As figuras da corte e suas associações elementais

Leonora Dias

Para entendermos melhor as figuras da corte, precisamos buscar nas raízes de sua significância, o número 4. A estrutura numérica dos chamados Arcanos Menores é totalmente baseada nesse número – são cinquenta e seis cartas, divididas em quatro grupos de catorze cartas – os naipes. Dessas catorze cartas, dez são numeradas e quatro são figuras da corte. Ao que se sabe, a estrutura quaternária dos naipes existe desde a origem das cartas – ao menos, quando cartas de jogar surgiram na Europa, no final do século 14, já seguiam um sistema de quatro naipes. Experiências com mais naipes e figuras da corte foram feitas, mas o que realmente perdurou foi o esquema de quádruplo. Não se sabe ao certo a razão da existência desse princípio, mas isso não é exatamente estranho, se considerarmos que o número 4 acompanha a humanidade desde tempos ancestrais.

Os Quatro Elementos (da esquerda para a direita: terra, água, ar e fogo
Tratato alquímico “Viridarium chymicum”, 1624, Francfort-sur-le-Main

Nossa consciência é quaternária. Nossos corpos, com dois braços e duas pernas, naturalmente sugerem o número quatro. Percebemos quatro direções básicas – frente, atrás, direita e esquerda; essa consciência espacial é reproduzida naturalmente em nossas construções – nossas casas têm quatro paredes. Também são quatro os pontos cardeais. A percepção da natureza como se modificando através de quatro estações também pode figurar entre outro fator quaternário que ficou gravado no pensamento humano desde seus primórdios, tendo suas origens na percepção dos solstícios, também em número de quatro. Além disso, a cruz figura entre os símbolos mais antigos desenhados em cavernas.
Os elementos primordiais tradicionais, que servem de base para a existência de todas as coisas no universo, são um grupo de quatro – Fogo, Água, Ar e Terra. No mundo ocidental, a tradição dos elementos surgiu na filosofia grega antiga e, consolidada por Aristóteles, permeou todo o pensamento científico do ocidente desde a Antiguidade até o século 17, marcado pelo início da Era Moderna, que introduziu uma concepção de mundo mais calcada no pensamento racional, ligado aos fatos e seus desdobramentos lógicos – concepção essa que permanece em voga até hoje.

O sistema de associações entre as cartas do Tarot e a tradição dos quatro elementos é um dos fundamentos do entendimento esotérico do Tarot. Nesse sentido, as Figuras da Corte são um caso à parte. Além de estar associada ao elemento de seu respectivo naipe, cada figura da corte relaciona-se também a um dos quatro elementos por meio de sua posição hierárquica. O cruzamento entre esses dois fatores abre uma ampla dimensão de significado para as cartas da corte. Esse esquema de associações elementais, junto com as associações das figuras da corte com a Astrologia e com elementos cabalísticos, formam a tríade dos principais elementos na atribuição de significado a essas cartas. Sendo assim, entender esse esquema de associações elementais é entender melhor as próprias figuras da corte no contexto do Tarot.
Cada naipe é associado a um dos quatro elementos, que determina o tema tratado no naipe. As associações elementais de cada naipe e os temas tratados em cada um podem ser sumariamente esquematizados na tabela abaixo:

Naipe
Elemento
Tema
Paus
Fogo
  Movimento, ação, as lutas (e conflitos) da vida, realização pessoal
Copas
Água
  Emoções, relacionamentos, sonhos
Espadas
Ar
  Lições de vida, valores, aprendizado, compreensão da vida,
(daí) conflitos, sofrimento, dificuldades
Ouros
Terra
  Assuntos materiais, o vai-e-vem do dinheiro, os resultados da
nossa energia aplicada

As cartas que compõem o naipe falam do desenvolvimento da experiência no tal tema. Começando com o ás, que é a energia do elemento em seu estado bruto, vamos subindo até o dez, passando por diversas situações que representam um aspecto específico da experiência com o tema em questão, de forma progressiva. Sucedendo a ordem das cartas numeradas, as cartas das figuras da corte representam um estágio a mais no desenvolvimento da experiência no tema – o desenvolvimento da relação com a energia elemental no âmbito do indivíduo. Em outras palavras, as figuras da corte são personificações sucessivas de cada elemento, desde seu estado embrionário ou infantil em nós (os Pajens) até seu estado maduro e completamente desenvolto (os Reis/Rainhas). Enquanto as cartas numeradas representam a ação das forças elementais em nossas vidas, as figuras da corte representam a manifestação de tais energias em nós. É só pensar nas cartas numeradas como as situações do enredo de uma estória, e as figuras da corte como os personagens. Cada figura da corte é, portanto, um estágio de desenvolvimento da relação com a energia elemental no campo pessoal. Tal desenvolvimento é representado na progressão das quatro posições hierárquicas dentro do sistema da corte:
• os Pajens representam essa energia manifestando-se na personalidade em seu estado primário, pouco desenvolvido e bruto. Eles são as bases do naipe;
• os Cavaleiros personificam a energia do naipe se desenvolvendo a pleno vapor, com toda sua força. Representam a intensidade da energia do naipe crescendo;
• as Rainhas representam essa energia já desenvolvida, de forma madura e profunda. São a energia do naipe amadurecida;
• os Reis também representam o completo desenvolvimento dessa energia. Eles são os reis do naipe, o estágio mais alto que eles podem alcançar em seu desenvolvimento.
Até agora, descobrimos então que:
1. cada naipe, relacionado a um dos quatro elementos, trata sobre as experiências em um determinado tema da vida;
2. enquanto as cartas numeradas falam de situações nas quais a energia desses elementos se manifesta, as figuras da corte representam a manifestação dessa energia no indivíduo;
3. tanto no caso das cartas numeradas quanto no caso das figuras, a ordem numérica imprime um senso de progressão na experiência com as energias elementais, que vai da inexperiência à experiência.
O ocultista inglês MacGregor Mathers, em seu livro Book T, escrito no final do século 19, baseou-se na Qabalah, astrologia e geomancia para traçar os paralelos entre os elementos e as figuras da corte. Seu sistema vigora até hoje, servindo de base para a maior parte de novos esquemas de associação. Um dos traços mais marcantes do sistema de Mathers foram as mudanças feitas por ele na hierarquia da corte do Tarot. Acreditando estar fazendo uma retificação, Mathers modificou os nomes e importância das posições, trocando os títulos tradicionais de Rei, Rainha, Cavaleiro e Pajem por Rei, Rainha, Príncipe e Princesa. Sua modificação mais discutida foi a alteração da importância de certas figuras na dinâmica da corte – Mathers colocou o Cavaleiro no posto mais alto, e rebaixou o Rei à posição de príncipe. Os motivos para tais mudanças baseiam-se no que supôs como uma melhor associação do Tarot com a Qabalah.
Mathers foi um dos fundadores da Ordem Hermética da Golden Dawn. Os criadores dos dois baralhos de Tarot mais famosos da modernidade foram membros dessa Ordem – Aleister Crowley, que junto com Lady Frieda Harris criou o baralho de Thoth, entre 1938 e 1943; e Arthur Waite e Pamela Smith, criadores do baralho Waite-Smith, lançado em 1909. Ambos os baralhos exibem claramente influências do sistema esotérico e mágico da Golden Dawn em vários pontos, sendo um deles a associação elemental das Figuras da Corte. Dada a sua popularização através dos dois baralhos acima mencionados, o sistema desenvolvido pela Golden Dawn é hoje o mais aceito e reproduzido. Abaixo, a título de informação, uma tabela com as variações das figuras da corte, de acordo com os Mathers, Crowley e Waite:

Mathers
Crowley
Waite
    Rei (antigo Cavaleiro)
    Cavaleiro
    Rei
    Rainha
    Rainha
    Rainha
    Príncipe (antigo Rei)
    Príncipe (antigo Rei)
    Cavaleiro
    Princesa (antigo Pajem)
    Princesa (antigo Pajem)
    Pajem

Percebemos pela tabela que, enquanto Crowley adotou mais inteiramente o sistema de Mathers nas figuras da corte, Waite preferiu manter-se fiel à estrutura tradicional de Rei-Rainha-Cavaleiro-Pajem. O esquema tradicional faz mais sentido para mim, talvez por eu usar o Waite-Smith e estar habituado a esse esquema de hierarquia. Portanto, é dele que vamos tratar aqui. Contudo, é importante mencionar que não há um sistema certo e absoluto; tais associações foram feitas de acordo com a forma de pensar de cada ocultista, fazendo sentido no contexto do sistema de pensamento dele. Cabe a cada estudante escolher o sistema com o qual se sentir mais confortável, o que fizer mais sentido para ele.
Isto posto, agora temos as bases para estabelecer as associações elementais a cada posição hierárquica da corte.
As associações elementais e as quatro funções da psique
Usando a imagem da ascensão social, o caminho progressivo do Pajem ao Rei ilustra o desenvolvimento da energia elemental dentro de nós. Da manifestação primária dos Pajens ao completo desenvolvimento dos Reis, cada figura da corte representa um dos quatro estágios de manifestação dessas qualidades. A ideia esotérica por trás disso é a de que a manifestação do espiritual ao material é quaternária, e cada estágio subdivide-se em quatro estados, num total de dezesseis. Entendendo que a manifestação ocorre do mais sutil ao mais bruto, a ascensão ou retorno ao espírito faz logicamente o caminho inverso, do mais bruto ao mais sutil, onde está o Uno, a fonte primordial de tudo. De acordo com o pensamento místico, esse conceito serve como molde para o desenvolvimento de qualquer coisa existente, incluindo as pessoas e as coisas que elas produzem, os acontecimentos, a natureza e o cosmos. Vale lembrar que nenhum estágio é mais importante ou sagrado que o outro. Cada um tem sua própria importância e seu papel, fundamentais no processo de manifestação/ascensão.
Uma maneira de abordar a relação das figuras da corte com os quatro elementos é através da teoria das funções do ego, desenvolvida na primeira metade do século 20 pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Segundo Jung, o ego tem quatro funções, quatro formas fundamentais diferentes de perceber e interpretar a realidade e de lidar com o mundo; são elas Sensação, Intuição, Sentimento e Pensamento. Esse grupo de quatro funções consiste em dois pares de elementos opostos. De um lado temos o par Sensação-Intuição, que Jung chamou de funções irracionais, caracterizando-se pela percepção e simples resposta a estímulos . Do outro, temos o par Sentimento-Pensamento. Jung chamou as duas funções que compõem esse segundo par de racionais, pois ambas envolvem o ato de tomar decisões ou fazer julgamentos, mais do que simplesmente receber estímulos.
A função da Sensação consiste na recepção de informação por meio dos sentidos físicos. A função da Intuição define-se por uma percepção que funciona fora do processo consciente comum, consistindo numa complexa integração de grandes quantidades de informação, mais do que simplesmente ver ou ouvir. Ambas são irracionais, no sentido de que não envolvem julgamento. A Sensação é uma percepção mais voltada para o exterior, enquanto que a Intuição é uma percepção de estímulos psíquicos, interiores.
No segundo par, ambas as funções Sentimento e Pensamento são formas de avaliar a informação recebida, ou seja, dar a ela um valor, atribuir-lhe um sentido. Sentimento é a capacidade de fazer julgamentos baseando-se nas respostas emocionais, seguindo valores de bom/mau, agradável/desagradável. A função do Pensamento distingue-se de sua função oposta por basear-se na lógica e na razão para avaliar informações. Enquanto Emoção é voltada para dentro, ou seja, para a realidade interior dos sentimentos, Pensamento volta-se para o exterior, isto é, para as evidências e os fatos do mundo objetivo.
O próprio Jung baseou-se nas tradições antigas dos quatro elementos, através da teoria dos quatro humores de Hipócrates, para formular seu esquema de quatro funções psíquicas. Hipócrates, por sua vez, baseou-se na teoria dos quatro elementos de Empédocles, onipresente no pensamento filosófico grego antigo desde 600 a.C.

Os Pajens

Elemento
Função Psíquica
Fase de desenvolvimento humano
Terra
Sensação
Infância

O Pajem é o estágio inicial do desenvolvimento. Nele, a energia do naipe está em seu estado bruto, não desenvolvido e primário. Como crianças, relacionam-se com o mundo de maneira bem simples e direta. Ligado ao elemento Terra, o Pajem no Tarot mostra que tudo começa no chão, e a ele está incondicionalmente ligado.

A figura do Pajem representa o aprendiz. Na Idade Média, o pajem era o servo de um cavaleiro, um aprendiz a escudeiro. Após sete anos servindo o cavaleiro, o pajem tornava-se um escudeiro que, depois de mais sete anos, poderia vir a ser ele mesmo um cavaleiro. O pajem executava as funções mais básicas, como cuidar da organização e limpeza dos aparatos de seu cavaleiro, ou levar e trazer mensagens. Simbolicamente, o pajem do Tarot representa o estágio mais básico do desenvolvimento no naipe. Ele é a experiência direta com o naipe, sem abstrações ou sofisticações. Sendo uma criança, o Pajem é neutro – pode ser tanto masculino quanto feminino.
O elemento Terra é o plano material, o mundo objetivo ao nosso redor, e o nosso próprio corpo. No ser humano, a experiência mais primária é a relação com nosso próprio corpo, que percebe o mundo que nos circunda através dos estímulos de nossos sentidos. Relacionados ao elemento terra, os Pajens representam essa experiência sensória, táctil, básica a todo ser humano. Eles estão em contato direto com a energia do elemento ao qual pertencem, sem abstração nenhuma. Psicologicamente, a figura do Pajem equivale à função da sensação, que se caracteriza pela consciência dos estímulos físicos.
As características dos pajens incluem:
• Curiosidade
• Criatividade
• Dedicação
• Inocência
• Sensitividade (no sentido de fisicalidade)
• Inexperiência
• Certa arrogância inocente
• Visão limitada

Os Cavaleiros

Elemento
Função Psíquica
Fase de desenvolvimento humano
Fogo
Intuição
Juventude

O Cavaleiro é um impulso de energia; retrata o estágio de ascensão da intensidade da energia do naipe. Nele, a energia está subindo, ficando cada vez mais intensa. Os Cavaleiros são cheios de si. Enquanto os pajens são dedicados, quase despersonalizados (tal como as

crianças, os pajens, estão ainda desenvolvendo sua personalidade), os cavaleiros são personalidades desenvoltas; eles sabem quem são, e sabem o que querem – ou melhor dizendo, pensam que sabem. Relacionados ao elemento Fogo, os cavaleiros são o impulso da vida, que brota da terra em direção ao céu.
Na Idade Média, os cavaleiros eram os representantes da classe militar. Assim, a figura do cavaleiro é naturalmente associada à guerra, à missão, à luta por um ideal, uma crença (típicos do elemento Fogo). No Tarot, os cavaleiros tipicamente agem por impulso, seguindo seu coração e perseguindo os ideais onde depositam sua fé. No contexto evolutivo ilustrado na corte, a figura do cavaleiro representa o impulso criador fecundo, o ímpeto rumo ao progresso. Se os pajens são associados à infância, os cavaleiros estão ligados à juventude. Assim como os jovens, os cavaleiros são cheios de energia e disposição para negar, questionar e contestar tudo, preferindo sempre seguir seu próprio caminho.
O elemento Fogo corresponde à força criativa. Ele é a vida, o espírito que preenche a estrutura física formada pelo elemento Terra. Sem a vida do Fogo, toda a estrutura do elemento Terra torna-se um mero objeto inanimado. Psicologicamente, esse impulso vital traduz-se pela intuição, a função psíquica que se caracteriza pela
manifestação de uma experiência espontaneamente trazida à consciência, em vez de provir de atividade mental (ou seja, pensamentos e emoções), ou de estímulos físicos (sensações). Trata-se de um sentimento instintivo, a fonte da inspiração, criatividade e ideias espontâneas. Psicologicamente, os cavaleiros também se relacionam à vontade. As características dos cavaleiros incluem:
• Ação
• Coragem
• Idealismo
• Impulsividade
• Iniciativa
• Paixão
• Entusiasmo
• Egocentrismo
• Imaturidade
• Teimosia

O Casal Monárquico

Existe uma tênue divisão na corte do Tarot entre o casal monárquico (o Rei e a Rainha) e os par de servos, o Cavaleiro e seu Pajem. Enquanto entre o Pajem e o Cavaleiro existe um movimento de ascensão perceptível (a diferença entre eles é comparável à diferença entre um aluno do ensino fundamental e um estudante universitário), as figuras do casal monárquico são mais estáticas e semelhantes. Nelas, o processo de desenvolvimento não é tão evidente como entre o Pajem e o Cavaleiro. A diferença está no fato de que o Rei e a Rainha são como as duas faces de uma mesma moeda. Seu poder é similar – o que distingue um do outro é o foco onde tal poder exerce sua força. Os Reis focam-se no mundo exterior, além das fronteiras de seu reino; as Rainhas concentram sua atenção ao mundo interior, dentro das fronteiras de seu reino.
Psicologicamente, poderíamos dizer que o Rei e a Rainha são os dois aspectos de uma mesma entidade, que personifica a maturidade da manifestação do elemento na personalidade, em seus aspectos ativo e passivo, yang e yin. O poder real das duas figuras do casal monárquico pode servir como metáfora para o domínio que uma pessoa completamente amadurecida tem sobre sua vida e a influência que exerce sobre os outros ao seu redor.
Na teoria jungiana das funções do ego, o grupo de quatro funções divide-se em dois pares; o par sensação-intuição caracteriza-se pela percepção de experiências irracionais, enquanto o segundo par, pensamento-sentimento se destaca por experiências racionais. A exemplo das funções psíquicas, o primeiro par de figuras da corte, Cavaleiro e Pajem, exibe formas mais imediatas de perceber a realidade; já o segundo par, Rei e Rainha, caracteriza-se pela abstração do julgamento.
O casal monárquico faz as decisões, enquanto os dois subalternos cuidam de executá-la. A exemplo do Rei e a Rainha, o par de subalternos também exibe a dicotomia de ativo/passivo, exterior/interior. O Cavaleiro é mais voltado ao mundo exterior ao reino, enquanto o Pajem ocupa-se principalmente das tarefas domésticas e cotidianas.

