A Vontade em Thelema: Considerada em dois planos

A Vontade é um tema central para Thelema. Liber Al Vel Legis, texto central da Thelema expõe:

“Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei.” (I:40)

“Tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade. Faze isso, e nenhum outro te dirá não.” (I:42-43)

“Não existe lei além de ‘Faze o que tu queres’” (III:60)

Há dois “planos” nos quais a Vontade deve ser considerada para que ela possa ser entendida completamente. O primeiro plano será intitulado como “teórico/absoluto” e o segundo será intitulado como “prático/relativo”. Como Aleister Crowley adverte em muitos lugares que não devemos “confundir os planos” – isto é, devemos manter as considerações de cada plano dentro de sua própria esfera e não permitir que os julgamentos que pertencem a uma sejam confundidos como pertencentes à outra.

No plano teórico/absoluto, tudo e todos já estão fazendo a sua Vontade “verdadeira” ou “pura”.

“Saiba firmemente, ó meu filho, que a verdadeira Vontade não pode errar; porque este é o vosso curso designado no Céu, em cuja ordem está a Perfeição” — Liber Aleph, “De Somniis”

“Há considerações muito mais profundas nas quais aparece que ‘Tudo o que é, é certo’.Elas são apresentados em outro lugar; só podemos resumi-las aqui dizendo que a sobrevivência do mais apto é o resultado delas”— Magick in Theory and Practice, Cap. I

“O não iniciado é uma ‘Estrela Negra’, e a Grande Obra para ele é tornar transparentes os seus véus, purificando-os. Esta ‘purificação’ é realmente ’simplificação’; não é que o véu seja sujo, mas sim que a complexidade de suas dobras o torna opaco. A Grande Obra, portanto, consiste principalmente na solução de complexos. Tudo em si é perfeito, mas quando as coisas estão confusas, elas se tornam ‘más’.— New Comment to AL I:8

“(…) Cada um de nós, estrelas, devemos nos mover em nossa verdadeira órbita, como marcado pela natureza de nossa posição, pela lei de nosso crescimento e pelo impulso de nossas experiências passadas. Todos os eventos são igualmente legítimos – e cada um, necessário, a longo prazo – para todos nós, em teoria; mas na prática, apenas um ato é legítimo para cada um de nós a qualquer momento. Portanto, o Dever consiste na determinação de experienciar o evento certo de um momento de consciência para outro”. Introdução do Livro da Lei, parte III

A última citação toca na questão pertinente deste curto artigo: “Todos os eventos são igualmente legítimos – e cada um, necessário, a longo prazo – para todos nós, em teoria”. Essa é a Vontade percebida a partir do plano teórico/absoluto – o próprio Crowley usa a terminologia “em teoria” para descrever esse aspecto. Em um sentido “absoluto”, ou de uma perspectiva “absoluta”, “todos os eventos são igualmente legítimos – e cada um, necessário”.

Ele, então, escreve, “mas na prática, apenas um ato é legítimo para cada um de nós a qualquer momento. (…) o Dever consiste na determinação de experienciar o evento certo de um momento de consciência para outro”. Essa é a Vontade percebida a partir do plano prático/relativo. Em um sentido relativo, é necessária discriminação.

A primeira e mais comum “confusão dos planos” ocorre quando se percebe a verdade do plano teórico/absoluto da Vontade. Nesse sentido, todos os eventos são legítimos e necessários e não há “errado” ou “mal”. Isto significa no mundo que nenhuma ação deve ser restrita, porque todas as coisas “funcionam no final”, você poderia dizer. Isto será, literalmente, sua morte se você decidir adotar a perspectiva teórica/absoluta como uma filosofia prática/relativa. Embora a Vontade seja “perfeita” e “necessária” no plano teórico/absoluto, há um “Dever” que é a necessidade prática de determinar a ação que é “correta”.

O plano teórico/absoluto da Vontade é praticamente inútil a nível prático, embora o conhecimento do fato de que a Vontade não pode verdadeiramente errar, pode dar origem a uma certa confiança, desapego e atitude despreocupada. É sobre o plano de existência prático/relativo que normalmente funcionamos e, por isso, se faz necessária uma compreensão prática/relativa da Vontade.

Em Thelema, a aplicação prática/relativa disso é afirmada como:

“Amor é a Lei, Amor sob vontade” (I:57)

Amor é o Modus Operandi do Thelemita, e tem de ser “sob vontade”. “Cada ação ou movimento é um ato de amor, a união com uma ou outra parte de ‘Nuit’; cada um desses atos deve ser “sob vontade”, escolhido de modo a cumprir e não frustrar a verdadeira natureza do ser em questão” (introdução ao Liber AL, parte III).

Portanto, a Vontade de Thelema deve ser considerada como operante simultaneamente em dois planos: o teórico/absoluto e o prático/relativo. No plano do teórico/absoluto, todos os eventos são perfeitos, puros e necessários; no plano do prático/relativo, o Thelemita opera sob a fórmula de “amor sob vontade”, assimilando a experiência de acordo com sua natureza única.

Link original: https://iao131.com/2011/04/30/the-will-in-thelema-considered-on-two-planes/

Tradução: Mago Implacável

Revisão: Maga Patalógica

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-vontade-em-thelema-considerada-em-dois-planos

AGLA, ARARITA, IAO e outras Palavras de Poder na Magia Cerimonial

Por Spartakus FreeMann

Queremos oferecer ao estudante ou à pessoa curiosa que entra no caminho da Magia Cerimonial algumas chaves para as Palavras do Poder que ele poderá encontrar nos vários Rituais que ele terá que estudar e praticar. Algumas palavras podem parecer absurdas ou misteriosas, mas um exame abrirá uma compreensão do que elas realmente significam, e por que são usadas em rituais.

Tabela de conteúdo

Perguntas Frequentes

O que são palavras de poder na magia?

As palavras de poder (AGLA, ARARITA,…) são usadas para invocar algo ou proteger o invocador. Eles são encontrados por exemplo nos rituais de pentagrama e hexagramas.

Em quais grimórios elas podem ser encontradas?

Principalmente na Clavícula de Salomão e em quase todos os grimórios de vendedores ambulantes (Galinha Preta).

O que é magia cerimonial?

 A magia cerimonial é o ramo operativo da Magia que utiliza círculos invocatórios, fórmulas muito rígidas, invocações, evocações e dispensas de forças sobrenaturais. Esta magia usa muitas ferramentas (espada, punhal, cálice, tapete, túnica, grimório, incenso,…).

É perigoso usá-las sem preparação e conhecimento?

 Sim, como em qualquer ação mágica, o praticante deve entender e dominar o que está fazendo.

O que se segue é mais um esboço do que um estudo exaustivo. Para este trabalho, nos baseamos nas obras de Israel Regardie. Não queríamos elaborar uma tabela exaustiva de todas as palavras de poder, porque um livro em vários volumes não seria suficiente, mas o leitor pode encontrar obras muito boas no mercado atual.

AGLA

No Ritual de Banimento do Pentagrama, é utilizada a Palavra de Poder AGLA אגלא. Esta Palavra é na verdade um Notariqon da frase “Atah Ghibor Leolam Adonai” (A Ti é o Poder para sempre, Senhor!). É incrível saber então que os Wiccanos usam esta palavra de poder em suas evocações! Adonai é implicitamente invocado. Entretanto, como veremos mais adiante neste artigo, o simbolismo de Adonai pode ser diferente daquele normalmente atribuído a ele em ambientes religiosos.

ARARITA

Outra palavra de Poder frequentemente utilizada é a de ARARITA אראריתא que se encontra mais particularmente no Ritual do Hexagrama, que é vibrado nos quatro cantos ao traçar os hexagramas que estão associados às forças dos sete planetas. ARARITA é também um Notariqon de 7 letras da frase “Achad raysheethoh; achad resh yechidatoth temourathoh achod” (“Um é seu começo; um é sua individualidade; sua permutação é uma”). A palavra achad (אחד) significa “um”; Raysheet (ראשׁית) significa “início”, rosh (רששׁ) significa “cabeça” ou “início”; yechidah (יחידה) refere-se à alma humana superior que está associada a Kether; temurah (תמורה) significa “permutação”.

Na tradição da Magia de Thelema, ARARITA é uma fórmula relacionada ao macrocosmo, poderosa em certas Operações Mágicas da Luz Interior (ver Liber 813).

Por fim, observemos que ARARITA (אראריתא) tem um valor numérico de 813, que é idêntico à numeração de Gênesis I:3: “Vayomer Elohim Yehi Aur, Vihi Aur” (E Deus disse: que haja luz e houve luz).

ABRACADABRA

Outra palavra de poder frequentemente encontrada na Magia Ceremonial é ABRACADABRA. Este nome não é encontrado nos Livros de Mistérios Cabalísticos, mas o Sepher Raziel se refere a Abraxas, que é um nome derivado de Abracadabra. Em sua seção 37b, o Raziel substitui o Abraxas pelo nome “Abragag” (אברגג), dando-lhe o significado de “divino” e nomeando o nariz do corpo divino desta forma. Mas ele o usa em sua forma normal como um nome a ser invocado para fazer aparecer um brilho na escuridão, desta forma: ‘Yeir Abraksas’ (אברשׁכס יאיר), que significa ‘Ele ilumina divinamente’. Nomes mágicos são obtidos através de associações, desnaturações, abreviaturas ou combinações, de acordo com regras estabelecidas (Cabala Extática, cap.8).

De acordo com M-A Ouaknin, Abracadabra nasceu da confusão entre dibur e amira. Abracadabra significa literalmente, segundo ele, “ele criou enquanto falava” (hou bara kémo chedibère), e é, portanto, a expressão da Cabala cristã que assimila a criação pela fala ao termo dibour e não ao termo amira. Para Deus criado pela AMIRA como está escrito “vayomèr Elohim” dez vezes em Gênesis. Portanto, é provável que Abracadabra seja apenas a expressão de uma deriva oculta da Cabala cristã e não a expressão da verdadeira Cabala, mesmo que seja prática. Seu estudo é, no entanto, útil no surgimento da palavra da Lei do Aeon de Hórus, da Cabala Thelemita desta vez, Abrahadabra.

Abrahadabra significa “Abençoo os mortos”, que é uma das três palavras usadas para abençoar uma espada, e esta palavra parece derivar do hebraico “ha brachah dabarah” ou “Diga a bênção”.

Existe uma relação entre Abracadabra e a divindade gnóstica Abrasax, ou deus supremo desconhecido, fonte das 365 emanações da teologia persa. Neste contexto, o Abrasax é o mediador entre a criação e a divindade. A versão de Crowley tem um valor numérico de 418 em Gematria, ou 22 se for usada a Cabala das Nove Câmaras.

Como um símbolo do duplo poder ou unidade do Pentagrama e do Hexagrama, Abrahadabra simboliza o “casamento místico” do microcosmo e do macrocosmo, do mundo interior e do mundo exterior.

Portanto, pode-se dizer que Abrahadabra é a palavra sagrada que invoca a união dos mundos inferior e superior dentro do estudante. Usada corretamente, esta palavra tem o poder de elevar o estudante a esferas mais elevadas de iniciação. Esta ideia também é encontrada no Ritual Menor do Pentagrama, no qual as forças dos elementos e planetas são combinadas e equilibradas.

Segundo Stavich, “Como mediador, Abrahadabra sugere que como a humanidade é a Divindade encarnada, ‘Não há Deus senão o Homem, e o Homem é o Filho de Deus, Deus é o Homem’, podemos experimentar este estado em etapas progressivas ou graus de expansão da consciência. Podemos ser divinos, mas a lacuna entre a consciência mundana do mundo terreno e a consciência cósmica de Kether é radical. É por isso que progredimos lentamente e com a ajuda de diferentes mediadores para nos ajudar.”

Para este fim, podemos usar esta palavra, Abrahadabra, como um mantra, vibrando-a como uma palavra sagrada carregada de poder, podemos devolver sua energia ao seu poder original, como uma expressão divina. Quando vibramos esta palavra, devemos sentir e imaginar que os mundos inferiores e superiores estão unidos dentro de nós, que somos o centro do mundo e do universo, uma expressão de Tiphereth…

Em seu Liber IV, Aleister Crowley escreve sobre ABRAHADABRA:

“ABRAHADABRA é uma palavra a ser estudada no Equinox I, “O Templo de Salomão, o Rei”. Ela simboliza a Grande Obra concluída e é, portanto, um arquétipo para todas as operações mágicas menores. Em certo sentido, é perfeito demais para ser aplicado antecipadamente a qualquer um deles. Mas um exemplo de tal operação pode ser estudado no Equinócio I, “O Templo de Salomão, o Rei”, onde uma invocação de Hórus com base nesta fórmula é dada na íntegra. Note a reverberação de ideias umas contra as outras. A fórmula de Hórus ainda não foi suficientemente trabalhada em todos os seus detalhes para justificar um tratado sobre sua teoria e prática exotérica; mas pode-se dizer que é para a fórmula de Osíris o que a turbina é para o motor alternativo.”

INRI

 Analisemos agora o Verbo Sagrado INRI, que é o acróstico da frase latina que foi colocada na cruz da crucificação de Jesus Cristo: “Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus”. Na Ordem Hermética da Aurora Dourada, esta frase foi incorporada ao simbolismo mágico das cerimônias da Ordem. Tornou-se a senha para o grau de Adeptus Menor e, de acordo com os ensinamentos da Ordem, INRI pode ser compreendido por uma simples análise do Sepher Yetzirah, as Lâminas do Tarô e com algum conhecimento de astrologia. Mas vamos primeiro traduzir INRI em seu equivalente hebraico e associá-lo às correspondências astrológicas do Sepher Yetsirah:

I – י – Virgem

N – נ – Escorpião

R – ר – Sol

I – י – Virgem

O Signo da Virgem representa a natureza virginal. Escorpião é o signo da Morte e da Transformação. O Sol é a fonte de luz e vida na Terra, é o centro do nosso sistema solar. Todas as ressurreições divinas ao longo dos tempos estão relacionadas ao Sol, que supostamente morrerá no inverno e renascerá a cada primavera.

No Liber 777 de Aleister Crowley, que codifica muito do conhecimento básico do sistema Golden Dawn, encontramos as seguintes informações sob a coluna “Deuses egípcios”:

  • Virgem = Ísis que é a Natureza, a Mãe de todas as coisas.
  • Escorpião = Apófis, a morte e o destruidor.
  • Sol = Osíris, morto e ressuscitado da morte, deus da ressurreição.

Isto lança alguma luz sobre a natureza da palavra INRI: o estado virginal do Jardim do Éden (e assim a juventude da humanidade) é quebrado pela intervenção do conhecimento do bem e do mal, pelo aparecimento da sexualidade que é introduzida por Apófis, a Serpente, Lúcifer, que provoca uma mudança de estado. A queda, que pode ser simbolizada pelo inverno, é então seguida pela ressurreição de Osíris, que exclama: “Este é o meu corpo que destruo para que se renove”. Ele é o arquétipo do Homem Solar perfeito que sofreu através da experiência terrena, foi glorificado através do julgamento, foi traído e assassinado para ressuscitar da morte e regenerar todas as coisas na Terra.

Aqui também descobrimos a fórmula IAO através dos nomes dos três deuses mencionados: Ísis, Apófis e Osíris. Observemos antes de tudo que o IAO é o deus supremo dos gnósticos. Além disso, e como o Sol é o fornecedor da luz e da vida, a fórmula deve portanto se referir à luz como o agente redentor. Durante a cerimônia Neophyte, o postulante ouve a seguinte frase: “Khabs am Phekht Konx om Pax”. Luz na Extensão”. Em outras palavras, “receber a bênção da luz e empreender a experiência mística, o objetivo de nosso trabalho”. A palavra luz pode ser traduzida para a palavra latina LVX. E o oficiante na Golden Dawn deve realizar os seguintes sinais de grau:

O adepto levanta seu braço direito no ar enquanto estende seu braço esquerdo para baixo. Este é o sinal que se refere à letra “L”. Em seguida, ele levanta os dois braços para o céu acima de sua cabeça, significando a letra “V”. E finalmente, ele cruza seus braços sobre o peito, simbolizando a letra “X”. LVX está assim associado à Luz da Cruz através do simbolismo da palavra INRI que estava na Cruz da Crucificação.

Como o sinal “L” é feito, o adepto diz: “Sinal de Ísis chorando”. Isto expressa o pesar de Ísis pela morte de Osíris que foi morto por Set ou Apófis. Como o sinal “V” é feito, o adepto diz, “Sinal de Apófis e Tifón”, que expressa os nomes de Set, o irmão inimigo assassino de Osíris. Quando o adepto cruza seus braços sobre seu peito, ele diz: “O sinal de Osíris morto” e depois “E levantado”. Ísis, Apófis, Osíris, IAO”.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: O Sinal do Rasgar do Véu, O Sinal do Fechamento do Véu, Sinal de Osíris Desmembrado, Sinal do Pesar de Ísis, Sinal de Apófis e de Tífon e o Sinal de Osíris Ressuscitado.

Sobre o assunto Set (Apófis), note que em hebraico este nome está escrito שׁט e Crowley em Liber V vel Reguli estabelece a correspondência de Set com a numeração 31 ou AL (אל), Shin (ש) é Fire enquanto Teth (ט) é Force. Shin é o Espírito Santo, uma letra tripla associada à Lâmina XX do Tarô de Thoth.

Também pode ser escrito Shin Tav (שׁת) cuja numeração é 700, que é o valor de “paroketh” ou o Véu do Tabernáculo colocado diante do Santo dos Santos.

Vemos aqui, então, que usando procedimentos cabalísticos simples, podemos vislumbrar o simbolismo oculto de uma palavra. Assim, o adepto que pratica o Ritual envolvendo a palavra de poder INRI, está tentando alcançar a iluminação que esta palavra sugere. Além de uma simples dramatização ritual, estamos diante de um rito sagrado cujo objetivo é igualmente sagrado, para reviver o mistério dos deuses, a fim de reproduzir seu mecanismo cosmogônico.

Se traduzirmos a palavra LVX em valor numérico, então recebemos 65 que em hebraico é o valor da palavra Adonai (אדני) que significa “Senhor” e de Has (הס) que significa “Silêncio”, que se refere ao Grau do Neófito e sua obrigação de silêncio. O Adeptus Menor deve, portanto, procurar ascender para ser mais do que humano, para unir-se com sua alma superior, que é simbolizada por Adonai.

Crowley dá uma visão ampliada deste simbolismo em seu Liber LXV, ou Liber 65 “Liber Cordis Cincti Serpente” que se abre com as palavras “Eu sou o Coração; e a Serpente é enrolada”. Claro que, por seu número, o Liber 65 se refere a Adonai mas também às emoções íntimas (“Eu sou o coração”) do ser humano. A Serpente representa a força sexual que precipitou a Queda do casal primordial mas, por este fato, também sublimou e transmutou a sexualidade pelo despertar que ela produz. A serpente enrolada sem dúvida se refere à Kundalini que é enrolada na espinha e pode ser despertada pelos ritos apropriados.

” 65. Tal é também o fim do livro, e o Senhor Adonai o envolve por todos os lados como um Trovão, e como um Pilone, e como uma Serpente, e como um Falo, e no meio deles Ele é como a Mulher que jorra de seus mamilos o leite das estrelas; sim, de seus mamilos o leite das estrelas”.

Vamos dar uma olhada mais de perto no nome Adonai:

  • A – א – o aleph que tem a forma de um redemoinho.
  • D – ד – o portão, mas também um pilão.
  • N – נ – o peixe, mas também a letra atribuída ao Escorpião ou à Serpente.
  • I – י – um dedo da mão ou o Falo.

Assim, podemos entender que Adonai envolve o homem de todos os lados. Adonai é o centro espiritual interior sem limites, a Luz Infinita.

Finalmente, 65 pode ser obtido multiplicando 13 por 5, multiplicando o valor da palavra echad (אחד) pelo do pentagrama ou da letra He (ה). Sessenta e cinco é também o valor da palavra hekhal (היכל) que significa “templo” ou “palácio”, e de acordo com o Zohar, Adonai é o palácio de יהוה, e de gam yechad יחד גמ que significa “juntos em unidade”.

Com relação à Serpente, é necessário fazer um desvio através da Gnose. Os Ofitas ou Naassenos derivam seus nomes do hebraico “na’hash” (נחשׁ) e os Perates, um grupo Naasseno, fizeram de Jesus a encarnação da Serpente do Paraíso como o princípio universal da transmutação e da redenção. Na época de Mani, esta interpretação era ainda mais forte, pois os maniqueus colocavam Jesus diretamente no lugar da Serpente.

