Ahriman e Angra Mainya – As Origens do Mal

Ahriman, o princípio do mal na religião da Pérsia, atual Irã, foi personificado como Angra Mainya, “o espírito destrutivo”, que introduziu a morte no mundo.

Ele liderou as forças do mal contra o exército de Spenta Mainya, “o espírito santo”, que ajudou Ahura Mazdah, “o sábio senhor” e o vencedor final na guerra cósmica. “No princípio”, disse o profeta Zoroastro, “os espíritos gêmeos eram conhecidos como um gêmeo bom e o outro gêmeo mau, em pensamento, palavra e ação. Entre eles, os sábios escolheram sabiamente, não os tolos”.

E quando esses espíritos se encontraram eles estabeleceram a vida e a morte para que no final os seguidores do engano encontrassem a pior existência, mas os seguidores da verdade com o senhor sábio.”

Ahura Mazdah disse a Zoroastro que Angra Mainya havia atrapalhado seus planos de transformar a Pérsia em um paraíso terrestre. Todas as criaturas do “sábio senhor” foram criadas com livre arbítrio: tanto seres espirituais quanto humanos.

Angra Mainya, o irmão gêmeo do “espírito santo”, simplesmente tinha prazer em “escolher as piores coisas”. A fim de frustrar Ahura Mazdah, ele introduziu geada no inverno, calor no verão, todos os tipos de desastres e outros males que a humanidade tem que suportar. Ele também criou o dragão Azhi Dahaka, que trouxe ruína à terra.

Quando Ahura Mazdah criou as estrelas no céu, ele “saltou para o céu como uma serpente” e em oposição a essas luminárias celestiais ele formou os planetas, cuja influência funesta então caiu sobre o mundo. Ao longo da criação houve uma clivagem e antagonismo tão profundos que sob o governo dos sassânidas (226-632) surgiu um mito para suavizar o dualismo.

Os espíritos gêmeos tornaram-se descendentes de um ser primordial pré-existente, Zurvan Akarana, o “tempo infinito”. Porque Zurvan jurou que o primogênito deveria governar como rei e Ahriman “rasgou o ventre” para reivindicar o título, o maligno recebeu o reino do mundo por um período limitado.

“Depois de nove mil anos”, insistiu Zurvan, “Ohrmazd reinará e fará tudo de acordo com sua boa vontade”.

A principal arma de Ahriman era “az”, a concupiscência, presente de Zurvan. “Por meio desse poder”, observou o doador, “tudo o que é seu será devorado, até mesmo sua própria criação”. Ahriman aceitou porque era “como sua própria essência”.

A demoníaca Az, um princípio feminino, incluía mais do que desejo sexual: igualmente era dúvida, um enfraquecimento do intelecto.

Possivelmente a ideia representa um empréstimo do budismo, que via em avidya, “ignorância”, e sua manifestação, o desejo, a razão para o ciclo interminável do ser condicionado. Az também estava ligado ao demônio maniqueísta de mesmo nome, “a mãe de todos os espíritos malignos”. No zoroastrismo, no entanto, o papel da mulher definitivamente não é claro.

O homem era quase santo, uma criação destinada a desempenhar o papel principal na destruição do mal. Quando Ahriman viu o homem justo, ele desmaiou. Por três mil anos ele ficou desmaiado… até que a prostituta acusada, Jeh, o despertou.

Jeh, a prostituta, cobiçou o homem e “contaminou-se” com o “espírito destrutivo” para obter seu desejo. Mas esse conceito apareceu apenas em textos posteriores; originalmente o papel da mulher parecia ser para a propagação da espécie.

Os Gathas, que são os hinos ou canções que se considera terem sido escritos pelo próprio Zoroastro, dizem que no início Ahriman (Angra Mainya), o Espírito Maligno, estava amplamente separado do Bom. No entanto, Ahriman é tomado de curiosidade e inveja e tenta invadir o território do bem, que é luminoso e puro.

Ele é repelido e a vitória é atribuída ao efeito infalível da oração (o Ahuna Vairya) proferida por Ohrmazd, que entretanto decide permitir a Ahriman um período de semi-vitória, para melhor conquistá-lo de uma vez por todas no final.

Este último tema pode soar familiar, pois é proeminente no cristianismo: o diabo reinará na terra antes do fim do mundo e depois será lançado de volta ao inferno para sempre. Ahriman, que se diz ter vivido em um lugar escuro sob a terra, é considerado por alguns como o antecessor do diabo, ou Satanás.

De acordo com outra lenda, um pouco embutida na doutrina oficial do Mazdaísmo (outro nome do Zoroastrismo), a origem de Ahriman, embora incerta, decorre das dúvidas de Zurvan (o Tempo Infinito), que também gerou Ohrmazd. Zurvan, gerado do deus supremo, ofereceu sacrifícios por mil anos para ter um filho e, no final, duvidou da eficácia de seus próprios atos.

Ahriman foi o resultado da dúvida de Zurvan, enquanto Ohrmazd foi gerado a partir dos méritos dos sacrifícios de Zurvan.

A mitologia em torno dos gêmeos, os irmãos espirituais, Ahriman e Ohrmazd, gerados por Zurvan, foi incorporada nas religiões do Zoroastrismo, Maniqueísmo e Budismo. A mitologia tornou-se teologia, ou em alguns casos vice-versa.

No entanto, o tema, ou crença, existe atualmente: o bem contra o mal, e no final o bem inevitavelmente vencerá o mal.

Talvez esse mito seja mais fato do que parece, os gêmeos do bem e do mal eram filhos do próprio Tempo já que o conceito de uma guerra entre o bem e o mal parece ter obcecado o pensamento da humanidade desde tempos imortais. A.G.H.

Referências:

Cotterell, Arthur, A Dictionary of World Mythology, New York, G. P. Putman’s Sons, 1980, p. 63

Grimal, Pierre, Larousse World Mythology, Secaucus, New Jersey, Chartwell Books, 1965, pp. 194-195

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Fonte:

https://www.themystica.com/ahriman/

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/ahriman-e-angra-mainya-as-origens-do-mal/

Estrutura de um Ritual Enochiano

Por Yohan Flaminio e Robson Bélli 

Aleister Crowley disse: “A Magia é a Ciência e a Arte de causar mudanças de acordo com a Vontade”, mas, como exatamente manifestar essa vontade, de maneira correta, para realizar a mudança que se deseja? Quando se fala em magia, somos remetidos às formulas estranhas em velhos livros empoeirados ou receitas prontas de “feitiços e simpatias” de pseudo-magistas de internet. Mas o que de fato é real e como realmente é realizado um ritual?

Na magia cerimonial, o pretenso magista manifesta sua vontade por meio de foco material criado por si ou de artesãos competentes, instrumentos estes que focam a atenção e colocam o operador “no clima”, literalmente o sintonizando naquela energia e frequencia, mas, sem o conhecimento de como usar esses instrumentos de maneira correta, de como magnetiza-los, estes não passarão de artigos estranhos na estante de um excêntrico acumulador.

E é exatamente onde entramos com a: ESTRUTURA RITUAL.

Todo ritual é construído seguindo certos preceitos ou fórmulas previamente construídas pelo magista, com base em seu conhecimento das chaves de expressão da realidade, estas que inicialmente podem ser expressas pelo incenso utilizado, cores das velas, a lua certa, o dia certo e etc.

A maioria das vertentes de magia cerimonial segue uma estrutura mais ou menos rígida, que visa o sucesso da operação. O exemplo mais clássico é a estrutura seguida durante a evocação de um daemon, na Goetia Salomônica. O passo a passo neste exemplo tem o objetivo de permitir uma evocação segura e eficiente e trata-se de uma estrutura já muito utilizada, bastante eficiente.

Mas qual é o passo a passo já bem fundamentado, na magia enochiana? Lamento, jovem gafanhoto, ele não existia, até agora.

O próprio John Dee nunca fez uso do sistema e isso, por si só, já nos faz imaginar: “se ele não usou, quem sou eu pra meter mão nisso aí?” A resposta é: Somos estrelas, cara! Desde o ressurgimento da Magia Enochiana com a Golden Dawn, há incontáveis formas de se trabalhar com as entidades enochianas e, cada dia que passa, uma nova forma é descoberta.

O que será explicado abaixo trata-se de uma forma simples e eficaz de um Ritual de Evocação, utilizado por este que vos escreve. Foi utilizado no início das práticas quando ter instrumentos enochianos era um sonho distante.

Enfim, chega de teoria e vamos botar a mão na massa, pois a teoria e o conhecimento místico é muito importante, mas, magia é acima de tudo, pratica.

RESUMO LITÚRGICO

1. Definição do objetivo da ritualística
2. Escreva o roteiro ritual
3. Preparação do templo
4. Preparação do magista
5. O banimento inicial (RMP)
6. Pilar do meio
7. Recitar a obediência fundamental
8. Recite a 1º. Ou a 2º. Chamada
9. Chamada  à Torre de Vigia
10. Conjuração do espirito
11. Encargo ao Espírito
12. Fechamento do templo

O RITUAL

PASSO UM:

Defina o objetivo do ritual.

O que você deseja alterar? Qual a situação que deseja resolver? Defina-o de maneira objetiva, de forma com que se venha a acontecer, você possa ter certeza de que foi você e sua magia que o fizeram.

PASSO DOIS:

Escreva o roteiro do ritual

Escreva seu objetivo no topo do que vamos chamar de Roteiro do Ritual. Este roteiro será o seu passo a passo, que deverá ser seguido no ato do ritual, após a pratica ele deve ficar em anexo a folha do dia do seu diário magico para possíveis consultas posteriores.

PASSO TRÊS:

Preparação do templo.

Esse é o passo que normalmente limita o praticante. “Ah não tenho bola de cristal, ou mesa santa ou o sigilo feito de cera de abelha…” Esqueça a parafernália! Tudo o que será necessário aqui é uma impressão do Sigillum Dei Aemeth, em papel A4 e uma superfície reflexiva, que pode ser um espelho, um cristal simples ou até mesmo aquela sua taça de vinho preferida, com água. Além disso, de forma opcional, coloque duas velas brancas de cada lado do objeto usado pra vidência (o cristal, espelho ou copo com água). Isso vai ajudar sua mente a “se soltar”.

PASSO QUATRO:

Preparação do magista.

Nesse passo vamos saber o que o operador deve realizar para auxiliar a “entrar no clima”. Primeiro sua mente deve estar relaxada. Isso é conseguido com uma meditação antes da prática em que o magista limpa a mente e foca-a no que está sendo realizado ali. O tempo de meditação varia de cada pessoa mas normalmente ocorre entre 10 a 20 minutos de meditação, às vezes menos, um banho de purificação também pode ser adequado, para os menos familiarizados com banhos de purificação um belo banho de sal grosso pode ser o suficiente.

PASSO CINCO:

O Banimento

Neste passo o magista realiza o ritual de banimento escolhido (os quais existem para todos os gostos) que terá o efeito de limpeza das energias do magista, influências negativas e a limpeza do ambiente.

Sugestão:

Ritual Menor do Pentagrama

Parte 1 – A Cruz Cabalística (ou Rosa Cruz)

De pé com corpo ereto e postura altiva, com as pernas abertas a largura dos ombros, de punhos cerrados, espalme a mão direita, erga lentamente a mão direita espalmada esticando seus braço a frente e para cima enquanto acompanha o movimento da sua mão com os olhos, quando o braço estiver apontado para cima, feche os olhos e em sua tela mental imagine que um enorme tubo de luz branca desce sobre vós enquanto você desce a desce a mão e toca sua testa

  • – Toque a testa e diga/vibre ATEH

toque seu peito e então:

  • – Toque o sexo e diga MALKUTH

E visualize esta luz mudar de cor para amarelo, verde, vermelho e então se apagar ficando tudo escuro, leve a mão esquerda para seu ombro direito, e veja um raio de luz vermelho que vem de seu lado direito:

  • – Toque o ombro direito e diga VE – GEBURAH

Este raio então ultrapassa a linha central e muda de cor (para azul) enquanto você move sua mão direita em direção ao ombro esquerdo assumindo a postura de Osíris ressuscitado.

  • – Toque o ombro esquerdo e diga VE – GEDULAH

Abra as duas mãos na postura de Osíris morto e então:

  • – Junte as mãos no peito e diga LE – OLAHM AMEN Parte 2 –

Parte 2: Os Pentagramas

  • – De frente para o Leste, desenhe (usando a ponta dos dedos indicador e médio) um pentagrama visualizando-o, no centro visualize o primeiro nome, IHVH e inspirando-o, sentindo passar pelo peito até os pés e sentindo a sua volta, fazendo o sinal do entrante, varando o pentagrama, vibre o nome (“Iod Rê Vô Rê”, por exemplo) com
  • – De frente para o Sul, repita o processo anterior trocando o nome por ADONAI.
  • – De frente para o Oeste, repita o processo anterior trocando o nome por EHEIEH. 9 – De frente para o Norte, repita o processo anterior trocando o nome por AGLA. Caso o estudante não tenha percebido, ele está girando no sentido horário.

Parte 3 – Invocação dos Arcanjos

 – Na posição de Cruz (os braços abertos e os pés juntos), o estudante repetirá: “A minha frente RAPHAEL

  • – “Atrás de mim GABRIEL” 12 – “A minha direita MICHAEL
  • – “A minha esquerda AURIEL” –
  • – “Pois ao meu redor flamejam os Pentagramas”

Sempre imaginando os Arcanjos nas suas respectivas posições e os pentagramas em chamas. Cada um está relacionado a um elemento: Ar, Fogo, Água e Terra, na sequencia. Como os elementos são 4, o magista, ao centro, será a 5ª parte do pentagrama, o espírito.

  • – “E na coluna do meio, brilha a estrela de seis raios”.

Que o estudante visualize dois Hexagramas, um em cima e o outro projetado embaixo, com uma faixa de luz estendendo-se infinitamente na vertical, envolvendo-o.

  • – Repita a Parte 1 e o ritual estará

PASSO SEIS (OPCIONAL)

Realize o Ritual do Pilar do Meio.

Este exercício simples potencializa a energia do magista aumentando a probabilidade de sucesso do ritual de forma expressiva.

Preparação.

Ritual do Pilar do Meio

Imagine-se em um templo. Visualize o Pilar Negro da Severidade à esquerda, o Pilar Branco da Misericórdia à direita e você ao centro no Pilar do Equilíbrio.

Pilar do Meio.

Eleve sua atenção até Kether. Imagine uma esfera de luz que brilha intensamente acima de sua cabeça sem tocá-la.

Contemple esta luz por alguns instantes. Sinta a energia que emana desta esfera enquanto vibra:

–  Eheieh.

Desta esfera a luz se projeta para baixo até formar uma segunda esfera de luz na região da nuca. A luz de Kether flui para Daath. Sinta sua energia enquanto vibra:

–  IHVH Elohim.

A luz se projeta desta esfera para formar uma terceira esfera de luz na região do coração. A luz de Daath flui para Tiphereth.

Sinta sua energia enquanto vibra:

–  IHVH Eloah Ve Daat.

A luz projeta-se desta esfera para formar a próxima esfera de luz na região dos órgãos sexuais. A luz de Tiphereth flui para Iesod. Sinta a energia desta esfera enquanto vibra:

–  Shadai El Chai.

A luz projeta-se desta esfera para formar uma nova esfera de luz nos pés. A luz de Iesod flui para Malchut. Visualize esta esfera de luz e sinta sua energia enquanto vibra:

–  Adonai Ha Aretz.

Visualize o Pilar do Meio formado por suas esferas de luz alinhadas ao longo de seu corpo. Circulação do Corpo de Luz.

Volte sua atenção para Kether, a esfera acima da cabeça, e visualize-a absorvendo energia do Ain Soph Aur, da Luz Ilimitada, e transmitindo esta energia para as outras esferas. A cada expiração sinta a energia descer da esfera do topo da cabeça até a esfera dos pés pelo lado esquerdo do corpo. Ao inspirar sinta a energia subir da esfera dos pés até a esfera do topo da cabeça passando pelo lado direito do corpo. Repita este exercício por várias vezes. Visualize, então, a energia descer pela frente do corpo enquanto o ar é exalado e subir pelas costas enquanto o ar é inspirado. Repita exte exercício por várias vezes. Visualize este processo e sinta este processo de forma profunda e real.

Visualize as esferas de luz em seu corpo que formam o Pilar do Meio. Leve sua atenção à esfera dos pés e, ao inspirar, sinta e visualize a energia desta esfera subir pelo corpo como uma corrente de energia espiralada até o topo da cabeça. Ao exalar sinta e visualize esta energia sendo derramada por todo o seu corpo retornando à esfera de luz situada nos pés. Repita este exercício várias vezes.

PASSO SETE:

Recite a Obediência Fundamental de John Dee

Trata-se de uma invocação preliminar à Deus que Dee chamou “Obediência Fundamental”. Ela invoca os doze nomes de Deus que governam os quatro quadrantes da Grande Tábua. De acordo com a Tabula Recensa, estão dispostos assim:

Leste — ORO IBAH AOZPI
Sul — MPH ARSL GAIOL
Oeste — OIP TEAA PDOCE
Norte — MOR DIAL HCTGA

Na Obediência Fundamental, há um alinhamento com a divindade por meio desses nomes de poder que representam as partes do universo.

Ó YHVH TzABAOTh, nós invocamos e imploramos mais fervorosamente seu Divino Poder, Sabedoria e Bondade, e mais humilde e fielmente pedimos que nos favoreça e auxilie em todas as nossas obras, palavras e cogitações concernentes, promovendo ou obtendo seu louvor, honra e Glória.

E por estes seus doze nomes místicos. ORO, IBAH, AOZPI, MPH, ARSL, GAIOL, OIP, TEAA, PDOCE, MOR, DIAL, HGTGA, mais ardentemente rogamos e imploramos sua Divina e Onipotente Majestade: que todos os seus fiéis Espíritos Angelicais cujos nomes místicos são expressos neste livro e cujos ofícios são brevemente observados em qualquer parte do mundo em que estejam e, em qualquer época de nossas vidas, eles são convocados por nós por meio de seus poderes peculiares ou autoridade de seus Santos Nomes (também contidos neste livro), que mais rapidamente eles venham a nós visíveis, afáveis, e nos apareçam pacificamente e permaneçam conosco visivelmente de acordo com nossos desejos, e que eles desapareçam a nosso pedido de nós e de nossa vista.

E através de ti e daquela reverência e obediência que eles devem a ti nesses doze nomes místicos acima mencionados, que eles deem satisfação amigavelmente também a nós, a cada momento de nossas vidas, e em cada ação ou pedido a todos, alguns ou um deles, e façam isso rapidamente, bem, completamente e perfeitamente para executar, aperfeiçoar e completar tudo isso de acordo com suas virtudes e poder geral e individual e através das injunções dadas por ti (Ó Deus) e seus ofícios, encargos e sacerdócio.

Amém.

PASSO OITO:

Recite a 1º ou 2º Chamada Enochiana

A 1º Chamada é usada para manifestações espirituais. Ex: conexão com a energia pura da Tábua da União.

A 2º Chamada é usada para manifestações físicas. Ex: Evocar os anjos do Ar (responsáveis por curas), de um quadrante específico para tratar um problema de saúde.

Pronúncia da 1º Chamada

– Ole sonefe vorese-ge goro lade balete, laneserre calezod voneperru; sobera zole rore i ta nazodpesade, ode geraa ta maleperege, di-es holeque quaa noterroa zodimezod ode comemarre ta nobelorre ziene; soba terrile genonepe perege aledi, di-es urebese obolerre ge-resame; casareme ohorela taba pire, di-es zodonerenesege cabe ereme jadenarre. Pilarre farezodme zodnera adena gono ladepile di-es rrome torre soba [iaode] ipame lu ipamise; di-es lorrolo vepe zodomede poamale, ode bogepa aai ta piape piamose ode vaoame. Ca zodacare ode zodamerame! Odo cicele quaa zodorege lape ziredo noco made, rroaterre zaida.

Tradução da primeira chamada

– Eu reino sobre vós, diz o Deus da Justiça poderosamente exaltado acima dos firmamentos da ira; em cujas mãos o Sol é uma espada e a Lua como um fogo penetrante: que mede as vossas túnicas, no seio de minhas próprias vestes e vos amarrei juntos com as palmas de minhas mãos; vossos assentos sendo decorados com o fogo da união, embelezando vossas vestimentas com admiração; para quem fiz a Lei para governar os santos e entreguei uma vara com a arca do conhecimento. Além disso, vós então erguestes vossas vozes e jurastes obediência e fé a Ele, que vive e triunfa, que não tem início, nem fim, que brilha como uma chama no meio de vosso palácio, e reina entre vós como a balança da retidão e verdade. Portanto, movei-vos e mostrai-vos! Abri os mistérios de vossa criação! Sede amistosos comigo, porque eu sou servo do vosso mesmo Deus, o verdadeiro adorador do Altíssimo.

Pronúncia da 2º Chamada

– Adegete upaarre zodonege ome faaipe salede, viu le? Sobane laleperege izodazodazod piadeperre; casarema aberamege ta talerro paraceleda que-ta loreseleque turebese oogo baletorre    givi    cerrise    lusede     oreri     ode     micalepe     cerrise     bia ozonegone; lape noane terofe corese ta ge oque manine laidone. Torezodu gorre-le! Zodacare, ca ce-noqueode! Zamerane micalezodo, ode ozodazodme urelepe, lape zire loiade.

Tradução da segunda chamada

– Podem as asas do vento entender vossas vozes de admiração, Oh, vós todos, os segundos dos primeiros? Que as chamas ardentes conceberam nas pofundidades de minhas mandíbulas; que preparei como taças para um casamento, ou como flores em sua beleza para a câmara da retidão. Mais fortes são os vossos pés, que a pedra estéril, e mais poderosa são vossas vozes que os ventos múltiplos, pois se haveis tornado uma edificação como não existe outra, exceto em minha mente de Todo-Poderoso. Aparecei disse o Primeiro: Movei-vos, portanto, até os vossos servos! Mostrai vossos poderes e fazei de mim um Grande Vidente, pois eu sou daquele que vive para sempre.

PASSO NOVE:

Chamada à Torre de Vigia

Recite a Chamada correspondente à Torre de Vigia com o elemento correspondente:

PASSO DEZ:

A Conjuração do Espírito.

Neste passo, recite uma conjuração ao espírito.

