eis-nos de volta à essência de toda religião, isto é, à difamação da humanidade pela maior glória da divindade. E do momento em que a inferioridade natural do homem e sua incapacidade profunda de se levantar por si mesmo, fora de toda inspiração divina, até as idéias justas e verdadeiras, são admitidas, torna-se necessário admitir também todas as conseqüências teológicas, políticas e sociais das religiões positivas. No momento em que Deus, o Ser perfeito e supremo, posiciona-se em relação à humanidade, os intermediários divinos, os eleitos, os inspirados de Deus, saem da terra para esclarecer, dirigir e governar a espécie humana em seu nome. Não se poderia supor que todos os homens são igualmente inspirados por Deus? Neste caso não haveria, sem dúvida alguma, necessidade de intermediários. Mas esta suposição é impossível porque os fatos a contradizem sobremaneira. Seria preciso então atribuir à inspiração divina todos os absurdos e erros que se manifestam, e todos os horrores, as torpezas, as covardias e as imbecilidades que se cometem no mundo .

Só haveria, pois, poucos homens divinamente inspirados, os grandes homens da história, os gênios virtuosos, como dizia o ilustre cidadão e profeta italiano Giuseppe Mazzini. Imediatamente inspirados pelo próprio Deus e se apoiando sobre o consentimento universal expressado pelo sufrágio popular, Dio e Popolo, são eles que seriam chamados a governar as sociedades humanas[6]. Eis-nos de novo sob o jugo da Igreja e do Estado. E verdade que nesta nova organização, devida, como todas as organizações políticas antigas, à graça de Deus, é apoiada desta vez, pelo menos quanto à forma, à guisa de concessão necessária ao espírito moderno, e como nos preâmbulos dos decretos imperiais de Napoleão III, sobre a pretensa vontade do POVO, a Igreja não se chamará mais Igreja, ela se chama Escola. O que importa? Sobre os bancos desta Escola não estarão sentadas somente as crianças: haverá o eterno menor, o estudante para sempre reconhecido como incapaz de se apresentar a seus exames, de alcançar a ciência de seus mestres e de passar em sua disciplina: o povo.

O Estado não se chamará mais monarquia, chamar-se-á república, mas nem por isso deixará de ser Estado, isto é, uma tutela oficial e regularmente estabelecida por uma minoria de homens competentes, gênios, homens de talento ou de virtude, que vigiarão e dirigirão a conduta desta grande, incorrigível e terrível criança, o povo. Os professores da Escola e os funcionários do Estado chamar-se-ão republicanos; mas não deixarão de ser menos tutores, pastores, e o povo permanecerá o que foi eternamente até agora: um rebanho. Os tosquiados que se cuidem, pois onde há rebanho há necessariamente pastores para tosquiá-lo e comê-lo. O povo, neste sistema, será eterno estudante e pupilo. Apesar de sua soberania totalmente fictícia, ele continuará a servir de instrumento a pensamentos e vontades, e consequentemente também a interesses que não serão os seus. Entre esta situação e o que chamamos de liberdade, a única verdadeira liberdade, há um abismo. Será sob novas formas, a antiga opressão e a antiga escravidão; e onde há escravidão, há miséria, embrutecimento, a verdadeira materialização da sociedade, tanto das classes privilegiadas quanto das massas.

Divinizando as coisas humanas, os idealistas conseguem sempre o triunfo de um materialismo brutal. E isto por uma razão muito simples: este divino se evapora e sobe para sua pátria, o céu, e só o brutal permanece realmente sobre a terra. Perguntei um dia a Mazzini que medidas seriam tomadas para a emancipação do povo tão logo sua república unitária triunfante se estabelecesse definitivamente. “A primeira medida, disse-me, será a fundação de escolas para o povo.” – E o que será ensinado ao povo nestas escolas? “Os deveres do homem, o sacrifício e a abnegação.” – Mas onde ireis buscar um número suficiente de professores para ensinar estas coisas que ninguém tem o direito nem o poder de ensinar, se não se dá o exemplo? O número dos homens que encontram no sacrifício e na dedicação uma satisfação suprema não é excessivamente restrito? Aqueles que se sacrificam ao serviço de uma grande idéia obedecem a uma elevada paixão, e, satisfazendo esta paixão pessoal, fora da qual a própria vida perde qualquer valor a seus olhos, eles pensam normalmente em qualquer coisa que não seja erigir sua ação em doutrina, enquanto aqueles que fazem da ação uma doutrina esquecem freqüentemente de traduzi-la em ação, pela simples razão de que a doutrina mata a vida, mata a espontaneidade viva da ação.

Os homens como Mazzini, nos quais a doutrina e a ação formam uma admirável unidade, são raras exceções. No cristianismo também houve grandes homens, santos homens, que realmente fizeram, ou que pelo menos se esforçaram apaixonadamente para fazer tudo o que diziam, e cujos corações, transbordando de amor, estavam cheios de desprezo pelos gozos e pelos bens deste mundo. Mas a imensa maioria dos padres católicos e protestantes que, por profissão, pregaram e pregam a doutrina da castidade, da abstinência e da renúncia, desmentem sua doutrina através de seu exemplo. Não é em vão, é em conseqüência de uma experiência de vários séculos que se formaram, entre os povos de todos os países, estes ditados: “Libertino como um padre; comilão como um padre; ambicioso como um padre; ávido, interessado e cúpido como um padre”.

Está constatado que os professores das virtudes cristãs, consagrados pela Igreja, os padres, em sua imensa maioria, fizeram exatamente o contrário daquilo que eles pregaram. Esta própria maioria, a universalidade deste fato, provam que não se deve atribuir a culpa disso aos indivíduos, mas sim à posição social, impossível e contraditória em si mesma, no qual estes indivíduos estão colocados. Há na posição do padre cristão uma dupla contradição. Inicialmente a da doutrina de abstinência e de renúncia às tendências e às necessidades positivas da natureza humana, tendências e necessidades que, em alguns casos individuais, sempre muito raros, podem ser continuamente afastadas, reprimidas e mesmo completamente eliminadas pela influência constante de alguma poderosa paixão intelectual e moral, que, em certos momentos de exaltação coletiva, podem ser esquecidas e negligenciadas, por algum tempo, por uma grande quantidade de homens ao mesmo tempo; mas que são tão profundamente inerentes à nossa natureza que acabam sempre por retomar seus direitos, de forma que, quando não são satisfeitas de maneira regular e normal, são finalmente substituídas por satisfações daninhas e monstruosas. E uma lei natural, e, por conseqüência, fatal, irresistível, sob a ação funesta da qual caem inevitavelmente todos os padres cristãos e especialmente os da Igreja católica romana.

Mas há uma outra contradição comum a uns e a outros. Esta contradição está ligada ao titulo e à própria posição do senhor. Um senhor que comanda, oprime e explora, é um personagem muito lógico e completamente natural. Mas um senhor que se sacrifica àqueles que lhe são subordinados pelo seu privilégio divino ou humano é um ser contraditório e completamente impossível. E a própria constituição da hipocrisia, tão bem personificada pelo papa que, ainda que se dizendo o último servidor dos servidores de Deus, e por sinal, seguindo o exemplo do Cristo, lava uma vez por ano os pés de doze mendigos de Roma, proclama-se ao mesmo tempo vigário de Deus, senhor absoluto e infalível do mundo. E preciso que eu lembre que os padres de todas as Igrejas, longe de se sacrificarem pelos rebanhos confiados a seus cuidados, sempre os sacrificaram, exploraram e mantiveram em estado de rebanho, em parte para satisfazer suas próprias paixões pessoais, em parte para servir à onipotência da Igreja? As mesmas condições, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos. Isso acontece com os professores da Escola moderna, divinamente inspirados e nomeados pelo Estado. Eles se tornarão, necessariamente, uns sem o saber, os outros com pleno conhecimento de causa, os mestres da doutrina do sacrifício popular para o poderio do Estado, em proveito das classes privilegiadas.

Será preciso então eliminar da sociedade todo o ensino e abolir todas as escolas? Longe disso. É necessário distribuir a mancheias a instrução no seio das massas e transformar todas as Igrejas, todos estes templos dedicados à glória de Deus e à escravização dos homens, em escolas de emancipação humana. Mas, inicialmente, esclareçamos que as escolas propriamente ditas, numa sociedade normal, fundada sobre a igualdade e sobre o respeito da liberdade humana, só deverão existir para as crianças, não para os adultos, para elas se tornarem escolas de emancipação e não de servilismo, será preciso eliminar, antes de tudo, esta ficção de Deus, o escravizador eterno e absoluto. Será necessário fundar toda a educação das crianças e sua instrução sobre o desenvolvimento científico da razão, não sobre o da fé; sobre o desenvolvimento da dignidade e da independência pessoais, não sobre o da piedade e da obediência; sobre o culto da verdade e da justiça e, antes de tudo, sobre o respeito humano. que deve substituir, em tudo e em todos os lugares, o culto divino. O princípio da autoridade na educação das crianças constitui o ponto de partida natural: ele é legítimo, necessário, quando é aplicado às crianças na primeira infância, quando sua inteligência ainda não se desenvolveu abertamente. Mas como o desenvolvimento de todas as coisas, e por conseqüência da educação, implica a negação sucessiva do ponto de partida, este princípio deve enfraquecer-se à medida que avançam a educação e a instrução, para dar lugar à liberdade ascendente.

Toda educação racional nada mais é, no fundo, do que a imolação progressiva da autoridade em proveito da liberdade, onde esta educação tem como objetivo final formar homens livres, cheios de respeito e de amor pela liberdade alheia. Assim, o primeiro dia da vida escolar, se a escola aceita as crianças na primeira infância, quando elas mal começam a balbuciar algumas palavras, deve ser o de maior autoridade e de uma ausência quase completa de liberdade; mas seu último dia deve ser ó de maior liberdade e de abolição absoluta de qualquer vestígio do principio animal ou divino da autoridade. O princípio de autoridade, alicado aos homens que ultrapassaram ou atingiram a maioridade, torna-se uma monstruosidade, uma negação flagrante da humanidade, uma fonte de escravidão e de depravação intelectual e moral. Infelizmente, os governos paternalistas deixaram as massas populares se estagnarem numa tão profunda ignorância que será necessário fundar escolas não somente para as crianças do povo, mas também para o próprio povo Destas escolas deverão ser absolutamente eliminadas as menores aplicações ou manifestações do princípio de autoridade. Não serão mais escolas; serão academias populares, nas quais não se poderá mais tratar nem de estudantes, nem de mestres, onde o povo virá livremente ter, se assim achar necessário, um ensinamento livre, nas quais, rico de sua experiência, ele poderá. ensinar por sua vez muitas coisas aos professores que lhe trarão conhecimentos que ele não tem. Será pois um ensinamento mútuo, um ato de fraternidade intelectual entre a juventude instruída e o povo .

A verdadeira escola para o povo e para todos os homens feitos é a vida .

A única grande todo-poderosa autoridade natural e racional, simultaneamente, a única que poderemos respeitar, será a do espírito coletivo e público de uma sociedade fundada sobre o respeito mútuo de todos os seus membros. Sim, eis uma autoridade que não é absolutamente divina, totalmente humana, mas diante da qual nos inclinaremos de coração, certos de que, longe de subjugá-los, ela emancipará os homens. Ela será mil vezes mais poderosa, estejam certos, do que todas as vossas autoridades divinas, teológicas, metafísicas, políticas e jurídicas, instituídas pela Igreja e pelo Estado; mais poderosa que vossos códigos criminais, vossos carcereiros e vossos verdugos.

A força do sentimento coletivo ou do espírito público já é muito séria hoje.

Os homens com maior tendência a cometer crimes raramente ousam desafiá-la, enfrentá-la abertamente. Eles procurarão enganá-la, mas evitarão ofendê-la, a menos que se sintam apoiados por uma minoria qualquer. Nenhum homem, por mais possante que se imagine, jamais terá força para suportar o desprezo unânime da sociedade, ninguém poderia viver sem sentir-se apoiado pelo consentimento e pela estima, ao menos por uma certa parte desta sociedade. E preciso que um homem seja levado por uma imensa e bem sincera convicção, para que encontre coragem de opinar e de marchar contra todos, e nunca um homem egoísta, depravado e covarde terá esta coragem .

Nada prova melhor do que este fato a solidariedade natural e fatal que une todos os homens. Cada um de nós pode constatar esta lei, todos os dias, sobre si mesmo e sobre todos os homens que ele conhece. Mas, se esta força social existe, por que ela não foi suficiente, até hoje, para moralizar, humanizar os homens? Simplesmente porque, até o presente, essa força não foi, ela própria, humanizada; não foi humanizada porque a vida social, da qual ela é sempre a fiel expressão, está fundada, como se sabe, sobre o culto divino, não sobre o respeito humano; sobre a autoridade, não sobre a liberdade; sobre o privilégio, não sobre a igualdade; sobre a exploração, não sobre a fraternidade dos homens; sobre a iniqüidade e a mentira, não sobre a justiça e a verdade. Por conseqüência, sua ação real, sempre em contradição com as teorias humanitárias que ela professa, exerceu constantemente uma influência funesta e depravadora. Ela não oprime pelos vícios e crimes: ela os cria .

Sua autoridade é consequentemente uma autoridade divina, anti-humana, sua influência é malfazeja e funesta. Quereis torná-la benfazeja e humana? Fazei a revolução social. Fazei com que todas as necessidades se tornem realmente solidárias, que os interesses materiais e sociais de cada um se tornem iguais aos deveres humanos de cada um. E, para isso, só há um meio: destruí todas as instituições da desigualdade; estabelecei a igualdade econômica e social de todos, e, sobre esta base, elevar-se-á a liberdade, a moralidade, a humanidade solidária de todos .

* * *

Sim, o idealismo, em teoria, tem por conseqüência necessária o materialismo mais brutal na prática; não, sem dúvida, entre aqueles que o pregam de boa fé – o resultado habitual, para estes, é de ver todos os seus esforços atingidos pela esterilidade – mas entre aqueles que se esforçam em realizar seus preceitos na vida, em meio a toda a sociedade, enquanto ela se deixar dominar pelas doutrinas idealistas .
Para demonstrar este fato geral, que pode parecer estranho à primeira vista, mas que se explica naturalmente, quando refletimos um pouco mais, não faltam as provas históricas .

Comparai as duas últimas civilizações do mundo antigo: a civilização grega e a civilização romana. Qual delas é a mais materialista, a mais natural em seu ponto de partida, e a mais humanamente ideal em seus resultados? Sem dúvida, a civilização grega. Qual delas é, ao contrário, a mais abstratamente ideal em seu ponto de partida, sacrificando a liberdade material do homem à liberdade ideal do cidadão, representada pela abstração do direito jurídico, e o desenvolvimento natural da sociedade humana à abstração do Estado, e qual delas se tornou, todavia, a mais brutal em suas conseqüências? A civilização romana, certamente. E verdade que a civilização grega, como todas as civilizações antigas, inclusive a de Roma, foi exclusivamente nacional, e teve por base a escravidão. Mas, apesar destes dois imensos defeitos, a primeira nem por isso deixou de conceber e realizar a idéia da humanidade; ela enobreceu e realmente idealizou a vida dos homens; ela transformou os rebanhos humanos em livres associações de homens livres; ela criou, pela liberdade, as ciências, as artes, uma poesia, uma filosofia imortal, e as primeiras noções do respeito humano. Com a liberdade política e social ela criou o livre pensamento .

No fim da Idade Média, na época da Renascença, bastou que os gregos emigrados introduzissem alguns desses livros imortais na Itália para que a vida, a liberdade, o pensamento, a humanidade, enterrados no sombrio calabouço do catolicismo, fossem ressuscitados. A emancipação humana, eis o nome da civilização grega. E o nome da civilização romana? E a conquista, com todas as suas conseqüências brutais. Sua última palavra? A onipotência dos Césares. E o envilecimento e a escravidão das nações e dos homens .

Ainda hoje, o que é que mata, o que é que esmaga brutalmente, materialmente, em todos os países da Europa, a liberdade e a humanidade? E o triunfo do princípio cesáreo ou romano .

Compararei agora duas civilizações modernas: a civilização italiana e a civilização alemã. A primeira representa, sem dúvida, em sua característica geral, o materialismo; a segunda representa, ao contrário, tudo o que há de mais abstrato, de mais puro e de mais transcendente no que concerne ao idealismo. Vejamos quais são os frutos práticos de uma e da outra .

A Itália já prestou imensos serviços à causa da emancipação humana .

Ela foi a primeira que ressuscitou e que aplicou amplamente o princípio da liberdade na Europa, que devolveu à humanidade seus títulos de nobreza: a indústria, o comércio, a poesia, as artes, as ciências positivas e o livre pensamento. Esmagada depois de três séculos de despotismo imperial e papal, arrastada na lama por sua burguesia governante, ela reaparece hoje, é verdade, bem abatida em comparação ao que foi, e, entretanto, quanto ela difere da Alemanha! Na Itália, apesar desta decadência, passageira, esperemo-lo, pode-se viver e respirar humanamente, cercado de um povo que parece ter nascido para a liberdade. A Itália, mesmo burguesa, pode vos mostrar com orgulho homens como Mazzini e como Garibaldi .

Na Alemanha, respira-se a atmosfera de uma imensa escravidão política e social, filosoficamente explicada e aceita por um grande povo, com uma resignação e uma boa vontade refletidas. Seus heróis – falo sempre da Alemanha atual, não da Alemanha do futuro, da Alemanha nobiliária, burocrática, política e burguesa, não da Alemanha proletária – são totalmente o oposto de Mazzini e de Garibaldi: são, hoje, Guilherme 1, o feroz e ingênuo representante do Deus protestante, são os Srs. Bismarck e Von Moltke, os generais Manteuffel e Werler. Em todas as suas relações internacionais, a Alemanha, desde que existe, foi lenta e sistematicamente invasora, conquistadora, sempre pronta a estender sobre os povos vizinhos seu próprio servilismo voluntário; e desde que ela se constituiu em potência unitária, ela se tornou uma ameaça, um perigo para a liberdade de toda a Europa. Hoje, a Alemanha é o servilismo brutal e triunfante .

Para mostrar como o idealismo teórico se transforma incessante e fatalmente em materialismo prático, basta citar o exemplo de todas as Igrejas cristãs e, naturalmente, antes de tudo, o da Igreja apostólica e romana. No sentido ideal, o que há de mais sublime, de mais desinteressado, de mais desprendido em todos os interesses desta terra, do que a doutrina do Cristo pregada por esta Igreja? E o que há de mais brutalmente materialista que a prática constante desta mesma Igreja, desde o século VIII, quando começou a se constituir como poder? Qual foi e qual é ainda o objeto principal de todos os seus litígios contra os soberanos da Europa? Seus bens temporais, seus ganhos inicialmente, e em seguida seu poder temporal, seus privilégios políticos .

É preciso fazer-lhe esta justiça, pois ela foi a primeira a descobrir, na história moderna, esta verdade incontestável, mas muito pouco cristã, que a riqueza e o poder, a exploração econômica e a opressão política das massas são os dois termos inseparáveis do reino do idealismo divino sobre a terra: a riqueza consolidando e aumentando o poder, o poder descobrindo e criando sempre novas fontes de riqueza, e ambos assegurando, melhor do que o martírio e a fé dos apóstolos, melhor do que a graça divina, o sucesso da propaganda cristã. E uma verdade histórica, e as igrejas, ou melhor, as seitas protestantes também não a desconhecem. Falo naturalmente das igrejas independentes da Inglaterra, da América e da Suíça, não das igrejas servis da Alemanha .

Estas não têm nenhuma iniciativa própria; elas fazem aquilo que seus senhores, seus soberanos temporais, que são ao mesmo tempo seus chefes espirituais, lhes ordenam fazer. Sabe-se que a propaganda protestante, a da Inglaterra e a da América sobretudo, se liga de uma maneira muito estreita à propaganda dos interesses materiais e comerciais destas duas grandes nações; sabe-se também que esta última propaganda não tem absolutamente por objeto o enriquecimento e a propriedade material dos países nos quais ela penetra em companhia da palavra de Deus, mas sim a exploração destes países, à vista do enriquecimento e da prosperidade material de certas classes, que, em seu próprio país, só visam a exploração e a pilhagem .

Numa palavra, não é nada difícil provar, com a história na mão, que a Igreja, que todas as Igrejas, cristãs e não cristãs, ao lado de sua propaganda espiritualista, provavelmente para acelerar e consolidar seu sucesso, jamais negligenciaram de organizar grandes companhias para a exploração econômica das massas, sob a proteção e a bênção direta e especial de uma divindade qualquer; que todos os Estados que, em sua origem, como se sabe, nada mais foram, com todas as suas instituições políticas e jurídicas e suas classes dominantes e privilegiadas, senão sucursais temporais destas diversas Igrejas, só tiveram igualmente por objeto principal esta mesma exploração em proveito das minorias laicas, indiretamente legitimadas pela Igreja; enfim, que em geral a ação do bom Deus e de todas as fantasias divinas sobre a terra finalmente resultou, sempre e em todos os lugares, na fundação do materialismo próspero do pequeno número sobre o idealismo fanático e constantemente faminto das massas .

O que vemos hoje é uma nova prova disso. A exceção desses grandes corações e desses grandes espíritos enganados que citei mais acima, quem são hoje os defensores mais obstinados do idealismo? Inicialmente são todas as cortes soberanas. Na França, foram Napoleão III e sua esposa, Madame Eugénie; são todos os seus antigos ministros, cortesãos e ex-marechais, desde Rouher e Bazaine até Fleury e Piétri; são os homens e as mulheres do mundo oficial imperial, que tão bem idealizaram e salvaram a França. São seus jornalistas e seus sábios: os Cassagnac, os Girardin, os Duvernois, os Veuillot, os Leverrier, os Dumas. . . E enfim a negra falange dos jesuítas e das jesuítas de todos os tipos de vestido; é a alta e média burguesia da França. São os doutrinários liberais e os liberais sem doutrina: os Guizot, os Thiers, os Jules Favre, os Pelletan e os Jules Simon, todos os defensores aguerridos da exploração burguesa. Na Prússia, na Alemanha, é Guilherme 1, o rei demonstrador atual do bom Deus sobre a terra; são todos os seus generais, todos os seus oficiais pomeranianos e outros, todo o seu exército que, forte em sua fé religiosa, acaba de conquistar a França da maneira ideal que se sabe. Na Rússia, é o czar e toda a sua corte; são os Muravieff e os Berg, todos os degoladores e os religiosos conversores da Polônia. Em todos os lugares, numa palavra, o idealismo religioso filosófico, um destes qualificativos nada mais sendo do que a tradução mais ou menos livre do outro, serve hoje de bandeira à força sanguinária e brutal, à exploração material descarada; enquanto, ao contrário, a bandeira do materialismo teórico, a bandeira vermelha da igualdade econômica e da justiça social, é agitada pelo idealismo prático das massas oprimidas e famintas, tendendo a realizar a liberdade maior e o direito humano de cada um na fraternidade de todos os homens sobre a terra .

Quem são os verdadeiros idealistas, não – os idealistas da abstração, mas da vida; não do céu, mas da terra; e quem são os materialistas? * * * É evidente que o idealismo teórico ou divino tem como condição essencial o sacrifício da lógica, da razão humana, a renúncia à ciência .
Vê-se, por outro lado, que defendendo as doutrinas ideais, é-se forçosamente levado ao partido dos opressores e dos exploradores das massas populares. Eis duas grandes razões que, segundo parece, bastariam para afastar do idealismo todo grande espírito, todo grande coração. Como é possível que nossos ilustres idealistas contemporâneos, aos quais, certamente, não faltam nem o espírito, nem o coração, nem a boa vontade, e que devotaram toda sua existência ao serviço da humanidade, como é possível que eles se obstinem em permanecer entre os representantes de uma doutrina doravante condenada e desonrada? É preciso que eles sejam levados a isso por uma razão muito forte. Não pode ser nem a lógica nem a ciência, visto que a lógica e a ciência pronunciaram seu veredicto contra a doutrina idealista. Não podem ser também interesses pessoais, pois estes homens estão infinitamente erguidos acima de tudo o que carrega este nome. Só pode ser então uma forte razão moral. Qual? Só pode haver uma. Esses homens ilustres pensam, sem dúvida, que as teorias ou as crenças ideais são essencialmente necessárias à dignidade e à grandeza moral do homem, e que as teorias materialistas, ao contrário, rebaixam-no ao nível dos animais .

-E se o oposto fosse verdadeiro? Todo desenvolvimento, já disse, implica a negação do ponto de partida. A base, ou o ponto de partida, segundo a escola materialista, sendo material, a negação deve ser necessariamente ideal. Partindo da totalidade do mundo real, ou daquilo que se chama abstratamente de costume, ela chega logicamente à idealização real, isto é, à humanização, à emancipação plena e inteira da sociedade. Todavia, e pela mesma razão, sendo o ideal a base e o ponto de partida da escola idealista, ela chega forçosamente à materialização da sociedade, à organização de um despotismo brutal e de uma exploração iníqua e ignóbil, sob a forma da Igreja e do Estado. O desenvolvimento histórico do homem, segundo a escola materialista, é uma ascensão progressiva; no sistema idealista ele só pode ser uma queda contínua .

Qualquer que seja a questão humana que se queira considerar, encontra-se sempre esta mesma contradição essencial entre as duas escolas. Assim, como já fiz observar, o materialismo parte da animalidade para constituir a humanidade; o idealismo parte da divindade para constituir a escravidão e condenar as massas a uma animalidade sem saída. O materialismo nega o livre-arbítrio e resulta na constituição da liberdade; o idealismo, em nome da dignidade humana, proclama o livre-arbítrio, e, sobre as ruínas da liberdade, funda a autoridade. O materialismo rejeita o princípio de autoridade porque ele o considera, com razão, como o corolário da animalidade, e que, ao contrário, o triunfo da humanidade, objetivo e sentido principal da história, só é realizável pela liberdade. Numa palavra, vós encontrareis sempre os idealistas em flagrante delito de materialismo prático, enquanto vereis os materialistas buscarem e realizarem as aspirações, os pensamentos mais amplamente ideais .

A história, no sistema dos idealistas, como já disse, não pode ser senão uma queda contínua. Eles começam por uma queda terrível da qual jamais se levantam: pelo salto mortale das regiões sublimes da idéia pura, absoluta, à matéria. E em que matéria! Não nesta matéria eternamente ativa e móvel, cheia de propriedades e de forças, de vida e de inteligência, tal como ela se apresenta a nós, no mundo real; mas na matéria abstrata, empobrecida e reduzida à miséria absoluta, tal como a concebem os teólogos e os metafísicos, que lhe roubaram tudo para dar a seu imperador, a seu Deus; nesta matéria que, privada de qualquer ação e de qualquer movimento próprios, só representa, em oposição à idéia divina, a estupidez, a impenetrabilidade, a inércia e a imobilidade absolutas .

A queda é tão terrível que a divindade, a pessoa ou a idéia divina se avilta, perde sua consciência, perde a consciência de si mesma e nunca mais se reencontra. E nesta situação desesperada ela é ainda forçada a fazer milagres! Isto porque, do momento em que a matéria é inerte, todo movimento que se produz no mundo, mesmo o mais material, é um milagre, outra coisa não pode ser senão o efeito de uma intervenção providencial, da ação de Deus sobre a matéria. E eis que esta pobre divindade, quase anulada por sua queda, permanece alguns milhares de séculos neste sono, em seguida desperta lentamente, esforçando-se em vão para recuperar alguma vaga lembrança dela mesma, e cada movimento que faz com esta finalidade, na matéria, torna-se uma criação, uma formação nova, um novo milagre. Desta maneira ela ultrapassa todos os níveis da materialidade e da bestialidade; inicialmente gás, corpo químico simples ou composto, mineral, ela se espalha em seguida sobre a terra como organização vegetal e animal, depois se concentra no homem. Aqui, ela parece haver se reencontrado, pois ela acende no ser humano uma chama angélica, uma parcela de seu próprio ser divino, a alma imortal .

Como ela pode conseguir alojar uma coisa absolutamente imaterial numa coisa absolutamente material; como o corpo pode conter, encerrar, limitar, paralisar o espírito puro? Eis mais uma destas questões que somente a fé, esta afirmação apaixonada e estúpida do absurdo, pode resolver. E o maior dos milagres. Aqui, nada temos a fazer senão constatar os efeitos, as conseqüências práticas deste milagre .

Após milhares de séculos de vãos esforços para retornar a ela mesma, a Divindade, perdida e espalhada na matéria que ela anima e que põe em movimento, encontra um ponto de apoio, uma espécie de local para seu próprio recolhimento. E o homem, é sua alma imortal aprisionada singularmente num corpo mortal. Mas cada homem, considerado individualmente, é infinitamente restrito, muito pequeno para englobar a imensidão divina; ele só pode conter uma pequena parcela, imortal como o Todo, mas infinitamente menor que o Todo. Resulta disso que o Ser divino, o Ser absolutamente imaterial, o Espírito, é divisível como a matéria. Eis ainda um mistério cuja solução é preciso deixar à fé .

Se Deus, por inteiro, pudesse se alojar em cada homem, então cada homem seria Deus. Teríamos uma grande quantidade de Deuses, cada um se achando limitado pelos outros, mas nem por isso menos infinito, contradição que implicaria necessariamente a destruição mútua dos homens, a impossibilidade de que existisse mais do que um. Quanto às parcelas, é outra coisa; nada de mais racional, com efeito, que uma parcela seja limitada por outra, e que ela seja menor do que o Todo. Aqui se apresenta outra contradição. Ser maior e menor são dois atributos da matéria, não do espírito, tal como o compreendem os idealistas. Segundo os materialistas, é verdade, o espírito outra coisa não é senão o funcionamento do organismo totalmente material do homem, e a grandeza ou a pequenez do espírito dependem da maior ou menor perfeição material do organismo humano. Mas estes mesmos atributos de limitação e de grandeza relativas não podem ser atribuídos ao espírito, tal como o compreendem os idealistas, ao espírito absolutamente imaterial, ao espírito existindo fora de qualquer matéria. Lá não pode haver nem maior, nem menor, nem qualquer limite entre os espíritos, pois só há um único espírito: Deus. Se acrescentarmos que as parcelas infinitamente pequenas e limitadas que constituem as almas humanas são ao mesmo tempo imortais, evidenciar-se-á o cúmulo da contradição. Mas é uma questão de fé. Deixemos isto de lado .