Se analisarmos a palavra hebraica “Na’hash”:

  • Nun – נ – Escorpião – Serpente – 50
  • Heth – ח – Câncer – A Carruagem do Tarô – 8
  • Shin – שׁש – Fogo – o Espírito Santo – 300

A numeração total é 358, e se dermos uma olhada (e como temos escrito em outro lugar), este número é também o número do Mashiach (messias) que podemos analisar da seguinte forma:

  • Mem – מ – Água – O Enforcado – 40
  • Shin – שׁש – Fogo – O Espírito Santo – 300
  • Yod – י – Virgem – O Eremita – 10
  • Chet – ח – Câncer – A Carruagem – 8

Existe, portanto, e a Cabala confirma este fato, uma identidade entre o Messias (no cristianismo Jesus Cristo) e a Serpente do Gênesis. A Serpente transmuta o fogo do espírito, o Adepto transforma-se em seu próprio Messias ou redentor de seu mundo interior. Cada homem pode então obter a sua própria libertação. A Serpente (Nun נ) transforma o Adepto em uma Carruagem (Merkabah da Cabala simbolizada por ‘Heth ח) que se move em direção à Luz Infinita do Espírito Santo (שׁ), e assim em direção à Iluminação.

IAO

IAO é um nome gnóstico de poder do qual os Oráculos Caldeus nos dizem: “não mudem os nomes bárbaros da evocação, pois eles possuem poder inefável nos ritos sagrados”. Analisando este Nome, descobriremos que poder intrínseco ele contém:

  • Yod – י – Virgem – 10
  • Aleph – א – Ar – 1
  • Vav – ו – Touro – 6

O valor total é 17 que é o número de quadrados na Suástica que por sua forma representa Aleph, o redemoinho, a primeira letra do alfabeto hebraico cujo valor é 1. Em seu simbolismo, portanto, a IAO representa o Ar de Aleph atuando como intermediário entre os dois signos terrestres Virgem e Touro, unindo suas essências, dando-lhes vida para que cumpram seus papéis na criação. As letras Aleph, Vav e Yod são, além disso, as letras dos caminhos que ligam Kether a Tiphereth via ‘Hokhmah e Hessed’.

Outra forma da palavra IAO dá o seguinte resultado:

  • Yod – י – Virgem – 10
  • Aleph – א – Ar – 1
  • Ayin – ע – Capricórnio – 70

O valor total então sendo 81 que é o número místico da Lua atribuído à Sephirah Yessod, a Fundação.

No Liber IV, Crowley fala da Fórmula IAO da seguinte forma:

“Esta fórmula é a principal e a mais característica de Osíris, da Redenção da Humanidade”. I é Ísis, a Natureza, arruinada por A, Apófis o Destruidor, e trazido de volta à vida por Osíris o Redentor. A mesma ideia é expressa na fórmula Rosacruz da Trindade:

 Ex Duo nascimur.

 Em Jesu morimur.

 Per Spiritum Sanctum reviviscimus.

 Isto também é idêntico à Palavra Lux, L.V.X., que é formada pelos braços de uma cruz. É esta fórmula que está implícita naqueles monumentos antigos e modernos onde o falo é adorado como o Salvador do Mundo.

 A doutrina da ressurreição, como é comumente entendida, é absurda e errônea. Não é nem mesmo “Escritural”. São Paulo não identifica o corpo glorioso pelo qual ocorre a ressurreição com o corpo mortal que perece. Pelo contrário, ele insiste repetidamente nesta distinção.

 O mesmo se aplica a uma cerimônia mágica. O Mago que é destruído pela absorção na Divindade é realmente destruído. O miserável autômato mortal permanece no Círculo. Não tem mais consequências para Ele do que o pó no chão.

 Mais adiante lemos: “O MESTRE THERION, no Décimo Sétimo Ano do Aeon, reconstruiu a Palavra IAO a fim de satisfazer as novas condições da Magia impostas pelo progresso. A Palavra da Lei sendo Thelema cujo número é 93, este número deveria ser o cânone de uma Missa correspondente. Assim, ele expandiu o IAO tratando o O como um ayin, e depois acrescentando vau como prefixo e sufixo. A palavra completa dá assim: ויאעו cujo número é 93. Podemos analisar em detalhes esta nova Palavra e demonstrar que ela é um hieróglifo próprio do Ritual de Autoiniciação deste Aeon de Hórus.

AMÉM

 Amém (AMEN) aparece em muitas orações religiosas, mas também em certas invocações mágicas. Esta palavra é frequentemente interpretada como “Assim seja!”, mas a Cabala pode nos oferecer uma interpretação um pouco diferente.

  • Aleph – א – Adonai – Senhor
  • Mem – מ – Melekh – Rei
  • Nun – נ – Na’amon – Fiel

Isto significa portanto “Senhor, Rei fiel”, uma imprecação que tem um caráter inegável de invocação divina.

A Gematria da palavra é 91 = 50 + 40 + 1 – אמן

91 é o valor de אדני יהוה = YHVH Adonai, assim como a soma dos primeiros 13 números.

91 é também o valor de מלכא = Malkah = Filha ou Noiva que se refere à Sephirah Malkhut.

Observe ainda que Adonai Melekh מלך אדני da fórmula AMÉM é um dos Nomes de Deus também conectado à Sephirah Malkhut, a Noiva do Microprosopo. Kether em sua expressão de Unidade também tem o valor de 91. Assim, AMÉM é uma fórmula para estender a Luz Divina do Sephirah Kether para o Sephirah de Malkhut (nosso mundo físico).

Leia mais no artigo sobre as palavras de poder Abrahadabra e Abrasax.

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Fonte:

AGLA, ARARITA, IAO e outras Palavras de Poder, Spartakus FreeMann, janeiro-outubro de 2005 e.v.

Imagem de Enrique Meseguer de Pixabay.

https://www.esoblogs.net/3221/agla-ararita-iao-et-autres-mots-de-pouvoirs-dans-la-magie-ceremonielle/2/

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/agla-ararita-iao-e-outras-palavras-de-poder-na-magia-cerimonial/

A longa e horrível história de pessoas tentando viver para sempre

Theo Zenou 

O filósofo renascentista Montaigne brincou certa vez que “a morte nos pega pela nuca a cada momento”. Ele poderia muito bem ter acrescentado: ‘até que, finalmente, nos estrangule.’ Mas e se soubéssemos como escapar do estrangulamento da morte? E se pudéssemos evitar a morte e viver para sempre? Seria possível? Seria ético? Seria desejavel?

A imortalidade pode parecer coisa de ficção científica, mas está se tornando cada vez mais o foco da ciência real. Em 2013, o Google lançou a Calico, uma empresa de biotecnologia cujo objetivo é “resolver” a morte. Enquanto isso, o cofundador do PayPal, Peter Thiel, prometeu “combater” a morte. E no ano passado, foi relatado que o presidente da Amazon, Jeff Bezos, fez um alto investimento na Altos Labs, uma empresa que planeja “rejuvenescer” as células para “reverter doenças”. (Bezos é também dono do Washington Post.).

Existe até uma startup desenvolvendo medicamentos para que os cães possam viver mais. Os ensaios clínicos estão programados para começar este ano. Se forem conclusivos, o plano é aplicar a mesma ciência às pessoas. A imortalidade – ou anti-envelhecimento, como os pesquisadores o chamam sobriamente – é a próxima grande novidade. As estimativas colocam o valor do setor em impressionantes US$ 610 bilhões até 2025. Do Vale do Silício a Cambridge, na Inglaterra, cientistas estão escrevendo o capítulo mais recente da tortuosa história de nossa busca pela vida eterna. É uma história que vem de longe.

A Epopéia de Gilgamesh

Nós temos tentado viver para sempre a muito tempo. A história mais antiga de nossa espécie, “A Epopéia de Gilgamesh”, é sobre esse anseio.

Gravado em tábuas de argila quatro milênios atrás na Mesopotâmia, diz respeito ao rei Gilgamesh, um “homem touro selvagem” com músculos gigantescos e um ego ainda maior. Após a morte de seu melhor amigo, Gilgamesh é forçado a enfrentar sua própria mortalidade. “Devo morrer também?” ele clama aos céus.

Em sua dor, ele se transforma em uma versão mesopotâmica de Peter Thiel e parte em uma missão para “superar” a morte. Ele falha, mas descobre o significado da vida ao longo do caminho:

“Os humanos nascem, vivem, depois morrem,
esta é a ordem que os deuses decretaram.

Mas até o fim chegar, aproveite sua vida,
gaste-o em felicidade, não desespero.

… Ame a criança que te segura pela mão,
e dê prazer à sua esposa em seu abraço.

Essa é a melhor maneira de um homem viver.”

Mas o resto da humanidade não recebeu o memorando. Veja o primeiro imperador da China, Qin Shi Huang, que governou no século III a.C. e estava determinado a viver para sempre.

Qin Shi Huang

Como Gilgamesh, Qin tinha pavor da morte. Tanto que ele proibiu qualquer discussão sobre o assunto no tribunal sob pena de – você adivinhou – morte.

De acordo com o livro “Imortalidade”, de Stephen Cave, quando Qin soube de um grafite profetizando que ele também morreria, ele ordenou que suas tropas matassem quem fosse responsável por essa afronta. Mas o meliante escapou da captura. Então o imperador mandou matar todos na área. (Para alguém com um medo tão neurótico da morte, Qin foi bem casual em matar seus súditos.)

Um dia, um enigmático feiticeiro chamado Xu Fu afirmou que sabia como conceder a imortalidade ao imperador. Tudo o que este último precisava fazer era absorver o “elixir da vida”. Esta bebida especial pode ser encontrada em uma ilha mágica do Mar da China Oriental. Qin, sempre crédulo, financiou a expedição de Xu lá.

Mas, é claro, não havia ilha. Xu era um vigarista tão descarado que fez Charles Ponzi parecer Desmond Tutu.

Ainda assim, o imperador permaneceu obcecado em prolongar sua existência. Para esse efeito, ele começou a beber uma mistura estranha… e morreu aos 49 anos de envenenamento por mercúrio.

Diane de Poitier

Qin não foi a única figura histórica convencida de que um coquetel poderia conferir imortalidade. Diane de Poitiers, supostamente a mulher mais bonita da França do século XVI, bebia ouro para preservar sua boa aparência.

Diane de Poitiers era uma nobre francesa e cortesão proeminente que bebia ouro para preservar sua boa aparência.

Poitiers não escolheu arbitrariamente o ouro como sua panacéia. O elemento foi associado à imortalidade graças à alquimia, a biotecnologia da Idade Média, que se centrava na busca da Pedra Filosofal. Acreditava-se que transmutava metais básicos em ouro e dava vida eterna.

Um alquimista parisiense do século XIV, Nicolas Flamel, descobriu a pedra sagrada e ainda estaria vivo hoje. Ou assim vai a lenda, que inspirou o primeiro livro de “Harry Potter”.

Papa Inocêncio VIII e Elizabeth Bathory

Ao longo da história, o sangue tem sido um remédio antienvelhecimento popular. Em 1492, o moribundo Papa Inocêncio VIII foi injetado com sangue de crianças, colocando em prática a recomendação do polímata italiano Marsilio Ficino de que os idosos sugam o sangue dos jovens “como sanguessugas” para voltar seu relógio biológico. (Se isso for muito grosseiro para você saiba que Ficino aconselhou misturar o sangue com água quente e açúcar.) Infelizmente para o Sumo Pontífice, era besteira. Inocentes morreram, junto com seus jovens doadores de sangue.

A longa e chocante história de papas atormentados por escândalos
Mas que tal banhar-se no sangue das virgens? Na virada do século XVII, a condessa húngara Elizabeth Bathory era aparentemente um adepto. Ela acreditava que mergulhos regulares evitariam que sua pele se enrugasse.

Busca pela imortalidade no Século XX

Avançando dois séculos, um eminente neurologista creditou injeções de cobaias e testículos de cachorro por fazê-lo “se sentir trinta anos mais jovem”. Um cirurgião empreendedor correu com a ideia, enxertando testículos de macaco nas partes íntimas de homens idosos em uma tentativa de reverter o envelhecimento. Saiba mais, por sua conta e risco, em seu tratado “Vida; um Estudo dos Meios de Restaurar a Energia Vital e Prolongar a Vida”.

A busca pela imortalidade se estendeu até a hora mais sombria do século 20. No auge da Segunda Guerra Mundial, o líder nazista Heinrich Himmler embarcou em uma busca para localizar o Santo Graal. O chefe da SS, mergulhado nas artes das trevas, acreditava que o Graal lhe concederia habilidades sobre-humanas, incluindo a vida eterna. Desde a Idade Média, dizia-se que beber do Graal anularia a morte. (Himmler nunca encontrou o Graal; ele morreu em 1945 quando tomou uma pílula de cianeto ao ser capturado pelos britânicos.)

O sonho que não morre

No entanto, se você espera viver para sempre, abandone os contos de fadas medievais. Em vez disso, estude a ciência emergente da programação de células, ou “hackeie” células para recodificá-las que ficou sob os holofotes recentemente graças a uma conferência no prestigiado London Institute for Mathematical Sciences (LIMS).

“Em princípio, a vida poderia ser projetada para viver mais”, disse o diretor do LIMS, Thomas Fink, ao The Post. Físico formado em Caltech e Cambridge, ele vê a imortalidade como um desafio matemático. Para resolvê-lo, é preciso primeiro perguntar por que envelhecemos. “A resposta canônica”, explicou Fink, “é que o envelhecimento é inevitável e uma condição fundamental da vida”. Todo organismo se degrada com o tempo e, eventualmente, se decompõe. Fim da história.

“Mas a história é muito mais estranha do que pensamos”, disse Fink. Em um artigo recente, ele usou a matemática para demonstrar que “o envelhecimento pode ser favorecido pela seleção natural”. Essa é uma visão chocante: significa que as primeiras formas de vida, que começaram há bilhões de anos, provavelmente não morreram.

A morte surgiu durante o curso da evolução porque conferia uma vantagem. Em suma, as espécies que morreram se saíram melhor do que as que não morreram.

Na frase memorável de Fink, “imortalidade – não mortalidade – é o estado natural das coisas”. Então, como podemos voltar a esse estado natural? É aí que entra a programação celular.

Várias empresas estão tentando fazer esse trabalho, como a bit.bio, que recodifica células para tentar encontrar curas para doenças como o Alzheimer. A longo prazo, essa biotecnologia revolucionária pode muito bem permitir que os cientistas redefinam as células para a imortalidade.

“Se o processo de envelhecimento é um mecanismo dentro da célula controlado por um programa de transcrição, então seremos capazes de influenciá-lo”, hipotetizou Forrest Sheldon, um membro júnior do LIMS que colabora com o bit.bio.

Mas Fink e Sheldon alertaram que ainda estamos muito longe de nos tornarmos imortais. Então não reserve ainda suas férias para o verão de 4500.

Fonte: https://www.msn.com/en-us/news/us/the-long-and-gruesome-history-of-people-trying-to-live-forever/ar-AAWNqyu?ocid=uxbndlbing

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-longa-e-horrivel-historia-de-pessoas-tentando-viver-para-sempre/

A Postura da Morte & a Nova Sexualidade

Desde tempos imemoriais, a partir do culto místico à múmia no Antigo Egito até o ritual da assunção de formas divinas praticado na Aurora Dourada (Golden Dawn), quando o Adepto Chefe (Sumo Sacerdote) simulava o papel de Christian Rosenkreutz e se deitava no túmulo (pastos), pronto para a ressurreição, o conceito de morte tem sido inseparável do de sexo.

A ilustração intitulada “A Postura da Morte” (ver ao lado), que forma o fronstispício do “Livro do Prazer”, de Austin Osman Spare, contém, numa forma alegórica, a doutrina completa da Nova Sexualidade.

A figura de Zos (o nome Zos não apenas é o nome mágico de Austin Osman Spare, como ele também considera no “Livro do Prazer” que “o corpo considerado como um todo eu o chamo de Zos”) está sentada à uma mesa circular repleta de imagens estranhas. Sua mão direita está pousada em seu rosto, selando a boca e impedindo o fluxo de ar (força vital) através das narinas; seus olhos se concentram com intensidade fixa em VOCÊ – a testemunha. Com sua mão esquerda ele escreve os caracteres místicos que materializam seus desejos sob a forma de “sigilos”. A identidade da mão com a serpente (isto é, phallus) é inequívoca. Ao redor desta figura, encontram-se as inumeráveis imagens de desejos passados, disfarçados sob formas humanas ou bestiais, elementares ou incomuns, algumas delas transfixadas pelo metal do ódio, outras elevadas pela sua mão direita ao local do amor, outras tantas em atitudes de entrega feliz, contemplativa ou sedutora, uma outra brilha através duma máscara impenetrável de êxtase interior, transcendendo a dualidade por um tipo de prazer além da compreensão. Diante de Zos, acima dele e à sua esquerda, encontram-se os crânios dos mortos. O crânio, emblema da morte, está colocado em lugar de destaque, envolto em seus cabelos desalinhados. A idéia é a de que a morte domina o pensamento ou, mais exatamente, todo pensamento é morto, totalmente nulo, e um nada intensamente hipnótico emana de seus olhos fixos no além; e, sob estes olhos, a mão sustenta a cabeça da mesma forma que um pedestal a um cálice.

Os dois instrumentos mágicos, o Olho e a Mão, estão submissos à morte; eles cumpriram seu objetivo único e encontraram a apoteose na aniquilação. Nenhuma respiração (princípio vital, prana) faz com que as formas imóveis à sua volta se mexam. Está implícito um estado de suspensão animada que simula a Morte (qhe, thané). A Morte ou thané é o motto (nome mágico ou iniciático) de Zos (Austin Osman Spare), cujo nome mágico completo era Zos vel Thanatos. Ele diz, em seu “Inferno Terrestre” escrito em 1905, que “a Morte é Tudo”.

Todas as religiões e cultos mágicos da antiguidade enfatizavam a idéia de morte, que era interpretada como um nascimento num outro plano da existência. Túmulo e útero eram termos intercambiáveis que denotavam as idas e vindas do ego em vários níveis ou planos da realidade, com o objetivo de fazer cumprir as leis do karma decretado pelo destino. A Morte é “a vinda daquilo que foi reprimido; o tornar-se pelo ir além, a grande chance: uma aventura na Vontade que se traduz no corpo”. Esta é a chave para a Postura da Morte, na verdade uma impostura, uma simulação de morte com o objetivo de permitir que o sonho reprimido emerja e se corporifique, se transforme em realidade.
Entretanto, a Postura da Morte é mais que uma simulação ritual da Morte, do mesmo modo que no ritual supremo da Maçonaria há (ou deveria haver) uma verdadeira ressurreição nascida da ressurreição teatral ensaiada com o objetivo de externar a verdade interior.

No “Alfabeto dos Símbolos Sensoriais” que Spare idealizou para formar a base de sua Linguagem do Desejo, um símbolo representa o Ego, ou princípio da dualidade, enquanto outro representa a “Postura da Morte”, a dissolução da dualidade no estado sem forma da Consciência Absoluta.

A “sensação preliminar” da Postura da Morte (conforme “O Livro do Prazer”) é um ótimo exemplo da habilidade de Spare de “visualizar a sensação”). A figura está curvada sobre si mesma num “estado de graça” de concentração interior e a “Estrela da Vontade” brilha em seu coração nas suas seis cores; a mão direita cinge uma arma invisível. A mão simboliza a Vontade Criativa e os Olhos, que simbolizam tanto desejo quanto imaginação, estão fechados ou cobertos. É fácil interpretar a gravura em questão como significativa de um intenso poder preso dentro do corpo que será liberado através de uma explosão que tomará uma forma desejada. É através da união entre vida e morte, entre a corrente ativa da Vontade e a corrente passiva da Imaginação, a união de Mão e Olho, que nasce o conceito da Nova Sexualidade. A compreensão plena da Postura da Morte leva à plena compreensão da sexualidade primal, irrestrita e “nova” (no sentido de “revigorante”).

Spare descreve a Postura da Morte como “uma simulação da morte através da negação absoluta do pensamento, isto é, a prevenção da transformação do desejo em crença manipulada por aquele, e a canalização de toda a consciência através da sexualidade”. “Pela Postura da Morte, permitimos que o corpo se manifeste espontâneamente, impedindo a ação arbitrária, causada pelo pensamento. Só os que estão inconscientes de suas ações têm coragem para ir além do bem e do mal, em sua sabedoria pura de sono profundo”.