Esta pode ser em português ou em enochiano

  • Exemplo de conjuração em português:

Conjuração aos anjos do Ar (cura)

Ó tu, Anjo de Luz [Nome do Anjo], habitando na parte [Direção] do universo, poderoso na administração do forte e saudável remédio de Deus e na dispensação de curas: Em nome do Deus onipotente, vivo e verdadeiro, Eu, [Seu Nome Mágico], pela graça do Deus Todo-Poderoso dos Reinos Celestiais, e através da reverência e obediência que tu deves ao mesmo, nosso Deus, e através destes, Seus nomes divinos e místicos, [Nome vertical da cruz sephirótica] e [Nome horizontal da cruz sephirótica], eu veementemente e fielmente peço de ti, que tu apareças dentro desta Mesa da Arte e Sigilo de Deus, e depois disso, atenda a minha solicitação.

Eu o convoco pelos Nomes de Deus, [Nome vertical da cruz sephirótica] e [Nome horizontal da cruz sephirótica], para realizar e completar todos e quaisquer pedidos, abundantemente, excelentemente, completamente, agradavelmente e perfeitamente, por meio de todos os remédios possíveis e por meio da força, poder e peculiaridades de seu ofício e ministério.

Através dos Nomes Sagrados de Deus [Nome vertical da cruz sephirótica] e [Nome horizontal da cruz sephirótica],

Amém.

  • Exemplo de conjuração em enochiano usando as Hierarquias:

Ol vinu od zacam, Ils gah (nome do anjo-alvo).

Od lansh vors gi Iad, gohus pugo ils niiso od darbs! Dooiap (nome supremo da Tábua da União),

od dooiap (os Três Grandes Nomes Secretos de Deus), od dooiap (o nome do rei),

od dooiap (os nomes dos seis Sêniores), od dooiap …,

od dooiap …,

od dooiap … (quantos nomes na hierarquia forem necessários), Ol vinu od zacam, Ils gah (nome do anjo-alvo).

Tradução:

Eu invoco e movo-te, ó ti, Espírito (nome do anjo alvo).

E sendo exaltado acima de você no poder do Altíssimo, eu digo a você que venha e obedeça!

Em nome de (Nome Supremo da Tábua da União; por exemplo, Exarp, Hcoma, Nanta ou Bitom);

e em nome de (os Três Grandes Nomes Secretos de Deus da Tábua Elemental),

e em nome de (o nome do rei da Tábua Elemental), e em nome de (os nomes dos seis Sêniores da Tábua Elemental),

e em nome de …,

e em nome de …,

e em nome de … (tantos nomes na hierarquia quantos forem necessários), Eu invoco e movo-te, ó Espírito (nome do anjo alvo).

PASSO ONZE:

O Encargo ao Espírito.

Neste passo, o pedido do magista é entregue ao espírito. Uma dica importante aqui é escrever o pedido antes do ritual e recitá-lo ao anjo.

PASSO DOZE:

Fechando o Templo.

Neste passo dá-se ao espírito, a Licença para Partir, como se segue:

Tu, Anjo de Luz, eu, [Seu Nome Mágico], pelo poder do Deus Verdadeiro, Todo-Poderoso e Vivo, por meio deste, convido-o a partir e cumprir suas tarefas designadas, a serviço de minha Verdadeira Vontade e para a Glória e Honra ao nosso Deus Verdadeiro acima mencionado, a quem tu deves lealdade e obediência.

Eu, [Seu Nome Mágico], por meio deste libero as forças restringidas, focalizadas e dirigidas durante esta operação, para que elas possam ir adiante e trabalhar seus vários poderes sobre o universo manifesto, pois assim nasceu todo o Poder da Verdadeira Magia e da perfeição.

Pelo poder de minha Verdadeira Vontade aqui incorporada pelo Nome Mágico [Seu Nome Mágico],

Amém.

O Ritual está completo

Considerações finais

Yohan: Venho usando este ritual nos últimos meses com ótima taxa de sucesso na evocação das diversas classes de entidades enochianas. Como um conselho final, não espere ter todos os aparatos descritos nos grimórios, comece a praticar imediatamente pois, o sistema enochiano não depende de condições de tempo ou a lua, para ser efetivo e tudo o que você precisa está ao alcance de sua mão.

Como cita Donald Michael Kraig em seu maravilhoso Modern Magick: Pratique, Pratique e Pratique!!

Robson: pode parecer um esforço muito grande no início desempenhar um ritual “tão longo”, porém, recomendo fortemente que o faça de maneira tranquila (sem pressa), pois o importante não é o final e sim a jornada, curta a experiência, e acima de qualquer coisa esteja presente (em plena atenção) no aqui e o agora, com a pratica você perceberá que se torna cada vez mais rápido e pratico a realização do ritual, não se esqueça de anotar tudo em seu diário magico.

Pode ser frustrante no início, você não ver ou sentir qualquer coisa, mas, isso representa apenas uma coisa, a sua falta de preparo no que é básico a um magista, não significa que nada aconteceu ou mesmo que o anjo não veio, significa apenas que sua capacidade de percepção não pode ainda vivenciar por completo a experiência e lhe falta ainda algum preparo, do qual a pratica constante e determinada pode vir a suprir tal falta.

Esteja bem!


Robson Belli, é tarólogo, praticante das artes ocultas com larga experiência em magia enochiana e salomônica, colaborador fixo do projeto Morte Súbita, cohost do Bate-Papo Mayhem e autor de diversos livros sobre ocultismo prático.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/estrutura-de-um-ritual-enochiano/

As Sete Consonâncias

Excelente texto enviado pelo músico Alvaro Coutinho

Astrologia e música são dois estudos que aparentam ser bem diferentes, afinal de contas, que relação há entre os astros celestiais e uma orquestra? Estranhamente, a correlação entre essas duas matérias sempre existiu, o que é de certa forma bem conveniente, ambas tratam de assuntos que sempre influenciaram o subconsciente do homem. A fascinação de uma pessoa ao olhar o céu estrelado pode se comparar a alguém escutando a Nona Sinfonia pela primeira vez.

Pitágoras, e a Musica Universalis

Esta associação vem de muito tempo, talvez o primeiro, ou mais notório filósofo a estudar isso viveu na Grécia cerca de 2.500 anos atrás, chamava-se Pitágoras de Samos, filósofo, matemático e místico que proporcionou grandes avanços para a humanidade em inúmeras ciências, matemática, astrologia, política, ética, geometria, metafísica… enfim, a lista segue. Todo mundo conhece por exemplo o seu teorema mais famoso (a² + b² = c²), mas essa equação é completamente eclipsada quando comparamos a importância dos estudos sobre música e sua magnum opus, a Musica Universalis.

Para Pitágoras era simples, matemática e música existem em tudo, afinal de contas “tudo é feito de números”, e como a música funciona por meio de funções, então logo, toda a matéria tem a sua música. Sabemos que a matéria reage a vibrações, ou a frequências diferentes, alguns ainda sugerem que matéria é energia condensada em vibrações fracas, logo, como toda vibração tem a sua “nota” específica, tudo o que existe emite um som e reage a sons diferentes. Na música sabemos que relações entre intervalos formam uma harmonia ou uma consonância.

Na época helênica clássica, não existia o conceito atual de notas, mas sim funções numéricas para cada relação de nota. Então, o que hoje seria, por exemplo, um intervalo de oitava (Dó a Dó) era antes uma função de 2:1, ou seja, a vibração emitida por uma corda é o dobro da frequência (Hz) emitida por uma outra coda afinada a uma oitava mais baixa, um intervalo de quinta (Dó a Sol) é 3:2, e por aí vai. Para fazer os seus estudos Pitágoras usava um instrumento chamado monocórdio, que era basicamente uma corda presa sobre uma caixa acústica e com uma ponte móvel, para assim formar notas diferentes.

Pitágoras percebeu então, que se ele dividisse a corda em diferentes regiões e tocasse ambas simultâneamente, ele teria uma combinação de notas que formaria a tal da consonância (do latim, soar junto, bem auto explicativo).

Mudando para a segunda área do assunto, os estudiosos da escola Pitagórica, tinham desenvolvido um conceito ancestral do héliocentrismo, ou seja, já sabiam que cada planeta possuia uma órbita padrão em relação ao sol que poderia ser expressada como uma razão numérica. Então, se ligarmos os pontos, podemos entender que cada planeta formaria uma consonância que influenciaria o comportamento humano e suas emoções. Para nós estudantes de astrologia isso soa bem familiar não?

Surgia assim a teoria da Música das Esferas. Seria Platão posteriormente que afirmaria, astronomia e música são estudos gêmeos em relação aos nosso sentidos: Astronomia para os olhos e Música para aos ouvidos. Claudius Ptolomeu seria o próximo a estudar e desenvolver novas ideias em cima da teoria de Pitágoras. E por fim, talvez o mais genial astrólogo e astrônomo de todos os tempos, Johannes Kepler [1].

Kepler, e a Harmonices Mundi

Kepler, com a sua incessante busca de tentar encontrar a linguagem de Deus no universo, estudou diversas áreas. Sua obra mais memorável, Mysterium Cosmographicum, constava a utilização de geometria, os Sólidos Platônicos para ser mais exato, para criar um modelo do sistema solar. Ele acreditava que estes cinco poliédros seriam sagrados e perfeitos por natureza, e que o criador teria utilizado-os para desenvolver o plano do universo.

Porém, suas pesquisas não se limitaram somente a geometria, ele logo se deparou com a antiga ideia da Música das Esferas. Enquanto os pensadores da sua época utilizavam esta teoria de forma metafórica, Kepler descobriu a harmonia presente dentro do movimento dos planetas analisando sua velocidade angular (este estudo está presente dentro do seu Harmonices Mundi), criando assim a forma final e mais aceita da música das esferas.

Após analisar as proporções musicais e os padrões orbitais, Kepler atribui aos planetas tais intervalos:

(Tradução: Divisões Harmônicas de uma corda, Estas são razões matemáticas para se criar intervalos que Kepler encontrou experimentando ambas consonâncias a respeito de uma corda inteira e a cada outra.) (Notem que não há os intervalos de 2ª, 7ª e 5ª dimunuta, o motivo disso é que estes intervalos não eram considerados harmônicos dentro da divisão) (Na imagem acima a razão de 6ªm está incorreto, na verdade ela é 3:5, não 4:5)

Intervalo (razão) – Planeta, aspecto/função harmônica.

Terça Menor (5:6) – Saturno, aspecto negativo/mediante.

Terça Maior (4:5) – Júpiter, aspecto positivo/mediante.

Quarta Justa (3:4) – Marte, aspecto neutro/sub-dominante.

Quinta Justa (2:3) – Terra, aspecto neutro/dominante. [2]

Sexta Menor (5:8) – Vênus, aspecto negativo/super dominante.

Sexta Maior (3:5) – Mercúrio, aspecto positivo/super dominante.

Oitava (2:1) – Sol, aspecto neutro/tônica. [3]

Esta classificação pode variar de autor para autor, Kepler não foi o único que realizou este estudo, porém, por ter sido um astrólogo extremamente genial, eu considero esta como a mais aceita, devemos levar em consideração também, que ele foi mais fiel as ideias de Pitágoras.

Outra questão a ser levada em conta é o fato de que a afinação padrão atual (A=440hz) é diferente da utilizada nos tempos de Pitágoras e até mesmo de Kepler, antigamente era utilizada a afinação de A=432hz (que por sinal se chama afinação pitagórica), então sim, nem sempre a música feita pelo homem soou da mesma forma, mas esse é assunto para um outro dia…

Considerações Finais

A beleza do nosso universo não se limita somente em leis de física e equações, nem mesmo a luzes brilhantes no céu, planetas girando e estrelas queimando, há muito mais para se sentir no cosmo. O universo por sua totalidade canta uma ópera que nossos limitados ouvidos não podem ouvir, mas que agem sobre todos nós de uma forma misteriosa e silenciosa.

Procuramos na música feita pelo homem uma beleza que não se pode expressar por imagens ou toques, a música é a arte mais abstrata que existe, e talvez por esta razão, a que mais toca a alma das pessoas. Tentamos alcançar a perfeição feita pelo universo (ou criador, ou natureza, quem ou o que fez não importa) porque assim nos sentiremos mais reconfortados, nos sentiremos como uma parte mais expressiva desta imensidão.

Cada um de nós é, afinal, um amontoado de notas mudas tentando se encaixar na grande sinfonia cósmica.

[2] Em algumas fontes o intervalo de quinta justa é associado ao Sol, enquanto a Terra em si não possui um intervalo definido.

[3] Também é comum associar a Lua ao intervalo de oitava.

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#Espiritualidade #Astronomia #Arte #Música #Astrologia #Ciência

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-sete-conson%C3%A2ncias

Gigantes

Entre os pergaminhos de Qumran foram encontrados fragmentos de uma obra conhecida como “Livro dos Gigantes”, que seria uma espécie de comentário ou complemento ao Livro de Henoc. O Livro dos Gigantes conta que Semihazah, o líder dos Vigilantes, teve dois filhos de sua esposa humana chamados ‘Ohyah e Hahyah. Também Baraq’el, o nono vigilante chefe de dezena, foi pai de Mahawai. – Além destes, entre os nomes de gigantes citados entre os fragmentos do mar morto constam os “amigos” «Hobabes e ADK»
A Segunda versão Etíope narra que Asbeel «deu um conselho aos filhos dos Anjos, fazendo com que corrompessem os seus corpos com as filhas dos homens.» (I Enoch LXIX). Assim, seguindo o exemplo dos pais, também “se contaminaram, os Gigantes e os Nefilim”, tomando esposas para “engendraram filhos” mas logo não havia alimento suficiente para todos, o que causou um grande problema entre seus súditos: «Os gigantes (diziam) que não lhes bastava a eles e a seus filhos (o alimento oferecido) […] e pediam muito para comer»

«Hobabes e ADK (perguntavam…): Que me dará para matar?»

Por fim, desesperados de fome, e não podendo ser satisfeitos com o trabalho humano, os Gigantes começaram a destruir praticamente tudo que encontraram pela frente: «A impiedade foi grande, e eles erravam em todos os seus caminhos.» Um curioso fragmento, menciona esta passagem do ponto de vista do próprio ‘Ohyah: «E com o vigor de meu braço e com a força de meu poder […] (abati) toda carne, e fiz guerra com eles. Porem não […] encontrei apoio para fortalecer-me, pois meus acusadores […] habitam nos céus e vivem com os santos, e não (posso vencê-los) […] pois eles são mais poderosos que eu.». – Mais tarde, ‘Ohyah e Hahyah tiveram pesadelos, “e o sonho fugiu de seus olhos”: «Chegou o frêmito das feras selvagens, e gritaram um bramido selvagem […] Assim lhe falou ‘Ohyah: “Meu sonho me abateu. […] fugiu o sonho de meus olhos ao ver a visão”». Os irmãos levantaram-se e foram a Shemihaza, seu pai, e lhe contaram seus sonhos. Hahyah relatou:

«Vi em meu sonho desta noite […] jardineiros; estavam regando (uma árvore…) numerosas raízes saíam de seu tronco […] olhei até que se fecharam as fontes (… e esgotaram-se) todas as águas e o fogo ardeu em todo (o tronco…) Aqui se acaba o sonho.»; «Então ‘Ohyah, seu irmão, reconheceu e disse ante os gigantes: Também eu vi em meu sonho esta noite algo extraordinário: O Poder dos céus descia à terra […] aqui acaba o sonho. Então se assustaram todos os Gigantes, e os Nefilim e chamaram Mahawai e ele veio a eles.»

Os gigantes buscavam quem lhes explicasse o sonho. Por isso suplicaram a Mahawai e lhe enviaram até Henoc, o escriba distinto, e lhe disseram: “Escuta sua voz e diz-lhe que te explique e interprete o sonho” Entretanto, a explicação de Henoc anunciava-lhes punição e morte pela “violência feita aos homens”: «Então castigou e não a nós, (os justos), mas a Azazel», e também aprisionou e capturou «aos filhos dos Vigilantes, os Gigantes; e não serão perdoados nenhum de seus queridos.» Então eles «se prostraram e choraram ante Henoc» – Procurando manter a calma, ‘Ohyah disse a Mahawai: «E não trema. Quem te mostrou tudo?»; Disse Mahawai: «Baraq’el, meu pai, estava comigo.»; «Apenas havia acabado Mahawai de contar o que (… Henoc) lhe disse: “Eu ouvi maravilhas. Se uma estéril pode dar à luz (ainda havia uma chance deles serem perdoados)…”» Mahawai deixou «a terra e cruzou a Desolação, o grande deserto», Então viu Henoc, chamou-o e lhe disse: «”Pela Segunda vez eu te peço um oráculo […] a tuas palavras, junto com todos os Nefilim da terra”»; «”Que saibamos de ti sua explicação”.» – Henoc, o escriba distinto, fez cópias em duas pequenas tábuas das epístulas escrevendo «em uma o testemunho dos gigantes (a Semihaza e a todos os seus companheiros) e na outra [o testemunho dos santos]». Então levou as tábuas «com todas as suas petições, por suas almas, por todas e cada uma de suas obras e por todos o que pediam: que houvesse para eles perdão e longevidade.» Mas o perdão lhes foi negado. Disse Henoc:

«Sabei que não (serão perdoadas …) vossas obras e as de vossas mulheres»; «(Serão castigadas) elas e seus filhos e as mulheres de seus filhos (…) por vossa prostituição na terra.»; «E vos acusa a vós, pelas obras de vossos filhos (…) a corrupção com a qual tendes corrompido (…) até a vinda de Rafael. Eis que haverá destruição (…) Agora, pois, desligai vossas correntes (…) e rezai.» || «Que não haja paz para voz.»

Depois de repreender os Vigilantes e seus filhos, Henoc falou aos justos: «Palavras de bênção com as quais abençoou Henoc, varão justo a quem foi revelada uma visão do Santo e do céu, pronunciou seus oráculos dizendo: A visão do Santo do céu me foi revelada e ouvi todas as palavras dos Vigilantes e dos Santos e, porque o escutei deles, eu soube e compreendi tudo. Não falarei para esta geração mas para uma geração futura. Agora falo acerca dos eleitos, sobre eles pronuncio meu oráculo dizendo: Sairá o grande Santo de sua morada, e o Deus eterno descerá sobre a terra e irá ao monte Sinai e aparecerá com seu grande exército, e surgirá na força de seu poder do alto dos céus. Todos os Vigilantes tremerão e serão castigados em lugares secretos em todas as extremidades da terra; todas as extremidades da terra se fenderão e eles serão possuídos de tremor e medo até os confins da terra. Fender-se-ão e cairão e se dissolverão os altos e as altas montanhas serão rebaixadas…»

Por Shirley Massapust

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/gigantes/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/gigantes/

A Luz que não é

Por Kenneth Grant, Nightside of Eden, Capítulo III.

SEGUNDO A sabedoria oculta a Consciência Cósmica se manifesta na humanidade como sensibilidade que se concentra em um centro individualizado de consciência e divide-se em sujeito e objeto. O sujeito se identifica com o princípio consciente como ego, e o objeto é o seu mecanismo de consciência. Esta identificação de consciência com ego é ilusória e portanto o Princípio de Consciência é velado. [68] O ego se imagina como sendo uma entidade distinta dos objetos que ele sente e, ao invés de pura sensação, audição, visão, gustação, conhecimento, existe a falsa suposição que ‘eu sinto’, ‘eu ouço’, ‘eu vejo’, ‘eu experimento’, ‘eu conheço’. É assim que o mundo fenomenal (o mundo das aparências) é representado para nós como Malkuth. O processo inteiro, de Kether a Malkuth, é o de coberturas sucessivas acompanhado de uma perda crescente de consciência do Princípio de Consciência, sendo o pleno propósito da encarnação a ‘redenção’ e reintegração do Princípio perdido.

Budistas e Advaitas consideram estes véus como totalmente ilusórios, ao passo que outros os consideram como modificações do Princípio original. Sob quaisquer pontos de vista em que estes sejam considerados o problema continua inalterado: como resolver o perpétuo jogo de esconde esconde [69] que Kether joga através dos véus primários de sujeito e objeto (Chokmah e Binah), sendo o nexo deste localizado em Daäth. A causa do mistério, glamour, ou ignorância como os Budistas o chamam, é a identificação inicial e mal entendida do Self com seus objetos. Isto é causado principalmente pelo fato que, como os Qabalistas reivindicam, “Kether está em Malkuth e Malkuth está em Kether, porém de uma maneira diferente’. A presença de Kether em Malkuth [70] cria uma ilusão de realidade em todos os objetos. Este glamour engendra sensibilidade a qual desnorteia e submerge o Self em ilusão. Srí Ramakrishna compôs e cantou muitos hinos de transcendente beleza à sua ‘Maya encantadora do mundo’ ou jogo mágico de glamour e ilusão gerada nos sentidos da humanidade que confunde o irreal com o Real.

Kether é o foco da Consciência Cósmica, e a sua primeira manifestação é Luz [71]. O Ain, que é sua fonte, não é Escuridão mas a Ausência de Luz, e portanto a verdadeira essência da Luz. Kether é o ponto infinitesimal no espaço-tempo no qual a Ausência de Luz se torna sua Presença ao virar o Vazio (Ain) no avesso (de dentro para fora). Kether, e a Árvore da Vida resultante, podem portanto ser concebidos como o interior do Vazio [se] manifestando em Espaço, que é o mênstruo da Luz.

No microcosmo esta Luz se manifesta como a luz da consciência que ilumina a forma. Ela é a luz pela qual, e na qual, um pensamento pode ser visualizado na escuridão da mente; como os sonhos aparecem na escuridão do sono. Na esfera celestial, a consciência se manifesta como luz física, o sol. No reino mineral ela se manifesta como ouro. Biológicamente considerada ela é o falo que perpetua a semente de luz (consciência) no reino animal. Estas luzes são Uma Luz (Kether) e elas provém de uma infinita ausência de luz (Ain). Ao se derramar através de Kether ela é dividida em três raios que formam os três ramos supernos da Árvore. Estes possuem três pylons (portais_?): Chokmah, Daäth, e Binah, assim concentrando 16 kalas [72] que, com seu reflexo no mundo da anti-matéria (o Ain) constituem os 32 Caminhos ou Kalas da Árvore da Vida.

Escuridão é ausência de luz, uma ausência que torna possível a presença de tudo que parece ser. Não-ser, cujo símbolo é a escuridão, é a fonte do Ser, e entre estes dois terminais existe uma solution de continuité (solução de continuidade) representada pelo Abismo que separa o mundo numênico de Kether, com seus terminais gêmeos, [73] do mundo fenomenal de Malkuth. O ponto exato de discontinuité (descontinuidade) é marcado pelo Pylon de Daäth no meio do Abismo. Daäth é conhecimento do mundo fenomenal refletida para baixo através dos Túneis de Set na parte posterior da Árvore. Este conhecimento, ou Daäth, é a morte do Self. Ele representa o estágio primário no qual as mortalhas são tecidas em volta da múmia que entra em Amenta no Deserto de Set. Ele aparece na frente da Árvore como a semelhança aparentemente viva do ego com o qual ele se identifica em sua descida gradual para dentro da matéria (Malkuth). Seu despertar para a consciência mundana é em realidade um sono e uma morte dos quais o Princípio de Consciência original pode ser salvo apenas atravessando os Caminhos de Amenta em reverso. Esta jornada para trás através dos Túneis de Set começa no Tuat, a passagem preliminar ou 32o Caminho que conduz de volta de Malkuth (consciência mundana) até as esferas astrais de Yesod.