Eis pois a Divindade destroçada e alojada por infinitas pequenas partes, numa imensa quantidade de seres de todos os sexos, de todas as idades, de todas as raças e de todas as cores. Eis aí uma situação excessivamente incômoda e infeliz, pois as parcelas divinas reconhecem-se tão pouco no início de sua existência humana, que começam por se entredevorar. Todavia, no meio desse estado de barbárie e de brutalidade totalmente animal, estas parcelas divinas, as almas humanas, conservam como que uma vaga lembrança de sua divindade primitiva, e são invencivelmente arrastadas rumo a seu Todo; elas se procuram, elas o procuram. E a própria Divindade, espalhada e perdida no mundo material, que se procura nos homens, e está de tal forma embrutecida por esta multidão de prisões humanas, nas quais se acha espalhada, que, ao se procurar, comete loucuras sobre loucuras .

Começando pelo fetichismo, ela se procura e adora a si mesma, ora numa pedra, ora num pedaço de pau, ora num esfregão. E até mesmo muito provável que jamais tivesse saído do esfregão se a outra divindade, que não se deixou diminuir na matéria, e se conservou no estado de espírito puro, nas alturas sublimes do ideal absoluto, ou nas regiões celestes, não tivesse tido piedade dela .
Eis um novo mistério. E o da Divindade que se cinde em duas metades, mas igualmente infinitas todas as duas, e das quais uma – Deus pai – se conserva nas puras regiões imateriais; a outra – Deus filho – se deixa enfraquecer na matéria. Nós iremos ver, daqui a pouco, estabelecerem-se relações contínuas de cima para baixo e de baixo para cima entre estas duas Divindades, separadas uma da outra; e estas relações, consideradas como um único ato eterno e constante, constituirão o Espírito Santo. Tal. é, em seu verdadeiro sentido teológico e metafísico, o grande, o terrível mistério da Trindade cristã .

Mas deixemos, rapidamente, estas alturas e vejamos o que se passa sobre a terra .

Deus pai, vendo, do alto de seu esplendor eterno, que o pobre Deus filho, humilhado, atordoado por sua queda, mergulhou e perdeu-se de tal forma na matéria, que, preso ao estado humano, não consegue se reencontrar, decide 5& corrê-lo. Entre esta imensa quantidade de parcelas simultaneamente imortais, divinas e infinitamente pequenas, nas quais Deus filho disseminou-se a ponto de não poder se reconhecer, Deus pai escolhe aquelas que mais lhe aprazem; ele toma seus inspirados, seus profetas, seus gênios virtuosos, OS grandes benfeitores e legisladores da humanidade: Zoroastro, Buda, Moisés, Confúcio, Licurgo, Sólon, Sócrates, o divino Platão, e sobretudo Jesus Cristo, a completa realização de Deus filho, enfim recolhido e concentrado numa pessoa humana; todos os apóstolos, São Pedro, São Paulo e São João, Constantino, o Grande, Maomé, depois Gregório VII, Carlos Magno, Dante, segundo uns, Lutero também, Voltaire e Rousseau, Ropespierre e Danton, e muitos outros grandes e santos personagens, dos quais é impossível recapitular todos os nomes, mas entre os quais, como russo, peço para não se esquecerem de São Nicolau .

* * *

Eis que chegamos à manifestação de Deus sobre a terra. Mas tão logo Deus aparece, o homem se aniquila. Dir-se-á que não se aniquila visto ser ele próprio uma parcela de Deus. Perdão! Admito que a parcela de um todo determinado, limitado, por menor que seja esta parte, seja uma quantidade, uma grandeza positiva. Mas uma parcela do infinitamente grande, comparada com ele, é infinitamente pequena. Multiplicai bilhões de bilhões por bilhões de bilhões, seu produto, em comparação ao infinitamente grande, será infinitamente pequeno, e o infinitamente pequeno é igual a zero. Deus é tudo, por conseguinte o homem e todo o mundo real com ele, o universo, nada são. Vós não escapareis disto .
Deus aparece, o homem se aniquila; e quanto maior se torna a Divindade, mais a humanidade se torna miserável. Esta é a história de todas as religiões; este é o efeito de todas as inspirações e de todas as legislações divinas. Na história, o nome de Deus é a terrível dava com a qual os homens diversamente inspirados, os grandes gênios, abateram a liberdade, a dignidade, a razão e a prosperidade dos homens .
Tivemos inicialmente a queda de Deus. Temos agora uma queda que nos interessa mais, a do homem, causada pelo aparecimento da manifestação de Deus sobre a terra .

Vede em que erro profundo se encontram nossos caros e ilustres idealistas. Ao nos falarem de Deus, eles crêem, eles querem nos educar, nos emancipar, nos enobrecer e, ao contrário, eles nos esmagam e nos aviltam. Com o nome de Deus, eles imaginam poder estabelecer a fraternidade entre os homens, e, ao contrário, criam o orgulho, o desprezo; semeiam a discórdia, o ódio, a guerra; fundam a escravidão .
Isto porque, com Deus, vêm os diferentes graus de inspiração divina; a humanidade se divide em homens muito inspirados, menos inspirados, não inspirados. Todos são igualmente nulos diante de Deus, é verdade; mas comparados uns aos outros, uns são maiores do que os outros; não somente pelo fato, o que não seria nada, visto que uma desigualdade de fato se perde por si mesma na coletividade, quando ela não se pode agarrar a nenhuma ficção ou instituição legal; mas pelo direito divino da inspiração: o que constitui logo em seguida uma desigualdade fixa, constante, petrificada. Os mais inspirados devem ser escutados e obedecidos pelos menos inspirados, pelos não inspirados. Eis o princípio da autoridade bem estabelecido, e com ele as duas instituições fundamentais da escravidao: a Igreja e o Estado .

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De todos os despotismos, o dos doutrinadores ou dos inspirados religiosos é o pior. Eles são tão ciumentos da glória de seu Deus e do triunfo de sua idéia que não lhes resta mais coração, nem pela liberdade, nem pela dignidade, nem mesmo pelos sofrimentos dos homens vivos, homens reais. O zelo divino, a preocupação com a idéia acabam por dissecar, nas almas mais delicadas, nos corações mais compassivos, as fontes do amor humano. Considerando tudo o que é, tudo o que se faz no mundo do ponto de vista da eternidade ou da idéia abstrata, eles tratam com desdém as coisas passageiras; mas toda a vida dos homens reais, dos homens em carne e osso, só é composta de coisas passageiras; eles próprios nada mais são do que seres que passam, e que, uma vez passados, são substituídos por outros, também passageiros, mas que não retornam jamais. O que há de permanente ou de relativamente eterno é a humanidade, que se desenvolve constantemente, de geração em geração. Digo relativamente eterno porque, uma vez destruído nosso planeta, e ele’ não pode deixar de perecer cedo ou tarde, pois tudo que começa tem necessariamente um fim, uma vez nosso planeta decomposto, para servir sem dúvida alguma de elemento a alguma nova formação no sistema do universo, o único realmente eterno, quem pode saber o que acontecerá com todo o nosso desenvolvimento humano? Todavia, como o momento desta dissolução se encontra imensamente afastado de nós podemos considerar, em relação à vida humana tão curta, a humanidade eterna. Mas esse fato de a humanidade ser progressiva só é real e vivo por suas manifestações em tempos determinados, em lugares determinados, em homens realmente vivos, e não em sua idéia geral .

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A idéia geral é sempre uma abstração e por isso mesmo, de alguma forma, uma negação da vida real. A ciência só pode compreender e denominar os fatos reais em seu sentido geral, em suas relações, em suas leis; numa palavra, o que é permanente em suas informações contínuas, mas jamais seu lado material, individual, por assim dizer, palpitante de realidade e de vida, e por isso mesmo, fugitivo e inapreensível. A ciência compreende o pensamento da realidade, não a realidade em si mesma; o pensamento da vida, não a vida. Eis seu limite, o único limite verdadeiramente intransponível para ela, porque ela está fundada sobre a própria natureza do pensamento, que é o único órgão da ciência .
Sobre esta natureza se fundam os direitos incontestáveis e a grande missão da ciência, mas também sua impotência vital e mesmo sua ação malfazeja, todas as vezes que, por seus representantes oficiais, nomeados, ela se arroga o direito de governar a vida. A missão da ciência é, constatar as relações gerais das coisas passageiras e reais: reconhecendo as leis gerais que são inerentes ao desenvolvimento dos fenômenos do mundo físico e do mundo social, ela assenta, por assim dizer, as balizas imutáveis da marcha progressiva da humanidade, indicando as condições gerais, cuja observação rigorosa e necessária e cuja ignorância ou esquecimento será sempre fatal. Numa palavra, a ciência é a bússola da vida; mas não é a vida. A ciência é imutável, impessoal, geral, abstrata, insensível, como as leis das quais ela nada mais é do que a reprodução ideal, refletida ou mental, isto é, cerebral (para nos lembrar de que a ciência nada mais é do que um produto material de um órgão material, o cérebro). A vida é fugidia e passageira, mas também palpitante de realidade e individualidade, de sensibilidade, sofrimentos, alegrias, aspirações, necessidades e paixões. É somente ela que, espontaneamente, cria as coisas e os seres reais. A ciência nada cria, ela constata e reconhece somente as criações da vida. E todas as vezes que os homens de ciência, saindo de seu mundo abstrato, envolvem-se com a criação viva, no mundo real, tudo o que eles propõem ou tudo o que eles criam é pobre, ridiculamente abstrato, privado de sangue e vida, natimorto, igual ao homunculus criado por Wagner, o discípulo pedante do imortal Dr. Fausto. Disso resulta que a ciência tem por missão única iluminar a vida, e não governá-la .

O governo da ciência e dos homens de ciência, ainda que fossem positivistas, discípulos de Auguste Comte, ou ainda discípulos da escola doutrinária do comunismo alemão, não poderia ser outra coisa senão um governo impotente, ridículo, desumano, cruel, opressivo, explorador, malfazejo. Pode-se dizer dos homens de ciência, como tais, o que digo dos teólogos e metafísicos: eles não têm nem sentido, nem coração para os seres individuais e vivos. Não se pode sequer fazer-lhes uma censura, pois é a conseqüência natural de sua profissão. Enquanto homens de ciência, eles só podem se interessar pelas generalidades, pelas leis absolutas, e não a levar em conta outra coisa .
A individualidade real e viva só é perceptível para uma outra individualidade viva, não para uma individualidade pensante, não para o homem que por uma série de abstrações põe-se fora e acima do contato imediato da vida; ela pode existir para eles somente como um exemplar mais ou menos perfeito da espécie, isto é, uma abstração determinada .

Se é um coelho, por exemplo, quanto mais bonito for o espécimen, mais o cientista o dissecará com felicidade, na esperança de poder fazer sair desta própria destruição a natureza geral, a lei da espécie .

Se ninguém se opusesse a isso, não existiria, mesmo em nossos dias, um número de fanáticos capazes de fazer as mesmas experiências sobre o homem? E se, todavia, os cientistas naturalistas não dissecam o homem vivo, não é a ciência, são os protestos todo-poderosos da vida que os fizeram parar. Ainda que eles passem estudando três quartos de sua existência, e que, na atual organização, formem um tipo de mundo à parte – o que prejudica simultaneamente a saúde de seu coração e a de seu espírito – eles não são exclusivamente homens da ciência, mas são também, mais ou menos, homens da vida .

Todavia, não se deve confiar nisso. Se se pode estar mais ou menos seguro de que um cientista não ousaria tratar um homem, hoje, como trata um coelho, resta sempre a temer que o corpo de cientistas submeta os homens vivos a experiências científicas, sem dúvida interessantes, mas que seriam não menos desagradáveis para suas vítimas. Se não podem fazer experiências com o corpo dos indivíduos, eles não pedirão nada mais do que fazê-las com o corpo social, e eis o que é precioso absolutamente impedir .

Em sua organização atual, monopolizando a ciência e permanecendo, assim, fora da vida social, os cientistas formam uma casta à parte, oferecendo muita analogia com a casta dos padres. A abstração científica é seu Deus, as individualidades são suas vítimas e eles são seus sacrificadores nomeados .

A ciência não pode sair da esfera das abstrações. Em relação a isso, ela é muito inferior à arte, que, ela também, está ligada a tipos e situações gerais, mas que os encarna por um artifício que lhe é próprio. Sem dúvida, essas formas da arte não são a vida, mas não deixam de provocar em nossa imaginação a lembrança e o sentimento da vida; a arte individualiza, sob uma certa forma, os tipos e as situações que concebe; por meio de individualidades sem carne e osso, e, consequentemente, permanentes e imortais, que tem o poder de criar, ela nos faz lembrar das individualidades vivas, reais, que aparecem e desaparecem sob nossos olhos. A arte é, pois, sob uma certa forma, o retorno da abstração à vida. A ciência é, ao contrário, a imolação perpétua da vida, fugitiva, passageira, mas real, sob o altar das eternas abstrações .

A ciência é tão pouco capaz de compreender a individualidade de um homem quanto a de um coelho. Não é que ela ignore o princípio da individualidade; ela a concebe perfeitamente como principio, mas não como fato. Ela sabe muito bem que todas as espécies animais, inclusive a espécie humana, só possuem existência real em um número indefinido de indivíduos, nascendo e morrendo para dar lugar a novos indivíduos, igualmente fugidios. Ela sabe que, elevando-se das espécies animais às espécies superiores, o princípio da individualidade se determina mais; os indivíduos aparecem mais completos e mais livres. Ela sabe que o homem, o último e o mais perfeito animal desta terra, apresenta a individualidade mais completa e mais notável por causa de sua faculdade de conceber, concretizar, personificar, de um certo modo, em sua existência social e privada, a lei universal. Ela sabe, enfim, quando não está viciada pelo doutrinarismo teológico ou metafísico, político ou jurídico, ou mesmo por um estreito orgulho, quando ela não é surda aos institutos e às aspirações da vida, ela sabe, e esta é sua última palavra, que o respeito ao homem é a lei suprema da Humanidade, e que o grande, o verdadeiro objetivo da história, o único legítimo, é a humanização e a emancipação, é a liberdade real, a prosperidade de cada indivíduo vivo na sociedade. A menos que se recaia nas ficções liberticidas do bem público representado pelo Estado, ficções fundadas sempre sobre a imolação sistemática do povo, deve-se reconhecer que a liberdade e a prosperidade coletivas só existem sob a condição de representar a soma das liberdades e das prosperidades individuais .

A ciência sabe de todas essas coisas, mas ela não vai e não pode ir além. A abstração, constituindo sua própria natureza, pode conceber bem o princípio da individualidade real e viva, mas não pode ter nada a fazer com os indivíduos reais e vivos. Ela se ocupa dos indivíduos em geral, mas não de Pierre ou de Jacques, não de tal ou qual, que não existem, que não podem existir para ela. Seus indivíduos nada mais são, mais uma vez, do que abstrações .

Todavia, não são individualidades abstratas, são os indivíduos agindo e vivendo que fazem a história. As abstrações só caminham conduzidas por homens reais. Para esses seres formados, não somente em idéia, mas em realidade, de carne e de sangue, a ciência não tem coração. Ela os considera quando muito como carne para desenvolvimento intelectual e social. O que lhe fazem as condições particulares e o destino fortuito de Pierre ou Jacques? Ela se tornaria ridícula, ela abdicaria, ela se aniquilaria se quisesse se ocupar disso de outra forma que não a habitual, em apoio de suas teorias eternas. E seria ridículo censurá-la, pois ela obedece a suas leis. Ela não pode compreender o concreto; ela só pode mover-se em abstrações. Sua missão é ocupar-se da situação e das condições gerais da existência e do desenvolvimento, seja da espécie humana em geral, seja de tal raça, de tal povo, de tal classe ou categoria de indivíduos, das causas gerais de sua prosperidade, de sua decadência e dos meios gerais bons para fazê-los progredir de todas as maneiras. Desde que ela realize ampla e racionalmente esta tarefa, ela terá feito todo seu dever e seria realmente injusto pedir-lhe mais .

Mas seria igualmente ridículo, seria desastroso confiar-lhe uma missão que ela é incapaz de realizar, visto que sua própria natureza força-a a ignorar a existência e o destino de Pierre e de Jacques. Ela continuaria a ignorá-los, mas seus representantes nomeados, homens em nada abstratos, mas, ao contrário muito vivos, possuindo interesses muito reais, cedendo à influência perniciosa que o privilégio exerce fatalmente sobre os homens, acabariam por esfolar os outros homens em nome da ciência, como os esfolaram até agora os padres, os políticos de todas as cores e os advogados, em nome de Deus, do Estado, do Direito jurídico .

O que prego é, até certo ponto, a revolta da vida contra a ciência, ou melhor, contra o governo da ciência, não para destruir a ciência – seria um crime de lesa-humanidade – mas para recolocá-la em seu lugar, de maneira que ela não possa jamais sair de novo. Até o presente momento toda a história humana nada mais foi senão uma imolação perpétua e sangrenta de milhões de pobres seres humanos a uma abstração impiedosa qualquer: Deus, Pátria, poder do Estado, honra nacional, direitos históricos, liberdade política, bem público. Tal foi até agora o movimento natural, espontâneo e fatal das sociedades humanas. Nada podemos fazer para mudar isso, devemos suportá-lo em relação ao passado, como suportamos todas as fatalidades atuais. Deve-se acreditar que esta era a única via possível para a educação da espécie humana .
Não devemos nos enganar: mesmo procurando informar amplamente sobre os artifícios maquiavélicos das classes governamentais, devemos reconhecer que nenhuma minoria teria sido bastante poderosa para impor todos estes horríveis sacrifícios às massas, se não tivesse havido, nelas mesmas, um movimento vertiginoso, espontâneo, levando-as a se sacrificarem sempre, ora a uma, ora a outra destas abstrações devoradoras que, vampiros da história, sempre se nutriram de sangue humano .

Que os teólogos, os políticos e os juristas achem isso muito bom, nós os compreendemos. Padres destas abstrações, eles vivem apenas desta contínua imolação das massas populares. Que a metafísica dê a isso também seu consentimento, não deve nos surpreender também. Ela não possui outra missão que a de legitimar e de racionar, tanto quanto seja possível, o que é iníquo e absurdo. Mas o que se deve deplorar é o fato de a ciência positiva ter mostrado as mesmas tendências. Ela o fez por duas razões: inicialmente, porque constituída fora da vida, ela é representada por um corpo privilegiado, e, em seguida, porque ela própria se colocou até aqui como objetivo absoluto e último de todo desenvolvimento humano. Por uma crítica judiciosa, que ela pode e que em última instância se verá forçada a exercer contra si mesma, ela deveria ter compreendido que, ao contrário, ela é somente um meio para a realização de um objetivo bem mais elevado: o da completa humanização de todos os indivíduos que nascem, vivem e morrem na terra .

A imensa vantagem da ciência positiva sobre a teologia, a metafísica, a política e o direito jurídico consiste no seguinte: no lugar das abstrações enganosas e funestas, pregadas por estas doutrinas, ela apresenta abstrações verdadeiras, que exprimem a natureza geral e a lógica das coisas, as relações e as leis gerais de seu desenvolvimento. Eis o que lhe assegurará sempre uma grande posição na sociedade. Ela constituirá, de alguma forma, sua consciência coletiva; mas há um lado pelo qual ela se parece com todas as doutrinas anteriores: possuindo e só podendo ter por objetivo abstrações, ela é forçada por sua natureza a ignorar os homens reais, fora dos quais as abstrações mais verdadeiras não têm nenhuma existência. Para remediar este defeito radical, a ciência do futuro deverá proceder de outra forma, diferente das doutrinas do passado. Estas últimas se prevaleceram da ignorância das massas para sacrificá-las, com volúpia, às suas abstrações, por sinal sempre muito lucrativas para aqueles que as representam em carne e osso. A ciência positiva, reconhecendo sua incapacidade absoluta de conceber os indivíduos reais e de se interessar por seu destino, deve definitiva e absolutamente renunciar ao governo das sociedades, pois se ela se imiscuir, não poderá fazer outra coisa senão sacrificar sempre os homens vivos que ela ignora às abstrações de que faz o único objeto de suas legítimas preocupações .
A verdadeira ciência da história ainda não existe; quando muito começa-se a entrever, hoje, as condições extremamente complicadas .

Mas suponhamo-la definitivamente feita, o que ela poderá nos dar? Ela restabelecerá o quadro fiel e refletido do desenvolvimento natural das condições gerais, materiais e ideais, econômicas, políticas e sociais, religiosas, filosóficas, estéticas e científicas das sociedades que tiveram uma história. Mas este quadro universal da civilização humana, por mais detalhado que seja, jamais poderá conter senão apreciações gerais e, por conseqüência, abstratas. Os bilhões de indivíduos que forneceram a matéria viva e sofredora desta história, ao mesmo tempo triunfante e lúgubre – triunfante pela imensa hecatombe de vítimas humanas “esmagadas sob sua carruagem” -, estes bilhões de obscuros indivíduos, sem os quais nenhum dos grandes resultados abstratos da história teria sido obtido – e que, notemo-lo bem, quer destes resultados jamais se beneficiaram com qualquer destes resultados -, não encontrarão sequer o mínimo lugar em nossos anais. Eles viveram e foram sacrificados pelo bem da humanidade abstrata, eis tudo! Será preciso censurar a ciência da história? Seria injusto e ridículo. Os indivíduos são inapreensível pelo pensamento, pela reflexão, até mesmo pela palavra humana, que só é capaz de exprimir abstrações; eles são inapreensíveis, no presente, tanto quanto no passado. Assim, a própria ciência social, a ciência do futuro, continuará forçosamente a ignorá-los .

Tudo o que temos direito de exigir dela é que nos indique, com mão fiel e segura, as causas gerais dos sofrimentos individuais, e, entre estas causas, ela sem dúvida não esquecerá a imolação e a subordinação ainda muito freqüentes, infelizmente, dos indivíduos vivos às generalidades abstratas; e ao mesmo tempo nos mostrará as condições gerais necessárias à emancipação real dos indivíduos vivendo na sociedade. Eis sua missão; eis também seus limites, para além dos quais a ação da ciência social só poderá ser impotente e funesta. Fora destes limites começam as pretensões doutrinárias e governamentais de seus representantes nomeados, de seus padres. F tempo de acabar com estes pontífices, ainda que se dessem o nome de democratas-socialistas .

Mais uma vez, a única missão da ciência é iluminar O caminho. Mas, liberta de todos os seus entraves governamentais e doutrinários, e devolvida à plenitude de sua ação, somente a vida pode criar .

* * *

Como resolver esta antinomia? De um lado, a ciência é indispensável à organização racional da sociedade, de outro, ela é incapaz de se interessar pelo que é real e vivo .
Esta contradição só pode ser resolvida

de uma única maneira: é preciso que a ciência não permaneça mais fora da vida de todos, tendo por representante um corpo de cientistas diplomados, é necessário que ela se fundamente e se dissemine nas massas. A ciência, chamada doravante a representar a consciência coletiva da sociedade, deve realmente tornar-se propriedade de todo mundo. Assim, sem nada perder de seu caráter universal, do qual jamais poderá se desviar sob pena de cessar de ser ciência, e continuando a se ocupar exclusivamente das causas gerais, das condições e das relações fixas dos indivíduos e das coisas, ela se fundirá à vida imediata e real de todos os indivíduos. Será um movimento análogo àquele que fez dizer aos pregadores, no momento do início da reforma religiosa, que não havia mais necessidade de padres para um homem que se tornará, dali em diante, seu próprio padre, graças à intervenção invisível do Senhor Jesus Cristo, tendo conseguido finalmente engolir seu bom Deus .

Mas aqui não se trata nem de Jesus Cristo, nem de bom Deus, nem de liberdade política, nem de direito jurídico, todas coisas teológicas ou metafisicamente reveladas, e todas igualmente indigestas. O mundo das abstrações científicas não é revelado; ele é inerente ao mundo real, do qual nada mais é do que a expressão e a representação geral ou abstrata. Sem que forme uma região separada, representada especialmente pelo corpo dos cientistas, este mundo ideal ameaça-nos tomar, em relação ao mundo real, o lugar do bom Deus, reservando a seus representantes nomeados o ofício de padres. E por isso que é preciso dissolver a organização especial dos homens de ciência pela instrução geral, igual para todos e para todas, a fim de que as massas, cessando de ser rebanhos conduzidos e tosquiados por padres privilegiados, possam controlar a direção de seus destinos[7] .

Mas enquanto as massas não tiverem chegado a este grau de instrução, será necessário que elas se deixem governar pelos homens de ciência? Certamente que não. Seria melhor para elas absterem-se de ciência do que se deixarem governar por homens de ciência. O governo destes homens teria, como primeira conseqüência, tornar a ciência inacessível ao povo, porque as instituições atuais da ciência são essencialmente aristocráticas. A aristocracia de homens de ciência! Do ponto de vista prático, a mais implacável, e do ponto de vista social, a mais vaidosa e a mais insultante: tal seria o poder constituído em nome da ciência. Este regime seria capaz de paralisar a vida e o movimento da sociedade. Os homens de ciência, sempre presunçosos, sempre auto-suficientes e sempre impotentes, gostariam de se imiscuir em tudo, e as fontes da vida se dissecariam sob seu sopro de abstrações .

Mais uma vez, a vida, não a ciência, cria a vida; somente a ação espontânea do povo pode criar a liberdade. Sem dúvida, será bastante feliz que a ciência possa, a partir de agora, iluminar a marcha do povo para a sua emancipação. Mas, é melhor a ausência de luz do que uma luz trêmula e incerta, servindo apenas para extraviar aqueles que a seguem. Não é em vão que o povo percorreu uma longa carreira histórica e que pagou seus erros por séculos de miséria. O resumo prático de suas dolorosas experiências constitui um tipo de ciência tradicional, que, sob certos pontos de vista, tem o mesmo valor de ciência teórica. Enfim, uma parte da juventude, aqueles dentre os burgueses estudiosos que sentirão bastante ódio contra a mentira, a hipocrisia, a injustiça e a covardia da burguesia, por encontrar em si próprios a coragem de lhe virar as costas, e bastante paixão para abraçar sem reservas a causa justa e humana do proletariado, estes serão, como já disse, os instrutores fraternos do povo; graças a eles ninguém precisará do governo dos homens de ciência .

Se o povo deve evitar o governo dos homens de ciência, com maior razão deve se precaver contra o dos idealistas inspirados .
Quanto mais sinceros são os crentes e os padres, mais se tornam perigosos. A abstração científica, já disse, é uma abstração racional, verdadeira em sua essência, necessária à vida, da qual é a representação teórica, ou se preferirem, consciência. Ela pode, ela deve ser absorvida e dirigida pela vida. A abstração idealista, Deus, é um veneno corrosivo que destrói e decompõe a vida, que a deturpa e a mata .
O orgulho dos homens de ciência, nada mais sendo do que uma arrogância pessoal, pode ser dobrado e quebrado. O orgulho dos idealistas, não sendo em nada pessoal, mas divino, é irascível e implacável: ele pode, ele deve morrer, mas jamais cederá, e enquanto lhe restar um sopro de vida, tentará subjugar os homens a seu Deus; é assim que os tenentes da Prússia, os idealistas práticos da Alemanha, gostariam de ver esmagar o povo sob a bota e espora de seu imperador .

E a mesma lei, e o objetivo não é nada diferente. O resultado da lei é sempre a escravidão; é ao mesmo tempo o triunfo do materialismo mais feio e mais brutal: não há necessidade de desmonstrá-lo para a Alemanha; seria preciso ser cego para vê-lo .

* * *

O homem, como toda natureza viva, é um ser completamente material. O espírito, a faculdade de pensar, de receber e de refletir as diferentes sensações exteriores e interiores, de se lembrar delas quando passaram, e de reproduzi-las pela imaginação, compará-las e distingui-las, abstrair as determinações comuns e criar assim noções gerais, enfim, formar as idéias agrupando e combinando as noções segundo maneiras diferentes, numa palavra, a inteligência, única criadora de todo o nosso mundo ideal, é uma propriedade do corpo animal e, especialmente, do organismo cerebral .

Sabemo-lo de maneira certa, pela experiência de todos, que nenhum fato jamais desmentiu e que todo homem pode verificar a cada instante de sua vida. Em todos os animais, sem excetuar as espécies complementares inferiores, encontramos um certo grau de inteligência, e vemos que, na série das espécies, a inteligência animal se desenvolve, ainda mais quando a organização de uma espécie se aproxima daquela do homem; porém, somente no homem ela alcança este poder de abstração que constitui propriamente o pensamento .

A experiência universal [8], que é a única origem, a fonte de todos os nossos conhecimentos, demonstra-nos pois que toda inteligência está sempre ligada a um corpo animal qualquer, e que a intensidade e o poder desta função animal dependem da perfeição relativa do organismo. Este resultado da experiência universal não é somente aplicável às diferentes espécies animais; nós o constatamos igualmente nos homens, cuja potência intelectual e moral depende, de forma tão evidente, da maior ou menor perfeição de seu organismo como raça, como nação, como classe e como indivíduos, que não é necessário insistir sobre este ponto [9] .

Por outro lado, é certo que nenhum homem tenha visto ou podido ver alguma vez o espírito puro desprendido de toda forma material, existindo separadamente de um corpo animal qualquer. Mas, se ninguém a viu, como foi que os homens puderam chegar a crer em sua existência? O fato desta crença é certo e, senão universal, como dizem todos os idealistas, pelo menos muito geral, e como tal é inteiramente digno de nossa extrema atenção. Uma crença geral, por mais estúpida que seja, exerce uma influência muito poderosa sobre Q destino dos homens, para que possa ser permitido ignorá-la ou dela fazer abstração .