Para se assumir corretamente esta postura é necessário “re-lembrar-se” (em inglês, um jogo de palavras com re-member, isto é, lembrar-se para transformar outra vez em membro ou parte integrante) daquela parte distante da memória subconsciente onde o conhecimento se transforma em instinto e, daí, em curso forçado, ou lei. Neste momento, que é o momento da geração do Grande Desejo, a inspiração flui da fonte do sexo, da Deusa primordial que existe no coração da matéria. “A inspiração sempre acontece num instante de esvaziamento da mente e a maioria das grandes descobertas é acidental, acontecendo geralmente após uma exaustão mental”, isto é, quando o “conhecimento” consciente foi descartado e a percepção puramente instintiva tomou o seu lugar.

A Postura da Morte é o somatório de quatro gestos (mudras) principais que constituem os sortilégios mágicos de Zos. Vontade, Desejo e Crença constituem uma unidade tripartite capaz de estremecer o subconsciente, forçando-o a ceder o seu potencial criativo. Este varia de acordo com a natureza do desejo e da quantidade de crença “livre” que o sigilo contem. Os métodos de energização da crença variam, mas a imaginação sugere o melhor deles. Em outras palavras, seja espontâneo, não dê espaço ao pensamento. Para reificar (transformar em algo real) o sonho ou desejo, Spare utiliza a mão e o olho. A nostalgia intensa faz com que se retorne a remotos caminhos passados e o desejo ardente se mistura com todos os outros, o Ser com o Não-Ser, de modo que um “espírito” familiar há muito esquecido acabe se tornando uma obsessão para a mente consciente; então, e só então, a experiência ancestral é revivida e se corporifica.

A corporificação de entidades mentais “ressuscitadas”, evocadas pelo desejo ardente de se entrar novamente em contato com elas, acaba se tornando “real” tanto para o olho quanto para a mão. Deste modo, o “corpo” é ressuscitado, não como um sonho enevoado, mas palpável ao toque e visível ao olho. “Do Passado chega este novo ser”.
A “ressurreição do corpo” está sempre acontecendo, inclusive no quotidiano, mas é uma ressurreição involuntária, freqüentemente anacrônica e, portanto, indesejada. Através do uso da teurgia auto-erótica de Zos é possível viver todas as “mentiras” e encarnar todos os sonhos agora, neste mesmo instante. No “Grimório de Zos“, Spare afirma que “a identidade é uma obsessão, um composto de múltiplas personalidades, cada uma delas sabotando a outra; um ego multifacetado, um cemitério ressurgente onde os demiurgos fantasmagóricos buscam em nós a realidade deles”.

Através da Postura da Morte, a nossa consciência sobre algo se identifica com a consciência dos que chamamos de outros; uma qualidade que, em si mesma, é uma não-qualidade, uma vez que ela não é isto nem aquilo. E, pela apreensão de Kia (Ser) como “nem isto, nem aquilo” (neither-neither, ou neti-neti dos budistas), nasce a nova estética ou percepção da sexualidade, que é a nossa percepção individual das coisas vista sob uma nova ótica, que também é a fonte de todas as percepções dos outros que nós freqüentemente “projetamos” como se fossem corpos femininos.

Isto nos leva ao estranho conceito de sexualidade que Spare utilizou como a base de sua teurgia. Todas as mulheres são vistas como formas de nossos desejos; elas são desejos sigilizados e, por causa da qualidade condicionada de nossas crenças, elas estão condicionadas e sujeitas a mudanças, surgindo em nossas mentes como a realidade dos outros que deseja unir-se à nossa realidade. “Feliz é o que absorve estes ‘corpos femininos’ – sempre projetados – pois ele adquire a percepção da verdadeira extensão de seu próprio corpo”.

Spare não restringe o significado da palavra “corpo” ao corpo físico; se este fosse o caso, não haveria qualquer sentido na sua declaração de que “a Morte é Tudo”, nem na glorificação da simulação de uma condição que decreta o fim do organismo físico. A frase “a verdadeira extensão de seu próprio corpo” envolve a percepção de um estado sensorial do qual o organismo físico é apenas uma reificação ou ressurreição (isto é, nosso próprio corpo é muito mais do que apenas seu limite físico nos faz crer, embora este possa “encarnar” sua verdadeira dimensão através da Postura da Morte). A doutrina de Spare, em última instância, prega a unificação de todos os estados sensoriais em todos os planos simultâneamente, de modo que o ego possa estar plenamente consciente de suas múltiplas entidades e identidades num “aqui” e “agora” que seja eterno. Este é o significado de “adquirir a percepção da verdadeira extensão de seu próprio corpo”.

No “Grimório” ele nos diz que: “nunca estamos completamente conscientes das coisas a não ser pelo influxo do desejo sexual que nos desperta esta percepção”, e a Postura da Morte concentra todas as sensações e as devolve a seu sentido primal, isto é, sexual, que confere ao corpo a percepção total de todos os planos simultâneamente. Sem o conhecimento de como assumir a Postura da Morte, “o ser existe simultâneamente em muitas unidades, sem a consciência de que o Ego é uma só carne. Que miséria maior que esta pode haver?”

No mesmo livro, Spare pergunta: “por que razão ocorre esta perda de memória através destas surpreendentes refrações da imagem original um dia percebida por mim?” A Postura da Morte contém a resposta a esta pergunta, pois, pela união da crença vital (i.e., desejo orgânico) com a vontade dinâmica se chega à “verdadeira extensão de seu próprio corpo”.

Êxtase, auto-amor perfeito (deve-se notar que a expressão ‘Self-love’ em Inglês também é um jogo de palavras com ‘Self’, auto e Ser Superior ou Eu Superior, e ‘love’ amor, significando também “amor pelo Eu Superior” além de ‘auto-amor’) contém sua apoteose na Postura da Morte, pois “quando o êxtase é transcendido pelo êxtase, o ‘Eu’ se torna atmosférico e não há lugar para que objetos sensuais reajam ou criem diferentemente”.

E assim se chega ao ponto focal do Culto de Zos Kia, que é implícito pela sigilização do desejo através de uma figura que não conserva qualquer semelhança gráfica com a natureza do desejo. De modo a escapar do ciclo de renascimentos ou reencarnações, devemos livrar-nos do ciclo transmigratório da crença, pois não devemos acreditar numa determinada coisa por nenhum período de tempo. Assim, através do paciente esvaziamento da energia contida em nossas crenças e pelo direcionamento da nova energia que desta forma é liberada para um auto-amor (Self-love) não-reacionário e sem necessidades, chegamos à negação do karma (causa e efeito) e alcançamos o universo de Kia (o ‘Eu’ Atmosférico). O verdadeiro autocontrole é conseguido “deixando os acontecimentos em nossas vidas seguirem seu curso natural. Quanto mais interferimos neles, mais nos tornamos identificados com o seu desejo e, portanto, sujeitos a eles.”

Esta doutrina se assemelha à filosofia de Advaita Vedanta, ou não-dualidade, embora não sejam exatamente idênticas. Spare acrescenta as seguintes palavras: “enquanto persistir a noção de que existe ‘uma força compulsória’ no mundo, ou mesmo nos sonhos, esta força se torna real. Devemos eliminar as noções de Escravidão e de Liberdade em qualquer situação através da meditação da Liberdade sobre a Liberdade pelo ‘nem isto, nem aquilo’ (neither-neither). E acrescenta: “não há necessidade de crucifixão.”

Desta forma, para se poder apreciar adequadamente a idéia da Nova Sexualidade, é necessário que a mente se dissolva no Kia e que não haja stress na consciência (i.e., pensamento), pois os pensamentos modificam a consciência e criam a ilusão absurda de que o indivíduo ‘possui’ a consciência.

O conceito da Mulher Universal, Aquela com quem Zos “caminhou na senda perfeita”, leva-nos à transcendência da dualidade. Ela é o glifo da polaridade perfeita que, em última instância, nos remete ao Nada. No culto de Crowley ela é Nuit, cuja fórmula mística é 0 = 2. A Consciência Absoluta (Kia, o Eu Superior), como o Espaço Infinito (Nuit), não tem limites; ela é o vazio-pleno, ou vazio fértil, sem forma e sem localização definida, significando coisa alguma, embora ela seja a única Realidade!

Nos recônditos mais ocultos do subconsciente, esta realidade se assemelha ao relâmpago, ou a uma luz faiscante de brilho intenso. Ela é o hieroglifo do desejo potencial, sempre pronta para penetrar numa forma e se transformar na “concretização de nosso último Deus”, i.e., a corporificação de nossa crença mais recente.
Este desejo primal, esta sexualidade ‘nova’ ou imemorial, é o unico sentido verdadeiro. Ele é o fator constante em nossa mutabilidade. Quanto mais este sentido puder ser ampliado de modo a abranger todas as coisas, tanto mais o Eu Superior (Self) poderá realizar-Se, fazer-Se entender, fazer-Se conhecer e, finalmente, ser Ele mesmo, integralmente, eternamente e sem necessidades. “A nova lei será o segredo do provérbio místico ‘nada importa – nada precisa ser’; não existe nenhuma necessidade, que sua crença seja simplesmente ‘viver o prazer’ (a Crença, sempre buscando sua negação, é mantida livre pela sua retenção neste estado de espírito)”. Isto é muito parecido com o credo de Crowley “faze o que queres”, embora haja uma diferença. O Caminho Negativo do Taoísmo e o Caminho Positivo do hinduísmo tradicional se relacionam da mesma forma que o Auto-amor e o Culto de Zos Kia e a Lei de Thelema e “amor sob vontade”.
Para Spare, a mulher simboliza o desejo de se unir com “todas as outras coisas” como Eu Superior (Self); não as manifestações individuais da mulher, mas a mulher primordial ou primitiva da qual todas as mulheres mortais são fragmentos de imagens refletidas.

Podemos chamar este conceito inconcebível de sexo, desejo ou emoção; ou ainda, personificá-lo como a Deusa, a Bruxa, a Mulher Primitiva, que é a cifra de toda intertemporalidade, o êxtase alusivo ao caminho do relâmpago que Zos chamava de “o precário caminho do prazer ambulante”. Para adorar a esta mulher primitiva não se pode aprisioná-la numa forma efêmera e limitá-la a isto ou aquilo, mas se deve transcender o isto ou aquilo de todas as coisas e experienciá-la na unidade do auto-amor (Self-love).
Spare não a materializou arbitrariamente como Astarté, Ísis, Cibele ou Nuit (embora ele freqüentemente a desenhasse nestas formas divinas), pois limitá-la é sair do caminho e idealizar o ídolo, o que é falso porque é parcial, e irreal porque não é eterno. “Os possessivos personalizam, idolatram o amor, daí seu despertar mórbido…” (‘O Grimório de Zos’). A utilização de tais ídolos não apenas é permitida como desejável, com o objetivo de armazenar crenças livres durante um período inativo ou não-criativo, quando a energia não é necessária. Entretanto, a principal objeção ao uso continuado de ídolos é que ‘o que é familiar nos induz ao cansaço e este nos leva à indiferença; que coisa alguma seja vista desta maneira. Que possamos ver de modo visionário: cada visão, uma revelação. O cansaço desaparece quando esta é a atitude constante’, i.e., quando a imagem é sempre nova e a sexualidade, portanto, constantemente estimulada através de novas inspirações.

Por não permitir que a crença livre seja aprisionada numa forma divina específica, o impacto da visão como revelação pode ser facilmente incutido, acabando-se com a esterilidade. Uma das máximas fundamentais de Spare é a de que “o que é comum é sempre estéril” (‘O Grimório de Zos’), pois não se pode criar a partir de imagens comuns ou familiares. Esta familiaridade conduz à desvitalização, preguiça e atitudes convencionais, o caminho mais fácil para se evitar os obstáculos. “Se eu superar este cansaço indesejado, transformar-me-ei num Deus”. A mente deve estar treinada para conseguir enxergar de modo sempre renovado e a fórmula de Spare para conseguir isto é “provocar a consciência pelo toque e o êxtase pela visão… Permita que sua maior virtude seja a o Desejo Insaciável, a corajosa auto-indulgência e a sexualidade primal”.

A chave para a sexualidade primal, ou Nova Sexualidade, é dada no livro The Focus of Life (“O Objetivo da Vida”) onde Zos exclama: “livre-se de todos os meios para atingir um fim”. É o caminho do imediatismo em contraste com o do adiamento da realidade numa simulação desenergizada: “faça agora, não daqui a pouco…pois o desejo só é realizável pela ação” (esta é, sem dúvida, uma crítica direta que Spare faz das pomposas técnicas ritualísticas praticadas na Aurora Dourada, da qual ele foi membro em 1910).  Continua ele: “o objetivo final é alcançado não pela mera pronúncia das palavras ‘eu sou o que eu sou’, nem pela simulação, mas pelo ato vivo. Não pretenda ser o ‘eu’ apenas, seja o ‘Eu’ absoluto, completo e real, agora.”

Esta é a teurgia da transformação da Palavra em carne. No “Livro do Prazer”, ele pergunta: “porque vestir robes e máscaras cerimoniais e simular posturas divinas? Não é preciso repetir gestos ou fazer imitações teatrais. Você está vivo!” Este é o motivo pelo qual Spare rejeitava as práticas de seus colegas magos e daqueles que simplesmente “ensaiam” a realidade, em detrimento da sua verdadeira vitalidade e desejo, através de uma simulação que, em última instância, acaba negando a própria realidade! Spare alega que a magia simplesmente destrói a realidade por ser praticada num momento em que o Eu Superior não é real nem vital, em que Ele não é todas as coisas ou em que o poder para se transformar em tudo não está presente. As pessoas “prezam magia cerimonial ou ritual e o palco mágico acaba cheio de fãs. Será através de mera representação que nos transformaremos naquilo que estamos representando? Se eu me coroar Rei, transformar-me-ei num? Mais certamente, transformar-me-ei num objeto de piedade ou desgosto.”

Estes ensinamentos, desenvolvidos por Spare antes da I Guerra Mundial, estão muito próximos das doutrinas da Escola Ch’an de Budismo, cujos textos principais apenas recentemente foram colocados à disposição do público em geral.

Livrar-se de todos os meios para atingir um fim é simples de se dizer, mas não tão simples de se fazer. Um desenvolvimento pleno do senso estético é necessário, pois sem este não é possível aceitar nem entender a doutrina da Nova Sexualidade, seja intelectual ou simbolicamente. Isto pode ser conseguido pela saturação do complexo corpo-mente nas emanações sutis do Culto de Zos Kia, através do acompanhamento do trabalho de Spare em direção às células iluminadas do subconsciente; pela aquisição de uma percepção ultra-sensível para as situações do quotidiano, como se elas não estivessem distanciadas do Eu Superior. Spare compreende a Natureza inteira (o universo objetivo) como o somatório de nosso passado, simbolizado, aparentemente cristalizado fora de nós mesmos. Apenas o potencial, naquele exato instante meteórico de sua manifestação, deve ser agarrado e tornado vivo num segundo de êxtase, pois “quando o êxtase é transcendido pelo êxtase, o ‘Eu’ se torna Atmosférico (Superior) e deixa de haver espaço para que os objetos sensuais criem de modo diverso…”

Contudo, não se consegue localizar a Crença Suprema na Natureza porque, tão logo a Palavra tenha sido pronunciada, sua realidade se transforma em passado, já não é mais uma realidade agora, podendo apenas reviver pela ressurreição quando recriada em carne; entretanto, o que confere realidade a esta Crença não é aquele que pronuncia a Palavra, nem a pronúncia Dela em si, mas uma sutil e vaga intertemporalidade que ocorre numa fração de segundo de êxtase. “Não existe verdade falada que não seja passada, sábiamente esquecida” (‘O Anátema de Zos’). No ‘Grimório’, Spare ainda nos diz que “esta fração de segundo é o caminho que deve ser aberto…” Este caminho e o caminho do relâmpago são sinônimos e descrevem um estado indescritível que é não-conceitual: Neither-Neither (‘nem isto, nem aquilo’), Self-love (‘Auto-amor’ ou ‘Amor pelo Eu Superior’), Kia, ou a Nova Sexualidade.

A arte de Spare não é conhecida do grande público nem recebeu o merecido reconhecimento, e seu sistema intensamente pessoal de bruxaria ainda não abriu seu caminho na estrutura do ocultismo moderno. Entretanto, existem indícios de que não será preciso muito tempo mais para que sua magia verdadeira receba um poderoso estímulo da corrente mágica deste final de século, pois se houve alguém no início deste que antecipou e interpretou corretamente tal corrente, este alguém certamente foi Austin Osman Spare.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-postura-da-morte-a-nova-sexualidade/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-postura-da-morte-a-nova-sexualidade/

Einstein e a Música

“Se não fosse físico, acho que seria músico. Eu penso em termos de músicas. Vejo minha vida em termos de música.” (Einstein)

Einstein começou a estudar violino aos 6 anos de idade, aos 23, ele e seus amigos fundaram a Akademie Olympia, grupo que inicialmente tocava em cafés, cervejarias e recitais que aconteciam na cidade de Berna. Mais tarde, tornou-se um costume, após longos debates sobre Física, Matemática e Filosofia, Einstein tocar seu violino no terceto que formara com o físico alemão Max Karl Ernest Planck e com Erwin, filho caçula de Planck.

Sua mentalidade assemelhava-se a dos antigos magos, alquimistas e iogues. Não raramente se trancava no quarto e dava ordem a esposa para que não o chamasse para nada, recomendando apenas que colocasse uma bandeja de sanduíches diante de sua porta trancada. Assim passava dias inteiros, em total solidão, como um iogue em samadhi ou um alquimista em seu laboratório.

Nestes períodos, tocar violino o ajudava a entrar em contato com o seu Atman, Espírito Santo, Eu Superior, SAG, sintonizando-se, diria Spinoza, com a “Alma do Universo”, percorrendo as infinitas linhas da partitura cósmica a fim de compreender seus mistérios, ao final, a física tornaria-se mais uma ferramenta para decodificar suas viagens.

Einstein tinha pela música um amor profundo, que raiava o espiritual, talvez porque ela funcionava como um elo entre a concentração mental e a intuição cósmica. Matemática, Metafísica e Mística são, no fundo, a mesma coisa, mas parece que estes 3Ms necessitam do quarto M da Música.

“A música e a pesquisa em física originam-se de fontes diferentes, mas são intimamente relacionadas e ligadas por um fio comum, que é o desejo de exprimir o desconhecido. As reações divergem, mas os resultados são complementares.” (Einstein)

A paixão de Einstein pelo violino, o fez tocar em diversas situações. Quartetos de Mozart, quando visitou seu amigo Charlie Chaplin ; em visita ao casal real belga, o Rei Alberto I e a Rainha Elisabeth, Einstein passou a tarde tocando Mozart, tomando chá e tentando lhe explicar a relatividade. Aliás, a tentativa de explicar a relatividade com música já fora usada por Einstein, com o famoso violinista russo Toscha Seidel, quando este lhe deu alguns conselhos musicais.

Não media esforços para tocar em prol de uma boa causa, em 1934, apresentou o Concerto para dois violinos em ré menor de Bach, em apoio aos refugiados judeus, em 1941, em Princeton, foi a vez do Quarteto em sol maior de Mozart, no intuito de arrecadar fundos para crianças carentes.

Hans Byland recorda ter tocado as sonatas de Mozart com o jovem Einstein, então com 17 anos:

“Quando ele começou a tocar violino, a sala pareceu amplificar-se. Eu estava a ouvir o verdadeiro Mozart pela primeira vez em toda a beleza grega da limpidez das suas linhas, ora graciosas ora magnificamente poderosas. Que alma na forma como tocava! Eu não o reconhecia.”

Sua preferência pelas obras de Mozart é nítida, certa vez, confessou que só começou a compreender e a apreciar a música, depois de conhecer as sonatas de Mozart, conforme dizia: “a música de Mozart é tão pura que parece estar presente no universo desde sempre.”

Físico, filósofo, gênio, músico, humano, simples… dinheiro e valores materiais eram para ele coisas banais; vivas e vaias, sucessos ou fracassos, tudo isto era a mesma coisa. Para os teólogos, devia Einstein ser um ateu, porque não admitia um Deus pessoal, mas para nós espiritualistas, era ele um místico, um homem altamente espiritual, que nitidamente sentia a presença de um “poder supremo impessoal” que rege os destinos do Universo.