As tradições orientais tem tipificado esta descida de Consciência nos termos dos três estados de consciência sushupti (sono), svapna (sonho), e jagrat (vigília), e sua reintegração em um quarto estado – turiya – que não é realmente um estado definitivamente, mas o substrato dos outros três e o único elemento real naqueles três. Turiya se iguala com Kether (Consciência Indiferenciada), Sushupti se iguala com Daäth, Svapna com Yesod, e Jagrat com Malkuth. Este esquema se iguala à doutrina cabalista: O estado de sono profundo e sem sonhos (sushupti) é um estado no qual a mente não está consciente do universo objetivo ou fenomenal. Ele é vazio no sentido em que está isento de pensamento (imagens), e escuro no sentido em que dentro deste a luz está ausente. Sushupti funde-se em Svapna, o estado de objetividade subjetiva, ou sonho, porque Kether cria no vazio de Sushupti uma tensão que se manifesta como vibração. Esta tensão é refletida no mundo dos sonhos (Yesod) como sensibilidade latente nas zonas de poder micro cósmicas (chakras) nos quais ela assume formas elementais de éter, fogo, ar, água, e terra. Em outras palavras, esta vibração se manifesta como os seis sentidos que, por sua vez, são projetados como fenômenos objetivos no estado de vigília (jagrat; Malkuth). Desta maneira um estado ou mundo de consciência funde-se em outro. Similarmente, um estado ou nível de Consciência Cósmica se desenvolve e evolui em outro até que o Princípio de Consciência original seja objetivado com densidade crescente. Desta maneira o mundo do ‘nome e forma’ parece ao ego (o pseudo sujeito) como ‘realidade’, enquanto que no fato real a Realidade se retira enquanto o Princípio de Consciência retrocede e retorna ao ponto de sua ausência original.

Daäth como [sendo] o ego é a sombra-shakti ou poder ocultador de Kether no momento ultra rápido (como o raio) de sua bifurcação em Chokmah (sujeito) e Binah (objeto). O ego é uma sombra, mas ele é a sombra da realidade. É impossível expressar este conceito na linguagem da dualidade. Realidade é Não-Ser, e o ego é o reflexo ou reverso da Realidade nas águas do Abismo; mas a imagem não está apenas revertida, ela está também invertida. [74] Nos termos da Tradição Draconiana o ego é a miragem que aparece no Deserto de Set.

A exaltação do ego em Daäth e sua reivindicação em ser a Coroa [75] é a blasfêmia contra a divindade, e aqueles que estabeleceram este falso ídolo tem sido chamados de Irmãos Negros (Black Brothers). Por este ato eles banem a si mesmos para o Deserto de Set pela duração de um aeon; ou, se profundamente comprometidos com a hierarquia inversa, eles podem manter esta soberania de sombra durante ‘um aeon e um aeon e um aeon’, um kalpa inteiro ou Grande Ciclo de Tempo. O falso rei dura até que o kalpa seja eliminado por um Mahapralaya. [76] Contudo, tais Irmãos Negros não devem ser confundidos com os Irmãos Negros cujo ídolo não é o ego mas um certo Chefe secreto de uma hierarquia verdadeiramente inversa que resume todos os 777 [77] caminhos na parte posterior da Árvore. Eliphas Lévi indicou esta hierarquia em termos de ‘magia negra’ e do Chefe Bafomético iluminado com o enxofre do inferno e adorado pelos Templários. Outra Adepta que teve um breve vislumbre desta Hierarquia Negativa foi H.P.Blavatsky, embora sua imensa luta para retirar através do véu algum fragmento(?) de seus negros mistérios resultou apenas na confusão volumosa de suas duas obras monumentais. [78] Talvez a Ísis que ela buscou desvelar não fosse a Ísis da natureza manifesta na matéria, mas a Nova Ísis do Não Natural, da antimatéria, com seus vazios do ser e buracos negros no espaço. Antes de explorar os Túneis de Set temos que estabelecer o fato de que os mistérios do Não Ser, embora não interpretados nos tempos antigos no modo pelo qual nós os interpretamos hoje, foram não obstante considerados como possuindo um significado que era tanto vital como ameaçador. Isso é o mais surpreendente uma vez que é apenas dentro dos cinqüenta anos passados ou mais que estes assuntos obscuros tem sido iluminados através de descobertas surpreendentes nos campos da física nuclear e sub-nuclear e psicologia, nenhuma das quais tendo sido demonstrada cientificamente quando a doutrina cabalística estava sendo evoluída.

Ainda assim outro adepto dos tempos recentes, Salvador Dali, sugeriu através das ausências negras que surgem abruptamente em algumas de suas pinturas a doutrina do não-ser, do negativo,do numênico que é a Realidade subjazendo a existência fenomenal. [79]

Embora haja uma solução de continuidade entre os dois mundos – representados pelas partes anterior e posterior da Árvore – existe nada mais do que uma copula, e ela reside em uma função peculiar da sexualidade. Ela não é uma ponte em qualquer sentido positivo, e portanto ela não pode ser descrita, contudo ela pode ser pressagiada através da analogia de um raio brilhando entre eletrodos invisíveis de eletricidade positiva e negativa. As dimensões interiores do não-ser podem ser iluminadas pelo brilho ofuscante liberado pela energia sexual descarregada em conexão com certas técnicas de magia(k) Tifoniana na qual a energia pré- conceitual é capturada pelos mais tênues tentáculos da consciência assim que ela vaza através do véu do vazio a partir do olho transplutônico (Ain) além de Kether.

O Livro de Dzyan, O Livro da Lei, e os Livros Sagrados Thelêmicos, todos os quais tem sido disponibilizados durante o século passado, contém fórmulas mágicas que tem sido utilizada desde tempos imemoriais, mas não existe ainda nenhum comentário adequado à qualquer um deles, pois ambos Blavatsky e Crowley – avançados como eles indubitavelmente eram – estavam limitados por uma atitude basicamente de velho aeon perante o Vazio. Crowley, talvez em virtude de uma identificação consciente com a Corrente Draconiana (através dos mistérios do número 666), tinha compreendido intuitivamente a possibilidade de um anti-Cristo e um anti-Espírito embora ele não pudesse, ao que parece, confrontar a idéia de anti-Logos! Isto é evidenciado pelo horror com que ele se referiu ao Aeon que não possui nenhuma Palavra, um aeon ainda por vir ao qual ele atribui a letra Zain. [80] Apenas um Adepto, que eu saiba, estava atento ao fato de que Crowley não pronunciou uma Palavra, porque, sendo identificado com a Besta ele era incapaz de formulá-la [81]. Mas a reversão à falta de fala e incapacidade bestial de pronunciar uma palavra não explica a falha de Crowley que estava enraizada em sua inabilidade de sondar a dimensão atemporal onde a verdadeira anti-palavra (anti-cristo) verdadeiramente se obteve. [82]

Um exame sobre a versão de Dion Fortune sobre a Doutrina Cósmica revela uma relutância similar, ou talvez uma inabilidade genuína em perceber interiormente (insee_?) a questão a qual é a de que a Magia(k) da Luz (LVX) não se relaciona nem com magia branca nem com magia negra mas com uma corrente oculta que, como Austin Spare corretamente assumiu, vibra nos espaços intermediários [entre os espaços]; nos interstícios, por assim dizer, da ausência de espaço espiritual que existe em um vazio necessariamente atemporal por detrás, ou em algum lugar fora, da Árvore.

Se Daäth, cujo número é onze, [83] for contada junto com as quatro sephiroth remanescentes do Pilar do Meio, [84] o número 37 será obtido. Este é um número primo significando a plena manifestação da corrente mágica simbolizada por Set ou Shaitan. [85]

Aquilo que era conhecido pelos Cabalistas como a Árvore da Morte era de fato o outro lado da Árvore da Vida, e as qliphoth eram forças ‘demoníacas’, os anti-poderes ocultados nos túneis de Set que formavam a rede interior e reflexo reverso dos Caminhos.

O célebre Cabalista Isaac Luria (1534-1572) compôs as seguintes linhas as quais Gershom Scholem [86] descreve como um ‘exorcismo dos “cães insolentes”, os poderes do outro lado’:

Os cães insolentes devem ficar do lado de fora e não podem entrar, Eu chamo o ‘Antigo dos Dias’ à noite até que eles sejam dispersados, Até que sua vontade destrua as ‘conchas’. Ele os lança de volta para dentro de seus abismos, eles devem se esconder profundamente em suas cavernas. [87]

Os cães insolentes são, em um sentido muito especial, ‘os cães da Razão’ (i.e. de Daäth) mencionados em AL, capítulo 2, verso 27. A atribuição do cão aos reinos infernais deriva do Egito onde o chacal ou raposa do deserto é o típico habitante do Abismo, sendo ambos estes animais totens de Set. O simbolismo ilumina o capítulo 2, verso 19: ‘Deve um Deus viver em um cão? Não! mas os mais elevados são de nós . . .’ Cão, que é a palavra Deus ao contrário, indica o Pylon de Daäth através do qual o cão da razão entra no Abismo e ‘perece’. Um deus não deve ‘viver em um cão’, mas os ‘mais elevados são de nós’. O mais elevado é a altura representada pela oitava cabeça da Serpente que habita no Abismo. Os ‘mais elevados são de nós’ implica que existem outros três: a tríada superna ou mais elevada da Árvore, consistindo de Kether, Chokmah e Binah. Junto com o oitavo (ou mais elevado) estes três formam onze. A deusa Nuit (que é Não) proclama no capítulo 1, verso 60: ‘Meu número é 11, como todos os seus números que são de nós’. Estas palavras fornecem a chave para o mistério do Oito e do Três, ou o Um e o Três, [88] pois a Serpente é Uma embora ela tenha oito cabeças. [89] Onze é o número da magia(k), ou ‘energia tendendo à mudança’, e é no pylon de Daäth que esta morte ou modificação mágica ocorre. Daäth é o único ponto na Árvore que dá acesso ao mundo de Nuit (Não). A palavra ‘nós’, em ambos os versos, é cabalisticamente igual a 66 que é o ‘Número Místico das Qliphoth e da Grande Obra’. [90] Então aqui há uma chave para o real significado das Qliphoth que tem iludido cabalistas e ocultistas do mesmo modo, pois poucos tem sondado a função das qliphoth com relação à Grande Obra. Entretanto quando se percebe que o ‘mundo das conchas’ é formado pelo lado reverso da Árvore é possível compreender porque ele tem sido considerado como inteiramente maligno.

As qliphoth não são apenas as conchas dos ‘mortos’ mas, de forma mais importante elas são as anti-forças por trás da Árvore e o substrato negativo que subjaz toda vida positiva. Como no caso do Livro dos Mortos egípcio, cujo título significa seu oposto preciso, [91] assim também a Árvore da Morte judaica é a fonte numênica da existência fenomenal. É a última que é falsa pois o mundo fenomenal é o mundo das aparências, como seu nome implica. A fonte numênica por si É, porque ela NÃO é. Uma vez que esta verdade seja compreendida torna-se evidente que os antigos mitos sobre o mal, com sua demoníaca e terrificante parafernália de morte, inferno, e o Demônio, são sombras distorcidas do Grande Vazio (o Ain) que persistentemente assombra a mente humana. Estes mistérios são explicados em termos cabalísticos pelo número 66 que é a soma da série de números de um a onze. 66 é o número da palavra LVL que significa ‘torcer’ ou ‘circundar’(o outro lado da Árvore). Como já foi notado, a humanidade está ‘reservada a fazer um giro ao redor das costas da Árvore’ durante o Aeon de Zain. Este é o Aeon que não possuirá nenhuma Palavra porque este é o Aeon do anti-logos que será vivido no reino do cão, o que é um modo simbólico de denotar as costas da Árvore. Além do mais, Zain está conectado com o simbolismo ‘gêmeo’ de Gemini, e uma espada denotou a mulher, ou o que parte em dois (?), como mostrado na oitava chave do Taro. Esta chave também contém a fórmula do Amor através da polarização, pois no Aeon de Zain a humanidade terá transcendido as ilusões de tempo e espaço, tendo compreendido a base numênica da consciência fenomenal.

Segundo a tradição oculta o homem alcançará a iniciação final pelo Fogo antes do fechamento ou retirada final do presente Mahakalpa. [92] Sessenta e seis é também o número de DNHBH, o nome de uma Cidade de Edom que é a sombra da Cidade das Pirâmides (Binah, ) no Deserto de Set (). Seu pylon, Daäth, é o santuário daquele Chefe Secreto (o Oitavo) que os Templários adoravam sob a imagem de Baphomet, o Deus do Nome Óctuplo, Octinomos. Crowley assumiu a forma-deus de Baphomet como ‘Chefe’ da O.T.O. [93] Oito mais três (a Tríada Superna) constitui o Sagrado Onze: o número daqueles ‘que são de nós’. ‘Nós’ (66) é também o número de ALHIK que é interpretado em Deuteronômio, iv, 24, como ‘O Senhor teu Deus (é um fogo que consome)’. Pode ser demonstrado que este fogo é a Serpente de Fogo ou Corrente Ofidiana. 66 é o número de Gilgal (GLGL) ‘uma roda’ ou ‘espiral’ e é instrutivo notar que a tradição hindu dos chakras, ou rodas de força, confirma a interpretação egípcio-caldaica dos mistérios de Daäth.

Se um diagrama da Árvore da Vida for superposto de ponta cabeça sobre uma forma correta desta, vários fatos significativos virão à tona. Tiphareth permanece central, o pivô ao redor do qual nós giramos a Árvore invertida; mas ao invés do Fogo Branco do Sol nós agora temos o Fogo Negro de sua anti-imagem; e Kether se tornou Malkuth como se para ilustrar, literalmente, o texto ‘Kether está em Malkuth e Malkuth está em Kether, mas de uma maneira diferente’. Esta ‘maneira diferente’ se refere à um modo mágico associado com a fórmula do cão que, segundo meu conhecimento, foi indicada apenas em um exemplo – a saber: no Liber Trigrammaton. [94] Este livro é descrito por Crowley como um informe sobre o processo cósmico correspondente às stanzas de Dzyan em outro sistema’. [95] Finalmente, porém mais significativamente, Yesod agora cobre Daäth. Yesod é o assento das forças sexuais e do aspecto mais denso das energias eletromagnéticas da Serpente de Fogo. Ele é a morada de Shakti e o local ou centro especial de culto dos devotos de Shaitan (Set) entre os Yezidis. [96] Daäth potencializada por Yesod se torna portanto a Palavra energizada, o linga ao invés da língua, pois Daäth se equaciona com o Visuddha Chakra, como Yesod se equaciona com o Muladhara. [97] A ligação entre linguagem, [98] representada pela Palavra (Visuddha Chakra) e o linga, representado pelo Muladhara, é óbvia porque o Logos é a forma assumida pelo linga quando ele pronuncia sua Palavra suprema. [99]

A característica peculiar de Daäth sózinha é que as condições de iniciação obtidas nesta esfera requerem a total desintegração da Palavra. Em outras palavras: O Muladhara encontra seu anti-estado em Daäth, e a Palavra permanece não pronunciada. Isto em si mesmo inicia o Aeon de Zayin, que é um aeon subjetivo que começa se e quando um Adepto salta os vazios por trás da Árvore. Esta é a Grande Obra implicada pela fórmula de viparita como tipificada pelo reverso da Árvore.

Notas:

68 Isso é descrito no Liber LXV (verso 56, capítulo IV) como o ‘Erro do Início’. Esta é a falha essencial notada pelos Árabes, a ‘Queda’ original.

69 No Hinduísmo, este Jogo é descrito como um ‘Lila’ que tem sido traduzido como ‘esporte divino’, ‘máscara’ ou a eterna Dança de Shiva e Shakti. Esta ilusão básica mais tarde fez surgir o conceito de ‘pecado original’ que foi pervertido pelos cristãos se tornando uma doutrina de importância moral.

70 i.e. Consciência ou Sujeito em todos os objetos.

71 A LVX ou Luz da Gnose.

72 O número de Chokmah é 2; o de Daäth, 11; e Binah é 3; 16 kalas no total.

73 Chokmah (sujeito) e Binah (objeto).

74 Vide o Grande Símbolo de Salomão; figura 1 em Magia Transcendental de Eliphas Lévi.

75 Um título de Kether.

76 Literalmente, Grande Dissolução. O retrocesso para dentro do Vazio [por parte] do Universo após sua manifestação na matéria. Um Mahapralaya ocorre após cada sete fases de existência manifesta. Vide Aleister Crowley e o Deus Oculto, capítulo 4.

77 O número total de Caminhos e Sephiroth da Árvore da Vida.

78 Ísis Sem Véu e A Doutrina Secreta. Estas obras estão repletas com alusões à mistérios que são iluminados pela Tradição Draconiana e são explicadas no presente volume.

79 Vide em particular a pintura entitulada ‘Acomodação dos Desejos’, reproduzida em A Vida Secreta de Salvador Dali, e em outros lugares.

80 Vide capítulo anterior.

81 O adepto em questão era Charles Stansfeld Jones (1886-1950), conhecido como Frater Achad. Vide Cultos da Sombra, capítulo 8.

82 Frater Achad, com sua fórmula de reversão e negação, parece ter chegado mais próximo do verdadeiro significado de AL do que o próprio Crowley, pois os comentários de Crowley revelam uma abordagem consistentemente positiva e consequentemente fenomenal ao seu significado.

83 Daäth é 11 e 20, e portanto 31, AL, a Palavra Chave do Aeon de Hórus. 84 10 + 9 + 6 + 11 + 1 = 37.

85 Três, o número de Set ou Saturno, multiplicado por 37 resulta em 111 que é o número de Samael (Satã), Pan, e Baphomet.

86 A Kabbalah e seu Simbolismo (Routledge, 1965).

87 Velho dos Dias’, usualmente traduzido como ‘Antigo dos Dias’, é um título de Kether. As ‘Conchas’ são as qliphoth.

88 Existe um mistério maior aqui que concerne a letra de fogo – Shin. De acordo com o Sefer há-Temunah esta letra em sua forma completa possui quatro, não três, línguas. Scholem observa (ibid, pagina 81) ‘Em nosso aeon esta letra não é manifestada e portanto não ocorre em nosso Torah’. Também, ‘Todo aspecto negativo está conectado com esta letra ausente’. Shin, é a tripla língua de fogo, e a letra de Set ou Shaitan, também de Chozzar o deus da Magia(k) Atlante, e de Choronzon, a Besta do Abismo.

89 Hadit diz no capítulo 2, verso 30: ‘Eu sou oito, e um em oito’.

90 Liber D. (Vide O Equinócio, volume I, No.8).

91 i.e. O Livro dos Sempre Imortais.

92 Fogo = a chama de 3 línguas representada pela letra Shin. Segundo Crowley (Diário Mágico, p.144) ‘Shin é o Fogo de Pralaya, o “Juízo Final” ‘.

93 Ordo Templi Orientis, A Ordem do Templo do Oriente, da qual Crowley foi em uma ocasião o Grão Mestre.

94 Vide Os Comentários Mágicos e Filosóficos sobre o Livro da Lei. (Ed.Symonds and Grant; 93 Publishing, Montreal, 1974).

95 A referência é ao sistema exposto por H.P.Blavatsky.

96 Vide a Trilogia Tifoniana (Grant/Muller, 1972-75) para um informe completo sobre esta zona de poder.

97 As regiões da garganta e dos genitais respectivamente.

98 Mais corretamente, langage, no sentido de uma língua sagrada.

99 i.e. no momento do orgasmo.

***

Revisão final: Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-luz-que-nao-e/

Antonin Artaud

1896 -1948

Rodrigo Emanoel Fernandes com Liege Seraphin e Maíra Silvestre

Artigo originalmente escrito para a disciplina “Interpretação II” do curso de Graduação em Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina – UEL, sob orientação da Prof. Thaís D’Abronzo.

Onde outros propõem obras eu não pretendo senão mostrar o meu espírito.

A vida é queimar perguntas.

Não concebo uma obra isolada da vida. Não amo a criação isolada. Também não concebo o espírito isolado de si mesmo. Cada uma de minhas obras, cada um dos planos de mim próprio, cada uma das florações glaciares da minha alma interior goteja sobre mim.

Reconheço-me tanto numa carta escrita para explicar o estreitamento íntimo do meu ser e a castração insensata da minha vida, como num ensaio exterior a mim próprio, que me surja como uma gestação indiferente do meu espírito.

Sofro por o espírito não estar na vida e por a vida não ser o espírito, sofro por causa do espírito-órgão, do espírito-tradução ou do espírito-intimidação das coisas para as fazer entrar no espírito.

Este livro, suspendo-o na vida, quero que seja mordido pelas coisas exteriores, e em primeiro lugar por todos os sobressaltos cortantes, todas as cintilações do meu eu por vir.

Todas estas páginas se arrastam como pedaços de gelo no espírito. Perdoe-se-me a minha liberdade absoluta. Recuso-me a estabelecer diferenças entre qualquer um dos momentos de mim mesmo. Não reconheço no espírito nenhum plano.

É preciso acabar com o espírito, tal como com a literatura. Afirmo que o espírito e a vida comunicam a todos os níveis. Gostaria de fazer um livro que perturbasse os homens, que fosse como uma porta aberta e os conduzisse onde nunca teriam consentido ir, uma porta simplesmente conectada com a realidade.

E isso é tão pouco um prefácio a um livro, quanto, por exemplo, os poemas que o balizam ou a enumeração de todas as raivas do mal-estar.

Isto não é senão um pedaço de gelo mal digerido.

(Artaud: O Umbigo dos Limbos, in: O Pesa-Nervos; 1991, pg.13-14)

1. DOR… TEATRO… SOLIDÃO…

Antonin Maria Joseph Artaud (um nome completo raramente mencionado e surpreendentemente sugestivo), nasceu em 4 de setembro de 1896 na cidade de Marselha. Primogênito de uma família de nove irmãos, dos quais apenas três chegaram a idade adulta, em 1901 é acometido de uma grave meningite, da qual não se salvará sem seqüelas. Apenas o início de uma vida de constantes sofrimentos físicos e psíquicos originados de distúrbios no sistema nervoso central. Esse sofrimento, que Artaud nunca desistiu de tentar descrever das mais variadas formas, é de fundamental importância para a compreensão de seu teatro e suas idéias. Constantemente afligido por dores e uma sensação de opressão na cabeça, ombros e pescoço, Artaud afirmava ter sérias dificuldades em ordenar seus pensamentos e dar-lhes uma forma exterior.