Esta crença se explica, por sinal, de uma maneira racional. O exemplo que nos oferecem as crianças e os adolescentes, até mesmo muitos homens que ultrapassaram em vários anos a maioridade, prova-nos que o homem pode exercer por muito tempo suas faculdades mentais antes de perceber a maneira como as exerce. Neste período do funcionamento do espírito, inconsciente de si mesmo, desta ação da inteligência ingênua ou crédula, o homem, obsedado pelo mundo exterior, levado por este aguilhão interior que se chama vida e as suas múltiplas necessidades, cria uma quantidade de imaginações, noções e idéias necessariamente muito imperfeitas no início, muito pouco conformes à realidade das coisas e dos fatos que elas se esforçam por exprimir. Ainda não tendo consciência de sua própria ação inteligente, ainda não sabendo que ele próprio produziu e continua a produzir estas imaginações, estas noções, estas idéias, ignorando sua origem totalmente subjetiva, isto é humana, ele deve naturalmente considerá-las como seres objetivos, como seres reais totalmente independentes de si, existindo por eles e neles mesmos .
Foi assim que os povos primitivos, emergindo lentamente de sua inocência animal, criaram seus deuses. Tendo-os criado, sem suspeitar que foram seus únicos criadores, eles os adoraram; considerando-os como seres reais, infinitamente superiores a si próprios, atribuíram-lhes a onipotência e se reconheceram suas criaturas, seus escravos. À medida que as idéias humanas se desenvolvem, os deuses, que nunca foram outra coisa senão revelação fantástica, ideal, poética da imagem invertida, idealizam-se também. Inicialmente fetiches grosseiros, eles se tornam pouco a pouco espíritos puros, existindo fora do mundo visível, e, enfim, no transcurso da história, eles acabam por se confundir num único ser divino, Espírito puro, eterno, absoluto, criador e senhor dos mundos .

Em todo desenvolvimento legítimo ou falso, real ou imaginário, coletivo ou individual, é sempre o primeiro passo que custa, o primeiro ato é o mais difícil. Uma vez ultrapassada a dificuldade, o resto se desenvolve naturalmente, como uma conseqüência necessária .

O que era difícil no desenvolvimento histórico desta terrível loucura religiosa que continua a nos obsedar era apresentar um mundo divino tal e qual, exterior ao mundo real. Este primeiro ato de loucura, tão natural do ponto de vista fisiológico, e por conseqüência necessário na história da humanidade, não se realiza de uma só vez. Foram necessários não sei quantos séculos para desenvolver e para fazer penetrar esta crença nos hábitos sociais dos homens. Mas, uma vez estabelecida, ela se tornou todo-poderosa, como se torna necessariamente a loucura, ao apoderar-se do cérebro do homem. Tomai um louco, qualquer que seja o objeto de sua loucura, e vereis que a idéia obscura e fixa que o obseda parece-lhe a mais natural do mundo, e que, ao contrário, as coisas da realidade que estão em contradição com esta idéia, parecem-lhe loucuras ridículas e odiosas. Bem, a religião e uma loucura coletiva, tanto mais poderosa por ser tradicional e porque sua origem se perde na antigüidade mais remota. Como loucura coletiva, ela penetrou até o fundo da existência pública e privada dos povos; ela se encarnou na sociedade, se tornou, por assim dizer, sua alma e seu pensamento. Todo homem é envolvido por ela desde o seu nascimento; ele a suga com o leite de sua mãe, absorve-a de tudo o que toca, de tudo o que vê. Ele foi, por ela, tão bem nutrido, envenenado, penetrado em todo o seu ser que, mais tarde, por poderoso que seja seu espírito natural, precisa fazer esforços espantosos para se livrar dela, e ainda assim não o consegue de uma maneira completa. Nossos idealistas modernos são uma prova disso, e nossos materialistas doutrinários, os conservadores alemães, são outra .

Eles não souberam se desfazer da religião do Estado .

Uma vez bem estabelecido o mundo sobrenatural, o mundo divino, na imaginação dos povos, o desenvolvimento dos diferentes sistemas religiosos seguiu seu curso natural e lógico, todavia conformando-se com o desenvolvimento contemporâneo das relações econômicas e políticas, das quais ele foi, em todos os tempos, no mundo da fantasia religiosa, a reprodução fiel e a consagração divina. Foi assim que a loucura coletiva e histórica que se chama religião se desenvolveu desde o fetichismo, passando por todos os graus, do politeísmo ao monoteísmo cristão .
O segundo passo no desenvolvimento das crenças religiosas, sem dúvida o mais difícil, após o estabelecimento de um mundo divino separado, foi precisamente a transição do politeísmo ao monoteísmo, do materialismo religioso dos pagãos à fé espiritualista dos cristãos. Os deuses pagãos – e aí está seu caráter principal – eram antes de tudo deuses exclusivamente nacionais. Muito numerosos, eles conservaram necessariamente um caráter mais ou menos material, ou melhor, porque eram materiais é que foram tão numerosos, sendo a diversidade um dos principais atributos do mundo real. Os deuses pagãos não eram propriamente a negação das coisas reais; eles nada mais eram do que seu exagero fantástico .

Vimos o quanto esta transição custou ao povo judeu, do qual ela constituiu, por assim dizer, toda a história. Moisés e os profetas tentaram por todos os meios fazer a pregação do Deus único, mas o povo recaía sempre em sua primeira idolatria, a antiga fé, muito mais natural, com vários bons deuses materiais, humanos, palpáveis. O próprio Jeová, seu Deus único, o Deus de Moisés e dos profetas, ainda era um Deus extremamente nacional, servindo-se, para recompensar e para punir seus fiéis, seu povo eleito, somente de argumentos materiais, freqüentemente estúpidos, sempre grosseiros e ferozes. Não parece sequer que a fé em sua existência tenha implicado a negação da existência dos deuses primitivos. O Deus judeu não negava a existência de seus rivais, somente não queria que seu povo os adorasse ao lado de si. Jeová era um Deus ciumento. Seu primeiro mandamento foi o seguinte: “Eu sou teu Deus e não adorarás outros deuses além de mim Jeová, portanto, foi apenas um primeiro esboço material e muito grosseiro do idealismo moderno. Ele nada mais era, por sinal, que um Deus nacional, como o Deus eslavo a que adoram os generais, súditos submissos e pacientes do imperador de todas as Rússias, como o Deus alemão que proclamam os pietistas, e os generais alemães súditos de Guilherme 1, em Berlim. O Ser supremo não pode ser um Deus nacional, ele deve sê-lo de toda a Humanidade. O Ser supremo não pode ser também um ser material, ele deve ser a negação de toda a matéria, o espírito puro. Para a realização do culto do Ser supremo foram necessárias duas coisas: primeira, uma realização igual à Humanidade pela negação das nacionalidades e dos cultos nacionais; segunda, um desenvolvimento já muito avançado das idéias metafísicas para espiritualizar o Jeová tão grosseiro dos judeus .

A primeira condição foi preenchida pelos romanos, de uma maneira sem dúvida muito negativa: pela conquista da maioria dos países conhecidos dos antigos, e pela destruição de suas instituições nacionais. Graças a eles, o altar de um Deus único e supremo pôde se estabelecer sobre as ruínas de outros milhares de altares. Os Deuses de todas as nações vencidas, reunidas no Panteão, anularam-se mutuamente .

Quanto à segunda condição, a espiritualização de Jeová, ela foi realizada pelos gregos, bem antes da conquista de seu país pelos romanos. A Grécia, em seu fim histórico, já havia recebido do Oriente um mundo divino que fora definitivamente estabelecido na fé tradicional de seus povos. Neste período de instinto, anterior à sua história política, ela o tinha desenvolvido é prodigiosamente humanizado por seus poetas, e quando ela começou verdadeiramente sua história, já possuía uma religião inteiramente pronta, a mais simpática e a mais nobre de todas as religiões que tenham existido, pelo menos tanto quanto uma religião, isto é, uma mentira pode ser nobre e simpática. Seus grandes pensadores – e nenhum povo teve pensadores maiores do que a Grécia – encontraram o mundo divino estabelecido, não somente fora deles próprios, no povo, mas também neles mesmos, como hábito de sentir e pensar, e naturalmente eles o tomaram como ponto de partida. Já foi muito bom que eles nada fizessem de teologia, quer dizer, que eles não se aborrecessem em reconciliar a razão nascente com os absurdos deste ou daquele deus, como o fizeram, na Idade Média, os escolásticos. Eles deixaram os deuses fora de suas especulações e se ligaram diretamente à idéia divina, una, invisível, todo-poderosa, eterna, absolutamente espiritualista e não pessoal. Os metafísicos gregos foram, portanto, muito mais que os judeus, os criadores de um Deus cristão. Os judeus apenas acrescentaram a ele a brutal personalidade de seu Jeová .

Que um gênio sublime, como o divino Platão, tenha podido estar absolutamente convencido da realidade da idéia divina, isto nos demonstra o quanto é contagiosa, o quanto é todo-poderosa a tradição da loucura religiosa, mesmo sobre os maiores espíritos. Por sinal, não devemos nos surpreender com isso, pois mesmo nos dias de hoje, o maior gênio filosófico desde Aristóteles e Platão, que é Hegel, esforçou-se em repor em seu trono transcendente ou celeste as idéias divinas, das quais Kant havia demolido a objetividade por uma crítica infelizmente imperfeita e muito metafísica. E verdade que Hegel portou-se de uma maneira tão indelicada em sua obra de restauração que matou definitivamente o bom Deus. Retirou destas idéias seu caráter divino ao demonstrar, a quem quiser lê-lo, que elas jamais foram outra coisa senão uma criação do espírito humano, correndo à procura de si próprio através da história. Para pôr fim a todas as loucuras religiosas e à miragem divina, só lhe faltou pronunciar esta grande frase dita depois, quase ao mesmo tempo, por dois grandes espíritos, e sem que nunca tivessem ouvido falar um do outro: Ludwig Feuerbach, o discípulo e o demolidor de Hegel, e Auguste Comte, o fundador da filosofia política na França. A frase é: “A metafísica se reduz à psicologia”. Todos os sistemas de metafísica nada mais são do que a psicologia humana se desenvolvendo na história .

Agora não nos é mais difícil compreender como nasceram as idéias divinas, como foram criadas pela faculdade abstrativa do homem. Mas na época de Platão, este conhecimento era impossível. O espírito coletivo, e por conseqüência também o espírito individual, mesmo o do maior gênio, não estava maduro para isto. Mal pôde ser dito com Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”. Este conhecimento de si próprio existia apenas em estado de abstração; na realidade, era nulo. Era impossível que o espírito humano desconfiasse que era o único criador do mundo divino .
Ele o encontrou diante de si, encontrou-o como história, como sentimento, com hábito de pensar, e fez dele necessariamente o objeto de suas mais elevadas especulações. Foi assim que nasceu a metafísica e que as idéias divinas, base do espiritualismo, foram desenvolvidas e aperfeiçoadas .

É verdade que depois de Platão existiu no desenvolvimento do espírito como que um movimento inverso. Aristóteles, o verdadeiro pai da ciência e da filosofia positiva não negou absolutamente o mundo divino, mas ocupou-se com isto o mínimo possível. Estudou primeiramente, como um analista e um experimentador que era, a lógica, as leis do pensamento humano, e, ao mesmo tempo, o mundo físico, não em sua essência ideal, ilusória, mas sob seu aspecto real .

Depois dele, os gregos de Alexandria fundaram a primeira escola das ciências positivas. Eles foram ateus. Mas seu ateísmo permaneceu sem influência sobre seus contemporâneos. A ciência tendeu cada vez mais a se isolar da vida. Quanto à negação das idéias divinas, pronunciada pelos epicuristas e pelos céticos, não teve nenhuma ação sobre as massas .

Uma outra escola, infinitamente mais influente, formou-se em Alexandria .

Foi a escola dos neoplatônicos. Estes, confundindo numa mescla impura as imaginaçõesmonstruosas do Oriente com as idéias de Platão, foram os verdadeiros preparadores e, mais tarde, os elaboradores dos dogmas cristãos .

Assim, o egoísmo pessoal e grosseiro de Jeová, a dominação não menos brutal e grosseira dos romanos, e a especulação metafísica ideal dos gregos, materializada pelo contato com o Oriente, tais foram os três elementos históricos que constituíram a religião espiritualista dos cristãos .
Um Deus que se elevava, pois, acima das diferenças nacionais de todos os países, que era de certa forma a negação direta, devia ser necessariamente um ser imaterial e abstrato. Mas já o dissemos, a fé tão difícil na existência de um semelhante ser não pôde nascer de uma só vez. Assim, também, ela foi longamente preparada e desenvolvida pela metafísica grega, que, inicialmente, estabeleceu, de maneira filosófica, a noção da idéia divina, modelo eternamente reproduzido pelo mundo visível. Mas a divindade concebida e criada pela filosofia grega era uma divindade pessoal. Nenhuma metafísica consequentemente séria, podendo se elevar, ou melhor, se rebaixar à idéia de um Deus pessoal, precisou, pois, imaginar um Deus que fosse único e que fosse três ao mesmo tempo. Ele se encontrou na pessoa brutal, egoísta e cruel de Jeová, o deus nacional dos judeus. Mas os judeus, apesar deste espírito nacional exclusivo que os distingue ainda hoje, tornaram-se, de fato, bem antes do nascimento de Cristo, o povo mais internacional do mundo .

Arrastados em parte como cativos, mas, muito mais ainda, levados por esta paixão mercantil que constitui um dos traços principais de seu caráter, eles se disseminaram em todos os países, levando com eles o culto de seu Jeová, ao qual permaneciam tanto mais fiéis quanto mais ele os abandonava .

Em Alexandria, o deus terrível dos judeus travou conhecimento pessoal com a divindade metafísica de Platão, já muito corrompida pelo contato com o Oriente, e a corrompeu ainda mais pelo seu. Apesar de seu exclusivismo nacional, ciumento e feroz, não pôde, com o tempo, resistir às graças desta divindade ideal e impessoal dos gregos. Desposou-a e deste casamento nasceu o deus espiritualista, mas não espiritual dos cristãos. Os neoplatônicos de Alexandria foram os principais criadores da teologia cristã .

Entretanto, a teologia ainda não constitui a religião, assim como os elementos históricos não bastam para criar a história. Denomino de elementos históricos as condições gerais de um desenvolvimento real qualquer, por exemplo a conquista do mundo pelos romanos e o encontro do deus dos judeus com a divindade ideal dos gregos. Para fecundar os elementos históricos, para fazê-los percorrer uma série de transformações, foi necessário um fato vivo, espontâneo, sem o qual teriam podido permanecer muitos séculos ainda em estado de elementos improdutivos. Este fato não faltou ao cristianismo; foi a propaganda, o martírio e a morte de Jesus Cristo .

Não sabemos quase nada deste personagem, tudo o que nos contam os evangelhos é tão contraditório e fabuloso que mal podemos extrair alguns traços reais e vivos. O certo é que foi o pregador do povo pobre, o amigo, o consolador dos miseráveis, dos ignorantes, dos escravos e das mulheres, e que foi muito amado por estas últimas. Prometeu a vida eterna a todos aqueles que sofrem aqui em baixo, e o número destes é imenso. Foi crucificado, como era de se esperar, pelos representantes da moral oficial e da ordem pública da época. Seus discípulos e os discípulos destes últimos puderam se espalhar, graças à conquista romana e à destruição das barreiras nacionais, e propagaram o Evangelho em todos os conhecidos dos antigos. Em todos os lugares foram recebidos de braços abertos pelos escravos e pelas mulheres, as duas classes mais oprimidas, mais sofredoras e naturalmente mais ignorantes do mundo antigo. Se fizeram alguns prosélitos no mundo privilegiado e letrado, devem isso, em grande parte, à influência das mulheres. Sua propaganda mais ampla exerceu-se quase exclusivamente no povo infeliz, embrutecido pela escravidão. Foi a primeira importante revolta do proletariado .

A grande honra do cristianismo, seu mérito incontestável e todo o segredo de seu triunfo inaudito, e por sinal totalmente legítimo, foi o de ter-se dirigido a este público sofredor e imenso, ao qual o mundo antigo impunha uma servidão intelectual e política estreita e feroz, negando-lhe inclusive os direitos mais simples da humanidade. De outra forma ele jamais teria podido se disseminar. A doutrina que ensinavam os apóstolos do Cristo, por mais consoladora que tenha parecido aos infelizes, era muito revoltante, muito absurda do ponto de vista da razão humana, para que homens esclarecidos tivessem podido aceitá-la. Com que alegria também o apóstolo Paulo fala do “escândalo da fé” e do triunfo desta divina loucura rejeitada pelos poderosos e pelos sábios do século, mas tanto mais apaixonadamente aceita pelos simples, pelos ignorantes e pelos pobres de espírito! Com efeito, seria preciso um bem profundo descontentamento da vida, uma grande sede no coração e uma pobreza quase absoluta de pensamento para aceitar o absurdo cristão, o mais monstruoso de todos os absurdos .

Não era somente a negação de todas as instituições políticas, sociais e religiosas da antigüidade; era a inversão absoluta de senso comum, de toda a razão humana. O ser vivo, o mundo real, eram considerados dali em diante como o nada; enquanto que, para além das coisas existentes, mesmo para além das idéias de espaço e de tempo, o produto final da faculdade abstrativa do homem repousa na contemplação de seu vazio e de sua imobilidade absoluta, esta abstração, este caput mortuum, absolutamente vazio de toda utilidade, o verdadeiro nada, Deus, proclamado o único ser real, eterno, todo-poderoso. O Todo real é declarado nulo, e o nulo absoluto, o Todo. A sombra se torna o corpo e o corpo se desvanece como uma sombra[10] .

Era de uma audácia e de um absurdo sem nome, o verdadeiro escândalo da fé para as massas; era o triunfo da insensatez crente sobre o espírito e, para alguns, a ironia de um espírito fatigado, corrompido, desiludido e enfadado pela busca honesta e séria da verdade; era a necessidade de se aturdir e de se embrutecer, necessidade que se encontra com freqüência entre os espíritos insensibilizados: “Credo quia absurdum” .

Não acredito somente no absurdo; acredito nele precisamente e sobretudo porque ele é absurdo. E assim que muitos espíritos distintos e esclarecidos acreditam, nos dias de hoje, no magnetismo animal, no espiritismo, nas mesas que giram – e por que ir tão longe? -, crêem ainda no cristianismo, no idealismo, em Deus .

A crença do proletariado antigo, tanto quanto a do proletariado moderno, era robusta e simples. A propaganda cristã havia se dirigido a seu coração, não a seu espírito, às suas aspirações eternas, às suas necessidades, aos seus sofrimentos, à sua escravização, não à sua razão, que dormia ainda, e para a qual, consequentemente, as contradições lógicas, a evidência do absoluto não podiam existir. A única questão que o interessava era a de saber quando chegaria a hora da libertação prometida, quando chegaria o reino de Deus. Quanto aos dogmas teológicos, não se preocupava com eles, pois deles nada compreendia. O proletariado convertido ao cristianismo constituía a potência material, mas não o pensamento teórico .

Quanto aos dogmas cristãos, eles foram elaborados em uma série de trabalhos teológicos, literários, e nos concílios, principalmente pelos neoplatônicos convertidos do Oriente .

O espírito grego tinha descido tão baixo, que no século VII da era cristã, época do primeiro concilio, a idéia de um Deus pessoal, espírito puro, eterno, absoluto, criador e senhor supremo, existindo fora de nós, era unanimemente aceita pelos padres da Igreja; como conseqüência lógica deste absurdo absoluto, tornava-se desde então natural e necessário crer na imaterialidade e na imortalidade da alma humana, hospedada e aprisionada em um corpo mortal, em parte somente, porque no corpo há uma parte que, ainda que sendo corporal, é imortal como a alma e deve ressuscitar com ela. Quanto foi difícil, mesmo aos padres da Igreja, imaginar o espírito puro, fora de qualquer forma corporal! E preciso observar que em geral o caráter de todo raciocínio metafísico e teológico é o de procurar explicar um absurdo por outro .

Foi muito oportuno para o cristianismo ter encontrado o mundo dos escravos. Houve outro motivo de alegria: a invasão dos bárbaros. Estes últimos eram uma brava gente, cheios de força natural e sobretudo levados por uma grande necessidade e por uma capacidade de viver; estes bandidos a toda prova, capazes de tudo devastar e tudo engolir, assim como seus sucessores, os alemães atuais; mas eles eram muito menos sistemáticos e pedantes que estes últimos, muito menos moralistas, menos sábios, e em compensação muito mais independentes e orgulhosos, capazes de ciências e não incapazes de liberdade, como os burgueses da Alemanha moderna. Apesar de todas as suas grandes qualidades, eles nada mais eram senão bárbaros, isto é, tão diferentes para todas as questões de teologia e de metafísica quanto os escravos antigos, dos quais um grande número, por sinal, pertencia à sua raça .

Assim, uma vez vencidas suas repugnâncias práticas, não foi difícil convertê-los teoricamente ao cristianismo .

Durante dez séculos, o cristianismo, armado com a onipotência da Igreja e do Estado, e sem nenhuma concorrência, pôde depravar, corromper e falsear o espírito da Europa. Não havia concorrentes, visto que fora da Igreja não houve nem pensadores nem letrados. Somente ela pensava, somente ela falava, escrevia, ensinava. Se heresias surgiram em seu seio, elas só atacavam os desenvolvimentos teológicos ou práticos do dogma fundamental, não a este dogma. A crença em Deus, espírito puro e criador do mundo, e a crença na imaterialidade da alma permaneciam de fora. Esta dupla crença tornou-se a base ideal de toda a civilização ocidental e oriental da Europa; penetrou todas as instituições, todos os detalhes da vida pública e privada das castas e das massas; encarnou-se nelas, por assim dizer .

Podemos surpreender-nos que depois disso esta crença se tenha mantido até nossos dias, continuando a exercer sua influência desastrosa sobre espírito de elite, tais como os de Mazzini, Michelet, Quinet e tantos outros? Vimos que o primeiro ataque foi dirigido contra ela pelo renascimento do livre espírito no século XV, que produziu heróis e mártires como Vanini, Giordano Bruno, Galileu. Ainda que sufocado pelo barulho, pelo tumulto e pelas paixões da reforma religiosa, ele continuou sem barulho seu trabalho invisível, legando aos mais nobres espíritos de cada geração sua obra de emancipação humana pela destruição do absurdo, até que, enfim, na segunda metade do século XVIII, ele reapareceu abertamente de novo, elevando ousadamente a bandeira do ateísmo e do materialismo .

* * * Pôde-se acreditar que o espírito humano iria enfim se livrar de todas as obsessões divinas. Foi um erro. A mentira da qual a humanidade era a vítima havia dezoito séculos (para só falar do cristianismo) deveria se mostrar, mais uma vez, mais poderosa do que a verdade. Não mais podendo servir-se da gente negra, dos corvos consagrados pela Igreja, padres católicos ou protestantes, que tinham perdido todo o crédito, serviu-se dos padres laicos, dos mentores e dos sofistas togados, entre os quais o principal papel foi destinado a dois homens fatais, um, o espírito mais falso, o outro, a vontade mais doutrinariamente despótica do último século: J .-J. Rousseau e Robespierre .
O primeiro é o verdadeiro tipo da estreiteza e da mesquinharia desconfiada> da exaltação sem outro objeto que sua própria pessoa, do entusiasmo frio e da hipocrisia simultaneamente sentimental e implacável, da mentira do idealismo moderno. Pode-se considerá-lo como o verdadeiro criador da reação. Aparentemente, o escritor democrático do século XVIII prepara em si mesmo o despotismo impiedoso do homem de Estado. Foi o profeta do Estado doutrinário, como Robespierre, seu digno e fiel discípulo, tentou tornar-se seu grande padre. Tendo ouvido dizer, por Voltaire, que se não existisse Deus seria preciso inventá-lo, Rousseau inventou o Ser Supremo, o Deus abstrato e estéril dos deístas .
E foi em nome do Ser Supremo e da hipócrita virtude comandada por este Ser Supremo que Robespierre guilhotinou os Hebertistas inicialmente, em seguida o próprio gênio da revolução, Danton, em cuja pessoa ele assassinou a república, preparando assim o triunfo, tornado desde aquele momento necessário, da ditadura napoleônica. Depois do grande recuo, a reação idealista procurou e encontrou servidores, menos fanáticos, menos terríveis, mais de acordo com a estatura consideravelmente diminuta da burguesia atual .

Na França, foram Chateaubriand, Lamartine e – é preciso dizê-lo – Victor Hugo, o democrata, o republicano, o quase-socialista de hoje, e depois deles toda a tropa melancólica, sentimental, de espíritos magros e pálidos que constituíram, sob a direção destes mestres, a escola romântica moderna. Na Alemanha, foram os Schlegel, os Tieck, os Novalis, os Werner, foram Schelling e muitos outros mais, cujos nomes sequer merecem ser lembrados .

A literatura criada por esta escola foi o reino dos espíritos e dos fantasmas. Ela não suportava a claridade; somente a penumbra permitia-lhes viver. Ela também não Suportava o contato brutal das massas. Era a literatura dos aristocratas delicados, distintos, aspirando ao céu, sua pátria, e vivendo, apesar dele, sobre a terra .

Tinha horror e desprezo pela política e pelas questões do quotidiano; mas quando falava disso, por acaso, ela se mostrava francamente reacionária, tomava partido pela Igreja contra a insolência dos livre-pensadores, em favor dos reis contra os povos e de todos os aristocratas contra o populacho das ruas .

De resto, como acabamos de dizer, o que dominava na escola do romantismo era uma indiferença quase completa pela política. No meio das nuvens nas quais ela vivia só se podia distinguir dois pontos reais: o rápido desenvolvimento do materialismo burguês e o desencadeamento desenfreado das vaidades individuais .

* * *

Para compreender esta literatura romântica é preciso procurar sua razão de ser na transformação que se operou no seio da classe burguesa, desde a revolução de 1793 .

Desde a Renascença e a Reforma até a Revolução, a burguesia, senão na Alemanha, pelos menos na Itália, na França, na Suíça, na Inglaterra, na Holanda, foi o herói e o representante do gênio revolucionário da história. De seu seio saía a maioria dos livre-pensadores do século XVIII, os reformadores religiosos dos dois séculos precedentes e os apóstolos da emancipação humana, inclusive, desta vez, os da Alemanha do século passado. Ela sozinha, naturalmente apoiada sobre o braço poderoso do povo que nela tem fé, fez a revolução de 1789 e de 1793. Ela havia proclamado a queda da realeza e da Igreja, a fraternidade dos povos, os Direitos do homem e do cidadão. Eis seus títulos de glória; eles são imortais! Em pouco tempo ele se cindiu. Uma parte considerável de compradores de bens nacionais, tornados ricos, apoiando-se não mais sobre o proletariado das cidades, mas sobre a maior parte dos camponeses da França, tornados, eles também, proprietários de terras, não aspirava a outra coisa senão à paz, ao restabelecimento da ordem pública e ao estabelecimento de um governo poderoso e regular. Ela aclamou pois com alegria a ditadura do primeiro Bonaparte, e, ainda que sempre voltairiana, não viu com maus olhos o tratado com o Papa e o restabelecimento da Igreja oficial na França: “A Religião e tão necessária ao Povo!” . O que significa dizer que, satisfeita, esta parte da burguesia começou desde então a compreender que era urgente, para a conservação de sua situação e de seus bens recém-adquiridos, enganar a fome não saciada do povo pelas promessas de um maná celeste. Foi então que Chateaubriand começou a pregar[11] .

Napoleão caiu. A restauração trouxe de volta à França a monarquia legítima e, com esta, o poder da Igreja e da aristocracia nobiliária, que recuperaram a maior parte de sua antiga influência, até que veio o momento oportuno de reconquistar tudo .

Esta reação relançou a burguesia na Revolução, e com o espírito revolucionário despertou também nela o da incredulidade: ela se tornou de novo um espírito forte. Pôs Chateaubriand de lado e recomeçou a ler Voltaire; mas não chegou até Diderot: seus nervos enfraquecidos não comportavam mais um alimento tão forte. Voltaire, simultaneamente espírito forte e deísta, ao contrário, convinha-lhe muito .
Béranger e P.-L. Courrier exprimiram perfeitamente esta nova tendência .

O “Deus das boas pessoas” e o ideal do rei burguês, ao mesmo tempo liberal e democrático, retraçado sobre o fundo majestoso e doravante inofensivo das vitórias gigantescas do Império, tal foi naquela época o quadro que a burguesia da França fazia do governo da sociedade .
Lamartine, excitado pela monstruosa e ridícula inveja de se elevar à altura poética do grande Byron, tinha começado estes hinos friamente delirantes em honra do Deus dos fidalgos e da monarquia legítima, mas seus cantos só ressoavam nos salões aristocráticos. A burguesia não os escutava. Béranger era seu poeta e Courrier seu escritor político .

A revolução de julho teve por conseqüência o enobrecimento de seus gostos. Sabe-se que todo burguês na França traz em si o tipo imperecível do burguês fidalgo, tipo que jamais deixa de aparecer, tão logo o novo-rico adquire riqueza e poder. Em 1830, a rica burguesia tinha definitivamente substituído a antiga nobreza no poder. Ela tendeu naturalmente a fundar uma nova aristocracia. Aristocracia de capital, antes de mais nada, mas, em suma, distinta, de boas maneiras e de sentimentos delicados. Ela começou a sentir-se religiosa .
Não foram, de sua parte, simples arremedos dos modos aristocráticos .