As Rainhas

Elemento
Função Psíquica
Fase de desenvolvimento humano
Água
Emoção
Idade adulta/maturidade

A Rainha representa o completo desenvolvimento do naipe, voltado para o interior. É o entendimento de si mesmo. E, através da compreensão de si mesma, ela é capaz de compreender o outro. O estágio da Rainha é um contraponto ao estágio anterior do Cavaleiro.
Ela representa o processo de internalização da energia do naipe, a transcendência da individualidade, e a percepção do outro. Enquanto o Cavaleiro está preocupado em se auto-afirmar, seguir seu próprio caminho e ser dono da sua própria vida (ou seja, sua individualidade), a Rainha já tem sua posição conquistada, e já tem sua identidade completamente estabelecida.

A rainha encarna a figura da matrona, da mãe, do feminino superior e autoritário. As Rainhas têm a mesma energia da Imperatriz, a carta 3, porém manifestada em um nível mais humano e imediato. De fato, é como se cada Rainha fosse um aspecto da Imperatriz.
O elemento Água é o responsável pela união, pela associação. A água serve de meio para a combinação de diversos elementos para o surgimento de algo novo. Ela é responsável pela manutenção da vida. Esse é o motivo devido ao qual o naipe de Copas se associa ao elemento Água – através de sua propriedade fluida, a Água aproxima e une as pessoas pelo que elas têm em comum, suas emoções. Por pertencerem a esse elemento, as Rainhas são sensíveis e conciliadoras.
Elas enxergam as pessoas por dentro, conhecem e compreendem suas necessidades. Empédocles, o primeiro filósofo grego a propor a ideia de quatro elementos primordiais, já associava o elemento Água a Perséfone, a Rainha dos mundos inferiores, o mundo dos mortos. Nesse sentido, note-se a relação de Perséfone com a Sacerdotisa da carta 2 dos arcanos maiores. Por trás da Sacerdotisa, no tarô de Waite,
há uma cortina estampada de romãs. Após ser raptada por Hades, o Rei dos mundos inferiores, Perséfone não pôde mais voltar por ter comido algumas sementes de romã. Através desse paralelo, a Sacerdotisa do Tarot pode ser também uma alusão a Perséfone, a Rainha dos mundos inferiores – do inconsciente, por assim dizer.
Psicologicamente, o elemento Água equivale à função psíquica da emoção. As características das Rainhas incluem:
• Autoridade
• Sensibilidade
• Percepção
• Sentimentalidade
• Conhecimento
• Receptividade
• Experiência
• Auto-segurança
• Possessividade
• Controle excessivo
• Mutabilidade

Os Reis

Elemento
Função Psíquica
Fase de desenvolvimento humano
Ar
Pensamentoo
Idade adulta/maturidade

O Rei representa o estágio de máximo desenvolvimento do naipe, voltado para o exterior e para a ação. Esse é o estágio do domínio, do poder total sobre as forças do naipe. Imagine cada naipe como um reino, então entenderá melhor o papel do Rei. Ele é a autoridade em seu campo.


Enquanto as figuras do Pajem e do Cavaleiro estão mais vinculadas a um momento específico da história, as figuras de rei e rainha estão presentes em todas as culturas, de todas as épocas. De certa forma a figura do rei era um reflexo maior da figura do pai em sua sociedade; assim como o pai era o chefe da família, o rei era chefe do povo. O papel do rei é comandar, e isso significa estabelecer as leis e dizer o que deve ser feito, e quando. Frequentemente, o rei detinha o papel de juiz máximo de seu povo, sendo responsável por definir o que era certo e o que era errado. O Rei é capaz de julgar e avaliar o exato valor de cada coisa, porque ele tem a experiência necessária para fazer um julgamento acertado, e a autoridade para ter sua palavra seguida.
Assim como as Rainhas dos naipes estão relacionadas à Imperatriz do Tarot, cada Rei representa a manifestação da energia do Imperador no nível humano e tangível. A diferença é que, enquanto o poder do Imperador é absoluto, a autoridade de cada Rei se delimita ao seu campo, ou seja, ao naipe ao qual ele pertence.
A figura do Rei é associada ao elemento Ar. Empédocles associou o elemento Ar a Zeus, o Rei dos deuses. Psicologicamente, o elemento Ar traduz-se pelo intelecto – a capacidade de combinar informações e criar abstrações a partir disso.
O aspecto intelectual do Ar está relacionado ao papel do Rei como juiz. A palavra “pensar tem origens em comum com a palavra “pesar” – ambas vêm do latim pendere, significando “pesar”.
A função psíquica associada ao elemento Ar é o pensamento, a capacidade de emitir julgamentos e tomar decisões através do raciocínio. O raciocínio, por sua vez, consiste na habilidade de alcançar a verdade através de um processo de comparações e abstrações dos fatores existentes em uma certa questão. As principais características dos Reis são:
• Autoridade
• Poder
• Liderança
• Domínio
• Julgamento
• Razão
• Discernimento
• Experiência

Cruzamentos dos elementos e seus significados

O Tarot é um jogo, um conjunto de elementos que seguem regras e têm cada qual sua função definida. Uma das “regras” do jogo do Tarot é a doutrina dos quatro elementos. Tal doutrina funciona como um denominador comum entre a quadruplicidade dos naipes e a quadruplicidade das figuras da corte. Observando a dinâmica dos quatro elementos através das cartas, podemos identificar o lugar delas no jogo do Tarot, ou seja, seu papel.
A coisa mais importante que deve ser entendida sobre esse processo de atribuição de significado é que ele acontece do geral ao específico, isto é, do âmbito simbólico do naipe ao âmbito simbólico de cada posição hierárquica. Cada figura da corte é um dos quatro aspectos de seu elemento e, como tal, incorpora um papel único entre as dezesseis figuras. Assim, todas as quatro figuras do naipe de Copas, por exemplo, pertencem ao elemento Água – são do “reino da Água”, por assim dizer; o que difere uma das outras é a associação elemental específica de sua função/posição. Todos os Pajens são de Terra, todos os Cavaleiros são de Fogo, todas as Rainhas são de Água e todos os Reis são de Ar. O Rei de Copas seria então “Ar de Água”, ou seja, a “parte ar” do elemento Água. Algumas pessoas preferem usar a fórmula “elemento do naipe + comportando-se como + elemento da posição, ou seja, “Água comportando-se como Ar”, no exemplo citado anteriormente.
Abaixo, uma tabela listando as associações para cada figura da corte:

Ouros/Terra
Paus/Fogo
Copas/Água
Espadas/Ar
Pajem/Terra
Terra de Terra
Terra de Fogo
Terra de Água
Terra de Ar
Cavaleiro/Fogo
Fogo de Terra
Fogo de Fogo
Fogo de Água
Fogo de Ar
Rainha/Água
Água de Terra
Água de Fogo
Água de Água
Água de Ar
Rei/Ar
Ar de Terra
Ar de Fogo
Ar de Água
Ar de Ar

Isto tudo pode ser confuso no começo, mas fica fácil à medida que percebemos o sentido das denominações dos elementos. Os quatro elementos da tradição ocidental são na verdade símbolos-raiz. Quando dizemos Fogo, não nos referimos apenas ao fogo que queima na lareira; no sentido esotérico, o elemento Fogo diz respeito a todo um complexo de conceitos, que, por convenção e economia, resumem-se na palavra-símbolo “Fogo”, do qual o fogo da lareira é a manifestação física.
Quando percebemos que, no lugar dos nomes dos elementos, podemos colocar outras palavras pertencentes a uma mesma categoria, as coisas começam a ficar mais fáceis. Por exemplo, em vez de dizermos que o Pajem de Copas é “Terra de Água” ou “Água comportando-se como Terra”, podemos dizer que ele é Emoção em Desenvolvimento. O elemento Terra nos Pajens traduz-se por um estado receptivo de desenvolvimento primário e inicial; o naipe de Copas caracteriza-se pela temática emocional. No Pajem de Copas temos a manifestação da emoção, do sentimento, de forma primária, direta, bruta e espontânea. É isso que faz de tal Pajem um personagem sonhador, delicado, sensível, doce, brincalhão, romântico e inocente; o contato direto que ele tem com suas emoções o faz vivenciá-las em sua forma pura. É isso também que faz o Pajem de Copas simbolizar o início de um sentimento ou sonho, ou a inspiração, ou uma afeição desapegada e espontânea. Através das chaves de dois elementos combinadas, podemos extrair uma infinidade de associações de significado. Esse sistema foi desenvolvido do final do século 19 ao começo do século 20, e perdura até hoje como uma base para a avaliação das figuras da corte.

Uma representação de conjunto dos quatro elementos
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O diagrama acima resume, em forma de imagem, os princípios que acabei de expor. No lado esquerdo temos o diagrama dos elementos, contendo em si seus aspectos quaternários; no lado direito vemos, como exemplo, o elemento Ar em destaque e, ressaltando dele, o seu aspecto Fogo – em outras palavras, Fogo de Ar, a configuração elemental correspondente ao Cavaleiro de Espadas.
Tipos de combinações
A forma que os elementos se combinam determina traços da personalidade que emerge de tal combinação. As regras das combinações são as mesmas usadas no método de Elemental Dignities
Combinações entre elementos opostos (Água + Fogo e Ar +Terra), caracterizam-se por um conflito entre o elemento geral (do naipe) e o elemento especifico (da posição hierárquica). Isso resulta em uma personalidade ambivalente e conflitante, altamente mutável e imprevisível.
Combinações entre elementos amigáveis (Fogo + Ar, Água + Terra) resultam em uma personalidade poderosa, que se destaca no naipe ao qual pertencem.
Combinações entre elementos complementares (Água + Ar, Fogo + Terra) são equilibradas, flexíveis e adaptáveis.
As personificações puras
Observando o diagrama dos elementos, abaixo, percebemos que, em cada ponta do quadrado, a parte do elemento permanece a mesma.

Esquema representativo da força específica de cada elemento
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Na tabela das associações, tais combinações estão em negrito. Esses são os aspectos puros de cada elemento, nos quais o estado de manifestação que ele representa e um dos seus próprios estados de manifestação coincidem. São o lado do elemento que permanece inalterado e puro. No Tarot, as figuras da corte relacionadas a esses aspectos personificam cada um dos quatro elementos de forma integral. Sua presença numa leitura indica – a) que a energia bruta dos ases está se manifestando no próprio consulente ou; b) que existe alguém, ou um acontecimento onde ele entrou em contato com essa energia. Tais cartas assemelham-se aos quatro ases, com a diferença de que elas não são impessoais como os ases; elas são os próprios elementos em forma de entidades.
Finalização: por que estudar tudo isso?
Quem chegou até aqui, depois de ler o texto todo, pode estar perguntando-se qual a utilidade de tanta complexidade. E a resposta é bem simples – esses sistemas são o paradigma fundamental na atribuição de significado às cartas. É neles que se baseiam os significados que geralmente lemos nos livros. Mesmo as definições populares, em última instância, têm como referência esses paradigmas. Mas isso é definitivo? É mesmo necessário estudar essas coisas para entender melhor as cartas? Bem, depende.
Ao contrário do que muita gente pode imaginar, o Tarot não surgiu como um sistema divinatório. De acordo com a grande maioria das evidências de que dispomos hoje, seu uso original foi em jogos de cartas comuns. Registros de um uso divinatório/oracular das cartas datam de cerca de 300 anos após o seu surgimento. Até que, no final do século 18, as cartas do Tarot começaram a chamar a atenção de ocultistas Europeus mais influentes, que não demoraram a incluí-lo em seu sistema esotérico. Foi a chamada redescoberta do Tarot – ou invenção, de acordo com o seu ponto de vista. Os primeiros a olharem o Tarot como portador de um conhecimento secreto encararam-no como um sistema simbólico universal. Na crença de estarem descobrindo sua grandiosidade, tais estudiosos acabaram por inventar um novo Tarot, em muitos aspectos. Esse sistema serviu de base para os voos mais altos que fazemos hoje em dia, como associar o Tarot à psicologia jungiana, por exemplo.
Qualquer pessoa que estuda o Tarot entra em contato com um conhecimento que foi estabelecido, a princípio, por essas pessoas. Independentemente do uso que fazemos das cartas, maior ou menor que seja nosso embasamento teórico, todos nós incorporamos, conscientes disso ou não, elementos das doutrinas desses estudiosos no nosso processo de entender e extrair significado das cartas. Pessoas como Court de Gébelin, Eliphas Lévi ou MacGregor Mathers são os responsáveis pela associação das cartas com a Astrologia, a Qabalah e a Tradição dos Quatro Elementos, as três doutrinas mais fortemente associadas ao Tarot. Tal união foi tão forte que o sistema imagético de versões novas do Tarot passou a ser produzido de acordo com esses novos parâmetros de significado. Não há, portanto como negar a importância de tais figuras na conceitualização e uso modernos do Tarot. Exceto no caso de usar um baralho anterior as inovações introduzidas por essas pessoas, alguém que deseja ter uma relação mais próxima com seu baralho de trabalho, bem como uma compreensão mais profunda dos símbolos contidos nele, certamente conseguirá isso melhor buscando a informação de onde ela veio, ou seja, na produção literária dessas pessoas.
Isso nos leva à seguinte conclusão – as associações das cartas com Astrologia, Qabalah ou elementos são um sistema artificial, mais inventado do que descoberto, ou percebido. Apesar do fato de a Astrologia e a doutrina dos quatro elementos terem feito parte do corpo de pensamento filosófico na época da criação do Tarot, não há hoje evidências apontando para uma profunda associação delas com as cartas que não seja anterior ao século 18. Isso quer dizer que os significados dados às cartas são sim relativos e particulares, o que significa basicamente que eles fazem total sentido quando inseridos em um sistema maior, que lhes dá a referência.
Mas, é possível não se basear nessas tradições para compor o corpo de significados das cartas? Sim, claro. Temos hoje uma infinidade de baralhos disponíveis, que se baseiam mais ou menos nos sistemas tradicionais – isso quando há algum embasamento tradicional sequer. Novos artistas, novos teóricos – e novos tarólogos – têm abordado as cartas por outros viés, contribuindo para uma nova concepção do Tarot – uma nova invenção do Tarot, por assim dizer. E eu acredito que a validade dessas novas teorias e visões não é algo que possa ser decidido objetivamente, cabendo a cada um que estuda as cartas decidir se elas cabem ou não no seu universo de concepção tarológica. Para alguém que amadurece sua comunicação com as cartas, as interpretações tradicionais servem mais como trampolins para uma relação mais íntima com as cartas. O Tarot é uma linguagem entre o tarólogo e seu próprio sistema de valores, símbolos e significados. Em última instância, o único compromisso que cada estudante de Tarot deve ter, é consigo mesmo.

Bibliografia
Livros:
The Tarot: History, Mystery and Lore – Cynthia Giles, 1992, Paragon House
Understanding the Tarot Court – Mary K. Greer & Tom Little, 2004, Llewellyn
Seventy Eight Degrees of Wisdom: a Book of Tarot – Rachel Pollack, 1980), Weiser Books
Tarot Symbolism – Robert O’Neill, 1986 (ed. 2004), ATS
The Complete New Tarot: Theory, History, Practice – Onno & Rob Docters van Leeuwen
Sites:
Taroteachings.com, de Avia Venefica – www.tarotteachings.com/tarot-court-cards-elements.html
Llewellyn.com: artigo Hidden and Secret Meanings – The Court Cards, part II, de David Allen Hulse – www.llewellyn.com/journal/article/387
Kheper.net – artigo The Four Ego Functions, M. Alan Kazlev – www.kheper.net/topics/Jung/typology.html
Wikipedia.com – verbetes Aristotle, Carl Jung, Knight, Queen, King, Page
Taroteca.multiply.com (imagens)

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/as-figuras-da-corte-e-suas-associacoes-elementais/

Entendendo as Três Trilogias Tifonianas

O Nono Arco (The Ninth Arch), que inclui o Livro da Aranha (Book of the Spider – OKBISh), é o volume final de uma série de Trilogias que traçam o surgimento em tempos históricos de um antigo corpo de doutrina oculta conhecido como a Tradição Tifoniana. A fim de compreender plenamente seu propósito e conteúdo, o Nono Arco deve ser escaneado contra o pano de fundo maior sobre a qual é pintado. Tal abordagem facilitará a compreensão dos Oráculos de OKBISh e seus comentários.

Como uma ajuda adicional para focalizar características salientes da Tradição, a narrativa Against the Light, ‘Contra a Luz’ (Starfire Publishing, 1997) do autor deve servir como uma “nota de rodapé” útil e explicativa para as circunstâncias existentes na época em que o OKBISh foi “recebido”. Os Oráculos foram comunicados audivelmente, e ocasionalmente visualmente, a vários membros da New Isis Lodge, a Loja Nu-Ísis (1955-62) e em certos estágios do ritual mágico. A Corrente que gerou o material começou, esporadicamente, já em 1939, com o movimento inicial de uma transmissão que se desenvolveu ao longo dos anos no texto conhecido como Wisdom of S’lba, A Sabedoria de S’lba, (ver Outer Gateways, Portais Externos, Skoob Books Publishing, 1994). Em 1945, Wisdom of S’lba, – então em sua fase nascente – foi reconhecida por Aleister Crowley como uma comunicação autêntica. A partir dessa época, a Inteligência Informante passou a completar o Wisdom, e passou a produzir a série maciça de Oráculos apresentada em O Nono Arco. O modo de recepção foi descrito na Introdução. O método de documentação confirma além do sofisma a validade da cabala em série, como usada anteriormente nas análises de Wisdom. O padrão ricamente complexo de correspondências mágicas, em ambos os casos, provou ser de valor inigualável na determinação do contato genuíno com forças ocultas possuídas de Conhecimento e Presciência a respeito de eventos terrestres importantes. Que o padrão reflete o contato direto com uma Gnose Tifoniana indefinidamente antiga e sempre nova, é demonstrado pela aplicação de uma exegese cabalística incansável e rigorosa, como registrado nos comentários.