A horrível compressão da cabeça e do alto da coluna vertebral, o peito opresso, as visões de sangue e de morte, os torpores, as fraquezas sem nome, o horror geral em que me encontro mergulhado com um espírito no fundo intacto, tornam inútil esse espírito.

(Artaud citado por Virmaux: Artaud e o Teatro;1978, pg10)

Esse “espírito intacto” era o que lhe garantia a lucidez necessária para a criação e para a capacidade de expor seu mal sem, entretanto, conseguir alivia-lo. Com o passar dos anos, Artaud torna-se obcecado com a idéia de que sua agonia (que não deixou de ser um estímulo cruel à sua necessidade imperativa de expressão que acabaria por leva-lo à arte e ao teatro) tinha uma origem metafísica:

Eu não tenho vida!!! Minha efervescência interna está morta! (…) Asseguro-te que não há nada em mim, nada naquilo que constitui a minha pessoa, que não seja produzido pela existência de um mal anterior a mim mesmo, anterior à minha vontade, nada em nenhuma das minhas mais hediondas reações, que não venha unicamente da doença e não lhe seja, em qualquer dos casos, imputável.

(Artaud citado em: Artaud e o Teatro;1978, pg.11)

Essa deterioração corporal e psíquica tornava extremamente difícil seu convívio social e a criação de elos verdadeiros com seus semelhantes. Artaud usa o teatro e sua capacidade única de expressão física, intelectual e – como não cansa de reiterar – metafísica, como seu meio privilegiado de comunicação, de grito. Sua prática teatral é permanentemente voltada para a idéia de uma “cura cruel”, para si mesmo e para a raça humana. Seu “corpo sem órgãos”, seu corpo novo, reconstruído, imortal, finalmente senhor de seu próprio destino e de sua própria anatomia.

Os primeiros passos no teatro dão-se a partir de 1920, quando muda-se para Paris, depois de passar por constantes internamentos em sanatórios, particularmente para desintoxicações, necessárias para manter em níveis aceitáveis a dependência do ópio, adquirida por ocasião dos primeiros tratamentos.

Preciso encontrar uma certa quantidade cotidiana de ópio. (…) pois tenho o corpo ferido nos nervos das medulas e isto é irremediável, incurável, absolutamente irremissível, não existe operação cirurgical que possa restituir ao organismo os nervos que ele perdeu.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.79)

Apesar de seu estado de quase miséria, sobrevivendo muitas vezes graças à cortesia de amigos que lhe ofereciam abrigo e comida, Artaud mantém uma atividade intelectual e profissional frenética, atuando em diversos espetáculos, publicando artigos e poesias e obtendo uma posição de destaque no movimento surrealista (que, posteriormente, criticaria por seu posicionamento político, de forma lúcida, porém cortante). O período de 1920 até 1932 viu o nome da Artaud crescer como uma figura ímpar e polêmica do teatro e da poesia francesas. Trabalhou em todas as frentes da atividade teatral: ator, encenador, cenógrafo, iluminador, escritor, sonoplasta e produtor, participando de inúmeras companhias sem pertencer realmente a nenhuma, exceto – em termos – o conhecido experimento do “Teatro Alfred Jarry”, cujos frutos foram quatro espetáculos e oito representações, entre 1926 e 1930. Além disso, não lhe faltaram oportunidades para trabalhar no cinema, em filmes notórios e raros como “A Paixão de Joana d’Arc”, de Dreyer (1928) e “Napoleão”, de Gance (1925-1927), interpretando Marat. Sem contar o desenvolvimento de roteiros de sua própria autoria, como “A Concha e o Clérigo”, mas suas relações com cinema serão sempre tumultuadas e frustrantes.

Em meros doze anos, Artaud notabilizou-se como um artista enérgico ao defender suas idéias. Suas críticas ao teatro de cunho psicológico, centrado no texto, deixando a encenação em último plano, eram correntemente reiteradas em seus artigos e manifestos, publicados nos periódicos artísticos da época.

(…) apresso-me em dize-lo desde já, um teatro que submete ao texto a encenação e a realização, isto é, tudo o que é especificamente teatral, é um teatro de idiota, louco, invertido, gramático, merceeiro, antipoeta e positivista (…)

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1993, pg.35)

Evidentemente, idéias defendidas de forma tão apaixonada e agressiva raramente passavam despercebidas, mesmo quando rechaçadas por críticos tão veementes quanto antiquados. Apesar das polêmicas, Artaud era um artista respeitado, muito embora esse reconhecimento não tornasse as coisas mais fáceis para um homem eminentemente solitário, morando em quartos alugados e tendo pouquíssimos amigos e, muito menos, amores (seu relacionamento com a atriz Génica Athanasiou teria sido sua paixão mais intensa e, em muitos aspectos, a mais frustrante).

Evocando o comportamento quotidiano de Artaud durante a época de sua participação no grupo surrealista, André Masson enfatizou “seu lado dandy, seu lado não gregário que o fazia chegar após os outros, partir antes de todo mundo, sempre só” (…). É também o testemunho de Anaïs Nin: “Irritável. Gagueja em alguns momentos. Sempre sentado em algum canto isolado, ele se afunda em uma poltrona como em uma caverna, como se estivesse na defensiva”(…)

(Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg. 161)

Esses fatores contribuíram para que, até o fim de sua vida, as cartas fossem uma de suas formas favoritas de expressão e onde sutilezas de sua obra podem ganhar aspectos esclarecedores.

2. CRUELDADE… ORIENTE… PESTE… TEATRO… E SEUS DUPLOS…

Mas foi a partir de 1931 que a crescente carreira de Antonin Artaud começou a tomar o rumo que o tornaria uma figura única na História do Teatro. Durante a Exposição Colonial, em Paris, assiste a uma apresentação de um grupo teatral de Bali. Esse contato com o Teatro Oriental marcará profundamente seu pensamento, quase como uma revelação. Nas evoluções dos “atores/bailarinos”, nos gestos perfeitamente codificados e nas temáticas de caráter metafísico e arquetípico, Artaud encontra os elos que faltam na formulação de suas próprias idéias sobre o Teatro e seu papel na Arte. Para Artaud, um teatro eficaz é aquele capaz de refazer a vida, o que não seria possível sem refazer profundamente a cultura no Ocidente. Toda a sua obra é guiada pelo desejo incessante de reencontrar um ponto de utilização mágica das coisas, recusando uma consciência estética fundada em simulacros e aparências face à realidade empírica das coisas. Ele coloca a questão da linguagem e da manipulação de signos em termos de forças mágicas e da relação mantida, através deles, com o cosmos e com o divino. Para Artaud, o Ocidente europeu é doente pois perdeu sua ligação com o divino, com a consciência cósmica.

Entre 1932 e 1935 publica em diversas revistas os textos que seriam futuramente organizados na forma do livro “O Teatro e Seu Duplo”, editado em 1938. Neles Artaud desenvolve seu projeto maior de refazer o Teatro Ocidental, apontando de maneira contundente os seus vícios, camisas de força e denunciando o abandono dos espetáculos por um público ansioso por emoções verdadeiras que não mais consegue encontrar num teatro que não representa verdadeiramente sua época.

O teatro de Bali revelou-nos uma noção de teatro física, não verbal, na qual o teatro está contido nos limites de tudo o que pode acontecer num palco, independentemente do texto escrito, enquanto que, tal como nós o concebemos no Ocidente, o teatro se aliou ao texto e por ele se encontra limitado. Para o teatro ocidental a Palavra é tudo e não há, sem ela, possibilidade de expressão; o teatro é um dos ramos da literatura, uma espécie sonora da linguagem e mesmo que admitamos uma diferença entre o texto falado no palco e o texto lido pelos olhos, se restringirmos o teatro ao que acontece entre as deixas, não conseguimos, mesmo assim aparta-lo da noção de um texto representado.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg. 75)

Diante dessa “ditadura do texto”, Artaud responde com uma proposta ampla de reestruturação da linguagem teatral, devolvendo ao teatro os elementos que considera “naturais” (no sentido de “primordiais”) na encenação e que foram, pouco a pouco, abandonados por um ocidente por demais atado às limitações do racionalismo.

Para mim, a questão que se impõe é de se permitir ao teatro reencontrar sua verdadeira linguagem, linguagem espacial, linguagem de gestos, de atitudes, de expressões e de mímicas, linguagem de gritos e onomatopéias, linguagem sonora, mas que terá a mesma importância intelectual e significação sensível que a linguagem das palavras. As palavras serão apenas empregadas em momentos determinados e discursivos da vida como uma luz mais preciosa e objetiva aparecendo na extremidade de uma idéia”

(Artaud:Linguagem e Vida; 2004, pg. 80)

Refazer a linguagem teatral para trazer o teatro de volta as suas origens ritualísticas. Nada de espetáculos de entretenimento, nada de psicologismos e narrativas sobre indivíduos. Artaud concebe um teatro para além do imediatismo político, social, psicológico ou moral, um teatro que expresse questões metafísicas (termo constantemente empregado em “O Teatro e Seu Duplo”).

Enquanto a alquimia, através de seus símbolos, é como um duplo espiritual de uma operação que só tem eficácia no plano da matéria real, também o teatro deve ser considerado como o duplo não dessa realidade cotidiana e direta da qual ele aos poucos se reduziu a ser apenas uma cópia inerte, tão inútil quanto edulcorada, mas de uma outra realidade perigosa e típica, onde os Princípios, como os golfinhos, assim que mostram a cabeça apressam-se a voltar à escuridão das águas.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 49)

No “Manifesto do Teatro da Crueldade”, Artaud propõe a sua visão à comunidade teatral. De forma compacta e desconcertantemente direta, oferece os enunciados básicos de uma prática teatral que sempre se apressou a considerar “mais fácil de fazer do que de dizer”. Um teatro que utilizaria de uma linguagem de imagens e signos para oferecer uma “cura cruel” ao público, numa experiência mágica coletiva, na qual cada elemento da encenação – voz, corpo, iluminação, som, figurino, cor – seria meticulosamente planejado para levar o espectador a um estado de transe, uma transformação. Artaud concebe um espetáculo circular, através de um palco giratório, onde os espectadores ficam no centro e toda ação se dá ao redor, não havendo espaços vazios, integrando o espectador à própria encenação. Temas de caráter universal, uso de textos clássicos (como tragédias) como uma simples base para uma total re-criação em cena, personagens ampliadas à dimensão de deuses, de heróis, monstros, presença no palco de manequins gigantes, máscaras e objetos desproporcionais representando os duplos de ações, eventos e personagens acentuando o caráter metafísico da encenação, um jogo cuidadosamente planejado aonde nada pode ser deixado ao acaso, sob pena de sacrificar os efeitos mágicos específicos que o espetáculo deve provocar. Artaud, portanto, defende veementemente o domínio do encenador para orquestrar cada pequeno aspecto de uma montagem, numa época em que aquilo que se refere como parte da encenação, em contrapartida ao texto, costumava ser alvo de desprezo pela comunidade teatral. Para além dos temas e objetivos, o teatro de Artaud é um teatro que começa e se realiza no palco, com uma linguagem que se dá exclusivamente no palco, sendo o encenador (e não o autor de um texto pré-escrito) o responsável pela “escrita” dessa linguagem.

Nesse contexto, o ator é um elemento essencial mas passivo, já que sua iniciativa pessoal deve estar submetida às exigências da encenação.

O ator é, ao mesmo tempo um elemento de primeira importância, pois é da eficácia de sua interpretação que depende o sucesso do espetáculo, e uma espécie de elemento passivo e neutro, pois toda iniciativa pessoal lhe é rigorosamente recusada. Este é, aliás, um domínio em que não há regras precisas; e, entre o ator a quem se pede uma simples qualidade de soluço e aquele que deve pronunciar um discurso com suas qualidades de persuasão pessoais, há toda a distância que separa um homem de um instrumento.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 95)

Nos capítulos “Um atletismo afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, Artaud procura esboçar as técnicas e qualidades que o ator do Teatro da Crueldade deve buscar. No ator existe uma musculatura de atleta físico e uma outra musculatura que corresponde a localizações físicas dos sentimentos. Essa musculatura afetiva funciona como um duplo da outra, embora não atue no mesmo plano, e deve ser exercitada através da respiração. Para cada alteração dos sentimentos, existe uma respiração apropriada.

O ator, ao mostrar um sentimento, um estado de espírito, fisicamente pode parecer estar delirando, mas na verdade está consciente de tudo o que está fazendo, mantendo o controle através da respiração. O uso da memória emotiva ocorre apenas num primeiro momento, guardando as imagem das reações físicas e da respiração provocadas no corpo para usa-las num segundo, num terceiro, e em vários momentos, constituindo um repertório para o ator. Os sentimentos não devem ser interpretados como abstrações, mas como elementos “materiais”, palpáveis, sob as quais ele pode ter um domínio. “Através da respiração o ator pode representar um sentimento que ele não tem”, ou seja, ele pode chegar num sentimento através da respiração, e a respiração pode nascer de um sentimento.

Saber que a paixão é matéria, que ela está sujeita às flutuações plásticas da matéria (…) Alcançar as paixões através de suas forças ao invés de considerá-las como puras abstrações, confere ao ator um domínio que o iguala a um verdadeiro curandeiro. Saber que existe uma saída corporal para a alma permite alcançar essa alma num sentido inverso e reencontrar o seu ser através de uma espécie de analogia matemática.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 131)

Saber reconhecer o tempo do sentimento é saber reconhecer o tempo da respiração, e essa respiração pode ser dividida em três tempos, que Artaud denominou NEUTRO, MASCULINO e FEMININO.

A respiração FEMININA é uma respiração mais prolongada, interiorizada, baseada no diafragma, que se localiza na região do plexo solar, tendo várias características que essa região contém, como abandono, angústia, apelo, invocação, súplica. A respiração MASCULINA ou melhor, de tempo masculino, é uma respiração mais pesada, rápida, torácica, focada na localização dos rins, que é fisicamente, onde o homem joga a força multiplicada de seus braços. As características que correspondem aos rins, no físico afetivo são: culpa, depressão, humor, impaciência, indecisão, isolamento, obsessão, paranóia, solidão, vitimização e heroísmo.

Esse treinamento baseado na respiração, que Artaud formulou tanto a partir de suas experimentações pessoais quanto de seus estudos da cabala, alquimia e disciplinas orientais, foi constantemente praticado por Artaud até o fim de sua vida e através dele o ator seria capaz de reconstruir não apenas sua arte mas sua própria constituição física e espiritual, tornando possível as visões de Artaud para seu Teatro.

Como Craig, Artaud baseia a sua teoria do ator no princípio da despersonalização. Não só o personagem, no sentido tradicional da palavra, é expulso desse teatro, mas também a personalidade do ator é ocultada pelo tipo de intervenção (não se ousa mais falar em desempenho) que ele exige. Em última instância, o ator artaudiano não é mais um indivíduo de carne e emoções, mas suporte e veículo de um complexo sistema semiótico articulado em torno de uma convenção hieroglífica – a expressão é freqüentemente repetida nos escritos de Artaud – do figurino, do gesto, da voz, etc.

(Roubine: A Linguagem da Encenação Teatral;1998, pg189)

Paralelamente à escrita e organização desses textos, Artaud dedica-se de maneira apaixonada a pôr em prática seu projeto, mas esbarra constantemente nas crescentes dificuldades. Primeiramente as de cunho filológico, os mal-entendidos e acusações a respeito do uso do termo “crueldade”, que Artaud responde de maneira clara na primeira das “Cartas sobre a Crueldade” em “O Teatro e Seu Duplo”. Mas o pior e mais incisivo são as dificuldades técnicas e financeiras de uma proposta teatral de tamanha complexidade. Desde as montagens do Teatro Alfred Jarry até as tentativas frustradas de tirar do papel sua encenação de “A Conquista do México”, mencionada no “Segundo Manifesto do Teatro da Crueldade”, suas tentativas de convencer o público (e, particularmente, os investidores) eram constantemente mal-entendidas embora representassem experimentos “performáticos” notáveis numa visão retroativa, particularmente a conferência que resultaria no texto de “O Teatro e a Peste” que foi relatada por Anaïs Nin, em seus diários:

De forma quase imperceptível Artaud largava o fio que seguíamos e começava a interpretar o papel de um homem a morrer de peste. Ninguém viu em que momento começou a faze-lo. Para ilustrar a conferência, representava uma agonia. (…) Tinha o rosto em convulsões e os cabelos ensopados de suor. (…) Estava em plena tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação. As pessoas começaram a ficar com a respiração cortada. Depois desataram a rir. Toda a gente ria! Assobiava. Por fim as pessoas foram saindo uma a uma em meio a um grande ruído, a falar alto, a protestar. Ao saírem batiam com a porta. (…) Mais protestos. E vaias também. Mas Artaud continuava até o último suspiro. E lá ficou, no chão.

(Nin citada por Virmaux em sua introdução para: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.17)

Tudo isso para fazer a platéia compreender – fisicamente, portanto efetivamente – o que linhas como essas pretendem expressar:

Tal como a peste, o teatro é uma crise, que tem o desenlace na morte ou na cura. E a peste é um mal superior porque é crise completa e depois da qual não resta mais nada do que a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo só alcançável com destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; e, para terminar, podemos ver que a ação do teatro, como a da peste, sob o ponto de vista humano é benéfica porque levando os homens a verem-se como são faz cair a máscara, põe a mentira à mostra, e a baixeza, a hipocrisia; sacode a inércia asfixiante da matéria que tudo ganha até às mais claras certezas dos sentidos; e revelando às coletividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca teriam tido.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 28-29)

O ápice dessas tentativas de materialização do “Teatro da Crueldade” foi a montagem de “Os Cenci” (1935), projeto ambicioso de uma tragédia na qual os preceitos da visão artaudiana de um teatro que constituísse uma “cura cruel” revelou-se uma grande decepção, para o público, para os envolvidos e, acima de tudo, para o próprio Artaud, que viu-se incapaz de enfrentar os inúmeros percalços financeiros, materiais e humanos que se interpuseram à realização de seus ideais numa montagem real.

3. PEYOTE… MAGIA… ELETRICIDADE… TEATRO… JULGAMENTO DE DEUS…

Essa frustração acabou servindo de combustível para a concretização de um antigo sonho: uma viagem ao México em busca de contato com o culto do Peyote com os índios Tarahumaras, que resultaria na publicação do apaixonado livro “Viagem ao País do Tarahumaras”, editado em 1945. Artaud desde cedo dedicara-se ao estudo de disciplinas esotéricas, cabala, alquimia, magia (estudos que sempre apareceram de maneira clara e sem disfarces nas suas atividades teatrais, sendo largamente citados em “O Teatro e Seu Duplo”) e sua estadia entre os Tarahumaras foi quase uma conseqüência natural desse pensamento, bem como uma tentativa violenta de encontrar respostas para seus tormentos existenciais indizivelmente vivenciados no plano físico.

E foi no México, no alto da montanha, entre Agosto e Setembro de 1936, que eu comecei a me encontrar completamente…Eu procurava o peyote não como um curioso mas, ao contrário, como um desesperado…, contrariamente ao que se podia pensar, eu nunca busquei o supra-normal. Ora, eu não ia ao peyote para entrar, mas para sair… sair de um mundo falso. Vivemos num odioso atavismo fisiológico que faz com que mesmo no nosso corpo, e sozinhos, nós não somos mais livres, pois, cem pai-mãe pensaram e viveram por nós, antes de nós, o que poderíamos em um dado momento, na idade da razão, encontrar por nós mesmos, a religião, o batismo, os sacramentos, os rituais, a educação, o ensino, a medicina, a ciência se apressam em nos tirar. Eu ia, pois, ao peiote para me lavar.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.96-97)

Recebido com simpatia pelos escritores mexicanos, Artaud faz conferências em universidades e, após vários percalços consegue participar das cerimônias sagradas com os índios. A experiência leva-o a um processo que os místicos chamariam de transfiguração, uma iniciação nos mistérios sagrados, um retorno a um vazio primordial do qual ele retorna permanentemente transformado.

Enquanto isso, na França, amigos dão prosseguimento à editoração de “O Teatro e Seu Duplo”, livro que, mesmo em meio às suas viagens místicas, Artaud nunca relega ao abandono, tendo oportunidade, inclusive, de corrigir os originais quando de seu retorno à Paris. A obra, uma vez publicada, torna-se uma referência importante para os realizadores de teatro, para o bem ou para o mal, alimentando de maneira incontrolável o chamado “mito-artaud” que começara a crescer desde o momento em que partiu da França até muito além de sua morte. Artaud, o “homem-teatro”, Artaud, o bruxo, Artaud, o louco, Artaud que ganhou uma espada mágica de um feiticeiro em Cuba, Artaud que vagou entre os índios e viu a face de Deus, Artaud, o profeta da fecalidade, Artaud que empunhou o cajado mágico de São Patrick, patrono dos irlandeses, na cidade de Dublin.

Anaïs Nin fala, no seu Diário, de uma visão que Artaud teve, nessa época, em Paris,no restaurante Dôme: “Ele levanta, vociferando, brandindo sua bengala mágica mexicana, como um bruxo”.

(Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.98)

Entre o mito e a realidade, sabe-se que Artaud retornou à França, uma figura ainda mais excêntrica e imprevisível do que era então. Suas dores físicas e o consumo de ópio continuam a crescer, obrigando-o a submeter-se a desintoxicações sempre que tem condições de pagar. Seu interesse em astrologia e tarô acentua-se, chegando a fazer consultas para figuras ilustres da intelectualidade parisiense. Em 1937, Artaud parte para a Irlanda “guiado” pelo cajado de São Patrick, afim de devolvê-lo ao seu lugar de origem e de encontrar traços da cultura celta. Vivendo em condições precárias, em um país onde ele mal domina o idioma, Artaud vive pregando nas ruas com seu bastão, em condições de quase indigência.

Passeava eu tranqüilamente ao pé do jardim público de Dublin, quando um polícia provocador à civil me agrediu de repente e esmagou a coluna vertebral e a dividiu em duas com uma terrível pancada de barra de ferro.

Cambaleei mas não caí.

Houve qualquer coisa que deve ter parecido um milagre porque ainda agora pode ver-se em mim a fractura, mas nem sequer caí no chão, e os dois pedaços soltos voltaram instantaneamente a ficar colados.

Voltei-me para trás, com uma bengalada deitei o polícia provocador ao chão e a batalha ficou acesa. Apareceram polícias fardados que tomaram o meu partido contra os polícias à civil e às ordens do Intelligence Service.