Era também uma necessidade de posição. O proletariado tinha-lhe prestado um último serviço ao ajudá-la uma vez mais a derrubar a nobreza. A burguesia já não precisava mais deste auxílio, pois sentia-se solidamente estabelecida à sombra do trono de julho, e a aliança do povo, doravante inútil, começava a se tornar incômoda. Era preciso recolocá-lo em seu lugar, o que não se pôde naturalmente fazer sem provocar uma grande indignação nas massas. Tornou-se necessário conter estas últimas. Mas em nome de quê? Em nome do interesse burguês cruamente declarado? Teria sido muito cínico. Quanto mais um interesse é injusto, desumano, mais ele necessita de sanção. Ora, aprisioná-lo, senão na religião, esta boa protetora de todos os satisfeitos e esta consoladora tão útil dos famintos? E mais do que nunca a burguesia triunfante compreendeu que a religião era indispensável ao povo .

Após ter ganho todos os seus títulos de glória na oposição religiosa, filosófica e política, no protesto e na revolução, ela enfim se tornou a classe dominante e, por isso mesmo, a defensora e a conservadora do Estado, instituição desde então regular do poder exclusivo desta classe .
O Estado é a força, e tem, antes de mais nada, o direito da força, o argumento triunfante do fuzil. Mas o homem é tão singularmente feito que este argumento, por mais eloqüente que pareça ser, não é mais suficiente com o passar do tempo. Para impor-lhe respeito, é-lhe absolutamente necessária uma sanção moral qualquer. E preciso, além do mais, que esta sanção seja simultaneamente tão simples e tão evidente que possa convencer as massas, que, após terem sido reduzidas pela força do Estado, devem ser lavadas ao reconhecimento moral de seu direito .
Há somente dois meios de convencer as massas da bondade de uma instituição social qualquer. O primeiro, o único real, mas também o mais difícil de empregar – porque implica a abolição do Estado, isto é, a abolição da exploração politicamente organizada da maioria por uma minoria qualquer – seria a satisfação direta e completa das necessidades e das aspirações do povo, o que equivaleria à liqüidação da existência da classe burguesa e, mais uma vez, à abolição do Estado. E, pois, inútil falar disso .

O outro meio, ao contrário, funesto somente ao povo, precioso ao bem-estar dos privilegiados burgueses, não é outro senão a religião. E a eterna miragem que leva as massas à procura dos tesouros divinos, enquanto que, muito mais astuta, a classe governante se contenta em dividir entre seus membros – muito desigualmente, por sinal, e dando cada vez mais àquele que mais possui – os miseráveis bens da terra e os despojos do povo, inclusive, naturalmente, a liberdade política e social deste .

Não existe, não pode existir Estado sem religião. Considerai os Estados mais livres do mundo, os Estados Unidos da América ou a Confederação Suíça, por exemplo, e vede que papel importante preenche neles, em todos os discursos oficiais, a divina Providência, esta sanção superior de todos os Estados .

Assim, todas as vezes que um chefe do Estado fala de Deus, quer seja o imperador da Alemanha ou o presidente de uma república qualquer, estai certo de que ele se prepara para tosquiar de novo seu povo-rebanho .

A burguesia francesa, liberal e voltairiana, levada por seu temperamento a um positivismo (para não dizer a um materialismo) singularmente estreito e brutal, tendo se tornado classe governante por seu triunfo de 1820, o Estado teve de assumir uma religião oficial. A coisa não era fácil .
A burguesia não podia se colocar cruamente sob o jugo do catolicismo romano. Havia entre ela e a Igreja de Roma um abismo de sangue e de ódio e, por mais práticos e sábios que nos tornemos, nunca conseguimos reprimir em nosso seio uma paixão desenvolvida pela história. Por sinal, o burguês francês se cobria de ridículo se retornasse à Igreja para tomar parte nas cerimônias religiosas de seu culto, levado muito longe. A burguesia foi levada, então, para sancionar seu novo Estado, a criar uma nova religião que pudesse ser, sem muito ridículo e escândalo, condição essencial de uma conversão meritória e sincera. Muitos o tentaram, é verdade, mas seu heroísmo não obteve outro resultado além de um escândalo estéril. Enfim, o retorno ao catolicismo era impossível por causa da contradição insólita que separa a política invariável de Roma e o desenvolvimento dos interesses econômicos e políticos da classe média .

No que diz respeito a isto, o protestantismo é muito mais cômodo. E a religião burguesa por excelência. Ela concede de liberdade apenas o necessário de que precisa o burguês e encontrou o meio de conciliar as aspirações celestes com o respeito que exigem os interesses terrestres .
Assim, foi sobretudo nos países protestantes que o comércio e a indústria se desenvolveram .
Mas era impossível para a burguesia francesa fazer-se protestante. Para passar de uma religião a outra – a menos que o faça calculadamente, como os judeus da Rússia e da Polônia, que se batizam três e até mesmo quatro vezes para receber o mesmo número de vezes a remuneração que lhes é concedida -, para mudar de religião seriamente, é preciso ter um pouco de fé. Ora, no coração exclusivamente positivo do burguês francês não há lugar para a fé. Ele professa a mais profunda indiferença para todas as questões que não dizem respeito nem ao seu bolso inicialmente nem à sua vaidade social em seguida .

Ele é tão indiferente ao protestantismo quanto ao catolicismo. Por outro lado, o burguês francês não poderia passar ao protestantismo sem se colocar em contradição com a rotina católica da maioria, o que teria sido uma grande imprudência por parte de uma classe que pretendia governar a nação .

Restava um meio: retornar à religião humanitária e revolucionária do século XVIII. Mas isto faria a religião altamente proclamada por toda a classe burguesa .

Foi assim que nasceu o Deísmo doutrinário .

Outros já fizeram, muito melhor do que eu poderia fazer, a história do nascimento e do desenvolvimento desta escola, que teve uma influência tão decisiva e, pode-se dizê-lo muito bem, tão funesta sobre a educação política, intelectual e moral da juventude burguesa na França. Ela data de Benjamin Constant e de Mme. de Staël; seu verdadeiro fundador foi Royer-Collard; seus apóstolos, Guizot, Cousin, Villemam e muitos outros .
Seu objetivo abertamente declarado era a reconciliação da revolução com a reação ou, para falar a linguagem da escola, do princípio da liberdade com o da autoridade, naturalmente em proveito deste último .

Esta reconciliação significava: em política, a escamoteação da liberdade popular em proveito da dominação burguesa, representada pelo Estado monárquico e constitucional; em filosofia, a submissão refletida da livre razão aos princípios eternos da fé .

Sabe-se que ela foi sobretudo elaborada pelo Sr. Cousin, pai do ecletismo francês. Orador superficial e pedante, incapaz de qualquer concepção original, de qualquer pensamento que lhe fosse próprio, mas muito forte em lugares-comuns, que ele confundia com o bom senso, este ilustre filósofo preparou sabiamente, para uso da juventude estudantil da França, um prato metafísico a seu modo, cujo uso foi tornado obrigatório em todas as escolas do Estado, submissas à Universidade: é o alimento indigesto ao qual foram condenadas necessariamente várias gerações .

* * *

[O manuscrito foi interrompido aqui.]

Mikhail Bakunin Notas:

[1] Eu o denomino “iníquo” porque este mistério foi e ainda continua sendo a consagração de todos os horrores que foram cometidos e que se cometem no mundo; eu o denomino “iníquo” porque todos os outros absurdos teológicos e metafísicos que embrutecem o espírito dos homens nada mais são do que suas conseqüências necessárias .
[2] Stuart Mill é talvez o único a quem seja permitido colocar em o idealismo sério; e isto por duas razões: a primeira é que, não é absolutamente o discípulo, ele é um admirador apaixonado, um adepto da Filosofia Positiva de Augusto Comte, filósofo apesar de suas inúmeras reticências, é realmente ateu; a segunda é que Stuart Mill era inglês, e na Inglaterra proclamar-se ateu é se colocar fora da sociedade, mesmo hoje .
[3] Mômiers – Apelidos de certos metodistas na Suíça (N. do T.) .
[4] Pietistas – adeptos da doutrina ascética da Igreja Luterana alemã do século XVII (N. do T.) .
[5] Bakunin fala aqui, sem dúvida, das “leis econômicas” e da “ciência social”, que, com efeito, ainda está em seu começo .
[6] Em Londres, eu ouvi o Sr. Louis Blanc exprimir, há pouco, mais Ou menos a mesma idéia: “A melhor forma de governo”, e logo depois, “será a que convocar sempre à direção os homens virtuosos” .
[7] A ciência, tornando-se o patrimônio de todo mundo, desposará, de certo modo, a vida imediata e real de cada um. Ela ganhará em utilidade e em graça o que tiver perdido em orgulho, em ambição e em pedantismo doutrinário. Isto não impedirá, sem dúvida, que homens geniais, melhor organizados para as especulações científicas do que a maioria de seus contemporâneos, se dediquem exclusivamente à cultura das ciências e prestem grandes serviços à humanidade. Todavia, eles não poderão ambicionar outra influência social senão a influência natural exercida sobre seu meio por toda a inteligência superior, nem outra recompensa que não seja a satisfação de uma nobre preparação .
[8] É preciso distinguir a experiência universal, sobre a qual os idealistas querem apoiar suas crenças; a primeira é uma constatação real de fatos, a segunda nada mais á que uma suposição de fatos que ninguém viu e que, por conseqüência, estão em contradição com a experiência de todo o mundo .
[9] Os idealistas, todos os que crêem na imaterialidade e na imortalidade da alma humana, devem estar excessivamente embaraçados com a diferença que existe entre as inteligências das raças, dos povos e dos indivíduos. A menos que se suponha que as diversas parcelas foram irregularmente distribuídas, como explicar esta diferença? Existe infelizmente um número considerável de homens completamente estúpidos, parvos até o idiotismo. Teriam eles, pois, recebido na divisão uma parcela ao mesmo tempo divina e estúpida? Para sair deste embaraço, os idealistas deveriam necessariamente supor que todas as almas humanas são iguais, mas que as prisões nas quais elas se encontram necessariamente fechadas, os corpos humanos, são desiguais, uns mais capazes que outros, para servir de órgão à intelectualidade pura da alma. Esta teria à sua disposição, deste modo, órgãos muito finos; aquelas, órgãos muito grosseiros . Mas estas são distinções de que o idealismo não tem o direito de se servir, sem cair, ele próprio, na inconseqüência e no materialismo mais grosseiro. Isto porque, na absoluta imaterialidade da alma, todas as diferenças corporais desaparecem, tudo o que á corporal, material, deve aparecer como indiferente, igual, absolutamente grosseiro. O abismo que separa a alma do corpo, a absoluta imaterialidade da materialidade absoluta, á infinito. Por conseqüência, todas as diferenças, inexplicáveis por sinal, e logicamente impossíveis, que poderiam existir do outro lado do abismo, na matéria, devem ser, para a alma, nulos, e não podem nem devem exercer sobre ela nenhuma influência. Numa palavra, o absolutamente imaterial não pode ser forçado, aprisionado e ainda menos exprimido em qualquer grau que seja pelo absolutamente material. De todas as imaginações grosseiras e materialistas, no sentido ligado a esta palavra pelos idealistas, quer dizer, brutais, que foram engendradas pela ignorância e pela estupidez primitiva dos homens, a de uma alma imaterial, aprisionada num corpo material, á certamente a mais grosseira, a mais estúpida, e nada melhor prova a onipotência, exercida até mesmo sobre os melhores espíritos, por preconceitos antigos, do que ver homens dotados de uma grande inteligência falarem ainda desta extravagante união .

[10] Sei muito bem que nos sistemas teológicos e metafísicos orientais, e sobretudo nos da Índia, inclusive o budismo, encontra-se já o princípio do aniquilamento do mundo real em proveito do ideal e da abstração absoluta. Mas ele ainda não traz o caráter de negação voluntária e refletida que distingue o Cristianismo; quando estes sistemas foram concebidos, o mundo do espírito humano, da vontade e da liberdade ainda não tinha se desenvolvido como se manifestou na civilização grega e romana .

[11] Creio ser útil lembrar aqui uma história, por sinal muito conhecida e inteiramente autentica, que lança uma luz sobre o valor pessoal destes reaquecedores das crenças católicas e sobre a sociedade religiosa dessa época. Chateaubriand havia levado ao editor uma obra dirigida contra a fé. O editor observou que o ateísmo tinha passado de moda, e que o público leitor não se interessava mais por este tema, que pedia, ao contrário, obras religiosas. Chateaubriand retirou-se, mas, alguns meses depois, retornou trazendo-lhe seu Génie du Christianisme .

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/deus-e-o-estado/

Os Cátaros e a Quarta Cruzada

O catarismo, do grego katharos, que significa puro, foi uma seita cristã da Idade Média, descendente direta dos essênios, que se tornou conhecida no Limousin (França) ao final do século XI, a qual praticava um sincretismo cristão, gnóstico e maniqueísta, manifestado num extremo ascetismo. Concebia a dualidade entre o espírito e a matéria, assim como, respectivamente, o bem e o mal. Os cátaros foram condenados pelo 4º Concílio Lateranense em 1215 pelo Papa Inocêncio III, e foram aniquilados durante a quarta cruzada e pelas ações da Inquisição, tornada oficial em 1233.

Que segredo possuíam os cátaros, para causar tanto mal estar à Igreja Católica?

Antes de começar com os Cátaros, seria interessante ao leitor acompanhar os textos mais antigos sobre como o cristianismo original se desenvolveu até chegar aos Cátaros e ao Sul da França:

– Bota o Natal na conta do Papa

– Jesus Cristo e Maria Madalena

– Pitágoras e Buda, os professores de Jesus

– Seria Yeshua um X-men?

– Que fim levaram os Apóstolos?

O maniqueísmo

Maniqueísmo, filosofia religiosa sincrética e dualística ensinada pelo profeta persa Mani (216-276), combinando elementos do Zoroastrismo, Cristianismo e Gnosticismo, condenado pelo governo do Império Romano, filósofos neoplatonistas e cristãos ortodoxos.

A igreja cristã de Mani era estruturada a partir dos diversos graus do desenvolvimento interior. Ele mesmo a encabeçava como apóstolo de Jesus Cristo. Junto a ele eram mantidos doze instrutores ou filhos da misericórdia. Seis filhos iluminados pelo sol do conhecimento assistiam cada um deles. Esses “epíscopos” (bispos) eram auxiliados por seis presbíteros ou filhos da inteligência. O quarto círculo compreendia inúmeros eleitos chamados de filhos e filhas da verdade ou dos mistérios. Sua tarefa era pregar, cantar, escrever e traduzir. O quinto círculo era formado pelos auditores ou filhos e filhas da compreensão. Para esse último grupo, as exigências eram menores. Mani foi um preservador da tradição gnóstica. Com a morte de Mestre Jesus, o Cristo, os discípulos se separaram em dois grupos, e fugiram. Um, como bem sabemos, o maior, seguiu para o Egito (onde escolas gnósticas floresceram nas décadas seguintes), seguindo depois para o porto de Marselha, na França. Tal é o motivo de Maria Madalena ser tão venerada na França, e Tiago ter seu famoso “Caminho de Santiago de Compostela”. Tal é o motivo das historias britânicas estarem estritamente relacionadas a José de Arimatéia e assim por diante. Do outro lado temos o grupo de Tomé, Simão o Mago, Matheus… que sobe para as regiões da Síria, onde pequenos núcleos de buscadores da gnosis serão formados. Décadas depois a Síria estará entre as regiões visitadas por Apolônio de Tyana e o gnóstico Paulo. Aliás, a Síria sempre foi objeto de grande interesse espiritual, séculos depois é para a Síria que os Templários se dirigem em busca dos Mistérios, e é igualmente para a Síria que Christian Rosenkrantz, o pseudônimo do fundador dos rosacruzes, se dirige, e lá encontra o seu “livro secreto”, e um “augusta fraternidade”.

“Coincidência” ou não, é impossível ignorar a importância dessa região. Algo, sem dúvida, devia haver lá.Então, esse segundo grupo de discípulos se dirige para a Síria. Há relatos que sugerem que Tomé teria passado um tempo lá e retornado para a Índia (como indica o Hino da Perola, que é simbólico, mas usa de base a historia de um príncipe que veio do Oriente). Curiosamente esse ‘Hino da Pérola’ (Ou ‘Hino da veste de glória’) vai ser divulgado a partir de escolas na Síria.

Entre a coleção de textos divulgados pela escola da Síria, está o dito Hino e também os escritos de Tomé; cópias do Evangelho de Tomé se preservaram graças a esses gnósticos antigos.

Além do Evangelho de Tomé, temos o “Livro de Tomé” redigido por Matheus enquanto Jesus conversava com Tomé, segundo consta o próprio livro. Esses textos são divulgados mais tarde principalmente por um gnóstico chamado Bardesanes, na Síria. Bardesanes não é nada menos que o avô de Mani. Portanto é nesse contexto gnóstico de Hinos da veste de glória e Evangelho de Tomé que Mani, o Profeta da Luz, é educado. Mani, jovem e inspirado, ignorou ingenuamente o perigo que vinha do oeste e ensinou abertamente a população; logo, os atentos olhos da Igreja de mão de ferro que se formava em Roma viram em Mani um problema.

Assim o maniqueísmo passou a ser combatido.

Os Paulicianos

Os Paulícianos ou Paulacianos eram um grupo de Cristãos considerados hereges pelo Catolicismo que predominavam na Armênia, antiga Babilônia, Síria, Palestina, Monte Arará, Cordilheira do Touro e Antióquia no Séc. VI d.c no chamado Império Bizantino.

Eles traziam os ensinamentos dos apóstolos que foram para a Síria e tiveram seu início a partir das pregações dos mesmos no primeiro século depois de Cristo.

O Imperador Justiniano ao promulgar seu código a partir de 525 d.C, declarou que o “rebatismo” ou “Anabatismo”(grego) era uma das heresias que deveriam ser punidas por morte, os Paulacianos tinham como apelido “Sabian” que expressava o ato de batizarem por imersão e rebatizarem indivíduos provindos do catolicismo, pois rejeitavam a submissão à Igreja Romana, por isso eram tidos como “Anabatistas hereges”.

Em 668 DC iniciou-se uma grande perseguição aos Paulacianos que provocou a morte de um de seus grandes líderes chamado Constantino em 690 DC,que foi morto apedrejado e seu sucessor queimado vivo. Eles tiveram um pequeno fôlego nos anos seguintes por conta do filho de Leão III, que simpatizava com a sua causa.

A Imperadora Teodósia, no séc.IX (842-867 DC) iniciou uma perseguição que matou 100.000 deles, pois eram acusados de Anabatismo e denominados Gnósticos e Maniqueísmo Dualistas. (não confundir Teodósia com Teodora, nem com Marósia que, assim como a Imperadora, também são gente que faz!) A Imperadora era defensora do culto com ícones (imagens), os Paulacianos porem negavam-se ao uso de imagens, rejeitavam cultos aos santos e culto a Maria.

Após as perseguições os então denominados hereges Paulacianos expandiram-se para os Balcãs ocidentais, dando origem aos Bogomilos e aos Albigenses nos Alpes do sul da França ao se unirem com os “hereges” que lá residiam.

Nos registros do século XII (mais precisamente no ano de 1.116 DC), um grupo que se denominava Paulaciano desembarcou na Inglaterra, sendo então perseguido pelo Imperador Henrique II que ordenou que fossem ferreteados na testa e expulsos do território Inglês. Alguns teólogos e historiadores pertencentes à Igreja Batista afirmam que os Paulacianos eram os “Batistas antes da Reforma”.

Os bogomilos diziam ser a “verdadeira e oculta Igreja Cristã”. Esta heresia precipitou o surgimento do catarismo e era tradicionalmente reconhecida por eclesiásticos e inquisidores como “tradição oculta por trás do catarismo”.

Os Cátaros

Nos meados do século XII, iniciou-se na Itália um movimento religioso denominado Catarismo (Albigenses), a doutrina dos cátaros era nitidamente diferente da Igreja Católica, numa reação à Igreja Católica e suas práticas, como a venda de indulgências, e a soberba vida dos padres e bispos da época, que viviam imersos em corrupção, prostituição e baixarias sem fim.

Os cátaros eram radicais e dualistas, assim como os maniqueístas; acreditavam que a salvação vinha em seguir o exemplo da vida de Jesus, negavam que o mundo físico imperfeito pudesse ser obra de Deus, acreditavam ser o mundo criação do príncipe das trevas, rejeitavam a versão bíblica da criação do mundo e todo o antigo testamento, acreditavam na reencarnação, não aceitavam a cruz, a confissão e todos os ornamentos religiosos.

Com medo da repressão da Igreja, os Cátaros mantiveram sua fé em segredo; porém, em pouco tempo esta ordem atraiu muitos seguidores. Cresceram bastante no sul da França e se estenderam a região do Flandres e da Catalunha, funcionaram abertamente com a proteção dos poderosos senhores feudais, capazes de desafiar até mesmo o Papa.

O chamado “Pays Cathare” (País Cátaro) se estendia pela zona chamada Occitania , atual Languedoc, em uma extensão fronteiriça com Toulouse até o oeste, nos Pirineus até o sul, e no Mediterráneo até o leste. Em definitivo, uma área política que, durante o século XIII, limitava-se com a Coroa de Aragão, França e condados independentes como o de Foix e Toulouse.

As cerimônias cátaras eram muito simples e consistiam basicamente em um sermão breve, uma benção e uma oração ao Senhor; essa simplicidade influenciou posteriormente uma gama de seguimentos protestantes. Possuíam duas classes ou graus.

Os leigos eram conhecidos como crentes e a esses não eram exigidos seguir suas regras de abstinência reservada aos perfecti, ou bonhomes eleitos, que formavam a mais alta hierarquia do catarismo. Para ser um perfecti tinham que tanto homem quanto mulher, passar por um período de provas nunca inferior a 2 anos, e durante esse tempo, faziam a renúncia de todos os bens terrenos, abstinham de carne e vinho, não poderiam ter contato com o sexo oposto. Depois deste período o candidato recebia sua iniciação conhecida com o nome de Consolamentum que era realizada em público. Essa cerimônia parecia com o batismo e continha também uma confirmação e uma ordenação.

Na idade média, marcada pela violência e pela sede de poder da igreja Católica Romana, o Catarismo chocou-se frontalmente com o dogmatismo da Igreja. A religião cátara propunha, como aspectos básicos, a reencarnação do espírito, a concepção da terra como materialização do Mal, por encher a alma de desejos e prende-la às coisas efêmeras do mundo, e do céu como a do Bem, numa concepção dualista do mundo. Mas o principal ponto de discórdia tenha sido o de que os cátaros não admitiam qualquer tipo de intemediação entre o homem e Deus. Sem papa, sem dízimo. Neste ponto o leitor já deve ter uma noção que uma religião como esta não duraria muito quando a Igreja católica resolvesse agir, certo?

A Cruzada Albigesa

A Cruzada Albigesa (devido à cidade de Albi), comandada por Simon de Montfort (1209 – 1224) e pelo Rei Luis VIII (1226-1229) durou 40 anos. A perseguição arrasou a região dos Cátaros, a resistência teve que enfrentar-se com duas forças enormes, o poder militar do Rei de França e o poder espiritual da Igreja Católica.

Na primeira fase da cruzada, foi destruída a cidades de Béziers (1209), onde 60.000 pessoas morreram. Destruída a cidade, os cruzados marcham para a cidade de Carcassone, onde Simon de Montfort se apossa dos condados de Trencavel (carcassone, Béziers), conquistando também Alzonne, Franjeaux, Castres, Mirepoix, Pamiera e Albi.

Em Béziers, tornou-se célebre o diálogo entre o comandante dos cruzados e o representante do papa: Disse o comandante “Mas senhor, nesta cidade encontram-se vivendo em paz cristãos, judeus, árabes e cátaros. Como vamos saber quais são os inimigos?” ao que a Igreja respondeu “Matem todos; Deus escolherá os seus!”

Em 1216, houve outra investida contra os cátaros. Simon morre em 1218, acabando também a cruzada, sem, entretanto, extinguir a heresia. Amaury, filho de Montfort, oferece as terras conquistadas por seu pai a Felipe Augusto, rei da França que as recusa, porém seu filho Luís VIII acabará aceitando as terras.

Em 1224 Luís VIII liderando os barões do norte, empreendeu uma nova cruzada que durou cerca de três anos alcançando muitas conquistas até chegar a Avignon, onde termina o cerco contra os hereges. O resultado dessa disputa foi um acordo imposto pelo rei da França aos Senhores feudais das áreas conquistadas e conseqüentemente os domínios disputados passariam para a coroa da França (Tratado de Meaux, 1229).

Militarmente, apesar de terem o apóio de pequenos condados, os cátaros não conseguiram resistir ao genocídio das cruzadas, embora elas não tenham conseguido erradicar o Catarismo de forma definitiva… até a Inquisição!

Muitos dos Cátaros encontraram refúgio dentro das Ordens Templárias, chegando até mesmo a executar seus rituais dentro das Igrejas e Castelos templários. O abrigo e proteção aos Cátaros foi uma das inúmeras alegações que a Igreja usou contra os Templários em 1314.

Os Cátaros deram origem aos primeiros grupos dos chamados “Alquimistas” e seus textos simbólicos, que a partir do século XVII passaram ser conhecidos como Rosacruzes.

Líderes Templários do Período:
Gilbert Horal: Um grande líder templário, que tentou estabelecer alianças e fazer as pazes com os muçulmanos. Por conta disso, as tensões entre os Templários e os Hospitalários ficaram maiores do que nunca, a ponto quase de eclodir uma guerra interna entre os cavaleiros. Durante as reuniões com o papa Inocente III, este argumentou a favor dos Hospitalários, pois o papa estava furioso com os acordos de paz entre os Templários e Malek-Adel, irmão de Saladino. Gilbert organizou e ampliou as posses dos Templários na França.
Phillipe de Plessis: foi o décimo-terceiro Grão Mestre Templário, de 1201 a 1208. Ele se juntou aos cruzados durante a Terceira Cruzada e acabou conhecendo e se iniciando nos místérios Templários em Jerusalém. Não houveram muitas intervenções militares durante seu governo, pois a 4a cruzada nunca saiu da europa; os Templários atingiram seu pico de influencia e força e criaram uma grande disputa com os Teutônicos na Germania (o que quase causou a expulsão dos Templários do território, se não fosse a intervenção do papa).

#Templários

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-c%C3%A1taros-e-a-quarta-cruzada

Simbolismo e a Liberdade Religiosa

Por Hamal

Os ensinamentos da Ordem DeMolay e da Maçonaria são transmitidos através de símbolos. Mas sabemos realmente a importância dessa afirmação?

Muitos dizem que os ensinamentos são transmitidos em forma de símbolos para se velarem ao entendimento profano. Essa afirmação é verdadeira, mas quem é profano? Aquele não iniciado nas Ordens ou aquele iniciado que não pratica o conhecimento que lhe é transmitido?

O símbolo esconde seu segredo somente aqueles que não procuram conhece-lo, sendo iniciado ou não. O símbolo é como uma pedra bruta que oculta seu formato a quem não sabe manusear as ferramentas. Basta estudar e trabalhar sobre um símbolo que ele se revela trazendo algo de oculto consigo.

É fundamental esclarecer a importância do simbolismo e da liberdade religiosa antes de analisarmos o que se encontra além das aparências simbólicas, pois necessitamos retirar o empecilho dogmático e tabus existentes em torno desses símbolos.

O SÍMBOLO

Nós usamos diversas maneiras para nos comunicar e expressar, seja a palavra falada, escrita ou em imagens. Isso é o que chamamos de sinais, cujo entendimento vêm através do aprendizado consciente e ali permanece, sem nenhum reflexo inconsciente.

Já o símbolo é diferente, é a ponte entre a consciência e o inconsciente, aquilo que vai além do seu significado aparente. Quando nos propomos a conhecer o domínio dos símbolos entramos em um mundo além da lógica e razão, pois adentramos no lado escuro da mente. Dessa maneira, é a conexão entre o visível e o invisível, são pelos símbolos que acessamos a egrégora e as energias do ritual.

O homem não inventa símbolos, assim como não inventa as Leis Físicas, ele apenas observa a vida e o universo ao seu redor e identifica os símbolos correspondentes a cada acontecimento ou fato existente.

Por exemplo, a vida e a morte são um fato do Universo e não só dos homens. De estrelas que explodem, à natureza que morre no inverno e os homens que vão ao Oriente Eterno. A morte é um destino certo a tudo que existe, e pode ser representado simbolicamente por uma caveira. Mas tudo está em evolução e crescimento, e da morte (que não significa “fim”) também surge a vida. Novas estrelas surgem do pó das antigas, novas folhas e frutos nascem na natureza e uma nova geração surge entre os homens. É o ciclo da vida e da morte que todos teremos que passar.

O ciclo da vida e da morte nos ensinam que nessa vida nada é eterno, tudo um dia acabará. Faz parte da evolução e do nosso crescimento. Como a serpente que solta a pele antiga para poder crescer, deixando o antigo para trás e renascendo como um novo ser. A serpente que morde o próprio rabo é o ouroboros dos alquimistas, e representa esse eterno ciclo do universo da morte e ressurreição.

Esses símbolos representam a evolução, a morte do profano e o renascimento de um ser espiritual. O objetivo das iniciações.

É a observação do universo que fornece ao homem os símbolos, portanto o esoterismo reconhece o mesmo princípio nos símbolos utilizados por culturas e religiões diferentes. A Lua do Brasão da Ordem DeMolay é a mesma Lua na cabeça de Shiva, como também é a da deusa Ísis. A jornada, provas e fases da Iniciação Maçônica e DeMolay representam as mesmas provas que os mitos relatam daqueles que se tornam um “herói”, como as provas enfrentadas por Jesus, Buda ou Krishna. Mesma jornada que representa o andar do Sol no Céu e a vida de um homem, do nascer ao ocaso.

Percebam a importância do Princípio da Correspondência no simbolismo vista no texto Esoterismo na Ordem DeMolay e o exemplo dos símbolos da Maçonaria no Esoterismo na Maçonaria.