O blog Sinfonia Cósmica vai um pouco além da música e fala também de espiritualidade, filosofia, cosmologia, dentre outras divagações. Acompanhe nossas atualizações curtindo nossa página no Facebook ou nos seguindo via Twitter.

#Ciência #Einstein #Música

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/einstein-e-a-m%C3%BAsica

A Dinâmica da Estupidez

Robert Anton Wilson

A perspectiva evolucionária sugere que as seguintes proposições possam ser verdadeiras, ou possam servir de princípios de trabalho plausíveis, até que compreendamos melhor o nosso cérebro: A estupidez é parcialmente genética e parcialmente adquirida  A porção genética da estupidez está programada em todos nós e consiste no “comportamento mamífero típico”, o que quer dizer: uma boa porção do sistema nervoso humano está numa espécie de “piloto automático”, tal como no sistema nervoso do chimpanzé‚ que se assemelha ao nosso, ou então para com o sistema nervoso mais distantemente relacionado, da vaca.

Os programas de territorialidade, hierarquia no bando e outros, representam estratégias evolucionárias estáveis e, portanto, funcionam de maneira mecânica, sem a interferência do pensamento racional. Esses sucessos evolucionários relativos se tornaram programas genéticos devido ao fato deles funcionarem suficientemente bem para o mamífero ordinário nos assuntos ordinários dos mamíferos. Eles se transformam em estupidez nos seres humanos, onde os centros-corticais superiores foram desenvolvidos como um sistema de monitoração para injetar técnicas de sobrevivência mais sofisticadas, e para corrigirem os programas estereotipados com outros mais flexíveis.

Em resumo, enquanto um ser humano obedecer aos programas genéticos e do bando primata, sem respeitar ou receber qualquer retorno da córtex, aquele humano está agindo como um macaco, e ainda não encontrou meios de utilizar o novo cérebro.

A porção adquirida da estupidez é o resultado da enculturação, que é o processo pelo qual o sistema nervoso humano, flexível, polivalente, sofre um processo de lavagem cerebral para abandonar a sua flexibilidade, e convencido a imitar (mímica comportamentos estereotipados, crenças, valores, etc…, da tribo a qual ele pertence.

O comportamento primata somente se modifica sob o impacto de uma nova tecnologia.

Um bando de chimpanzés irá repetir roboticamente os mesmos comportamentos por milênios ou mais; se alguém os ensinar como usar paus para obteralimento ou então uma linguagem de sinais simples, eles irão imediatamente modificar o seu comportamento sob o “choque” dessa nova tecnologia. As sociedades humanas (por exemplo: China, Bizâncio) podem também permanecer estáticas e repetitivas por longos períodos de tempo, até que novas tecnologias desencadeiem novos comportamentos.

Primatas domesticados (humanos) mudaram mais nos últimos cem anos do que em toda a história anteriormente, debaixo do impacto de uma “acelerada aceleração de tecnologias”. Os irmãos Wright, Edison, Einstein, Ford, etc…, desencadearam mais modificações de comportamentos do que todos os outros revolucionários políticos deste século, sejam da direita ou esquerda.

Dos pontos anteriores segue-se que a forma mais rápida de modificar o comportamento primata‚ é introduzindo uma nova tecnologia, e que a tecnologia‚ é o remédio mais forte que pode ser administrado para curar a estupidez, ou pelo menos no sentido de aliviá-la um pouco.

O comportamento genético se modifica com muito maior velocidade do que o comportamento adquirido quando uma tecnologia nova é introduzida, porque o código genético contém aquilo que Lorenz denomina de “buracos”, ou pontos de vulnerabilidade de Imprint, onde novos imprints (redes de novos circuitosneuro-genéticos) podem ser formados. O choque e a confusão, que são dois subprodutosde uma nova tecnologia, podem disparar este tipo de vulnerabilidade de imprint (vide ‘Exo-ps Cholog’ de Thimothy Leary e ‘How real is real’ de Paul Watzlawick. A inteligência superior é a habilidade de receber integrar e transmitir novos sinais rapidamente. Isto segue a definição de Wiener em ‘Cibernetics’, onde para “viver deforma eficiente temos de viver com a informação adequada”, e também da ‘Teoria Matemática da Comunicação’ de Shannon.

A estupidez é um bloqueio na habilidade de receber, integrar e transmitir novos sinais rapidamente. Programas genéticos, se não forem corrigidos por novos imprints podem gerar este tipo de “cegueira aos sinais de informação”: o comportamento genético‚ mecânico, inconsciente, não é passível de ser corrigido pelos circuitos de retro-alimentação dos centros nervosos superiores. A enculturação (se identificar osmapas de realidade tribais com a realidade) pode também gerar esta cegueira aos sinais: os sinais não consistentes com a mitologia tribal são reprimidos, ignorados,recobertos com projeções ou distorções, até que se amoldem aos mitos locais, ou simplesmente são esquecidos muito rapidamente.

Os primatas domesticados, como os selvagens, desejam principalmente que um MACHO ALFA os liderem. Quanto mais esta figura vier a se aproximar do arquétipo primordial, isto é: o babuíno mais mal encarado e mais temperamental do bando – mais fervorosamente os outros primatas o seguirão. Isto explica a aparentemente inexplicável ascensão ao poder dos tipos evidentemente sub-humanos de Mussolini, Nixon, Stalin, Hitler. A lógica primata é: “se ele é assim tão ruim” no sentido em que a palavra “ruim” significa poderoso como em alguns bairros pobres ou favelas, “ele irá fazer os bandos de primatas competidores fugirem com os rabos entre as pernas.

Depois de encontrarem um macho alfa para liderá-los, os primatas domesticados então buscam um bode expiatório a quem culpar pelos seus problemas. Eles agem desta maneira porque a resolução de problemas exige inteligência, e existe muito mais estupidez do que inteligência neste planeta. Os primatas domesticados não são otimistas no que se refere a resolverem os seus problemas, que lhes parecem insolúveis no seu estado confuso atual, situados como estão entre os reflexos mamíferos e a consciência objetiva. É mais fácil para uma mente estúpida culpar alguém pelos seus problemas.

A função principal do macho alfa num bando de primatas domesticados é a de encontrar denunciar e liderar a perseguição de tais bodes expiatórios, sejam eles internos ou externos.

Para os primatas selvagens, assim como para os outros mamíferos, as emoções funcionam como sinais de emergência, mobilizando a energia para as situações de “ameaça”, ou seja, aquelas que desafiam a territorialidade ou o “status” na hierarquia do bando.

Para os primatas domesticados, as emoções servem tanto para desempenharem as funções acima, como também para as duas novas funções tornadas possíveis pela existência do novo cérebro, e pelas suas capacidades de simbolização. Estas duas novas funções, são:

1. Combater o Tédio;

2. Ganhar Status ou Poder;

Primatas selvagens, assim como os outros mamíferos não possuem defesas contra o tédio. Eles simplesmente vão dormir quando nada estimulante está acontecendo. Isso também funciona como uma estratégia evolucionária interessante na medida em quem impede que o animal se meta em complicações: você se torna muito menos visível a um predador quando está imóvel do que quando em movimento; você tem menor probabilidade de enfiar as suas patas ou focinho num vespeiro, etc. Os primatas domesticados aprendem a imitar os seus parentes, uma habilidade que foi transmitida pelos hominídeos ao longo de milênios, como usar as emoções para fugirem ao tédio.

A única outra maneira de espantar o tédio num complexo primata tal como a humanidade é a de aumentar a consciência e a inteligência. Isto parece não entusiasmar muito o primata ordinário, que prefere inventar jogos emocionais (novelas, grandes espetáculos dramáticos), para manter a vida estimulante. Os escritos de Eric Berne e os dos Analistas Transacionais estão dedicados principalmente ao estudo e catalogação destes jogos emocionais ou “chupetas”.

Entre os primatas domesticados, as emoções também conferem status e poder. Isto quer dizer que a pessoa mais emocional num bando “domina” todas as demais: os outros devem reagir de acordo com as emoções dele ou dela ou então fugir, retirando-se completamente do local.

Quase todas as crianças começam a aprender esses jogos emocionais estereotipados ou “chupetas” de parentes ou irmãos mais velhos, a partir da idade de dois anos. Elas então experimentam com estas táticas de poder (política mamífera), até que tenham aprendido como ganhar vantagens (vitórias simbólicas) pelo método da chantagem emocional. Muito poucas crianças aprendem, dos parentes, professores ou de alguém mais, as técnicas da solução racional dos problemas.

Dos itens 18 e 19 se conclui que neste planeta primitivo a maioria das pessoas irá tentar lidar com os seus problemas de forma simbólica, pelo jogo das emoções, e relativamente poucas pessoas irão saber como resolver os seus problemas de modo racional.

A estupidez sendo parcialmente genética e parcialmente adquirida pela enculturação parcialmente pela imitação de jogos emocionais para a aquisição de status, é altamente contagiosa. O elemento mais estúpido de um grupo inevitavelmente arrasta todos os demais para o seu nível. Tentar discutir com uma pessoa emocional é frustrante porque é inútil; a única maneira de “negociar” com elas, além de escapar da situação, é desafiar o seu jogo emocional com um contra-jogo ainda mais forte. Normalmente este novo jogo é denominado de “culpa”.

Uma vez que o comportamento primata pode ser modificado por nova tecnologia, a única cura para a espécie humana deve ser uma tecnologia que em si mesma aumente a inteligência de maneira imediata e permanente.

Tal tecnologia de aumento da inteligência deve ser hedônica, isto é, deve oferecer um maior prazer aos seus fregueses do que as demais do mercado senão corre o risco de não se espalhar de forma rápida. Quando um tal aparelho de elevação hedônica da inteligência for inventado, os mandantes da sociedade tentarão suprimi-lo, como uma ameaça à estabilidade.

Se um tal aparelho elevador hedônico da inteligência já foi inventado, ele deve ter sido reprimido. Os pesquisadores devem ter sido aprisionados ou intimidados; os seus distribuidores devem ter sido perseguidos com maior vigor do que o seriam assassinos ou ladrões; o próprio aparelho seria denunciado como algo terrível e perigoso em todos os meios de comunicação da massa.

Até que a existência de um aparelho hedônico de aumento da inteligência seja provada deforma totalmente não-ambígua, certas medidas podem ser tomadas para tentarmos minar a estupidez pelo menos um pouco.

A estupidez da biosobrevivência está “imprintada” quase que imediatamente após o nascimento, e é gerada pelo pavor traumático (devido às nossas práticas primitivas de cuidados ao recém-nascido) e assume a forma de uma ansiedade crônica. Esta é epidêmica na nossa sociedade: uma pesquisa feita pelos Serviços de Saúde Pública dos Estados Unidos em 1986 mostrou que 85% da população apresenta algum sintoma de ansiedade crônica, sejam palpitações cardíacas, pesadelos freqüentes ao dormir, tonturas cansaço fácil, etc. Isto geralmente acompanhado por uma depressão crônica. Nas suas formas mais extremas podemos encontrar o autismo ou a catatonia, que são “decisões biopsíquicas ou celulares de que os seres humano são demasiadamente desagradáveis para que valha a pena se relacionar com eles, ou então, podemos encontrar a paranóia, aarte sutil de encontrar inimigos em todos os lugares, principalmente entre os nossos melhores amigos.

A estupidez da biosobrevivência causa tanto stress no organismo e tanta alienação dos demais seres humanos, que ela cria a estupidez em todos os outros circuitos igualmente e portanto, previne o desenvolvimento de um alto nível de inteligência em qualquer circuito.

A estupidez da biosobrevivência pode ser aliviada pela prática de vários tipos de artes marciais (aikidô, karate, kung-fu, etc.), pela prática de “asanas”, a técnica iogue de manutenção postural por longos períodos de tempo todos os dias; pelos “movimentos Gurdjeffianos” ou então por alguma psicoterapia eficiente. A prática do “asana” e as psicoterapias demoram mais tempo para surtirem efeitos, porém podem ser necessárias nos casos mais agudos.

A Estupidez Emocional‚ “imprintada” quando a criança está aprendendo as “políticas familiares” pela primeira vez (jogos de hierarquia mamífera). Tipicamente, a vítima é confrontada com todas as situações problemáticas possíveis de serem resolvidos nas relações inter-pessoais com algum jogo emocional estereotipado, por exemplo: um mau humor prolongado, uma explosão emocional, “depressões”, uma tendência ao alcoolismo ameaças de suicídio, gritos, berros, quebrar coisas na tradicional coreografia de um primata frustrado, e muito mais. Um ou outro desses reflexos emocionais robóticos podem ser reconhecidos em cerca de 99% da população.

A estupidez emocional pode ser aliviada pela respiração iogue, conhecida como “pranayama” ou pelas técnicas de Gurdjieff de estabelecimento de um “Observador” que monitora os reflexos emocionais, isto é: os torna “conscientes” ao invés de “mecânico”. As técnicas de “pranayama” produzem resultados mais rápidos, enquanto que as técnicas Gurjeffianas produzem resultados mais permanentes.

A Estupidez Semântica‚ “imprintada” quando a criança mais velha começa a lidar com palavras e (artefatos abstratos produzidos pelos centros cerebrais superiores depois que a linhagem se separou da espécie dos primatas). A forma mais persistente de estupidez semântica consiste na confusão do mapa de realidade local (tribal) com o todo da Realidade. O Dogmatismo, sistemas ideológicos rígidos e mapas bizarros da realidade(esquizofrenias ideacionais) também abundam. A cegueira simbólica, que vai desde o analfabetismo até ao analfabetismo matemático ou artístico, é também muito comum e frequentemente encontrada naqueles que são extremamente habilidosos em algum campo estreito de símbolos (especialista), por exemplo: o pintor que não sabe sequer o que é uma equação quadrática ou o cientista que não consegue ou não se motiva a ler poesia, etc.

A Estupidez Semântica pode ser aliviada por uma dieta rica em lecitina e proteína, por cursos de atualização e reciclagem em leituras, e no método científico e pela prática da Semântica Geral.

A Estupidez Sócio-sexual‚ imprintada quando o DNA desencadeia a mutação em direção à puberdade. Ela consiste na repetição robótica de um papel sexual estereotipado, geralmente acompanhado por uma firme e profundamente enraizada convicção de que todos os outros demais papéis sexuais são anormais (“loucos” ou”maus) O único alívio para a estupidez sócio- sexual que temos atualmente à disposição são as várias formas de psicoterapia, sendo que as formas de psicoterapia de grupo ou dos Encontros são as mais eficientes.

O alívio ou a cura total destes quatro tipos de estupidez produziria seres humanos que se aproximariam da definição idealística dada por Robert Heinlein no seu “Tempo Suficiente para o Amor”:

“Um ser humano deve ser capaz de trocar uma fralda, de planejar uma invasão esquartejar um porco, projetar um edifício, manobrar um navio, escrever um soneto equilibrar orçamentos, construir um muro, reduzir uma fratura, confortar os agonizantes, cumprir ordens, dar ordens, cooperar, agir sozinho, resolver equações analisar um novo problema, revolver estrume, programar um computador, preparar uma refeição saborosa, lutar eficientemente e morrer galantemente”.

Grosseiramente falando, se você puder desempenhar 14 dos 21 programas de Heinlein você liberou 2/3 da sua inteligência potencial e, portanto é 2/3 de um ser humano. Se você pode apenas lidar com sete delas, você é apenas 1/3 do ser humano. Resultados acima de14 significam que você provalvemente é um gênio e certamente sabe disso, enquanto que resultados abaixo de 7 significam que você provavelmente é um imbecil e que certamente não sabe disso (isto é, que você está convencido de que não é um imbecil, que o mundo na realidade é um lugar terrível para se viver e a sua inabilidade em lidar com a realidade é fruto mais da malignidade do mundo do que devido … sua própria estupidez

Uma forma rápida de testar a inteligência, e que também indica a trajetória do seu desenvolvimento, é “Se o mundo lhe parece estar cada vez maior e mais divertido a cada momento que passa, então o seu quociente de inteligência está aumentando sistematicamente”se o mundo lhe parece estar cada vez menor e cada vez mais ameaçador, a sua estupidez está aumentando sistematicamente.

Lembre-se do provérbio Sufi “Existe Conforto Na Estupidez”.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-dinamica-da-estupidez/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-dinamica-da-estupidez/

O Simbolismo Alquímico do Fogo: As Cinzas do Rei

Come on baby, light my fire

– The Doors

Quimicamente a operação da calcinação é referente ao aquecimento intenso de um sólido, com a intensão de remover a água e outros elementos ‘impuros’. Podemos entender, portanto, que é uma operação psíquica que visa a eliminação das impurezas da personalidade através da força espiritual do fogo simbólico. Vamos realizar alguns paralelos simbólicos desta operação, analisando alguns textos e pranchas alquímicas. Vamos começar com uma receita da calcinato encontrada em “the Twelve Keys” de Basil Valentine, alquimista alemão do Séc. XV:

“Toma um feroz lobo cinzento, que… é encontrado nos e nas montanhas do mundo, nos quais uiva, quase selvagem, de fome. Dá-lhe o corpo do rei e, quando ele tiver devorado, queima-o totalmente, até torna-lo cinzas, numa grande fogueira. Por este processo, o rei será libertado; e quando isso tiver sido realizado por três vezes, o leão terá suplantado (superado) o lobo e nada encontrará nele para devorar. E assim nosso corpo terá se tornado apropriado para o primeiro estágio do nosso trabalho”

Calcinato do rei. O lobo como prima materia, devorando o rei. Maier, Atalanta Fugens (1618)
Lembrando que para os alquimistas, a realidade externa (processos químicos) é análoga a realidade interna (processos psíquicos). Então para interpretar esta passagem devemos considerar que ela também retrata um processo químico. O elemento antimônio é conhecido como o ‘lobo dos metais’ e é utilizado na purificação de ouro fundido, já que ele se une, ou ‘devora’, todos os metais com exceção do ouro: remove-lhe as impurezas.

“O antimônio também é conhecido como “balneum regis” ou “o banho do rei”. Esta passagem seria a uma referência a tal operação química, que para ser executada deveria ser realizada três vezes. No entanto, como já sabemos, há muito conteúdo psíquico projetado nesta simbologia” (EDINGER, p.38)

Quando o texto fala sobre o corpo do rei, presume-se que este já esteja morto, logo, já passou pelo processo da mortificatio. Todo simbolismo de morte na alquimia geralmente indica a morte do ego, a abdicação da condição original e a entrega para um força superior, o Self. Podemos entender a morte do rei com ‘um tempo de crise e transição’, que psicologicamente representa a morte do princípio egoico que rege a consciência. Sobre a substância a ser calcinada ou ‘o lobo voraz’, Edinger conlui:

” […] a calcinato é efetuada no lado primitivo da sombra, que acolhe o desejo faminto e instintivo e é contaminado pelo inconsciente. O fogo para o processo vem da frustração desses mesmos desejos instintivos. Uma tal provação de desejo frustrado é um aspecto característico do processo de desenvolvimento”. (EDINGER, p.42)

O número três representa, entre outras coisas, a consumação temporal. Por exemplo, repetir algo três vezes para dar certo, dar ‘três pulinhos’ para São Longuinho ou falar três vezes Beetlejuice (ou noiva do banheiro!). O rei serve de alimento para o lobo, ou seja, o desejo faminto, animal, primitivo. Mas em seguida o lobo alimenta o fogo, que também é desejo, mas de esferas superiores, o fogo da consciência, do espírito. Podemos entender que o desejo consome a si mesmo, “depois de uma descida ao inferno, o ego (rei) renasce, à feição da fênix, num estado ´purificado” (EDINGER, p.39)

Vemos que existem diversos nomes e simbolismos para a substância que deve ser calcinada, mas todas representam simbolicamente a mesma coisa: a vontade superior deve transmutar e ampliar a consciência do ego. Voltamos a receita de Valantine: Dá-lhe o corpo do rei e, quando ele tiver devorado, queima-o totalmente, até torna-lo cinzas. A fênix se mostra, portanto, um símbolo pertinente da nova consciência que renasce após ser inflamada pela consciência do espírito, por isso, as cinzas são, também, um símbolo da purificação.

E parece que Jorge Vercílio manja dos paranauês, em sua música Fênix, encontramos o seguinte:

Agoniza virgem Fênix
O amor!
Entre cinzas arco-íris
Esplendor!
Por viver às juras
De satisfazer o ego mortal…

Coisa pequenina
Centelha divina
Renasceu das cinzas
Onde foi ruína
Pássaro ferido
Hoje é paraíso…

Luz da minha vida
Pedra de alquimia
Tudo o que eu queria
Renascer das cinzas…

Imagens:

Calcinato do rei. O lobo como prima materia, devorando o rei. Maier, Atalanta Fugens (1618)
Imagem encontrada na internet
Imagem encontrada na internet

Referências Bibliográficas:

EDINGER. Edward. Anatomia da Psique. SP: Cultrix, 1990.