(Artaud: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.50-51)

Acusado de ser um agitador e vadio, é preso e extraditado para a França. Um incidente ocorrido durante a viagem de barco faz com que seja internado como louco em estabelecimentos psiquiátricos. Do sofrimento pelo isolamento, brutalidades e privações da vida em um manicômio, adicionou-se com a Ocupação alemã em maio de 1940, as carências alimentares. Assim, em Ville-Évrard, além de sua dignidade e de sua liberdade, Artaud começou a ser privado de seu corpo. Subnutrido, ele se torna um esqueleto vivo, uma sombra dolorosa que tenta manter a vida.

Passei nove anos num asilo de alienados.

Fizeram-me ali uma medicina que nunca deixou de me revoltar.

Essa medicina chama-se eletro-choque, consiste em meter o paciente num banho de eletricidade, fulmina-lo

e pô-lo bem esfolado a nu

e expor-lhe o corpo tão externo como interno à passagem de uma corrente

que vem do lugar onde se não está nem deveria estar para lá estar.

O eletro-choque é uma corrente que eles arranjam sei lá como,

Que deixa o corpo, o corpo sonâmbulo interno, estacionário

para ficar sob a alçada da lei

arbitrária do ser,

em estado de morte

por paragem do coração.

(Artaud: Eu, Antonin Artaud; 1988, pg.76)

Artaud passou por diversos asilos até ser transferido para Rodez, em 1943 de onde só foi libertado três anos depois. Durante esse período escreveu as célebres “Cartas de Rodez”, na maioria endereçadas ao seu médico e diretor do asilo, Dr. Gaston Ferdière.

No Hospital Psiquiátrico de Rodez, quando esteve internado por três anos, depois de passar por vários manicômios franceses, Artaud escreve cartas a seu médico, dr. Ferdière. Aprisionado e maltratado por eletrochoques que prejudicaram sua memória, seu corpo e seu pensamento, “as cartas escritas de Rodez são, para Artaud, um recurso para não perder a lucidez. São o diálogo de um desesperado com seu médico e, através dele, com toda sociedade”.

(Programa da peça “Cartas de Rodez”, dirigida por Ana Teixeira, com atuação de Stephane Brodt. Prêmio Shell, direção e ator, e Mambembe, melhor espetáculo 98.)

Até sua chegada em Rodez o paradeiro de Artaud era desconhecido na França. Sua mãe visitou a maioria dos sanatórios do país em busca do filho desaparecido, os amigos escreveram cartas às autoridades buscando notícias. A guerra assolava a Europa e Antonin Artaud (cujo “Teatro da Crueldade” espalhava-se pelas ruínas, quartéis e campos de concentração) jazia isolado entre loucos e tratamentos desumanos que mais torturavam do que curavam. Até mesmo o psiquiatra Jacques Lacan estudou o “caso Artaud” e seu veredicto não poderia ser mais catedrático: “Viverá até oitenta anos, não escreverá mais uma linha”. Futuramente, o autor de “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” fez cair por terra as previsões lacanianas.

Apesar das condições em Rodez serem um tanto quanto mais toleráveis (principalmente por Ferdière ser um admirador da obra de seu paciente e procurar encoraja-lo a produzir – embora isso não o tenha impedido de também aplicar-lhe sessões de eletrochoque), foi com horror que os amigos reencontraram um Artaud completamente distinto da figura insolente e carismática de outrora.

Marthe e eu decidimos ir visitar Antonin Artaud, esquecido por todos, isolado no hospício de Rodez desde o começo da guerra. Encontramos Artaud muito fraco, aterrado. A certa altura caem à nossa frente alguns livros que pertencem ao Dr. Ferdière (…), Artaud quer apanhar os livros mas não consegue, todo seu corpo treme, temos que ajuda-lo. Conta-nos seu cotidiano em Rodez, acusa o Dr. Ferdière de o aterrorizar: – “Se não se porta bem, Sr. Artaud, temos de voltar a dar-lhe eletrochoques”. No trem de regresso Marthe chora e juramos tirar Artaud de Rodez.

(Arthur Adamov citado por Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg. 108)

Finalmente, em 28 de maio de 1946, Artaud foi libertado e retornou a Paris onde procurou dar continuidade aos escritos e práticas já iniciados em Rodez. Seu projeto de um “Teatro da Cura Cruel”, evolução natural de seu “Teatro da Crueldade” crescia e assumia novas formas em meio à uma prática vocal intensa e quotidiana, na qual Artaud exercitava sua respiração e seu corpo, praticando cantos e giros conjuratórios (que também lhe serviam como proteção contra as “bruxarias” de que sentia-se vítima). A energia que ele produzia, as forças que emanavam de seu corpo enfraquecido, as incríveis variações de altura que obtinha de sua voz, a intensidade e a duração dos gritos aconteciam como um fenômeno de operação mágica. Uma prática teatral que dispensava tanto o palco quanto os recursos técnicos que Artaud sempre quis utilizar de maneira plena e constituir como parte de uma legítima linguagem para o Teatro, mas cujo controle escapou de suas mãos nos tempos do Teatro Alfred Jarry e “Os Cenci”. Cantos, gritos, gestos que pareciam absolutamente insanos para os médicos dos hospitais psiquiátricos, ignorantes das teorias que o próprio Artaud já tentara esboçar nos anos 30 nos textos “Um Atletismo Afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, avidamente lidos por uma classe teatral que, pouco a pouco, transformava “O Teatro e Seu Duplo” em objeto de culto enquanto seu autor permanecia isolado do mundo. Não foram poucas as ocasiões em que essas práticas serviram de justificativa para as alegações de insanidade de médicos, autoridades e mesmo de leigos, fato que enfurecia Artaud, mas que, após sua libertação, levou-o a assumir tal “carapuça”. De fato, Artaud não deixou de divertir-se fazendo-se de louco e usando do choque e do horror (que ele sempre apreciou utilizar para tirar seu público da apatia, sendo num palco, num restaurante ou na rua) para dizer as verdades que acreditava.

Afirmaria que o próprio corpo do Homem, “desconectado” de suas origens, é o resultado de uma manipulação perpétua e perversa de forças malignas que oprimem a espécie humana (tais forças podem ser entendidas de várias maneiras, podem ser interpretadas como políticas, sociais, culturais, morais, enfim, mas fica claro em seus escritos que Artaud as entendia de maneira mais absoluta e cósmica, num sentido metafísico), em conseqüência a anatomia humana, ao deixar de corresponder à sua natureza, deve ser refeita. No fim de sua vida, Artaud amplia suas concepções do “Teatro da Crueldade” para um grandioso projeto ético-político de insurreição física: trata-se de transformar não apenas o Teatro, mas o Homem. A revolução não é apenas social ou cultural, mas física. O ator (e o Homem) torna-se senhor de seu destino, capaz de refazer sua própria anatomia, juntamente com seu espírito, erigir o “corpo sem órgãos”, invulnerável aos miasmas e “feitiços” do mundo contra a essência individual do ator. Decomposição e recomposição do corpo, desarticulação dos automatismos que condicionam e bloqueiam o indivíduo e o impedem de agir realmente, de modo consciente e voluntário, em cena ou na vida.

A necessidade de afirmar seu pensamento foi o combustível que moveu Artaud nesses últimos anos. Por sua própria natureza, esse pensamento não pode ser expresso meramente com palavras, verdade que Artaud sempre repetiu desde a juventude ao denunciar a limitação do texto como centro da encenação e do discurso. Suas pesquisas de linguagem ganham um ímpeto novo, a busca de uma expressão vocal primitiva, anterior à linguagem articulada, sons que remetem a sentimentos, idéias e forças metafísicas. São inúmeros os exemplos registrados dessa pré-linguagem:

ratara ratara ratara

atara tatara rana

otara otara katara

otara retara kana

ortura ortura konara

kokona kokona koma

kurbura kurbura kurbura

kurbata kurbata keyna

pesti anti pestantum putara

pest anti pestantum putra

São poemas que vão além da significação, apelando para a força dos sons e vocábulos por si mesmos, constituindo verdadeiros “encantamentos” que Artaud utilizava de maneira mística e causava um efeito profundo nas testemunhas. Durante a gravação de sua novela radiofônica “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus”, em 1948, Artaud deu grandes mostras de seu “humor louco”, um humor que provocava medo. Maria Casarès, testemunha da gravação, deixou o seguinte depoimento:

Artaud começou a gritar. Começou a falar como “um cachorro” ou como um “galo” e Roger Blin respondia-lhe, imperturbavelmente, na mesma linguagem. Tudo isso deveria fazer rir a platéia. Ora, nem mesmo um só técnico ria. Estavam paralisados. Num canto da sala, uma mulher chorava.

(Casarès citada por Lins: O Artesão do Corpo sem Órgãos; 1999, pg.120)

A emissão da novela radiofônica foi proibida pela censura pouco antes de ir ao ar. Mais um dos inúmeros fracassos das tentativas de Artaud de tornar real o seu pensamento e seu Teatro. Mas, como Alain Virmaux continuamente repete em seu livro “Artaud e o Teatro”, o fracasso, em Artaud, é tão revelador quanto o sucesso poderia ser. Mesmo interditada, a novela constitui um elemento importantíssimo no “mito-Artaud”, tanto quanto foi “Os Cenci” ao ser visto retroativamente e guardando as limitações impostas pelas circunstâncias. Depois dos internamentos, Artaud tornou-se uma quase vedete da intelectualidade francesa. Mostras foram realizadas em sua homenagem, o “Teatro e Seu Duplo” era reeditado e ganhava cada vez mais atenção, nunca antes Artaud foi tão ouvido, embora o estado doentio em que se encontrava tenha causado o afastamento de velhos amigos que não suportavam lidar com sua presença e o efeito que provocava. Ainda assim, como a solidão já era parte integrante de sua existência desde jovem, Artaud trabalhava freneticamente, escrevendo, compondo, ciente de que a morte rondava, aos 50 anos de idade, com um estado de saúde cada vez mais precário. “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” foi seu projeto concreto mais ambicioso no período. Na gravação é possível identificar, de maneira subjetiva e indistinta (como não poderia deixar de ser) o essencial de seu pensamento: o trabalho do ator, a visão do encenador, o feiticeiro, o peregrino regresso das terras do tarahumaras. No “Rito do Sol Negro”, na “Procura da Fecalidade”, Artaud expressa seu ideal de reconstrução do homem e do corpo.

Onde cheirar a merda

cheira a ser.

O homem poderia muito bem deixar de cagar,

deixar de abrir a bolsa anal,

mas preferiu cagar

como poderia ter preferido viver

em vez de consentir em viver morto.

É que para não fazer cocô

teria que aceder

a não ser,

mas ele é que não foi capaz de se resolver a perder o ser,

isto é a morrer vivo.

(Artaud: Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus; 1975, pg 29)

Idéias indigestas, expressas de modo ainda mais indigesto, que Artaud já havia desistido de, tentar explicar verbalmente desde a histórica conferência no Vieux-Colombier, um ano antes, quando um recém libertado Antonin Artaud surgiu diante de um público parisiense de artistas, intelectuais e curiosos (entre os quais, Sartre, Picasso, Camus, além dos amigos Blin, Adamov e Gide) num evento preparado para reintroduzi-lo no universo das letras francesas. O texto dessa conferência sobreviveu e foi editado como “A História Vivida de Artaud-Momo”, narrando desde as experiências com o peyote até a violência dos tratamentos nos sanatórios e suas idéias metafísicas. Mas Artaud jamais terminou a conferência, abandonando-a quando os papéis caíram de suas mãos e ele não quis (ou não pôde) reorganiza-los, partindo para um aparente improviso recheado de silêncios, ofensas, gritos e feitiços. O que ocorreu nessa conferência é assunto controverso. Fala-se tanto de um fracasso deprimente quanto de um êxito soberbo. Virmaux (que assina o texto introdutório de “A História Vivida de Artaud-Momo”) defende que foi no Vieux-Colombier que Artaud, pela primeira e única vez, encenou o “Teatro da Crueldade”, vivido por um único homem, o personagem Antonin Artaud, e todas as testemunhas concordam que, entre vaias e ovações, ninguém saiu indiferente do teatro. Em um testemunho célebre, Gide descreve o evento com as seguintes palavras:

A razão batia em retirada; não unicamente a sua mas a razão de toda a assistência, de todos nós, espectadores desse drama atroz, reduzidos ao papel de comparsas malévolos, debochados e grosseiros. Oh! não, mais ninguém na platéia, tinha vontade de rir (…) Artaud nos havia atraído para seu jogo trágico de revolta contra tudo aquilo que, admitido por nós, para ele permanecia mais puro e inadmissível:

Nós ainda não nascemos.

Ainda não estamos no mundo.

Ainda não existe mundo.

As coisas ainda não se fizeram.

A razão de ser não foi achada…”

Ao sair dessa memorável sessão o público se calava. Que se poderia dizer? Acabávamos de ver um homem miserável, atrozmente sacudido por um deus, como que no liminar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila, onde nada de profano é tolerado, onde, como em um Carmelo poético, um vate é exposto, oferecido aos raios, aos abutres vorazes, ao mesmo tempo sacerdote e vítima… Todos se sentiam envergonhados de retomar lugar em um mundo no qual o conforto é formado de compromissos.

(Gide in Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg 366)

Embora talvez supervalorizando os fatos através de uma veia poética, o testemunho passa uma noção do impacto da sessão, que o próprio Artaud em parte teria explicado numa carta ao amigo André Breton:

Não creio que o palco do Vieux-Colombier ou outro palco de teatro já tivesse visto o que mostrei e dei a ouvir naquela noite; tanto mais que acresce o facto de toda a gente ter podido verificar, de se ter podido ver como o suposto conferencista que eu realmente não era, de qualquer forma o suposto homem de teatro, renunciava ao seu espetáculo, fazia as malas e ia-se embora; porque, na verdade, eu tinha reparado que já bastava de palavras e até mesmo de rugidos, e o necessário eram bombas; ora, eu não as tinha nas mãos nem nos bolsos.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 26)

Um basta às palavras, portanto, um último ato em “Para Acabar com o Juízo de Deus”, um recolhimento para aguardar o fim. Diagnosticado um câncer inoperável no reto, Artaud sabia que tinha seus dias contados. Ainda assim não deixava de trabalhar e fomentar projetos, mesmo sofrendo cada vez mais agudamente com as dores. A morte, que Artaud nunca deixou de afirmar ser um estado inventado, apenas mais uma máscara a que o homem se submete por renunciar a ser o senhor de seu destino, chegou num quarto da clínica de Ivry, em 14 de março de 1948, poucos meses após a proibição da peça radiofônica. O fim através de um câncer – uma falência do organismo que muitos médicos e místicos afirmam ter uma origem psicossomática – ou, talvez por um suposto suicídio, parece fazer um estranho sentido para um homem que afirmava ter tido a espinha partida e depois recomposta na Irlanda e ter morrido e voltado numa mesa de eletro-choque em Rodez:

(…) Simplesmente te disse e repito que eu, Antonin Artaud, com os cinqüenta que já cá cantam, me lembro do Gólgota. Lembro-me dele como me lembro de estar no asilo de Rodez no mês de Fevereiro de 1943, morto por um eletrochoque que me foi imposto contra vontade.

– Se estivesse morto, não continuaria lá.

– Estou morto, realmente morto, e a minha morte foi clinicamente verificada

E voltei depois, como um homem que regressa do além.

Eu também me lembro desse além.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 53)

De qualquer forma, Artaud faleceu deixando um legado praticamente mítico. Suas idéias, seus textos, especialmente “O Teatro e Seu Duplo” se tornaram uma referência obrigatória para encenadores do mundo inteiro, sendo aceitas ou não. Os anos 60 e 70 testemunharam o surgimento de um verdadeiro culto à imagem do criador do “Teatro da Crueldade”, um culto muitas vezes exagerado e desprovido de bases sólidas, movido muito mais pela paixão e o pseudo-misticismo ligado ao pensamento artaudiano do que a uma real compreensão de suas idéias. As últimas décadas testemunharam uma releitura mais atenta e menos delirante de sua obra, devolvendo as contribuições de Artaud, tanto para o Teatro quanto para os estudos de linguagem, de volta à sua real proporção.

São inúmeros os grupos, atores e teóricos que deram continuidade aos trabalhos de Artaud, de forma direta ou indireta. Autores como Ionesco e Beckett mostram uma clara influência, bem como às origens do conceito de happening. Peter Brook e o Living Theatre desenvolveram grandes espetáculos assumidamente dentro de uma estética artaudiana, bem como o teatro-laboratório de Jerzy Grotowski, que de forma hábil e lúcida, ajudou a criticar e esclarecer muitas das propostas teatrais de Artaud e lhe dedicou um dos capítulos de “Em Busca de Um Teatro Pobre”: “Ele não era inteiramente ele”.

Deve-se repetir mais uma vez: se Artaud tivesse tido à sua disposição o material necessário, suas visões teriam se desenvolvido do indefinido para o definido. Ele poderia tê-las convertido numa forma, ou, melhor ainda, inclusive numa técnica. Estaria então em condições de antecipar todos os reformadores, pois teve a coragem e o poder de ir além da corrente lógico-discursiva. Tudo isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

(Grotowski: Em Busca de um Teatro Pobre; 1976, pg.71-72)

Mas aconteceu nos anos que seguiram a morte do “homem-teatro”. É fascinante notar que hoje muito do que era polêmico e alvo de estranhamento nas propostas de Artaud é prática corrente e “comum” nas atividades teatrais: o uso de espaços alternativos, o cuidado especial na composição da iluminação e sonoplastia, o domínio do encenador como regente máximo do espetáculo, o fim do domínio absoluto do texto, o uso de signos, a integração do público à cena, enfim, se o Teatro da Crueldade” só pôde se tornar real em raríssimas e pontuais ocasiões (se é que realmente o foi, ao menos na forma pura que Artaud pregava) ao menos seus diversos elementos integraram-se de maneira efetiva no fazer teatral.

Assim, as palavras finais de Artaud a respeito do Teatro, escritas na “Última Carta Sobre o Teatro”, endereçada à Paule Thévenin em 25 de fevereiro de 1948 (tendo Artaud morrido em 4 de março), definitivamente não ficaram sem um eco:

Paule, estou muito triste e desesperado

meu corpo dói de todos os lados

mas sobretudo tenho a impressão de que todos se decepcionaram

com a minha emissão radiofônica.

Lá onde está a máquina

é sempre o abismo e o nada

há uma interposição técnica que deforma e aniquila aquilo que se faz.

As críticas de M. e A. são injustas mas devem ter tido sua base em um defeito de transmissão

é por isso que eu jamais voltarei ao Rádio

e consagrarei doravante exclusivamente ao teatro

como o concebo

um teatro de sangue

um teatro que a cada representação proporcionará

corporalmente

alguma coisa a quem representa

como a quem vem assistir a representação

aliás,

não se representa,

age-se

o teatro é na realidade a gênese da criação.

Isto se fará.

Tive uma visão hoje à tarde

vi aqueles que me seguirão e aqueles que ainda não tem um corpo

porque os porcos como aqueles dos restaurante de ontem a noite comem demais.

Existe quem como demais

e outros como eu que não podem mais comer sem escarrar

em vocês.

(Artaud citado em Virmaux: Artaud e o Teatro, 1978, pg 334-335)

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

ARANTES, Urias Corrêa. Artaud: Teatro e Cultura. Campinas: Editora da UNICAMP. 1988. 212 p.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). Linguagem e Vida. Org. J. Guinsburg, Sílvia Fernandes Telesi, Antonio Mercado Neto. São Paulo: Perspectiva. 2004

ARTAUD, Antonin (1896-1948). O Pesa-Nervos. Trad. Joaquim Afonso. Lisboa: Hiena Editora. 1991. 91p.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). O Teatro e Seu Duplo. Trad. Teixeira Coelho. 2.ªed. São Paulo: Martins Fontes. 1999.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus – seguido de O Teatro da Crueldade. Trad. Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes. Lisboa: Publicações Culturais. 1975.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). Eu, Antonin Artaud. Trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora. 1988. 111 p.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). História Vivida de Artaud-Momo. Lisboa: Hiena Editora. 1995. 73 p.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). Os Sentimentos Atrasam. Trad. Ernesto Sampaio. Lisboa: Hiena Editora. 1993. 73 p.

ASLAN, Odette. O Ator no Século XX. São Paulo: Perspectiva, 1994

COELHO, Teixeira. Antonin Artaud – Posição da Carne. São Paulo: Brasiliense. 1982, 120p. (Coleção Encanto Radical; 16)

FELÍCIO, Vera Lúcia. A Procura da Lucidez em Artaud. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1996, 202p. (Coleção Estudos; 148)

GROTOWSKI, Jerzy. Ele não era inteiramente ele, in: Em Busca de um Teatro Pobre. Trad. Aldomar Conrado. 2.ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1976. (Coleção Teatro Hoje, Série: Autores Estrangeiros/Vol.19)

LINS, Daniel. Antonin Artaud: O Artesão do Corpo Sem Órgãos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. (Coneções/2)

ROUBINE, Jean-Jacques. As Metamorfoses do Ator, in: A Linguagem da Encenação Teatral. Trad. Yan Michalski. 2.ªed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.

SONTAG, Susan. Abordando Artaud, in: Sob o Signo de Saturno. São Paulo: L&PM. 2.ªed. 1973.

VIRMAUX, Alain. Artaud e o Teatro. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1978, 388p. (Coleção Estudos; 58)

“Quem sou eu?

De onde venho?

Sou Antonin Artaud

e basta que eu o diga

Como só eu o sei dizer

e imediatamente

hão de ver meu corpo

atual,

voar em pedaços

e se juntar

sob dez mil aspectos

diversos.

Um novo corpo

no qual nunca mais

poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,

meu pai,

minha mãe,

e eu mesmo.

Eu represento Antonin Artaud!

Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,

Um morto vivo.

Sou um morto

Sempre vivo.

A tragédia em cena já não me basta.

Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras

de arte, eu pretendo mostrar o meu

espírito.

Não concebo uma obra de arte

dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,

nascido em Marseille

no dia 4 de setembro de 1896,

eu sou Satã e eu sou Deus,

e pouco me importa a Virgem Maria.”

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/

Anatomia do Corpo de Deus – Prefácio

Por Frater Achad.

Embora o título deste pequeno ensaio possa parecer, para aqueles que não leram seu conteúdo, presunçoso e injustificado, espero que eles reservem o julgamento até que tenham dado atenção e consideração ao estudo de um assunto tão importante.

Vivemos em tempos estranhos. A civilização parece estar se dissolvendo rapidamente, enquanto ainda há um impulso interno trabalhando para uma construção melhor e mais equilibrada de alguns setores da vida.