LIBERDADE RELIGIOSA

O hermetismo reforça a ideia de liberdade religiosa e de pensamento, pois tudo que provêm da obra de Deus é sagrado e existe um símbolo que pode revelar segredos transcendentes a nós. Não devemos desprezar nenhum conhecimento.

Dessa maneira o DeMolay e o Maçom devem aprender a enxergar além do senso comum, além do dogma e do separacionismo religioso. Reconhecendo que os símbolos religiosos são sagrados, é nosso dever respeitá-los assim como respeitar a decisão do outro em ser seguir ou não um dogma ou religião.

A respeito da Liberdade Religiosa e Maçonaria podemos ler na Constituição de Anderson, escrita em 1723, o seguinte trecho:

“Da mesma maneira que, nos tempos passados, os maçons eram obrigados, em cada país, a professar a religião de sua pátria ou nação, qualquer que ela fosse, nos tempos atuais nos pareceu mais adequado não obrigar além dessa religião na qual todos os homens estão de acordo, deixando cada um livre para ter sua opinião própria.

(…)

De onde segue que a Maçonaria é o Centro de União e o meio de suscitar a verdadeira amizade entre as pessoas. Sem ela, permaneceriam em um perpétuo distanciamento“.

E sobre esse assunto na Ordem DeMolay vemos em sua Cerimonia Branca:

“Nós abrimos a Bíblia Sagrada, fonte de nossa fé em dias eternos, sobre o Altar, como símbolo da liberdade religiosa, que é direito de primogenitura de todos os povos. Sobre este Altar, não está o emblema de qualquer credo, ou o depósito de qualquer sistema de teologia, mas sim a palavra do único e verdadeiro Deus, cuja paternidade universal nos ensina a lição inevitável da fraternidade de todos os seus filhos. Sem a oportunidade de venerar a um Deus de acordo com as instituições de nossa própria consciência, nossa liberdade seria sem sentido, portanto, com fundamento, colocamos a Bíblia Sagrada sobre nosso Altar.”

Chega a um ponto em nossos estudos que se formos presos por dogmas religiosos estaremos muito limitados e não progrediremos no esoterismo. Isso será muito importante, pois aqui não vamos poupar interpretações simbólicas.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/simbolismo-e-a-liberdade-religiosa

Coletânea de Koans Zen-Budistas

Um koan é uma anedota, diálogo, questão ou afirmação feita por u mestre dentro do zen budismo que contém aspectos inacessíveis à razão. Desta forma, o koan tem, como objetivo, propiciar a iluminação espiritual do praticante pela suspensão da mente discursiva e mergulho na vacuidade do ser.

Um famoso koans pergunta: “Se uma árvore cai e não há ninguém para escutar, ela faz barulho?”. Confira a seguir outros 67 koans tradicionais:

1.

Um homem, viajando em um campo, encontrou um tigre. Ele correu, com o tigre em seu encalço. Aproximando-se de um precipício, tomou as raízes expostas de uma vinha selvagem em suas mãos, e pendurou-se precipitadamente abaixo, na beira do abismo. O tigre o farejava acima. Tremendo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do precipício, outro tigre a esperá-lo. Apenas a vinha o sustinha. Mas, ao olhar para a planta, viu dois ratos, um negro e outro branco, roendo aos poucos a sua raiz. Neste momento, seus olhos perceberam um belo morango vicejando perto. Segurando a vinha com uma mão, ele pegou o morango com a outra e o comeu. — Que delícia! — ele disse.

2.

Quando um jovem estudante Zen, visitou um mestre após outro. Ele então foi até Dokuon de Shokoku. Desejando mostrar o quanto já sabia, ele disse, vaidoso: “A mente, Buddha, e os seres sencientes, além de tudo, não existem. A verdadeira natureza dos fenómenos é vazia. Não há realização, nenhuma delusão, nenhum sábio, nenhuma mediocridade. Não há o Dar e tampouco nada a receber!”
Dokuon, que estava fumando pacientemente, nada disse. Subitamente ele acertou Yamaoka na cabeça com seu longo cachimbo de bambu. Isto fez o jovem ficar muito irritado, gritando insultos.
“Se nada existe,” perguntou, calmo, Dokuon, “de onde veio toda esta sua raiva?”

3.

Um homem muito rico pediu a Sengai para escrever algo pela continuidade da prosperidade de sua família, de modo que esta pudesse manter sua fortuna de geração a geração.
Sengai pegou uma longa folha de papel de arroz e escreveu: “Pai morre, filho morre, neto morre.”
O homem rico ficou indignado e ofendido. “Eu lhe pedi para escrever algo pela felicidade de minha família! Porque fizeste uma brincadeira destas?!?”
“Não pretendi fazer brincadeiras,” explicou Sengai tranquilamente. “Se antes da sua morte seu filho morrer, isto iria magoá-lo imensamente. Se seu neto se fosse antes de seu filho, tanto você quanto ele ficariam arrasados. Mas se sua família, de geração a geração, morrer na ordem que eu escrevi, isso seria o mais natural curso da Vida. Eu chamo a isso a Verdadeira Riqueza.”

4.

Durante as guerras civis no Japão feudal, um exército invasor poderia facilmente dizimar uma cidade e tomar controle. Numa vila, todos fugiram apavorados ao saberem que um general famoso por sua fúria e crueldade estava se aproximando — todos exceto um mestre Zen, que vivia afastado.
Quando chegou à vila, seus batedores disseram que ninguém mais estava lá, além do monge.
O general foi então ao templo, curioso em saber quem era tal homem. Quando ele lá chegou, o monge não o recebeu com a normal submissão e terror com que ele estava acostumado a ser tratado por todos; isso levou o general à fúria.
“Seu tolo!!” ele gritou enquanto desembainhava a espada, “não percebe que você está diante de um homem que pode trucidá-lo num piscar de olhos?!?”
Mas o mestre permaneceu completamente tranquilo.
“E você percebe,” o mestre replicou calmamente, “que você está diante de um homem que pode ser trucidado num piscar de olhos?”

5.

Uma noite quando Shichiri Kojun estava recitando sutras um ladrão com uma espada entrou em seu zendo, exigindo seu dinheiro ou a sua vida.
Shichiri disse-lhe:
“Não me perturbe. Você pode encontrar o dinheiro naquela gaveta.” E retomou sua recitação. Um pouco depois ele parou de novo e disse ao ladrão:
“Não pegue tudo. Eu preciso de alguma soma para pagar os impostos amanhã.”
O intruso pegou a maior parte do dinheiro e principiou a sair.
“Agradeça à pessoa quando você recebe um presente,” Shichiri acrescentou.
O homem lhe agradeceu, meio confuso, e fugiu.
Poucos dias depois o indivíduo foi preso e confessou, entre outras coisas, a ofensa contra Shichiri.
Quando Shichiri foi chamado como testemunha ele disse:
“Este homem não é ladrão, ao menos tanto quanto me diz respeito. Eu lhe dei o dinheiro e ele inclusive me agradeceu por isso.”
Após o homem ter cumprido sua pena, ele foi a Shichiri e tornou-se um de seus discípulos.

6.

Certa vez existiu um grande guerreiro. Ainda que muito velho, ele ainda era capaz de derrotar qualquer desafiante. Sua reputação estendeu-se longe e amplamente através do país e muitos estudantes reuniam-se para estudar sob sua orientação.
Um dia um infame jovem guerreiro chegou à vila. Ele estava determinado a ser o primeiro homem a derrotar o grande mestre. Junto à sua força, ele possuía uma habilidade fantástica em perceber e explorar qualquer fraqueza em seu oponente, ofendendo-o até que a este perdesse a concentração. Ele esperaria então que seu oponente fizesse o primeiro movimento, e assim revelando sua fraqueza, e então atacaria com uma força impiedosa e velocidade de um raio. Ninguém jamais havia resistido em um duelo contra ele além do primeiro movimento.
Contra todas as advertências de seus preocupados estudantes, o velho mestre alegremente aceitou o desafio do jovem guerreiro. Quando os dois se posicionaram para a luta, o jovem guerreiro começou a lançar insultos ao velho mestre. Ele jogava terra e cuspia em sua face.
Por horas ele verbalmente ofendeu o mestre com todo o tipo de insulto e maldição conhecidos pela humanidade. Mas o velho guerreiro meramente ficou parado ali, calmamente. Finalmente, o jovem guerreiro finalmente ficou exausto. Percebendo que tinha sido derrotado, ele fugiu vergonhosamente.
Um tanto desapontados por não terem visto seu mestre lutar contra o insolente, os estudantes aproximaram-se e lhe perguntaram: “Como o senhor pôde suportar tantos insultos e indignidades? Como conseguiu derrotá-lo sem ao menos se mover?”
“Se alguém vem para lhe dar um presente e você não o aceita,” o mestre replicou, “para quem retorna este presente?”

7.

Roshi Kapleau (um mestre Zen moderno) concordou em falar a um grupo de psicanalistas sobre Zen. Após ser apresentado ao grupo pelo diretor do instituto analítico, o Roshi quietamente sentou-se sobre uma almofada colocada sobre o chão. Um estudante entrou, prostrou-se diante do mestre, e então sentou-se em outra almofada próxima, olhando seu professor.
“O que é Zen?” o estudante perguntou. O Roshi pegou uma banana, descascou-a, e começou a comê-la.
“Isso é tudo? O senhor não pode me dizer nada mais?” o estudante disse.
“Aproxime-se, por favor.” O mestre replicou. O estudante moveu-se mais para perto e Roshi balançou o que restava da banana em frente ao rosto do outro. O estudante fez uma reverência e partiu.
Um segundo estudante levantou-se e dirigiu-se à audiência:
“Vocês todos entenderam?” Quando não houve resposta, o estudante adicionou:
“Vocês acabaram de testemunhar uma completa demonstração do Zen. Alguma questão?”
Após um longo silêncio constrangido, alguém falou.
“Roshi, eu não estou satisfeito com sua demonstração. O senhor nos mostrou algo que eu não tenho certeza de ter compreendido. DEVE existir uma maneira de nos DIZER o que é o Zen!”
“Se você insiste em usar mais palavras,” o Roshi replicou, “então Zen é ‘um elefante copulando com uma pulga…’”.

8.

Ryokan, um mestre Zen, vivia a mais simples e frugais das vidas em uma pequena cabana aos pés de uma montanha. Uma noite um ladrão entrou na cabana apenas para descobrir que nada havia para ser roubado.
Ryokan retornou e o surpreendeu lá.
“Você fez uma longa viagem para me visitar,” ele disse ao gatuno, “e você não deveria retornar de mãos vazias. Por favor tome minhas roupas como um presente.”
O ladrão ficou perplexo. Rindo de troça, ele tomou as roupas e esgueirou-se para fora.
Ryokan sentou-se nu, olhando a lua.
“Pobre coitado,” ele murmurou. “Gostaria de poder dar-lhe esta bela lua.”

9.

Certa vez Bodhidharma foi levado à presença do Imperador Wu, um devoto benfeitor buddhista, que ansiava receber a aprovação de sua generosidade pelo sábio. Ele perguntou ao mestre:
“Nós construímos templos, copiamos os sutras sagrados, ordenamos monges e monjas. Qual o mérito, reverenciado Senhor, da nossa conduta?”
“Nenhum mérito, em absoluto”, disse o sábio.
O Imperador, chocado e algo ofendido, pensou que tal resposta com certeza estava subvertendo todo o dogma buddhista, e tornou a perguntar:
“Então qual é o Santo Dharma, o Primeiro Princípio?”
“Um vasto Vazio, sem nada santo dentro dele”, afirmou Bodhidharma, para a surpresa do Imperador. Este ficou furioso, levantou-se e fez sua última pergunta:
“Quem és então, para ficares diante de mim como se fosses um sábio?”
“Eu não sei, Majestade”, replicou o sábio, que assim tendo dito virou-se e foi embora.

10.

Dois monges discutiam a respeito da bandeira do templo, que tremulava ao vento. Um deles disse:
– É a bandeira que se move.
O outro disse:
– É o vento que se move.
Trocaram ideias e não conseguiam chegar a um acordo. Então Hui-neng, o sexto patriarca, disse:
– Não é a bandeira que se move. Não é o vento que se move. É a mente dos senhores que se move.
Os dois monges ficaram perplexos.

11.

Aquele que passa a Porta sem porta marchará de mão dadas com toda a linhagem de Patriarcas, olhando com o mesmo olho e ouvindo com o mesmo ouvido.

12.

Batendo duas mãos uma na outra temos um som. Qual é o som de uma única mão?

13.

Quem pensa que entendeu se questiona.
Quem pensa que não entendeu questiona os outros.
Quem entendeu não diz nada.
E quem não entendeu também não diz nada!

14.

Antes de os teus pais terem nascido, qual era a tua natureza original?

15.

Qual é o som do silêncio?

16.

Um Mestre oferece um melão a um discípulo, e pergunta: — Que te parece o melão? Tem bom gosto?
— Sim, sim! Muito bom gosto! – responde o discípulo.
O Mestre, então, faz outra pergunta: — O que tem bom gosto: o melão ou a língua?

17.

Quem é você?

18.

Qual era o seu rosto original – aquele que você possuía antes de nascer?

19.

Todos os fenómenos são impermanentes. Tudo que nasce deve finalmente morrer. O que nasce e o que morre?

20.

Não siga o passado; não se perca no futuro. O passado não existe mais; o futuro ainda não chegou. Observando profundamente a vida como ela é, aqui e agora, é que permanecemos equilibrados e livres.

21.

Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre o Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre as suas dúvidas. Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a chávena do seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando o chá pela borda.
O professor, vendo o excesso se derramando, não pôde mais se conter e disse:
“Está muito cheio. Não cabe mais chá!”
“Como esta chávena,” Nan-in disse, “você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua chávena?”
Então, o Mestre Nan-in disse: — Como esta xícara, você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como eu posso lhe demonstrar o Zen sem que você primeiro esvazie a sua xícara?

22.

Um orgulhoso guerreiro, chamado Nobushige, foi até o Mestre Hakuin, e perguntou-lhe: — Se existe um paraíso e um inferno, onde estão?
— Quem é você? — perguntou Hakuin.
— Eu sou um samurai! — o guerreiro exclamou.
— Você? Um guerreiro? — riu-se Hakuin. — Que espécie de governante teria tal guarda? Sua aparência é a de um mendigo!
Nobushige ficou tão raivoso que começou a desembainhar sua espada, mas Hakuin continuou:
— Então, você tem uma espada! Sua arma provavelmente está tão cega que não cortará minha cabeça…
O samurai desembainhou a espada e avançou pronto para matar, gritando de ódio. Neste momento, Hakuin anunciou:
— Acaba de se abrir o Portal do Inferno!
Ao ouvir estas palavras, e percebendo a sabedoria do Mestre, o samurai embainhou sua espada, e fez-lhe uma profunda reverência.
— Acaba de se abrir o Portal do Paraíso — disse suavemente o Mestre Hakuin.

23.

Certa vez, o Mestre taoísta Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta, voando alegremente aqui e ali. No sonho, ele não tinha mais a mínima consciência de sua individualidade como pessoa. Ele era realmente uma borboleta. Repentinamente, ele acordou, e se descobriu deitado em sua cama, uma pessoa novamente.
Mas, então, ele pensou para si mesmo:
“Antes, fui um homem que sonhava ser uma borboleta ou, agora, sou uma borboleta que sonha ser um homem?”

24.

Após dez anos de aprendizagem, Tenno atingiu o título de Mestre Zen. Em um dia chuvoso, ele foi visitar o famoso Mestre Nan-In. Quando ele entrou no mosteiro, o Mestre, imediatamente, recebeu-o com uma questão:
— Você deixou seus tamancos e seu guarda-chuva no alpendre?
— Sim, Mestre — respondeu Tenno.
— Então, diga-me — continuou o Mestre: — Você colocou seu guarda-chuva à esquerda de seu calçado ou à direita?
Tenno não soube responder, percebendo, afinal, que ainda não havia alcançado a plena atenção. Ele, então, se tornou aprendiz do Mestre Nan-In, e estudou sob sua orientação por mais dez anos.

25.

Dois peregrinos estavam perdidas no deserto. Estavam morrendo de inanição e sede. Finalmente, avistaram um alto muro. Do outro lado, podiam ouvir o som de quedas d’água e de pássaros cantando. Acima, podiam ver os galhos de uma árvore frutífera atravessando e pendendo sobre o muro. Seus frutos pareciam deliciosos. Um dos homens subiu o muro e desapareceu no outro lado. O outro, em vez disso, saciou sua fome com as frutas que sobressaíam da árvore, ali mesmo, e retornou ao deserto para ajudar outros perdidos a encontrar o caminho para o oásis.

26.

Dois monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam um escorpião que estava se afogando. Um dos monges, imediatamente, pegou-o e o colocou na margem. No processo, ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela, e, novamente, o escorpião caiu no rio. O monge salvou o escorpião, e novamente foi picado. O outro monge, então, perguntou:
— Amigo, por que você continua a salvar o escorpião quando você sabe que sua natureza é agir com agressividade, picando-o?
— Porque — respondeu o monge — agir com compaixão é a minha natureza.

27.

O monge perguntou ao Mestre:
— Como posso sair do ‘Samsara’?
O Mestre respondeu:
— Quem te colocou nele?

28.

O pensamento lógico não pode ser usado para obter a Compreensão; apenas com a sensibilidade da não mente alcança-se a Verdade.

29.

Um estudante perguntou a Joshu, “Mestre, o que é Satori?”
O mestre replicou: “Quando estiver com fome, coma. Quando estiver cansado, durma.”

30.

Certa vez, enquanto o velho mestre Seppo Gisen jogava bola, Gessha aproximou-se e perguntou:
“Por que é que a bola rola?”
Seppo respondeu:
“A bola é livre. É a verdadeira liberdade.”
“Por quê?”
“Porque é redonda. Rola em toda parte, seja qual for a direção, livremente. Inconsciente, natural, automaticamente.”

31.

Certa vez um estudante perguntou ao mestre Joshu:
– Mestre, por favor, o que é o Satori?.
Joshu respondeu-lhe:
– Terminaste a refeição?
– É claro mestre, terminei.
– Então, vai lavar as tuas tigelas!

32.

Durante uma conversa, o rei Milinda perguntou ao Bodhisattva Nagasena:
– Que é o Samsara?
Nagasena respondeu:
– Ó grande rei, aqui nascemos e morremos, lá nascemos e morremos, depois nascemos de novo e de novo morremos, nascemos, morremos… Ó grande rei, isso é Samsara.
Disse o rei:
– Não compreendo; por favor, explicai-me com mais clareza.
Nagasena replicou:
– É como o caroço de manga que plantamos para comer-lhe o fruto. Quando a grande árvore cresce e dá frutos, as pessoas os comem para, em seguida, plantar os caroços. E dos caroços nasce uma grande mangueira, que dá frutos. Desse modo, a mangueira não tem fim. É assim, grande rei, que nascemos aqui, morremos ali, nascemos, morremos, nascemos, morremos.
Grande rei, isso é Samsara.
Em outro Sutra, o rei Milinda pergunta ainda:
– Que é o que renasce no mundo seguinte (Depois da morte.)
Responde Nagasena:
– Depois da morte nascem o nome, o espírito e o corpo.
O rei pergunta:
– É o mesmo nome, o mesmo espírito e o mesmo corpo que nascem depois da morte?
– Não é o mesmo nome, o mesmo espirito e o mesmo corpo que nascem depois da morte.
Esse nome, esse espírito e esse corpo criam a acção. Pela acção, ou Karma, nascem outro nome, outro espírito e outro corpo.

33.

Finalmente, após muitos sofrimentos, Shang Kwang foi aceite por Bodhidharma como seu discípulo. O jovem então perguntou ao mestre:
“Eu não tenho paz de espírito. Gostaria de pedir, Senhor, que pacificasse minha mente.”
“Ponha sua mente aqui na minha frente e eu a pacificarei!” replicou Bodhidharma.
“Mas… é impossível que eu faça isso!” afirmou Shang Kwang.
“Então já pacifiquei a sua mente.”, conclui o sábio.

34.

O Imperador perguntou ao Mestre Gudo:
“O que acontece com um homem iluminado após a morte?”
“Como eu poderia saber?”, replicou Gudo.
“Porque o senhor é um mestre… não é?” respondeu o Imperador, um pouco surpreso.
“Sim Majestade,” disse Gudo suavemente, “mas ainda não sou um mestre morto.”

35.

Um monge perguntou ao mestre:
“Qual o significado de Dharma-Buddha?”
O mestre apontou e disse:
“O cipreste no jardim.”
O monge ficou irritado, e disse:
“Não, não! Não use parábolas aludindo a coisas concretas! Quero uma explicação intelectual clara do termo!”
“Então eu não vou usar nada concreto, e serei intelectualmente claro,” disse o mestre. O monge esperou um pouco, e vendo que o mestre não iria continuar fez a mesma pergunta:
“Então? Qual o significado de Dharma-Buddha?”
O mestre apontou e disse:
“O cipreste no jardim.”

36.

Um monge jovem era o responsável pelo jardim zen de um famoso templo Zen. Ele tinha conseguido o trabalho porque amava as flores, arbustos e árvores. Próximo ao templo havia um outro templo menor onde vivia apenas um velho mestre Zen. Um dia, quando o monge estava esperando a visita de importantes convidados, ele deu uma atenção extra ao cuidado do jardim. Ele tirou as ervas daninhas, podou os arbustos, cardou o musgo, e gastou muito tempo meticulosamente passando o ancinho e cuidadosamente tirando as folhas secas de outono. Enquanto ele trabalhava, o velho mestre observava com interesse de cima do muro que separava os templos.
Quando terminou, o monge afastou-se um pouco para admirar seu trabalho.
“Não está lindo?” ele perguntou, feliz, para o velho monge.
“Sim,” replicou o ancião, “mas está faltando algo crucial. Me ajude a pular este muro e eu irei acertar as coisas para você.”
Após certa hesitação, o monge levantou o velho por sobre o muro e pousou-o suavemente em seu lado. Vagarosamente, o mestre caminhou para a árvore mais próxima ao centro do jardim, segurou seu tronco e o sacudiu com força. Folhas desceram suavemente à brisa e caíram por sobre todo o jardim.
“Pronto!” disse o velho monge,” agora você pode me levar de volta.”

37.

Certa vez, um buddhista foi às montanhas procurar um grande mestre, que segundo acreditava poderia lhe dizer a palavra definitiva sobre o sentido da Sabedoria.
Após muitos dias de dura caminhada o encontrou em um belo templo à beira de um lindo vale.
“Mestre, vim até aqui para lhe pedir uma palavra sobre o sentido do Dharma. Por favor, faça-me atravessar os Portões do Zen.”
“Diga-me,” replicou o sábio, “vindo para cá vós passastes pelo vale?”
“Sim.”
“Por acaso ouvistes o seu som?”
Um tanto incerto, o homem disse:
“Bem, ouvi o som do vento como um suave canto penetrando todo o vale.”
O sábio respondeu:
“O local onde vós ouvistes o som do vale é onde começa o caminho que leva aos Portões do
Zen. E este som é toda palavra que vós precisais ouvir sobre a Verdade.”

38.

Quatro monges decidiram meditar em silêncio completo, sem falar por duas semanas. Na noite do primeiro dia a vela começou a falhar e então apagou-se.
O primeiro monge disse, “Oh, não! A vela apagou-se!”
O segundo comentou, “Não tínhamos que ficar em silêncio completo?”
O terceiro reclamou, “Por que vocês dois quebraram o silêncio?”
Finalmente o quarto afirmou, todo orgulhoso, “Aha! Eu sou o único que não falou!”

39.

Um estudante foi ao seu professor e disse fervorosamente: “Eu estou ansioso para entender seus ensinamentos e atingir a Iluminação! Quanto tempo vai demorar para eu obter este prémio e dominar este conhecimento?”
A resposta do professor foi casual: “Uns dez anos…”
Impacientemente, o estudante completou: :”Mas eu quero entender todos os segredos mais rápido do que isto! Vou trabalhar duro! Vou praticar todo o dia, estudar e decorar todos os sutras, farei isso dez ou mais horas por dia!! Neste caso, em quanto tempo chegarei ao objetivo?”
O professor pensou um pouco e disse suavemente: “Vinte anos.”

40.

Quando jovem, Baso praticava incessantemente a Meditação. Certa ocasião, seu Mestre Nangaku aproximou-se dele e perguntou-lhe:
– Por que praticas tanta Meditação?
– Para me tornar um Buddha.
O Mestre tomou de uma telha e começou a esfregá-la com um pedra. Intrigado, Baso perguntou:
– O que fazeis com essa telha?
– Pretendo transformá-la num espelho.
– Mas por mais que a esfregueis, ela jamais se transformará num espelho! será sempre uma pedra.
– O mesmo posso dizer de ti. Por mais que pratiques Meditação, não te tornarás Buda.
– Então o que fazer?
– É como fazer um boi andar.
– Não entendo.
– Quando queres fazer um carro de bois andar, bates no boi ou no carro?
Baso não soube o que responder e então o Mestre continuou:
– Buscar o Estado de Buda fazendo apenas Meditação é matar o Buda. Dessa maneira, não acharás o caminho certo.

41.

Na China, havia um monge Zen, chamado mestre Dori, que, por fazer zazen empoleirado num pinheiro pára-sol, fora alcunhado de mestre Ninho de Passarinho Um poeta muito célebre, Sakuraten, foi visitá-lo e, ao vê-lo fazer zazen, disse-lhe:
“Tomai cuidado, que isso é perigoso; podereis, um dia, cair do pinheiro!”
“De maneira nenhuma,” respondeu mestre Dori. “Vós é que correis perigo de um dia cair.”
Sakuraten refletiu. “Com efeito, vivo dominado por paixão, é como brincar com o raio”. E perguntou ao mestre Zen:
“Qual é a verdadeira essência do budismo?”
Mestre Dori respondeu:
“Não façais nada violento, praticai somente o aquilo que é justo e equilibrado.”
“Mas até uma criança de três anos sabe disso!” exclamou o poeta.
“Sim, mas é uma coisa difícil de ser praticada até mesmo por um velho de oitenta anos…” completou o mestre.

42.

Certa vez, um homem encontrou Joshu, que estava atarefado em limpar o pátio do mosteiro.
Feliz com a oportunidade de falar com um grande Mestre, o homem, imaginando conseguir de Joshu respostas para a questão metafísica que lhe estava atormentando, lhe perguntou:
“Oh, Mestre! Diga-me: onde está o Caminho?”
Joshu, sem parar de varrer, respondeu solícito:
“O caminho passa ali fora, depois da cerca.”
“Mas,” replicou o homem meio confuso, “eu não me refiro a esse caminho.”
Parando seu trabalho, o Mestre olhou-o e disse:
“Então de que caminho se trata?”
O outro disse, em tom místico:
“Falo, mestre, do Grande Caminho!”
“Ahhh, esse!” sorriu Joshu. “O grande caminho segue por ali até a Capital.” E continuou a sua tarefa.

43.

Uma velha construiu uma cabana para um monge e o alimentou por vinte anos, como forma de adquirir méritos. Certo dia, como forma de experimentar a sabedoria adquirida pelo monge, a velha pediu à jovem mulher que levava ao monge o alimento todos os dias (já que a velha senhora não podia mais fazer o caminho com frequência) que o abraçasse. Ao chegar à cabana, a menina encontrou o monge em zazen. Ela abraçou-o e perguntou-lhe se gostava dela. O monge, frio e indiferente, disse de forma dura:
“É como se uma árvore seca estivesse abraçada a uma fria rocha. Está tão frio como o mais rigoroso inverno, não sinto nenhum calor.”
A jovem retornou, e disse o que o monge fez. A velha, irritadíssima, foi até lá, expulsou o monge e queimou a cabana. Enquanto ele se afastava, ela gritou:
“E eu, que passei vinte anos sustentando um idiota!”

44.

Um dia um discípulo perguntou ao seu professor:
“Mestre, todas as coisas existentes têm de extinguir-se, mas há uma Verdade Eterna?”
“Sim,” disse o mestre. E apontou para o jardim:
“Ela é como as flores do campo, que de tão belas parecem brocados de pura seda; como um riacho aparentemente imóvel, mas que de facto está fluindo suavemente para o oceano.”

45.

Shin-kung perguntou a um dos seus mais inteligentes monges:
“Podeis capturar o Vazio?”
“Sim, senhor”, replicou ele.
“Mostrai-me como fazes,” pediu o mestre.
O monge abriu os braços e açambarcou o espaço vazio. Shin-kung disse:
“É essa a maneira? Apesar de tudo, não capturou coisa alguma.”
“Então,” replicou o monge um tanto ofendido, “qual é o método que usas?”
O mestre segurou o nariz do aluno e deu um forte puxão. O rapaz gritou:
“Aaiii! Estás puxando com muita força! Está me machucando!”
O mestre replicou:
“Perfeito! Essa é a maneira de realmente capturar o Vazio!”

46.

Num dia chuvoso, quando estava sentado com um discípulo no salão do templo e ouvindo as gotas d’água batendo suavemente no telhado e no pátio, o mestre Jing-qing perguntou ao outro monge:
“Que som é aquele lá fora?”
“É a chuva,” respondeu o monge. O mestre disse:
“Ao buscar fora de si mesmos alguma coisa, todos os seres se confundem com os significados.”
“Então,” replicou o discípulo, “como deveria eu me sentir em relação ao que percebo, Mestre?”
O sábio apenas disse:
“Eu sou o barulho da chuva.”

47.

Um dia, um discípulo foi ao mestre Kian-fang e perguntou-lhe:
“Todas as direções levam ao caminho de Buddha, mas apenas uma conduz ao Nirvana. Por
favor, mestre, diga-me onde começa este Caminho?”
O velho mestre fez um risco no chão com seu bastão e disse:
“Aqui”.

48.