#Alquimia #Psicologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-simbolismo-alqu%C3%ADmico-do-fogo-as-cinzas-do-rei

Os Gêmeos

Quando conheci os gêmeos, John e Michael, em 1966, em um hospital psiquiátrico, eles já eram célebres. Haviam se apresentado no rádio e na televisão e haviam sido tema de minuciosos informes científicos e populares. Eu desconfiava que eles tinham inclusive penetrado na ficção científica, um tanto ”ficcionalizados” mas essencialmente conforme haviam sido retratados nas descrições publicadas.

 

Os gêmeos, que na época estavam com 26 anos, viviam em asilos desde os sete anos de idade, sob diagnósticos variados, como autistas, psicóticos ou gravemente retardados. A maioria dos informes concluía que, em se tratando de ”idiotas sábios”, nada havia de ”muito especial” neles — exceto por sua notável memória ”documental” para os mínimos detalhes de sua própria experiência e seu uso de um algoritmo inconsciente de calendário que lhes permitia dizer de imediato em que dia da semana cairia uma data no futuro ou passado distante. Essa é a opinião de Steven Smith em seu livro abrangente e imaginativo, The great mental calculators (1983). Pelo que eu saiba, não houve outros estudos sobre os gêmeos depois de meados dos anos 60, sendo o breve interesse que despertaram dissipado pela aparente ”solução” dos problemas que apresentavam.

 

Mas isso, a meu ver, é um equívoco, talvez natural considerando a abordagem estereotipada, o formato fixo das questões, a concentração em uma ou outra ”tarefa” presentes nas primeiras investigações sobre os gêmeos, que os reduziam — sua psicologia, seus métodos, sua vida — a quase nada.

 

A realidade é muito mais estranha, muito mais complexa, muito menos explicável do que sugere qualquer um desses estudos, porém é impossível até mesmo vislumbrá-la por meio de ”testes” formais dinâmicos ou pela usual entrevista dos gêmeos no estilo 60 Minutes.

 

Não que qualquer um desses estudos, ou apresentações na tevê, esteja ”errado”. Eles são muito aceitáveis, com freqüência informativos, no que se propõem a fazer, porém restringem-se à ”superfície” óbvia e passível de ser testada, não se aprofundando — e nem mesmo dando a entender, ou talvez supondo, que existe algo além.

 

De fato, não obtemos indício algum de haver algo mais profundo, a menos que deixemos de testar os gêmeos, de considerá-los “sujeitos de experiência”. É preciso pôr de lado o impulso de limitar e testar e gradualmente travar conhecimento com os gêmeos — observá-los, abertamente, com serenidade, sem pressuposições, porém com uma total e compreensiva receptividade fenomenológica, enquanto eles vivem, pensam e interagem tranqüilamente, tratando da própria vida, com espontaneidade, em sua maneira singular. Descobrimos então que existe algo extraordinariamente misterioso em ação, poderes e intensidades de um tipo talvez fundamental, os quais não fui capaz de ”desvendar” ao longo desses dezoito anos em que os conheço.

 

De fato, eles nada têm de extraordinário à primeira vista — são uma espécie de Tweedledum e Tweedledee (os gêmeos de Alice no país das maravilhas), grotescos, impossíveis de distinguir, reflexos no espelho, idênticos no rosto, nos movimentos corporais, na personalidade, na mente, idênticos também em seu estigma de dano cerebral e tecidual. Têm estatura muito baixa, cabeça e mãos tremendamente desproporcionais, palato e pés muito arqueados, voz esganiçada e monótona, uma profusão de tiques e maneirismos muito peculiares e uma fortíssima miopia degenerativa, requerendo óculos tão grossos que faz seus olhos parecerem distorcidos e lhes dá a aparência de absurdos professorzinhos, examinando de perto e apontando, com uma concentração mal dirigida, obsessiva e absurda. E essa impressão é fortalecida assim que os questionamos — ou lhes permitimos começar espontaneamente, o que tendem a fazer, como marionetes de pantomima, uma de suas ”rotinas”.

 

Esse é o quadro que tem sido apresentado nos artigos publicados e no palco—eles tendem a ser ”apresentados” no show anual do hospital em que trabalho — e em suas não raras, e muito embaraçosas, aparições na tevê.

 

Os ”fatos”, nessas circunstâncias, são demonstrados até se tornarem monótonos. Os gêmeos pedem: ”Digam-nos uma data — qualquer data nos últimos ou próximos 40 mil anos”. Uma data é mencionada e, quase instantaneamente, eles informam em que dia da semana ela cairá. ”Outra data!”, bradam eles, e a proeza se repete. Eles também dizem a data da Páscoa durante o mesmo período de 80 mil anos. Podemos observar, embora isso não seja normalmente mencionado nos relatórios, que seus olhos movem-se e se fixam de maneira singular quando se dedicam a essa operação — como se estivessem desenrolando, ou examinando minuciosamente, uma paisagem interior, um calendário mental. Parecem estar ”vendo”, visualizando intensamente, apesar de ter sido concluído que se tratava de puro cálculo.

 

Sua memória para algarismos é notável — e possivelmente ilimitada. Eles repetem um número de três dígitos, de trinta dígitos, de trezentos dígitos com a mesma facilidade. Também isso foi atribuído a um ”método”.

 

Mas quando alguém testa sua habilidade para calcular—a típica especialidade de prodígios em aritmética e ”calculadores mentais” — seus resultados são espantosamente ruins, tão ruins quanto seu QI de sessenta nos faria imaginar. Eles são incapazes de fazer corretamente adições ou subtrações simples, e nem sequer conseguem compreender o que significa multiplicação ou divisão. O que é isto: ”calculadores” que não sabem calcular e não têm nem mesmo as mais rudimentares habilidades aritméticas?

 

E, no entanto eles são chamados de ”calculadores de calendário” — e tem sido inferido ou aceito, praticamente sem fundamentos, que não se trata absolutamente da memória em ação, mas do uso de um algoritmo inconsciente para cálculos de calendário. Quando lembramos que até Carl Friedrich Gauss, ao mesmo tempo um dos maiores matemáticos e peritos em cálculo, teve enorme dificuldade para descobrir um algoritmo para a data da Páscoa, torna-se impossível acreditar que esses gêmeos, incapazes até mesmo dos mais simples métodos aritméticos, poderiam ter inferido, descoberto e empregado um algoritmo desses. E verdade que muitos ”calculadores” possuem um repertório mais amplo de métodos e algoritmos que descobriram para uso próprio, e talvez isso tenha predisposto W. A. Horwitz et al. a concluir que isso valia também para os gêmeos. Steven Smith, interpretando ao pé da letra esses estudos iniciais, comentou:

 

Algo misterioso, embora banal, está em ação aqui — a misteriosa habilidade humana para formar algoritmos inconscientes com base em exemplos.

 

Se isso fosse tudo, eles de fato poderiam ser vistos como banais, e não como um mistério — pois o cálculo de algoritmos, que uma máquina pode fazer com precisão, é essencialmente mecânico e pertence à esfera dos ”problemas”, mas não dos ”mistérios”.

 

Contudo, mesmo em algumas das ”apresentações” dos gêmeos, em seus ”truques” há uma qualidade que espanta. Eles são capazes de dizer como estava o tempo e quais foram os eventos de qualquer dia de suas vidas — qualquer dia a partir de seus quatro anos de idade. Sua maneira de falar — bem descrita por Robert Silverberg em seu retrato do personagem Melangio — é ao mesmo tempo infantil, detalhada e desprovida de emoção. Ao lhes ser dita uma data, eles reviram os olhos por um momento, depois os fixam, e com uma voz apática e monótona informam o tempo, enunciam superficialmente os eventos políticos de que ouviram falar e os eventos de suas próprias vidas — estes últimos incluindo, com freqüência, as dolorosas e comoventes angústias da infância, o desprezo, a zombaria, as mortificações que sofreram, mas tudo recitado em um tom uniforme, invariável, sem o menor indício de inflexão pessoal ou emoção. Aqui, claramente, trata-se de lembranças que parecem ser de um tipo ”documental”, nas quais não existem referências pessoais, relações pessoais, absolutamente nenhum centro vivo.

 

Poderíamos afirmar que o envolvimento pessoal, a emoção, foram apagados dessas lembranças, no modo defensivo que podemos observar em tipos obsessivos ou esquizóides (e os gêmeos sem dúvida devem ser considerados obsessivos e esquizóides). Mas poderíamos afirmar, igualmente, e na verdade com mais plausibilidade, que lembranças desse tipo nunca tiveram um caráter pessoal, pois isso é, de fato, uma característica fundamental de uma memória eidética como a deles.

 

Mas o que precisa ser ressaltado — e que é insuficientemente salientado por quem os estudou, embora perfeitamente óbvio para um ouvinte ingênuo disposto a se maravilhar — é a magnitude da memória dos gêmeos, sua extensão aparentemente ilimitada (ainda que infantil e banal) e, com ela, o modo como as lembranças são recuperadas. E se lhes perguntamos como é que conseguem reter tanto na mente — um número com trezentos dígitos ou os trilhões de eventos de quatro décadas—eles dizem, simplesmente: ”Nós vemos tudo isso”. E ”ver” — ”visualizar” — com extraordinária intensidade, alcance ilimitado e perfeita fidelidade, parece ser a chave de tudo. Parece ser uma capacidade fisiológica inata de suas mentes, de um modo que guarda certas analogias com a maneira como o famoso paciente de A. R. Luria, descrito em The mindofa mnemonist, ”via”, embora talvez aos gêmeos falte a rica sinestesia e organização consciente das lembranças do mnemonista. Mas não resta dúvida, pelo menos a meu ver, de que os gêmeos têm à sua disposição um prodigioso panorama, uma espécie de paisagem ou fisionomia, de tudo o que já ouviram, viram, pensaram ou fizeram, e que, num piscar de olhos, externamente óbvio quando eles os reviram brevemente e depois os fixam, eles são capazes (com os ”olhos da mente”) de recuperar e ”ver” quase qualquer coisa que esteja nessa vasta paisagem.

 

Tais poderes de memória são raríssimos, porém não únicos. Pouco ou nada sabemos das razões por que os gêmeos ou qualquer outra pessoa os têm. Haverá, então, alguma coisa nos gêmeos que seja de um interesse mais profundo, como vim insinuando? Acredito que sim.

 

Conta-se que sir Herbert Oakley, o professor oitocentista de música em Edimburgo, ao ser levado a uma fazenda e ouvir um porco guinchar, bradou no mesmo instante: ”Sol sustenido!”. Alguém correu para o piano, e era sol sustenido mesmo. Minha primeira impressão das capacidades ”naturais” e do modo ”natural” dos gêmeos veio de maneira semelhante, espontânea e (não pude deixar de sentir) bastante cômica.

 

Uma caixa de fósforos que estava em cima da mesa caiu e o conteúdo espalhou-se no chão: ”111”, gritaram os gêmeos simultaneamente; a seguir, John disse baixinho: ”37”. Michael repetiu esse número, John disse-o pela terceira vez e parou. Contei os fósforos — demorei um pouco — e havia 111.

 

”Como conseguiram contar os fósforos tão depressa?”, perguntei. ”Não contamos”, eles responderam. ”Nós vimos os 111”.

 

Histórias semelhantes contam-se a respeito de Zacharias Dase, o prodígio dos números, que declarava instantaneamente ”183” ou ”79” quando se derramava um punhado de ervilhas e indicava do melhor modo possível — ele também era deficiente mental — que não tinha contado as ervilhas, mas apenas ”visto” o número delas, num todo, de relance.

 

”E por que vocês murmuraram ’37’ e repetiram isso três vezes?”, perguntei aos gêmeos. Eles responderam em uníssono ”37,37,37,111”.

 

E isso eu achei ainda mais intrigante, se possível. O fato de eles verem 111 — a ”condição de 111” — em um lampejo era extraordinário, mas talvez não mais extraordinário que o ”sol sustenido” de Oakley — uma espécie de ”tom absoluto” para números, por assim dizer. Mas eles em seguida ”fatoraram” o número 111 — sem contar com nenhum método, sem mesmo ”conhecer” (da maneira usual) o que significavam fatores. Pois eu já não observara que eles eram incapazes de fazer os mais simples cálculos e não ”entendiam” (ou não pareciam entender) o que era multiplicação ou divisão? E no entanto, ali, espontaneamente, eles haviam dividido um número composto em três partes iguais.

 

”Como foi que vocês calcularam isso?”, perguntei, ardendo de curiosidade. Eles indicaram, do melhor modo que puderam, em termos pobres, insuficientes — mas talvez não haja palavras que correspondam a coisas assim — que não tinham ”calculado”, apenas ”visto” aquilo, num lampejo. John fez um gesto com dois dedos esticados e o polegar, o que parecia sugerir que eles haviam espontaneamente dividido o número em três partes ou que o número ”dividira-se” por conta própria nessas três partes iguais, por uma espécie de ”fissão” numérica espontânea. Eles pareciam surpresos diante de minha surpresa — como se eu fosse cego de alguma forma; e o gesto de John transmitiu um extraordinário senso de realidade imediata, sentida. Será possível, pensei comigo, que eles possam de algum modo ”ver” as propriedades, não da maneira conceitual, abstrata, mas como qualidades sentidas, sensíveis, de algum modo imediato, concreto? E não simplesmente qualidades isoladas — como a ”qualidade de 111” — mas qualidades de relações? Talvez mais ou menos do mesmo modo como sir Herbert Oakley teria dito ”uma terça” ou ”uma quinta”

 

Eu já chegara à idéia, com base na ”visão” de eventos e datas pelos gêmeos, de que eles podiam reter na mente, que haviam retido, uma imensa tapeçaria mnemónica, uma vasta (ou possivelmente infinita) paisagem na qual tudo podia ser visto, isoladamente ou em relação. Era o isolamento, em vez de um senso de relação, que era primordialmente exibido quando eles despejavam seu implacável ”documentário” desordenado. Mas não poderiam esses prodigiosos poderes de visualização — poderes essencialmente concretos e muito distintos da capacidade de conceituar — dar-lhes o potencial de ver relações, relações formais, relações de forma, arbitrárias ou significativas? Se eles podiam ”ver” a ”qualidade de 111” em um lampejo (se podiam ver toda uma ”constelação” de números), não poderiam também ”ver”, num lampejo—ver, reconhecer, relacionar e comparar, de um modo inteiramente sensitivo e não intelectual —, formações e constelações de números enormemente complexas? Uma habilidade ridícula, até mesmo incapacitante Pensei no ”Funes” de Borges

 

Nós, de relance, podemos perceber três copos em uma mesa, Funes, todas as folhas, gavinhas e frutos que compõem uma videira [ ] Um circulo desenhado no quadro-negro, um ângulo reto, um losango — todas estas são formas que podemos entender intuitivamente e por completo, Ireneo podia fazer o mesmo com a emaranhada erma de um pônei, com uma manada de gado na colma [ ] não sei quantas estrelas ele era capaz de enxergar no céu

 

Poderiam os gêmeos, que pareciam ter uma singular paixão pelos números e ”domínio” dos mesmos — poderiam eles, que tinham visto a ”qualidade de 111” num relance, talvez ver em suas mentes uma ”videira” numérica, com todas as folhas-números, gavinhas-números, frutas-números que a compunham? Uma idéia estranha, talvez absurda, quase impossível — mas o que eles já me haviam mostrado era tão estranho que quase não se prestava à compreensão E, pelo que eu soubesse, aquilo era tão-somente um indicio mínimo do que eles podiam fazer

 

Refleti sobre o assunto, mas ele quase não permitia reflexão. Depois, deixei-o de lado. Esqueci-o até que deparei, totalmente por acaso, com uma segunda cena espontânea, uma cena mágica.

 

Nessa segunda vez, eles estavam sentados juntos em um canto, com um sorriso misterioso, secreto, um sorriso que eu nunca tinha visto antes, desfrutando o estranho prazer e paz que agora pareciam ter. Furtivamente, para não os perturbar, eu me aproximei. Pareciam absortos em uma conversa singular, puramente numérica. John dizia um número — um número de seis dígitos. Michael ouvia, assentia com a cabeça, sorria e parecia saborear o número. Em seguida, ele próprio dizia um número de seis dígitos, e dessa vez era John quem o recebia e apreciava com prazer. À primeira vista, lembravam dois connoisseurs provando vinho, compartilhando gostos raros, raras apreciações. Sentei-me quieto, sem que eles me vissem, hipnotizado, perplexo.

 

O que eles estavam fazendo? Que diabos estava acontecendo? Eu não conseguia entender. Talvez se tratasse de algum tipo de jogo, mas tinha uma gravidade e intensidade, uma espécie de intensidade serena, meditativa e quase sagrada, que eu nunca vira em nenhum jogo comum e que certamente nunca vira antes nos gêmeos, normalmente tão agitados e distraídos. Contentei-me com anotar os números que eles diziam — números que manifestamente lhes proporcionavam tanto prazer e que eles ”contemplavam”, saboreavam, compartilhavam em comunhão.

 

Teriam aqueles números algum significado, perguntei-me a caminho de casa, teriam algum sentido ”real” ou universal, ou (se é que tinham algum) apenas um sentido estapafúrdio ou particular, como as ”línguas” secretas e tolas que irmãos e irmãs às vezes inventam para si mesmos? E, dirigindo na volta para casa, pensei nas gêmeas de Luria — Liosha e Yura, gêmeas idênticas com dano no cérebro e na fala—e em como elas brincavam e tagarelavam entre si em uma língua própria, primitiva, balbuciante (Luria e Yudovich, 1959). John e Michael nem sequer estavam usando palavras ou meias palavras — simplesmente jogavam números um para o outro. Seriam números ”borgenses” ou ”funesianos”, meras videiras numéricas, crinas de pônei ou constelações, formas numéricas privadas — uma espécie de jargão numérica, conhecida apenas pelos gêmeos?

 

Assim que cheguei, fui buscar tabelas de potências, fatores, logaritmos e números primos—lembranças e relíquias de um período singular e isolado de minha infância, quando eu também fora uma espécie de ruminante de números, um ”vidente” de números, nutrindo por estes uma paixão peculiar. Eu já tinha um palpite — e então o confirmei. Todos os números, os números de seis dígitos que os gêmeos tinham compartilhado, eram primos — ou seja, números que só podem ser divididos em partes iguais por eles mesmos ou por um. Teriam os gêmeos, de algum modo, visto ou possuído algum livro como o meu — ou estariam, de algum modo inimaginável, ”vendo” números primos, mais ou menos da mesma forma que tinham ”visto” a qualidade de 111 ou a triplicidade de 37? Sem dúvida não poderiam tê-los calculado — não eram capazes de fazer cálculo algum.

 

Voltei à enfermaria no dia seguinte, levando comigo o precioso livro dos números primos. Novamente os encontrei encerrados em sua comunhão numérica, mas dessa vez, sem nada dizer, juntei-me a eles de mansinho. De início ficaram surpresos, mas, vendo que eu não os interrompia, retomaram seu ”jogo” de números primos de seis dígitos. Após alguns minutos, decidi tomar parte e arrisquei dizer um número, um número primo de oito dígitos. Ambos se voltaram para mim, e subitamente ficaram quietos, com uma expressão de concentração intensa e talvez espanto. Houve uma longa pausa—a mais longa que eu já os vira fazer, deve ter durado meio minuto ou mais — e então, de súbito, simultaneamente, os dois abriram um sorriso.

 

Depois de algum inimaginável processo de teste, eles de repente haviam visto meu número de oito dígitos como um número primo — e isso manifestamente era para eles um grande prazer, um duplo prazer; primeiro, porque eu introduzira um delicioso brinquedo novo, um número primo de uma ordem que eles nunca haviam encontrado antes, e segundo porque era evidente que eu tinha visto o que eles estavam fazendo, que tinha gostado, que admirava e era capaz de participar também.

 

Os dois se afastaram ligeiramente um do outro, dando lugar para mim, um novo colega de brincadeiras numéricas, um terceiro em seu mundo. Em seguida, John, que sempre saía na frente, pensou por um tempo muito longo — deve ter sido pelo menos cinco minutos, embora eu não ousasse me mexer e mal respirasse — e enunciou um número de nove dígitos; depois de um tempo semelhante, seu irmão gêmeo, Michael, respondeu com um número do mesmo tipo.