Uma das consequências das grandes guerras foi mudar as mentes de muitas pessoas de concepções estreitas da vida para perspectivas mais amplas. Um espírito de indagação surgiu entre aqueles que anteriormente se contentavam em aceitar afirmações sobre as questões mais profundas da vida baseadas em simples crenças ou rumores. Muitos novos movimentos surgiram sob a orientação de pessoas que ganharam pelo menos uma visão parcial da herança mais ampla do homem, e houve um declínio correspondente no que poderia ser chamado de ortodoxo ou ordem estabelecida das coisas nas igrejas e em outros lugares. Experimentos de vários tipos foram realizados em muitos países; a maioria, entretanto, foi o resultado de “movimentos de reforma” do tipo mais restrito, e rapidamente se mostrou insatisfatória e inadequada. Atualmente, entre todas essas indicações, parece não ter havido uma solução total à vista, e assim parece, com muito pouco entendimento, quanto aos princípios subjacentes envolvidos, mesmo para aqueles que realmente fazem o seu melhor sob as circunstâncias. Aqueles que estão realmente em condições de ajudar são incapazes de fazê-lo pela mesma razão.

Pode parecer um grito distante das atuais condições mundiais de natureza social e política para a Santa Cabala, mas às vezes a ajuda vem das fontes mais imprevistas.

Os judeus, e o problema judeu, representam aspectos muito importantes da dificuldade e de sua solução. Uma grande parte da riqueza mundial está hoje nas mãos dos judeus, embora, como nação, eles não tenham onde se estabelecer. Como “povo escolhido” eles eram uma nação importante, mas a rejeição do Mestre em quem eles esperavam encontrar seu Messias é geralmente considerada a causa de sua peregrinação na Terra. No entanto, a palavra “judeu” vem de IU, o Filho Prometido, o Hórus das primeiras tradições egípcias, cuja influência não está confinada à era cristã, mas se estende a todos os tempos, e de quem todos os verdadeiros Deus-Homens, como Jesus, foram e são os representantes na Terra.

Mas os judeus abandonaram o estudo de sua própria Chokmah Nestorah, ou Tradição da Sabedoria Secreta, como transmitida na Santa Cabala, e assim perderam de vista sua verdadeira vontade como nação e seu fim essencial no Grande Plano da Criação. Foi deixado aos gentios para redescobrir alguns dos mistérios mais profundos de seu Conhecimento Antigo, e concluiu-se que eles são em essência o mesmo que o catolicismo, a maçonaria, a filosofia pitagórica, a hermenêutica e muitos outros; de fato, sempre houve uma tradição universal cujo conhecimento levou as nações ao ápice da civilização, e quando este se perdeu, proclamou seu declínio e declínio.

A atual crise mundial de valores e a dissolução da civilização se devem à necessidade de uma “limpeza” geral que nos preparará para uma concepção maior e mais grandiosa apresentada à humanidade do que tem sido possível durante vários milhares de anos. Todo ser racional percebe que as coisas estão em um estado crítico, e todos devem estar preparados para aproveitar todas as oportunidades razoáveis para obter uma solução que seja de validade permanente e não temporária.

As coisas não podem ser consertadas sem esforço, e a pergunta é: “Em que sentido esse esforço é necessário”?

A solução está no indivíduo; é inútil falar em reformar os outros até que tenhamos nos reformado. É igualmente inútil confiar em outra pessoa para fazer por nós o que somos capazes de fazer e devemos fazer por nós mesmos. A alma do homem – que é o intermediário entre o corpo e o espírito – se deformou; ela tem que aprender a retificar sua estrutura antes de poder obter um esboço claro e um ponto de vista adequado.

Os professores do homem foram em grande parte responsáveis por distorcer sua visão mental e falhar em conter suas ações naturais e impedir seu crescimento natural, que seria de proporções normais se o Espírito Santo dentro dele pudesse se expandir adequadamente. A tendência natural do homem é para a saúde do corpo e da alma sob a ação do espírito. A maioria dos sistemas atuais o fez acreditar de forma diferente de sua primeira infância, incapacitando-o desde o início.

Em certo sentido, a criança é o melhor exemplo do homem ou mulher perfeito, e se a criança pudesse desenvolver inteligência sem ser prejudicada por falsas noções externas, ela cresceria para ser o verdadeiro exemplo do Deus-Homem ou Deus-Homem na maioria dos casos. Arruinamos nossos filhos antes que eles tivessem uma chance de amadurecer; nossos pais bem intencionados, mas ignorantes, e professores da escola primária incutiram em suas mentes subconscientes a maioria dos “complexos” que no futuro só poderão ser erradicados por meio de trabalho árduo e suor e lágrimas.

Mas agradeço a Deus por uma boa mãe, cuja simples fé, que ela me transmitiu, me deu uma calma coragem e perseverança para desvendar pelo menos alguns de seus “laços” e nós inconscientemente transmitidos. Mas, por tudo isso, a humanidade tem complexos que precisam ser desvendados e expulsos antes de serem tomadas medidas.

Antes de tudo, deixe-me fazer um apelo para as crianças, mesmo que neste Novo Aeon elas não precisem tanto do meu apoio, pois elas estão demonstrando uma independência de espírito que confunde a mente de seus pais e tutores, que nasceram e foram criados sob a Antiga Administração. Apelo a esses mesmos pais para que não tentem quebrar de forma alguma a vontade da criança, pois é a vontade de Deus, e a única indicação do curso de ação correto. Uma vez que esta verdadeira vontade é distorcida e o pessoal inferior é retirado do alinhamento, a cidade, por minha escolha, é dividida contra si mesma e não pode suportar. É o conflito interno entre a vontade pessoal e a verdadeira vontade em cada um de nós; esta é a causa de toda a dor e ação errada. Há apenas um remédio: descobrir a vontade verdadeira e desenvolvida, e nosso caminho é apenas um, com o Destino e a Vontade do Universo em nossa consideração.

A repressão nunca deve tomar o lugar do uso correto em nenhum avião. Os justos são aqueles que usam corretamente o que possuem, para seu próprio bem e para o bem da Humanidade da qual nunca poderão ser separados. O homem não pode viver, ou morrer, por si só. O mesmo é válido para as nações.

Todas as coisas vêm de Uma Substância e são motivadas por Um Espírito. Utilizado corretamente, qualquer aspecto desta substância pode tornar-se parte do corpo e da alma do Homem, e ali transmutar nas condições e proporções adequadas para a construção de seu próprio ser de concreto. Os melhores homens e mulheres são aqueles com experiências tão variadas em todos os aspectos que são imunes a todo veneno e toda doença, porque encontraram a proporção e o equilíbrio certos entre o que é chamado de bem e o que forma o Homem Perfeito, feito à imagem e semelhança do Pai Celestial, em Quem todas as coisas têm sua origem.

O homem deve comer da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal antes de chegar à Árvore da Vida no meio do Jardim. É somente quando ele come demais de uma coisa e não o suficiente de outra que sua alma ou seu corpo fica desfigurado. Todo “Cristo” e todo Gênio tem sido amigo dos pecadores e das pessoas vulgares, assim como dos “seletos e exclusivos”. Idealismo e materialismo devem unificar-se e permanecer unidos para que uma nova civilização possa ser criada. A alma da humanidade é o vínculo conectivo. Não há nada de que se envergonhar em nossos corpos materiais, mas eles não seriam de grande utilidade sem o espírito e a vontade que lhes dá vida e movimento. Por outro lado, não devemos ser tão covardes e egoístas que desejemos ser reabsorvidos pelo espírito, como se todo o plano criativo fosse um desperdício de tempo e tivesse sido melhor nunca ter começado. Não! Agradeçamos à nossa alma pelo corpo e pelo espírito, usando-os corretamente e até o limite do nosso poder.

Mas como devemos aprender as proporções corretas de cada um?

Devemos comer do fruto da Árvore da Vida, e veremos como ele nos alimenta perfeitamente, e fará com que todos os elementos de nosso sistema sejam estabelecidos em proporções corretas e em plenitude de caráter. Devemos aprender a superar as ilusões do tempo e das circunstâncias; devemos tomar posse da herança de Liberdade que foi preparada para nós no Reino do Pai na Terra. Sacrificamos a flor da humanidade, não apenas nas grandes guerras, mas de muitas, muitas maneiras aos nossos falsos deuses.

Em nome do Deus verdadeiro e vivo, deixemos de lado o sacrifício sangrento e comecemos a construir um “Templo vivo, não feito com as mãos, eterno nos Céus”, na Terra.

Frater Achad

Collegium ad Spiritum Sanctum

***

Fonte:

Preface.

The Anatomy of the Body of God, by Frater Achad.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/anatomia-do-corpo-de-deus-prefacio/

Blessed are the Sick, Morbid Angel

O Morbid Angel ficará para sempre soando nos ouvidos de Satan como uma banda que conseguiu ser crítica em relação a religião sem ser óbvia nem pedante destoando com estilo da grande maioria de metaleiros que viviam de plagiar o Venom e o Black Sabbath.

Seu álbum Altars of Madness de 1989 foi o primeiro a abandonar a fixação do death metal a começar a substituir a simples agressão sangrenta por uma postura abertamente satânica.  Muitas das músicas de Altars of Madness  estão repletas de referências a magia negra, cânticos sinistros e orações tenebrosas. Covenant é outra obra prima: da arte da capa até o vídeo de God of Emptiness (reproduz um antigo ritual católico em que sacerdotes invocam santos para práticas de bruxaria).

Mas o destaque fica para Blessed are the Sick, lançado em 1991 e digno de nota por conter em suas letras além das referências demoníacas medievais também referências a nomes estranhos como Yog Sothoth e Shub Niggurath – criaturas dos mitos de Cthuhu reveladas por H.P. Lovecraft. Com o amadurecimento da banda ficou  claro que muito da perspectiva satânica  deles é derivada diretamente do Necronomicon, o livro maldito tido como a verdadeira Bíblia do Mal por alguns e como farsa literária por outros mas ainda assim a fonte predileta de inpirações e rituais macabros de quase todos os adeptos da magia do caos com tendência satânicas.

Unholy Blasphemies

 

Rise through the gate, Iak Sakkath

From depths beyond the sky

The realm of evil gods

Painful… They eat your mind

 

Evil undisguised

Breathe in pain

Blackened souls remain

 

Ghouls who pray the death of god

Destroy Jehovah’s church

Vomit upon the cross

And burn the book of lies

 

Yog sothoth evil one

Come forth and taste the blood

Infant entrails

Are hung upon the twisted cross

Tradução e Unholy Blasphemies
(Blasfémias Profanas)

Erga-se pelo portão Iak Sakkath

Dos abismos além do céu

O reino dos deuses do mal

Dolorido… eles comem nossa mente

Mal sem disfarce

Respiração em dor

As almas permanecem enegrecidas

Ghouls que oram a morte de deus

Destruam a igreja de Joehovah

Vomitem sobre a cruz

E queimem seu livro de mentiras

Yog sothoth, o perverso

Venha e prove do sangue

das entranhas da criança

penduradas na pervetida cruz

 

Nº 56 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes da história

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/blessed-are-the-sick-morbid-angel/

VI Simpósio Brasileiro de Hermetismo

Hermes é a figura associada à divulgação das Ciências Ocultas. Quer seja histórico, quer seja mitológico, sua influência foi tão grande que até hoje as ciências ocultas são chamadas de Hermetismo.

N’A Tábua Esmeralda, Hermes avoca o título de Trimegistos, o Três Vezes Grande, por possuir as três partes da Filosofia Universal, que receberam, dentre outros, os nomes de Magia, que é a arte de causar a mudança de acordo com a Vontade, Misticismo, que é o estudo da(s) divindade(s) e das leis que aproximam o ser humano dela(s), e a Alquimia, que é o estudo da natureza humana e sua transformação.

De Magos mitológicos, capazes de controlar os elementos, o clima e os animais, aos Alquimistas com seus fornos, capazes de transformar chumbo em ouro, passando por aqueles aptos a ver a face da(s) divindade(s), conhecer seus nomes e invocá-las, o Hermetismo chegou aos nossos dias imerso em um véu de mistério.

Sem a pretensão de solucionar esses mistérios (Seria o Nome de Deus uma Palavra? A transformação do chumbo em ouro é literal? É possível viver para sempre e eternamente jovem?) o Hermetismo fala sobre a Mudança: Mudar o Mundo, Mudar a Si Mesmo e a Mudança em direção ao Divino.

Nada mais coerente, portanto, que se debruçar sobre as mudanças que o Hermetismo proporciona aos seus praticantes.

E é com essa proposta que a Associação Educacional Sirius-Gaia (AESG) tem a alegria de apresentar o VI Simpósio Brasileiro de Hermetismo e Ciências Ocultas: O Hermetismo como Instrumento da Transformação do Ser.

Nos dias 11 e 12 de novembro poderemos ouvir alguns daqueles que, de uma forma ou de outra, trilhando o caminho das ciências ocultas, puderam observar em sua vida a mudança que lhes aproximou um pouco mais de sua Verdade Individual.

O local escolhido é o Century Plaza, na Rua Teixeira da Silva, 647, próximo a avenida Paulista.

Inscrições:

As inscrições são efetuadas somente pelo site do Simpósio e valem para assistir todas as palestras nos dias 11 e 12 de novembro de 2017. O valor da inscrição no momento é de R$ 180,00.

O calendário das inscrições segue a seguinte progressão:

Inscrições realizadas de 21/05 a 10/06 – R$ 180,00

Inscrições realizadas de 11/06 a 10/07 – R$ 200,00

Inscrições realizadas de 11/07 a 10/08 – R$ 225,00

Inscrições realizadas de 11/08 a 10/09 – R$ 250,00

Inscrições realizadas de 11/09 a 10/10 – R$ 275,00

Inscrições realizadas de 11/10 a 09/11 – R$ 300,00

Esteja atento aos prazos e antecipe sua inscrição!

http://simposiohermetismo.com.br/

#Blogosfera #Simpósio

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/vi-simp%C3%B3sio-brasileiro-de-hermetismo

A Monada Hieroglifica de John Dee

Uma das cifras mais poderosas em toda história da alquimia é um glifo obscuro de aparência bastante estranha. Há quem diga, entre eles seu criador, que este e é o símbolo da Pedra Filosofal, não apenas simbolicamente, mas que incorpora alguns dos poderes da Pedra sempre que é desenhada. Em outras palavras, acredita-se que a cifra carrega seu próprio espírito ou inteligência, que é evocada toda vez que é escrita ou construída. Este não é um espírito qualquer, mas a própria Alma do Mundo.

O nome dessa cifra é Mônada Hieroglífica, e foi criada pelo Dr. John Dee , o grande sistematizador da magia enochiana.

Sobre John Dee

Dee foi um verdadeiro homem da Renascença que alcançou renome mundial como matemático, cartógrafo, criptógrafo, mágico, filósofo,  astrólogo e alquimista. Entre suas qualidades estava a da obstinação.

“Eu estava tão decidido a estudar”, disse Dee sobre seu tempo em Cambridge, “que durante esses anos eu mantive inviolavelmente esta ordem: apenas dormir quatro horas todas as noites; permitir que me encontrem, comam e bebam comigo duas horas por dia; e das outras dezoito seriam todas gastas em meus estudos e aprendizado.”

Com uma intensa pureza de intenção e motivo, Dee embarcou em um plano sistemático para descobrir a Pedra Filosofal. Ele a via tanto como uma filosofia quanto como um objeto físico. Em sua opinião, a Pedra era “a força por trás da evolução da vida e o poder universal que une mentes e almas em uma unidade humana”.

Enquanto a maioria dos alquimistas de seu tempo procuravam a Pedra por sua capacidade de transmutar metais básicos em ouro, Dee queria possuí-la como fonte de transmutação espiritual também.

Em pouco tempo, o Dr. Dee percebeu que poderia representar todos os poderes e características da Pedra Filosofal em um símbolo mágico matematicamente corrente. Após sete anos de intenso estudo de símbolos alquímicos, ele encontrou o que procurava. Em apenas 13 dias em janeiro de 1564, Dee entrou em um estado de profunda concentração e completou uma prova matemática passo a passo chamada Monas Hieroglyphica (Mônada Hieroglífica).

Sobre a Mônada

Segundo o filósofo grego Pitágoras, a Mônada foi a primeira coisa que veio a existir no universo. Pode ser descrito como o átomo ou ovo espiritual que deu origem a todo o cosmos. Para os filósofos gnósticos, a Mônada era o único ser espiritual superior (a Mente Única) que criou todos os deuses menores e poderes elementais. Em termos junguianos, é o primeiro arquétipo que contém todos os outros arquétipos. Hoje podemos vê-lo como um mega computador que contém todo o software do universo.

Quando os alquimistas representavam a Mônada, costumavam acrescentar a legenda latina In Hoc Signo Vinces (Neste signo você vencerá). Todas as cifras codificadas dos alquimistas eram consideradas peças da Mônada Hieroglífica e, como veremos, a partir de John Dee isso tornou-se geometricamente verdadeiro.

Teria dito Dee que esta prova “revolucionaria a astronomia, a alquimia, a matemática, a linguística, a mecânica, a música, a ótica, a magia e o adepto”. Ele até pediu aos astrônomos que parassem de espiar através de seus telescópios tentando entender os céus e, em vez disso, passassem o tempo meditando em sua Mônada.

Dee acreditava que sua cifra era a verdadeira Pedra Filosofal. O frontispício de sua Mônada Hieroglífica é uma explicação sucinta da própria cifra, e o frontispício foi considerado tão importante nos tempos elisabetanos que ficou conhecido em todo o mundo como o Grande Selo de Londres.

No centro do frontispício está a cifra da Mônada dentro de um ovo invertido cheio de fluido embrionário e conhecido como Ovo Hermético. O fluido representava a Primeira Matéria; a gema é representada como um círculo e aponta para o centro da figura. O círculo com um ponto central é a cifra do ouro e do sol.

O símbolo do crescente lunar da lua cruza a parte superior da gema amarela do sol. Assim, o sol e a lua estão unidos em ouro neste nível, que representa a perfeição ou o fim da Grande Obra. Dentro da moldura ao redor da Mônada encontram-se os Quatro Elementos e os Três Essenciais do Enxofre (o sol no pilar esquerdo), Sal (a lua no pilar direito) e Mercúrio (o símbolo central).

Dois crescentes lunares arredondados ou ondas representando o Elemento Água estão na parte inferior da Mônada. Eles se juntam para formar os chifres de carneiro do signo de Áries, que significa Fogo. Áries, o primeiro signo do zodíaco, está associado à explosão de força vital na primavera, quando começa a Grande Obra. “Para começar o Trabalho desta Mônada”, escreveu Dee, “é necessário o auxílio do Fogo”.

Uma cruz, conhecida como a Cruz dos Elementos, conecta a parte inferior e a parte superior da cifra. Aqui se desenrola o funcionamento da realidade manifestada. Nesta seção da Mônada, todos os glifos dos cinco planetas visíveis, juntamente com os símbolos do sol e da lua, se cruzam. Os metais também são indicados, pois na alquimia, as cifras para o planeta e seu metal são os mesmos (Saturno/Chumbo, Júpiter/Estanho, Marte/Ferro, Vênus/Cobre, Mercúrio/Mercúrio, Lua/Prata e o Sol/Ouro). Ao traçar as linhas e arcos de conexão de diferentes maneiras, pode-se localizar todos os símbolos dos planetas e seus metais e, assim, revelar as forças invisíveis por trás da Natureza.

As cifras planetárias fundidas são organizadas da esquerda para a direita e de cima para baixo ao redor da Cruz dos Elementos. De acordo com Dee, ao colocar as cifras planetárias em seu relacionamento adequado, os símbolos astronômicos são imbuídos de uma “vida imortal”, permitindo que seu significado codificado seja expresso “de maneira mais eloquente em qualquer língua e qualquer nação”. Nesse arranjo, o sol é o único símbolo que é sempre o mesmo e, nesse sentido, incorruptível como o ouro. Não importa para que lado a Mônada seja virada – de cabeça para baixo, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda ou sua imagem espelhada – a cifra do sol e do ouro é sempre exatamente a mesma.

O coração da Mônada e a cifra que engloba todas as outras é Mercúrio. Na alquimia, Mercúrio representa o próprio princípio da transformação. Assim como descrito na Mônada, Mercúrio faz parte de todos os metais e Elementos da alquimia e funde-os juntos como um. Dee incorporou o espírito de Mercúrio no coração de seu símbolo mestre e acreditava ter capturado com sucesso as essências de todos os elementos e metais arquetípicos.

Dee acreditava que sua Mônada carregava o segredo da transformação de qualquer coisa no universo, mas nunca falou de abertamente de seu significado publicamente porque achava que a Mônada era poderosa demais para ser compartilhada com os não iniciados. Ele disse a outros alquimistas em particular que seu símbolo não apenas descrevia a inter-relação precisa das energias planetárias, mas também mostrava o caminho para a transmutação dos metais, bem como a transformação espiritual do alquimista.

Dee teve a palavra final, no entanto. “Aquele que se dedica sinceramente a esses mistérios”, disse ele, “verá claramente que nada pode existir sem a virtude de nossa Mônada Hieroglífica”. E deu este conselho a quem quisesse ler a sua prova: “Quem não entende deve aprender ou calar-se”.

~ Denis Wiliam Hauck

Α

Mônada Hieroglífica

John Dee, Antuérpia, 1564

Teorema I

E pela linha reta e pelo círculo que o primeiro e mais simples exemplo e representação de todas as coisas devem ser demonstrados, sejam essas coisas inexistentes, sejam apenas ocultas sob o véu da Natureza.

Teorema II

Não podem ser produzidos artificialmente nem o círculo sem a linha, tampouco a linha sem o ponto. E, portanto, pela virtude do ponto e da Mônada que todas as coisas começam a emergir a princípio. Aquilo que é afetado na periferia, não importando quão grande seja, não pode de forma alguma carecer do suporte do ponto central.

Teorema III

Por conseguinte, o ponto central que vemos no centro da Mônada produz a Terra, em torno da qual o Sol, a Lua e os outros planetas seguem seus respectivos caminhos. O Sol tem a suprema dignidade, e nós o representamos como um círculo que possui um centro visível.

Teorema IV

Embora o semicírculo da Lua esteja disposto sobre o círculo do Sol e podendo parecer superior, não obstante sabemos que o Sol é Rei e senhor. Vemos que a Lua, com sua forma e sua proximidade, rivaliza como Sol em sua grandeza, que é aparente ao homem ordinário; porém, sua face, ou uma semiesfera da Lua, sempre reflete a luz do Sol. Ela deseja tão intensamente ser impregnada com os raios solares e assim transformar-se em Sol que por vezes desaparece completamente dos céus e alguns dias depois reaparece, e nós a representamos pela figura dos Cornos (Cornucópia).