Para os leitores interessados em relações significativas entre os conceitos Numérico (físico) e Mágico-Místico (metafísico), O Nono Arco contém uma exaustiva enciclopédia da Tradição Tifoniana. Mas, além das considerações sobre gematria, os Oráculos de OKBISh esboçam Eventos que provavelmente passarão pelo planeta Terra dentro da vida de muitos leitores do livro; e – para indivíduos que são capazes de interpretar os Oráculos em termos relativos a seu próprio universo mágico – eles emitem avisos sobre os perigos que estão à frente daqueles despreparados para invocar o Sinal de Proteção contra a onda vindoura das Forças Exteriores dispostas a assumir o controle do planeta. Agora, na virada de um milênio, parece apropriado liberar este Conhecimento.

O lançamento de “O Nono Arco” foi realizado na noite de 21 de dezembro de 2002 na sala de eventos do The Plough Inn, Museum Street, Londres. O lançamento começou às 18h, e pouco depois foi servido um buffet de recepção. Michael Staley explicou que Kenneth não pôde comparecer ao lançamento, e assim, na ausência do tocador de órgão, as pessoas teriam que se contentar com o macaco naquela noite. Cópias da edição padrão de “O Nono Arco”, assinado por Kenneth e Steffi Grant especialmente para o lançamento, estavam à venda.

Às 19h15, Michael deu a primeira de duas palestras, uma breve visão geral do trabalho de Kenneth Grant antes de “O Nono Arco”. A palestra incluiu trechos de vários livros de Grant, e estes foram lidos por Caroline Wise.

O texto desta palestra, que foi bem recebido, está a seguir:

As Trilogias Tifonianas

por Michael Staley

As Trilogias Tifonianas consistem em nove volumes, distribuídos em trinta anos, desde o primeiro livro, O Renascer da Magia, em 1972, até o último livro, O Nono Arco, publicado agora em 2002. Embora cada volume seja completo em si mesmo, tomados em série, eles representam um corpo de trabalho em desenvolvimento.

Antes de considerar esta série com mais detalhes, precisamos saber algo de suas origens. Os anos formativos de Grant são os anos da New Isis Lodge, o grupo mágico que ele fundou no início dos anos 50, cujo corpo principal de trabalho durou de 1955 a 1962, e que se dissolveu alguns anos depois. Quando jovem, Grant se interessou apaixonadamente pelo ocultismo, e leu amplamente obras de mitologia, religião comparada, misticismo e magia. No decorrer de seus estudos, ele encontrou o trabalho de, entre outros, Aleister Crowley e Austin Osman Spare, e foi atraído por ambos. Em 1944 ele iniciou uma correspondência com Aleister Crowley, e viveu com Crowley por um curto período em 1945 como seu “chela” ou discípulo, cantando para seu jantar e atuando como secretário. Durante este tempo, Grant recebeu instruções orais de Crowley. Ele também recebeu o retrato de Lam de Crowley, ao qual ele se sentiu atraído ao vê-lo pela primeira vez no portfólio de Crowley, e que Crowley finalmente lhe deu em agradecimento pela ajuda durante uma noite particularmente ruim para sua saúde. Em 1991, Grant publicou um livro de memórias de sua associação com Crowley, intitulado Remembering Aleister Crowley (Relembrando Aleister Crowley). Trata-se de um livro de memórias afetuoso, mas que não se coíbe de retratar uma relação que às vezes era difícil. Crowley era velho, doente e frágil, e muitas vezes não era muito generoso. No entanto, Grant aprendeu muito com Crowley. Há uma tradição de “darshan”, de receber iniciação de estar na presença do guru; que assim como uma imagem diz mais do que qualquer quantidade de palavras, há uma compreensão e uma percepção que é passada de adepto para adepto que não tem preço.

Um pouco depois da morte de Crowley em 1947, Grant finalmente conheceu Austin Osman Spare. Este foi um relacionamento mais longo, que durou até a morte de Spare em 1956. E também, a julgar pelo relato publicado por Kenneth e Steffi em seu Zos Speaks! (Zos Fala!) em 1998, bem como pelo anterior Images & Oracles of Austin Osman Spare (Imagens e Oráculos de Austin Osman Spare), publicado em 1975, foi uma relação mais profunda, talvez menos formal. É minha impressão, como leitor da obra de Grant, que Spare teve o maior impacto sobre ele. O trabalho de Spare é certamente mais fugidio que o de Crowley, mas está de alguma forma mais próximo da fonte da consciência na imaginação cósmica. Um relato da relação entre os Grant e Spare é dado em Zos Speaks! Foi em grande parte devido aos apelos dos Grant que Spare reconstruiu muito do Alfabeto do Desejo e outros aspectos de seu sistema que ele havia esquecido em grande parte ao longo dos anos, e se comprometeu muito mais com o papel.

Durante o início dos anos 50, um círculo de ocultistas se agrupou em torno de Grant que formou o núcleo de um grupo de trabalho, a Loja Nu-Ísis. Vários dos membros haviam sido membros da O.T.O. sob Crowley – Kenneth e Steffi, e é claro; um peleiro e alquimista, David Curwen; e uma mulher a quem Grant se refere por seu nome mágico Clanda. O próprio Spare nunca foi membro da Loja Nu-Ísis, preferindo trabalhar sozinho. Ele apoiou os Grant em seus esforços, e projetou vários cenários para a Loja. Os Grants descreveram a Loja Nu-Ísis como uma célula dependente da O.T.O., e ela tinha uma estrutura de grau e um programa de trabalho que devia muito mais à Astrum Argenteum de Crowley do que à O.T.O. como era na época de Crowley. A relação com Curwen também foi fundamental para Grant obter uma cópia de um comentário de um adepto Kaula sobre um texto tântrico, o Anandalahari. Isto deu importantes insights sobre a magia sexual tântrica, aproximando a magia sexual de uma direção muito diferente da de Crowley. A abordagem de Crowley à magia sexual é basicamente solar-fálica, para não dizer que é falo-cêntrica. Ou seja, há grande ênfase na importância das energias sexuais masculinas, mas muito pouco nas energias femininas. Muitas vezes, a parceira feminina é apenas uma taça na qual o mago masculino derrama seu fogo de estrela. O texto Kaula abordou o assunto de uma perspectiva diferente, acentuando o papel dos kalas e como eles variam ao longo do ciclo menstrual.

Os Grants emitiram um Manifesto da Loja Nu-Isis em seu lançamento em 1955, no qual falavam da descoberta de um planeta além de Plutão, a Ísis transplutoniana, e o que ela poderia significar para a evolução da consciência neste planeta. Deixando de lado a questão de existir ou não um planeta neste sistema solar além de Plutão, é certamente óbvio que os Grant não estavam falando sobre a descoberta de um planeta físico. Tal descoberta teria sido mais relevante para uma revista astronômica. Se tivermos em mente que a primeira sephira, Plutão (Pluto), é atribuída a Plutão, então um planeta transplutoniano, seria o “Um Além de Dez”, o Grande Exterior. Grant o expressou assim alguns anos depois, em Aleister Crowley e o Deus Oculto:

“No Livro da Lei, a deusa Nuit exclama: “Meu número é onze, como todos os números deles que são de nós”, o que é uma alusão direta à A.’. A.’., a Astrum Argentum ou Ordem da Estrela de Prata, e seu sistema de Graus. Nuit é o Grande Exterior, representada fisicamente como “Espaço Infinito e as Estrelas Infinitas dali” – ou seja, Ísis. Nuit e Ísis são assim identificadas no Livro da Lei. Ísis é o espaço terrestre, iluminado pelas estrelas. Nuit é o espaço exterior, ou espaço infinito, a escuridão imortal que é a fonte oculta da Luz; Ela também é, em um sentido místico, o Espaço Interno e o Grande Interior.”

Ao longo dos anos de 1959 a 1963, os Grants produziram uma série de monografias, as Carfax Monographs (Monografias Carfax), cada uma sobre um tema diferente. Anos mais tarde, em 1989, estas foram publicadas em um único volume, como Hidden Lore (O Conhecimento Oculto).

Grant não publicou muito sobre os rituais mágicos da Loja Nu-Ísis até agora, mas uma série de anedotas resultantes do trabalho, o que Grant chama de “magicollages”, estão espalhadas por muitos dos nove volumes das Trilogias Tifonianas, principalmente em Hecate’s Fountain (A Fonte de Hécate), publicada há dez anos, em 1992. Há também vislumbres de Trabalhos da Loja na ficção de Grant.

O trabalho subsequente de Grant surge a partir do trabalho feito na Loja Nu-Ísis. Estes anos foram, portanto, extremamente formativos para ele. Antes da Loja Nu-Ísis ele teve um aprendizado extremamente amplo e profundo, assim como sua associação com Crowley e Spare. Entretanto, todas estas influências foram sintetizadas através do trabalho mágico da Loja Nu-Ísis. São as experiências obtidas através destes trabalhos, a iniciação, a percepção, que dão poder ao trabalho subsequente de Grant. É o poço sem o qual o trabalho de Grant teria secado. Sem ele, ele teria se tornado apenas mais um imitador do trabalho de outros – e Deus sabe que já temos o suficiente deles.

A Primeira Trilogia

Um artigo foi publicado por Grant no ‘International Times’ no final dos anos 60, sobre Crowley, no qual ele afirma ter escrito um estudo sobre o trabalho de Crowley e outros, chamado Aleister Crowley e o Deus Oculto. Posteriormente, ele o apresentou aos editores londrinos Frederick Muller, que expressaram seu interesse, mas sugeriram que, devido ao seu tamanho, ele deveria ser dividido em dois volumes. O primeiro volume foi publicado em 1972 como O Renascer da Magia.

O Renascer da Magia é um estudo e uma análise de uma variedade de tradições ocultas que sobreviveram durante muitos milhares de anos, e que agora estão revivendo em novas formas e novos vigor. Em particular a gênese e o desenvolvimento do Culto Draconiano através das Dinastias egípcias são traçados, e contra este cenário mais antigo são examinadas as manifestações mais modernas tais como Blavatsky, Crowley, a Golden Dawn (A Aurora Dourada), Dion Fortune e Austin Osman Spare. É demonstrado que embora sejam manifestações recentes, elas estão enraizadas na corrente mágica muito mais antiga que alimentou e sustentou todos os eflorescentes subsequentes. Incluído como uma placa no livro está uma reprodução do desenho de Lam de Crowley, a primeira vez que foi publicado desde sua publicação original no Blue Equinox (O Equinócio Azul) em 1919.

Isto foi sucedido em 1973 pelo segundo volume, Aleister Crowley e o Deus Oculto. Este é um estudo mais especificamente sobre o sistema de magia sexual de Crowley, amplificado por uma consideração do comentário Kaula referido acima. Há também um capítulo sobre “Nu-Isis and the Radiance Beyond Spare” (Nu-Ísis e a Radiância Além de Spare), no qual Grant se refere à  Loja Nu-Ísis e seu programa de trabalho.

Cults of the Shadow (Os Cultos da Sombra) foi publicado em 1975, e explorou aspectos obscuros do ocultismo que são frequentemente vistos negativamente como “magia negra”, o “caminho da mão esquerda”, etc. De particular destaque é um capítulo sobre o trabalho de Frater Achad e o Aeon de Maat, no qual Grant tem uma visão um tanto céptica das reivindicações de Frater Achad sobre o alvorecer do Aeon de Maat. Posteriormente, Grant veio a mudar sua visão. O livro também continha um par de capítulos sobre a obra de Michael Bertiaux (expoente do Voudon Gnóstico).

A Segunda Trilogia

A segunda Trilogia inicia com Nightside of Eden (O Lado Noturno do Éden), publicado em 1977. Esta é essencialmente uma exploração dos Túneis de Set, que se encontram sob os caminhos da Árvore da Vida. Esta obra foi baseada inicialmente em um breve e obscuro trabalho de Crowley, o Liber 231, publicado pela primeira vez em no Equinox. Este livro consiste em sigilos dos gênios das 22 escamas da Serpente, e os sigilos das 22 células das Qliphoth, e alguns oráculos obscuros. Esta obra evidentemente fascinou Grant, e a exploração destas células das Qliphoth forma a espinha dorsal da obra da Loja Nu-Ísis. Grant tem sido criticado em alguns setores por trabalhar com o que alguns consideram como os aspectos maléficos e avessos da magia. Entretanto, os aspectos mais obscuros da experiência são tão necessários para entender como os aspectos mais claros; é necessário entender ambos.

Em 1980 Grant publicou Outside the Circles of Time (Fora dos Círculos do Tempo), uma obra que cobre uma área extremamente ampla e expõe, para citar a sinopse da capa: “uma rede mais complexa do que jamais foi imaginada: uma rede não muito diferente da visão escura de H.P. Lovecraft das forças sinistras que se escondem na borda do universo”. O livro é mais famoso, talvez, por mostrar a obra de Sóror Andahadna (que mais tarde se tornou Nema, autora de A Magia de Maat), uma Sacerdotisa contemporânea de Maat cuja obra tinha paralelos com a obra de Frater Achad muitas décadas antes. Muitos Thelemitas têm problemas com o Aeon de Maat. No que lhes diz respeito, cada Aeon dura 2.000 anos; estamos no início do Aeon de Hórus, portanto, Maat ainda está longe. Eles farão eco da famosa réplica de Crowley ao jovem Grant: “Maat pode esperar!”. Entretanto, a seguinte passagem de Outside the Circles of Time coloca o assunto sob uma luz muito mais interessante:

“Mitos e lendas são do passado, mas Maat não deve ser pensada em termos de eras passadas ou futuras. Maat está presente agora para aqueles que, conhecendo os ‘alinhamentos sagrados’ e o ‘Portal da Intermediária’, experimentam a Palavra sempre vindo, sempre emanando, da Boca, nas formas sempre novas e sempre presentes que estão sendo geradas continuamente a partir do Atu ou Casa de Maat, o Ma-atu … “

Mas o livro é sobre muito mais. É uma tecelagem potente de uma série de fios aparentemente diversos em uma única, ampla e poderosa corrente. Embora os livros de Grant sejam todos diferentes de seus predecessores, Outside the Circles of Time parecia anunciar um salto para uma dimensão diferente.

Outside the Circles of Time foi o último livro publicado pela (Editora) Muller, e houve uma pausa de 12 anos até 1992, quando a Editora Skoob publicou a Hecate’s Fountain. Grant tinha originalmente concebido isto como um relato dos rituais da Loja Nu-Ísis. No entanto, como muitas vezes acontece, o trabalho tomou um impulso próprio e lançou uma flor bem diferente. O livro ainda era tecido em torno do trabalho da Loja. Entretanto, esta obra é ilustrada como relatos anedóticos de trabalhos específicos, ilustrando em particular o que Grant denomina de “tantra tangencial”, onde um trabalho mágico tem efeitos colaterais curiosos e às vezes alarmantes em desacordo com seu aparente propósito. Grant traça essas anomalias para uma interface catalítica que ele chama de “Zona Malva”, existente entre os domínios do sono sonhador e do sono sem sonhos. Na Zona Malva, há movimentos, verticilos e turbilhões que dão origem a tênues espectros, sonhos, e imagens que entram na consciência e são revestidas pela imaginação.

A Terceira Trilogia

A terceira Trilogia abre com Outer Gateways (Portais Exteriores), publicado pela Skoob em 1994. Este livro continua e amplia alguns dos temas de Hecate’s Fountain. Ele contém um longo relato das vertentes aparentemente contraditórias do Livro da Lei, explora a obra de Crowley em relação à Sunyavada, e tem algumas coisas notáveis a dizer sobre a gematria criativa. No entanto, o seu núcleo é sem dúvida Wisdom of S’lba e os vários capítulos de análise que se seguem. S’lba é uma bela, altamente carregada e rica transmissão recebida durante muitos anos por Kenneth Grant desde o final dos anos 30, a maior parte dela recebida durante os anos da Loja Nu-Ísis.

Há uma grande quantidade de mal-entendidos sobre a natureza das transmissões. Não se trata de simplesmente tirar ditados de uma entidade desencarnada. O contato com o que é chamado de planos internos é muito mais complexo e mais sutil do que isso. Tomemos por exemplo a seguinte nota introdutória de Grant:

“A série de versos intitulados coletivamente a Wisdom of S’lba … não foram escritos em nenhum momento ou lugar em particular, embora o estado de consciência em que foram recebidos fosse invariavelmente o mesmo. O processo foi iniciado já no ano de 1939, quando a Visão de Aossic se manifestou pela primeira vez da maneira descrita em Outside the Circles of Time (capítulo 8). A visão se desenvolveu esporadicamente durante todo o tempo da associação de Aossic com Aleister Crowley e Austin Osman Spare. Mas o aspecto dinâmico do Trabalho, ou seja, a integração da Visão em um todo coerente, ocorreu durante o período de existência da Loja Nu-Ísis.”

O próximo volume, Beyond the Mauve Zone (Além da Zona Malva), estava prestes a ir para a imprensa quando os editores de Grant, a Skoob Publishing, decidiram que não iriam publicar mais nada dele. Nenhuma razão para isto jamais foi dada. O resultado foi que mais alguns anos se passaram até sua eventual publicação, pela Starfire Publishing, em 1999. Beyond the Mauve Zone é, como seu nome sugere, uma consideração mais profunda daquela região entre o sono sem sonhos e o sonho que fecunda a imaginação, e em particular uma consideração de vários métodos de acesso à Zona Malva. Há três capítulos sobre o Ritual Kaula da Serpente de Fogo, dando muito mais material do comentário Kaula iniciado, obtido de David Curwen. Há também uma análise prolongada da Liber Pennae Praenumbra recebida por Sóror Andahadna (A futura Nema), e um relato do trabalho do sérvio Zivorad Mihajlovic Slavinski.