 

E então, eu, na minha vez, depois de olhar furtivamente o livro, acrescentei minha própria e desonesta contribuição, um número primo de dez dígitos.

 

Fez-se novamente, e por um tempo ainda mais longo, um silêncio repleto de fascinação e quietude; em seguida, John, depois de uma prodigiosa contemplação interna, saiu-se com um número de doze dígitos. Esse eu não tinha como verificar, e assim não pude responder à altura, pois meu livro — que, pelo que eu sabia, era o único de seu gênero — não ia além dos números primos de dez dígitos. Mas Michael mostrou-se apto para o desafio, embora demorasse cinco minutos — e uma hora mais tarde os gêmeos estavam trocando números primos de vinte dígitos, ou pelo menos supus que fosse isso, pois não havia meio de comprovar. Também não existia uma maneira fácil, em 1966, sem ter à disposição um computador sofisticado. E, mesmo então, teria sido difícil, pois quer usemos o crivo de Erastótenes ou qualquer outro algoritmo, não existe um método simples de calcular números primos. Não existe um método simples para os números primos dessa ordem — e, no entanto os gêmeos os estavam descobrindo. (Ver, porém, o pós-escrito.)

 

Novamente pensei em Dase, sobre quem eu tinha lido anos antes, no fascinante livro Human personality, de F. W. H. Myers (l 903).

 

Sabemos que Dase (talvez o mais bem-sucedido desses prodígios) era singularmente desprovido de compreensão matemática […] Apesar disso, em doze anos ele produziu tabelas de fatores e números primos para o sétimo e quase todo o oitavo milhão — uma tarefa que poucos homens poderiam ter realizado, sem auxílio mecânico, ao longo de todo um período normal de vida.

 

Portanto, concluiu Myers, ele pode ser considerado o único homem a ter prestado um valioso serviço à matemática sem ser capaz de entender os conceitos matemáticos mais simples.

 

O que Myers não esclarece, e que talvez não estivesse claro, era se Dase possuía algum método para produzir as tabelas ou se, como sugerido por seus simples experimentos de ”ver números”, ele de algum modo ”via” aqueles grandes números primos, como aparentemente os gêmeos viam.

 

Observando-os discretamente — isso era fácil de fazer, pois eu tinha uma sala na enfermaria onde os gêmeos estavam alojados —, vi-os em inúmeros outros tipos de jogos numéricos ou comunhão numérica, cuja natureza não pude apurar ou mesmo supor.

 

Mas parece provável, ou certo, que eles estejam lidando com propriedades ou qualidades ”reais” — pois o arbitrário, como os números aleatórios, não lhes dá prazer, ou lhes dá muito pouco. Está claro que eles precisam ter ”sentido” em seus números — do mesmo modo, talvez, como um músico precisa ter harmonia. De fato, eu me surpreendi comparando-os a músicos — ou a Martin, também retardado, que encontrava na serena e magnífica arquitetônica de Bach uma manifestação sensível da suprema harmonia e ordem do inundo, inacessível para ele conceitualmente devido às suas limitações intelectuais.

 

”Todo aquele que é composto harmonicamente”, escreve sir Thomas Browne, ”deleita-se com a harmonia [ ] e uma profunda contemplação do primeiro compositor. Há nela algo da divindade mais do que descobre o ouvido, é uma hieroglífica e obscurecida lição sobre todo o mundo [ ] uma pequenina seção da harmonia que soa intelectualmente nos ouvidos de Deus […] A alma […] é harmônica e tem sua afinidade mais estreita com a música ”

 

Richard Wollheim, em The thread ofhfe (1984), faz uma distinção absoluta entre cálculos e o que ele denomina estados mentais ”icônicos”, e antevê uma possível objeção a tal distinção

 

Alguém poderia contestar o fato de que todos os cálculos são não icônicos alegando que, quando a pessoa calcula, as vezes o faz visualizando o calculo em uma pagina. Mas isso não constitui um contra exemplo. Pois o que esta representado em tais casos não é o cálculo em si, mas uma representação do mesmo, os números e que são calculados, mas o que se visualiza são os numerais, que representam números

 

Leibmz, por outro lado, apresentou uma instigante analogia entre números e música ”O prazer que obtemos da música vem de contar, mas contar inconscientemente A música nada mais é do que aritmética inconsciente”

 

Até onde podemos apurar, qual é a situação dos gêmeos, e talvez de outros? O compositor Ernst Toch — contou-me seu neto, Lawrence Weschler — conseguia prontamente reter na memória, depois de ouvir uma única vez, uma série muito longa de números, mas fazia isso ”convertendo” a série de números em uma melodia (que ele próprio criava, ”correspondendo” aos números). Jedediah Buxton, calculador dos menos elegantes, mas dos mais tenazes de todos os tempos, que tinha uma grande, até mesmo patológica, paixão por cálculos e cômputos (ele ficava, em suas próprias palavras, ”bêbado de contar”), ”convertia” música e drama em números. Segundo um relato contemporâneo sobre ele, escrito em 1754: ”Durante a dança, ele fixava a atenção no número de passos; depois de um belo trecho musical, declarava que os inúmeros sons produzidos pela música o haviam deixado imensamente perplexo, e ia até mesmo assistir às peças do sr. Garrick só para contar as palavras que este proferia, no que afirmava ter pleno êxito”.

 

Eis um belo, ainda que extremo, par de exemplos — o músico que transforma números em música e o perito em contar que transforma a música em números. Fica-se com a impressão de que é impossível encontrar tipos de mentes mais opostos ou, pelo menos, estilos mentais mais opostos.

 

A meu ver, os gêmeos, que têm uma ”sensibilidade” extraordinária para números, sem serem capazes de calcular coisa alguma, têm nesse aspecto uma afinidade não com Buxton, mas com Toch. Exceto — e isto nós, pessoas comuns, achamos dificílimo imaginar — pelo fato de que eles não ”convertem” números em música, mas realmente sentem os números, em si mesmos, como ”formas”, como ”tons”, como as numerosíssimas formas que compõem a própria natureza. Eles não são calculadores, e sua habilidade numérica é ”icônica”. Eles convocam, habitam estranhos cenários numéricos; perambulam livremente por vastas paisagens de números, criam dramaturgicamente todo um mundo feito de números. Eles têm, creio, uma imaginação extremamente singular — da qual a singularidade maior é o fato de que ela só pode imaginar números. Não parecem ”operar” com números, de um modo ”não icônico”, como um calculador; eles os ”vêem”, diretamente, como um vasto cenário natural.

 

E se nos perguntarmos ”existem analogias, pelo menos, com uma iconicidade assim?”, nós as descobriremos, acredito, em certas mentes científicas. Dmitri Mendeleev, por exemplo, carregou consigo, escritas em cartões, as propriedades numéricas dos elementos até que elas se tornaram totalmente ”familiares” para ele — tão familiares que ele não mais pensava nelas como agregados de propriedades, mas (segundo ele próprio afirmou) ”como rostos conhecidos”. Ele passou a ver os elementos, iconicamente, fisionomicamente, como ”rostos” — rostos que se relacionavam, como membros de uma família, e que compunham, in totó, periodicamente organizados, todo o rosto formal do universo. Uma mente científica assim é essencialmente ”icônica” e ”vê” toda a natureza como rostos e cenas, talvez também como música. Essa ”visão”, essa visão interna, envolta pelo fenomênico, tem ainda assim uma relação integral como físico, e devolvê-la do psíquico para o físico constitui o trabalho secundário, ou externo, dessa ciência. (”O filósofo procura ouvir dentro de si os ecos da sinfonia do mundo”, escreveu Nietzsche, ”e volta a projetá-los na forma de conceitos.”) Os gêmeos, embora deficientes mentais, ouvem a sinfonia do mundo, imagino, mas a ouvem inteiramente em forma numérica.

 

A alma é ”harmônica” seja qual for o Qi da pessoa, e para alguns, como os cientistas físicos e os matemáticos, o senso de harmonia, talvez, é primordialmente intelectual. No entanto, não consigo pensar em algo intelectual que não seja, de algum modo, também sensível — de fato, a própria palavra ”senso” tem sempre essa dupla conotação. Sensível e, de certo modo, também ”pessoal”, pois é impossível alguém sentir alguma coisa, julgar uma coisa ”sensível” sem que ela seja, de algum modo, relacionada ou passível de relacionar-se com a pessoa. Assim, a imponente arquitetônica de Bach proporciona, como fazia para Martin A., ”uma hieroglífica e obscurecida lição sobre todo o mundo”, mas ela também é, reconhecível, única e afetuosamente Bach; e isso também era sentido, comoventemente, por Martin A., e por ele relacionado ao amor que sentia pelo pai.

 

Os gêmeos, a meu ver, não possuem apenas uma estranha ”faculdade” — mas uma sensibilidade, uma sensibilidade harmônica, talvez afim à musical. Poderíamos chamá-la, com muita propriedade, de sensibilidade ”pitagórica” — e o singular não é sua existência, mas sua evidente raridade. A alma da pessoa é ”harmônica” seja qual for o seu QI, e talvez a necessidade de encontrar ou sentir alguma harmonia ou ordem suprema seja um universal da mente, independentemente das capacidades desta ou da forma que ela assuma. A matemática sempre foi considerada a ”rainha das ciências”, e os matemáticos sempre viram o número como o grande mistério e o mundo como sendo organizado, misteriosamente, pelo poder do número. Isso é expresso com primor no prólogo à autobiografia de Bertrand Russell:

 

Com igual paixão tenho buscado o conhecimento. Desejo compreender o coração dos homens. Desejo saber por que as estrelas brilham. E tento entender o poder pitagóríco pelo qual os números têm influência sobre o fluxo.

 

É estranho comparar esses gêmeos deficientes mentais a um intelecto, um espírito como o de Bertrand Russell. E, no entanto, em minha opinião, não é tão absurdo. Os gêmeos vivem exclusivamente em um mundo de pensamentos numéricos. Não têm interesse pelas estrelas que brilham nem pelos corações dos homens. Mas acredito que para eles os números não são ”apenas” números, mas significâncias, significantes cujo ”significando” é o mundo.

 

Eles não lidam com os números levianamente, como faz a maioria dos calculadores. Não estão interessados em cálculos, não têm capacidade para os mesmos e não são capazes de compreendê-los. São, antes, serenos contempladores do número — e lidam com os números com um senso de reverência e pasmo. Os números, para eles, são sagrados, repletos de significação. Essa é a sua maneira — como a música é a maneira de Martin — de entender o primeiro compositor.

 

Mas os números não são apenas impressionantes para eles, são também amigos — talvez os únicos amigos que eles já tiveram em sua vida isolada de autistas. Esse é um sentimento muito comum nas pessoas que têm um dom para os números — e Steven Smith, embora considerasse o ”método” o mais importante, fornece muitos exemplos fascinantes disso: George Parker Bidder, que escreveu sobre sua primeira infância numérica: ”Adquiri total familiaridade com os números até cem; eles se tornaram, por assim dizer, meus amigos, e eu conhecia todos os parentes e conhecidos”; ou o contemporâneo Shyam Marathe, da índia: ”Quando digo que os números são meus amigos, quero dizer que em alguma época passada lidei com aquele número específico de várias maneiras e, em muitas ocasiões, descobri novas e fascinantes qualidades nele ocultas […] Assim, se em um cálculo deparo com um número conhecido, imediatamente o vejo como um amigo”.

 

Hermann von Helmholtz, discorrendo sobre a percepção musical, afirma que, embora tons compostos possam ser analisados e divididos em seus componentes, eles são normalmente ouvidos como qualidades, qualidades únicas de tom, todos indivisíveis. Ele fala, nesse sentido, de uma ”percepção sintética” que transcende a análise e é a essência, impossível de analisar, de todo senso musical. Compara esses tons a rostos, e reflete que podemos reconhecê-los mais ou menos da mesma maneira pessoal. Em suma, parece sugerir que os tons musicais, e certamente as melodias, são de fato ”rostos” para os ouvidos e são reconhecidos, sentidos, imediatamente como ”pessoas” (ou como tendo ”qualidade de pessoa”), um reconhecimento que implica afeto, emoção, relação pessoal.

 

Isso parece ocorrer com os que amam os números. Estes também se tornam reconhecíveis como tais — em um único, intuitivo, pessoal: ”Eu conheço você!”.20 O matemático Wim Klein expressou isso muito bem: ”Os números são amigos para mim, mais ou menos. Para você, 3844 não significa o mesmo, não é? Para você, é apenas um três, um oito, um quatro e outro quatro. Mas eu digo: ’Olá, 62 ao quadrado!’”.

 

Acredito que os gêmeos, aparentemente tão isolados, vivem num mundo cheio de amigos, tendo milhões, bilhões de números aos quais dizem ”Olá!” e que, tenho certeza, respondem ”Olá!” para eles. Mas nenhum dos números é arbitrário — como 62 ao quadrado — nem (e este é o mistério) se chega a ele por algum dos métodos usuais, ou por qualquer método que eu consiga discernir. Os gêmeos parecem empregar uma cognição direta — como anjos. Eles vêem, diretamente, um universo e um céu de números. E isso, embora singular, embora bizarro — mas que direito temos de chamá-lo ”patológico”? —, proporciona uma singular auto-suficiência e serenidade às suas vidas, e poderia ser trágico interferir nelas ou destruí-las.

 

Essa serenidade foi, de fato, interrompida e destruída dez anos mais tarde, quando se julgou que os gêmeos deviam ser separados – ”para seu próprio bem”, a fim de prevenir sua ”prejudicial comunicação entre si” e que pudessem ”sair e enfrentar o mundo […] de um modo adequado, socialmente aceitável” (segundo explicado pelo jargão médico e sociológico). Assim, foram separados em 1977, com resultados que podem ser considerados tanto gratificantes como calamitosos. Ambos foram transferidos para ”semiinternatos” e executam trabalhos simples e subalternos em troca de um pagamento mínimo, sob estrita supervisão. Eles são capazes de tomar ônibus, se forem cuidadosamente orientados e receberem um passe para pagar a condução, e de se manterem moderadamente apresentáveis e limpos, embora seu caráter de retardados mentais e psicóticos ainda seja reconhecível à primeira vista.

 

Esse é o lado positivo — mas também há um lado negativo (não mencionado em suas fichas, pois antes de mais nada nunca foi reconhecido). Privados da ”comunhão” numérica entre si e de tempo e oportunidade para qualquer ”contemplação” ou ”comunhão” — sempre sendo apressados e empurrados de uma tarefa para outra — , eles parecem ter perdido sua estranha capacidade numérica e, com ela, o principal prazer e sentido de suas vidas. Mas isso é considerado um pequeno preço a ser pago, sem dúvida, por se terem tornado semi-independentes e ”socialmente aceitáveis”.

 

Isso nos lembra um pouco o tratamento dado a Nadia—criança autista com um dom fenomenal para o desenho. Nadia também foi submetida a um regime terapêutico ”para encontrar maneiras nas quais suas potencialidades em outras direções poderiam ser maximizadas”. O efeito líquido foi que ela começou a falar — e parou de desenhar. Nigel Dennis comenta: ”Ficamos com um gênio que teve seu gênio removido, nada restando além de uma deficiência generalizada. O que devemos pensar de uma cura assim tão curiosa?”.

 

Cabe acrescentar — este é um aspecto ressaltado por F. W. H. Myers, cuja reflexão sobre os prodígios numéricos abre seu capítulo sobre ”Gênios” — que essa faculdade é ”estranha” e pode desaparecer espontaneamente, embora com a mesma freqüência seja vitalícia. No caso dos gêmeos, obviamente, não se tratava apenas de uma ”faculdade”, mas do centro pessoal e emocional de suas vidas. E agora que eles estão separados, agora que ela desapareceu, já não há mais um sentido ou um centro em suas vidas

 

PÓS-ESCRITO

 

Quando Israel Rosenfield leu o original deste texto, salientou que existem outras aritméticas, superiores e mais simples do que a aritmética ”convencional” das operações, e aventou a possibilidade de as singulares capacidades (e limitações) dos gêmeos refletirem o uso, por eles, de uma aritmética ”modular” desse tipo. Em um bilhete que me escreveu, ele sugeriu que os algoritmos modulares, do tipo descrito por lan Stewart em Concepts of Modern mathematics (1975), poderiam explicar as habilidades dos gêmeos como calendário:

 

Sua habilidade para determinar os dias da semana ao longo de um período de 80 mil anos sugere um algoritmo bastante simples. Divide-se o número total de dias entre o ”agora” e o ”então” por sete Se não houver resto, a data cai no mesmo dia que ”agora”, se o resto for um, a data cairá um dia mais tarde e assim por diante Observe que a aritmética modular é cíclica- ela consiste em padrões repetitivos. Talvez os gêmeos estivessem visualizando esses padrões, seja na forma de tabelas fáceis de construir, seja na de algum tipo de ”paisagem” como a espiral de inteiros mostrada na página 30 do livro de Stewart

 

Isso não responde por que os gêmeos comunicavam-se com números primos. Mas a aritmética do calendário requer o sete, que é primo E quando se pensa em aritmética modular em geral, a divisão modular produzirá padrões cíclicos distintos apenas se forem usados números primos. Como o número primo sete ajuda os gêmeos a identificar datas e, conseqüentemente, os eventos de dias específicos de suas vidas, eles podem ter descoberto que outros números primos produzem padrões semelhantes àqueles que são tão importantes para seus atos de recordação. (Observemos que, quando a caixa de fósforos caiu e eles disseram ”111 — 37 três vezes”, eles estavam tomando o número primo 37 e multiplicando por três.) De fato, apenas os padrões de números primos podiam ser ”visualizados”. Os diferentes padrões produzidos pelos diferentes números primos (por exemplo, tabelas de multiplicação) podem ser os elementos de informação visual que eles estão comunicando um ao outro quando repetem um dado número primo. Em suma, a aritmética modular pode ajudá-los a recuperar seu passado e, em conseqüência, os padrões criados para usar esses cálculos (que só ocorrem com números primos) podem assumir uma importância particular para os gêmeos.

 

Com o uso de uma aritmética modular como essa, ressalta Stewart, pode-se chegar com rapidez a uma solução única que não se presta a nenhuma aritmética ”ordinária” — em especial visando exatamente (pelo chamado pigeon-hole principie, o princípio da classificação sistemática) números primos extremamente grandes e incomputáveis (por métodos convencionais).

 

Se tais métodos, tais visualizações, são vistos como algoritmos, eles são algoritmos de um tipo muito singular — organizados não algebricamente, mas espacialmente, como árvores, espirais, arquiteturas, ”paisagens de pensamentos”—, configurações em um espaço mental formal e contudo quase sensorial. Os comentários de Israel Rosenfíeld e as exposições de lan Stewart sobre aritmética ”superior” (e especialmente modular) empolgaram-me, pois parecem prometer, se não uma ”solução”, pelo menos uma grande chance de se chegar à compreensão de capacidades de outra forma inexplicáveis como as dos gêmeos.

 

Essas aritméticas superiores ou mais profundas foram concebidas, em princípio, por Gauss em Disquisitiones arithmeticae, em 1801, mas só receberam aplicações práticas em anos recentes. Não se pode deixar de pensar que talvez exista uma aritmética ”convencional” (ou seja, uma aritmética de operações) — muitas vezes irritante para o professor e para o aluno, ”antinatural” e difícil de aprender—e também uma aritmética íntima do tipo descrito por Gauss, que pode ser verdadeiramente inata ao cérebro, tão inata quanto a gramática sintática e gerativa ”íntima” de Chomsky. Uma aritmética dessas, em mentes como as dos gêmeos, poderia ser dinâmica e quase viva — aglomerados globulares e nebulosas de números turbilhonando e evoluindo em um céu mental sempre em expansão.