Teorema V

E, de fato, eu concluí a ideia do círculo solar adicionando um semicírculo à Lua, pois a manhã e o entardecer foram o primeiro dia, e foi, portanto, no primeiro (dia) que a Luz dos Filósofos foi feita (ou produzida).

Teorema VI

Notamos aqui que o Sol e a Lua são sustentados pela Cruz retangular. Esta Cruz pode significar muito profundamente, e com razões suficientes em nosso hieróglifo, tanto o Ternário quanto o Quartenário. O Ternário é composto pelas duas linhas retas tendo um centro copulativo.

O Quartenário é produzido pelas quatro linhas retas encerrando quatro ângulos retos. Qualquer um destes elementos, as linhas ou os ângulos retos, repetidos duas vezes, consequentemente, fornecem-nos da maneira mais secreta a Octada, a qual eu não creio ter sido conhecida por nossos predecessores, os Magi, e a qual deveis estudar com grande atenção. A magia tripla dos primeiros Patriarcas e dos sábios consistia em Corpo, Alma e Espírito. Portanto, temos aqui o primeiro Setenário manifesto, ou seja, duas linhas retas com um ponto comum, os quais são três, e as quatro linhas que convergem para formar o ponto central separando as duas primeiras.

Teorema VII

Quando os Elementos estão distantes de seus locais familiares, as partes homogêneas são deslocadas, e isto um homem aprende pela experiência, pois é ao longo das linhas retas que eles retornam natural e efetivamente a esses mesmos locais. Portanto, não será absurdo representar o mistério dos quatro Elementos, no qual e possível reduzir cada um a sua forma elemental, por quatro linhas retas estendendo-se em quatro direções contrárias a partir de um ponto comum e indivisível. Aqui notareis particularmente que os geômetras ensinam que uma linha é produzida pelo deslocamento de um ponto: nós notificamos que deve ocorrer algo semelhante aqui, e por uma razão similar, porque nossas linhas elementares são produzidas por uma contínua cascata de gotículas como um fluxo no mecanismo de nossa magia.

Teorema VIII

Além disso, a extensão cabalística do Quartenário, de acordo com a fórmula comum de notação (porquanto dizemos um, dois, três e quatro), é uma fórmula abreviada ou reduzida a Década. Isto ocorre porque Pitágoras tinha o hábito de dizer: l +2 + 3 + 4 fazem 10. Não é por acaso que a cruz de ângulo reto, ou seja, a vigésima primeira letra do alfabeto romano, a qual considerava-se como sendo formada por quatro linhas retas, foi usada pelos mais antigos dos Filósofos romanos para representar a Década. Posteriormente, eles definiram o ponto em que o Ternário conduz sua forca até o Setenário.

Teorema IX

Vemos que tudo isto está perfeitamente de acordo com o Sol e a Lua de nossa Mônada, porque, pela magia dos quatro Elementos, deve ser feita uma separação exata em suas linhas originais; em seguida, a conjunção circulatória no complemento solar pelas periferias dessas mesmas linhas é realizada, pois não importa quão longa uma dada linha possa ser, é possível descrever um círculo passando por seus extremos, seguindo as leis dos geômetras. Portanto, não podemos negar quão úteis o Sol e a Lua são para nossa Mônada, em conjunção com a proporção decimal da Cruz.

Teorema X

A seguinte figura do signo de Áries, em uso entre os astrônomos, é a mesma para todo o mundo (um tipo de ereção ao mesmo tempo cortante e pontuda), e entende-se que ela indica a origem da triplicidade ígnea naquela parte do céu. Portanto, adicionamos o signo astronômico de Áries para indicar que na prática desta Mônada o uso do fogo é requerido.

Terminamos a breve consideração Hieroglífica de nossa Mônada, a qual somamos em um único contexto hieroglífico:

O Sol e a Lua desta Mônada desejam que os Elementos, nos quais a décima proporção florescerá, sejam separados, e isto é feito pela aplicação do Fogo.

Teorema XI

O signo do Carneiro, composto de dois semicírculos conectados por um ponto comum, e justamente muito atribuído ao lugar do nictêmero equinocial, porque o período de 24 horas dividido pelo equinócio denota as mais secretas proporções.

Isto eu tenho dito em respeito a Terra.

Teorema XII

Os antiquíssimos sábios e Magi transmitiram-nos cinco signos hieroglíficos dos planetas, todos os quais são compostos pelos sinais usados para a Lua e para o Sol, com o signo dos Elementos e do signo hieroglífico de Áries, o Carneiro, o qual se tornara óbvio para aqueles que examinarem essas figuras:


Não será difícil explicar cada um desses signos de acordo com a maneira Hieroglífica em vista de nossos princípios fundamentais, já colocados. Para começar, falaremos em paráfrases dos que possuem as características da Lua; em seguida, dos que possuem caráter solar. Quando nossa natureza lunar, pela ciência dos Elementos, tiver completado a primeira revolução ao redor da Terra, então ela foi chamada, misticamente, Saturno. Depois, na revolução seguinte, foi chamada Júpiter, e possui uma figura muito secreta. Então a Lua, desenvolvida por ainda mais uma Jornada, foi mais uma vez representada muito obscuramente pela figura que se costumava chamar Mercúrio. Vê-se como neste ciclo Lunar que ela deve ser conduzida por meio de uma quarta revolução, e não é algo contrário a nosso desenho secreto, não importa o que certos sábios possam dizer. Dessa maneira o puro espírito mágico, por sua virtude espiritual, realizará a obra de albificação no lugar da Lua; apenas para nos e como estava no meio de um dia natural ele falará hieroglificamente sem palavras, introduzindo e imprimindo estas quatro figuras geogênicas da pura Terra muito simplesmente preparada por nós.


Esta última figura estando no meio de todas as outras.


Teorema XIII

Agora falemos sobre a característica mística de Marte. Não é ele formado pelos hieróglifos do Sol e de Áries, o magistério dos Elementos intervindo parcialmente? E o de Vênus — eu gostaria de saber —, não é ele produzido pelo do Sol e dos Elementos de acordo com os melhores expoentes? Portanto, os planetas tornam-se para a periferia solar e para a obra de revivificação.

Na progressão notaremos que este outro Mercúrio aparecerá e é verdadeiramente o irmão gêmeo do segundo: pois, pela magia Lunar e Solar completa dos Elementos, o Hieróglifo desse Mensageiro fala-nos muito distintamente, e deveríamos examiná-lo cuidadosamente e escutar o que ele diz. E (pela vontade de Deus) ele é o Mercúrio dos Filósofos, o grandemente celebrado microcosmo e ADÃO. Portanto, alguns dos mais experientes inclinaram-se a colocá-lo em uma posição e dar-lhe um grau de distinção igual ao do próprio Sol. Isto nós não podemos fazer na presente época, a menos que adicionemos a esta obra de cristal coralíneo uma certa ALMA separada do corpo por uma arte pirofágica. É muito difícil conseguir isso e também muito perigoso por causa da fragrância que o fogo e o enxofre contém. Mas certamente esta ALMA pode realizar coisas maravilhosas. Por exemplo, junte-a, por meio de amarras inseparáveis, ao disco da Lua (ou ao de Mercúrio) por Lúcifer e pelo Fogo. Em terceiro lugar, é necessário que mostremos (a fim de demonstrar nosso número Setenário) que este é o próprio Sol dos Filósofos. Vós observareis a exatidão, bem como a clareza com a qual esta anatomia da Mônada Hieroglífica corresponde àquilo que é o significado do arcano destes dois teoremas.

Teorema XIV

Está portanto claramente confirmado que todo o magistério depende do Sol e da Lua. O Grandiosíssimo Hermes disse-nos isso repetidamente afirmando que o Sol é o pai e a Lua a mãe, e nos sabemos de fato que a terra vermelha (terra lemnia) é nutrida pelos raios da Lua e do Sol, os quais exercem uma influência singular sobre ela.

Os princípios da Astronomia inferior, mostrados na anatomia de nossa Mônada.

Teorema XV

Sugerimos, portanto, que os Filósofos considerem a ação do Sol e da Lua sobre a Terra. Eles notarão que, quando a luz do Sol entra em Áries, a Lua, quando entra no próximo signo, ou seja, Touro, recebe uma nova dignidade na luz e é exaltada naquele signo em relação às suas virtudes naturais. Os Antigos explicavam esta proximidade dos astros — a mais notável de todas — por um certo signo místico sob o nome do Touro. É muito provável que seja a exaltação da Lua, a qual os astrônomos dos tempos mais remotos testemunham em seus tratados. Este mistério pode ser compreendido apenas por aqueles que se tornaram os Pontífices Absolutos dos Mistérios. Pela mesma razão eles disseram que Touro é a casa de Vênus, ou seja, do amor conjugal, casto e prolífico, pois a natureza regozija-se na natureza, como o grande Ostanes ocultou em seus mistérios mais secretos. Estas exaltações são adquiridas pelo Sol, porque ele próprio, após ter sofrido muitos eclipses de sua luz, recebeu a força de Marte, e é dito como exaltado nesta mesma casa de Marte, que é o nosso Carneiro (Áries).

Este mistério secretíssimo é claro e perfeitamente mostrado em nossa Mônada pela figura Hieroglífica de Touro, o qual é aqui representado, e pela de Marte, que indicamos no Teorema XII e Teorema XIII pelo Sol unido a uma linha reta na direção do signo de Áries. Nesta teoria oferece-se outra análise cabalística de nossa Mônada, pois eis a real e engenhosa explicação: as exaltações da Lua e do Sol são feitas por meio da ciência dos Elementos.

Nota: Há duas coisas que devem ser particularmente observadas; primeiro, que a figura Hieroglífica de Touro é a mesma do ditongo dos gregos, o qual era sempre usado na terminação do singular; segundo, que por uma simples transposição de lugar mostramos a letra alfa duas vezes, por um circulo e um semicírculo, sendo simples tangentes que tocam uma a outra, como mostrado.

Teorema XVIora, tendo em vista nosso tema, filosofar brevemente a respeito da Cruz. Nossa Cruz pode ser formada por duas linhas retas (como dissemos) que são iguais, ou seja, não podemos separar as linhas, exceto partindo-as de modo que se consigam comprimentos iguais. Mas na distribuição mística dos componentes de nossa Cruz, queremos usar partes que sejam tanto iguais como desiguais. Estas partes mostram que uma virtude está oculta sob o poder da divisão da (Cruz Equilateral em duas partes, pois elas são de igual grandeza. Em geral, a Cruz deve ser composta de ângulos retos, já que a natureza da justiça exige a perfeita igualdade das linhas usadas na interseção. De acordo com essa justiça, propomos um exame cuidadoso do que segue a respeito da Cruz Equilateral (a qual corresponde à vigésima primeira letra do alfabeto latino).

 


Se, por meio do ponto comum no qual os ângulos opostos se encontram em nossa Cruz Retilínea, Retangular e Equilateral, imaginarmos uma linha reta dividindo-a em duas partes, então em cada lado da linha assim transversa notamos que as partes são perfeitamente iguais e similares.

E essas partes são similares em forma aquela letra dos romanos que corresponde a quinta vogal e que era frequentemente usada pelos mais antigos Filósofos Latinos para representar o numero V. Isso, suponho, não era feito por eles sem uma boa razão, pois é de fato a metade exata de nossa Década. Dessas partes da figura, assim duplicadas pela divisão hipotética da Cruz, podemos concluir que é razoável que cada parte represente o quinário, embora uma esteja de pé e a outra ao contrário, a semelhança da multiplicação da raiz quadrada que entra aqui de maneira maravilhosa como o número circular, ou seja, o quinário, do qual notamos que o numero 25 é produzido (porquanto esta letra é a vigésima do alfabeto e a quinta das vogais).


Consideraremos agora outro aspecto desta mesma Cruz Equilateral — o seguinte é baseado na posição mostrada em nossa Cruz Monádica. Suponhamos que uma divisão similar da Cruz em duas partes seja feita como no desenho. Agora vemos a forma germinante de outra letra do alfabeto latino — uma de pé e a outra ao contrário. Esta letra é usada (segundo o antigo costume dos latinos) para representar o número 50. Dai, parece-me, estabelecemos nossa Década da Cruz, pois é colocada no topo de todos os mistérios, e segue-se que esta Cruz é o signo hieroglífico da perfeição. Portanto, incluso na forma do quinário está o poder da Década, de onde provém o número 50 como seu próprio produto.

Ó, meu Deus, quão profundos são estes mistérios! E o nome ELE (EL) é dado a esta letra! E por esta mesma razão, vemos que esta responde a virtude decimal da Cruz, porque, começando da primeira letra do alfabeto, L é a décima letra, e contando de trás para frente, com base na letra X, descobrimos que ele cai no décimo lugar, e desde que mostramos que há duas partes da Cruz, e considerando agora sua virtude numérica, fica bem claro como o número cem é produzido. E se pela lei dos quadrados essas duas partes forem multiplicadas, elas resultam num produto igual a 2.500. Este quadrado, comparado com o quadrado do primeiro número circular e aplicado a ele, resulta numa diferença de cem, que é a própria Cruz explicada pelo quadrado de sua Década, e é reconhecida como cem. Portanto, como isto está contido na figura da Cruz, também representa a unidade. Pelo estudo destas teorias da Cruz, a mais digna de todas, somos assim induzidos a utilizar esta progressão, a saber: um-dez-um-cem, e esta é a proporção decimal da Cruz como se apresenta a nós.

Teorema XVII

Após um estudo apropriado do sexto teorema é lógico proceder para uma consideração dos quatro ângulos retos da Cruz, para cada qual, como mostramos no teorema precedente, atribuímos o significado do quinário de acordo com a primeira em que estão colocados, e transpondo-os para uma nova posição, o mesmo teorema mostra que eles tornam-se signos hieroglíficos do numero 50. É muito evidente que a Cruz é vulgarmente usada para indicar o número 10, e também é a vigésima primeira letra, seguindo a ordem do alfabeto latino, e é por esta razão que os sábios entre os Mecubales designaram o numero 21 pela mesma letra. De fato, podemos fazer uma consideração muito simples deste signo para descobrir que outras virtudes qualitativas e quantitativas ele possui. Baseados em todos estes fatos vemos que podemos seguramente concluir, pela melhor das computações cabalísticas, que nossa Cruz, por uma maravilhosa metamorfose, pode significar 252 para os Iniciados. Por conseguinte: quatro vezes cinco, quatro vezes cinquenta, dez, 21, os quais somados resultam em 252. Podemos extrair este número mediante dois outros métodos, como já mostramos anteriormente; recomendamos aos cabalistas, que ainda não fizeram experimentos para produzi-lo, não apenas estudá-lo em sua concisão, mas também formar um julgamento digno de filósofos a respeito das várias permutações e engenhosas produções que surgem do magistério deste número. E não esconderei de vós outra memorável mistagogia: considerai que nossa Cruz, contendo tantas ideias, oculte duas outras letras se examinarmos cuidadosamente suas virtudes numéricas depois de uma certa maneira, de modo que, por um método paralelo seguindo sua força verbal com esta mesma Cruz, reconheçamos com suprema admiração que é daqui que a LUZ é derivada (LUX), a palavra final do magistério, pela união e conjunção do Ternário dentro da unidade da Palavra.

Teorema XVIII

Dos nossos Teoremas XII e XIII pode-se inferir que a astronomia celestial é a fonte e o guia da astronomia inferior. Antes de elevarmos nossos olhos ao céu, cabalisticamente iluminados pela contemplação destes mistérios, devemos perceber com exatidão a construção de nossa Mônada, como é mostrada para nós não apenas na LUZ, mas também na vida e na natureza, pois ela revela explicitamente, por seu movimento interno, os mais secretos mistérios desta análise física. Contemplamos as funções celestiais e divinas deste Mensageiro celestial, e aplicamos agora esta coordenação à figura do ovo.

É bem sabido que todos os astrólogos ensinam que a forma da órbita traçada por um planeta é circular, é porque os sábios deveriam entender como uma simples alusão, é assim que o interpretamos no hieróglifo mostrado, o que concorda em cada detalhe com aquilo que já foi dito. Aqui vós notareis que os miseráveis alquimistas devem aprender a reconhecer seus numerosos erros e entender o que é a água da clara do ovo, o que é o óleo da gema do ovo e o que queremos dizer com cascas de ovos calcinadas. Esses impostores inexperientes devem aprender em seu desespero a compreender o que realmente querem dizer estas e muitas outras expressões similares. Aqui nos mostramos praticamente todas as proporções que correspondem à própria Natureza. Este é o mesmo Ovo de Águia que o escaravelho quebrou anteriormente por causa da injúria que a crueldade e a violência deste pássaro causaram aos tímidos homens primitivos, pois este pássaro perseguiu alguns deles que estavam entrando na caverna onde o escaravelho habitava para implorar por seu auxílio. O escaravelho ponderou como poderia ele sozinho vingar tamanha insolência e, possuindo caráter veemente, preparou-se para levar a cabo seu propósito por meio de constância e determinação, pois não lhe faltavam nem poder nem inteligência. O escaravelho perseguiu a águia resolutamente e fez uso desta, extremamente perspicaz: ele derramou seu excremento no seio de Júpiter onde o ovo estava depositado, fazendo com que o Deus, ao tentar livrar-se dele, lançasse o ovo ao chão, onde ele se quebrou. O escaravelho teria, desta maneira, exterminado toda a família das águias da Terra não fosse Júpiter, a fim de evitar tamanha calamidade, resolver que, durante aquela parte do ano, quando as águias chocavam seus ovos, nenhum escaravelho deveria voar próximo a eles. Portanto, aconselho aqueles que forem maltratados pela crueldade deste pássaro que aprendam a utilíssima arte destes insetos solares (Heliocantharis) que vivem ocultos e escondidos por longos períodos de tempo. Por estas indicações e sinais, pelas quais deveriam ser muito gratos, eles próprios serão capazes de obter vingança contra seus inimigos. E eu afirmo (ó Rei!) que não é Esopo, mas Edipo quem me vem à lembrança, pois ele apresentou estas coisas a almas valorosas e aventurou-se pela primeira vez a falar desses mistérios supremos da Natureza. Eu sei perfeitamente que houve certos homens que, pela arte do escaravelho, dissolveram o ovo da águia e sua casca em puro albume e fizeram desse modo uma mistura de tudo; subsequentemente eles reduziram esta mistura a um líquido amarelo, por um processo notável, a saber: por uma incessante circulação, assim como os escaravelhos rolam suas bolotas de terra. Por este meio a grande metamorfose do ovo foi alcançada; o albume foi absorvido durante muitas revoluções ao redor das órbitas heliocêntricas, e foi envolvido no mesmo líquido amarelo. A figura Hieroglífica mostrada aqui, desta arte, não desagradará os que são familiarizados com a Natureza.


Lemos que, durante os primeiros séculos, essa arte foi muito celebrada entre os mais sérios e antigos Filósofos como certa e proveitosa. Anaxágoras realizou o magistério e extraiu dai uma excelente medicina, como podeis ler em seu livro Sobre a Natureza.

Aquele que se devota sinceramente a esses mistérios verá claramente que nada é capaz de existir sem a virtude de nossa Mônada Hieroglífica.

Teorema XIX

O Sol e a Lua irradiam sua força corpórea sobre os corpos dos Elementos inferiores muito mais do que todos os outros planetas. É este fato que mostra, com efeito, que na análise pirognômica todos os metais perdem o humor aquoso da Lua, assim como a solução ígnea do Sol, pelas quais todas as coisas corpóreas, terrestres e mortais são sustentadas.

Teorema XX

Mostramos suficientemente que por razões muito boas os Elementos são representados por linhas retas em nosso Hieróglifo, portanto damos uma conjetura bastante exata a respeito do ponto que colocamos no centro de nossa Cruz. Este ponto não pode de maneira alguma ser subtraído de nosso Ternário. Se qualquer pessoa que ignore esta sabedoria divina disser que nesta posição de nosso Binário o ponto pode ser ausente, nós responderemos que ele pode supô-lo ausente, mas aquele que permanecer sem ele certamente não será nosso Binário; pois o Quartenário é imediatamente manifesto porque, removendo o ponto, descontinuamos a unidade das linhas. Agora, nosso adversário pode supor que por este argumento reconstruímos nosso Binário; que de fato nosso Binário e nosso Quartenário são uma e a mesma coisa, de acordo com essa consideração, o que é manifestadamente impossível. O ponto precisa necessariamente estar presente, pois com o Binário constitui nosso Ternário, e não há nada que possa substituí-lo. Entretanto, ele não pode dividir a propriedade hipostática de nosso Binário sem anular uma parte integrante deste. Assim demonstra-se que ele não pode ser dividido. Todas as partes de uma linha são linhas. Isto é um ponto, e isto confirma nossa hipótese. Portanto, o ponto não forma parte de nosso Binário e, entretanto, forma parte integrante de nosso Binário. Segue-se que devemos tomar nota de tudo que esta oculto na forma hipostática e compreender que não há nada supérfluo na dimensão linear de nosso Binário. Mas porque vemos que essas dimensões são comuns a ambas as linhas, considera-se que elas recebam uma certa imagem secreta deste Binário. Dessa maneira, demonstramos aqui que o Quartenário está oculto no Ternário. Ó Deus, perdoa-me se pequei contra Tua Majestade revelando tão grande mistério em meus escritos que devem ser lidos por todos, mas creio que apenas os que são realmente dignos o compreenderão.

Continuamos, portanto, a expor o Quartenário de nossa Cruz como temos indicado. Procure diligentemente descobrir se o ponto pode ser removido da posição na qual primeiramente o encontramos. Os matemáticos ensinam que ele pode ser deslocado com muita facilidade. No momento em que é separado o Quartenário permanece, e torna-se muito mais claro e distinto aos olhos de todos.

Esta não é uma parte de suas proporções substanciais, mas apenas o ponto confuso e supérfluo que é rejeitado e removido.

Ó Divina Majestade Onipotente, como nós Mortais somos constrangidos a confessar quão grande Sabedoria e inefáveis mistérios residem na Lei que Tu fizeste! Por todos estes pontos e letras os segredos mais sublimes, e mistérios arcanos terrestres, assim como as múltiplas revelações deste ponto único, agora colocadas na Luz e examinadas por mim, podem ser fielmente demonstradas e explicadas. Este ponto não é supérfluo dentro da Divina Trindade, ainda quando considerado, por outro lado, dentro do Reino dos quatro Elementos onde ele é negro, portanto corruptível e insípido. É quatro vezes felicíssimo, o homem que atinge este ponto (quase copulativo) no Ternário, e rejeita e remove aquela parte sombria e supérflua do Quartenário, a fonte de vagas sombras. Assim, após algum esforço, obtemos as vestes brancas brilhantes como a neve.