Olhando para estes primeiros oito volumes das Trilogias Tifonianas, podemos ver o quanto o trabalho de Grant mudou, e ainda assim se reintegrou com sua fonte. Por maiores e mais profundos que sejam os volumes anteriores, eles dão poucos indícios da gloriosa floração que é a terceira e última Trilogia. E é o último volume, O Nono Arco, para o qual nossa atenção se volta em seguida.

No entanto, para encerrar esta parte da palestra, há uma passagem de Outside the Circles of Time que sempre achei inspiradora. Ela expressa um conceito que é a essência de grande parte do trabalho de Grant, e o faz de uma forma excepcionalmente bela e intensamente comovente. São os dois parágrafos finais da Introdução a esse livro extraordinário:

“Um último ponto é aqui relevante, e eu o declaro sem desculpas. Não é meu propósito tentar provar nada; meu objetivo é construir um espelho mágico capaz de expressar algumas das imagens menos elusivas vistas como sombras de um futuro Aeon. Isto eu faço por meio de sugestão, evocação e por aqueles conceitos oblíquos e “intermediários” que Austin Spare definiu como “Neither-Neither (Nem-Nem)”. Quando isto é compreendido, a mente do leitor torna-se receptiva ao influxo de certos conceitos que podem, se recebidos sem distorções, fertilizar as dimensões desconhecidas de sua consciência. Para atingir este objetivo, uma nova forma de comunicação deve ser desenvolvida; a própria linguagem deve renascer, reviver e dar uma nova direção e um novo impulso. A imagem verdadeiramente criativa nasce da imaginação criativa, e este é – em última análise – um processo irracional que transcende a compreensão da lógica humana.”

 “É bem conhecido que cientistas e matemáticos desenvolveram uma linguagem críptica, uma linguagem tão esquiva, tão fugitiva e, no entanto, tão essencialmente cósmica que forma um modo de comunicação quase cabalístico, muitas vezes mal interpretada por seus próprios iniciados! Nossa posição não é tão desesperada, pois estamos lidando principalmente com o complexo corpo-mente em sua relação com o universo, e o corpo-aspecto está profundamente enraizado no solo do sentimento. Nossa mente pode não compreender, mas nas camadas mais profundas do subconsciente onde a humanidade compartilha um leito comum, há um reconhecimento instantâneo. Da mesma forma, um mago concebe sua cerimônia em harmonia com as forças que ele deseja invocar, portanto, um autor deve prestar considerável atenção à criação de uma atmosfera adequada para suas operações. As palavras são seus instrumentos mágicos, e suas vibrações não devem produzir um ruído meramente arbitrário, mas uma elaborada sinfonia de reverberações tonais que provocam uma série de ecos cada vez mais profundos na consciência de seus leitores. Não se pode enfatizar ou superestimar a importância desta forma sutil de alquimia, pois é nas nuances, e não necessariamente nos significados racionais das palavras e números empregados, que reside o mago. Além disso, é muito frequentemente na sugestão de certas palavras não utilizadas, ainda indicadas ou empregadas por outras palavras sem relação direta com elas, que se produzem as definições mais precisas. O edifício de uma construção real pode às vezes ser criado apenas por uma arquitetura de ausência, onde o edifício real é ao mesmo tempo revelado e escondido por uma estrutura alienígena assombrada por probabilidades. Estas são legiões, e é a faculdade criativa do leitor – desperto e ativo – que pode povoar a casa com almas. Portanto, este livro pode significar muitas coisas para muitos leitores, e diferentes coisas para todos; mas para nenhum pode significar nada, pois a casa é construída de tal maneira que nenhum eco pode ser perdido.”

…continua em Vislumbres do Novo Arco

 

Fonte: Glimpses Through the Ninth Arch.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

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Apócrifo de João (Longo)

(O Livro Secreto de João – A Revelação Secreta de João)

O ensinamento do salvador, a revelação dos mistérios, das coisas escondidas no silêncio, e também as coisas que ele ensinou a João, seu discípulo.

E aconteceu um dia, quando João, irmão de Tiago (que são os filhos de Zebedeu), ele havia subido ao templo, e um Fariseu chamado Arimanes o aproximou e disse, “Onde está seu mestre a quem você seguia?” E João respondeu, “Ele retornou para o lugar de onde ele veio.” O Fariseu disse a ele, “Este Nazareno os enganou com ilusão, ele encheu suas orelhas com mentiras, fechou seus corações e desviou vocês das tradições dos seus pais.”

Quando eu, João, ouvi estas coisas, eu abandonei o templo e fui para um lugar deserto. E eu fiquei muito angustiado em meu coração, dizendo, “Como então o salvador foi escolhido? Por que ele foi enviado ao mundo pelo Pai dele? Quem é o Pai dele que o enviou? De que tipo é aquele aeon para o qual nós deveremos ir? Pois o que ele quis dizer quando ele nos falou, ‘Este aeon para o qual vocês irão é do tipo de aeon imperecível’, mas ele não nos ensinou sobre este último.”

Enquanto eu estava contemplando estas coisas, imediatamente, veja, os céus se abriram e a criação que está abaixo de todos os céus brilhou, o mundo inteiro estremeceu. Eu tive medo, no entanto, veja, na luz eu vi uma criança que ficou diante de mim. Enquanto eu observava, ele se tornou um homem velho. E ele mudou sua aparência novamente, se tornando um jovem. Não eram vários diante de mim, mas sim uma aparência com múltiplas formas na luz. E uma aparência surgia através da outra. A aparência tinha três formas.

Ele me disse, “JoãoJoão, por que você duvida, ou por que você está assustado? Esta imagem não é estranha para você, é? – portanto, não seja medroso! – Eu sou aquele que está com vocês sempre. Eu sou o Pai, eu sou a Mãe, eu sou o Filho. Eu sou o inviolado e impoluto. Agora eu vim para te ensinar sobre o que é, o que foi, e o que será, para que você conheça tanto as coisas que estão invisíveis quanto aquelas que estão visíveis, e te ensinar a respeito da raça inabalável do Homem perfeito. Agora, em vista disso, levante seu rosto, para que você possa receber as coisas que eu irei te ensinar hoje, e possa contar para aqueles espíritos que são seus companheiros da raça inabalável do Homem perfeito.”

E eu perguntei por curiosidade, e ele me disse, “A União é uma monarquia com nada acima dela. É o Deus e Pai do Todo, o sagrado, o invisível, que existe acima do Todo. Aquele que é o Pai de imperecibilidade, existindo como luz pura, dentro da qual nenhum olho consegue olhar.

Ele é o Espírito Invisível. Não é correto pensar Dele como um deus, ou algo similar. Porque Ele supera divindade. É um domínio que não tem nada acima Dele para governá-lo. Porque não há nada existindo antes Dele, nem Ele necessita deles. Ele não necessita de vida. Pois Ele é eterno. Ele não precisa de nada. Ele não pode ser aperfeiçoado, como se Ele fosse deficiente e necessitasse de aprimoramento; pelo contrário, Ele é sempre completamente perfeito. Ele é luz. Ele não pode ser limitado, já que não há nada anterior a Ele para o limitar. Ele é insondável, já que não existe ninguém anterior a Ele para o examinar. Ele é imensurável, porque não há alguém anterior a Ele que possa medi-lo. Ele é invisível, já que ninguém é capaz de visioná-lo. Ele é uma eternidade existindo eternamente. Ele é inefável, já que ninguém foi capaz de compreendê-lo para falar sobre Ele. Ele é inominável, já que não há ninguém anterior a Ele para dar-lhe um nome.

Ele é luz imensurável, o puro, que é sagrado e impoluto. Ele é inefável, sendo incorruptivelmente perfeito. Ele não é perfeição, nem bem-aventurança, nem divindade, pois Ele é algo muito superior a estes. Ele não é indelimitado nem delimitado, mas Ele é algo muito superior a estes. Ele não é corpóreo nem incorpóreo. Ele não é grande nem pequeno. Ele não é uma quantidade. Ele não é uma criatura. Nem é possível que alguém o compreenda. Ele não é algo que pertença ao Todo que existe, pelo contrário, Ele é algo que é melhor do que isso. Não que Ele seja simplesmente superior, como se Ele fosse comparável aos outros, mas Ele é algo que pertence a Si próprio.

Ele não participa em um aeon (como parte constituinte dele). O tempo não existe em relação a Ele. Pois qualquer um que participa em um aeon foi criado. O tempo não foi determinado a Ele, já que Ele não recebe nada de outro que estabelece limites. E Ele não necessita de nada.

Nada do Todo existe antes Dele. Ele é suficiente para si próprio em sua luz perfeita. Porque a perfeição é majestosa. Ele é mente pura imensurável. Ele é um aeon doador-de-aeon. Ele é vida doadora-de-vida. Ele é uma bem-aventurança doadora-de-bem-aventurança. Ele é sabedoria doadora-de-sabedoria. Ele é bondade doadora-de-bondade. Ele é piedade e redenção doadores-de-piedade. Ele é graça doadora-de-graça, não porque ele as tem, mas porque Ele doa a luz imensurável e incompreensível.

Como eu devo falar Dele com você? Ele é um aeon indestrutível, em repouso, existindo em silêncio, em tranquilidade, e sendo anterior a tudo. Pois Ele é o topo de todos os aeons, e é Ele quem os dá força e bondade. Porque nós não conhecemos as coisas inefáveis, e nós não compreendemos o que é imensurável, exceto por aquele que veio Dele, ou seja, do Pai. Pois foi ele quem disse para nós somente. Porque é ele quem se olha na luz que o envolve, isto é, a nascente da água da vida. E é Ele quem doa para todos os aeons, de todos os modos, e que observa sua própria imagem visível na nascente do Espírito. É Ele quem coloca sua vontade na fonte da água-luz pura que o envolve.

E seu pensamento teve uma ação, e ela surgiu, ou seja, aquela que tinha aparecido diante Dele no brilho da sua luz. Este é o primeiro poder que existia antes deles todos, e que veio da mente Dele. Ela é o Pensamento do Todo (Protenoia) – a luz dela brilha como a luz Dele – o poder perfeito, que é a imagem do Espírito puro, invisível, e perfeito. É o primeiro poder, a glória de Barbelo, a glória perfeita nos aeons, a glória da revelação. Ela glorificou o Espírito puro, e foi ela quem o saudou, porque graças a ele, ela havia surgido. Este é o primeiro pensamento, a imagem Dele; ela se tornou o útero de tudo, pois ela que é anterior a todos eles, ela é a Mãe-Pai, o Primeiro Homem, o Espírito sagrado, os três-vezes-macho, os três-vezes-poderosos, o andrógino três-vezes-nomeado, o aeon eterno entre os invisíveis, e o primeiro a vir.

<Ela> pediu para que o Espírito puro invisível a desse previsão. E o Espírito consentiu. E quando ele havia consentido, a previsão veio, e ficou ao lado da presciência; esta origina do pensamento do Espírito puro invisível. A previsão glorificou o Espírito e Barbelo (o poder perfeito dele), porque foi por ela que ele tinha surgido.

E ela pediu novamente para a conceder indestrutibilidade, e ele consentiu. Quando ele havia consentido, a indestrutibilidade veio, e ficou ao lado do pensamento e da presciência. A indestrutibilidade glorificou o Espírito invisível e Barbelo, aquele pelo qual eles haviam surgido.

E ela solicitou que a concedesse vida eterna. E o Espírito invisível consentiu. E quando ele havia consentido, a vida eterna veio, e estes auxiliaram e glorificaram o Espírito invisível e Barbelo, aquele pelo qual eles haviam surgido.

Ela solicitou novamente, para que a concedesse verdade. E o Espírito invisível consentiu. E quando ele havia consentido, a verdade surgiu, e estes auxiliaram e glorificaram o Espírito excelente invisível e Barbelo, aquele pelo qual eles haviam surgido.

Este é o grupo-de-cinco dos aeons do Pai, que é o Primeiro Homem, e que é a imagem do Espírito invisível; a presciência, que é Barbelo, e o pensamento, a previsão, a indestrutibilidade, a vida eterna, e a verdade. Este é o grupo-de-cinco andrógino dos aeons, o qual é o grupo-de-dez dos aeons, que é o Pai.

E ele olhou para Barbelo com a luz pura que envolve o Espírito invisível e com sua centelha. E ela concebeu dele. Ele gerou uma centelha de luz possuindo bem-aventurança. Mas que não o iguala em grandeza. Esta foi uma criança unigênita da Mãe-Pai que tinha vindo; é o fruto único, o unigênito do Pai. A Luz pura.

E o Espírito puro invisível se alegrou pela luz que veio, que surgiu pelo primeiro poder da presciência dele, que é Barbelo. E ele a ungiu com sua bondade até que se tornasse perfeita, não carecendo de qualquer valor, porque ele tinha ungido com a bondade do Espírito invisível. E ela (a luz) o auxiliou quando ele derramou sobre ela. E imediatamente, quando a luz tinha recebido do Espírito, ela glorificou o Espírito sagrado e a presciência perfeita, pela qual ela tinha vindo.

E ela pediu que lhe desse um ajudante, que é a mente, e ele consentiu alegremente. E quando o Espírito havia consentido, a mente veio, e auxiliou Cristo, glorificando ele e Barbelo. E todos estes surgiram no silêncio.

E a mente quis realizar uma ação através da palavra do Espírito invisível. E a vontade dele se tornou uma ação, e apareceu com a mente; a luz o glorificou. E a palavra acompanhou a vontade. Porque pela palavra, Cristo, o Autogenes divino, criou tudo. A vida eterna, a vontade dele, a mente, e a previsão, serviram e glorificaram o Espírito invisível e Barbelo, pelos quais eles haviam surgido.

E o Espírito sagrado completou o Autogenes divino, que é o filho dele, junto com Barbelo, para que ele pudesse auxiliar o Espírito puro invisível e poderoso como o Autogenes divino, o Cristo, a quem ele havia reverenciado com uma voz poderosa. Ele veio pela presciência. E o Espírito puro invisível colocou o Autogenes divino de honestidade acima de tudo. E submeteu a ele toda a autoridade e a verdade que ele possui, para que ele conheça o Todo, que foi aclamado com um nome exaltado acima de todos os nomes. Porque esse nome será mencionado para aqueles que são dignos dele.

Pois pela luz, que é Cristo, e a indestrutibilidade, através da dádiva do Espírito, as quatro luzes apareceram do Autogenes divino. Ele esperou que eles o assistissem. E os três são: vontade, pensamento, e vida. E os quatro poderes são: compreensão, graça, percepção, e prudência. E a graça pertence ao aeon-luz Armozel, que é o anjo de luz no primeiro aeon. E há três outros aeons com este aeon: graça, verdade, e forma.

E a segunda luz é Oriel, que foi colocado sobre o segundo aeon. E há três outros aeons com ele: concepção, percepção, e memória. E a terceira luz é Daveithai, que foi colocado sobre o terceiro aeon. E há três outros aeons com ele: compreensão, amor, e ideia. E o quarto aeon foi colocado sobre a quarta luz Eleleth. E há três outros aeons com ele: perfeição, paz, e sabedoria. Estas são as quatro luzes que assistem o Autogenes divino, e estes são os doze aeons eternos que assistem o filho do poderoso, o Autogenes, o Cristo, através da vontade e da dádiva do Espírito invisível. E os doze aeons pertencem ao filho do Autogenes. E todas as coisas foram estabelecidas pela vontade do Espírito sagrado através do Autogenes.

E pela previsão da mente perfeita, através da revelação da vontade do Espírito invisível, e da vontade do Autogenes, o Homem perfeito apareceu, a primeira revelação, e a verdade. É ele quem o Espírito puro chamou de Pigera-Adamas, e ele o colocou sobre o primeiro aeon com o poderoso, o Autogenes, o Cristo, ao lado da primeira luz de Armozel; e com ele estão seus poderes. E o invisível lhe deu um poder mental imbatível. E ele falou, glorificou, e saudou o Espírito invisível, dizendo, “Foi por ti que tudo surgiu, e tudo retornará para ti. Eu saudarei e glorificarei a ti, o Autogenes, e os aeons, os três: o Pai, a Mãe, e o Filho – o poder perfeito.’

E ele (Adamas) colocou o filho dele, Seth, sobre o segundo aeon, na presença da segunda luz Oriel. E no terceiro aeon, a semente de Seth foi colocada sobre a terceira luz Daveithai. E as almas dos santos foram colocadas lá. E no quarto aeon foram colocadas as almas daqueles que não conhecem o Pleroma, e também aqueles que não se arrependeram imediatamente, mas que persistiram por um tempo e se arrependeram depois; eles estão ao lado da quarta luz Eleleth. Estas são criaturas que glorificam o Espírito invisível.

E a Sofia da Epinoia, sendo um aeon, concebeu um pensamento dela mesma pela concepção do Espírito invisível e pela previsão. Ela queria produzir reinos por conta própria sem o consentimento do Espírito (ele não havia aprovado), sem o cônjuge dela, e sem a apreciação dele. E, embora a pessoa da masculinidade dela não tinha aprovado, e ela não tinha obtido a autorização, e ela havia pensado sem o consentimento do Espírito, mesmo assim ela prosseguiu. E devido ao poder invencível que existe nela, o pensamento dela não permaneceu inativo, e algo que era imperfeito e diferente de sua aparência saiu dela, porque ela havia criado aquilo sem seu cônjuge. E era diferente da aparência da mãe, pois tinha uma outra forma.

E quando ela viu as consequências do seu desejo, aquilo se transformou numa serpente com cabeça de leão. E os olhos dele eram como chamas com clarão. Ela o lançou para fora dela, para fora daquele lugar, para que nenhum dos imortais o visse, porque ela o havia criado em ignorância. E ela o rodeou com uma nuvem luminosa, e ela colocou um trono no meio da nuvem para que ninguém visse exceto pelo Espírito sagrado, que é chamado a mãe dos vivos. E ela o nomeou Yaldabaoth.