 

Como já mencionei, depois da publicação de ”Os gêmeos” recebi uma vasta correspondência, tanto pessoal como científica. Algumas cartas tratavam dos temas específicos de ”ver” ou apreender números, outras do sentido ou importância que pode haver nesse fenômeno, outras ainda do caráter geral de inclinações e sensibilidades autistas e como elas podem ser incentivadas ou inibidas, e finalmente outras da questão dos gêmeos idênticos. Especialmente interessantes foram as cartas de pais de crianças desse tipo, as mais raras e notáveis provenientes de pais que tinham sido, eles próprios, forçados a refletir e pesquisar e que haviam conseguido combinar o mais profundo sentimento e envolvimento com uma acentuada objetividade. Nessa categoria estavam os Park, pais muito inteligentes de uma criança muito talentosa, porém autista (ver C. C. Park, 1967, e D. Park, 1974, pp. 313-23). A filha dos Park, ”Ella”, era uma exímia desenhista e também muito habilidosa com números, especialmente quando bem pequena. Ella fascinava-se com a ”ordem” dos números, especialmente os primos. Esse sentimento singular pelos números primos evidentemente não é raro. C. C. Park escreveu-me sobre uma outra criança autista que ela conhecia, a qual enchia folhas de papel com números escritos ”compulsivamente”. Todos eram primos, observou ela, e acrescentou: ”São janelas para um outro mundo”. Posteriormente, ela mencionou uma experiência recente com um jovem autista que também sentia fascinação por fatores e números primos e que os percebia instantaneamente como ”especiais”. De fato, a palavra ”especial” precisava ser usada para provocar uma reação:

 

”Há alguma coisa de especial, Joe, nesse número (4875)?”

 

Joe: ”Só é divisível por 13 e 25”.

 

Sobre outro (7241): ”É divisível por 13 e 557”.

 

E sobre 8741: ”É um número primo”.

 

Park comenta: ”Ninguém na família dele incentiva seus números primos; eles são um prazer solitário”.

 

Não está claro, nesses casos, o modo como se chega às respostas quase instantaneamente: se elas são ”pensadas”, ”conhecidas” (lembradas) ou — de alguma forma — apenas ”vistas”. O que está claro é o singular senso de prazer e significação ligado aos números primos. Parte disso parece dever-se a um senso de beleza formal e simetria, mas uma outra parte, também, a um singular ”significado” ou ”potencial” associativo. Isso com freqüência foi considerado ”mágico” no caso de Ella: números, especialmente os primos, evocavam pensamentos, imagens, sentimentos, relações especiais — alguns quase ”especiais” ou ”mágicos” demais para serem mencionados. Isso é bem descrito no artigo de David Park (op. cit).

 

Kurt Gõdel, de uma maneira muito abrangente, expôs como os números, em especial os primos, podem servir como ”marcadores” — para idéias, pessoas, lugares, qualquer coisa; e esse marcador gõdeliano abriria caminho para uma ”aritmetização” ou ”numeralização” do mundo (ver E. Nagel e J. R. Newman, 1958). Se isso realmente ocorre, é possível que os gêmeos, e outros como eles, não meramente vivam em um mundo de números, mas em um mundo, no mundo, como números, sendo sua meditação ou brincadeira numérica uma espécie de meditação existencial e, se for possível alguém entendê-la, ou encontrar a chave (como David Park às vezes consegue), também uma estranha e precisa comunicação.

por Oliver Sacks

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/os-gemeos/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/os-gemeos/

A Sophia de Jesus Cristo

A chamada “Sophia” teve seu texto encontrado na Biblioteca de Nag Hammadi (em duas cópias, III,3 e V,1), descoberta em 1945 no alto Egito, e também presente no Códex de Berlim – encontrado no séc. XIX. Foi dirigido a uma assembléia que já conhecia o gnosticismo. Este texto foi reelaborado no séc. II d.C., na Escola de Valentino, a partir de ‘Epístola de Eugnostos’, que tem um conteúdo de gnosticismo mais egípcio. Esta última – séc. I a.C. – é uma carta formal, mais curta e direta, escrita por um Instrutor a seus discípulos, também encontrada em Nag Hammadi (III,4)

As passagens colocadas entre colchetes [ ] em itálico fazem parte da ‘Epístola de Eugnostos’ e foram aqui acrescentadas quando a diferença entre os dois textos é expressiva. Entre parênteses () a numeraç]ão das notas explicativas ao final do documento. O texto ‘A Sophia de Jesus, o Cristo de Deus’ é apresentado na forma de diálogos, enquanto na epístola os discípulos não são nominados, mas apenas as instruções.)

O TEXTO

Após ele ressurgir de entre os mortos, seus doze discípulos e sete mulheres (1) continuaram a ser seus seguidores e foram para a Galileia, até a montanha chamada ‘Presságio e Alegria’ (2).

Quando se reuniram, estavam perplexos, confusos sobre a realidade subjacente do universo, o plano, a sagrada(3) providência e os poderes das autoridades (4) e sobre tudo que o Salvador estava fazendo com eles no segredo (5) do plano sagrado.

Então, o Salvador apareceu, não em sua forma anterior, mas como um espírito invisível. E sua aparência assemelhava-se a um grande anjo de luz. Mas não devo descrever a sua aparência. Nenhum corpo mortal poderia suportá-la (6), somente um corpo físico puro e perfeito, como aquele sobre o qual ele nos ensinou na Galileia, no monte chamado ‘das Oliveiras’ (7).

E ele disse: “A paz esteja com vocês! Minha paz eu lhes dou!” E todos eles ficaram maravilhados e apreensivos.

O Salvador riu e disse a eles: “O que vocês estão pensando? Porque estão perplexos? O que estão procurando (entender)?”

Filipe respondeu: “A respeito da realidade subjacente do universo e do plano”.

O Salvador disse a eles: “Quero que saibam que todos os homens nascidos na terra, desde a fundação do mundo até agora, sendo pó, apesar de terem inquirido sobre Deus, quem ele é e como é ele, não o encontraram. Ora, os mais sábios entre eles especularam sobre o ordenamento (8) do mundo e seus movimentos. Mas sua especulação não alcançou a verdade. Pois, é dito por todos filósofos que o ordenamento é direcionado de três maneiras e por isso não há concordância entre eles.

Alguns deles dizem que o mundo é dirigido por si mesmo. Outros que é a providência (que o dirige). E outros, que é o destino. Mas não é nenhum desses. Novamente, das três explanações que há pouco mencionei, nenhuma está próxima da verdade e elas são dos homens.

Mas eu, que vim da Luz Infinita. Estou aqui – por conhecê-la – para que possa (9) falar-lhes a respeito da natureza precisa da verdade. Tudo quanto seja de si mesmo é uma vida contaminada, pois é auto-gerado. A providência não possui sabedoria nela. E o destino não discerne.

[Pois tudo quanto seja de si mesmo é vazio de vida, é auto-gerado. A providência é tola. E o destino é algo sem discernimento.]

Mas a vocês é dado conhecer. E quem quer que seja merecedor do conhecimento, (o) receberá, aquele que não tenha sido gerado pelo relacionamento impuro (10), mas pelo Primeiro Que Foi Enviado, pois ele é imortal em meio aos homens mortais.”

[Então, quem quer que seja capaz de se libertar destas três opiniões que há pouco mencionei e vir, por meio de outra explanação, a reconhecer o Deus da verdade e concordar em tudo concernente a ele, esse é imortal, habitando em meio aos homens mortais.]

Mateus disse-lhe: “Senhor, ninguém pode encontrar a verdade exceto através do senhor. Portanto, ensina-nos a verdade”.

O Salvador falou: “Aquele QUE É é inefável. Nenhum princípio o conhece, nenhuma autoridade, nem dependência, nem qualquer criatura desde a fundação do mundo até agora, com exceção (11) dele mesmo e daqueles a quem ele queira revelar-se, através daquele que é da Primeira Luz. De agora em diante eu sou o Grande Salvador. Pois ele é imortal e eterno.

Ora, ele é eterno, não tendo nascido, pois todo aquele que nasce, perecerá. Ele não foi gerado, não tendo princípio, pois tudo que tem um princípio, tem um fim. Já que (12) ninguém o governa, ele não tem nome, pois quem quer que tenha um nome é a criação de um outro (13). Ele é inominável, não tem forma humana, pois todo aquele que tem forma humana é a criação de um outro. Ele tem a aparência de si mesmo (14) – não como aquela que vocês viram e receberam, mas uma aparência estranha que supera todas as coisas e é superior ao universo.

Ele olha para todos os lados e vê a si próprio a partir de si mesmo. Como é infinito, é eternamente incompreensível. É imperecível e não tem semelhança (a qualquer coisa). Ele é o imutável bem. É sem falhas. Eterno. Abençoado. Apesar de ser incognoscível, sempre conhece a si mesmo. Ele é imensurável. Insondável. É perfeito, não tendo defeito. Ele é imperecivelmente abençoado. É chamado ‘Pai do Universo’.”

Filipe disse: “Senhor, como, então, ele apareceu aos perfeitos?”

O Salvador perfeito respondeu-lhe: “Antes que qualquer coisa seja visível, dentre aquelas que são visíveis, a majestade e a autoridade estão nele, visto que ele abarca inteiramente as totalidades, enquanto que nada o abarca. Pois ele é todo mente. E é pensamento, consideração, reflexão, racionalidade e poder. Todos são poderes iguais. São a fonte das totalidades. E todas as raças, desde a primeira até a última, estavam em sua previsão, aquela do Pai Não-gerado e infinito.”

[E todas as raças (desde a primeira) até a última, estão previstas pelo Não-gerado, pois (15) ele ainda não surgiu à visibilidade.]

Tomé falou-lhe: “Porque esses surgiram e porque foram revelados?”

O perfeito Salvador respondeu: “Eu vim do Infinito, para que eu possa dizer-lhes todas as coisas. O Espírito QUE É foi o progenitor, que tem o poder (de) um progenitor e a natureza de (dar) forma, para que a grande fartura que estava oculta nele pudesse ser revelada. Por causa de sua compaixão e de seu amor ele desejava dar fruto por si mesmo, para que ele não (gozasse) sua benevolência sozinho, mas (que) outros espíritos da Geração Resoluta pudessem dar corpo e fruto, glória e honra na imperecibilidade e em sua graça infinita; para que seu tesouro pudesse ser revelado pelo Deus Auto-Gerado, o pai de toda imperecibilidade e daqueles que apareceram mais tarde. Mas eles não haviam alcançado ainda a visibilidade.  Porém existe uma grande diferença entre os imperecíveis.”

Porém existia uma diferença entre os eons imperecíveis. Vamos, então, refletir (sobre isto) desta forma.

Ele exclamou dizendo: “Quem tem ouvidos para ouvir a respeito das infinidades, que ouça”, e “Dirigi-me àqueles que estão despertos.”

E ele continuou ainda, dizendo: “Tudo que veio do perecível, perecerá, já que veio do perecível. Mas tudo o que veio da imperecibilidade, não perecerá, mas se tornará imperecível (BG 89, 16-17 acrescenta: pois se origina da imperecibilidade). Portanto, muitos homens se perderam porque eles não conheciam esta diferença e morreram.”

Maria disse a ele: “Senhor, como vamos então conhecer isto?”

O Salvador perfeito disse:

Porém isto é suficiente, pois é impossível para alguém disputar a natureza das palavras que acabei de falar sobre Deus verdadeiro, bem-aventurado e imperecível.

Mas, se alguém quiser acreditar nas palavras (aqui) determinadas, que ele vá do que está oculto até o fim do que está visível, e este Pensamento lhe instruirá sobre como a fé nas coisas que não são visíveis foi encontrada no que é visível. Este é um princípio de conhecimento.

“Venham das coisas invisíveis até o fim das que são visíveis, e a própria emanação do Pensamento lhe revelará como a fé nas coisas que não são visíveis foi encontrada naquelas que são visíveis, aquelas que pertencem ao Pai Não-Gerado. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

O Senhor do Universo não é chamado ‘Pai’, mas ‘Antepassado’. (Porque o Pai é) o início (ou princípio) daqueles que vão aparecer, mas ele (o Senhor) é (o) Antepassado sem início. Olhando-se dentro de si mesmo num espelho, ele se parece com sua própria semelhança, porém sua aparência parecia como seu Próprio-Pai Divino e (como) Confrontador ‘daqueles confrontados’, o Primeiro Pai Existente Não-Gerado. Ele na verdade tem a mesma idade da Luz que veio antes dele, mas não é igual a ela em poder.

“E a seguir foi revelada uma grande multidão de seres auto-gerados confrontadores, iguais em idade e poder, estando na glória (e) sem número, cuja raça é chamada ‘A Geração sobre a Qual Não Há Reino’ ‘daquele em quem vocês mesmos apareceram destes homens.’ E toda esta multidão sobre a qual não há reino é chamada ‘Filhos do Pai Não-Gerado, Deus, Salvador, Filho de Deus,’ cuja semelhança está consigo. Porém, ele é o Incognoscível, que está sempre pleno de glória imperecível e de alegria inefável. Eles todos descansam nele, sempre se regozijam em alegria inefável na sua glória imutável e sua jubilação imensurável. Isto nunca foi ouvido ou conhecido entre todos os eons e seus mundos até agora.”

Mateus disse a ele: “Senhor, Salvador, como o Homem foi revelado?”

O Salvador perfeito disse: “Quero que vocês saibam que aquele que apareceu antes do universo no infinito, o Pai construído e desenvolvido por Si Mesmo, sendo pleno de luz brilhante e inefável, no princípio, quando ele decidiu que sua semelhança (deveria) se tornar um grande poder, imediatamente o princípio (ou início) daquela Luz apareceu como Homem Andrógino e Imortal. Isto, para que por meio daquele Homem Imortal eles pudessem alcançar a sua salvação e despertar do esquecimento por meio do intérprete que foi enviado, que estará com vocês até o fim da pobreza dos ladrões.

Seu nome masculino é “Mente Perfeita Gerada”. E seu nome feminino (é) “Toda-sábia Sophia Geradora.” Também é dito que ela se parece com seu irmão e consorte. Ela é a verdade incontestada; porque abaixo daqui o erro, que existe com a verdade, a contesta.

“E seu consorte é a Grande Sophia, que deste o princípio lhe foi destinada para união pelo Pai Auto-Gerado, do Homem Imortal ‘que apareceu como Primeiro, divindade e reino,’ pois o Pai, que é chamado ‘Homem, Pai-Próprio,’ revelou isto. E ele criou um grande eon, cujo nome é Ogdoad, para sua própria majestade.

“Ele recebeu grande autoridade, e governou sobre a criação da pobreza. e governou sobre todas as criações. Ele criou deuses, anjos (e) arcanjos, miríades sem número para o acompanhamento daquela Luz e do Espírito masculino-tríplice, que é o de Sophia, seu consorte. Pois deste Deus por meio deste Homem originou-se a divindade e o reino. Portanto, ele foi chamado ‘Deus dos deuses,’ ‘Rei dos reis.’

“O Primeiro Homem tem sua mente singular, interior, e o pensamento – assim como ele é isto (pensamento) – (e) a consideração, a reflexão, a racionalidade, o poder. Todos os atributos que existem são perfeitos e imortais. Com relação a imperecibilidade, eles são na verdade iguais. (Porém) com respeito ao poder, eles são diferentes, como a diferença entre pai e filho, (e filho) e pensamento, e o pensamento e o resto.

“Como eu disse antes, entre as coisas que foram criadas, a mônada é a primeira. A díada segue-a, e a tríada, até as décimas. As décimas, porém, governam as centésimas; as centésimas governam as milésimas; as milésimas governam as décima-milésimas. Esta é a seqüência (entre os) imortais. O Primeiro Homem é desta forma: Sua Mônada.

(As páginas 79 e 80 estão faltando. Elas foram substituidas pela seção correspondente de Eugnostos – Código V, cujo começo é algo diferente da frase parcial final de III 78.

Mais uma vez, esta é a seqüência (que) existe entre os imortais: a mônada e o pensamento são as coisas que pertencem ao Homem Imortal. Os pensamentos (são) as dezenas, e as centenas são (os ensinamentos), (e os milhares) são os conselheiros, (e) os dez mils (são) os poderes. Porém aqueles que vêm do … existem com seus ( … ) (em) cada eon ( … ) ( … No princípio, o pensamento) e os pensamentos (apareceram da) mente, (então) os ensinamentos dos pensamentos, os conselhos (dos ensinamentos), (e) o poder (dos ) (conselhos).

E depois de tudo isto, tudo o que foi revelado apareceu de seu poder. E do que foi criado, tudo o que foi moldado apareceu. Do que foi moldado apareceu o que foi formado. Do que foi formado, o que recebeu nome. Assim surgiu a diferença entre os não-gerados do começo ao fim.”

O que recebeu nome apareceu do que foi formado, enquanto a diferença entre as coisas geradas apareceu do que recebeu (nome), do começo ao fim, pelo poder de todos os eons. Porém o Homem Imortal está pleno de toda glória imperecível e de todo contentamento inefável. Todo seu reino se regozija em júbilo eterno, aqueles que nunca foram ouvidos ou conhecidos em qualquer eon que (vieram) depois (deles e de seus) mundos.

Então Bartolomeu disse a ele: “Como (é que ele) foi designado no Evangelho ‘Homem’ e ‘Filho do Homem’? A qual deles, então, é este Filho relacionado?” O Ser Divino disse a ele:

“Quero que vocês saibam que o Primeiro Homem é chamado ‘Gerador, Mente Auto-aperfeiçoada’. Ele refletiu com a Grande Sophia, sua consorte, e revelou seu unigênito, o filho andrógino. Seu nome masculino é designado ‘Primeiro Gerador Filho de Deus; seu nome feminino, ‘Primeira Geradora Sophia, Mãe do Universo.’ Alguns a chamam ‘Amor’. Porém, o Unigênito é chamado ‘Cristo’. Como ele tem autoridade de seu pai, ele criou uma multidão infindável de anjos como comitiva do Espírito e da Luz.”

Em seguida (outro) (princípio) veio do (Homem) Imortal, que é (chamado) (Gerador) “Auto-aperfeiçoado”. (Quando ele recebeu o consentimento) de seu (consorte), (a Grande Sophia, ele) revelou (que o andrógino unigênito), (é chamado) “(Filho) Unigênito (de Deus).” Seu aspecto feminino (é) Sophia (a Primeira)-gerada, (Mãe do Universo)”, que alguns chamam “Amor”. Ora, o Unigênito, como ele deriva (sua) autoridade de seu (pai), Ele criou anjos, infindáveis miríades, como comitiva. Toda esta multidão de anjos é chamada “Assembléia dos Divinos, as Luzes Sem Sombra”. Quando estes se cumprimentam, seus abraços tornam-se anjos como eles.

Seus discípulos disseram a ele: “Senhor, revela-nos a respeito daquele chamado ‘Homem’ para que nós também possamos conhecer exatamente a sua glória.”

O Salvador perfeito disse: “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. O Primeiro Pai Gerador é chamado ‘Adão, Olho da Luz,’ porque ele veio da Luz brilhante, (e) seus anjos sagrados, que são inefáveis (e) sem sombras, sempre se regozijam com júbilo em suas reflexões, que eles receberam de seu Pai. Todo o reino do Filho do Homem, que é chamado ‘Filho de Deus,’ está cheio de alegria inefável e sem sombra, um imutável júbilo, (com eles) se regozijando a propósito de sua glória imperecível, que nunca foi ouvida até agora, nem foi revelada nos eons que vieram depois com seus mundos. Eu vim do Auto-Gerado e da Primeira Luz Infinita para que eu possa revelar tudo a vocês.”

Mais uma vez seus discípulos disseram: “Diga-nos claramente como (aconteceu) que eles desceram das invisibilidades, do (reino) imortal para o mundo que morre?”

O Salvador perfeito disse: “O Filho do Homem consentiu com Sophia, sua consorte, e revelou uma grande luz andrógina. Seu nome masculino é designado como ‘Salvador, Gerador de Todas as Coisas.’ Seu nome feminino é designado como “Sophia a Geradora de Tudo.’ Alguns chamam-na de ‘Pistis’.

Então o Salvador consentiu com sua consorte, Pistis Sophia, e revelou seis seres espirituais andróginos que são do tipo daqueles que os precederam. Seus nomes masculinos são estes: primeiro, “Não-gerado”; segundo, “Auto-Gerado”; terceiro, “Gerador”; quarto, “Primeiro Gerador”; quinto, “Gerador de Tudo”; sexto, “Arqui-Gerador”. Os nomes femininos também são estes: primeiro, “Sophia Totalmente Sábia”; segundo, “Sophia Mãe de Tudo”; terceiro, “Sophia Geradora de Tudo”; quarto, “Sophia, a Primeira Geradora”; quinto, “Sophia Amor”; sexto, “Pistis Sophia”.

(A partir) do consentimento daqueles que acabei de mencionar, apareceram pensamentos nos eons que existem. Dos pensamentos, reflexões; das reflexões, considerações; das considerações, racionalizações; das racionalizações, vontades; das vontades, palavras.