Um praticante foi até o seu professor de meditação, tristemente, e disse:
“Minha prática de meditação é horrível! Ou eu fico distraído, ou minhas pernas doem muito, ou eu constantemente fico com sono. É simplesmente horrível!!!!”
“Isso passará,” o professor disse suavemente.
Uma semana depois, o estudante retornou ao seu professor, eufórico:
“Minha prática de meditação é maravilhosa! Eu sinto-me tão consciente, tão pacífico, tão relaxado, tão vivo! É simplesmente maravilhoso!!!!!”
O mestre disse tranqüilamente:
“Isso também passará.”

49.

Um monge perguntou a Ta-chu:
“São as palavras a Mente?”
“Não, as palavras são condições externas. Elas não são a Mente,” disse o mestre.
“Então onde, fora das condições externas, podemos encontrar a Mente?”
“Não há Mente além das palavras,” declarou o sábio.
“Não havendo Mente independente das palavras, o que é afinal a Mente?” perguntou o monge, confuso.
“A Mente é sem forma e sem imagens. Em verdade, ela nem depende nem é independente das palavras. É eternamente serena e livre em seu movimento.”

Koan: Onde está a sua Mente?

50.

Quando era jovem, o então monge Ikkyu e seu irmão estavam arrumando o quarto de seu mestre, e num acidente o irmão quebrou a tigela da cerimonia do chá favorita do sábio professor. Ambos ficaram assustados, pois a tigela era muito estimada pelo mestre, pois foi um presente do imperador. Entretanto, Ikkyu disse ao irmão:
“Não se preocupe. Sei como abordar a questão com nosso mestre!”
Juntou os pedaços de cerâmica, escondeu-os no manto, saiu para o jardim do templo e sentou-se a esperar pelo velho sábio. Quando este se aproximou, Ikkyu propôs-lhe um Mondo (uma seqüência de perguntas e respostas):
“Mestre, é dito que todos os seres e todas as coisas no Universo estão fadadas a morrer?”
“Sim,” respondeu o Mestre, “o próprio Buddha assim afirmou, e tal conceito é inegável: todas as coisas têm de perecer.”
“Sendo assim, devemos compreender a natureza da impermanência, e superar o sofrimento ignorante pelas perdas que são, afinal, relativas e inevitáveis.”
“Com certeza, tal compreensão faz parte do caminho correto!” disse o mestre feliz pela sagacidade de seu jovem discípulo. Neste momento, Ikkyu retirou os cacos de sua manga, pousou-os à frente do mestre e disse:
“Mestre, sua querida tigela de chá morreu…”
E saiu ligeiro da presença do surpreso sábio…

51.

Um professor de Zen, após anos como orientador de um aluno particularmente sensível e sábio, resolveu lhe dar um presente:
“Estou ficando velho, em breve morrerei. Para simbolizar sua sucessão a mim como mestre vou lhe dar este livro valiosíssimo.”
O discípulo, entretanto, não estava interessado em livros:
“Não é necessário, obrigado, mestre. Eu aceitei o seu ensinamento como o Zen que prescinde a palavra escrita. Gosto de sua face original. Fique com seu precioso livro.”
O professor insistiu, e afirmou, orgulhoso:
“Este livro atravessou sete gerações, é uma relíquia! Por favor, fique com ele como um símbolo de sua aceitação do manto e da tigela!”
O outro apenas disse:
“Está bem, dê-me o livro.”
Ao recebê-lo, o discípulo simplesmente atirou o livro no fogo próximo, queimando-o. O professor ficou chocado. Gritou para o aluno, indignado:
“Como pôde fazer isso?! Era uma peça inestimável de conhecimento!”
Foi a vez do sábio discípulo ficar indignado:
“Como podes dar mais valor a papel e couro do que àquilo que me ensinastes directamente, de forma pura? Ensinar uma sabedoria que não se pode praticar é como agir sem coração, e não ser nada mais do que um repetidor de textos sagrados. Tu me deste um objeto, e eu usufrui dele como considerei adequado. Como podes ficar indignado com um simples ‘dar e receber’?”

52.

Um monge perguntou a Tozan enquanto ele estava pesando algum linho:
“O que é Buddha?”
Tozan disse:
“Um quilo e meio de puro linho…”

53.

Joshu perguntou a Nansen: “Qual é o Caminho?”
Nansen disse: “O dia-a-dia é o Caminho”.
“Pode ele ser estudado?” perguntou Joshu
Nansen disse: “Se tentares estudá-lo, irás estar muito longe dele.”
Joshu replicou: “Se não posso estudá-lo, como posso entender o Caminho?”
Nansen completou: “O Caminho não pertence ao mundo da percepção, nem Ele pertence ao mundo da não-percepção. A cognição é delusão e a não-cognição é sem sentido. Se desejais alcançar o Verdadeiro Caminho além das dúvidas, busqueis ser tão livre como o céu. E não afirmais que isso é bom ou ruim.”
Ao ouvir tais palavras, Joshu atingiu o Satori.

Koan: Sabeis reconhecer a Liberdade?

54.

Shogen perguntou:
“Por que o homem Iluminado não se ergue e explica sua natureza?”
E então completou:
“Na verdade, não é necessário que as palavras venham da língua…”

55.

Um monge perguntou a Yun-men (Ummon ? – 966):
“O que é o Dharma-Buddha?”
Yun-men respondeu:
“Esterco seco.”

56.

Um monge perguntou a Fuketsu:
“Sem falar, sem silenciar, como vós podeis expressar a Verdade?”
Fuketsu replicou:
“Eu sempre me lembro das primaveras no sul da China. Os pássaros cantam por entre as inumeráveis espécies de belas e cheirosas flores…”

57.

Quando Buddha atingiu a Suprema Iluminação, diz uma lenda que alguém lhe perguntou:
“Vós sois um Deus?”
“Não,” ele disse.
“Vós sois um santo?”
“Não”
“Então quem sois vós?”
Ele então disse:
“Eu sou Desperto.”

58.

Após algumas horas em agradável colóquio com seu mestre Niao-wo, o discípulo ergueu-se e reverentemente despediu:
“Obrigado por vosso tempo, Mestre. Agora eu me vou.”
“E para onde vais?” Perguntou o sábio.
“Parto pelo país, sempre estudando com afinco o Dharma-Buddha,” disse o discípulo.
“Ah, o Dharma-Buddha!” exclamou o Mestre, “Por acaso eu tenho um pouco disso aqui comigo, sabes?”
O jovem discípulo, intrigado e algo curioso, e também ligeiramente ambicioso, perguntou rápido, olhando em volta:
“É mesmo? Onde está? Onde está?”
O Mestre retirou um fio de seu manto e mostrou-o, declarando:
“Este fio também é o Dharma-Buddha.”

59.

Um filósofo perguntou a Buddha:
“Sem palavras, sem silêncio, podeis vós revelar-me a Verdade?”
O Buddha permaneceu em silêncio.
O filósofo agradeceu profundamente e disse:
“Com vossa amável generosidade eu esclareci minha Ilusão e penetrei no verdadeiro caminho.”
Após o filósofo ter partido, Ananda perguntou ao Buddha o que ele havia obtido.
O Buddha replicou:
“Um bom cavalo corre apenas à visão da sombra do chicote.”

60.

Um monge perguntou a Chao-chou:
“O que diríeis se eu chegasse ante vós sem nada trazer?”
Chao-chou respondeu:
“Deixai-o aí mesmo, no chão.”
O monge contestou:
“Mas eu disse que nada trazia, como então poderia pôr algo no chão?”
“Tudo bem então,” comentou Chao-chou, despreocupado, “nesse caso, levai-o daqui.”

61.

Certo dia, um discípulo perguntou ao monge Pa-ling:
“Há alguma diferença entre o que disseram os patriarcas e o que está escrito nos Sutras sagrados?”
O sábio respondeu:
“Quando fica frio, os faisões empoleram-se nos galhos das árvores, e os patos mergulham sob a água…”

62.

Em dois mosteiros vizinhos viviam dois jovens monges muito amigos. De manhã, sempre os monges se encontravam, cada um cuidando de seus afazeres. Certo dia, um dos monges estava varrendo o pátio de seu templo e, vendo aproximar-se o amigo, perguntou:
“Olá! Onde vais?”
O amigo respondeu, feliz:
“Vou aonde meus pés me levarem…”
O monge ficou intrigado com a resposta e comentou com seu mestre. Este lhe disse:
“Da próxima vez, diga-lhe: ‘E se não tivesses pés?’”
Quando o jovem noviço viu o amigo de novo na manhã seguinte, fez a mesma pergunta já antecipando o momento em que pegaria o amigo de jeito, desta vez:
“Onde vais?”
Mas o outro disse:
“Aonde o vento me levar!”
O monge ficou frustado! Voltou ao mestre e contou a nova resposta, e este, sorrindo, disse:
“Da próxima vez, diga-lhe: ‘E se o vento parasse de soprar?’”
O jovem monge ficou encantado com a ideia:
“Sim, sim! Essa é boa! Agora ele não me escapa!”
No dia seguinte, ao amanhecer, ele viu seu amigo aproximando-se de novo. Perguntou-lhe:
“Olá! Onde vais?”
O amigo parou, sorriu-lhe, e falou suavemente:
“Simplesmente vou ao mercado, meu amigo…”, e seguiu seu caminho.

63.

Chao-Chou (Joshu) certa vez varria o chão quando um monge lhe perguntou:
“Sendo vós o sábio e santo Mestre, dizei-me como se acumula tanto pó em seu quintal?”
Disse o Mestre, apontando para o pátio:
“Ele vem lá de fora.”

64.

Um monge aproximou-se de seu mestre – que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua – com uma grande dúvida:
“Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitos de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?”
O velho sábio respondeu:” As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta.”
O monge replicou: “Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?”
“Poderia,” confirmou o mestre, “e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio.”
“Então,” o monge perguntou,” por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?”
“Porque,” completou o sábio, “da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como facto consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples facto dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário.”
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

65.

“Se vires o Buda, mata-o !”
“Mata aquele que encontres no teu caminho. Se encontrares o Buda, mata o Buda; se encontrares os Patriarcas, mata os Patriarcas; se encontrares os Arahat, mata-os também”
O que significa isso? Leia este Ensaio de Paulo Borges

66.

Um monge perguntou a Joshu: “um cão possui a natureza de Buda?”
Joshu respondeu: “Mu”»

67.

Um monge perguntou a Hui-neng (o Sexto Patriarca Zen):
“Quem herdou o espírito do Quinto Patriarca?”
Hui-neng respondeu:
“Aquele que compreende o Budismo.”
“Teríeis então vós herdado este espírito?” quis saber o monge.
“Não,” replicou o mestre. “Eu não o herdei.”
“Por que não?!?” o monge, naturalmente pasmo, perguntou então.
“Porque não compreendo o Budismo.” Afirmou Hui-neng.

Fonte: Koan: Vós compreendeis o Budismo?

[…] faz parte do arsenal espiritual de várias tradições. Ela está presente no humor judaico, nos koans do zen-budismo e nas histórias sufis de Nasrudin e é usada ritualisticamente dentro da Umbanda e […]

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/coletanea-de-koans-zen-budistas/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/coletanea-de-koans-zen-budistas/

Quatro Nobres Verdades

Assim foi dito por Budha o iluminado.

Por não compreender e não realizar quatro coisas, que eu, da mesma forma que vocês, tivemos que vagar tão longamente através desta roda dos renascimentos.

E quais são essas quatro coisas?

1- A nobre verdade do sofrimento.

2- A nobre verdade da causa do sofrimento.

3- A nobre verdade da extinção da causa do sofrimento.

4- A nobre verdade da senda que leva à extinção do sofrimento.

Enquanto o absoluto e verdadeiro conhecimento e introspecção relativos a estas Quatro Nobres Verdades não estavam perfeitamente claros em mim, eu não estava certo que tinha atingido a suprema iluminação que é insuperável em todo o mundo.

Mas tão logo o absoluto e verdadeiro conhecimento e introspecção relativos a estas Quatro Nobres Verdades se tornaram perfeitamente claros em mim, surgiu a certeza que tinha atingido esta suprema iluminação insuperável.

Então descobri essa profunda verdade, tão difícil de perceber, difícil de compreender, tranqüilizante e sublime à qual não é para ser ganho por mero intelecto e é visível apenas ao sábio.

1ª – A Nobre Verdade do Sofrimento

Nascimento é sofrimento, doença é sofrimento, morte é sofrimento, tristeza, lamentação, dor, pesar e desespero são sofrimento. Não ter o que se deseja é sofrimento, separação do que se deseja é sofrimento, união com o que não se deseja é sofrimento. Saudade é sofrimento, ser escravo de um passado já morto e um futuro inexistente é sofrimento. Ser presa fácil de estímulos exteriores de toda ordem é sofrimento. Quando sopram os ventos da sensibilidade nós vamos cegamente a sensualidade, quando sopram os ventos da raiva nós vamos cegamente a violência, quando sopram os ventos da agitação e preocupação nós vamos cegamente em direção a ansiedade e angústia, quando sopram os ventos da dúvida nós vamos cegamente ao ceticismo.

Todo sofrimento, assim como toda a nossa felicidade está na própria mente, pois nenhum inimigo nos poderá fazer tão infelizes quanto nossa mente mal dirigida. Também nenhum parente, seja pai, mãe ou irmão nos tornará tão felizes quanto nossa própria mente bem dirigida.

Em resumo, os cinco agregados da existência quando objetos de apego, isto é, quando tomados como “eu” e “meu” são sofrimento.

Os cinco agregados da existência são: corpo, sensações, percepções, consciência e formações mentais.

2ª – A Nobre Verdade da Causa do Sofrimento

Qual é a causa do sofrimento? é a ignorância, o desejo, o apego, a cobiça, o ódio, e a ilusão. Mas aonde o desejo e a ignorância surgem? aonde estão suas raízes? Aonde houver coisas deliciosas e agradáveis lá o desejo e ignorância surgem, lá eles têm as suas raízes.

Visão, audição, olfato, paladar, tato e a mente são deliciosos e agradáveis lá o desejo e a ignorância surgem, lá eles fincam raízes. Quando percebemos um objeto pela visão, se o objeto é agradável a pessoa é atraída e se é desagradável a pessoa o repele.

Então, seja qual for a sensação que experimente, se a pessoa o aprova e acha agradável então a sensação condiciona o desejo, e desejando a pessoa se apega ao objeto desejado. Então o desejo condiciona o apego. Quando a pessoa se apega ela irá agir pela palavra ou pelo o corpo para possuir o objeto desejado.

Deste modo, então o apego condiciona a ação (Karma) ou processo de vir a ser. O processo de vir a ser (ou existência) condiciona o nascimento.

Dependendo do nascimento, a decadência e a morte, tristeza e lamentação dor e pesar, ressentimento e desespero.

Assim surge essa imensa massa de sofrimento.

3ª – A Nobre Verdade da Extinção da Causa do Sofrimento

O que é a extinção do sofrimento? É a completa erradicação e desaparecimento da ignorância, desejo, apego, cobiça, ódio e ilusão e em conseqüência o abandono e libertação da ilusão do EU e do MEU.

Com a extinção da ignorância o desejo é extinguido.

Pela cessação do desejo cessa-se o apego.

Pela cessação do apego o processo de vir a ser ou as ações (Karma) é extinguido.

Pela cessação de vir a ser ou existência, o nascimento é extinguido.

Pela cessação do nascimento, a decadência e a morte, tristeza e a lamentação, dor pesar, ressentimento e desespero serão extinguidos.

Assim se dá a extinção de toda esta massa se sofrimento.

Nirvana

Isso verdadeiramente é a paz, isto é, o mais elevado a saber o fim de todas as formações Kármicas, o abandono de todo substrato de ressarcimento, o fim da ignorância, do desejo, e apego, da cobiça, ódio e ilusão.

Encantado pelo desejo, irado pela cobiça, vendado pela ilusão, derrotado com a mente enganada, o homem, pela ignorância provoca a sua própria ruína, a ruína de outros e a ruína de ambos, e ele experimentará sofrimento mental e pesar. Mas se a ignorância e desejo e apego, cobiça, ódio, e ilusão forem abandonados, o homem não mais provocará a sua própria ruína, a ruína de outros, nem a ruína de ambos, não mais experimentando sofrimento mental e pesar.

Assim é o Nirvana, imediato, visível nesta vida, convidado, atrativo e compreensível apenas pelo sábio.

A extinção completa, total e global, sem deixar qualquer vestígio da ignorância, desejo e apego, cobiça, ódio e ilusão, isto verdadeiramente é chamado de NIBBANA.

O Arahat (Monge) – O Santo Sábio e Iluminado

E para o discípulo assim livre, em cujo coração reina a paz não há nada mais a ser acrescentado àquilo que ele já faz, nem nada mais resta para ele a fazer. Como uma sólida massa de rocha. Formas visuais ou sons, odores ou gostos, contatos de qualquer natureza, o desejável ou o indesejável, nada poderá fazê-lo entrar em vibração, inabalável está a sua mente. Foi ganha a libertação.

E ele que já atingiu o supremo equilíbrio e equanimidade à todas as coisas deste mundo, não é mais perturbado por nada, seja o que for. Ele está livre da raiva, da tristeza e da saudade, ele passou além do nascimento, decadência e morte.

4ª – Nobre Verdade da Senda que Leva à Extinção do Sofrimento

Os dois extremos e a Senda do meio. Os prazeres sensuais, o comum, o vulgar, o mundano, sem qualquer sentido para o progresso na Senda espiritual. Ou:

A mortificação do corpo que é dolorosa e também sem vantagem qualquer para a vida santa.

Ambos estes extremos, o iluminado evitou e descobriu a Senda Média, a qual propícia qualquer um ver e a compreender, leva à paz, ao discernimento, a iluminação e ao NIBBANA.

E qual é a Senda do Meio? É a nobre Senda Óctupla:

1) Palavra Correta

2) Ação Correta

3) Meio de Vida Correto (Moralidade)

4) Esforço Correto

5) Plena Atenção Correta

6) Concentração Correta (Concentração)

7) Correta Compreensão

8) Correto Pensamento (Sabedoria)

Livre da dor e tortura é esta Senda, livre de lamentos e sofrimento uma Senda perfeita. Verdadeiramente, como esta Senda não existe outra para a purificação dos seres. Se você seguir está Senda porá fim ao sofrimento. Mas cada um tem que lutar por si próprio, o iluminado apenas aponta o caminho.

1) Palavra Correta

a) Abster-se de mentir e de Caluniar.

b) Abster-se de levar e de trazer conversas que causem desarmonia e discórdia.

c) Abster-se de palavras pesadas, duras e ofensivas.

d) Abster-se de tagarelice e de conversas frívolas.

2) Ação correta

a) Abster-se de destruir os seres vivo, isto é, não matar.

b) Abster-se de pegar para nós aquilo que não nos pertence, isto é, não roubar.

c) Abster-se de errôneo comportamento sexual ( infidelidade, adultério etc.)

d) Abster-se de tóxicos e de bebidas alcoólicas que entorpeçam a mente.

3) Meio de vida correto

Abster-se de profissões como:

a) caçador, pescador, abatedor;

b) comércio de armas e drogas, bebidas, cigarros etc.

O meio de vida deve ser honesto, para o bem comum e nunca prejudicando e explorando nosso semelhante.

4) Esforço Correto

a) O Esforço de evitar o mal.

b) O Esforço de superar o mal.

c) O Esforço de fazer surgir o bem.

d) O Esforço de manter e de desenvolver o bem.

5) Plena Atenção Correta

a) Atenção sobre o corpo

b) Atenção sobre as sensações .

c) Atenção sobre os estados de consciência.

d) Atenção sobre os objetos da mente.

6) Concentração Correta

A concentração é a mente unipolarizada, isto é: mente voltada para um único ponto.

Existem cinco obstáculos para o desenvolvimento da concentração:

l – Sensualidade (luxúria)

II – Raiva, ira, ódio.

III – Sonolência, preguiça e torpor.

IV – Agitação e preocupação.

V – Dúvida

7) Correta Compreensão

a) Compreender as quatros nobres verdades.

b) Compreender as três características da existência.

c) Compreender as ações meritórias e a raiz dessas ações.

d) Compreender as ações demeritórias e a raiz dessas ações.

a) As Quatros Nobres Verdades

O homem comum, desprovido de correta compreensão, é ignorante dos ensinamentos dos homens Santos e não é treinado na nobre doutrina. Seu coração é possuído e dominado pela:

1) Ilusão da existência de um eu;

2) Pela dúvida;

3) Pelo apego e meras regras e rituais;

4) Pelo desejo sensual;

5) Pela raiva.

E como livrar-se destas coisas ele não sabe! Não sabendo o que é digno de considerações e o que é indigno (para libertar-se desses cinco grilhões) ele acaba considerando justamente o que é indigno e não o que é digno.

E pela ignorância ele se preocupa e reflete dessa maneira:

O mundo é eterno ou temporal? Finito ou infinito? O princípio vital é idêntico ao corpo ou alguma coisa diferente? O Buda continuará depois a morte ou não? Eu existi no passado ou não existi numa vida passada? O que eu fui na vida passada? Quem eu fui na vida passada? Eu existirei numa vida futura ou eu não existirei numa vida futura? Eu sou ou eu não sou? O que sou eu? Como sou eu? Este ser, de onde ele veio, para onde vai? “Sábias” Considerações!

O instruído e nobre discípulo entretanto, que sabe os ensinamentos dos homens Santos e é bem treinado na nobre doutrina; compreende o que é digno de consideração e o que é indigno. E assim sabendo, ele considera o digno e não o indigno.

O que é sofrimento, ele sabiamente considera.

O que é a origem do sofrimento, ele sabiamente considera.

O que é a extinção do sofrimento, ele sabiamente considera.

Qual é a Senda que leva a extinção do sofrimento, ele sabiamente considera.

b) As três características da existência são:

1) Impermanência

2) Insatisfatoriedade

3) Impessoalidade

O corpo é impermanente, as sensações, são impermanentes, as percepções são impermanentes, as formas mentais são impermanentes, e as consciências são impermanentes. E tudo o que é impermanente é sujeito ao sofrimento e mudança, não se pode corretamente dizer:

isto pertence a mim,

isto sou eu,

isto é o meu ego.

Assim como a bolha d’água é oca, vazia e insubstanciável, da mesma forma todos os fenômenos psíco-físicos são também ocos, vazios e sem um ego.

c) As ações Meritórias são de três tipos:

1) Pelo corpo, o mesmo que ação correta.

2) Pelo o verbo, o mesmo que Palavra Correta.

3) Pela mente, o mesmo que Pensamento Correto.

Quais são as raízes das Ações Meritórias:

1) Renúncia

2) Desapego

3) Boa vontade

4) Benevolência

5) Generosidade

6) Moralidade

7) Meditação

8) Reverência, gratidão e respeito

9) Serviço inegoísta ao próximo

10) Transferência de mérito

11) Alegrar-se com o sucesso e o mérito de outros.

12) Ouvir o Dhamma (Doutrina)

13) Expor o Dhamma

14) Ter corretos pontos de vista e correta compreensão

15) Gratidão

16) Respeito.

As Ações Demeritórias são também de três tipos:

1) Pelo corpo: destruir seres vivos roubar e explorar, adultério, ingerir tóxicos e bebidas alcoólicas.

2) Pelo verbo: mentir e caluniar, levar e trazer conversas, palavras pesadas, duras e ofensivas, tagarelice e conversas frívolas.

3) Pela mente: cobiça-egoísmo, vaidade, má vontade, ódio e raiva, errôneos pontos de vista

As raízes das Ações Demeritórias são:

Cobiça, ódio, ilusão ou ignorância, egoísmo. .

8) Pensamento Correto

São todos os pensamentos baseados na renúncia e desapego, tais como:

Boa vontade, benevolência e amor.

Bondade e camaradagem.

Correta compreensão e corretos pontos de vista.

Todo pensamento que for motivado pela Cobiça, Ódio, ilusão e ignorância, egoísmo, vaidade, inveja etc. Serão necessariamente pensamentos incorretos.

Que todos os seres que estejam em sofrimento, possam se libertar do seu sofrimento.

Que todos os seres que estejam inseguros e com medo, possam se libertar de sua insegurança e do seu temor.

Que todos os seres que estejam tristes e em lamento, passam se libertar de sua tristeza e da sua lamentação.

Pela realização dessas afirmações que todos os seres, sem nenhuma exceção, possam se sentir verdadeiramente muito bem e muito felizes.

Por Gassho

#Budismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/quatro-nobres-verdades

Símbolo da Lua

Por Hamal

Existem manifestações visíveis e invisíveis que acontecem com todos os planetas e seus ciclos ao redor do Sol. As manifestações visíveis são as fases planetárias, as constelações que eles percorrem, etc, as invisíveis são os efeitos causados na Terra em determinadas etapas dessas fases e ciclos.

Todos os planetas e constelações têm seus papeis especiais dentro das Escolas de Mistérios, sendo que dois deles se destacam: o Sol e a Lua.

Tal como o Sol, a Lua é um dos principais objetos de adoração e culto de todos os tempos. E assim como vimos no texto Símbolo do Sol, a Lua também possui um simbolismo central dentro da Ordem Maçônica e DeMolay.

Não devemos aceitar significado de nenhum símbolo se este não estiver fundamentado. Dizem que a Lua representa o segredo a ser descoberto, o feminino, etc. Se estão corretas essas afirmações, por que estão?

Vamos primeiro conhecer a Lua para fundamentar a importância do seu símbolo.

SÍMBOLO LUNAR

A Lua é um satélite natural da Terra que não possui brilho próprio, mas por sua superfície ser pálida reflete a luz do Sol durante a noite e torna a escuridão mais clara. Essa pequena observação faz do Sol um símbolo de luz fecundante, se tornando assim o Pai fecundador, e da Lua o símbolo da Mãe que recebe os raios de luz e emite de volta para Terra.

Existem muitas espécies cujo ciclos de reprodução estão ligados ao ciclo lunar, desde crustáceos, à corais e plantas. Coincidência ou não, também existe essa ligação com as mulheres, onde foram realizados estudos que demonstraram a ligação das fases lunares com os ciclo menstrual da mulher (referência – The regulation of menstrual cycle and its relationship to the moon).

Responsável pela reprodução e fertilidade na natureza, a Lua desde a mais remota antiguidade foi associada a figuras femininas, sempre enfatizando a pureza e a capacidade de gerar a vida, que é o papel da Mãe. Dessa maneira a Lua também é o símbolo do nascimento e da iniciação.

As fases lunares tem um total de sete dias (que é a origem dos dias da semana), e é por esse motivo que a criação do universo, segundo a mitologia judaica, foi feita em uma fase lunar. Seu ciclo completo é de aproximadamente 28 dias (7 x 4 = 28), e como já vimos no texto Altar DeMolay, quatro são os elementos que compõe a matéria e sete é o número da perfeição.

Está acompanhando? São através desses fenômenos visíveis como as fases e os ciclos da lua, da sua influência com a fertilidade da natureza e dos aspectos numéricos, que é fundamentado o símbolo da lua. Como vimos no texto Simbolismo e a Liberdade Religiosa: “O homem não inventa símbolos, assim como não inventa as Leis Físicas, ele apenas observa a vida e o universo ao seu redor e identifica os símbolos correspondentes a cada acontecimento ou fato existente”, e assim foi feito com a Lua como símbolo da Mãe, fertilidade, pureza, e representa também o inconsciente, onde estão os segredos da mente.

Quando formos começar a estudar mitologia veremos como os antigos filósofos juntaram todas essas características em seus contos. Aprenderemos que a mitologia é um portal para o estudo espiritual, rico em símbolos e imagens que se referem a nós.

Devido a essas características lunares, não é difícil entender o porque das “Grandes Mães” nos contos mitológicos serem frequentemente tratadas como virgens e puras que dão a luz a grandes heróis, ou junto com seu aspecto solar, criam todo o Universo. Sendo que “virgem” não se refere a mulher casta, e sim outro símbolo que fica de lição de casa e trataremos em outra oportunidade.

Na belíssima mitologia nagô, vemos o aspecto lunar representado como Yemanjá, a rainha das águas do mar, que junto com seu aspecto solar Oxalá, manifestou todo o universo e todos os outros deuses ou orixás. Na mitologia egípcia vemos Ísis, a deusa da magia, maternidade e fertilidade, que junto com seu aspecto solar Osíris, dá a luz a Hórus (quando ainda era virgem), o Falcão Dourado, Filho do Sol ou Iluminado. Qualquer semelhança desses dois mitos com Casamento Alquímico do Sol com a Lua, não é mera coincidência. As referências são enormes e devemos entender a lógica para podermos trabalhar e identificar esses aspectos.

De alguma forma, como vemos na mitologia nagô, os antigos já identificaram o mar como origem da vida e fizeram essa relação com lua (que guia as marés) e com a Mãe, transformando essas características no mito de Yemanjá. Assim como os egípcios identificaram a Lua como o astro do segredo e da magia devido a sua “face escura”, personificando-a como Ísis.

No budismo, a mãe de Buda (Desperto, Filho do Sol ou Iluminado), Maya, engravida após ver um elefante branco em seu sonho, e passado nove meses, Sidharta nasce da lateral da sua mãe na altura do coração. No cristianismo, Maria a mãe de Jesus (Cristo, Filho do Sol, Iluminado), engravida pela concepção do Espírito Santo (cujo símbolo é uma pomba branca) no seu ventre (ventre = lua). Tanto Maya quanto Maria, segundo a mitologia, engravidaram, tiveram seus filhos e continuaram virgens. Mas claro que devemos tratar isso como um símbolo.

Temos um mistério sobre os animais e a cor deles nessas duas mitologias, pensem sobre esses símbolos.

A geração é a manifestação maior da lua, é um processo envolto de mistérios e magia, pelo qual a vida surge. Outro número relacionado com a lua é o número nove, uma vez que nove meses são o tempo entre a concepção e o nascimento do feto humano, portanto nove é também o número da iniciação.