Este é o primeiro arconte que tomou um grande poder da mãe dele. E ele se separou dela, e se dirigiu para longe do lugar em que ele tinha nascido. Ele ficou forte, e criou para si outros aeons com uma chama de fogo luminoso que ainda existe hoje. E ele se juntou com a arrogância que existe nele, e gerou autoridades para si. O nome do primeiro é Athoth, a quem as gerações chamam de o ceifeiro. O segundo é Harmas, que é o olho da inveja. O terceiro é Kalila-Oumbri. O quarto é Yabel. O quinto é Adonaios, que é chamado Sabaoth. O sexto é Caim. Aquele a quem as gerações dos homens chamam de sol é o sétimo, Abel. O oitavo é Abrisene. O nono é Yobel. O décimo é Armoupieel. O décimo primeiro é Melceir-Adonein. O décimo segundo é Belias (ou Beliel), é ele quem está acima da profundeza de Hades. E ele colocou sete reis – cada um correspondente aos firmamentos do céu – sobre os sete céus, e cinco sobre as profundezas do abismo, para que eles reinem. E ele compartilhou seu fogo com eles, mas ele não emitiu do poder da luz que ele havia tomado de sua mãe, porque ele é escuridão ignorante.

E quando a luz havia se misturado com a escuridão, ela fez a escuridão brilhar. E quando a escuridão havia se misturado com a luz, ela escureceu a luz e não ficou nem claro nem escuro, mas ficou uma penumbra.

Agora o arconte que é penumbra tem três nomes. O primeiro é Yaldabaoth, o segundo é Saclas, e o terceiro é Samael. E ele é ímpio em sua arrogância. Porque ele disse ‘Eu sou Deus, e não há outro Deus além de mim,’ pois ele é ignorante da força dele, e do lugar de onde ele veio.

E os arcontes criaram sete poderes para eles mesmos, e os poderes criaram para si seis anjos cada um, até se tornarem 365 anjos.

Estes são os nomes das autoridades com seus corpos: o primeiro é Athoth, e ele tem um rosto de ovelha; o segundo é Eloaiou, ele tem um rosto de burro; o terceiro é Astaphaios, ele tem um rosto de hiena; o quarto é Yao, ele tem um rosto de dragão com sete cabeças; o quinto é Sabaoth, ele tem um rosto de serpente (naja); o sexto é Adonin, ele tem um rosto de macaco, o sétimo é Sabbede, ele tem um rosto de fogo brilhante. Estes são os sete da semana.

Mas Yaldabaoth tem muitas faces, mais do que todos eles, para que ele pudesse por uma face diante deles quando ele desejasse, quando ele está no meio dos serafins. Ele compartilhou seu fogo com eles; por isto ele se tornou senhor sobre eles. Por causa da glória e do poder que ele possuía da luz da mãe dele, ele se chamou Deus. E ele não respeitou o lugar de onde ele veio. Ele uniu os sete poderes no seu pensamento com as autoridades que estavam com ele. E quando ele falou, aconteceu. E ele nomeou cada poder, começando pelo mais alto; bondade, com a primeira autoridade, Athoth; previsão com o segundo, Eloaio; divindade com o terceiro, Astaphaio; senhoria com o quarto, Yao; reino com o quinto, Sabaoth; inveja com o sexto, Adonein; compreensão com o sétimo, Sabbateon. E estes têm um firmamento correspondente a cada aeon-céu. Eles foram nomeados de acordo com a glória que pertence ao oitavo céu, para a destruição dos poderes. E havia poder nos nomes que foram dados a eles pelo seu Originador. Mas os nomes que foram dados a eles, de acordo com a glória que pertence ao oitavo céu, significam para eles destruição e impotência. Portanto, eles têm dois nomes.

E tendo criado […] tudo, ele organizou de acordo com o modelo dos primeiros aeons que tinham surgido, para que ele pudesse criá-los como aqueles indestrutíveis. Não porque ele tinha visto aqueles indestrutíveis, mas o poder dentro dele, que ele tinha tomado de sua mãe, produziu nele a aparência do cosmos. E quando ele viu a criação que o rodeava, e a multidão dos anjos em sua volta que tinha vindo através dele, ele disse para eles, ‘Eu sou um Deus ciumento, e não há outro Deus além de mim.’ Mas, anunciando isto, ele indicou aos anjos que o servem que existe outro Deus. Porque se não houvesse outro, de quem ele teria ciúmes?

Então a mãe começou a se mover para lá e para cá. Ela percebeu a deficiência quando o brilho da luz dela diminuiu. E ela ficou escura, porque seu cônjuge não havia concordado com ela.”

E eu disse “Senhor, o que significa ela se moveu para lá e para cá?” Mas ele sorriu e disse, “Não pense que é como Moisés falou, ‘sobre as águas.’ Não, mas quando ela havia visto a perversidade que tinha ocorrido, e o roubo que o filho dela tinha cometido, ela se arrependeu. E ela foi dominada pelo esquecimento da escuridão da ignorância, e ela começou a ficar envergonhada. E ela não ousou retornar, mas ela estava circulando. E a movimentação é o ir para lá e para cá.

E aquele arrogante tomou um poder da mãe dele. Porque ele era ignorante, pensando que não havia outro além da mãe dele. E quando ele viu a multidão dos anjos que ele havia criado, então ele se exaltou acima deles.

E quando a mãe reconheceu que a vestimenta da escuridão era imperfeita, aí ela soube que seu cônjuge não havia concordado. Ela se arrependeu com muito choro. E o pleroma inteiro escutou a oração do arrependimento dela, e em nome dela, eles solicitaram a bênção do Espírito puro invisível. Ele consentiu; e quando o Espírito invisível havia consentido, o Espírito sagrado, a partir do pleroma deles inteiro, derramou a bênção sobre ela. Porque não foi o cônjuge dela que veio, mas ele veio até ela pelo pleroma, para que ele pudesse corrigir a deficiência. E ela foi levada, não para o seu aeon, mas para um lugar mais elevado do que o filho dela, para que ela esteja no nono céu até que ela tenha corrigido sua deficiência.

E uma voz veio do aeon-céu sublime: ‘O Homem existe, e o filho do Homem também.’ E o chefe arconte Yaldabaoth ouviu isto, e achou que a voz tinha vindo da mãe dele. E ele não sabia de onde tinha vindo realmente: a Mãe-Pai perfeita e sagrada, a previsão completa, a imagem do invisível que é o Pai de tudo, e através do qual surgiu tudo, o Primeiro Homem. Porque ele revelou sua aparência numa forma humana.

E o universo inteiro do arconte chefe estremeceu, e os alicerces do abismo balançaram. E o fundo das águas que estão sobre a matéria foi iluminado pelo aparecimento da imagem Dele, que havia sido revelada. E quando todas as autoridades e o arconte chefe olharam, eles viram a região inteira do fundo que estava iluminada. E, através da luz, eles viram a forma da imagem na água.

E ele disse para as autoridades que o servem, ‘Venham, vamos criar um homem de acordo com a imagem de Deus e de acordo com a nossa forma, para que a imagem dele se torne uma luz para nós.’ E eles criaram, por meio de seus respectivos poderes, de acordo com as características que foram dadas. E cada autoridade forneceu uma característica nos moldes da imagem que eles tinham visto na forma natural. Eles criaram um ser segundo a aparência do Primeiro Homem perfeito. E eles disseram, ‘Vamos chamá-lo de Adão, para que o nome dele se torne um poder de luz para nós.’

E os poderes começaram: o primeiro, bondade, criou uma alma-osso; e o segundo, previsão, criou uma alma-nervo; o terceiro, divindade, criou uma alma-carne; e o quarto, senhoria, criou uma alma-medula; o quinto, reino, criou uma alma-sangue; o sexto, inveja, criou uma alma-pele, o sétimo, compreensão, criou uma alma-cabelo. E a multidão de anjos o ajudou, e eles receberam dos poderes as sete substâncias da forma natural para criar as proporções dos membros, a proporção do quadril, e o funcionamento correto do conjunto de cada uma das partes.

O primeiro começou a criar a cabeça. Eteraphaope-Abron criou a cabeça dele; Meniggesstroeth criou o cérebro; Asterechme (criou) o olho direito; Thaspomocha, o olho esquerdo; Yeronumos, a orelha direita; Bissoum, a orelha esquerda; Akioreim, o nariz; Banen-Ephroum, os lábios; Amen, os dentes; Ibikan, os molares; Basiliademe, as amídalas; Achcha, a úvula; Adaban, o pescoço; Chaaman, a vértebra; Dearcho, a garganta; Tebar, o ombro direito; […], o ombro esquerdo; Mniarcon, o cotovelo direito; […], o cotovelo esquerdo; Abitrion, a axila direita; Evanthen, a axila esquerda; Krys, a mão direita; Beluai, a mão esquerda; Treneu, os dedos da mão direita; Balbel, os dedos da mão esquerda; Kriman, as unhas dos dedos; Astrops, o seio direito; Barroph, o seio esquerdo; Baoum, a articulação do ombro direito; Ararim, a articulação do ombro esquerdo; Areche, a barriga; Phthave, o umbigo; Senaphim, o abdome; Arachethopi, as costelas da direita; Zabedo, as costelas da esquerda; Barias, o quadril direito; Phnouth o quadril esquerdo; Abenlenarchei, a medula; Chnoumeninorin, os ossos; Gesole, o estômago; Agromauna, o coração; Bano, os pulmões; Sostrapal, o fígado; Anesimalar, o baço; Thopithro, os intestinos; Biblo, os rins; Roeror, os nervos; Taphreo, a espinha do corpo; Ipouspoboba, as veias; Bineborin, as artérias; Atoimenpsephei, os seus são as respirações que estão em todos os membros; Entholleia, toda a carne; Bedouk, a nádega direita; Arabeei, o pênis; Eilo, os testículos; Sorma, os genitais; Gorma-Kaiochlabar, a coxa direita; Nebrith, a coxa esquerda; Pserem, os rins (músculos?) da perna direita; Asaklas, o rim (músculo) esquerdo; Ormaoth, a perna direita; Emenun, a perna esquerda; Knyx, a tíbia direita; Tupelon, a tíbia esquerda; Achiel, o joelho direito; Phnene, o joelho esquerdo; Phiouthrom, o pé direito; Boabel, os dedos do pé direito; Trachoun, o pé esquerdo; Phikna, os dedos do pé esquerdo; Miamai, as unhas dos pés; Labernioum – .

E aqueles que foram designados sobre todos estes são: Zathoth, Armas, Kalila, Jabel, (Sabaoth, Caim, Abel). E aqueles que são especialmente ativos nos membros (são) a cabeça Diolimodraza, o pescoço Yammeax, o ombro direito Yakouib, o ombro esquerdo Verton, a mão direita Oudidi, a mão esquerda Arbao, os dedos da mão direita Lampno, os dedos da mão esquerda Leekaphar, o seio direito Barbar, o seio esquerdo Imae, o peito Pisandriaptes, a articulação do ombro direito Koade, a articulação do ombro esquerdo Odeor, as costelas da direita Asphixix, as costelas da esquerda Synogchouta, a barriga Arouph, o útero Sabalo, a coxa direita Charcharb, a coxa esquerda Chthaon, todos os genitais Bathinoth, a perna direita Choux, a perna esquerda Charcha, a tíbia direita Aroer, a tíbia esquerda Toechtha, o joelho direito Aol, o joelho esquerdo Charaner, o pé direito Bastan, os dedos do pé direito Archentechtha, o pé esquerdo Marephnounth, os dedos do pé esquerdo Abrana.

Sete possuem poder sobre todos estes: Michael, Ouriel, Asmenedas, Saphasatoel, Aarmouriam, Richram, Amiorps. E aqueles que estão no comando dos sentidos (são) Archendekta; e aquele que está no comando das recepções é Deitharbathas; e aquele que está no comando da imaginação é Oummaa; e aquele que está sobre a composição é Aachiaram, e aquele que está sobre todo o impulso é Riaramnacho.

A origem dos quatro demônios que estão no corpo todo são: calor, frio, umidade e secura. E a mãe de todos eles é a matéria. Aquele que reina sobre o calor é Phloxopha; aquele que reina sobre o frio é Oroorrothos; aquele que reina sobre o que é seco é Erimacho; e aquele que reina sobre a umidade é Athuro. A mãe de todos estes, Onorthochrasaei, fica entre eles, já que ela é ilimitável, e ela se mistura com todos eles. E ela é verdadeiramente material, pois eles são nutridos por ela.

Os quatro chefes demônios são: Ephememphi, que pertence ao prazer, Yoko, que pertence ao desejo, Nenentophni, que pertence à tristeza, Blaomen, que pertence ao medo. E a mãe deles todos é Aesthesis-Ouch-Epi-Ptoe. E dos quatro demônios surgiram paixões. E da tristeza vieram: inveja, ciúmes, incômodo, aborrecimento, dor, insensibilidade, ansiedade, lamentação, etc. E do prazer surge muita perversidade, orgulho vazio, e coisas similares. Do desejo vem raiva, fúria, amargura, paixão amarga, insaciabilidade, e coisas similares. Do medo vem temor, adulação, agonia, e vergonha. Todas estas são como coisas úteis e também coisas más. No entanto, a percepção profunda do caráter verdadeiro delas é Anaro, que é a cabeça da alma material. Porque ela pertence aos sete sentidos, Ouch-Epi-Ptoe.

Este é o número dos anjos: juntos eles são 365. Eles todos trabalharam nisto até que, membro a membro, o corpo material e natural foi concluído. Agora há outros no comando das paixões restantes, os quais eu não mencionei a você. Mas se você quiser conhecê-los, está escrito no livro de Zoroaster (Zostrianos?). E todos os anjos e demônios trabalharam até que eles haviam construído o corpo natural. E o produto deles ficou completamente inativo e imóvel por um longo tempo.

E quando a mãe quis reaver o poder que ela havia dado ao arconte chefe, ela fez uma petição à Mãe-Pai do Todo, que é muitíssimo misericordioso. Ele enviou, por meio do decreto sagrado, as cinco luzes abaixo para o universo dos anjos e do arconte chefe. Eles o aconselharam que eles deveriam acionar o poder da mãe. E eles disseram para Yaldabaoth, ‘Assopre no rosto dele algo do seu espírito, e o corpo dele se erguerá.’ E ele soprou no rosto dele o espírito que é o poder da mãe dele, mas ele não sabia disto, pois ele existe na ignorância. E o poder da mãe saiu de Yaldabaoth e entrou no corpo natural, o qual eles haviam produzido segundo a imagem daquele que existe desde o início. O corpo se moveu e ganhou força, e era luminoso.

E naquele momento, os restantes dos poderes ficaram com ciúmes, porque ele havia surgido deles todos, e eles haviam dado poder ao homem, e a inteligência dele era maior do que a daqueles que o haviam criado. Maior do que a do arconte chefe. E quando eles reconheceram que ele era luminoso, que ele podia pensar melhor do que eles, e que ele estava livre da perversidade, eles o tomaram e o jogaram na região mais baixa de toda a matéria.

Mas O abençoado, a Mãe-Pai, O misericordioso e beneficente, teve misericórdia do poder da mãe que havia vindo do arconte chefe, pois eles (os arcontes) podiam ganhar força sobre o corpo natural e perceptível. E ele enviou, através do Espírito beneficente dele e de sua grande misericórdia, um ajudante para Adão, a Epinoia luminosa que surge dele, que se chama Vida. E ela auxilia a criação inteira, trabalhando com ele e o restaurando à sua totalidade. Ela o instrui sobre a descida da sua semente e sobre o caminho da ascensão, que é o caminho que ele veio para baixo. E a Epinoia luminosa estava escondida em Adão, para que os arcontes não a conhecessem, mas para que a Epinoia pudesse ser uma correção da deficiência da mãe.

E o homem veio por causa da sombra da luz que está nele. E o raciocínio dele era superior a todos aqueles que o haviam feito. Quando eles verificaram, eles viram que o raciocínio dele era superior. E eles consultaram a ordem inteira de arcontes e anjos. Eles pegaram fogo e terra e água e misturaram com os quatro ventos flamejantes. E eles os forjaram em conjunto, e causaram uma grande perturbação. E eles trouxeram ele (Adão) para dentro da sombra da morte, para que eles o formassem novamente pela terra, água, fogo, e o espírito que origina na matéria (o qual é a ignorância da escuridão e do desejo), e o espírito falsificado deles. Esta é a tumba do corpo recém-formado com a qual os ladrões haviam vestido o homem, o laço do esquecimento; e ele se tornou um homem mortal. Este é o primeiro que desceu, e a primeira separação. Mas a Epinoia da luz que estava dentro dele, ela é que iria despertar o raciocínio dele.

E os arcontes o pegaram e o colocaram no paraíso. E eles disseram para ele, ‘Coma sem se preocupar,’ pois a luxúria deles é amarga, e a beleza deles é depravada. A luxúria deles é enganação, e as árvores deles são ateísmo, a fruta deles é um veneno mortal, e a promessa deles é a morte. A árvore da vida deles, eles haviam colocado no centro do paraíso.

E eu irei ensinar a vocês qual é o mistério da vida deles, que é o plano que eles fizeram juntos, que é a aparência do espírito deles. A raiz desta árvore é amarga, e seus galhos são morte, sua sombra é ódio, e a enganação está em suas folhas. Sua florescência é o unguento do mal, e sua fruta é morte. Desejo é a sua semente, e ela germina em escuridão. A morada daqueles que provam dela é Hades, e a escuridão é o lugar de repouso deles.

Mas o que eles chamam de árvore da sabedoria do bem e do mal, que é a Epinoia da luz, eles ficaram na frente dela para que ele (Adão) não pudesse ver sua plenitude e reconhecer a nudez de sua infâmia. Mas fui eu quem propiciou que eles comessem.”