Então os doze poderes que acabo de discutir, consentiram uns com os outros. (Seis) machos (de cada um) (e) (seis) fêmeas (de cada uma) foram reveladas, de tal forma que existem setenta e dois poderes. Cada um dos setenta e dois revelou cinco (poderes) espirituais que (juntos) são os trezentos e sessenta poderes. A união de todos eles é a vontade.

Portanto, nosso eon surgiu como a espécie de Homem Imortal. O tempo surgiu como a classe de Primeiro Gerador, seu filho. (O ano) surgiu como o exemplo de (Salvador. Os) doze meses surgiram como o símbolo dos doze poderes. Os trezentos e sessenta dias do ano surgiram como a classe dos trezentos e sessenta poderes que apareceram do Salvador. Suas horas e momentos surgiram como os tipos de anjos que deles vieram (os trezentos e sessenta poderes) (e) que são inumeráveis.

Todos os que vieram ao mundo, como uma gota da Luz, são enviados por ele ao mundo do Todo-Poderoso, para que possam ser protegidos por ele. E o vínculo de seu esquecimento o atou à vontade de Sophia, para que a matéria pudesse ser (revelada) por meio dele a todo o mundo em pobreza com relação à sua arrogância e cegueira (do Todo-Poderoso) e a ignorância com que foi designado.

Porém eu vim das localidades acima, pela vontade da grande Luz, que escapou daquele vínculo. Eu interrompi o trabalho dos ladrões. Despertei aquela gota que foi enviada de Sophia, para que ela possa dar muitos frutos por meu intermédio e ser aperfeiçoada e não mais ser defeituosa. E para que possa (se juntar) por meu intermédio, o Grande Salvador, para que sua glória possa ser revelada e que assim Sophia possa ser justificada também com relação àquele defeito, para que seus filhos não se tornem outra vez defeituosos, mas que possam alcançar a honra e a glória, subir a seu Pai e conhecer as palavras da Luz masculina.

E vocês foram enviados pelo Filho, que foi enviado para que vocês pudessem receber a Luz e se removerem do esquecimento das autoridades, e para que isto não possa mais ocorrer por sua causa, ou seja, o relacionamento impuro que vem do fogo terrível que se origina de sua parte carnal. Pise sobre a sua intenção maliciosa.

Então Tomas disse a (ele): “Senhor Salvador, quantos são os eons que ultrapassam os céus?”

O Salvador perfeito disse: “Louvo vocês porque perguntam a respeito dos grandes eons, pois suas raízes estão nos infinitos. Ora, quando aqueles sobre os quais eu discuti anteriormente foram revelados, ele (ofereceu)

(As páginas 109 e 110 estão faltando. Elas foram substituidas neste texto com a seção correspondente do Código Gnóstico de Berlim (nº 8502), cujo início é um pouco diferente da frase parcial final de III 108.)

Ora, quando aqueles sobre os quais eu discuti anteriormente foram revelados, o Pai Auto-Gerado muito em breve criou doze eons como comitiva para os doze anjos.

E em cada eon haviam seis (céus), e assim haviam setenta e dois céus dos setenta e dois poderes que surgiram dele. E em cada um dos céus haviam cinco firmamentos, portanto existem (ao todo) trezentos e sessenta (firmamentos) dos trezentos e sessenta poderes que surgiram deles.

Quando os firmamentos estavam completos, foram chamados “Os Trezentos e Sessenta Céus”, de acordo com o nome dos céus que estavam diante deles. E todos estes eram perfeitos e bons. E desta forma o defeito da feminilidade apareceu.

E (Tomas) disse a ele: “Quantos são os eons dos imortais, começando das infinidades?”

O Salvador perfeito disse: “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. O primeiro eon é o do Filho do Homem, que é chamado de ‘Primeiro Gerador’, que é chamado ‘Salvador’, que apareceu. O segundo eon (é) o do Homem, que é chamado ‘Adão, Olho da Luz’. O terceiro é o do filho do Filho do Homem, que é chamado de ‘Salvador’.

Aquilo que abraça estes é o eon sobre o qual não há reino, (o eon) do Deus Infinito Eterno, o Auto-Gerado eon dos eons que estão nele, (os eons) dos imortais, que eu descrevi anteriormente, (os eons) acima do Sétimo, que apareceu de Sophia, que é o primeiro eon.

Ora, o Homem Imortal revelou eons, poderes e reinos, e deu autoridade a todos que aparecem nele para que possam exercitar seus desejos até as últimas coisas que estão acima do caos. Pois estes consentiram uns com os outros e revelaram toda a magnificência, até mesmo do espírito, luzes numerosas que são gloriosas e sem número. Estas foram chamadas no princípio, isto é, o primeiro eon, (o) segundo e (o terceiro). O primeiro (é) chamado Unidade e Descanso.’ Cada um tem seu (próprio) nome. O (terceiro) eon foi designado ‘Assembléia’ devido ao grande número que apareceu: como um, uma multidão se revelou.

Ora, como as multidões se reúnem e chegam a unidade, (BG 111, 2-5 acrescenta aqui: portanto, (eles) são chamados ‘Assembléia’, devido àquela Assembléia que ultrapassa o céu) chamamos a elas de ‘Assembléia’ do Oitavo.’ Apareceu como andrógina e foi chamada parcialmente como macho e parcialmente como fêmea. O macho é chamado ‘Assembléia’, enquanto que a fêmea é chamada ‘Vida’, para que possa ser demonstrado que de uma fêmea veio a vida para todos os eons. E cada nome foi recebido, começando do princípio.

“Pois desta concordância com seu pensamento, em breve apareceram os poderes que eram chamados ‘deuses’. E (os) deuses dos deuses, por sua sabedoria revelaram deuses. (E os deuses) por sua sabedoria revelaram senhores. E os senhores dos senhores, por seu pensamento revelaram senhores. E os senhores, por seu poder revelaram arcanjos. Os arcanjos, por suas palavras revelaram anjos; destes, apareceram semelhanças com estrutura, forma e nome para todos os eons e seus mundos.

“E os imortais, que acabo de descrever, todos eles têm autoridade do Homem Imortal, ‘que é chamado ‘Silêncio’, porque ao refletir sem falar toda sua majestade foi aperfeiçoada.’ Pois desde o momento que os imperecíveis tiveram autoridade, cada qual criou um grande reino no Oitavo bem como tronos, templos (e) firmamentos para sua própria majestade. Pois todos estes surgiram pela vontade da Mãe do Universo.

Então os Santos Apóstolos disseram a ele: “Senhor, Salvador, fale-nos a respeito daqueles que estão nos eons, pois é necessário que perguntemos a respeito deles.” O Salvador perfeito disse: “Se vocês perguntarem a respeito de qualquer coisa, Eu lhes direi. Eles criaram hostes de anjos, números infindáveis para seu acompanhamento e sua glória. Eles criaram espíritos virgens, as luzes inefáveis e imutáveis. Pois elas não têm nenhuma doença nem fraqueza, mas simplesmente vontade. (BG 115,14 acrescenta aqui: E elas apareceram num instante.)

“Desta forma os eons foram completados rapidamente com os céus e os firmamentos na glória do Homem Imortal e de Sophia, sua consorte: (que são) a área da qual cada eon, o mundo e aqueles que vieram após, tiraram (seu) modelo para sua criação de semelhança nos céus do caos e de seus mundos. E todas as naturezas, começando da revelação do caos, estão na Luz que brilha sem sombra, no contentamento que não pode ser descrito e no júbilo impronunciável. Eles se deleitam para sempre em virtude de sua glória imutável e do descanso imensurável, que não pode ser descrito, entre todos os eons que apareceram depois e todos seus poderes. Ora, tudo o que acabo de dizer a vocês, disse para que vocês possam brilhar mais do que eles na Luz.”

Mas isto é suficiente. Tudo o que acabo de dizer a vocês, disse de uma forma que vocês possam aceitar, até que aquele que não precisa ser ensinado apareça entre vocês. Ele falará todas estas coisas a vocês com alegria e no conhecimento puro.

Maria disse a ele: “Santo Senhor, de onde vieram seus discípulos, para onde vão e (o que) eles deveriam fazer aqui?”

O Salvador perfeito disse a eles: “Quero que vocês saibam que Sophia, a Mãe do Universo e o consorte, desejou por si só trazer todos estes à existência sem seu (consorte) macho. Mas, pela vontade do Pai do Universo, para que sua bondade inimaginável possa ser revelada, ele criou aquela cortina entre os imortais e aqueles que vieram depois, para que a consequência pudesse acompanhar cada eon e o caos, e assim o defeito da fêmea pudesse (aparecer), e o Erro viesse a lutar com ela. E esta tornou-se a cortina do espírito.

(As páginas 115 e 116 estão faltando. Elas foram substituidas aqui pela seção correspondente do Código Gnóstico de Berlim , nº 8502.)

 

os eons acima das emanações da Luz, como já disse, uma gota da Luz e do Espírito desceram às regiões inferiores do Todo Poderoso no caos, para que suas formas moldadas pudessem aparecer daquela gota, pois isto é um julgamento sobre o Arqui-Gerador, que é chamado Yaldabaoth.’ Aquela gota revelou suas formas moldadas por meio do alento (sopro), como uma alma viva. Ela definhou e dormiu na ignorância da alma. Quando ela se tornou quente com o alento (sopro) da Grande Luz do Macho, e tomou pensamento, (então) nomes foram recebidos por todos os que estão no mundo do caos e por todas as coisas que estão nele por meio daquele Ser Imortal, quando o alento soprou dentro dele.

Mas quando isto ocorreu, pela vontade da Mãe Sophia para que o Homem Imortal pudesse ajuntar ali as vestes para um julgamento a respeito dos ladrões (ele) então recebeu com agrado o sopro daquele alento. Mas como ele era semelhante à alma, não foi capaz de tomar aquele poder para si mesmo até que o número do caos estivesse completo, (isto é,) quando o tempo determinado pelo grande anjo estiver completo.

Ora, lhes ensinei a respeito do Homem Imortal e soltei as amarras dos ladrões dele. Quebrei os portões dos impiedosos na presença deles. Humilhei a intenção maliciosa deles, e eles foram todos envergonhados e se elevaram de sua ignorância. Por causa disto, então, vim aqui para que eles possam ser unidos com aquele Espírito e Alento, aquele ( ….. ) e Alento, e que possam tornar-se de dois um, da mesma forma como do primeiro, para que vocês possam dar muito fruto e subir a Ele Que É desde o Princípio, em alegria e glória inefável, e (honra e) graça do (Pai do Universo).

“Quem conhece, (então), (o Pai em pura) gnosis (partirá) para o Pai (e repousará no) (Pai) Não-Gerado. Mas (quem o conhece) (de forma defeituosa) partirá (para o defeito e para o resto (do Oitavo. Ora,) quem conhece o (Espírito) Imortal de Luz no silêncio, por meio da reflexão e do consentimento na verdade, que me traga sinais do Ser Invisível, e ele se tornará uma luz no Espírito do Silêncio. Quem conhece o Filho do Homem na gnosis e no amor, que me traga um sinal do Filho do Homem, para que ele possa partir para os lugares de moradia com aqueles no Oitavo.

“Vejam, eu revelei a vocês o nome do Ser Perfeito, toda a vontade da Mãe dos Anjos Sagrados, para que a (multidão) masculina possa ser completada aqui, para que (possa aparecer nos eons,) (as infinidades e) aqueles que (surgiram na) insondável (riqueza do Grande Espírito) Invisível, (para que) todos (possam receber de sua bondade), mesmo a riqueza (de seu descanso) que não tem (reino sobre ele). Eu vim (do Primeiro) Que Foi Enviado, para que eu pudesse revelar a vocês Aquele Que É desde o Princípio, por causa da arrogância do Arqui-Gerador e de seus anjos, já que eles que são deuses. E eu vim para removê-los de sua cegueira para que possam dizer a todos a respeito do Deus que está acima do universo. Portanto, pisem sobre seus túmulos, humilhem sua intenção maliciosa, e destruam o seu jugo e assumam o meu. Dei autoridade a vocês sobre todas as coisas como Filhos da Luz, para que vocês possam pisar sobre o poder deles com (seus) pés.”

Estas são as coisas (que o) bem aventurado Salvador (disse), (e ele desapareceu) do meio deles. Então, (todos os discípulos) ficaram numa (grande alegria inefável) no (espírito) daquele dia em diante. (E seus discípulos) começaram a pregar (o) Evangelho de Deus, (o Espírito) eterno imperecível. Amem.

 

Notas explcativas para estudo deste Texto

 

(1)    Provável referência a doze que são mais íntimos, mais ‘fortes’, do núcleo mais interno – incluindo mulheres – e mais outros sete seguidores do círculo não tão íntimo, como um grupo intermediário, incluindo homens

(2)    Poder ser uma referência a um local físico, de encontro, ou a um estado de consciência no qual os discípulos se encontrassem para um aprofundamento nestas temáticas e que lhes tornava possível a presença do Senhor e sua percepção.

(3)    Ou ‘divina’.

(4)    Provavelmente uma alusão às potestades.

(5)    No oculto, o nível interno, nos planos mais sutis onde ele se encontrava. Este, provavelmente, não é o primeiro encontro que têm após a morte do Senhor.

(6)    No sentido de lhe dar sustento, geração, de mantê-la.

(7)    Referência ao estado de consciência elevado específico em que eram ministradas as instruções mais reservadas.

(8)    Como o universo passa do Caos à ordem.

(9)    Ele tem esta capacidade, este poder

(10)Outra tradução: ‘pela (semeadura ou) disseminação do atrito impuro’. Pode referir-se à geração carnal em oposição à regeneração espiritual, ou à contaminação pelo contato (atrito) com as idéias impuras.

(11)No Eugnosto a frase termina aqui com ‘exceto só ele’.

(12) No Eugnosto não há esta relação de dependência entre estas duas orações. Diz: ‘Ninguém o determina. Ele não tem nome’.

(13) Sobre este ponto, veja-se o Evangelho da Verdade atribuído a Valentino (séc II d.C.).

(14) No Eugnosto, ‘Ele tem sua própria aparência’.

(15) Esta parte se encontra, no texto SJC, na resposta a Tomé

Fonte e tradução: Raul Branco (Membro da Sociedade Teosófica pela Loja Brasília, de Brasília-DF)

 

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[…] NHC III, 2 — O Evangelho dos Egípcios  NHC III, 3 — Eugnostos, o abençoado NHC III, 4 — Sofia de Jesus Cristo NHC III, 5 — Diálogo do […]

[…] NHC III, 2 — O Evangelho dos Egípcios  NHC III, 3 — Eugnostos, o abençoado NHC III, 4 — Sofia de Jesus Cristo NHC III, 5 — Diálogo do […]

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-sophia-de-jesus-cristo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-sophia-de-jesus-cristo/

Arcano 2 – Gimmel – A Sacerdotisa

A Sacerdotisa - Marselha Grimaud (1760)

Uma mulher sentada, com um livro aberto sobre a saia e uma coroa tripla na cabeça.

Olha para a esquerda e veste uma túnica vermelha sobre a qual se desdobra um manto azul (em algumas versões as cores são opostas). Duas partes da sua tiara estão ornadas de florões, mas a parte superior é uma simples abóbada. Um véu, que lhe cai sobre os ombros, cobre totalmente os seus cabelos; na mesma altura desse véu, por trás, aparece uma cortina cujos pontos de fixação não são visíveis. Tampouco se podem ver os pés da mulher, assim como a base do trono.

Fato curioso, que é reencontrado somente no arcano XXI, é que a figura ultrapassa a margem superior do quadro: o extremo da tiara supera a linha negra, um pouco à direita do número II.

Significados simbólicos

A Sabedoria, a Gnose, a Casa de Deus e do homem, o santuário, a lei, a Cabala, a igreja oculta, a reflexão.

Fala também do binário, do princípio feminino, receptivo, materno.

Mistério. Intuição. Piedade. Paciência, influência saturnina passiva.

Interpretações usuais na cartomancia

Reserva, discrição, silêncio, meditação, fé, confiança atenta. Paciência, sentimento religioso, resignação. Favorável às coisas ocultas.

Mental: Grande riqueza de ideias. Responde a problemas concretos melhor do que a questões vagas.

Emocional: É amistosa, recebe bem. Mas não é afetuosa.

Físico: Situação garantida, poder sobre os acontecimentos, revelação de coisas ocultas, segurança de triunfo sobre o mal. Boa saúde, mas com um ritmo físico lento.

Sentido negativo: Dissimulação, hipocrisia, intenções secretas. Mesquinharia, inação, preguiça. beatice. Rancor, disposição hostil ou indiferença. Misticismo absorvente, fanático. Peso, passividade, carga. As intuições que traz invertem seu sentido e se tornam falsas. Atraso, lentidão nas realizações.

História e iconografia

A tradução exata do nome que o Tarô de Marselha dá a este arcano (La Papesse) é A Papisa. Outras versões, como A Sacerdotisa ou A Alta Sacerdotisa, vêm do nome que lhe é dado em inglês (The High Priestess).

A figura da Papisa faz alusão a um fato histórico, ou melhor, lendário, que ocupa um lugar notável na literatura da Idade Média: a pretensa existência de um Papa do sexo feminino. A tradição popular diz que uma mulher ocupou a cadeira de São Pedro durante alguns anos sob o nome de João VIII.

Várias versões aparecem, mas o mais antigo testemunho que chegou até nós é bastante posterior à data de seu suposto reinado.

De qualquer modo, para o estudo tradicional e iconográfico do Tarô, não importa estabelecer alguma fidelidade histórica. Embelezada com o correr do tempo, uma de suas versões combina admiravelmente com o simbolismo maternal que se atribui à estampa: segundo tal versão, a papisa teria ficado grávida de um dos seus familiares e, como não se recolheu à época do parto, o acontecimento teria se dado em plena rua, durante uma procissão entre a igreja de São Clemente e o palácio de Latrão.

Com a dramática descoberta do embuste, o enfurecido séquito papal teria assassinado Joana e seu filho. Antigas tradições romanas asseguram que, no lugar do homicídio, permaneceu durante séculos um túmulo ornado por seis letras P, que podiam ser lidas de três maneiras diferentes (jogando com a inicial comum a Papa, Pedro, pai e parto).

Ainda com relação a essa lenda, deve-se assinalar um fato notável: na célebre Bíblia ilustrada alemã do ano de 1533, a grande prostituta do Apocalipse está representada com uma tiara na cabeça, A tradição afirma que foi desenhada deste modo por desejo expresso e sugestão de Martinho Lutero.

Enquanto o Mágico não poderia permanecer em repouso (numa unidade andrógina onde tudo é impulso e estímulo), a Sacerdotisa é o próprio repouso: sentada, majestosa, receptiva, seu reino é binário, uma etapa na distinção da polaridade do universo. Se o binário equivale a conflito, no sentido de rompimento da unidade, de abandono do caos essencial onde não existem as magnitudes nem os nomes, é também a primeira etapa dolorosa e imprescindível das vias iniciáticas, o começo da busca da identidade.

A Sacerdotisa representa a submissão majestosa às exigências dessa iniciação, o equilíbrio que a repartição elementar de forcas produz no conflito.

O que o Arcano I era para a encarnação das energias espirituais o Arcano II o é quanto à aceitação dessa metamorfose: o reconhecimento prévio da luta entre os princípios branco-negro, dia-noite, Yang-Yin.

Alguns autores veem na Sacerdotisa a representação de Isis, com todas as suas conotações noturnas e ocultas. Também a associam a Cassiopéia, a rainha negra da Etiópia e mãe da constelação Andrômeda, e a Belkis, a belíssima rainha de Sabá, para quem Salomão teria composto o Cântico dos Cânticos. Essa relação da Sacerdotisa com deusas e rainhas negras (ou escuras) não parece casual e acentua a contrapartida com a carta a seguir: o simbolismo branco, luminoso e diurno do Arcano III (A Imperatriz), com quem a Sacerdotisa forma a dupla oposta e complementar da feminilidade.

Este símbolo subterrâneo, que se refere ao aspecto esotérico da revelação, teria passado para o cristianismo sob a forma das virgens negras, cujo ritual se realiza com frequência numa cripta ou num lugar inacessível.

Mãe, esposa celeste, senhora do saber esotérico, a Papisa ou Sacerdotisa ocupa na estrutura do Tarô o lugar da porta, da passagem entre o exterior e o interior, do ponto imóvel e comum entre a Casa e a rua.

Por Constantino K. Riemma

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-2-gimmel-a-sacerdotisa