No DeMolay a Lua ocupa o centro do seu brasão e podemos ver usa influência no que é a Primeira Virtude. Na Maçonaria a Lua faz um par com o Sol (Alquimia). Mas isso é papo para outro momento. Será que esses símbolos estão nas Ordem a toa, ou será que não? Estamos apenas fundamentando, por enquanto pegue as chaves e vá desenvolvendo a utilização dos símbolos nos rituais.

E se você não é familiarizado com mitologia, alquimia, cabala, astronomia ou astrologia, não se preocupe que tocaremos em todos esses pontos com o tempo.

Alguma dúvida?

#Alquimia #Demolay

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/s%C3%ADmbolo-da-lua

A Linha do Oriente na Umbanda

Texto de Edmundo Pellizari escrito para o Jornal de Umbanda Sagrada.

A Linha do Oriente é parte da he­rança da Umbanda brasileira. Ela é com­posta por inúmeras entidades, classi­ficadas em sete falanges e maiorita­riamente de origem oriental. Apesar dis­­so, muitos espíritos desta Linha po­dem apre­sentar-se como caboclos ou pretos velhos.

O Caboclo Timbirí (ca­bo­clo japo­nês) e Pai Jacó (Jacob do Ori­ente, um preto velho bastante ver­sado na Ca­bala Hebraica), são os casos mais co­nhe­cidos. Hoje em dia, ganha força o cul­to do Caboclo Pena de Pa­vão, enti­dade que trabalha com as for­ças espiri­tuais divinas de origem indiana.

Mas nem todos os espíritos são ori­entais no sentido comum da palavra. Es­ta Linha procurou abri­gar as mais di­ver­sas entidades, que a princípio não se encaixavam na matriz formadora do bra­sileiro (índio, português e afri­cano).

A Linha do Oriente foi muito popular de 1950 a 1960, quando as tradições bu­­­distas e hindus se firmaram entre o povo brasileiro. Os imigrantes chineses e japoneses, sobretudo, passaram a frequentar a Umbanda e trouxeram se­us ances­trais e costumes mágicos.

Antes destas datas, também era co­mum nesta Linha a presença dos que­ridos espíritos ciganos, que possuem ori­­­gem oriental. Mas tamanha foi a sim­patia do povo umbandista por estas en­­­tidades, que os espíritos criaram uma “Linha” independente de trabalho, com sua própria hierarquia, magia e ensi­na­mentos. Hoje a influência do Povo Ci­gano cresce cada vez mais dentro da Umbanda.

Existem muitas maneiras de classi­ficar esta Linha e este pequeno artigo, não pretende colocar uma ordem na ma­neira dos umbandistas estudarem es­ta vertente de trabalho espiritual. Dei­xo a palavra final para os mais ve­lhos e sábios, desta belíssima e diver­sificada religião. Coloco aqui algumas instruções que colhi com adeptos e mé­diuns afinados com a Linha do Oriente.

Namaste e Salve o Oriente!

CARACTERÍSTICAS DA LINHA DO ORIENTE:

• Lugares preferidos para ofe­rendas: As entidades gostam de co­linas descampadas, praias desertas, jar­dins reservados (mas também rece­bem oferendas nas matas e santuários ou congás domésticos).

• Cores das velas: Rosa, amarela, azul clara, alaranjada ou branca.

• Bebidas: Suco de morango, suco de abacaxi, água com mel, cerveja e vinho doce branco ou tinto.

• Tabaco: Fumo para ca­chimbo ou charuto. Tam­­bém utili­zam ci­gar­ro de cravo.

• Ervas e Flores: Alfa­zema, todas as flores que sejam bran­cas, palmas ama­relas, mon­senhor branco, monse­nhor amarelo.

• Essências: Alfazema, olíbano, ben­joim, mirra, sân­da­lo e tâmara.

• Pedras: Citrino, quart­zo rutilado, topá­zio im­perial (citrino tor­nado ama­relo por aque­ci­men­to) e topá­zio.

• Dia da semana recomen­dado para o culto e ofe­rendas semanais: Quinta-feira.

• Lua recomendada (para oferenda mensal): Se­gundo dia do quarto min­guante ou primeiro dia da Lua Cheia.

• Guias ou colares: Colar com cento e oito contas (108), sendo 54 brancas e 54 amarelas. Enfiar sequencialmente uma branca e uma amarela. Fechar com firma branca. As enti­dades india­nas também utilizam o rosá­rio de sân­dalo ou tulasi de 108 con­tas (japa ma­la). Algumas criam suas pró­prias guias, se­gundo o mis­tério que trabalham.

CLASSIFICAÇÃO DA LINHA DO ORIENTE:

Suas Falanges, Espíritos e Chefes:

01 – Falange dos Indianos:

Espíritos de antigos sacerdotes, mes­tres, yogues e etc. Um de seus mais conhecidos inte­gran­tes é Ramatis. Está sob a chefia de Pai Zartu.

02 – Falange dos Árabes e Turcos:

Espíritos de mouros, guerreiros nôma­des do deserto (tuaregs), sábios marroquinos, etc… A maioria é mu­çulmana. Uma Legião está composta de rabinos, cabalistas e mestres judeus que ensinam dentro da Umbanda a mis­teriosa Cabala. Está sob a chefia de Pai Jimbaruê.

03 – Falange dos Chineses, Mon­góis e outros Povos do Oriente:

Espíritos de chineses, tibetanos, japoneses, mongóis, etc. Curio­sa­men­te, uma Legião está in­te­grada por es­pí­ri­tos de origem esquimó, que tra­balham muito bem no desmanche de demandas e feitiços de magia ne­gra. Sob a chefia de Pai Ory do Oriente.

04 – Falange dos Egípcios:

Espíritos de antigos sacerdotes, sacer­dotisas e magos de origem egípcia antiga. Sob a chefia de Pai Inhoaraí.

O5 – Falange dos Maias, Toltecas,Astecas e Incas:

Espíritos de xamãs, chefes e guer­rei­ros destes povos. Sob a chefia de Pai Itaraiaci.

06 – Falange dos Europeus:

Não são propriamente do Oriente, mas inte­gram esta Linha que é bas­tante sincrética. Espí­ri­­tos de sábios, ma­gos, mestres e velhos gue­rreiros de origem europeia: romanos, gau­leses, ingleses, es­can­dinavos, etc. Sob a che­fia do Impe­rador Marcus I.

07 – Falange dos Médicos e Sábios:

Os espíritos desta Falange são especiali­zados na arte da cura, que é integrada por médicos e tera­peutas de diversas origens. Sob a chefia de Pai José de Arimateia.

ALGUNS PONTOS CANTADOS E SUA MAGIA:

Aqui reproduzo alguns Pontos Can­tados, mas destaco a sua eficácia mân­trica e não somente invocatória. Ou seja, nesta Linha os Pontos podem ser usados como mantras com fina­lidades específicas, independente de servirem para chamar as entidades pa­ra o trabalho de caridade no Centro ou Terreiro. Neste caso, os Pontos de­vem ser acompanhados das res­pectivas oferendas (veja abaixo).

PONTO DO POVO HINDU:

• para afastar energias negativas diversas.

Oferenda: velas amarelas – 3, 5 ou 7, flores amarelas ou brancas e incenso de flores (rosa, verbena, etc…), coloca­dos dentro de uma estrela de seis pontas, hexagrama, traçada no chão com pemba amarela.

Ory já vem,

Já vem do oriente

A benção, meu pai,

Proteção para a nossa gente.

A benção, meu pai,

Proteção para a nossa gente.

PONTO DO POVO TURCO:

• para afastar os inimigos pessoais ou da religião umbandista.

Oferenda: velas brancas – 3, 5 ou 7 e charutos fortes, dentro de uma estrela de cinco pontas, pentagrama, traçado no chão com pemba branca. Jamais ofereça bebida alcoólica a este Povo.

Tá fumando tanarim,

Tá tocando maracá.

Meus camaradas, ajudai-me a cantar,

Ai minha gente, flor de orirí

Ai minha gente, flor de orirí.

Em cima da pedra

Meu pai vai passear, orirí.

PONTO DO POVO ESQUIMÓ:

– para afastar os inimigos ocultos e destruir forças maléficas.

Oferenda: velas rosas – 3, 5 ou 7, pedacinhos de peixe defumado em um alguidar, tudo dentro de um círculo traçado no chão com pemba rosa.

Salve o Polo Norte,

Onde tudo tudo é gelado,

Salve Povo Esquimó,

Que vem de Aruanda dar o recado.

Salve a Groenlândia,

Salve Povo Esquimó,

Que conhece a lei de Umbanda.

PONTO DO POVO GAULÊS:

• para as lutas e necessidades diárias.

Oferenda: velas brancas – 3, 5 ou 7, cerveja branca ou vinho tinto, tudo dentro de uma cruz traçada no chão com pemba verde.

Gauleses, Oh gauleses,

Somos guerreiros gauleses.

Gauleses, Oh gauleses

São Miguel está chamando.

Gauleses, Oh gauleses,

Somos guerreiros de Umbanda,

Gauleses, Oh gauleses,

Vamos vencer demanda.

PONTO DO POVO ASTECA:

• para buscar a sabedoria espiritual.

Oferenda: nove velas alaranjadas, milho, fumo picado, tudo dentro de um círculo traçado no chão com pemba branca.

Asteca vem, Asteca vai,

Nosso povo é valente,

Tomba, tomba e não cai…

(cantar nove vezes)

PONTO DO POVO CHINÊS:

• para proteção diante de situações muito graves.

Oferendas: sete velas vermelhas (é a cor preferida deste Povo), arroz cozido sem sal, vinho branco, tudo dentro de um círculo traçado no chão com pemba vermelha.

Os caminhos estão fechados,

Foi meu povo quem fechou,

Saravá Buda e Confúcio,

Saravá meu Pai Xangô.

Saravá Povo Chinês,

Que trabalha direitinho,

Saravá lei de Quimbanda,

Saravá, eu fecho caminho.

Curioso Ponto Cantado do Caboclo Tim­birí – onde ele afirma sua origem japonesa.

ANTIGO PONTO DE TIMBIRÍ:

Marinheiro, marinheiro,

olha as costas do mar…

É o japonês, é o japonês !

Olha as costas do mar.

Que vem do Oriente!

***

Revisão final: Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-linha-do-oriente-na-umbanda/

Ciência e Budismo

Aleister Crowley

O propósito deste ensaio é traçar uma comparação exata entre as concepções da ciência moderna sobre o Fenômeno e suas explicações, onde elas existam, e as antigas idéias dos Budistas; mostrar que o Budismo, tanto em teoria quanto na prática, é uma religião científica e uma superestrutura lógica, com base na verdade experimentalmente verificável; e que o seu método é idêntico ao da ciência. Nós devemos certamente excluir as características acidentais de ambos, especialmente as do Budismo; e, infelizmente, em ambos os casos, nós temos que lidar com desonestas e vergonhosas tentativas de se impingir a ambos opiniões das quais nenhum deseja ser fiador. Professor Huxley lidou com uma destas tentativas em seu “Pseudo-Científico Realismo”; Professor Rhys Davids demoliu outra neste certeiro comentário sobre o “Budismo Esotérico”, afirmando que ele ““não era Esotérico e certamente não era Budismo”. Mas ainda há alguma lama Teosófica que se gruda na carruagem do Budismo; e ainda existem pessoas que acreditam que a ciência sã tem ao menos uma saudação amigável para o Ateísmo e o Materialismo, em suas formas mais grosseiras e militantes.

Que seja entendido, portanto, desde o início, que se eu incluo na Ciência a metafísica, e no Budismo práticas de meditação, eu não me inclino nem para os reducionistas ou “reconciliadores”, por um lado, e nem para os prestidigitadores Animistas, pelo outro. À parte do entulho Teosófico, encontramos Sir Edwin Arnold escrevendo:

“Quaisquer que digam que Nirvana é cessar, Diga a tais que mentem.”

Mentir é uma palavra muito forte, e deveria ser lida como “traduzir incorretamente”.

Eu suponho que assim o poema não fosse metrificar, nem rimar: mas Sir Edwin é a última pessoa que se deteria por uma coisa pequena como esta.

Dr. Paul Carus também, no “Evangelho de Buda”, se satisfaz em apresentar o Nirvana como um paralelo ao Céu dos Cristãos. Será suficiente se eu reiterar a unanime opinião dos estudiosos competentes, de que não há um fragmento de evidência suficiente em qualquer livro canônico para se estabelecer tais interpretações no cerne da tradição e da prática Budistas; e que qualquer pessoa que persista em tocar o Budismo em sua própria harpa Judia desta forma, está arriscando a sua reputação, tanto intelectual quanto de boa fé. Homens científicos são bastante comuns no Ocidente, se os Budistas não o são; e eu posso seguramente deixar em suas mãos a tarefa de castigar os gatunos da área científica.

As características essênciais do Budismo foram resumidas pelo próprio Buda. Para mim, é claro, o que o Buda realmente disse ou não não importa; algo é verdadeiro ou não, não importa quem o tenha dito. Nós acreditamos no Sr. Savage Landor quando ele afirma que Lhasa é uma cidade importante do Tibete. Aonde apenas probabilidades são referidas nós somos sem dúvida influenciados pelo caráter moral e pelas capacidades mentais do informante; mas aqui eu não estou lidando com nada incerto.

Existe um teste excelente para o valor de qualquer passagem em um livro Budista. Nós estamos, é claro, justificados ao descartar estórias que são claramente ficções Orientais, assim como o criticismo moderno, embora secretamente Teísta, descarta a Estória de Hasisadra ou de Noé. Em justiça ao Budismo, não vamos sobrecarregar as suas escrituras com a tarefa Sisífeana de defender seriamente a interpretação literal de suas passagens obviamente fantásticas. Que os nosso zelotes Budistas sejam alertados pelo destino da ortodoxia Inglesa fora de moda! Mas quando o Budismo condescende em ser científico; em observar, classificar, pensar; eu considero que devemos levar o assunto com seriedade, e conceder uma investigação razoável a suas afirmações. Exemplos desta concisão e claridade podem ser encontrados nas Quatro Nobres Verdades; nas Três Características; nos Dez Grilhões; e existe claramente uma teoria sobre a idéia do Karma. Tais idéias são básicas, e são como uma linha na qual as contas do rosário das Mil e Uma Noite Árabes são colocadas.

Eu proponho portanto lidar com estes e alguns outros pontos menores da metafísica Budista, e traçar suas analogias com a Ciência, ou, como ainda mais espero demonstrar, suas não raras identidades.

Primeiramente vamos examinar o grande Sumário da Fé Budista, as Quatro Nobres Verdades.

As Quatro Grandes Verdades

1. Sofrimento: Existência é sofrimento. Isto significa que “nenhuma forma de Existência é separável do Sofrimento”. Esta verdade é atestada por Huxley, quase que com as mesmas palavras, em Evolução e Ética. “Não era menos claro para alguns destes filósofos antigos do que para os pais da filosofia moderna, que o sofrimento é a insígnia de toda a tribo dos seres sensíveis; ele não é um acompanhamento acidental, mas um constituinte essencial do Processo Cósmico.” E, no mesmo ensaio, embora ele esteja disposto a negar qualquer coisa além de rudimentos de consciência às formas inferiores de vida, ele é bastante claro no fato de que a dor varia diretamente (colocando de forma superficial) com o grau de consciência. Cf. também “Automatismo Animal”, pg.236-237.

2. A Causa do Sofrimento: A causa do sofrimento é o desejo. Eu considero aqui desejo como incluindo fenômenos tais como a tendência de duas moléculas de hidrogênio e cloro se combinarem sob certas circunstâncias. Se a morte é dolorosa para mim, ela o é presumivelmente para uma molécula; se nós representamos uma operação como agradável, a oposta presumivelmente é dolorosa. Embora eu não esteja consciente da dor individual das incontáveis mortes envolvidas em meu ato de escrever, elas podem estar lá. E o quê eu chamo de “fadiga” pode ser o eco na minha consciência central do grito de uma angústia periférica. Aqui nós deixamos o domínio do fato; mas ao menos até onde o nosso conhecimento vai, todas ou quase todas as operações da Natureza são vaidade e vexação de espírito. Considere a comida, cujo desejo surge periodicamente em todos os seres conscientes.

A existência desses desejos, ou melhor, necessidades, as quais eu percebo serem minhas, é desagradável. É o desejo, inerente a mim, por um estado de consciência contínuo, que é o responsável por isto tudo; e isto nos leva à Terceira Nobre Verdade.

3. O Cessar do Sofrimento: A cessação do desejo é a cessação do sofrimento. Esta é uma simples inferência lógica da segunda verdade, e não precisa de comentário.

4. A Nobre Senda Óctupla: Há um caminho, a ser considerado adiante, para se realizar a Terceira Verdade. Mas nós devemos, antes de percebermos a sua possibilidade, por um lado, ou a sua necessidade, por outro, formar uma clara idéia sobre quais são os princípios Budistas sobre o Cosmos; e, em particular, sobre o homem.

O Nobre Caminho Óctuplo

O Nobre Caminho Óctuplo oferece simplesmente um guia prático para o desenvolvimento das habilidades que devem ser cultivadas se o praticante desejar alcançar o objetivo final de extinguir os desejos que levam ao sofrimento:

  1. Ponto de Vista Correto
  2. Pensamento Correto
  3. Fala Correta
  4. Ação Correta
  5. Meio de Vida Correto
  6. Esforço Correto
  7. Atenção Correta
  8. Concentração Correta

O nobre caminho óctuplo pode ser didaticamente dividido em três grupos:

Prajna, sabedoria

1. Ponto de Vista Correto – Conhecer e compreender as Quatro Verdades Nobres acima citadas.
2. Pensamento Correto – querer renunciar os pensamentos que levem ao desejo ou nasçam dele.

Shila, ética

3. Fala Correta – Surge do pensamento correto. Não mentir, não usar linguagem pesada, não falar mal dos outros, não falar frivolamente mas sim de maneira honesta, reconfortante e significativa.
4. Ação Correta – Surge também do pensamento correto. É a prática de ações éticas e a renuncia as ações anti-éticas. Não matar, não roubar, não se viciar, não cometer adultério mas sim proteger e cuidar de todos os seres.
5. Meio de Vida Correto. Surge da fala e ação correta. Seus hábitos e modo de sustento e trabalho também devem ser éticos.

Samadhi, comtemplação

6. Esforço Correto – Dedicar-se constante e assíduamente ao nobre caminho óctuplo produzindo e aumentando o que é bom e prevenindo e eliminando o que é mal de sua vida
7. Atenção Correta – É a contemplação do corpo, sentimentos, mente e fenômenos tais como realmente são sem apego paixões, desejos e ilusões.
8. Concentração Correta – Refere-se aos Dhyanas ou prática meditativa, por meio do qual os outros pontos se fortalecem.

As Três Características

As três características (as quais nós podemos predicar de todas as coisas existentes conhecidas):

  • Mudança. Anikka.
  • Sofrimento. Dukkha.
  • Ausência de Ego. Anatta.

Esta é a Afirmação Budista. O que diz a Ciência?

Huxley, “Evolução e Ética”: “Assim como nenhum homem vadeando um córrego ligeiro pode mergulhar seu pé duas vezes na mesma água, nenhum homem pode, com exatidão, afirmar de qualquer coisa no mundo sensível que ela é. Assim que ele pronuncia as palavras, não, assim que ele as pensa, o predicado deixa de ser aplicável. O presente se tornou o passado; o “é” deveria ser “era”. E quanto mais aprendemos sobre a natureza das coisas mais evidente fica o fato de que o que chamamos de repouso é apenas atividade imperceptível; que a paz aparente é silenciosa mas tenaz batalha. Em toda parte, a todo momento, o estado do cosmos é a expressão de um transitório ajustamento de forças em luta, uma cena de conflito, na qual todos os combatentes caem na sua vez. O que é verdade para cada parte é verdade para o todo. O conhecimento Natural tende mais e mais para conclusão de que “todo o coro dos céus e todas as coisas da terra” são formas transitórias de parcelas da substancia cósmica movendo-se pela estrada da evolução, partindo da nebulosa potencialidade, através de infindáveis desenvolvimentos de sol e planeta e satélite, através de todas as variedades da matéria; através de infinitas diversidades de vida e pensamento, possivelmente através de modos de ser dos quais nós não temos nenhuma idéia, e sequer somos competentes para imaginar, e voltando à indefinida latência da qual surgira. Portanto o mais óbvio atributo do cosmos é a impermanência. Ele assume o aspecto não tanto de uma entidade permanente quanto o de um processo modificante, no qual nada permanece a não ser o fluxo de energia e a ordem racional que o pervade.”

Este é um admirável sumário da doutrina Budista.

Veja acima sobre a Primeira Nobre Verdade.

Esta é a grandiosa posição que Buda defendeu contra os filósofos Hindus. Em nosso próprio país é o argumento de Hume, seguindo Berkeley a um ponto que Berkeley certamente não pensou em ir — um curioso paralelo da maldição de Cristo sobre Pedro (João, xxi). O Bispo demole a idéia do substratum da matéria, e Hume segue aplicando processo idêntico de raciocínio ao fenômeno da mente.
Vamos considerar a teoria Hindu. Eles classificam o fenômeno (aqui bom e ruim não importam), mas o representam como presente em, mas sem a afetar, uma certa existência imutável, onisciente, bem-aventurada chamada Atman. Mantendo o Teísmo, a existência das forças malignas os forçam a uma posição Fichteana na qual “o Ego põe o Não-Ego”, e nós aprendemos que afinal nada realmente existe além de Brahma. Eles então distinguem entre Jivatma, a alma condicionada; e Paramatma, a alma livre; a primeira sendo a base da consciência normal; a segunda da consciência Nirvikalpa-Samadhi; esta sendo a única condição pela qual a moral, a religião, e as oferendas aos sacerdotes podem continuar. Pois o Teísta tem apenas que avançar a sua idéia fundamental para ser forçado a um círculo vicioso de absurdos.

O Budista faz uma clara varredura de todo este tipo de bobagem. Ele analisa o fenômeno da mente, adotando o paradoxo de Berkeley de que “a matéria é imaterial”, de uma maneira sã e ordenada. O “Filósofo do senso comum”, a quem eu deixo a ruminar as amargas folhas do ensaio do Professor Huxley “Sobre a sensação e a unidade da Estrutura dos Órgãos Sensíveis”, observa , ao levantar o seu braço, “Eu ergo o meu braço”. O Budista examina a proposição rigorosamente, e começa:

“Há o levantar de um braço.”

Por esta terminologia ele evita as discussões Teutônicas relativas ao Ego e o Não-Ego. Mas como ele sabe que a proposição é verdadeira? Através da sensação. O fato, portanto, é:

“Existe a sensação de se levantar um braço.”

Mas como ele sabe disto? Através da percepção. Portanto ele diz:

“Existe a percepção de uma sensação, etc..”

E como [ele tem] esta percepção? Através da tendência inerente.

(Note-se cuidadosamente o ponto de vista determinista envolvido na enunciação desta Quarta Skandha; e que ela vem abaixo de Vinnanam.)

“Existe uma tendência a perceber a sensação, etc..”

E como ele sabe que existe uma tendência? Através da consciência. A análise final diz:

“Existe uma consciência da tendência de se perceber a sensação do levantar de um braço.”

Ele não vai, por não ser possível, além disto. Ele não irá supor, sem nenhum tipo de evidência, o substratum do Atman unindo consciência à consciência através da sua eternidade, ao mesmo tempo em que estabelece um grande espaço entre elas através de sua imutabilidade. Ele atesta o conhecível, atesta-o acuradamente, e o abandona. Mas existe uma aplicação prática desta análise da qual eu vou tratar mais adiante (veja “VIII. Mahasatipatthana”).

Nos é ensinado que a memória é uma prova de algum “Eu” real. Mas como é traiçoeira esta área! Um evento passado da minha vida não ocorreu porque eu o esqueci? A analogia da água do rio dada acima é extremamente válida! Eu que escrevo isto não sou o eu que o relê e corrige. Será que desejo brincar com soldadinhos de chumbo? Sou eu o aborrecido velho inválido que precisa ser paparicado e alimentado com uísque, pão e leite? E a minha diferença em relação a estes é tão menos notável do que a ao corpo morto, do qual os que o virem dirão: “Este foi Aleister Crowley”?

Que idiotice é supor que uma substância eterna, sensível ou não, onisciente ou não, dependa para a sua informação de uma série tão absurda de corpos quanto os agrupados sob este “Crowley”!

Entretanto, o Budista encara todos os argumentos de ordem espiritual com uma simples afirmação a qual, se não é certa, ao menos não é improvável. Existe, ele dirá a você, um mundo “espiritual”, ou, para evitar qualquer (bastante injustificado) mal-entendido, digamos um mundo de matéria mais sutil do que o visível e tangível, que tem as suas próprias leis (análogas, se não idênticas, às leis da matéria as quais estamos acostumados) e cujos habitantes mudam, e morrem, e renascem tanto quanto os seres mortais comuns. Mas, como eles são de matéria sutil, seu ciclo é menos rápido.

Como um nominalista, eu espero não ser mal interpretado quando eu comparo isto a relativa mutabilidade do indivíduo e das espécies. Nós temos bastantes exemplos livres desta possibilidade de má interpretação em nossos próprios corpos. Compare a logevidade do osso com a de um corpúsculo. Mas é este “Substratum” universal, o qual não deve ser confundido com o substratum, cujo argumento para a sua existência Berkeley tão completamente destruiu, que poderia conservar a memória por um período muito maior do que o de um de seus avatares particulares. Por isso o “Jataka”. Mas a doutrina não é muito essencial; seu principal valor é mostrar que sérias dificuldades nos confrontam, e fornecer uma razão para o esforço por um estado melhor. Pois se nada sobrevive à morte, o que isto tudo significa para nós? Por que deveríamos ser tão altruístas a ponto de evitar a reencarnação de um ser em todos os pontos diferente de nós? Como disse o menininho, “O que a posterioridade fez por mim?”. Mas algo persiste; algo mudando, embora mais lentamente. Qual a evidência que nós temos, afinal, de que um animal não recorda a sua encarnação humana? Ou, como Levi diz, “Nos sóis eles recordam, nos planetas eles esquecem”. Eu penso (talvez) de maneira diferente, mas, na total ausência de evidência a favor ou contra — ao menos em relação a última hipótese! — eu suspendo o meu julgamento, deixo a questão entregue a si mesma, e avanço para pontos mais práticos do que os que nos são oferecidos por estas interessantes, mas pouco úteis, especulações metafísicas.

Karma

A lei da causação é formalmente idêntica a esta. Karma significa “aquilo que é feito”, e eu creio que devia ser considerado com estrita acuidade etimológica. Se eu coloco uma pedra no telhado de uma casa, é certo que ela irá cair mais cedo ou mais tarde; ou seja, assim que as condições o permitirem. Também, em sua fundação, a doutrina do Karma é idêntica ao determinismo. Sobre este assunto muita sabedoria, com um infinito amontoado de bobagem, foi escrita. Eu, portanto, o encerro nestas pouca palavras, confiante de que a identidade estabelecida não possa nunca ser abalada.

Os Des Grilhões ou Sanyoganas

 

  1. Sakkaya-ditthi. Crença em uma “alma”.
  2. Vikikikkha. Dúvida.
  3. Silabbata-parâmâsa. Confiança na eficácia dos ritos e cerimônias.
  4. Kama. Desejos corporais.
  5. Patigha. Ódio.
  6. Ruparanga. Desejo pela imortalidade corporal.
  7. Aruparaga. Desejo pela imortalidade espiritual.
  8. Mano. Orgulho.
  9. Udhakka. Auto-justificação.
  10. Avigga. Ignorância.

(1) Pois isto é uma petitio principii.

(2) Isto, para o cientista, é aparentemente um anátema. Mas apenas significa, eu penso, que se nós não estamos assentados em nossas mentes, não podemos trabalhar. E isto é inquestionável. Imagine um químico que começa a trabalhar para determinar o ponto de ebulição de uma nova substância orgânica. Ele para no meio da experiência, paralisado pelo receio de que o seu termômetro seja impreciso? Não! Ele, previamente, a não ser que seja um idiota, já o testou. Nós temos que ter nossos princípios fixados antes de poder executar o trabalho de pesquisa.

(3) Um cientista dificilmente requer convicção neste ponto!

(4) Você pensa em combinar Newton com Calígula? As paixões, quando livres para dominar, interferem com a concentração da mente.

(5) Ficar pensando em seus desafetos contribui para uma observação acurada? Eu admito que a controvérsia pode movê-lo a realizar prodígios em seu trabalho, mas enquanto você está realmente trabalhando você não permite que se interfira com a concentração da sua mente.

(6 & 7) Este grilhão e o próximo são contigentes a se perceber o sofrimento de todas as formas de existência consciente.

(8) Não precisa de comentário. Orgulho, assim como humildade, é uma forma de ilusão.

(9) Da mesma forma, só que no campo moral.

(10) O grande inimigo. Apenas os Teístas tiveram a infame audácia de exaltar os méritos desta insígnia da servidão.

Nós vemos, portanto, que o cientista irá concordar com esta classificação. Não precisamos discutir a questão de se ele acharia outras para adicionar. O Budismo pode não ser completo, mas, até onde ele vai, é acurado.

A Relativa Realidade de Certos estados de Consciência

Se nós adotamos o dictum de Herbert Spencer de que o testemunho primário da consciência é para existência da exterioridade, ou não; se nós voamos ou não para e posição idealista extrema; não existem dúvidas de que, para o nosso estado normal de consciência, as coisas como elas se apresentam — excluindo-se a ilusão óbvia, se mesmo nós ousamos excepcioná-la — são inegáveis para a apreensão imediata. Qualquer coisa que diga a este respeito a nossa razão, nós agimos precisamente como se Berkeley nunca tivesse existido, e o hérculeo Kant tivesse sido estrangulado ainda no berço pelas serpentes gêmeas de sua própria perversidade e terminologia.