Ó, Maximiliano, que Deus, por meio dessa mistagogia, faça de você ou de algum outro descendente da Casa da Aústria o mais poderoso de todos quando me chegar a hora de repousar tranquilo em Cristo, afim de que a honra de Seu formidável nome possa ser restaurada nas abomináveis e intoleráveis sombras que pairam sobre a Terra. E agora, por temor de que eu próprio possa dizer demais, devo retornar imediatamente ao fardo de minha tarefa, e porque ja terminei meu discurso para aqueles cujo olhar está centrado no coração, é agora necessário traduzir minhas palavras para aqueles cujo coração esta centrado nos olhos.

Aqui, portanto, podemos representar em alguma medida na figura da Cruz o que já dissemos. Duas linhas iguais são igual e desigualmente cruzadas a partir do ponto de necessidade que se vê em A. As quatro linhas retas, como em B, produzem um tipo de vácuo em que são retiradas do ponto central, que era sua condição comum, em cujo estado não eram prejudiciais, de uma para a outra. Este é o caminho pelo qual nossa Mônada, progredindo pelo Binário e Ternário no Quartenário purificado, é reconstituída dentro de si mesma, unida em proporções iguais, e que agora mostra que o todo é igual a suas partes combinadas, pois durante o tempo em que isto ocorre nossa Mônada não admitirá outras unidades ou números, porque é autossuficiente, e assim exatamente dentro de si mesma; absoluta em todos os números na amplitude da qual está difusa, não apenas magicamente, mas também por um processo um tanto vulgar empregado pelo artista, que produz grandes resultados de dignidade e poder dentro desta mesma Mônada, que é resumida à sua própria primeira matéria; enquanto o que é estranho a sua natureza e às suas proporções naturais hereditárias é segregado com a máxima cautela e diligência e rejeitado para sempre entre as impurezas.

Teorema XXI

Se o que está oculto nas profundezas de nossa Mônada for trazido à luz, ou, ao contrário, se as partes primárias que são exteriores em nossa Mônada forem fechadas no centro, vós vereis até onde a transformação filosófica pode ser produzida. Exporemo-vós agora outra comutação local de nossa Mônada mística, usando as partes dos caracteres hieroglíficos dos planetas superiores que são imediatamente oferecidas a nós. Cada um dos outros planetas por este motivo e, por sua vez, elevado a uma posição que lhes foi frequentemente apontada por Platão; portanto, se eles forem convenientemente tornados nesta posição e neste ponto em Áries, Saturno e Júpiter estão em conjunção. Descendo, a Cruz representa Vênus e Mercúrio, seguidos pelo próprio Sol com a Lua abaixo. Isto será refutado em outros círculos; entretanto, como não queremos esconder o tesouro filosófico de nossa Mônada, resolvemos dar uma razão para que a posição da Mônada seja dessa maneira deslocada. Mas veja! Ouça estes outros grandes segredos que conheço e revelarei para assisti-los no que concerne a esta posição, que posso explicar em poucas palavras. Distribuímos nossa Mônada, agora vista de um aspecto diferente e analisada de uma maneira diferente, como visto em B, D, C. Neste novo Ternário as figuras C e D são conhecidas por todos os homens, mas a figura designada por B não é de fácil compreensão.

É necessário dar cuidadosa atenção as conhecidas formas D e C, que mostram que as essências estão separadas e distintas da figura B: também vemos que os Cornos da figura C estão virados para baixo em direção a Terra. A parte de D que ilumina C esta também direcionada à Terra, ou seja, para baixo, no centro da qual o solitário ponto visível é em verdade a Terra; finalmente, estas duas figuras D e C viradas em direção a extremidade inferior dão uma indicação Hieroglífica da Terra. Portanto, a Terra é feita para representar, hieroglificamente, estabilidade e fixação. Deixo para vós julgardes o que se quer dizer com C e D: do que vós notareis um grande segredo. Todas as qualidades que primeiramente atribuímos ao Sol e a Lua podem ter aqui uma interpretação perfeita e muito necessária, estas duas estrelas até agora tendo sido colocadas na posição superior com os cornos da Lua virados para cima; porém, já falamos a este respeito.

Examinaremos agora, de acordo com os fundamentos de nossa Arte Hieroglífica, a natureza desta terceira figura B. Primeiro, carregamos a Coroa o crescente duplo da Lua que é nosso Áries, convertido de uma maneira mística. Então se segue o signo hieroglífico dos Elementos, que está anexado a ele. O porque de usarmos a Lua dupla pode ser explicado que isto está de acordo com a matéria, o que requer uma quantidade em dobro da Lua. Falamos destes graus dos quais os Filósofos em seus experimentos puderam encontrar apenas quatro, entre todas as substancias criadas, ou seja, ser, viver, sentir e compreender (esse, vivere, sentire et entelligere). Dizendo que os dois primeiros destes Elementos são encontrados aqui, dizemos que eles são chamados argent vive (lunas existens, viva), princípios de movimento. A Cruz que está anexa implica que neste artífice os Elementos são requisitados. Nós lhes dissemos muitas vezes que em nossa teoria o hieróglifo da Lua é como um semicírculo, e pelo contrário o círculo completo significa o Sol, enquanto aqui temos dois semicírculos separados, mas tocando-se em um ponto comum; se estes estão combinados, como o podem ser por uma certa arte, o produto pode resultar na plenitude circular do Sol. De todas estas coisas que consideramos, o resultado é que podemos resumir e, em uma forma Hieroglífica, oferecer o seguinte:

Argent vive, que deve ser desenvolvido pelo magistério dos Elementos, possui o poder da força solar pela unificação destes dois semicírculos unificados por uma arte secreta.

O círculo, o qual falamos e que designamos na figura pela letra E, é assim realizado e formado. Vós lembrareis que dissemos que o grau solar não nos é entregue prontamente em mão pela Natureza, mas que é artificial e não produzido pela Natureza, estando-nos disponível em seu primeiro aspecto de acordo com sua própria natureza (como em B) em duas partes separadas e dissolvidas, e não solidamente unido o corpo solar. De fato, o semidiâmetro destes semicírculos não é igual ao semidiâmetro de D e C, mas muito menor. Todos podem perceber isto pela forma como os desenhamos no diagrama, onde está claro que este mesmo B não tem uma amplitude tão grande quanto D e C. As proporções na figura confirmam isto, sendo desta maneira transformada num círculo de B a E. Portanto, aparece ali diante de nossos olhos apenas o signo de Vênus. Já demonstramos por estes silogismos hieroglíficos que de B não podemos obter o verdadeiro D, e que o verdadeiro C não é e não pode estar completamente dentro da natureza de B; portanto, ele por si mesmo não é capaz de tornar-se o verdadeiro Argent Vive. Vós podeis duvidar do sujeito desta vida e deste movimento, se é que é possível, de fato, possuí-lo naturalmente ou não. Todavia, como já explicamos aos sábios, todas as coisas que são ditas a respeito de B, de maneira similar serão pelo menos analógicas, e tudo o que ensinamos brevemente a respeito de C e D pode ser muito bem aplicado, por analogia, a este mesmo B acompanhado pelos Elementos.

De fato, o que anexamos à natureza de Áries deveria servir perfeitamente para este caso, pois ele carrega esta figura B, embora ao contrário, em seu ápice, é o que está anexado a figura B e a figura mística dos Elementos. Portanto, vemos por meio desta anatomia que apenas do corpo de nossa Mônada, separado desta maneira por nossa Arte, este novo Ternário é formado.

Disto não podemos ter dúvidas, pois os membros que a compõem reagrupam-se e formam entre si por sua própria vontade uma união e simpatia monádica que é absoluta. Por este meio descobrimos entre estes membros uma força que é tanto magnética como ativa.

Finalmente penso ser bom notar aqui, por recreação, que este mesmo B apresenta muito claramente as mesmas proporções na mal formada e rústica letra na qual carrega pontos visíveis em direção ao topo e na frente, e que estas letras são três em número, de outro modo seriam em número de seis, sumariando três vezes três: elas são brutas e mal-formadas, instáveis e inconstantes, feitas de tal maneira que parecem ser formadas por uma serie de semicírculos. Mas o método de tornar estas letras mais estáveis e firmes está na mão dos peritos literários. Eu coloquei aqui diante de vossos olhos uma infinitude de mistérios: introduzo um jogo, mas para interromper a teoria. Entretanto, não compreendo o esforço de certas pessoas em levantarem-se contra mim. Nossa Mônada sendo reconstituída em sua primeira posição mística e cada uma de suas partes sendo ordenada pela Arte, eu os advirto e exorto a buscarem com zelo pelo fogo de Áries na primeira triplicidade, que é nosso fogo equinocial e que é a causa pela qual nosso Sol deve ser elevado acima de sua qualidade vulgar. Muitas outras coisas excelentes deveriam ser estudadas também em felizes e sabias meditações.


Agora passaremos a outro assunto; queremos apontar o caminho, de maneira não apenas amigável, mas também fiel, para os outros segredos sobre os quais devemos insistir, antes que caíamos em silêncio e os quais, como dissemos, compreendem uma notável infinitude de outros mistérios.

Teorema XXII

Será prontamente entendido que os mistérios de nossa Mônada não podem ser extraídos, a menos que se esteja inclinado a farmácia da mesma Mônada, e que estes mistérios não sejam revelados a não ser aos Iniciados. Eu ofereço aqui para a contemplação de vossa Serena Alteza os vasos da Arte Sagrada que são verdadeira e completamente cabalísticos. Todas as linhas que unem as diversas partes de nossa Mônada são muito sabiamente separadas; nós atribuímos a cada uma delas uma letra especial, a fim de distingui-las umas das outras, como vereis no diagrama.

Informamos-vos que em A é encontrado um certo vaso artificial, formado por A e B com a linha M. O diâmetro exterior é comum a ambos, A e B, e este não é diferente, como vemos, desta primeira letra do alfabeto grego, exceto por uma única transposição das partes.

Ensinamos a verdadeira simpatia mística primeiro pela linha, o círculo e o semicírculo, e, como dissemos anteriormente, esta simetria pode apenas ser formada com base no círculo e no semicírculo, que estão sempre juntos pelo mesmo propósito

mas de outros vasos. Ou seja, X  é feito de vidro e 8 é feito de terra (cerâmica ou argila). Em segundo lugar, X  e 8 podem lembrar-nos do Pilão e do Almofariz que devem ser feitos como a substantia adequada, nos quais pérolas imperfuráveis artificias, lamelas de cristal e berilo, crisólita, rubis preciosos, carbúnculos e outras pedras artificiais raras podem ser transformadas em pó.

Por fim, o indicado pela letra w é um pequeno vaso contendo os mistérios, que nunca está distante desta última letra do alfabeto grego agora restaurada a sua mistagogia primitiva, e que é feita de uma única transposição de suas partes componentes, consistindo de dois meio-círculos de tamanho igual. A respeito dos objetos e necessidades vulgares que são requeridos em adição aos vasos, e o material dos quais eles devem ser moldados, seria inútil tratar disso aqui. Entretanto, deve ser considerado como buscar pela ocasião para realizar sua função por uma circulação espiral muito secreta e rápida e um sal incorruptível pelo qual o primeiro princípio das coisas seja preservado, ou melhor, que a substantia que flutua no vitríolo após sua dissolução mostre ao aprendiz uma espécie primordial, mas muito transitória de nossa obra, e se ele for atento, uma maneira muito sutil e mais efetiva de preparar a obra ser-lhe-á revelada. Dentro de X, o vaso de vidro, durante o exercício desta função particular, todo o ar deve ser excluído ou será extremamente prejudicial. O corolário de w é o homem agradável, ativo e bem disposto o tempo todo. Quem, então, não está agora apto a procurar os frutos doces e salutares desta Ciência, que, digo, cresce do mistério destas duas letras?

Alguns dos que os afastariam de nosso Jardim de Hespérides, e nos fariam ver isto um pouco mais próximo como num espelho, dizem que está estabelecido que este não é formado a não ser por nossa Mônada.

Mas a linha reta que aparece em Alfa e homologa aquela que, na separação da análise final de nossa Cruz, já foi designada pela letra M. Pode-se descobrir desta maneira de onde as outras foram produzidas. Veja o esquema delineado a seguir.

Nestas poucas palavras, eu sei que dou não só os princípios, mas também a demonstração ao aos que podem ver neles como fortificar o vigor ígneo e a origem celestial, de modo que possam emprestar uma orelha ao grande Demócrito, certos de que não é um dogma mítico e sim místico e secreto, de acordo como qual está a medicina da lama, a libertadora de todo o sofrimento, e está preparado para os que o desejam e como ele ensinou; deve ser buscado na Voz do Criador do Universo, de maneira que os homens, inspirados por Deus e gerados novamente, aprendam pela perfeita disposição das línguas místicas.

Teorema XXIII

Apresentamos agora de forma diagramática as proporções já observadas por nós na construção de nossa Mônada, as quais devem ser vistas por aqueles que desejam gravá-las sobre seus selos e anéis, ou para utilizá-las de qualquer outra maneira. Em nome de Jesus Cristo crucificado sobre a Cruz, eu digo que o Espírito escreve estas coisas rapidamente por meu intermédio; eu espero e creio que eu seja apenas a pena que traça esses caracteres. O Espírito impele-nos agora para nossa Cruz dos Elementos, com todas as medidas seguintes que devem igualmente ser obtidas por um processo de raciocínio, de acordo com o tema que for proposto para discussão. Tudo que existe abaixo do céu da Lua contém o princípio de sua própria geração em si mesmo e é formado pela coagulação dos quatro Elementos, a menos que seja a própria substancia primária, e isto de várias maneiras não é conhecido pelos vulgares, não havendo nada no mundo criado em que os Elementos existam em igual proporção ou igual força. Mas, por meio de nossa Arte, eles podem ser restituídos à igualdade em certos aspectos, como bem sabem os sábios; portanto, em nossa Cruz, tornamos as partes iguais e desiguais.


Outra razão é que podemos promulgar tanto a similitude quanto a diversidade, a unidade ou a pluralidade, ao afirmarmos as propriedades secretas da Cruz equilateral, como foi dito anteriormente.

Se tivéssemos de expor todas as razões que conhecemos, para as proporções estarem estabelecidas desta maneira, ou se tivéssemos que demonstrar as causas por meio de outros métodos que ainda não tenhamos usado, embora tenhamos feito o suficiente para os sábios, deveríamos transcender os limites da obscuridade que temos prescrito, não sem razão, em nosso discurso.

Tome um ponto qualquer, o ponto A, por exemplo; desenhe uma linha reta passando por ele em ambas as direções, como CAK. Divida a linha CK em A comum a linha formando ângulos retos, a qual chamaremos DAE. Agora selecione um ponto qualquer na linha AK, que seja ele o ponto B, e obtém-se assim a medida primária de AB, a qual será a medida comum de nossa obra. Tome três vezes o tamanho de AB e marque a linha central de A a C, que será AC. Agora tome duas vezes a distância entre AB e marque-a na linha DAE na altura do ponto E e novamente em D, de maneira que a distancia entre D e E seja quatro vezes a distância entre A e B. Assim forma-se nossa Cruz dos quatro Elementos, ou seja, o Quartenário formado pelas linhas AB, AC, AD, AE. Agora na linha BK tome uma distância igual a AD na linha central ate o ponto I. Tendo o ponto I como centro e IB como o raio, descreva um círculo que corte a linha AK em R: do ponto R em direção ao ponto K marque uma distância igual a AB, que sera RK. Do ponto K desenhe uma linha formando ângulos retos na linha central, formando um ângulo em cada lado de AK, que será PFK. Do ponto K meça na direção de F uma distância igual a AD, que será KF: agora com K como centro e KF como raio descreva um semicírculo FLP, de forma que FKP seja o diametro. Finalmente, no ponto C desenhe uma linha formando ângulos retos em AC suficientemente longa em ambas as direções para formar OCQ. Agora na linha CO medimos a partir de C uma distância igual a AB, que é CM, e tendo M como centro e MC como raio descrevemos um semicírculo CHO. E da mesma maneira em CQ, do ponto C mediremos uma distância igual a AB que será CN, e do centro N com CN como raio, traçamos um semicírculo CGQ, do qual CNQ é o diâmetro. Agora afirmamos, com base nisso, que todas as medidas requeridas foram explicadas e descritas em nossa Mônada.

Seria bom notar, vós que conheceis as distâncias de nosso mecanismo, que toda a linha CK é composta de nove partes, das quais uma nós é fundamental, e que de outra maneira é capaz de contribuir para a perfeição de nossa obra; então, mais uma vez, todos os diâmetros e semidiâmetros devem ser designados aqui por linhas hipotéticas escondidas ou ocultas, como dizem os geômetras. Não é necessário deixar nenhum centro visível, com exceção do centro solar, que aqui é marcado pela letra I, onde é desnecessário adicionar qualquer letra. Entretanto, os que são adeptos de nosso mecanismo podem adicionar algo à periferia solar, como ornamento, e não por virtude de qualquer necessidade mística; por esta razão esta possibilidade não foi anteriormente por nós considerada. Este algo é um anel fronteiriço, necessariamente uma linha paralela à periferia original. A distância entre estas paralelas pode ser fixada em um quarto ou um quinto da distância AB. Pode-se também dar ao crescente da Lua uma forma que é frequentemente assumida por este planeta no céu, após sua conjunção com o Sol — ou seja, na forma de Cornos, que você obterá se, do ponto K na direção do ponto R, medir a distância mencionada; a quarta ou quinta parte da linha AB, e se do ponto assim obtido, como um centro, traçar com o raio lunar original a segunda parte do crescente lunar, a qual junta-se nas extremidades ao final do primeiro semicírculo. É possível realizar uma operação similar com respeito às posições M e N quando se eleva a perpendicular até cada um destes pontos centrais; podemos usar a sexta parte de AB ou um pouco menos, de cada ponto, como o centro, descrevemos dois outros semicírculos, usando o raio dos dois primeiros, MC e NC.

Nosso Cânone de Transposição

Tome a mesma proporção que é mostrada em números quando escritos na ordem natural, após a primeira Mônada; então, do primeiro ao último, faça uma multiplicação contínua, ou seja, o primeiro pelo segundo, o produto destes dois pelo terceiro, e este produto pelo quarto, e assim por diante, até o último; o produto final determina todas as Metastáses possíveis, com respeito a proporção no espaço, e pela mesma razão em proporção a diversos objetos de acordo com o que desejares.

Eu te digo, ó Rei, esta operação será útil para ti em muitas circunstâncias, seja no estudo da Natureza, seja nos afazeres do governo dos homens; pois é ela que eu costumo usar com enorme prazer no Tziraph ou Themura dos hebreus.

Eu sei que muitos outros números poderosos podem ser produzidos com base em nosso Quartenário, pela virtude da aritmética e do poder dos números. Ainda assim aquele que não entende que uma grande obscuridade foi por este método iluminada por aqueles números que eu tracei, os quais tem natureza e distinção entre uma infinidade, não será capaz de estimar seu significado, o qual é obscuro e não óbvio. Quantos encontrarão em nossos números a autoridade que prometemos pelo valor dos Elementos, pelas afirmações a respeito das medidas do tempo e pela certeza das proporções que podem ser atribuídas aos poderes e as forças das coisas? Tudo isso vós deveis estudar nos dois diagramas precedentes.

Pode-se deduzir muitas coisas dos diagramas que, preferivelmente, devem ser estudadas silenciosamente em vez de divulgadas abertamente por meio de palavras. Entretanto, vos informaremos de uma coisa, entre muitas outras, reveladas agora para nós pela primeira vez, em relação a esta nova Arte; por entendimento, estabelecemos aqui uma causa racional por virtude da qual o Quartenário com a Década, de certa maneira, terminam a série numérica. Afirmamos que esta causa não é exatamente a que foi descrita pelos Mestres que nos precederam, mas é exatamente como começamos aqui. Esta Mônada foi restaurada integral e fisicamente a si mesma, ou seja, ela é realmente a Mônada Unitíssima, a unidade comprovada das imagens; e não está contida no poder da Natureza, nem tampouco podemos por qualquer arte promover nela qualquer movimento ou progressão, a menos que por meio de quatro ciclos ou revoluções supra celestiais, e desta Mônada é gerado o que gostaríamos de denominar como a maneira e o curso de sua eminência; e por esta razão, não há no mundo elemental, nem nos mundos celestial ou supra celestial, qualquer poder ou influencia criado que não possa ser absolutamente por ela favorecido ou enriquecido.

Foi por causa do verdadeiro efeito disto que quatro homens ilustres, amigos da Filosofia, estiveram juntos na grande obra em uma ocasião.

Um dia eles foram surpreendidos por um grande milagre neste assunto, e, após isso, passaram a dedicar-se a cantar encômios a Deus e a orar ao Todo Poderoso porque Ele havia lhes conferido tamanha sabedoria e poder e um grande Império sobre todas as criaturas.

Teorema XXIV

Da mesma forma que iniciamos o primeiro teorema deste pequeno livro com o ponto, a linha reta e o círculo, e os estendemos do ponto Monádico ao efluxo extremamente linear dos Elementos em um círculo, quase análogo ao equinocial onde faz uma revolução em 24 horas, assim agora por fim nós consumamos e terminamos a metamorfose e a metástase de todos os conteúdos possíveis do Quartenário definido pelo número 24 em nosso presente vigésimo quarto teorema, para a honra e Glória dEle, como testemunhado por João, o Arquiprior dos Mistérios Divinos, no quarto e no último capítulo do Apocalipse, o qual está sentado em Seu Trono, ao redor e em frente de quatro animais, cada um com seis asas, que cantam noite e dia sem repouso: “Santo, Santo, Santo é o Senhor, Deus Onipotente, o qual foi, é e virá a ser”, assim como os 24 anciões nos 24 assentos colocados no círculo o adoram e prostram-se, tendo derribado por terra suas Coroas de ouro, dizendo: “Digno es Tu, ó Deus, de receber Glória, Honra e Virtude, porque Tu criaste todas as coisas, e por Tua Vontade foram elas criadas”.

Amem.

Diga a quarta letra.

Aquele a quem Deus conferiu a vontade e a habilidade de saber neste caminho o mistério Divino por meio dos monumentos eternos da literatura e acabar com grande tranquilidade esta obra no dia 25 de janeiro, tendo encetando-a no dia 13 do mesmo mês.

Ano de 1564, Antuérpia.

CONTRACTUS AD PUNCITUM

Aqui os olhos vulgares hão de enxergar apenas a Obscuridade e desesperar-se-ão consideravelmente.

Ω

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-monada-hieroglifa-de-john-dee/