E eu falei para o salvador, “Senhor, não foi a serpente que ensinou Adão a comer?” O salvador sorriu e disse, “A serpente ensinou eles a comer da perversidade da procriação, do desejo sexual, e da destruição, para que Adão pudesse ser útil para ele. E Adão sabia que ele tinha sido desobediente ao arconte chefe, devido à luz da Epinoia que está dentro dele, a qual o fez mais correto no seu raciocínio do que o arconte chefe. E o arconte queria incitar o poder que ele mesmo tinha dado para Adão. E ele trouxe um esquecimento sobre Adão.”

E eu disse ao salvador, “O que é o esquecimento?” E ele disse “Não é como Moisés escreveu e como você ouviu. Porque ele disse no primeiro livro dele, ‘Ele o colocou para dormir’ (Gn 2:21), mas foi apenas na percepção dele. Pois ele também disse através do profeta, ‘Eu tornarei pesado os corações deles, para que eles não prestem atenção e não vejam’ (Is 6:10).

Então a Epinoia da luz se escondeu em Adão. E o arconte chefe queria tirá-la da costela dele. Mas a Epinoia da luz não pode ser agarrada. Embora a escuridão a perseguiu, ela não a pegou. E ele retirou uma parte do poder dele. E ele fez uma outra criatura, na forma de uma mulher, de acordo com a aparência da Epinoia que havia aparecido em Adão. E ele pegou a parte que ele havia tomado do poder do homem, e pôs na criatura fêmea, e não como Moisés falou, ‘ele pegou uma costela e fez a mulher.’

E Adão viu a mulher ao lado dele. E naquele momento a Epinoia luminosa apareceu, e ela removeu o véu que cobria a mente dele. E ele ficou sóbrio da embriaguez da escuridão. Ele reconheceu sua contraparte e disse, ‘Esta é de fato um pedaço de mim e possui a minha semelhança.’ O mistério disso é o seguinte: para adquirir a sua contraparte espiritual o homem deverá rejeitar a união carnal com as criaturas mortais, assim sua consciência despertará, e a partir do reino invisível ele receberá a sua cônjuge, então os dois serão um único ser. Pois os dignos receberão a sua ajudante, e eles deixarão os costumes dos seus pais e suas mães … (3 linhas ilegíveis)

E nossa irmã Sofia, é ela quem desceu em inocência para retificar a deficiência. Portanto, ela foi chamada Vida, porque é a mãe dos vivos, pela previsão da soberania do oitavo céu. E através dela, eles provaram da Sabedoria perfeita. Eu apareci na forma de uma águia na árvore da sabedoria, que é a Epinoia da previsão da luz pura, para que eu pudesse instruir e acordá-los para fora da profundeza do sono. Porque eles dois estavam em um estado decaído, e eles reconheceram sua nudez. A Epinoia apareceu para eles como luz; ela despertou o raciocínio deles.

E quando Yaldabaoth percebeu que eles se afastaram dele, ele amaldiçoou a sua terra. Ele encontrou a mulher quando ela estava se preparando para o marido dela. Ele entregou a mulher para que o homem fosse dono dela, porque ele não sabia o mistério que tinha se passado através do decreto sagrado. E eles estavam com medo de renegar Yaldabaoth. E ele demonstrou a seus anjos a ignorância que está dentro dele. Ele os expulsou (Adão e Eva) do paraíso, e os vestiu com escuridão lúgubre. E o arconte chefe viu a virgem que estava com Adão, e viu que a Epinoia luminosa de vida havia aparecido nela. E Yaldabaoth estava cheio de ignorância. Quando a previsão do Todo percebeu o que iria acontecer, ela enviou alguns assistentes, e eles removeram Vida Divina de Eva.

E o arconte chefe a seduziu, e ela gerou dois filhos; o primeiro e o segundo são Eloim e Yave. Eloim tem um rosto de urso, e Yave tem um rosto de gato. Um é justo e o outro é injusto. (Yave é justo, mas Eloim é injusto.) Ele colocou Yave no comando do fogo e do vento, e Eloim ele colocou no comando da água e da terra. E estes ele chamou de Caim e Abel, com a intenção de enganar.

Agora, até os dias de hoje, a prática sexual continuou devido ao arconte chefe. E ele incitou desejo de procriação naquela que pertence a Adão. E ele produziu as cópias dos corpos através da relação, e os inspirou com seu espírito falsificado.

Então Sabaoth colocou os dois arcontes no poder supremo, para que eles governassem sobre a tumba (corpo). E quando Adão reconheceu a aparência da sua própria previsão, ele gerou a aparência do filho do homem. Ele o chamou de Seth, de acordo com aquele da raça nos grandes aeons. Do mesmo modo, a mãe também enviou para baixo o espírito dela (que é a sua aparência), e uma cópia daqueles que estão no pleroma, pois ela preparou uma habitação para os aeons que desceram. E ele os fez beber beber da água do esquecimento, do arconte chefe, para que eles não saibam de onde eles vieram. Deste modo a semente permaneceu por um tempo, para que quando o Espírito vier dos aeons sagrados, o Espírito possa os erguer e curar a deficiência. Para que o pleroma inteiro se torne sagrado e perfeito novamente.

E eu disse para o salvador, “Senhor, então todas as almas serão trazidas com segurança para dentro da luz pura?” Ele respondeu e me disse, “Coisas grandiosas surgiram em sua mente, porque é difícil explicar elas para outros, exceto àqueles que são da raça inalterável. Aqueles em quem descerá o Espírito de vida, e com quem ele permanecer com o poder, eles serão salvos, e se tornarão perfeitos e dignos da grandeza. Eles serão purificados de toda a perversidade e envolvimentos com o mal naquele lugar. Então eles não têm outra preocupação senão a incorruptibilidade apenas, para a qual eles direcionam a atenção deles daqui por diante, sem medo, raiva, inveja, ciúmes, desejo, ou ganância por nada. Eles não são afetados por nada exceto apenas pelo estado de espírito na carne, a qual eles suportam enquanto esperam ansiosamente pela hora em que eles se encontrarão com os destinatários (do corpo). Estes então são dignos da vida eterna, incorruptível, e do chamado. Pois eles resistem a tudo e suportam tudo, para que eles possam terminar a boa luta e herdar a vida eterna.”

Eu disse a ele, “Senhor, as almas daqueles que não fizeram os trabalhos, mas aos quais o poder do Espírito desceu, eles serão rejeitados?” Ele respondeu e me disse, “Se o Espírito desceu sobre eles, de qualquer modo eles serão salvos, e eles se tornarão melhores. Pois o poder irá descer sobre todos os eleitos, porque sem ele ninguém consegue se manter puro. E após eles nascerem, então, quando o espírito de vida aumenta, e o poder vem e fortalece aquela alma, ninguém consegue desencaminhá-la com trabalhos do mal. Mas naqueles que o espírito falsificado descer, estes são compelidos por ele, e se desencaminham.”

E eu disse, “Senhor, aonde irão as almas destes quando eles tiverem saído da carne?” E ele sorriu e me disse, “A alma na qual o poder se tornar maior do que o espírito falsificado, é forte e ela escapa do mal, e através da intervenção do incorruptível, ela é salva, e é levada para cima, para o repouso dos aeons.”

E eu disse, “Senhor, aqueles que, pelo contrário, não souberam a quem eles pertencem, onde estarão as almas deles?” E ele me disse, “Nesses, o espírito desprezível ganhou força quando eles se desencaminharam. E ele atormenta a alma, e a atrai para os trabalhos do mal. Ele joga a alma no esquecimento. E após ela deixar o corpo, ela é entregue para as autoridades que vieram pelo arconte, e eles a prendem com correntes e a jogam na prisão novamente. Eles a acompanham até que ela se liberte do esquecimento e ganhe sabedoria. E se então ela se tornar perfeita, ela é salva.”

E eu disse, “Senhor, como a alma pode ficar menor e retornar para dentro da natureza da mãe dela, ou dentro do homem?” Então ele se alegrou quando eu perguntei isto, e me disse, “Realmente você é abençoado, porque você entendeu! Aquela alma é feita para seguir uma outra em quem está o Espírito de vida. Ela é salva através dele. Portanto, não é novamente jogada dentro de outra carne.”

E eu disse, “Senhor, aqueles que compreenderam, mas mesmo assim se desviaram, aonde irão as almas deles?” Então ele me disse, “Eles serão levados para aquele lugar onde os anjos da pobreza vão, o lugar onde não há arrependimento. E eles serão detidos para o dia em que serão torturados aqueles que blasfemaram o espírito, e eles serão punidos com punição eterna.”

E eu disse, “Senhor, de onde vem o espírito falsificado?” Então ele me disse, “A Mãe-Pai que é rica em misericórdia, o Espírito sagrado em todos os sentidos, Aquele que é misericordioso e que simpatiza com vocês, a Epinoia da previsão da luz, ela fortaleceu a descendência da raça perfeita, junto com seu raciocínio e a luz eterna do homem. Quando o arconte chefe percebeu que eles eram mais elevados do que ele – e eles superavam o raciocínio dele – ele então quis sabotar o raciocínio deles, sem saber que eles o superavam em raciocínio, e que ele não seria capaz de capturá-los.

Ele planejou com as autoridades que são seus poderes, e eles juntos cometeram adultério com Sofia, e a pobreza amarga foi gerada através deles. Esta é a principal forma de dominação. A necessidade varia de acordo com o lugar e a época. Ela é mais resistente e mais forte do que aquela com quem os deuses se uniram, e do que os anjos, e os demônios, e todas as gerações, até hoje. Porque através da necessidade veio cada ato imoral, e injustiça, blasfêmia, e a corrente do esquecimento e da ignorância, e cada ordem rígida, e ofensas graves, e grandes medos. Deste modo, a criação inteira foi aprisionada, para que eles não conhecessem o Deus Eterno, que está acima de todos eles. E por causa da corrente do esquecimento, as ofensas deles foram escondidas. Pois eles estão presos a medidas, e tempos, e momentos, já que a necessidade governa sobre tudo.

E o arconte chefe se arrependeu de tudo o que tinha surgido através dele. Desta vez ele planejou trazer um dilúvio sobre o trabalho do homem. Mas a grandiosidade da luz da previsão informou Noé, e ele proclamou para todos os descendentes que eram filhos dos humanos. Mas aqueles que eram estranhos a ele não deram ouvidos. Não foi como Moisés falou, ‘Eles se esconderam numa arca’ (Gn 7: 7), mas eles se esconderam num lugar, não apenas Noé, mas também muitas outras pessoas da raça inalterável. Eles entraram num lugar, e se esconderam numa nuvem luminosa. E Noé reconheceu sua autoridade, e aquela que pertence à luz estava com ele, tendo brilhado sobre eles, porque o arconte chefe havia trazido escuridão sobre toda a terra.

E o arconte planejou com seus poderes. Ele mandou seus anjos para as filhas dos homens, para que eles tomassem algumas delas para si mesmos e gerassem filhos para diversão própria. E primeiramente eles não conseguiram. Quando eles falharam, eles se reuniram novamente e fizeram um plano juntos. Eles criaram um espírito falsificado, que se parece com o Espírito que havia descido, com o intuito de poluir as almas através dele. E os anjos se transformaram de suas aparências para a aparência dos cônjuges delas (as filhas dos homens), preenchendo elas com o espírito da escuridão (que eles haviam misturado para si), e com o mal. Eles trouxeram ouro, prata, e um presente, e cobre, e ferro, e metal, e todos os tipos de coisas materiais. E eles conduziram as pessoas que os haviam seguido para grandes aborrecimentos, desencaminhando elas com muitas ilusões. Elas (as pessoas) envelheceram amarguradas, pois elas trabalharam incansavelmente até o fim de suas vidas e não encontraram o repouso. Elas morreram sem ter encontrado a verdade, e sem conhecer o Deus da verdade. E deste modo, a criação inteira foi escravizada para sempre, desde a fundação do mundo até agora. E eles tomaram mulheres, e geraram crianças, através da escuridão, com a aparência do espírito. E eles fecharam seus corações, e eles se endureceram pela rudeza do espírito falsificado, até hoje.

Eu, portanto, a Pronoia perfeita do todo, me transformei na minha semente, pois eu existia antes, caminhando por cada estrada. Porque eu sou a abundância da luz; Eu sou a lembrança do pleroma.

E eu entrei no reino da escuridão e resisti, até que cheguei ao centro da prisão. Os céus do caos estremeceram. E eu me escondi por causa da perversidade deles, e eles não me reconheceram.

Eu voltei novamente uma segunda vez, e prossegui. Eu vim daqueles que pertencem à luz, que sou eu, a lembrança da Pronoia. Eu entrei no meio da escuridão e dentro de Hades, já que eu buscava completar minha tarefa. E os céus do caos estremeceram, para que eles caíssem sobre aqueles que estão no caos e os destruíssem. E novamente eu corri para a minha raiz de luz, para que eles não fossem destruídos antes do tempo.

Ainda por uma terceira vez eu fui – eu sou a luz que existe na luz, eu sou a lembrança da Pronoia – para que eu pudesse entrar no centro da escuridão e no centro de Hades. E eu enchi meu rosto com a luz, contemplando o fim do universo deles. E eu entrei no meio da prisão, que é a prisão do corpo. E eu disse, ‘Aquele que escuta, que se levante do sono profundo.’ E ele chorou e derramou lágrimas. Lágrimas amargas ele derramou e disse, ‘Quem é que chama meu nome, e de onde veio esta esperança até mim, enquanto eu estou nas correntes da prisão?’ E eu disse, ‘Eu sou a pronoia da luz pura; eu sou o raciocínio do Espírito puro, que te elevou para o lugar digno. Se levante, e lembre que foi você quem ouviu. Siga sua raiz, que sou eu, o misericordioso, e se resguarde contra os anjos da pobreza, e os demônios do caos, e todos aqueles que te seduzem. Tenha cuidado com o sono profundo, e com a opressão de dentro de Hades.

Eu o ergui, e o selei com cinco selos na luz da água, para que a morte não tivesse poder sobre ele daqui por diante.

E veja, agora eu devo retornar para o aeon perfeito. Eu completei tudo para você em sua audição. E eu te disse tudo, para que você escreva e dê secretamente para seus espíritos companheiros, pois este é o mistério da raça inalterável.”

E o salvador apresentou estas coisas a ele, para que ele escrevesse e guardasse em segurança. E disse, “Amaldiçoados sejam todos aqueles que trocarão estas coisas por um presente, ou comida, ou bebida, ou roupas, ou qualquer outra coisa do tipo.” E estas são as coisas que ele apresentou a João em um mistério, e imediatamente ele desapareceu. E João foi até seus companheiros discípulos, e relatou a eles o que o salvador havia lhe contado.

Jesus Cristo, Amém.

Apócrifo de acordo com João.

***
Fonte:

Apócrifo de João (versão longa). Biblioteca de Nag Hammadi. Tradução por: http://misteriosantigos.50webs.com. Mistérios Antigos, 2015. <https://web.archive.org/web/20200220170351/http://misteriosantigos.50webs.com/apocrifo-de-joao.html>. Acesso em 16 de março de 2022.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

 

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/apocrifo-de-joao-versao-longa/

RPGQuest – Diário de Produção – 03

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Estes conjuntos de texto têm a finalidade de comentar sobre os elementos do jogo RPGQuest – A Jornada do Herói, um Boardgame (Jogo de Tabuleiro) baseado na Kabbalah. Nos textos anteriores falamos sobre a Construção do Reino onde se passará a Campanha e a respeito das Classes de Personagem, baseadas nos quatro Elementos tradicionais do Hermetismo.

Neste texto, falaremos sobre os GRANDES DESAFIOS.

Criando um Mundo de Desafios!

Na Jornada do Herói, cada jogador começa a Narrativa com um Personagem que, aos poucos, através de missões, desafios e jornadas, encontrará novos companheiros, objetos mágicos, aliados e até mesmo artefatos, tornando-se cada vez mais famoso dentro de Arcádia, até estarem preparados para enfrentar os chamados “Grandes Desafios”.

Quando fazemos o setup (arrumação) do jogo para começar uma nova partida, em primeiro lugar sorteamos todos os Reinos e Territórios, de modo que cada geografia seja única a cada partida. Em seguida, sorteamos onde ficarão os Castelos, Vilas, Mercados e demais pontos de interesse, para personalizar aquele mundo de Campanha.

O terceiro passo no Setup do Jogo é sortear os Grandes Desafios, que são os Monstros mais perigosos de todos os Reinos. Os Jogadores sorteiam três Desafios entre os Grandes Monstros disponíveis (lembrando que este é o setup original, mas que pode ser modificado para tornar o jogo mais fácil ou mais difícil conforme os Jogadores desejarem).

Cada tipo de Grande Monstro possui poderes únicos (representados por Valores dentro dos Quatro Elementos). No RPGQuest existem vários tipos de Monstros e combinações entre seus poderes e isso também definirá algumas das estratégias para cada partida.

Neste exemplo, todos os Grandes Desafios dos Reinos precisam de Magia (Fogo) para serem derrotados. A Classe de Guerreiro (Terra) também aparece em 2 dos 3 Desafios. Magos e outros heróis que lidam com Magia Arcana serão mais valorizados nesta partida específica. A cada partida, serão sorteados novos Monstros, com habilidades e poderes diferentes.

Em outros setups, Ladinos, Clérigos ou Guerreiros podem ser mais importantes… Dragões, Observadores, Mortos-Vivos, Necromantes, Generais Goblinóides, Fantasmas, Demônios e Construtos são apenas alguns exemplos do tipo de Grandes Monstros que podem surgir. Isso garante que a cada partida os Jogadores precisem repensar suas estratégias de jogo, pois cada tipo de Desafio requer uma estratégia de combate diferente para derrotá-lo, tornando RPGQuest sempre divertido e desafiador! Cada um dos Desafios possui poderes únicos e regras específicas que dificultarão a vida dos Heróis de alguma maneira diferente…

Uma vez que os três Grandes Desafios tenham sido revelados, a partida de RPGQuest começa…

Metas e Mais Monstros

Uma das razões pelas quais escolhemos fazer este Projeto em Financiamento Coletivo é que poderemos ter muitos Monstros novos como metas a serem batidas, escolhidos pelos próprios apoiadores do Projeto. Dragões específicos, Seres Extraplanares, Daemogorgon e quem sabe até o Grande Chtulhu?