Quais os critérios que devemos aplicar para as realidades relativas da consciência normal e onírica? Por que eu tão confiantemente afirmo que o estado onírico é transitório e irreal?

Neste estado eu estou igualmente certo de que meu estado de consciência normal é inválido. Mas como os meus sonhos ocupam uma porção relativamente pequena do meu tempo, e como a lei da causação parece suspensa, e como a sua vividez é menor do que a da consciência normal, e, acima de tudo, como na grande maioria dos casos eu posso mostrar uma causa, originária das minhas horas acordado, para o sonho, eu tenho quatro fortes razões (a primeira explanatória em parte para a minha aceitação das demais) para concluir que o sonho é fictício.

Mas e quanto ao estado “sem sonhos”? Para o sonhador suas faculdades normais e a memória surgem em alguns momentos, e são consideradas como fragmentárias e absurdas, assim como as lembranças de um sonho para o homem desperto. Não podemos conceber uma vida “sem sonhos”, da qual nosso sonhos são a vaga e perturbada transição para a consciência normal? A evidência fisiológica não nos serve literalmente para nada neste caso. Mesmo se fosse provado que o aparato recipio-motor do sonhador “sem sonhos” é relativamente tranqüilo, isto traria algum argumento válido contra a teoria que sugeri? Sugeri, pois admito que a nossa presente posição é completamente agnóstica a esse respeito, uma vez que não temos nenhuma evidência que traga luz sobre o assunto; e o estudo do tema parece mero desperdício de tempo.

Mas a sugestão é valiosa por prover-nos de uma possível explanação racional, em conformidade com a opinião do homem desperto, e à qual o sonhador iria indignadamente rejeitar.

Suponha, entretanto, um sonho tão vívido que o homem acordado sente-se diminuído diante de sua memória, que a sua consciência dele pareça mil vezes mais real do que a das coisas ao seu redor; suponha que toda a sua vida é moldada para acomodar os novos fatos assim revelados a ele; que ele de bom grado renunciaria a anos de vida normal para obter alguns minutos desta vida sonhada; que o seu senso de tempo é abalado como nunca antes, e que estas influências são permanentes. Então, você diria, delirium tremens (e intoxicação por haxixe, que afeta particularmente o sentido de tempo) nos fornecem um paralelo. Mas o fenômeno do delirium tremens não ocorre nos saudáveis. E quanto à sugestão de auto-hipnose, a memória do “sonho” é uma réplica suficiente. De qualquer forma, o simples fato de se experimentar esta realidade aparentemente superior — uma convicção inabalável, inépuisable[1] (pois o Inglês não tem a palavra adequada), é teste suficiente. E se nós condescendemos em o debater, é por prazer, e aparte do fato vital; trata-se uma escaramuça, e não de uma batalha arrojada.

O “sonho” que eu descrevi é o estado chamado Dhyana pelos Hindus e Budistas. O método de se alcançá-lo é sensato, saudável e científico. Eu não me daria ao trabalho de descrever este método, se iletrados, e muito freqüentemente defensores místicos da prática, não tivessem obscurecido a grandeza simples do nosso edifício com jimcrack pinnacles of stucco — como alguém que cobrisse o Taj Mahal com lâmpadas de feira e panos de chita.

É simples. A mente é compelida a fixar sua atenção em um único pensamento, enquanto o poder de controle é exercido e uma profunda vigília é mantida para que o pensamento não se perca por um instante. A última parte é, para mim, a essencial. O trabalho é comparável ao de um eletricista que precisa sentar por horas com seu dedo em uma delicadamente ajustada caixa de resistência, enquanto mantém o seu olho no marcador luminoso de um galvanômetro, encarregado da tarefa de manter o marcador parado, ou ao menos sem se mover além de um determinado número de graus, e de anotar os detalhes mais importantes da experiência. Nosso trabalho é idêntico em design, embora feito com meios mais sutis. O dedo na caixa de resistência nós substituímos pela Vontade, e o seu controle se estende até a Mente; o olho nós substituímos pela Faculdade Introspectiva, com a sua precisa observação da menor perturbação, enquanto o marcador luminoso é a própria consciência, o ponto central da escala do galvanômetro, o objeto pré-determinado; e as demais figuras da escala são outros objetos, conectados com o primário por ordem e grau, algumas vezes de maneira óbvia, outras de forma obscura, talvez até mesmo indetectável, de forma que nós não temos nenhum direito real de predicar a suas conecções.

Como alguém pode descrever este processo como enganoso e doentio está além da minha compreensão; que algum cientista possa fazê-lo implica em uma ignorância da sua parte quanto aos fatos.

Eu devo acrescentar que é estritamente necessário para se iniciar esta prática uma perfeita saúde de corpo e mente; o ascetismo é severamente desencorajado, tanto quanto a indulgência. Como poderia o eletricista fazer o seu trabalho após o Banquete Guidhal? O esforço de observar seria demasiado, e ele pararia para dormir. Assim com o meditador. Se, por outro lado, ele estivesse sem comer por vinte e quatro horas, ele poderia — de fato, tem sido assim feito com freqüência — realizar prodígios de trabalho no período necessário; mas uma reação de igual severidade deverá seguir. Ninguém pretende que o melhor trabalho seja feito em inanição.

Para tal observador, certos fenômenos se apresentam mais cedo ou mais tarde, os quais tem as mesmas qualidades do nosso “sonho” imaginário, precedido por um estado de transição muito semelhante ao de uma total perda da consciência. Serão estes fenômenos de fadiga? Será que esta prática, por algum motivo desconhecido, estimula algum nervo central especial? Talvez; o assunto requer investigação, e eu não sou um fisiologista. Aparte qualquer coisa que o fisiologista possa dizer, é claro ao menos que, se este estado é acompanhado por uma intenso e desapaixonado êxtase além de qualquer coisa que o homem normal pode conceber, e não é acompanhado do menor prejuízo para a saúde física e mental, ele é extremamente desejável. E para o cientista ele apresenta um magnífico campo de pesquisa.

Sobre as teorias metafísicas e religiosas que foram construídas sobre os fatos aqui apresentados, eu não direi nada agora. Os fatos não estão a disposição de todos; sobre a natureza do objeto cada homem deve ser a sua própria testemunha. Eu fui uma vez ridicularizado, por uma pessoa de mentalidade medíocre, pelo fato de que, se a minha posição não podia ser demonstrada em laboratório, eu deveria, portanto, ser um místico, um ocultista, um teosofista, um mercador do mistério, e não sei mais o quê. Eu não sou nada disso. O criticismo acima se aplica a todo psicólogo que já escreveu, e a todo homem que critica por criticar. Eu posso apenas dizer: “Você tem o seu próprio laboratório e aparato, a sua mente; e se o local está sujo e a aparelhagem mal arrumada, não é a mim que você deve culpar”.

Os fatos sendo de importância individual, então há pouca utilidade em se detalhar os resultados de minha própria experiência. E a razão para esta reticência — pois eu me culpo pela reticência — é que explicá-la iria danificar o mesmo aparato cujo uso eu estou defendendo. Pois se eu disser que tal e tal prática leva alguém a ver um porco azul, a sugestão será suficiente para fazer com que toda uma classe de pessoas veja um porco azul onde nenhum existe, e outra negue, ou suspeite, quando o porco azul realmente aparecer, embora a última alternativa seja improvável. O fenômeno da consciência, e o do êxtase, são de uma natureza tão estupenda e bem definida, que eu não posso imaginar nenhuma idéia preconcebida poderosa o suficiente para diminuí-los apreciavelmente. Mas por causa da primeira classe eu seguro a minha língua.

Eu creio que agora está perfeitamente claro, se as minhas declarações foram aceitas — e eu posso apenas assegurar o mais seriamente possível que honestos experimentos de laboratório as verificarão em cada detalhe — que quaisquer argumentos apresentados contra a realidade de Dhyana, aplicam-se com muito maior força ao estado normal, e é evidente que negar o último seriamente é ipso facto deixar de ser sério. Aonde o testemunho normal possa ser atacado de cima, insistindo-se na realidade superior de Dhyana — e a fortiori do Samadhi, o qual eu não experimentei, e do qual consequentemente não trato, contentando-me em aceitar as afirmações altamente prováveis daqueles que o afirmam conhecer, e que até agora não me decepcionaram (i.e. quanto a Dhyana), trata-se de uma questão que não cabe ao presente argumento discutir. Eu irei, entretanto, sugerir certas idéias na seção seguinte, na qual eu me proponho a discutir a mais famosa das meditações Budistas (Mahasatipatthana), seu método, objetivo, e resultados.

Mahasatipatthana

Esta meditação difere fundamentalmente dos métodos Hindus comuns pelo fato de que a mente não é restrita a contemplação de um único objeto, e não há interferência com as funções naturais do corpo, como, por exemplo, em Pranayama. É essencialmente uma prática de observação, a qual assume um aspecto analítico em relação a pergunta “O que é realmente observado?”.

O Ego-idéia é resolutamente excluído desde o início, e assim o Sr. Herbert Spencer não terá nada para objetar (“Princípios de Psicologia”, ii.404). A respiração, movimentos de andar, etc., são meramente observados e anotados; por exemplo, pode-se sentar quietamente e dizer: “Há um entrar da respiração”, “Há uma expiração”, etc. Ou, caminhando-se, “Há o erguer do pé direito”, e assim por diante, assim que o fato acontece. É claro que o pensamento não é rápido o suficiente para notar todos os movimentos ou as suas causas sutis. Por exemplo, nós não podemos descrever as complicadas contrações musculares, etc.; mas isto não é necessário. Concentre-se em uma série de movimentos simples.

Quando, através do hábito, isto se tornar intuitivo, de forma que o pensamento for realmente “Há um erguer”, ao invés de “Eu ergo” (este último sendo na realidade uma complexa e amadurecida idéia, como os filósofos freqüentemente notaram, até Descartes cair na armadilha), deve-se recomeçar a analisar, conforme explicado acima, e o segundo estágio será “Há uma sensação (Vedana) de um erguimento”, etc. As sensações são depois classificadas de agradáveis e desagradáveis.

Quando este for o verdadeiro, intuitivo, instantâneo testemunho da consciência (de forma que “Há um levantar”, etc. é rejeitado como sendo uma mentira palpável), passamos para Sañña, percepção.

“Há uma percepção (agradável ou desagradável) de um erguer, etc..”

Quando isto tiver se tornado intuitivo — ora! aqui está um estranho resultado! as sensações de dor e prazer desapareceram. Elas estão sub-incluídas na skandha inferior de Vedana, e Sañña é livre disto. E, para aquele que pode viver neste terceiro estado, e assim viver para sempre, não há mais dor; apenas um intenso interesse, semelhante ao que permitiu a homens de ciência observar e anotar o progresso de sua própria agonia de morte. Infelizmente, o viver neste estado é condicionado a uma firme saúde mental, e é interrompido pela morte ou pela doença a qualquer instante. Se assim não fosse, a Primeira Nobre Verdade seria uma mentira.

Os dois estágios seguintes Sankhara e Viññanam seguem a análise até o seu limite, “Há uma consciência da tendência para se perceber a (agradável ou desagradável) sensação de se erguer o pé direito” sendo a forma final. E eu suponho que nenhum psicólogo de qualquer linha irá questionar isto. O raciocínio, de fato, leva a esta analise; o Budista vai além somente até poder derrubar o andaime do processo de raciocínio, e assimilar a verdade atual do assunto.

É a diferença entre o garoto de escola que dolorosamente constrói “Balbus murum aedificavit”[2], e o Romano que anuncia este fato histórico sem sequer pensar em sua gramática.

Eu chamei esta meditação de a mais famosa das meditações Budistas, por quê é atestado pelo próprio Buda que se alguém a pratica com honestidade e diligência o resultado é certo. E ele não diz isto de nenhuma outra.

Eu pessoalmente não encontrei tempo para me devotar de forma séria a esta Mahasatipatthana, e as afirmações aqui feitas derivam da razão e não da experiência. Mas eu posso dizer que a irrealidade dos estados mais grosseiros (rupa) em relação ao mais sutil Vedana e ao ainda mais sutil Sañña torna-se rapidamente aparente, e eu posso apenas concluir que com tempo e esforço o processo deve continuar.

O que ocorre quando alguém atinge o estado final de Viññanam, e não encontra nenhum Atman além dele? Certamente o estágio de Viññanam será logo visto como tão irreal quanto o anterior pareceu. É inútil especular; mas se eu devo escapar da acusação de explicar o obscuro pelo mais obscuro, eu posso sugerir que tal pessoa deve estar muito próxima do estado chamado Nirvana, o que quer que seja indicado pelo termo. E eu estou convencido, em minha própria mente, que o Ananda (êxtase) de Dhyana irá surgir muito antes de alguém passar mesmo a Sankhara.

E, quanto à realidade, será um bravo gracejo, meus senhores, atirar de volta aos materialistas esta terrível troça de Voltaire aos mercadores de mistérios de sua época: “Ils nient ce qui est, et expliquent ce qui n’est pas”[3].

Nota à Seção VIII – Realismo Transfigurado

Não gastarei o meu tempo e o dos meus leitores com uma longa discussão sobre o “Realismo Transfigurado” do Sr. Herbert Spencer. Não colocarei em muitos detalhes como ele propõe, por uma cadeia de raciocínios, derrotar as conclusões que ele admitem serem as da razão.

Mas a sua afirmação, de que o Idealismo não é verbalmente inteligível, é, para o meu propósito, a melhor coisa que ele poderia ter dito.

Ele erra ao dizer que os idealistas são confundidos pela sua própria terminologia; o fato é que, as conclusões idealistas são apresentadas diretamente à consciência, quando esta consciência é Dhyanica (cfe. Seção XI).

Nada está mais claro para a minha mente, do que o fato de que a maior dificuldade, geralmente experimentada pela mente normal na assimilação da metafísica, deve-se à atual falta de experiência, na mente do leitor, do fenômeno discutido. Eu irei tão longe ao ponto de dizer que talvez, o próprio Sr. Spencer é tão amargo por não ter, ele mesmo, nenhuma experiência de “Realismo Transfigurado” como um fenômeno diretamente presente; pois se ele supõe que a mente saudável e normal pode perceber o que ele percebe, os argumentos de Berkeley devem lhe parecer mera e frívola estupidez.

Eu classifico a filosofia Hindu junto com o Idealismo, e a Budista com a do sr. Herbert Spencer; a grande diferença entre elas sendo que os Budistas reconhecem claramente estas (ou similares) conclusões como sendo fenômenos, e o sr. Spencer, bastante inconsistentemente, apenas como verdades verificadas por um raciocinar mais alto e mais correto do que o dos seus oponentes.

Nós reconhecemos, com Berkeley, que a razão nos ensina que o testemunho da consciência é inverídico; é absurdo, com Spencer, refutar a razão; ao invés disto, tentamos trazer à consciência o sentido de sua improbidade. O nosso diagnóstico (empírico) é o de que é a dissipação da mente a principal responsável por sua inconfiabilidade. Buscamos (também por meios empíricos, é claro!) controlá-la, concentrá-la, e observar, mais acuradamente — será que esta fonte de possível erro foi suficientemente reconhecida? — o que o seu testemunho realmente é.

A experiência me ensinou, até onde fui capaz de ir, que a Razão e a Consciência se encontram; Apreensão e Análise se beijam. A reconciliação (de fato, lembrem-se, e não em palavras) é ao menos tão perfeita que eu posso, confiantemente, predizer que uma futura busca nesta (empiricamente indicada) senda irá certamente levar a uma unificação ainda mais alta.

A realização das esperanças mantidas pela hipótese é, portanto, de claro e evidente valor no apoio desta mesma hipótese, empírica como ela era, e é. Mas, com o crescimento e a reunião, classificação, e criticismo dos nossos fatos, nós estamos no caminho certo para erguer uma estrutura mais segura sobre uma base mais ampla.

Agnosticismo

Deve ser claramente entendido, e bem relembrado, que, através de todas estas meditações e idéias, não há nenhum caminho marcado que leve a qualquer tipo de ontologia ortodoxa. Em relação ao caminho da salvação, nós não contamos com o Buda; a mentira viciosa da expiação delegada não encontra lugar aqui. O próprio Buda não escapa da lei da causação; se isto é metafísica, então até aqui o Budismo é metafísico, mas não mais do que isto. Ao mesmo tempo em que nega mentiras óbvias, ele não estabelece dogmas; todas as sua afirmações são passíveis de prova — uma criança pode perceber as mais importantes. E isto é Agnosticismo. Nós temos aqui uma religião científica. Até onde Newton teria ido se tivesse aderido a Tycho Brahe como o Guia? Até onde o Buda, se tivesse reverenciado os Vedas com fé cega? Ou até onde podemos prosseguir, mesmo a partir da verdade parcial, se não mantermos uma mente aberta a seu respeito, conscientes de que novos fenômenos podem derrubar as nossas hipóteses mais fundamentais! Me dê uma prova sobre uma existência (inteligente) que não esteja sujeita ao sofrimento, e eu jogarei a Primeira Nobre Verdade aos cães sem nenhuma dor. E, sabendo disto, quão esplêndido é ler as grandes palavras proferidas a mais de dois mil anos atrás: “Portanto, ó Ananda, sejam lâmpadas para si mesmos. Sejam um refúgio para si mesmos. Não recorram a nenhum refúgio externo. Busquem sem tardar a verdade como a uma lâmpada. Busquem sem tardar a verdade como a um refúgio. Não busquem refúgio para ninguém além de si mesmos.” (Mahaparanibbana Sutta, ii.33) E a tais buscadores apenas o Buda promete “a mais elevada Altura” — se eles apenas forem “ansiosos em aprender”. Esta é a pedra fundamental do Budismo; podem homens científicos negar a sua aprovação a estas palavras, quando olham para trás, na história do Pensamento no ocidente: a tortura de Bruno, a vergonha de Galileo, o obscurantismo dos Escolásticos, o “mistério” dos padres opressores, as armas carnais e espirituais da fogueira e da tortura, os labirintos de mentiras e vis intrigas pelos quais a Ciência, a criança, era deformada, distorcida, atrofiada, no interesse da proposição contrária?

Se vocês me perguntarem por que deveriam ser Budistas, e não indiferentes, como agora são, eu respondo que venho, talvez desmerecidamente, tomar a espada que Huxley manejou; eu digo que o Opressor da Ciência em sua infância ainda está trabalhando para violentar a sua virgindade; que uma hesitação momentânea, por comodismo, seguramente pode nos tirar da posição tão arduamente ganha. Não iremos ainda mais a frente, além disto? Devem ainda às nossas crianças serem ensinadas como fatos as estúpidas e indecentes fábulas do Velho Testamento, fábulas que o próprio Arcebispo de Canterbury iria indignadamente repudiar? Devem as mentes serem pervertidas ainda cedo, o método científico e a imaginação reprimidas, a faculdade lógica frustrada — milhares de trabalhadores perdidos a cada ano para a Ciência?

E o caminho para tudo isto não é apenas através no senso comum da indiferença; organizem-se, organizem-se, organizem-se! Pois uma bandeira nós oferecemos a vocês, a imaculada insígnia da lótus de Buda, em defesa da qual nenhuma gota de sangue jamais foi, e jamais será, derramada; uma bandeira sob a qual vocês juntarão forças com quinhentos milhões de companheiros. E vocês não serão soldados rasos no exército; para vocês os mais altos postos, os lugares de liderança, aguardam; quando se diz respeito aos triunfos do intelecto, é para a Ciência ocidental que olhamos. Suas realizações destruíram a ordem de batalha do dogma e do despotismo; suas colunas avançam com poder triunfante através das brechas da falsa metafísica e da lógica sem base; vocês lutaram a batalha, e os louros estão em suas testas. A batalha foi lutada por nós a mais de dois mil anos atrás; a autoridade dos Vedas, as restrições de casta, foram esmagadas pela invulnerável espada da verdade na mão de Buda; nós somos seus irmãos. Mas na corrida do intelecto nós ficamos um pouco para trás; não terão vocês interesse em nós, que fomos seus camaradas? O Budismo clama pela Ciência: Lidera-nos, reforme-nos, dê-nos idéias claras sobre a Natureza e suas leis; dê-nos a base da lógica irrefutável e o amplo conhecimento de que precisamos, e marchem conosco rumo ao Desconhecido!

A fé Budista não é uma fé cega; suas verdades são óbvias para todos os que não estão cegos pelos espetáculos de bibliolatria e ensurdecidos pelo clamor dos padres, presbíteros, ministros: qualquer nome que eles escolham para si mesmos, nós podemos ao menos colocá-los de lado em uma grande categoria, a dos sufocadores do Pensamento; e estas verdades são as que nós a muito tempo aceitamos e que vocês recente e duramente conquistaram.

É para homens do seu talhe, homens de pensamento independente, de fino êxtase amoroso pelo conhecimento, de treinamento prático, que o Buddhasanana Samagama apela; é hora do Budismo reforma-se por dentro; embora sua verdades tem se mantido impolutas (e mesmo isto não ocorre em toda parte), seus métodos, sua organização, estão em triste necessidade de reparos; buscas devem ser feitas, homens devem ser aperfeiçoados, o erro deve ser combatido. E se no Ocidente uma grande sociedade Budista for construída por homens de intelecto, homens em cujas mãos está o futuro, haverá então um despertar, uma verdadeira redenção, dos desgastados e esquecidos impérios do Leste.

– Notas –

[1] Em Francês, no original.

[2] Em Latim, no original.

[3] Em Francês, no original.

Crowley, Aleister. Tradução: Dajjal (Fra.)

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/ciencia-e-budismo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/ciencia-e-budismo/

A submissão de Indra, o rei dos semideuses hindus

(Texto extraído em espanhol do livro Mitos de la luz: Metáforas orientales de lo eterno, de Joseph Campbell, o qual extraiu o texto de uma passagem do Brahmavaivarta Purana).

Permita-me contar uma história hindu.

Uma vez, um monstro chamado Vrtra tentou reter (seu nome significa “abrangendo”) todas as águas do universo para que houvesse uma enorme seca que durasse mil anos. Bem, Indra, o Zeus do panteão hindu, finalmente teve uma ideia. Por que não atirar um raio nesse cara e transformá-lo em pó? Então Indra pegou um raio, disparou em direção ao centro de Vrtra, e bang! Vrtra explode, as águas fluem e a Terra e o universo esfriam.

Bem, então Indra pensa: “Como sou grandioso”, então ele sobe a montanha cósmica, o Monte Meru, que é o Olimpo dos deuses hindus, e percebe que todos os palácios têm sinais de decadência. “Bem, agora vou construir uma cidade totalmente nova aqui, que faz jus à minha dignidade”, diz ele. Ele convoca Visvakarman, o artesão dos deuses, e conta a ele sobre seus planos.

Ele diz: “Olha, vamos trabalhar aqui e construir esta cidade. Acho que poderíamos ter palácios aqui e torres ali, plantas de lótus neste setor, etc.”

Então Visvakarman vai trabalhar, mas, toda vez que Indra volta, ele vem com ideias maiores e melhores sobre o palácio, de modo que Visvakarman começa a pensar: “Meu Deus, nós dois somos imortais, então o que posso fazer?”

Visvakarman decide ir reclamar perante Brahma, ou o assim chamado criador do mundo dos fenômenos. Brahma senta-se em um lótus (assim é seu trono), e Brahma e o lótus crescem do umbigo de Vishnu. Por sua vez, Vishnu está pairando sobre o oceano cósmico, reclinado sobre uma grande serpente cujo nome é Ananta (que significa “sem fim”).

Aqui está a cena. Nas águas, Vishnu dorme e Brahma está sentado no lótus. Visvakarman aparece e depois de muitas reverências diz: “Estou com problemas”. Ele então conta a história para Brahma, que responde: “Tudo bem. Vou consertar tudo”.

Na manhã seguinte, o porteiro da entrada de um dos palácios de Indra que estava em construção nota a presença de um jovem brâmane de pele azul e negra, cuja beleza surpreende muitas crianças. O porteiro procura Indra e diz: “Acho que seria auspicioso convidar este belo jovem brâmane para o palácio e dar-lhe hospitalidade.” Indra concorda que isso certamente será auspicioso, então o menino é convidado. Indra está sentado em seu trono e, após as cerimônias de hospitalidade, ele diz: “Bem, jovem, o que o traz ao palácio?”

Com uma voz como um trovão no horizonte, o menino diz: “Ouvi dizer que você está construindo o maior palácio que qualquer Indra já construiu, e agora que o verifiquei, posso lhe dizer que nenhum Indra jamais construiu tal palácio antes.”

Aturdido, Indra exclama: “Indras diante de mim? Do que você está falando?”

“Sim, Indras antes de você”, responde o menino. “Apenas pense, o lótus cresce do umbigo de Vishnu, o lótus se abre, e Brahma se senta nele. Brahma abre os olhos e o universo se manifesta, governado por um Indra. Fecha os seus olhos. Abre os seus olhos: outro universo. Fecha os seus olhos. .. e por trezentos e sessenta anos de Brahma, é isso que ele faz. Depois o lótus é removido, e após um tempo insondável outro lótus se abre, Brahma aparece, abre seus olhos, fecha seus olhos… Indras, Indras, Indras.”

“Considera agora todas as galáxias no espaço e no espaço exterior, cada um com um lótus, cada lótus com seu Brahma. Podem haver sábios em sua corte que se voluntariam para contar as gotas do oceano e os grãos de areia nas praias do mundo, mas quem contaria aqueles Brahmas, sem falar sequer dos Indras?

Enquanto ele fala, um desfile de formigas em fileiras perfeitas aparece no chão do palácio, e o menino olha para elas e ri. A barba de Indra se eriça, seus bigodes ficam tensos; ele pergunta: “E agora? Do que você está rindo?”

O menino responde: “Não me pergunte a menos que esteja preparado para ser ferido”.

Indra diz: “Eu pergunto”.

O menino aponta a sua mão para as filas de formigas e diz: “Aqui estão todos os Indras anteriores. Passarão por inúmeras encarnações e se elevam ao nível dos céus, chegam ao alto trono de Indra e matam o dragão Vrtra. Todos eles proclamam: ‘Como sou grandioso’, e então caem.

A esta altura, aparece um iogue velho e excêntrico vestido somente com um cinto, e que carrega sobre a sua cabeça um guarda-sol feito
com folhas de bananeira. Sobre seu peito tem um pequeno círculo de
cabelos, e o jovem olha para ele e faz as perguntas que fervilham na mente de Indra. ” Quem é? Qual é o seu nome? Onde vive? Onde é sua casa?

“Não tenho família, não tenho casa. A vida é curta. Este guarda-sol é suficiente para mim. Apenas adoro Vishnu. Quanto a esses pêlos, é uma coisa curiosa; cada vez que um Indra morre, um fio de cabelo cai. Metade deles já foi embora. Muito em breve todos eles irão embora. Por que construir uma casa?”

Bem, esses dois personagens eram na verdade Vishnu e Shiva. Tinham vindo para dar uma lição a Indra, e uma vez que ele os escutou, partiram. Agora Indra está destroçado, e quando entra Brhaspati, o sacerdote dos deuses, Indra diz: “Eu sairei para me tornar um iogue. Eu adorarei os pés de Vishnu.”

Então ele vai ao encontro de sua esposa, a grande rainha Indrani, e diz a ela: “Minha querida, vou deixá-la. Eu irei para a floresta para me tornar um iogue. Vou jogar fora toda essa bobagem sobre governar o mundo e vou adorar os pés de Vishnu.”

Bem, ela olha para ele por um tempo, então ela procura por Brhaspati e
conta a ele o que aconteceu. “Ele colocou essa ideia na cabeça e vai
partir para se tornar um iogue.”

Então o sacerdote a pega pela mão e eles vão se sentar juntos, diante do trono de Indra, a quem ele diz: “Você está no trono do universo. Você representa virtude e dever -dharma- e incorpora o espírito divino neste papel terreno. Já escrevi um ótimo livro para você sobre sobre a arte da política, como manter o Estado, vencer guerras, e assim por diante. Agora vou escrever para você um livro sobre a arte de amar, para que o outro aspecto de sua vida, que você compartilha com Indrani, também
também tornar-se uma revelação do espírito divino que habita em todos nós. Qualquer um pode se tornar um iogue, mas, quem pode representar na vida do mundo a imanência desse mistério da eternidade?”

Assim Indra foi salvo do problema de abandonar tudo e tornar-se um iogue. Agora ele tinha tudo dentro dele, assim como todos nós. Tudo que você tem a fazer é acordar para o fato
que você é uma manifestação do eterno.

Este conto, conhecido como “Submissão de Indra”, aparece no Brahmavaivarta Purana. Os Puranas são textos sagrados do Índia, por volta do ano 400 desta era.

O surpreendente sobre a mitologia hindu é que ela abrange o universo em que estamos falando, com os grandes ciclos de vidas estelares, as galáxias, as galáxias além das galáxias, e o aparecimento e desaparecimento da universos. Isso dilui a força do momento presente.

Quanto a todos os nossos medos sobre bombas atômicas que pulverizam o universo, o que há com isso? Antes já houveram universos
e mais universos, cada um deles explodido por uma bomba atômica. Então identifique-se agora com o eterno que está dentro de você
e dentro de todas as coisas. Isso não significa que você quer ver cair
uma bomba atômica, e sim que você não deve parar de perder seu tempo se preocupando com ela.

Uma das grandes tentações do Buda foi a tentação de luxúria. A outra tentação era o medo da morte. Este é um tema interessante para meditar, o medo da morte. A vida nos joga essas tentações, essas distrações, e o problema é encontrar dentro de nós o centro inabalável. Então você pode sobreviver a qualquer coisa. O mito irá ajudá-lo a fazê-lo. Isso não significa que você não deve sair e protestar contra as pesquisas atômicas. Faça-o, mas faça-o brincando. Lembre-se que o universo é o jogo de Deus.

***

Tradução e adaptação do espanhol para o português por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-submissao-de-indra-o-rei-dos-semideuses-hindus/