No próximo post falaremos mais sobre as Regras do Jogo.

#boardgames #Kabbalah #RPG

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/rpgquest-di%C3%A1rio-de-produ%C3%A7%C3%A3o-03

Amon

O sétimo espírito é Amon. É um Marques de grande potência. Aparece como de um lobo com a cauda de uma serpente, vomitando flamas de fogo; mas no comando do mágico toma na forma de um homem com traços caninos e cabeça de um corvo; e também como um homem com uma cabeça de corvo ou coruja. Ele mostrará todas as coisas passadas e futuras. Ele reconcilia amizades entre amigos. Ele governa 40 legiões de espíritos. Seu selo é este que deve ser preparado como acima dito.

[…] Amon […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/amon/

As Estâncias de Dzyan

ESTÂNCIA I

1. O Eterno Pai, envolto em suas Sempre Invisíveis Vestes, havia adormecido uma vez mais durante Sete Eternidades.

2. O Tempo não existia, porque dormia no Seio Infinito da Duração.

3. A Mente Universal não existia, porque não havia Ah-hi para contê-la.

4. Os Sete Caminhos da Felicidade não existiam. As Grandes Causas da Desgraça não existiam, porque não havia ninguém que as produzisse e fosse por elas aprisionado.

5. Só as trevas enchiam o Todo Sem Limites. porque Pai. Mãe e Filho eram novamente Um, e o Filho ainda não havia despertado para a Nova Roda e a Peregrinação por ela.

6 . Os Sete Senhores Sublimes e as Sete Verdades haviam cessado de ser; e o Universo, filho da Necessidade, estava mergulhado em Paranishpanna, para ser expirado por aquele que é e todavia não é. Nada existia.

7. As Causas da Existência haviam sido eliminadas; o Visível, que foi, e o Invisível, que é, repousavam no Eterno Não-Ser – o Único Ser.

8. A Forma Una de Existência, sem limites, infinita, sem causa, permanecia sozinha, em um Sono sem Sonhos; e a Vida pulsava inconsciente no Espaço Universal, em toda a extensão daquela Onipresença que o Olho Aberto de Dangma percebe.

9. Onde, porém, estava Dangma quando o Alaya do Universo se encontrava em Paramârtha, e a Grande Roda era Anupâdaka?

ESTÂNCIA II

1. …Onde estavam os Construtores, os Filhos Resplandecentes da Aurora do Manvantara? …Nas Trevas Desconhecidas, em seu Ah-hi Paranishpanna. Os Produtores da Forma, tirada da Não-Forma, que é a Raiz do Mundo, Devamâtri e Svabhâvat, repousavam na felicidade do Não-Ser.

2. …Onde estava o Silêncio? Onde os ouvidos para percebê-lo? Não; não havia Silêncio nem Som: nada, a não ser o Incessante Sopro Eterno, para si mesmo ignoto.

3. A Hora ainda não havia soado; o Raio ainda não havia brilhado dentro do Germe; a Matripâdma ainda não entumecera.

4. Seu Coração ainda não se abrira para deixar penetrar o Raio Único e fazê-lo cair em seguida, como Três em Quatro, no Regaço de Mâyâ.

5. Os Sete não haviam ainda nascido do Tecido de Luz. O Pai-Mãe, Svabhâvat, era só Trevas; e Svabhâvat jazia nas Trevas.

6. Estes Dois são o Germe, e o Germe é Uno. O Universo ainda estava oculto no Pensamento Divino e no Divino Seio.

ESTÂNCIA III

1. …A última Vibração da Sétima Eternidade palpita através do Infinito. A Mãe entumece e se expande de dentro para fora, como o Botão de Lótus.

2. A Vibração se propaga, e suas velozes Asas tocam o Universo inteiro e o Germe que mora nas Trevas; as Trevas que sopram sobre as adormecidas Águas da Vida.

3. As Trevas irradiam a Luz, e a Luz emite um Raio solitário sobre as Águas e dentro das Entranhas da Mãe. O Raio atravessa o Ovo Virgem; faz o Ovo Eterno estremecer, e desprende o Germe não Eterno, que se condensa no Ovo do Mundo.

4. Os Três caem nos Quatro. A Essência Radiante passa a ser Sete interiormente e Sete exteriormente. O Ovo Luminoso, que é Três em si mesmo, coagula-se e espalha os seus Coágulos brancos como o leite por toda a extensão das Profundezas da Mãe: a Raiz que cresce nos Abismos do Oceano da Vida.

5. A Raiz permanece, a Luz permanece, os Coágulos permanecem; e, não obstante, Oeaohoo é Uno.

6. A Raiz ela Vida estava em cada Gota do Oceano da Imortalidade, e o Oceano era Luz Radiante, que era Fogo, Calor e Movimento. As Trevas se desvaneceram, e não existiram mais: sumiram-se em sua própria Essência, o Corpo de Fogo e Água, do Pai e da Mãe.

7. Vê, ó Lanu! o Radiante Filho dos Dois, a Glória refulgente e sem par: o Espaço Luminoso, Filho do Negro Espaço, que surge das Profundezas das Grandes Águas Sombrias. É Oeaohoo, o mais Jovem, o ***. Ele brilha como o Sol. Ê o Resplandecente Dragão Divino da Sabedoria. O Eka [1] é Chatur, e Chatur toma para si Tri, e a união produz Sapta, no qual estão os Sete, que se tornam o Tridasha, os Exércitos e as Multidões. Contempla-o levantando o Véu e desdobrando-o de Oriente a Ocidente. Ele oculta o Acima, e deixa ver o Abaixo como a Grande Ilusão. Assinala os lugares para os Resplandecentes, e converte o Acima num Oceano de Fogo sem praias, e o Uno Manifestado nas Grandes Águas.

8. Onde estava o Germe, onde então se encontravam as Trevas? Onde está o Espírito da Chama que arde em tua Lâmpada, ó Lanu ? O Germe é Aquilo, e Aquilo é a Luz, O Alvo e Refulgente Filho do Pai Obscuro e Oculto.

9. A Luz é a Chama Fria, e a Chama é o Fogo, e o Fogo produz o Calor, que dá a Água – a Água da Vida na Grande Mãe.

10. O Pai-Mãe urde uma Tela, cujo extremo superior está unido ao Espírito, Luz da Obscuridade Única, e o inferior à Matéria, sua Sombra. A Tela é o Universo, tecido com as Duas Substâncias combinadas em Uma, que é Svabhâvat.

11. A Tela se distende quando o Sopro do Fogo a envolve; e se contrai quando tocada pelo Sopro da Mãe. Então os Filhos se separam, dispersando-se, para voltar ao Seio de sua Mãe no fim do Grande Dia, tornando-se de novo uno com ela. Quando esfria, a Tela fica radiante. Seus Filhos se dilatam e se retraem dentro de Si mesmos e em seus Corações; elas abrangem o Infinito.

12. Então Svabhâvat envia Fohat para endurecer os Átomos. Cada qual é uma parte da Tela. Refletindo o “Senhor Existente por Si Mesmo” como um Espelho, cada um vem a ser, por sua vez, um Mundo.

ESTÂNCIA IV

1. …Escutai, ó Filhos da Terra. Escutai os vossos Instrutores, os Filhos do Fogo. Sabei: não há nem primeiro nem último; porque tudo é Um Número que procede do Não-Número.

2. Aprendei o que nós, que descendemos dos Sete Primeiros, nós, que nascemos da Chama Primitiva, temos aprendido de nossos Pais…

3. Do Resplendor da Luz – o Raio das Trevas Eternas – surgem no Espaço as Energias despertadas de novo; o Um do Ovo, o Seis e o Cinco. Depois o Três, o Um, o Quatro, o Um, o Cinco, o duplo Sete, a Soma Total. E estas são as Essências, as Chamas, os Construtores, os Números, os Arupa, os Rupa e a Força ou o Homem Divino, a Soma Total. E do Homem Divino, a Soma Total. E do Homem Divino emanaram as Formas, as Centelhas, os Animais Sagrados e os Mensageiros dos Sagrados Pais dentro do Santo Quatro.

4. Este foi o Exército da Voz, a Divina Mãe dos Sete. As Centelhas dos Sete são os súditos e os servidores do Primeiro, do Segundo, do Terceiro, do Quarto, do Quinto, do Sexto e do Sétimo dos Sete. Estas Centelhas são chamadas Esferas, Triângulos, Cubos, Linhas e Modeladores; por- que deste modo se conserva o Eterno Nidâna – o Oi-Ha-Hou.

5. O Oi-Ha-Hou – as Trevas, o Sem Limites, ou o Não-Número, Adi-Nidâna, Svabhâvat, o O:

I. O Adi-Sanat, o Número; porque ele é Um.

II. A Voz da Palavra, Svabhâvat, os Números; porque ele é Um e Nove.

III. O “Quadrado sem Forma”.

E estes Três, encerrados no O, são o Quatro Sagrado; e os Dez são o Universo Anlpa. Depois vêm os Filhos, os Sete Combatentes, o Um, o Oitavo excluído, e seu Sopro, que é o Artífice da Luz.

6. . . . Em seguida, os Segundos Sete, que são os Lipika, produzidos pelos Três. O Filho excluído é Um. Os “Filhos-Sóis” são inumeráveis.

ESTÂNCIA V

1. Os Sete Primordiais, os Sete Primeiros Sopros do Dragão de Sabedoria, produzem por sua vez o Torvelinho de Fogo com os seus Sagrados Sopros de Circulação giratória.

2. Dele fazem o Mensageiro de sua Vontade. O Dzyu converte-se em Fohat; o Filho veloz dos Filhos Divinos, cujos Filhos são os Lipika, leva mensagens circulares. Fohat é o Corcel, e o Pensamento, o Cavaleiro. Ele passa como um raio através de nuvens de fogo; dá Três, Cinco e Sete Passos através das Sete Regiões Superiores e das Sete Inferiores. Ergue a sua Voz para chamar as Centelhas inumeráveis e as reúne.

3. Ele é o seu condutor, o espírito que as guia. Ao iniciar a sua obra, separa as Centelhas do Reino Inferior, que se agitam e vibram de alegria em suas radiantes moradas, e com elas forma os Germes das Rodas. Colocando-as nas Seis Direções do Espaço, deixa uma no Centro: a Roda Central.

4. Fohat traça linhas espirais para unir a Sexta à Sétima – a Coroa. Um Exército dos Filhos da Luz situa-se em cada um dos ângulos; os Lipika ficam na Roda Central. Dizem eles: “Isto é bom.” O primeiro Mundo Divino está pronto; o Primeiro, o Segundo. Então o “Divino Arupa” se reflete no Chhâyâ Loka, a Primeira Veste de Anupâdaka.

5. Fohat dá cinco passos, e constrói uma roda alada em cada um dos ângulos do quadrado para os Quatro Santos… e seus Exércitos.

6. Os Lipika circunscrevem o Triângulo, o Primeiro Um, o Cubo, o Segundo Um e o Pentágono dentro do Ovo. É o Anel chamado “Não Passarás”, para os que descem e sobem; para os que, durante o Kalpa, estão marchando para o Grande Dia “Sê Conosco”… Assim foram formados os Arupa e os Rupa: da Luz Única, Sete Luzes; de cada uma das Sete, sete vezes Sete Luzes. As Rodas velam pelo Anel. . .

ESTANCIA VI

1. Pelo poder da Mãe de Misericórdia e Conhecimento, Kwan-Yin a Trina de Kwan-Shai-Yin, que mora em Kwan-Yin-Tien – Fohat, o Sopro de sua Progênie, o Filho dos Filhos, tendo feito sair das profundezas do Abismo inferior a Forma Ilusória de Sien-Tchan e os Sete Elementos.

2. O Veloz e Radiante Um produz os Sete Centros Laya, contra os quais ninguém prevalecerá até o Grande Dia “Sê Conosco”; e assenta o Universo sobre estes Eternos Fundamentos, rodeando Sien-Tchan com os Germes Elementais.

3. Dos Sete – primeiro Um manifestado, Seis ocultos, Dois manifestados, Cinco ocultos; Três manifestados, Quatro ocultos; Quatro produzidos, Três ocultos; Quatro e Um Tsan revelados, Dois e Meio ocultos; Seis para serem manifestados, Um deixado à parte. Por último, Sete Pequenas Rodas girando; uma dando nascimento à outra.

4. Ele as constrói à semelhança das Rodas mais antigas, colocando-os nos Centros Imperecíveis. Como as constrói Fohat? Ele junta a Poeira de Fogo. Forma Esferas de Fogo, corre através delas e em seu derredor, insuflando-lhes a vida; e em seguida as põe em movimento; umas nesta direção, outras naquela. Elas estão frias, ele as aquece. Estão secas, ele as umedece. Brilham, ele as ventila e refresca. Assim procede Fohat, de um a outro Crepúsculo, durante Sete Eternidades.

5. Na Quarta, os Filhos recebem ordem de criar suas Imagens. Um Terço recusa-se Dois Terços obedecem. A Maldição é proferida. Nascerão na Quarta; sofrerão e causarão sofrimento. É a Primeira Guerra.

6. As Rodas mais antigas giravam para baixo e para cima … Os frutos da Mãe enchiam o Todo. Houve combates renhidos entre os Criadores e os Destruidores, e Combates renhidos pelo Espaço; aparecendo e reaparecendo a Semente continuamente.

7. Faze os teus cálculos, ó Lanu, se queres saber a idade exata da Pequena Roda. Seu Quarto Raio “é” nossa Mãe. Alcança o Quarto Fruto da Quarta Senda do Conhecimento que conduz ao Nirvana, e tu compreenderás, porque verás…

ESTÂNCIA VII

1. Observa o começo da Vida informe senciente.

Primeiro, o Divino, o Um que procede do Espírito-Mãe; depois, o Espiritual; os Três provindos do Um, os Quatro do Um, e os Cinco de que procedem os Três, os Cinco e os Sete. São os Triplos e os Quádruplos em sentido descendente; os Filhos nascidos da Mente do Primeiro Senhor, os Sete Radiantes. São eles o mesmo que tu, eu, ele, ó Lanu, os que velam sobre ti e tua mãe, Bhumi.

2. O Raio Único multiplica os Raios menores. A Vida precede a Forma, e a Vida sobrevive ao último átomo. Através dos Raios inumeráveis, o Raio da Vida, o Um, semelhante ao Fio que passa através de muitas contas.

3. Quando o Um se converte em Dois, aparece o Triplo, e os Três são Um; é o nosso Fio, ó Lanu! o Coração do Homem-Planta, chamado Saptaparma.

4. É a Raiz que jamais perece; a Chama de Três Línguas e Quatro Mechas. As Mechas são as Centelhas que partem da Chama de Três Línguas projetada pelos Sete – dos quais é a Chama – Raios de Luz e Centelhas de uma Lua que se reflete nas Ondas moventes de todos os Rios da Terra.

5. A Centelha pende da Chama pelo mais tênue fio de Fohat. Ela viaja através dos Sete Mundos de Mâyâ. Detém-se no Primeiro, e é um Metal e uma Pedra; passa ao Segundo, e eis uma Planta; a Planta gira através de sete mutações, e vem a ser um Animal Sagrado. Dos atributos combinados de todos esses, forma-se Manu, o Pensador. Quem o forma? As Sete Vidas e a Vida Una. Quem o completa? O Quíntuplo Lha. E quem aperfeiçoa o último Corpo? O Peixe, o Pecado e Soma…

6. Desde o Primeiro Nascido, o Fio que une o Vigilante Silencioso à sua Sombra torna-se mais e mais forte e radiante a cada Mutação. A Luz do Sol da manhã se transformou no esplendor do meio-dia…

7. “Eis a tua Roda atual” – diz a Chama à Centelha. “Tu és eu mesma, minha imagem e minha sombra. Eu revesti-me de ti, e tu és o Meu Vâham até o dia ‘Sê Conosco’, quando voltarás a ser eu mesma, e os outros tu mesma e eu.” Então os Construtores, metidos em sua primeira Vestimenta, descem à radiante Terra, e reinam sobre os homens – que são eles mesmos…

***

Fonte:

https://www.sacred-texts.com/atl/dzyan/dzyan.htm

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/as-estancias-de-dzyan/

Dark Side Of The Moon, Pink Floyd

Ser um satanista não é necessariamente ser afiliado a algum grupo satânico, conhecer outros satanistas, praticar rituais, cerimônias complicadas, cultuar mitos ou adorar demônios. O satanista não adora nada nem ninguém. Ele demonstra respeito por quem conquistar o seu respeito, e isso soa cada dia mais difícil. Mas o que isso têm a ver com o Pink Floyd e Dark Side Of The Moon?

Imagine-se vivendo numa época em que todos ao seu redor dizem que você é um lixo, arrogante, presunçoso, elitista, esnobe e por aí vai… Que o legal é não tomar banho; legal é ser sujo e transar com garotas/garotos hemofílica(o)s.

O Pink Floyd viveu isso ! E deu um dedo do meio de cada um de seus integrantes para o movimento punk, gravando The Wall e enchendo ainda mais os seus cofrinhos.

Mas aí a banda já tinha gravado Dark Side Of the Moon: uma sarcástica visão sobre quem fomos, o que somos e o que queremos ser. O disco fala de vitoriosos e de derrotados. De saudades de Syd Barret e do conforto que as drogas às vezes trazem.

A canção Time representa isso melhor do que qualquer outra do disco, embora fazer uma analogia entre o lado escuro da lua e depois comprovar que na verdade, tudo é ou está em eterna escuridão, soa bem satânico. Filosófico. Mas Satânico ainda assim.

Time, Pink Floyd

 

Ticking away the moments that make up a dull day
You fritter and waste the hours in an offhand way.
Kicking around on a piece of ground in your home town
Waiting for someone or something to show you the way.

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain.
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.

So you run and you run to catch up with the sun, but it’s sinking
And Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way, but you’re older
Shorter of breath and one day closer to death.

Every year is getting shorter, never seem to find the time.
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines
Hanging on in quiet desparation is the English way
The time is gone the song is over, thought I’d something more to say

Home, home again
I like to be here when I can
When I come home cold and tired,
It’s good to warm my bones beside the fire
Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spells.

Tradução de Time
(Tempo)

As horas passam marcando os momentos
Que se vão, que formam um dia monótono
Você desperdiça e perde as horas
De uma maneira descontrolada
Perambulando num pedaço de terra
Na sua cidade natal
Esperando alguém ou algo
Que venha mostrar-lhe o caminho

Cansado de deitar-se na luz do sol
De ficar em casa observando a chuva
Você é jovem e a vida é longa
Há tempo de matar o hoje
E depois, um dia você descobrirá
Que dez anos ficaram para trás
Ninguém te disse quando correr
Você perdeu o tiro de partida

E você corre e corre para alcançar o sol
Mas ele está indo embora no horizonte
E girando ao redor da Terra para se levantar
Atrás de você outra vez
O sol permanece, relativamente, o mesmo
Mas você está mais velho
Com o fôlego mais curto
E a cada dia mais próximo da morte

Cada ano está ficando mais curto
Nunca você parece ter tempo.
Planos que tampouco deram em nada
Ou em meia página de linhas rabiscadas
Insistindo num desespero quieto
É a maneira inglesa
O tempo se foi, a canção terminou
Pensei que tivesse algo mais a dizer

Meu lar, meu lar de novo, eu gosto de estar aqui quando posso
Quando eu chego em casa com frio e cansado,
É bom esquentar meus ossos do lado do fogo
Muito longe atravessando o campo o badalar do sino de ferro
Chamam os fiéis para os seus pés
Para escutar as macias palavras magicas faladas.

Nº 48 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes da história

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/dark-side-of-the-moon-pink-floyd/

A Pedra Filosofal

Na Alquimia, as misteriosas substâncias que permitem a transmutação de metais básicos em ouro ou prata. Diz-se que a Pedra Filosofal acelera um processo natural de evolução em que minerais e metais básicos evoluíram para estados mais elevados e puros.

A pedra foi mencionada pela primeira vez por Zósimos (c. 250-300), que a descreveu como “uma pedra que não é uma pedra”. Nunca foi descrita diretamente e teve centenas de nomes (veja abaixo) e várias descrições, como o elixir, a tintura, cristais, pó, lápis-lazúli e assim por diante. É tanto o começo, a Prima Matéria, quanto o fim da Grande Obra.

Numerosas receitas e fórmulas foram apresentadas na literatura alquímica para preparar a pedra, algumas delas expressas em simbolismo pesado. Uma das receitas mais famosas é atribuída a Maria, a Profetisa, considerada uma das primeiras adeptas alquímicas do Egito helenístico. Suas instruções são:

“Inverta a natureza e você encontrará o que procura. Existem duas combinações: uma diz respeito à ação de clarear, a outra à de amarelecimento; uma é feita por trituração [redução a pó por moagem], a outra por calcinação [redução a um estado friável]. Pulveriza-se santamente, com simplicidade, só na santa casa; ocorre a dissolução e a deposição. Combine junto. . . o macho e a fêmea, e você encontrará o que procura. Não fique ansioso para saber se o trabalho está pegando fogo. As duas combinações têm muitos nomes, como água salgada, água divina incorruptível, água de vinagre, água do ácido do sal marinho, do óleo de rícino, do rabanete e do bálsamo. Chama-se também água do leite de uma mulher que deu à luz um filho varão, água do leite de uma vaca preta, água da urina de uma vaca ou de uma ovelha, ou de um jumento macho, água de cal viva , de mármore, de tártaro, de sandarac [realgar, sulfeto de arsênico], de alume schitose, de nitro, de leite de jumenta, de cabra, de cinzas de cal, água de cinzas, de mel e oxímel [mel e vinagre misturados], das flores do arctium, da safira, etc. Os vasos ou instrumentos destinados a essas combinações devem ser de vidro. Deve-se estar atento ao mexer a mistura com as mãos, pois o mercúrio é mortal, assim como o ouro que se encontra ali se corrompe.”

À Pedra Filosofal são atribuídos grandes poderes além da transmutação de metais; diz-se ser o “remédio universal” que pode melhorar a saúde e prolongar a vida, permitindo inclusive que alguns adeptos alcancem a imortalidade.

A pedra é frequentemente retratada na arte alquímica como o Hermafrodita, o produto do casamento dos opostos, representado pelo rei e pela rainha. Uma descrição florida da pedra é dada por Heinrich Khunrath em Amphiteahreum sapientias aeternae (“O Anfiteatro da Sabedoria Eterna”), publicado em 1602:

“Tu verás a Pedra dos Filósofos (nosso Rei) sair do quarto de dormir., de seu Sepulcro Vítreo, em seu corpo glorificado, como um Senhor dos Senhores, de seu trono para o Teatro do Mundo. Ou seja, arregimentada e mais perfeita, um carbúnculo brilhante, esplendor mais temperado, cujas partes mais sutis e depuradas se unem inseparavelmente numa só, com uma mistura concordial, sobremaneira igual; transparente como cristal, compacta e muito pesada, facilmente fusível ao fogo, como resina ou cera antes do voo do mercúrio, mas fluindo sem fumaça; entrando em corpos sólidos e penetrando-os como óleo através de papel, solúvel em todo licor e comissível com ele; friável como vidro em pó de açafrão, mas em toda a massa brilhando vermelha como um rubi (cujo vermelho é sinal de uma fixação perfeita e perfeição fixa); permanentemente colorindo e tingindo, fixado em todas as provações, sim no exame do próprio enxofre ardente e das águas devoradoras e na perseguição mais veemente do fogo, sempre incombustível e permanente como a Salamandra.”

A partir do século 13, a pedra possuía um significado espiritual; somente um alquimista que observasse um estilo de vida estrito de devoção e purificação poderia alcançá-la. Basílio Valentim, que chamou a pedra de Tudo em Todos, observou em A Grande Pedra dos Filósofos:

“Deixe-me dizer-lhe, então, que embora muitos estejam empenhados na busca desta Pedra, ela é encontrada por muito poucos. Pois Deus nunca pretendeu que isso se tornasse geralmente conhecido. Antes, deve ser considerado como um dom que Ele reserva para aqueles poucos favorecidos, que amam a verdade e odeiam a falsidade, que estudam nossa Arte fervorosamente de dia e de noite, e cujos corações estão postos em Deus com afeição não fingida.”

Adquirir a Pedra Filosofal é adquirir pleno conhecimento de Deus, uma união mística. A transmutação de metais básicos em ouro na fornalha alquímica é comparada à purificação e queima de pecados e imperfeições pelo fogo ardente do amor de Deus.

No Renascimento, a Pedra Filosofal significava a força por trás da evolução da vida e o poder universal de união. Também representava a pureza e santidade do reino mais elevado do pensamento puro e da existência altruísta.

O poder redentor da pedra levou a sua associação com Cristo. Carl G. Jung enfatizou esta associação em seus próprios trabalhos alquímicos. Cristo como a pedra é mencionado já nas obras de Zósimos e é apresentado nas obras de Jacob Boheme, Raimundo Lúlio, Khunrath e outros.

Nomes da Pedra Filosofal:

Os nomes comuns da pedra são Lápis, Elixir, Elixir da Vida e Tintura. Seguem alguns nomes da Pedra Filosofal, reunida por William Gratacolle e publicada em 1652 em Londres:

“Ouro, Sol, Sol, Latão dos Filósofos, o corpo de Magnésia, um corpo puro, limpo, fermento de Elixir, Masculino, Argent vive fixt, Enxofre incombustível, Enxofre vermelho, fixo, a pedra rubibe, kybrik, um homem, vitríolo verde, bronze queimado, terra vermelha: a água que é destilada dessas coisas, é nomeada pelos Filósofos, a cauda do Dragão, um vento puro, ayre, vida, relâmpago, a casa, a luz da tarde, leite da virgem, sal armoniack, sal niter, o vento da barriga, fumaça branca, água vermelha de enxofre, tártaro, açafrão, água, o composto branco, água fedorenta, a imundície do sangue morto, Argent vive, uma cucurbita com seu Alimbeck, o vaso dos Filósofos, um homem alto com um Sallet, a barriga de um homem no meio, mas no final é chamado de fot, ou pés, ou sobre os quais pés, ou terra está calcinada, rosqueada, congelada, destilada ou calada e quieta: a sombra do Sol, um corpo morto, uma coroa superando uma nuvem, a casca do mar, a magnésia , preto, um dragão que come sua cauda, a escória da barriga, terra encontrada no monturo putrefato, ou em esterco de cavalo, ou em fogo suave, Enxofre, Mercúrio, segundo em número, e um em essência, nome, no nome, uma pedra, corpo, espírito e alma; chama-se terra, fogo, ar, todas as coisas, porque contém em si quatro Elementos; é chamado de homem ou animal, que tem alma, vida, corpo e espírito, e ainda alguns Filósofos não pensam que o assunto tenha uma alma.

Mas como é uma pedra, chama-se a água do Enxofre, a Água do mundo, a saliva de Lune, a sombra do Sol, um denne, Sol, Elephas, Jayre branco, olhos de peixes, Beyia, Enxofre, Videira afiada, água, leite, vinho da vida, lágrimas, água da alegria, Urina, luz das luzes, Pai maravilhoso, Pai dos Minerais, árvore frutífera, espírito vivo, servo fugitivo, certore da terra, veneno, videira mais forte, goma branca, água eterna, mulher, feminina, coisa de vil preço, Azot, menstruada, Brasill, na natureza Azot, água, a primeira matéria, o princípio do mundo; e observe isto, que Argent vive, Mercúrio, Azot, a lua cheia, Hipóstase, chumbo branco ou vermelho, todos eles significam apenas uma coisa, nossa pedra, nosso bronze, nossa água, Ferro, Prata, Cal, brancura, Júpiter, Vermelhão branco, após diversos tempos e graus de operação.

E note que a lavagem dos Filósofos é para trazer novamente toda a alma para o seu corpo, portanto você não pode entender assim, a lavagem branca comum é conveniente para ser feita com vinagre, sal e coisas semelhantes. Observe também que quando a escuridão aparece, então isso é chamado de dispensa do homem e da mulher entre eles, e que o corpo recebeu um espírito, que são as lágrimas das virtudes da alma sobre o corpo, e o corpo revive. a ação da alma e do espírito, e é feito uma Águia e o meio das naturezas. E note que terra branca, enxofre branco, fumaça branca, Auripigmentum Magnesia e Ethell significam uma coisa só.

Também a Pedra se chama Caos, um Dragão, uma Serpente, um Sapo, o Leão verde, a quintessência, nossa pedra Lunare, Camelo, preto mais vil, mais preto que o preto, Leite virgem, umidade radical, umidade untuosa, licor, seminal, Salarmoniack, nosso Enxofre, Nafta, uma alma, um Basilisco, Adder, Secundine, Bloud, Esperma, Metteline, haire, urina, veneno, água dos sábios, água mineral, Antimônio, menstruação fedorenta, Chumbo de Filósofos, Sal, Mercúrio, nosso ouro, Lune, um pássaro, nosso fantasma, sal pardo, Alomé de Espanha, attrement, orvalho da graça celestial, o espírito fedorento, Bórax, Mercúrio corporal, vinho, água seca, água metelina, um Egge, água velha, permanente, pássaro Hermes, o menor mundo, Campher, água da vida, Auripigmento, um corpo cynaper, e quase com outros nomes infinitos de prazer.”

A carta do Mundo no Tarô representa a culminação da Grande Obra na Pedra Filosofal. A Anima Mundi, segurando o caduceu de Hermes, o Mago, e a rosa da quintessência, é envolta por um ouroboros e emoldurada pelos quatro elementos.

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Fonte:

“Philosopher’s Stone”

The Encyclopedia of Magic and Alchemy, by Rosemary Ellen Guiley

Copyright © 2006 by Visionary Living, Inc.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-pedra-filosofal-2/

Caçadores de Vampiros

Não há ainda muito tempo que existiam os «caçadores de prêmios» para os quais o vampiro era uma presa natural. Entre as duas guerras mundiais, na aldeia de Pirenil, Podrina, o mágico muçulmano que aí vivia, recebeu mil dinares para destruir um vampiro. Do mesmo modo que em todos os lugares rurais da Europa, o padre cobrava muitas vezes a proteção religiosa que encarnava. Em nome de Cristo muitos erros se cometeram, e a caça ao vampiro degenerou muitas vezes em autênticos massacres de inocentes: «Em 1837, na aldeia de Derknoi, na Rússia, um estrangeiro acabado de chegar tornou-se suspeito para os camponeses e, tomando-o por vampiro, torturaram-no queimando-o em seguida. As pessoas desta região pensavam que apenas de noite estes monstros apareceriam», escreve Tony Faivre.

As mais estranhas crenças nasceram deste medo ao «morto vivo». Assim, gentes do povo germânico consideravam que as crianças que tivessem no corpo alguma mancha avermelhada teriam inevitavelmente de ser «vampiros», mas sob uma forma muito peculiar; sem apresentar aspecto tenebroso. Depois da vida terrestre, diz a lenda, virão como borboleta branca que, pousando sobre o peito de quem dorme, daí extrairão o derradeiro fôlego, o que asfixiará a vítima.

Em Vestefália o vampiro raramente toma a forma de um morcego, mas sim de borboleta. Estas materializações surpreendentes nada têm a ver com o vampiro de carne e osso, vestindo os seus próprios fatos impecáveis, freqüentando os meios mundanos de todas as épocas.

Para as tradições esotéricas, não restam dúvidas: só o duplo, o «corpo astral» do morto tem o poder de agir para além da morte. O corpo não sai nunca do túmulo. E sim a energia do defunto que, por razões desconhecidas, se manifesta ainda depois da extinção das funções vitais.

Destruir esse duplo: tal seria o alvo a atingir pela estaca aguçada que entra pelo peito do vampiro.

Os padres ortodoxos respondiam quase sempre da mesma maneira às superstições. «Que se deite água benta sobre os túmulos, que se abram as sepulturas e se queimem os cadáveres, para que o medo se afaste de toda a aldeia.»

Na Bulgária, era uso o padre erguer a imagem de um santo cristão por cima do defunto, e, pegando nu ma garrafa com sangue, obrigava o vampiro a entrar dentro dela. Depois atirava a garrafa ao fogo.

Na Sérvia, o sacerdote dirigia-se ao cemitério acompanhado pelos camponeses apavorados, tirava o caixão do túmulo, deitava palha por cima, atravessava o corpo do defunto com uma estaca de espinheiro e queimava-o. Em seguida, dizia: «O demônio não virá atormentar mais ninguém.»

A meio do século XVIII, o medo instalou-se um pouco por toda a Europa. Tudo é possível acontecer, desde suspeitar-se das sepulturas, não vão elas servir pa- ra dissimular presenças diabólicas do além túmulo…

Em cada país o clero arranja uma estratégia para combater esses seres da noite e para fazer face aos mortos-vivos, que parece começam a invadir a Europa Central.

«Os sacerdotes», escreve J. L. Degaudenzi, «celebram missa durante os nove dias que se seguem à inumação».

Ao décimo dia, se a epidemia continua desenterra-se o corpo, transporta-se à capela, arranca-se-lhe o coração por entres nuvens de incenso. Também as vísceras são queimadas e tudo o que resta do broucolaque[1][5]. Em Milo as coisas não se passavam de maneira muito diferente, a avaliar pelo relato de Ricault, em 1679. Uma pessoa excomungada foi, diz ele, enterrada em local distante da ilha de Milo, onde pouco tempo depois surgiram manifestações espíritas. Tudo se preparava então para abrir o túmulo, desmembrar o corpo, ferve-lo em vinho, quando a família deste, enviando dinheiro ao Patriarca de Constantinopla, pediu que lhe fosse levantado o castigo. No momento do levantamento, perante a perplexidade de quem assistia[2][6], e sete anos após estar enterrado, o corpo desfez-se por completo.

A partir de 1824 o trespassar de cadáveres acabou, embora se mantivesse o enterrar de criminosos e suicidas nas encruzilhadas dos caminhos, para evitar que se tornassem «vampiros» infestando lugares sagrados.

O Código Penal russo previa no seu artigo 1472.º: «Ao suicida não é concedido um enterro religioso.»

Abrir os túmulos e mutilar os cadáveres estava previsto no artigo 234.2 do mesmo Código.

 

Jean Paul Bourre

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/cacadores-de-vampiros/

Milho de Pipoca

A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação por que devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser.
O milho de pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.

O milho de pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer.
Pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa.
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo.

Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira.
São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosas. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo.
O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos.
Dor.

Pode ser o fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder o emprego, ficar pobre.

Pode ser o fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão, sofrimentos, cujas causas ignoramos.

Há sempre o recurso do remédio. Apagar o fogo.

Sem fogo, o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pensa que a sua hora chegou: vai morrer.
Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente.

Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz.

Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: BUM! ? e ela aparece como uma outra coisa completamente diferente que ela mesma nunca havia sonhado.

Bom, mas ainda temos o piruá ? o milho de pipoca que se recusa a estourar.
São aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. A sua presunção e o medo são a dura casca que não estoura. O destino delas é triste. Ficarão duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca e macia.
Não vão dar a alegria para ninguém.

Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada.

Seu destino é o lixo…

Texto de Rubem Alves no livro “O amor que acende a Lua”.

#Alquimia #Umbanda

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/milho-de-pipoca